Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 16/11/91 – Sábado – p. 3 de 3

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 16/11/91 — Sábado

A capelinha de Amparo é um local abençoado * As graças de certos convívios nos são dadas pela Providência para meditarmos sobre o céu

ou é uma alma do purgatório… Tem que ser uma alma do purgatório, porque uma alma do céu não vai aparecer, eles não têm nada mais que pedir. Só pode ser uma alma do purgatório. Deus tem essas coisas: pega um colombiano e um preto que existiu aqui no tempo do Império, que foi escravo lá, e faz uma ligação. Esse colombiano tem que rezar por esse preto.

* O sinistro bambuzal no Êremo do Amparo

(Sr. Paulo Roberto: Em Amparo havia também uma mulher que gritava, etc., ali nos bambus.)

Agora que você está dizendo, eu estou com uma vaga idéia disso.

(Dr. Edwaldo: Nos bambus se ouvem passos.)

Ouvem-se passos, é? Mas você ouviu mesmo?



(Dr. Edwaldo: Eu não ouvi, mas três pessoas ouviram.)

(Sr. Gonzalo: Aquele bambuzal é meio infestado.)

Eu acho também. Ele tem uma qualquer coisa de sinistro. A gente tem a impressão que se afunda numa coisa que afoga a gente. Eu tinha, quando eu me movimentava livremente, tinha uma certa atração de ir lá, mas é…

(Dr. Edwaldo: Tem até uma imagem de Nossa Senhora lá.)

Eu mandei colocar lá. É uma imagem de Nossa Senhora das Graças, não é?

(Dr. Edwaldo: Nossa Senhora Auxiliadora.)

Sobre uma coluna, então?

[Sim.]

Eu me lembro que mandei pôr lá.

(Sr. Gonzalo: Quando os enjolras chegaram, houve aquela representação, e o demônio aparecia no bambuzal, e o Arcanjo São Miguel falava da Capelinha, que é exatamente um local mais abençoado.)

* A capelinha de Amparo é um local abençoado

É, a capelinha dá a impressão de um local abençoado. Mesmo dentro, e tudo.

(Sr. Paulo Roberto: O Morro Alto também é mais abençoado, mais do que a casa…)

É… A casa eu não acho infestada, mas eu acho uma casa muito pouco simpática. É a caipirice no horror de sua feiúra. Depois, certas coisas. Por exemplo, aquele corredorzinho onde ficam os quartos dos Príncipes, eu acho uma coisa… inqualificável. Uma sala de jantar excessivamente grande para as demais dimensões da casa, mal colocada… Uma coisa mal pensada.

* As graças de certos convívios nos são dadas pela Providência para meditarmos sobre o céu

(Sr. Gonzalo: Quando o senhor vai, entretanto, fica cheio de graças.)

Eu achei que havia muita bênção lá. Dessa vez eu achei muitas graças, tudo muito bom.

(Sr. Gonzalo: Foi muito distensivo, muito repousante.)

Eu achei exatamente muito distensivo. Como seria bom se pudéssemos fazer uns dias assim com os complicados só, hem?

Eu acho o seguinte. É das tais coisas: conversas assim, etc., etc., salvo uma disposição de Nossa Senhora, que pode tudo, num hotel, por exemplo, não sai. Exceto uma vez, não sei qual de vocês estava lá, em Serra Negra…

(Sr. Gonzalo: D. Bertrand, Coronel, Dr. Marcos, Sr. Átila, Sr. João, Sr. Fernando, Sr. Guerreiro Dantas, Sr. Nelson Fragelli e eu.)

É isso. Fomos depois até conversar lá fora.

Agora, sabe que essas impressões assim nos são dadas pela Providência com um intuito: é para nós meditarmos sobre o céu. Porque se a presença de uns para os outros pode ser tão expressiva para todos nós, e matéria de tanta consolação, imaginem o que é que pode ser no céu a presença de Deus. É uma coisa de simplesmente não se ter o que dizer! Você já imaginou aquela efusão constante, solar, do amor de Deus para com cada um? O trato pessoal de Deus com cada um. E suponho eu que cada um tem conhecimento do modo pelo qual Deus está tratando a todos os outros.

Eu diria, seria preciso verificar isso em um teólogo, mas eu diria que aquilo é uma espécie de continuação do Juízo Final. Mas é assim: é o juízo contínuo de Deus louvando so bons. Só tem bons lá. Ainda que sejam os que passaram pelo purgatório, só tem bons lá. Então, Deus louvando continuamente a eles, e eles louvando continuamente a Deus, e amando a Deus e amando-se uns aos outros por esta razão. O que pode ser de absolutamente inebriante!

E isto enquanto ao mesmo tempo a gente está no céu empíreo.

(Sr. Gonzalo: Eu creio que antes de pensarmos no céu empíreo, nós precisaríamos de ter nossas almas mais abertas para as ocasiões de graças, ricas em imponderáveis que Nossa Senhora nos concede através da presença do senhor entre nós. Esse relacionamento com o senhor nos dá um gáudio, que o céu na terra para nós é esse convívio com o senhor. Nossa Senhora quis assim. É um discernimento da presença do senhor, e uma degustação dessa presença, que eu creio que o cultivo e a apetência disso é uma fina ponta de consonância de alma com o senhor.)

Perfeitamente. É.

(Sr. Gonzalo: E o contraste do ambiente que o senhor cria em torno do senhor com o ambiente aí de fora, é uma coisa tremenda. Nós estávamos alojados na cidade, e a diferença que se sentia quando saía do Êremo do Amparo era abismal.)

É uma coisa horrível. Mas isso que você diz, eu todas as vezes que vou a Amparo, ainda que seja para aquela volta de orações e voltar, quando eu trasponho aquele portãozinho com aquelas duas pedras, eu tenho impressão de que entro em outro ambiente. É engraçado, porque é campo, a promiscuidade não podia ser maior, o ar é o mesmo, etc., etc. Pois bem, a gente atravessa lá, a coisa é diferente.

Eu não sei, do tempo em que vocês moravam lá, se chegavam a ter essa impressão, meu filho?

(Sr. Paulo Roberto: Agora é mais pronunciada essa impressão, sobretudo quando está o senhor.)

* O ver é um fator muito favorável para o amar

Agora, o que você disse há pouco, é verdade pelo seguinte. São Paulo tem aquela expressão muito interessante: se nós não amamos ao próximo que vemos, como amaremos a Deus que não vemos? Quer dizer que o ver é tido como um fator muito favorável para o amar, e é a coisa em escala: a gente vê o próximo, e no próximo, se ele é conforme a Deus, a gente vê a Deus. Isso é a orientação da coisa.

(Sr. Gonzalo: A pergunta que tínhamos está mais ou menos relacionada com isso. Nosso Senhor disse: “As minhas ovelhas conhecem a minha voz”, etc. Nós vemos que há analogamente um timbre de voz do senhor, que o senhor diz certas coisas, e nós entendemos o que o senhor quer de nós. Mas em se tornando insensível a esse timbre, a pessoa acaba não discernindo os desígnios do senhor para tal ou tal pessoa, ou para o grupo em geral. Quando a pessoa está sensível, no fundo, esse reflexo do céu acaba sendo um modo de amar.)

É o amor.

(Sr. Gonzalo: Nós gostaríamos de pedir ao senhor aprofundasse o que é essa consonância de alma com o senhor. O “Grand-Retour” no fundo será uma grande injeção de maravilhamento pelo senhor.)

(Dr. Edwaldo: Não sei se é oportuno lembrar aquela frase de Sor Elizabeth de la Trinité, que diz que quem imagina que a união se dá na consolação, está muito enganado, porque a união se dá no sofrimento. Eu acho que a união no sofrimento do senhor ajudaria muito a entrarmos nessa clave que o Sr. Gonzalo dizia. E essa união é muito rejeitada no Grupo.)

Muito, muito rejeitada.

(Sr. Paulo Henrique: Há algum inconveniente em que grave?)

É melhor não gravar.

(…)

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