Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 23/11/91 – Sábado – p. 5 de 5

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 23/11/91 — Sábado

A Revolução tinha preparado toda uma caminhada que tinha corrido com pequenos precauços, mas em linhas gerais, em ordem, exatamente, como ela queria, aquilo ia no trote, ia direito * O Concílio Vaticano II foi uma Revolução eclesiástica que era um versão religiosa de um processo que na sociedade temporal já vinha transcorrendo * A polêmica e tudo quanto era anti-ecumênico, anti-consenso, desaparece da luta a fim de implantar a convergência, a perestroika e daí sair um processo novo que é da 4ª Revolução * Da metamorfose do processo antigo, nós passamos para uma situação de crise na Revolução * As invasões: um modo de impor o miserabilismo não como um programa, mas como um fato consumado * Eles estão numa crise por causa de uma perplexidade originada por nossa presença no tabuleiro

* A Revolução tinha preparado toda uma caminhada que tinha corrido com pequenos precauços, mas em linhas gerais, em ordem, exatamente, como ela queria, aquilo ia no trote, ia direito

Bom, nosso João vai merecidamente dormir.

(Sr. J. Clá: Merecidamente não, imerecidamente.)

Mas hoje estamos com o “quorum” reduzido, não é? Está fora o Paulo Henrique e quem mais?

(Sr. P. Roberto: É só ele.)

Só ele que está fora? Engraçado…

(Sr. Gonzalo: Dos fixos, porque sempre tem um a mais, um visitante.)

É, talvez seja isso. O Marcos não apareceu?

(Cel. Poli: Ele ficou de vir. Eu o deixei no hotel para ele descansar um pouco depois da reunião.)

Ahahahahah! Bom, vamos entrar nos nossos assuntos já.

(Sr. Guerreiro: […] O senhor está muito atento, e o senhor observava muito, está uma fase da vida do senhor em que o senhor está profundamente expectante tanto para as questões externas mais distantes, quanto para as questões internas, a Providência, Nossa Senhora. […] O senhor está diante de uma vasta questão, e que o senhor está profundamente expectante, à espera de que as coisas se delineiem, se definem mais. Isto seria assim, ou como é que nós poderíamos ver a alma do senhor olhando essa conjuntura?)

Meu filho, no xadrez jogado por pessoas com uma competência comum, não por grandes jogadores, os que jogam comumente, caseiramente o xadrez, acontece que muitas vezes a partida de xadrez tem essas alternativas: em certo momentos as partes jogam logo depois ou quase depois da outra ter jogado. Mas às vezes não, a partida toma um tal aspecto que fica encalhado o jogo, e as partes têm que pensar bastante, para desatar o nó em que a partida fica, então a partida corre muito mais devagar.

No período em que vocês e eu nos conhecemos, nesse período todo, a Revolução tinha preparado toda uma caminhada que tinha corrido com pequenos precauços para ela, mas em linhas gerais, em ordem, exatamente, como ela queria; aquilo ia no trote, ia direito. E nós assistimos o desdobrar daquilo, compreendemos o método daquilo, percebíamos para onde é que a coisa corria e tínhamos, ao menos o princípio de cada jogada já mais ou menos estabelecidos. De maneira que vinha a jogada e a gente com facilidade retrucava.

O resultado é que atraia muito menos a atenção nossa, nós não éramos obrigados à uma tal atitude de análise como em outras fases do jogo de xadrez. Mas esse período foi um período muito longo na história de nossas relações. Desde que nós nos conhecemos até, talvez, há uns dois ou três anos atrás. Você quer ver? Resulta que isto é quase toda nossa vida comum, de conjunto, foi envolvida pela processo anterior.

* O Concílio Vaticano II foi uma Revolução eclesiástica que era um versão religiosa de um processo que na sociedade temporal já vinha transcorrendo

Agora, em determinado momento se produziu uma rotação. Essa rotação qual é?

Não foi o Concílio Vaticano II, porque o Concílio Vaticano II foi uma Revolução eclesiástica mas era dentro daquele jogo anterior, do jogo que estava em curso. De maneira que era um versão religiosa de um processo que na sociedade temporal já vinha transcorrendo daquele modo, de maneira que não chamava especialmente atenção.

Mas pelo que eu me lembre, a coisa mais ou menos começou a partir do momento em que o Gorbachev subiu ao poder e ele lançou a seguinte coisa: “vai acabar o estado de “guerra fria” e nós vamos entrar para a convergência. E com isso a luta que de qualquer maneira ainda restava entre a Revolução e a Contra-Revolução, vai ser substituída pelo extermínio da Contra-Revolução e na vitória pacífica e ovante da Revolução”.

(Sr. Guerreiro: Sob a aparência de que era a Contra-Revolução que vencia?)

Sob a aparência de que a Contra-Revolução vencia, que ela dava um passo para frente. Ninguém julgava que o mundo ia voltar para as posições da Contra-Revolução. Mas eles julgavam que ia atenuar um tanto o processo revolucionário.

Então, isso era o resultado de uma coisa nascida ainda do processo anterior, mas que tomava sua plenitude e substituía o resto. O que é que era?

* A polêmica e tudo quanto era anti-ecumênico, anti-consenso, desaparece da luta a fim de implantar a convergência, a perestroika e daí sair um processo novo que é da 4ª Revolução

Tudo quanto era polêmica, tudo quanto era anti-ecumênico, tudo quanto era anti-consenso, desaparecia da luta para entrar como arma de guerra da Revolução por meio de diálogo, o consenso, e ecumenismo, a convergência, etc., etc., para o fim de implantar a perestroika e daí sair um processo novo que é o processo da 4ª Revolução que entra. E que entra fazendo uma Revolução social que dá no socialismo autogestionário e comunitário, de pequenas células comunitárias, etc., etc., como nós prevíamos. Aí, aquela processo anterior, que cahin-caha, ainda era um eco da velha polêmica cessa, e nós passamos da época da dissidência entre duas correntes, para a fusão das duas correntes e para uma outra era na história da Revolução. Então, outro processo de luta, outra coisa, etc., etc.

Agora, esta diferença marcou o fim do processo como nós o conhecemos. O livro “Diálogo” não marcou o fim, previu o fim, mas não se deu naquela ocasião. O “Diálogo” denunciou uma coisa que viria, como “Em Defesa da Ação Católica” denunciou uma coisa que estava para vir, que estava se arquitetando, tramando, urdindo.

Nesse momento, houve uma coisa particular que veio do início desta fase até o momento em que Gorbachev começou a andar com pouco sucesso internamente na Rússia, causando desapontamento nos seus [susteners?] no Ocidente. E que então todo o andamento do processo sofreu dificuldade.

(Sr. Guerreiro: Desse novo processo.)

Desse novo processo.

* Da metamorfose do processo antigo, nós passamos para uma situação de crise na Revolução

Então, nós passamos de um novo processo que era uma metamorfose do processo antigo, mas [que] afinal, não era o antigo, nós passamos para uma situação de crise na Revolução; porque a transição do período de luta, de “guerra fria” para o período de entendimento, não é uma crise da Revolução, é um projeto, eles quiseram, etc. O caso Gorbachev é uma crise na Revolução.

(Sr. P. Roberto: Daí a posição de atenção do senhor?)

É. Evidentemente, eu não posso deixar de ficar muitíssimo atento, mas colado nos acontecimentos e nos últimos pormenores porque, de repente, eu perco o leme, eu não compreendo o que está se passando. Então, a atenção tem que vir até os últimos pormenores, como subir até as linhas gerais. Mas como sempre acontece, o pormenor está muito embricado dentro do caso concreto, e a linha geral é que é verdadeiramente a dicedora — como os senhores dizem no castelhano —, a expressiva, não é? E por isso, minha atenção muito maior nas linhas gerais do que no particular. Também se compreende, é razoável. Aí a minha atenção é muito viva.

Mas no que é que cai a minha atenção? É que como eu percebo que se trata de uma crise na Revolução, coisa verdadeiramente inédita!…

(Sr. Guerreiro: Fantástico!)

Mas é assim, não é? Como se trata de uma crise na Revolução, coisa inédita na história da Revolução… A Revolução pode ter avanços, recuos, algumas coisa, crise não; como se trata da crise, e eu não conheço a verdadeira razão da crise, nós não temos os elementos suficientes para prever o próximo passo dela, e então precisa muita atenção. Porque se eu pudesse prever os vinte próximos passos dela com alguma segurança, eu ficaria menos interrogativo. A coisa corre. Mas não é o que está se passando.

(Sr. Guerreiro: Inclusive a dança antigamente tinha uma certa gramática…)

É isso! É isso.

(Sr. Guerreiro: E curiosamente esse processo novo não tem mais. […] Curiosamente a dança do Mikel Jackson é uma espécie de símbolo vivo de um mundo novo que vem, é como que uma liturgia expressa por um homem super desse mundo.)

Isso, exatamente.

* As invasões: um modo de impor o miserabilismo não como um programa, mas como um fato consumado

(Sr. Gonzalo: […] O senhor dizia que a única instituição que podia levar o mundo ao miserabilismo era a Igreja, mas que para isso Ela tinha que ter a confiança de todos os seus filhos, e que Ela não tinha a confiança dos fiéis para acompanhá-la nesse passo, e que daí o senhor dizia que o problema do Gorbachev, todo o problema da Rússia estava nisso, gira nisso: a Igreja não pode dizer ao Ocidente que o miserabilismo é o caminho. […] Essa luta de 70 anos, Nossa Senhora em determinado momento a premeia; e tem um certo ponto que o senhor não olha, mas que nós temos que olhar. Se eles estão atrapalhados, se o senhor está expectante, quanto estarão eles do outro lado?)

Ah, enormemente!

(Sr. Gonzalo: Se o senhor pudesse tratar um pouco disso, senão nós ficamos achando que o Gorbachev entrou em crise porque… […] Há algo no senhor, na luta do senhor que produz o “crash” do outro lado.)

Meu filho, é preciso fazer aqui uma distinção. Eu falava de uma coisa, e você fala de uma coisa ligeiramente diferente, mas nessas matérias a distinção tem uma importância muito grande. Eu falava da origem dos fatos que se passam atualmente e que estão na epiderme. Esses fatos, os fatos que se percebem agora, e que forma a matéria das reuniões, etc., etc., são esses fatos que não dá para perceber bem que origem epidérmica tem. No fundo, você falava de outra coisa, que é o seguinte problema:

O miserabilismo, quando for implantado, que crises criará em virtude da prevista reação nossa? Portanto, do trincar a unidade da Igreja?

Então, eu estava falando dos fatos que estão se passando, e você está falando de uns fatos previsíveis, que eles prevêem e que estariam produzindo os fatos de agora. É ligeiramente diferente. Mas eu estou de acordo com o que você diz. Quer dizer, dando uma passo mais de aprofundamento no tema, é o que você diz. Quer dizer, o Ocidente não dá sinais de acolher o miserabilismo, eles devem ter feitos várias sondagens e terem encontrado esse resultado. E não tendo encontrado isso, eu tenho a impressão de que eles já tinham engatilhada a idéia das invasões, que era um modo de impor o miserabilismo, não como um programa, mas como uma coisa que aconteceu:

Vocês gostem ou não gostem, a casa de vocês foi assaltada, e agora eu convido vocês a seguirem — eu, Papa, diria — convido a vocês a seguirem um programa em função disso. Se vocês não quiserem, de qualquer maneira o miserabilismo fica”. Esse seria um modo de impor o miserabilismo como um fato consumado.

* Eles estão numa crise por causa de uma perplexidade originada por nossa presença no tabuleiro

Mas, a questão está aqui, é que os espíritos decepcionados e inconformados com o miserabilismo, poderiam ser que não tivessem um movimento organizado contra ele, mas que doutrina haveria de pairar no ar para fazer com que uns e outros convergissem nessa direção e fizessem de fato a fusão? Isto para mim, é o que até certo ponto, superou — eu não gosto muito do verbo, mas aqui se aplica — superou o próprio problema do miserabilismo.

Quer dizer, as invasões têm essa vantagem, e, portanto, a queda do Muro de Berlin, etc., já foi preparada para as invasões. Mas era assim: encontrar uma resistência miserabilista muito menor do que se poderia imaginar, e então invadiam como garantia e estava tudo acabado. Mas uma vez que devem ter percebido que nossa palavra num mundo descontente, teria um eco assustador, que se eles tomassem uma palavra nessa linha, nós denunciaríamos e que isso seria uma coisa terrível; então, por causa disso eles estão numa crise por causa de uma perplexidade. E essa perplexidade é originada por nossa presença no tabuleiro.

Agora, o que de algum modo confirma isso, são os pequenos comentários sobre a crise da Lituânia, aquela coisa toda que eu [dei] alguns, hoje à tarde, que indicam bem que eles sentem que a nossa pressão no caso lituano produziu um efeito danoso para eles. Assim eles sentem o que nossa atitude pode significar de futuro. De maneira que aí está o jogo.

Depois eles também…

(…)

(Sr. Guerreiro: […] Então há uma espécie de tensão RCR no momento muito especial, muito grande…)

Muito!

(Sr. Guerreiro: E que isto coloca os contendores num estado de espírito muito eloqüente, muito pulchrum, porque há uma mobilização em comum de parte a parte. E aí a gente pergunta se, de repente, uma coisa errada que eles não façam, eles não levam um contra-golpe que pode ser mais fatal do que normalmente eles levariam…)

E é por isso que eles também estão medindo muito.

(Sr. Guerreiro: Portanto, é um quadro…)

Pois é meu filho, uma coisa…

(Sr. –: Pode gravar?)

Não, eu não quero que grave.

*_*_*_*_*