Conversa de Sábado à Noite (Êremo de São Bento) – 31/8/91 – Sábado – p. 15 de 15

Conversa de Sábado à Noite (Êremo de São Bento) — 31/8/91 — Sábado

O peso da solução da crise contemporânea, de algum modo repousa sobre nós * Idéia a respeito dos Estados Unidos que o Senhor Doutor Plinio formou entre os dez e vinte anos * Nossa sombra é cruciforme. Mas nós não queremos nos resignar com a idéia de que onde vamos levamos a cruz; não queremos ser os portadores da sublimidade

Então, meu Gonzalo, Salve Maria, meu filho!

(Sr. Gonzalo: O senhor pôde descansar um pouco mais?)

Graças a Deus descansei bastante.

Vamos sentar, meus caros.

(Sr. F. Antunez: Sabe que temos um aniversariante hoje)

Quem é?

(Sr. Gonzalo: O grande rei David, dia de domingo o aniversário.)

Ah, é hoje, domingo.

(Sr. Guerreiro: Eu tenho vontade de pedir desculpas ao senhor, porque se pelo menos tivesse sido fiel, para o senhor teria sido uma alegria, mas não sendo é um abacaxi.)

Quantos anos, meu filho?

(Sr. Guerreiro: 46 anos)

Quarenta e seis! Iihh! Compare com 83, que diferença.

(Sr. Guerreiro: Um dia do senhor vale os 46 da gente, incomparavelmente mais.)

Vamos sentar e conversar. Então, que é que está com a palavra?

(Sr. Gonzalo: …)

(…)

são expressões metafóricas e que precisa tomar com a relatividade que tem. Eu tenho a impressão de que alargando o panorama e também correspondendo a reflexões, etc., que eu tenho feito de cá, de lá, etc., o assunto poderia ser visto da seguinte maneira: tenham em vista o assunto da vida mística ordinária dos fiéis, e portanto, graças de caráter místico que os fiéis podem receber e, a este propósito ou aquele propósito, recebem assim, por exemplo, uma consolação quando a pessoa está recebendo a comunhão, ou quando assiste a elevação durante a missa, ou quando está rezando o rosário. Enfim, em qualquer outra ocasião pode ter um momento de consolação sensível que é um exemplo desta vida mística que têm e podem ter.

* Todo o peso da solução da crise contemporânea, de algum modo repousa sobre nós, como não repousa sobre ninguém

Quando nós imaginamos um católico que tem uma vocação muito importante e muito acentuada, não é de espantar que corresponda a isso um certo número de graças ordinárias e de caráter místico neste sentido da palavra, e que se essas graças se fixam na alma e o habitar nelas, ou elas habitarem na gente se tornem uma coisa habitual, comum, corrente, então se pode dizer que se tem um mezzanino, que se tem um monte dos profetas, é alguma coisa do alto do qual se vê também com a vocação, em geral toda a vida, todo o mundo, toda a ordem do universo, etc., etc., de um modo especial. Me parece que isso é o que nós deveríamos aprofundar para nós sermos capazes de enfrentar as dificuldades e os obstáculos realmente muito grande que a vocação pode encontrar.

Para ter isto bem em vista, eu queria acentuar este ponto, porque é um ponto que sem nenhuma megalice e, pelo contrário, cumprindo o nosso dever, é um ponto que nós devemos ter bem em vista, porque circunstâncias atuais tornam isso ainda mais claro do que habitualmente. E é a questão seguinte:

A nossa vocação vai se marcando cada vez mais como a vocação de uma importância que tem poucos exemplos na História. Porque ou nós estamos completamente enganados, ou o peso todo da solução da crise contemporânea, esse peso todo de algum modo repousa sobre nós, e repousa como não repousa sobre ninguém, da seguinte maneira: nos foi dado a graça de vermos a realidade como ninguém a vê e esta graça não nos é dada para uma finalidade apenas contemplativa, mas ela nos é dada juntamente com um impulso para a ação que nos faz sentir que se nós nos detivéssemos apenas na contemplação, essa graça desapareceria de nossas almas, e que, portanto, esta ação que nós desenvolvemos é um fruto dessa graça importantíssima. E que, portanto, a Providência tem sobre essa ação, um desígnio muitíssimo especial, muitíssimo marcante, sejam quais forem, não se trata de aqui mais uma vez retomar todo esse assunto, mas são desígnios muito especiais.

Desígnios que em parte se realizaram mas em parte não se realizaram, e que trazem consigo a promessa de uma realização, porque nós temos o chamado para esta ação, mas com algo que nos diz que não vão ser suscitados outros para, à margem de nós e em substituição a nós, fazerem o que nós deveríamos fazer e não faremos. Não sei se está claro esse ponto?

(Sr. M. Navarro: Não há thau sem essa certeza.)

Exatamente, não há. E, portanto, consecutivamente, em consecutivos aspectos, nós então temos a certeza de que de fato desabrocharemos em fatos, em circunstâncias e em coisas, que vão ser verdadeiramente únicos, e essas coisas únicas por sua vez terão que ter provações e gáudios únicos.

As pessoas que recitam o rosário, não sei se refletem sempre sobre esse ponto: as dores de Nossa Senhora verdadeiramente únicas, mas também os gozos espirituais da alma d’Ela correspondentes ao primeiro terço, e as alegrais, a glória correspondente ao terceiro terço de que tamanho são. Toda a vida de Nosso Senhor é de uma intensidade que é uma coisa extraordinária, e é esta vida intensa que nós seremos levados a viver; naturalmente supondo, portanto, ser um engajamento inteiro de nossas pessoas, quer dizer uma coisa que nos toma e nos leva por inteiro, de um lado.

Agora, de outro lado também, é uma coisa que nos dá uma espécie de discernimento interior de uma porção de coisas que ora com mais clareza, ora com menos clareza — conforme o momento ou as circunstâncias, mas também conforme a pessoa que Nossa Senhora queira guiar com mais luz ou menos luz, são os mistérios dela — aparece aqui, lá e acolá.

* Necessidade de termos uma noção racional e uma uma certa sensação, uma certa intuição interior da importância de nossa vocação

Quer dizer, então acontece o seguinte. Que pode ser que um de nós muito amado de Nossa Senhora, porque todos nós que estamos aqui sem merecermos, somos muito amados d’Ela. Então, todos nós muito amados de Nossa Senhora, Ela destina graças muito sensíveis a um que entretanto não é tão amado, e pelo contrário, destina uma via de secura, de aridez, etc., etc., a um que é mais amado. Essas coisas não podem ser medidas com tabelas, são critérios celestes que vão para além dos cálculos do espírito humano e que portanto, não podem ser comparados assim. Mas cada um a seu modo tem isto. Tem o que então?

Não só uma noção racional da importância de nossa vocação. Eu tenho trabalhado tanto para que tenhamos essa noção racional, que eu posso falar dela de boca cheia, então, nós para termos essa noção racional, mas para termos uma certa sensação, uma certa intuição interior brumosa mais ou menos, confusa mais ou menos, mas que nos acompanha incessantemente, de que no fundo do nosso horizonte alguma coisa está se gerando, alguma coisa está se produzindo, está se encaminhando, de enorme, que sem nenhuma exceção nos absorverá todos nós no mesmo vendaval.

(Sr. Gonzalo: É uma espécie de faísca divina pelo qual a gente percebe isso…)

Exatamente, é uma fagulha, uma faísca divina. A faísca no português é uma coisa muito instável, uma fagulha é mais estável, se eu não estou enganado. Mas eu imagino em todo caso, uma luz estável; e que faz com que se nós tivermos convicção disto, nós teremos convicção mais ou menos profética, mais ou menos intuitiva mas real, certa, segura, do para onde vamos.

A razão pela qual eu deito tanto empenho — ainda hoje à tarde na reunião, deitei — para que se torne muito racional nossa convicção de tudo quanto esperamos e em que cremos, é para dar mais força aos ouvidos que nós entregamos a esta audição interior. De maneira que um indivíduo senão… acaba não sabendo no que crer. Mas se ele tem razões racionais, positivas, que ele pode medir, que ele pode conferir, etc., etc., para esses pressupostos lógicos daquilo que ele sente, ele tem muito mais segurança dizendo: “O que eu sinto é verdade!”

Eu dou tanta importância a esse ponto que eu gostaria que fosse o momento se alguém quisesse fazer uma pergunta qualquer, de perguntar aqui, nesse momento. É uma coisa muito batida entre nós, talvez não haja o que perguntar.

(Cel. Poli: Está colocado com uma força que é quase emocionante.)

Mas então eu pergunto se há alguma coisa a perguntar a esse respeito, porque eu dou muito importância a isso.

(Sr. Paulo Henrique: Essa visão esteve sempre presente no senhor?)

Sempre!

(Sr. Paulo Henrique: Desde…)

Desde que eu me lembro de mim.

(Sr. Paulo Henrique: Tinha essa certeza de que isso o acompanharia até o fim…)

Não, não, isso não, isso eu tive a partir do momento em que eu conheci a Revolução. Antes disso eu era um bom menino…

(Sr. Paulo Henrique: De qualquer modo ela não abandonou o senhor, o senhor não a abandonou e quando o senhor se deparou com a Revolução…)

Definiu-se. É isso.

* “Nossa Senhora, é tão recusada, de tal modo não há quem queira conduzir essa luta para Ela, que ela de “proche en proche” acabou caindo em mim”

Eu me lembro de mim fazendo o raciocínio seguinte: “Mas um tão grande papel…” Mas não era com humildosa, vocês me conhecem, sabem que, graças a Deus, heresia branca eu não tenho, posso ter outros defeitos, esse eu não tenho.

Pensando: “Mas afinal de contas uma pessoa como eu que não sou um santo, não sou nada, como é que poderei exercer essa tarefa?” E depois, olhando em torno de mim e vendo inclusive meninos no colégio São Luis que tinham cara de muito ex-bons, ou de ex-muito bons e que tinham prevaricado no caminho, eu percebia perfeitamente, eu chegar a concluir: “Nossa Senhora, coitada, é tão abandonada, tão recusada, de tal modo não há quem queira conduzir essa luta para Ela, que ela de proche en proche acabou caindo em mim. E eu estou disposto a fazer o que Ela quer, com pena d’Ela, que não foi este, não foi aquele, não foi aquele outro, etc., etc., e acabei sendo eu. Mas…”.

(Sr. Paulo Henrique: Ela sabia muito bem a quem estava escolhendo…)

Olha, pode ter acontecido isso, eu tive colegas que tinham jeito muito bons, alguns eram brilhantes, podiam ter dado muito coisa, podiam ter dado muita coisa.

(Dr. Edwaldo: Isso não aconteceu com o senhor, mas em relação a nós…)

(Sr. Gonzalo: Isso sim, aí sim.)

(…)

(Sr. Guerreiro: Ele era inteligente?)

Muito inteligente, muito inteligente, educado… mas, a ingratidão em relação à Providência levada ao grau do inimaginável. Bom, deu no que deu. Homem! Nem sei, nem vou perder tempo falando dele.

* A certeza na vocação estimula o que há de bom em nós. Se ela fenece, nossos atos de piedade, ou tendem a restaurá-la ou terão pouca significação para a nossa vida espiritual

Mas então, voltando ao caso. Então, um certo apelo interior que nós devemos ver como duplo: de mim para vocês, de vocês para mim.

Quer dizer, postas as coisas como são isto é assim. Que se vocês confiarem em que vivendo esta vida junto comigo, isto dá nisso; se eu confiar que vivendo esta vida com vocês, isto dá nisso, é a condição… então, realmente se realiza uma coisa extraordinária que nos ajuda a compreender mil movimentos de alma que por incúria, por falta de cuidado, etc., etc., aos quais nós não deitamos atenção, e que se a gente tentar fazer uma espécie de inventário desses movimentos de alma, nós nos conhecemos melhor e conheceremos melhor o papel da Providência em nós.

Então, um movimento de alma é este que eu acabo de descrever: essa certeza de participar de uma coisa colossal, imensa, e que nos leva muito para o alto, etc., etc., tem este movimento de almas, se fazem à maneira de uma consolação. Quer dizer, tem as características de uma consolação espiritual. Ele é suave, ele é agradável, ele é atraente, mas ao mesmo tempo ele dá muita força; nós nos sentimos com o peito dilatado e o pescoço em pé quando nós pensamos nisso. E tudo quanto há de bom em nós se estimula e toma calor, toma especial ênfase se nós deitamos a crença nisso.

Se pelo contrário, a crença nisso fenece, toda nossa vida espiritual… podendo nós multiplicar os atos de piedade quanto multiplicarmos, se esses atos de piedade não tenderem à restauração daquilo que nós perdemos, eles têm pouca significação para a nossa vida espiritual.

Eu estou escolhendo minhas palavras de propósito. Não digo que não tem nenhuma, mas que tem pouca significação em função de nossa vida espiritual.

Bem, vamos dizer, por exemplo, ser brancardier em Lourdes. Vocês sabem o papel dos brancardiers em Lourdes. São moços muitas vezes de boas famílias etc, que quando chega a estação do ano em que os doentes mais facilmente viajam e que se fazem levar então até Lourdes, há gente que pega esse pessoal que chega de trem, de ônibus, de avião e de outros modos, e carrega em macas até o hospital, até o hotel, até o lugar dos milagres, etc., etc., enfim para atender a necessidade de deslocamento deles. É uma bonita ação! É edificante ver uma pessoa que faz isso bem, com dedicação, etc., etc. Mas se um de nós fizer isto sem nenhuma relação com nossa vocação, para vivermos a vida de um católico que não tem nossa vocação, e que para como que experimentarmos a vida espiritual de um zé qualquer, nós abafamos em nós a vós dessa graça, e teremos ao mesmo tempo praticado uma má e uma boa ação. Mas, enquanto má é péssima e enquanto boa é boazinha. De maneira que o déficit é um déficit inquestionável.

* Esse movimento interior deve nos levar a perceber nas coisas com que tratamos, qual é a posição delas dentro desta luta, e qual é nossa posição em relação a ela

Esta posição leva-nos também… Essa voz interior, esse movimento interior deve nos levar por uma espécie de afinidade, a uma facilidade muito grande de perceber em nós, em torno de nós, dentro do Grupo, fora do Grupo, nas coisas com que nós tratamos, com que nós vemos, nas pessoas, etc., qual é a posição que elas estão dentro desta luta, e qual é, portanto, nossa posição em relação a ela, e nós só tomarmos essa posição na medida em que nós pudermos julgar completamente como é que essa pessoa se põe.

Vamos dizer, por exemplo, eu mostrei para os rapazes aí no auditório Nossa Senhora Auxiliadora, eu mostrei a fotografia do conde de Saint Simon, desse atual Saint Simont de Paris com que Doutor Caio tem relações que tendem a tornar-se mais seguidas, etc., etc. E eu mostrei com uma evidente simpatia. Essa simpatia é pelo que o Saint Simon tem de escultural. Quer dizer, a máscara mortuária dele seria muito informativa, muito representativa, mas ele por ele não está habitado por esse espírito. Ele me parece um homem amargurado, desiludido da vida, que é como é, porque a História e os séculos o modelaram assim, mas que não prezou de ser assim, que não tem vontade de ser assim, que não deduz daí nenhum dever, a não ser uma vaga estabilidade na posição que ele adota, e que deixou de lado um thau que provavelmente ele tinha.

Então, minha atitude com Saint Simon por mais que ele seja Saint Simon, que ele me lembre a ascendência colateral que ele tem com o famoso duque cujas memórias eu li, e… eu vejo que no momento, ele representa no conjunto de pessoas e de coisas que devem representar a coisa, ele representa um papel quase nulo.

Por que quase nulo? Por que um papel quase nulo? Porque quand même ele existe, quand même ele tem uma certa consciência de ser o conde de Saint Simon e o fato dele se preocupar com genealogias e coisas desse gênero, indicam bem que o espírito dele encontra certo nutrimento e certo gáudio em coisas que a Revolução odeia, e que, portanto, um pouquinho de força ele faz contra a Revolução.

Agora, é evidente que para quem olha para ele — de uma evidência segunda, não primeira — é evidente que ele deveria ter feito muito mais, e que ele faz muito menos e que, portanto, ele como é, é como se um de nós fosse um anãozinho da altura… [inaudível], exatamente com o físico… Então diria: “Esse aqui é Plinio Corrêa de Oliveira?”

É! Ézinho.

Plinio Corrêa de Oliveira não foi feito para ser isso. É um contra-revolucionário? É um anão contra-revolucionário. Um anão pode ser contra-revolucionário, ele tem uma alma, ele pode receber graças, pode ser contra-revolucionário. Ele se fez um anão contra-revolucionário.

* Meu primeiro aperto de mão, a Saint Simon, seria calculado para levantar nele alguma coisa que eu sei que ele tem e ir até onde pudesse ir nesse terreno

Analisada assim, minha atitude perante ele…

Bom, minha atitude social será amável, eu não vou me constituir o flagelo da humanidade! Eu vou tratá-lo muito bem, etc., etc., mas no meu interior, a disposição de ânimo que eu tenho em relação a ele é essa. Com um pouco de esperança que, de repente, um contato com doutor Caio, com os que estão em Paris, etc., ele receba uma graça, que isto ainda lhe seja dada, e que ele cresça. Mas é uma esperança quão relativa, aquilo está colocado na minha cabeça, está fichado assim.

Assim há mil pessoas, mil coisas, mil objetos, essa sala, por exemplo, e daí para fora, que todas ficam classificadas no meu espírito de acordo com uma certa luz — luz toda sobrenatural, toda mental, psicológica, não é uma luz física — de acordo com uma certa luz por onde me é dado discernir o que é que ela representa no papel Revolução e Contra-Revolução, o que ela representou e o que eu posso esperar que ela venha representar.

E isso é a própria trama da vida, porque no trato com as pessoas, embora o trato condicionado pelas regras de educação, etc., em vigor hoje, o trato no fundo visa atuar constantemente para fazer com que os anões fiquem gigantes. Constantemente! De maneira tal que se eu conhecesse o Saint Simon, no meu primeiro aperto de mão, no meu primeiro sorriso para ele seria calculado de maneira a levantar nele alguma coisa que eu sei que tem e ir até onde pudesse ir nesse terreno. Mas isto dá uma idéia grandiosa da bataille melé enorme que se trava pelo mundo a fora, e da qual se pode ter…

Não, meu Gonzalo, eu vou guardar isso.

(Sr. Gonzalo: Não, pelo amor de Deus…)

Não, meu filho, vai cair e você vai ter que apanhar.

(Sr. Gonzalo: Não tem problema.)

(Sr. Guerreiro: O rapaz pediu para o senhor ficar durante toda reunião, não sei se o senhor se lembra?)

Ah, é verdade, meu filho. Mas o que que eu estava dizendo?

Ah, bataille melé! Uma bataille melé colossal dentro da qual a gente saindo aqui, por exemplo, nesse terraço… [terraço da sala do troneto de Nossa Senhora no êremo São Bento] Outro dia eu sai aqui, o dia estava bonito, não tinha essa espécie de poluição que me disseram que tinha hoje, e via-se até longe. Bem a gente vendo a cidade, parece que se evola dela, algo que é o sim e o não, o talvez, a recusa, a aceitação, etc., daquilo tudo como é…

(Sr. Guerreiro: Daquilo tudo?)

É, do conjunto da cidade. E que é como que um clamor em conjunto da cidade, uma aceitação em conjunto da cidade, uma recusa em conjunto, que é uma coisa enorme, e que é como se alguém ouvisse de longe o som de uma batalha medieval com armaduras, espadas, e, portanto, produzindo sons muito violentos, e que a gente poderia de longe, pelos sons, saber a batalha como vai, onde é que anda, etc., etc.

(Sr. Gonzalo: Isso o senhor sente também à distância?)

Não, eu discirno isso a respeito da cidade onde estou, ou eu posso calcular uma cidade onde eu não estou, mas conheço muito porque tenha estado lá várias vezes, como é que aquilo está. Mas assim isto pode ir desde — como chama aquela cidade que existe no caminho do êremo de Amparo? Itatiba? — Morungaba, Itatiba, etc., até Paris, ou até Londres, Nova York, etc., que a gente percebe perfeitamente como é que está, como é que não está, etc., etc.

(Sr. P. Roberto: Percebe as forças que estão se degladiando…)

* Sempre tive uma idéia a respeito dos Estados Unidos

Não é assim, percebo genericamente da posição em que eu deixei para a posição em que razoavelmente estará agora, eu percebo o que andou. Então dá para perceber, por exemplo, coisas curiosas a respeito de países onde a gente nunca esteve.

Eu vou dizer a vocês com toda franqueza, ainda que parecendo um sonho, mas é assim. Você sabem quanto, mas o quanto!, eu sou oposto ao que se chama american way of life, o oposto o quanto se pode ser. Mas antes de haver Grupo em Nova York eu sempre tive esta idéia que eu vou passar a expor agora. E depois digo a vocês de onde é que a idéia era tirada. Eu sempre tive essa idéia:

Eles ali tem umas imensidades que não foram tão penetradas nem tão embebidas da Revolução quanto por exemplo, outros países. Há outros países em que tem muita Revolução mas tem um tanto de tradição; eles têm muito pouco tradição e têm muita Revolução, mas têm zonas da alma que são por assim dizer pagãs para o fenômeno Revolução e Contra-Revolução. Não sentiram, não percebem, não pescam, não vêem, e por causa disso existe neles uma espécie de… eu chamaria quase de inocência pagã, por onde eles não percebem a luta, estão de fora e nem entram em toda depravação, tem restos do que talvez eles tenham herdado da Inglaterra mas jogaram no primeiro rio Saint Laurent, na primeira coisa que encontraram, Rio Hudson; mas o fato é que isto é assim.

E, em conseqüência, deve haver ali muita alma em estado semi-infantil de adulto e que é verdadeiramente difícil trazer para a graça, porque não têm nenhuma necessidade da graça, não sente nenhuma necessidade da graça nem do sobrenatural. Não passam pelos trancos e barrancos das prostituições e das infâmias, mas também não conhecem as altas virtudes, e para os quais o Toussaint era conhecido, admirado, aplaudido, e perfeitamente ininteligido. Considerado um homem muito útil ao bom funcionamento geral das coisas. Então very nice umas coisas dessas, e lá está o homem.

* Eles agora dão a impressão de um país que está nascendo para a História

Agora, eu começo a perceber que este estado de “inocência” — inocência entre aspas, compreendem bem — começa a ser corroído, já há um bom número de anos, um bom número de anos, pela cultura universitária. Que eles mandam desses inocentões às pencas para as universidades, e nessas universidades exigem deles — professores europeus ou asiáticos — exigem dos alunos que estudem como bichos, como não sei o quê, coisas, doutrinas, etc., etc., que eles engolem mais ou menos com um boi engole ervas, ervas doce, e fica mascando aquele negócio. Mas acaba lhe metendo um gosto dentro dos dentes, e dentro da boca, e acaba lhes dando uma certa alma, acaba lhes dando uma certa posição, em função da qual eles acabam, hoje em dia, começando por situar-se diante de fenômenos que eles não conheciam antigamente. E eles dão então a impressão de um país que está nascendo para a História.

E aí, então, os mais preservados dentre eles já emergem desse estado com nostalgia da Idade Média. Donde se trata exatamente para nós, de exercer um apostolado onde pegue esses, porque esses estão em condições apostoláveis que não são fáceis; porque para empurrar um homem destes por inteiro no dever, não é fácil.

Mas eles têm uma coisa, que em alguns deles eu noto que… eu nem sei como descrever bem. É que, por cima de tudo isto, começa a entrar uma certa luz muito menos fascinante que a nossa e que está para nossa como um concerto ouvido muito à distância, que a gente tem que aplicar o ouvido para perceber, isto é o que eles percebem do negócio. Em nós é como quem está na sala do concerto ouvindo a audição em condições normais. Mas alguma coisa desse concerto distante eles começam a perceber, e às vezes com uma intensidade de percepção um tanto confusa mas muito intensa, e isto é um verdadeiro sentido de uma nação que vem nascendo.

Mas tem uma coisa engraçada que similia, similibus curantur — as coisas parecidas curam com as coisas parecidas — e pode-se aplicar, meio de pé torto, nesse negócio. Eles são inocentões mas farejam muito a impureza dos outros e recusam quando sentem. Confiam quando não sentem, e recusam quando sentem. É instintivo mas é assim.

Bem, é um fenômeno muito bonito. São mais úteis para a causa da Contra-Revolução do que os descendentes do sul, do sul secesionista, que têm um pouco mais de tudo isto vivo. Mas por isto mesmo também já fizeram recusas, já fizeram coisas que lhes valem menos… (…)

Henrique de Liechtenstein, príncipe de Liechtenstein, parece que filho — eu não tenho certeza, o Mario poderá confirmar ou não — de uma arquiduquesa austríaca…

(Sr. M. Navarro: Não é não.)

Bom, mas em todo caso, de uma grande casa. Me disseram que eles ficaram — Mario aliás, assistiu, participou das reuniões deles, pode perfeitamente depor nesse sentido — me contaram, não sei se não foi o próprio Mario que me contou, que eles ficaram assim meio maravilhados: “Um príncipe!” Vai pôr aqui… por oportunismo podem olhar um príncipe que se ganhe o plebiscito, porque se não ganhar fica nada, não há a legenda do Príncipe que parece que eles têm.

Bem, eu estou descrevendo uma nação vista à distância. Agora, quando é que foi que eu comecei a desconfiar desses lados bons existentes lá?

* Como nasceu essa idéia sobre a América do Norte, quando eu tinha entre dez e vinte anos

Numa idade que eu não posso definir bem, que iria vagamente nos dez ou vinte anos, não sei bem. É uma coisa incrível mas, mais de uma vez, nos formou assim… [inaudível], mas estando mais de uma vez em trens de boa qualidades que os havia aqui em São Paulo, de muito boa qualidade até, bonitos, etc., por exemplo com os tetos revestido de marqueterie, de madre pérolas, trens de luxo, etc. Olhando aquilo tudo eu dizia: “Nesses trens, apesar de tudo, há uma certa retidão.” No modo de uma locomotiva entrar dentro do parque de manobras da estação, à noite, com aquela “luzona” iluminando tudo, e com aquela regularidade ligeiramente imbecil, tchum, tchum, tchum, um tanto imbecil, mas fazem. E vendo aquilo como estava arranjado eu dizia de mim para comigo: “Esses wagons americanos, ou que tiveram como modelos os vagãos americanos refletem daquela nação uma coisa que o cinema não dá, um lado de alma que o cinema não dá.” Então de raciocínio em raciocínio a construção dessa hipótese sobre a América do Norte.

Isto é para responder a sua pergunta do que é que seria então uma tal visão, ou um tal mezzanino ou um tal monte dos profetas, o que quiser. Imagine uma vida vivida inteiramente assim, e preocupada preponderantemente por isto, empenhada preponderantemente nisto, vocês têm a nossa vida. Eu muito de propósito não digo as nossas vidas, eu poderia dizer, mas eu digo a nossa vida. Porque é por onde a vocação nos deveria levar.

Não sei se essa explicação um pouco prolixa…

(Sr. Gonzalo: …)

Você encontra umas coisas assim em certas cidadinhas do Brasil por mais incrível que seja. Que são cidadinhas paradas no tempo, paradas há muito tempo ou há pouco tempo, mas bastam que tenham parado, que tenham deixado de progredir, que uma coisa, um certo depósito meio inefável começa a se formar nas almas onde a tranqüilidade, a ordem, a calma, a lógica da vida interiorana acaba acumulando algumas coisas, algumas retidões, algumas — engraçado, eu não recuo diante do termo — algumas estagnações também. Mas, que tudo junto, evitam que o que tem de bom naquela cidadinha, esteja constantemente como à margem de um rio, que as águas vão levando tudo quanto se forma de vivo, de razoável, etc. A imagem disso seriam as grandes cidades contemporâneas.

* Como seria a vida numa cidade como Itatiba

Então, por exemplo, em Itatiba, no caminho de Amparo, mostraram-me ali uma casa de esquina — para Itatiba muito boazinha, muito boazinha — e … [vira a fita]

ele confia totalmente na mulher dele, e a mulher lê as escrituras públicas — parece que negocia com imóveis — lê as escrituras públicas que vão ser passadas, o tabelião lê para ele ouvir mas a mulher fica vendo se o tabelião está lendo bem. Não sei como é que o tabelião tomará esta carência de confiança, ultra justificada.

A gente olha a tal mulher — o homem não vê nada daquilo em que ele mora —, mas a tal mulher arranja tudo tão direito, tão normal, tão bem, num modelo que foi moderno há trinta anos atrás. Depois tem ao lado uma outra casa que não é parecida, mas é inteiramente do mesmo gênero, do mesmo nível, etc., e a gente tem a impressão que é algum irmão ou irmã dele ou dela, que mora ali naquela outra casa.

E a gente pode imaginar uma vida de Itatiba, quando chega, por exemplo, um sábado à noite como estamos nós, e vamos dizer que é o gênero — isso certamente em concreto não é assim, mas a gente poderia imaginar que se prestaria a isto —, que esta gente sendo rica, se pagasse o gosto de uma cozinheira de primeira — que também não tem mais em São Paulo, não existe, mas imaginar — e que fosse clássico o peru dos domingos, e que todo o domingo houvesse um peru prodigioso, e quando não houvesse um peru, houvesse um leitão croustillante de primeira ordem, com tutu de feijão sei lá com quê, ou não sei mais o quê não sei o quê.

Os casais se encontram, conversam, almoçam etc., etc., depois vão fazer sesta, à tarde vão assistir a missa — a gente devia supor uma missa constantiniana — depois voltam. Há uma porção de interstícios de tempo nesse sábado e nesse domingo, em que os interstícios não são penosos, porque eles sentem acumular-se o tempo, e este tempo que se acumula na aparência ocioso, é um tesouro, é como a neve em cima do chão, ela vai acabar regando. É assim, e portanto eles vivem tranqüilos.

Quando chega o domingo à noite e vem a segunda, eles não são: “Agora amanhã cedo, tem que sair correndo”, não, não, não tem isso não; segunda vai ser parecido com quinta, vai ser parecida com quarta, com sexta, com terça, os dias são regulares, são normais, não há sustos, não há ansiedades, não há esperanças, há lucros sem êxtases.

Forma uns bezerrões do tipo desse que eu descrevi à pouco.

(Sr G. Larrain: Parece uma forma de governo absolutamente superior. Daí nasce uma forma de governo, que é uma forma completamente superior.)

Se houver almoço de sociedade orgânica segunda-feira, eu exponho a vocês idéias mais recentes, que eu acho que aí cheguei até ao fundo na questão da sociedade orgânica, e aí vocês verão como é que essas coisas vem do mais fundo, do mais fundo, do mais fundo, e como elas existem, como elas tomam o homem, como o movimentam, etc., etc., e daí então como é que todas essas visões que eu estou narrando aqui se justificam, se explicam, etc., etc.

Isto tudo constitui o tal mezzanino.

* O grande mal estar que a TFP causa, é a apresentação do sublime, da integridade, da pureza, da Fé, numa cidade que não quer isto

(Sr. Guerreiro: Não teria sido no quadro que o Senhor acabou de escrever, tanto da América do Norte quanto de Itatiba, se aí neste quadro começasse a entrar um pouco de uma certa cerimonialização na vida diária, ou sobretudo em certos momentos mais solenes, datas mais significativas etc., se aí decorrido algumas décadas, isto não daria então em bezerrões mais enfeitados, e não daria uma certa abertura de vistas para toda uma ordem mais superior da vida. […].)

Quer dizer meu filho, é isso, mas com uma ressalva. É difícil fazer o que eu vou dizer agora, porque parece haver uma contradição nos termos, mas não é. Você imagine uma cidadinha deste gênero no tempo de Nosso Senhor — é difícil imaginar, porque aquela gente não tinha estas calmas, estas coisas naquele tempo, mas imagine —, e que por um dia Nosso Senhor passasse ali, e aceitasse de entrar para almoçar com os apóstolos, aconteceria uma coisa que — vocês, achem o que acharem, eu digo o que eu penso —, aconteceria uma coisa: é que para sempre aquilo ficava quebrado. Porque por todos os modos de ser d’Ele, Ele abria uma cruz ali, abria um caminho, condições para deixar uma cruz naquela casa, e deixar em certas horas do dia luzes do Monte Tabor refletindo, e aquela coisa quebrava.

Quer dizer, essas coisas, essas mediocridades inocentes, entram quando o sublime nunca esteve dentro. É só entrar o sublime, que são chamados ad astra, e a necessidade de opções magníficas se põe.

(Sr. Guerreiro: O drama começa.)

Começa um drama, até então não tinha um drama.

(Sr. P. Roberto: Aqui em São Paulo como é que o Senhor convulsiona a vida da cidade?)

O grande mal estar que a TFP causa é a apresentação do sublime, da integridade, da pureza, da Fé, etc., etc., numa cidade que não quer isto, e que ainda quando admira pode querer dizer para si mesmo: “Admiro, mas aquilo é facultativo, eu não sou obrigado a seguir.”

E quando começa o drama de nós sermos perseguidos e eles não tomarem posição a favor nosso, a posição deles é, que eles começam a inchar, ficarem balofos e se encherem de hidropisias, porque eles têm vergonha de não ter cumprido o dever, não querem deixar o bem-estar e a mediocridade e vão-se deformando em peso.

(Sr. P. Roberto: Eles se sentem mal.)

Sentem mal, eles compreendem que a vida deles não se justifica mais.

Você não concorda comigo meu filho?

(Sr. P. Roberto: Concordo perfeitamente. É uma missão, uma coisa extraordinária, muito bonita.)

Eu estou lendo agora livro, sobre o qual eu seria levado a falar demais a vocês, de maneira que me contenho. Um dia quando eu tiver acabado de ler o livro, se Nossa Senhora permitir e se vocês me lembrarem também, eu dou um, ou dois, ou três jornais falados do livro, aliás para economizar as nossas reuniões aqui à noite, eu poderia dar no Auditório Nossa Senhora Auxiliadora.

(Sr G. Larrain: O senhor Meran tem que ter chegado não é?)

Ah sim, mas eu até lá…

(Sr G. Larrain: Se não, é inútil não é?)

Ah não, isso é fora de duvida.

Mas afinal de contas, o Meran é um exemplo característico. O castelo, um dos focos da resistência tirolesa, chouan, contra Napoleão, foi o Castelo de Meran, que fica lá — Meran não é Meran, é Merano; na pronúncia alemã cai o “O” e fica Meran — e hoje parece que faz parte da Itália se não me engano, faz parte, não é?

(Sr. P. Henrique.: Sim, Senhor. Lá se fala alemão, a primeira língua que se fala lá, ainda hoje, é o alemão.)

É isso é?

(Sr. P. Henrique: Os nomes das ruas são todos bilíngüe, mas se se entra num bar, uma vez estive lá, se se está num ponto de ônibus a pessoa que se dirige a outra, sempre se dirige em alemão.)

Ah é assim é?

(Sr. P. Henrique: É. E se não sabe alemão vai falar com outro.)

Você quando esteve lá já conhecia o Andreas?

(Sr. P. Henrique: Já conhecia sim, Senhor. Mas foi uma visita muito rápida.)

O castelo deve estar meio abandonado, vazio de móveis, de tudo?

(Sr. P. Henrique. Infelizmente não deu tempo para visitá-lo; se eu conhecesse a história do castelo eu teria visitado; agora, a cidade é um encanto.)

Os mil encantos suiços e tiroleses não é?

* Exemplo da reação contra Napoleão no Tirol: Era uma gente pela qual, em determinado, momento Nosso Senhor passou carregando sua cruz

Mas o fato concreto é o seguinte: que em certo momento aquilo foi mais ou menos como eu estou descrevendo, até ao momento do protestantismo. Quando entrou o protestantismo, entrou torrencialmente naquela zona, zona tirolesa de gente com térétété, vaquinhas com sininho fazendo blim-blim quando subia pela montanha, tudo.

O fato é que a Santa Sé mandou para lá os jesuítas, que naquele tempo eram filhos de Santo Inácio; e os jesuítas pregaram e talaram aquela região de tal maneira, que eles ficaram muito mais católicos, depois que voltaram à religião católica, do que eram antes. E o Tirol passou a ser um reduto da religião católica naquela zona. Não sei se ainda é Suiça hoje ou não? É Suiça aquilo?

(Sr. M. Navarro: É Itália.)

Meran sim, mas o resto do Tirol?

(Sr. M. Navarro: O Tirol do sul é Itália, e o Tirol é Áustria.)

O Tirol é Áustria não é?

Aí começou uma reação católica, que durou mais ou menos uns duzentos anos, até chegar na Revolução Francesa. Na Revolução Francesa, antes da Revolução Francesa, entra José II com aquelas reformas dele. Não conseguiu executar grande parte das reformas, não porque os tiroleses se revoltassem — ele era o Imperador do sacro Império — mas porque eles não queriam executar porque eram contra a doutrina católica, então não faziam. Ele não teve remédio se não ceder em grande parte. Depois vieram outros Habsburgs que foram alaranjando aquilo, mas alguma coisa sempre ficou. Quando entra Napoleão, eles então, se revoltam, e viram leões e colossos extraordinários como Napoleão não encontrou a não ser na guerrilha espanhola.

Este gênero de gente era emergente de um uma ordem de coisas como eu tentei então descrever Itatiba; mas pela qual, em determinado momento, Nosso Senhor passou carregando sua cruz. Acabou.

(Sr G. Larrain: Esse princípio que o Senhor está dando é muito importante.)

* Nossa sombra é cruciforme. Mas nós não queremos nos resignar com a idéia de que onde vamos levamos a cruz; não queremos ser os portadores da sublimidade

Em nossa vida, a resistência é que, de vez em quando, passa pela vida das pessoas um filho de Nossa Senhora, será qualquer um de nós, que não percebe, mas atrás de onde nós vamos andando projeta essa cruz no chão, nossa sombra é cruciforme. E as pessoas estertoram, e nós perguntamos: “Por quê se eu foi tão amável?” - “Você foi amabilíssimo, mas você levou a cruz.”

Mas nós não queremos nos resignar com a idéia, de que onde vamos levamos a cruz. Nós não queremos nos resignar com essa idéia, nós não queremos fazer os nossos cálculos políticos, nós não queremos fazer nada com a idéia de que a cruz não nos abondona, e não queremos ser os portadores da sublimidade.

(Sr G. Larrain: Dessa cruz especificamente, a cruz fruto da sublimidade, não é?)

Fruto da sublimidade, a cruz do admirável.

Então, você pega, por exemplo, o Andreas. É um filho de Nossa Senhora, ele é muito vivo, muito agradável, muito simpático, etc., etc., no fundo a presença dele projeta a cruz. E um tirolês pré-protestantismo não levava isso, é uma outra questão.

(Sr. P. Roberto: Entrou a Revolução e a Contra-Revolução, aí pronto.)

É, aí pega o carro.

O meu George, eu me perguntava a onde é que você pairava?

(Sr. G. Antoniadis: Entre outras coisas…)

Entre outras coisas dormia hein?

(Sr. G. Antoniadis: Não, estava trancado do lado de fora e não conseguia entrar.)

Mas nosso portinari o que é que fazia?

(Sr. G. Antoniadis: Não sei, apareceu agora.)

Pegue uma cadeira aí; tem uma aí que o Mário de momento não está usando.

(Sr. P. Henrique: Agora, na medida em que a luz da TFP projeta na alma, no caso do senhor Andreas projeta sobre ele, e ele corresponde a essa luz, essa sombra também vai ficando muito mais forte e vai vincando muito mais.)

Vai vincando muito mais, apesar de que eu soube, que um primo dele que esteve com ele aqui em São Paulo, mafiaram diante desse primo, e o primo fez esse comentário: “Eu nunca vi tanta felicidade no olhar de alguém.” É uma coisa toda especial.

(Sr. P. Henrique: É sinal de que outro também aceita essa sombra da cruz não é? Ou pelo menos viu.)

O outro está colocado numa situação muito complicada, porque ele é um príncipe deposto, e provavelmente pobre, e casou-se, de repente, com uma sobrinha do rei da Bélgica, princesa portanto de uma casa ainda reinante e com muita espécie de colocações e de caminho. E, parece que os filhos do Otto não dão nada e que, pelo contrário, este dá algo, então é o sobrinho preferido e o Pedro Gastão do Otto. Tem portanto muitos elementos de alegria.

A impressão que eu tenho, é que ele percebeu uma… que ele quereria uma outra coisa, que ele por vocação, talvez ancestral da dinastia, eu não sei o quê, acabou percebendo que a felicidade em última, última, última análise é uma felecidade cheia de dor, e uma felicidade que só se tem junto à cruz.

(Sr G. Larrain: E a batalha dentro da TFP, é querer aceitar a cruz do Senhor ou não.)

É, por exemplo, tudo isto que eu estou dizendo aos senhores que estão aqui, e que constituiria o tal mezzanino e qualquer coisa do gênero, é um exemplar, é um accoudoir a partir do mezzanino, deve dar a vocês a impressão de uma coisa que traz muita felicidade. Eu digo: traz. Eu não teria coragem de lutar se não fosse isso, de um lado, mas, de outro lado, também é bem verdade que é preciso ter muita coragem de lutar, porque se não se afasta.

Quer dizer, há todo um equilíbrio, um misterioso equilíbrio em torno da cruz de Nosso Senhor que é muito difícil de descrever.

(Sr G. Larrain: Uma coisa curiosa: quando o senhor falou de Nosso Senhor entrando na casa, eu senti isso que muitos membros do grupo não convidaram o senhor às próprias “Fs” no fundo por medo disso, eles justificavam que eram coisas baixa de nível, mas, no fundo, era o medo de que a sublimidade passasse e quebrasse em quatro, porque fica quebrado mesmo…)

Fica, fica quebrado.

(Sr G. Larrain: … não consta que nenhum membro do grupo tenha convidado o Senhor para a casa da “F”. Agora eu vejo que a razão está aí.)

É, quebra. Nós consertamos tudo, e quebramos tudo.

(Dr. Edwaldo: Umas das coisas muito bonitas do Evangelho, é aquele diálogo de Nosso Senhor com a Samaritana à beira do poço, em que, em determinado momento, Nosso Senhor diz para ela: assim conhecestes o dom de Deus. O dom de Deus para nós é o Senhor, comporta toda esta visão que o senhor está dando.)

Ah comporta. Agora, também quer ver o outro lado da questão? Você não tem certeza que na cidade de São Paulo inteira, a essa hora, ninguém está entretendo-se tanto quanto nós?

(Sr G. Larrain: Quanto a nós aqui é certo, quanto ao Senhor não.)

Não, não, estou-me entretendo muito, até pelo contrário. Não é verdade, estou me entretendo muito.

(Sr. Poli: E é um problema complexo, porque gente nossa tem que tomar uns certos contatos, e ou espalha essas cruzes ou trai a vocação.)

Não tem conversa.

(Sr. Poli: Ou leva a imagem do Senhor, que é uma imagem que vai criando cruzes para trás, como o Senhor acabou de dizer, ou trai a vocação.)

É, trai mesmo, não tem conversa.

(Sr. Poli: Ou seja, é quase uma situação sem saída.)

Não, a única saída consiste em sair, está compreendendo? Quer dizer furar, é isso vamos lá. Não há outra saída.

(Sr G. Larrain: Já são três horas da manhã e o dia foi muito duro, de maneira… não era pergunta propriamente, mas era para lembrar um pouquinho a hora.)

Sim, mas um pouquinho de tempo, temos ainda, não é uma coisa tão terrível.

(Sr. P. Paulo: Isso faz lembrar a ida de Nosso Senhor, Nossa Senhora e São José para o Egito, à medida em que caminhavam, os ídolos iam caindo à direita e à esquerda.)

Isso, exatamente. Ídolos que, vai ver que à séculos, desde o Faraó Menotepe da 48ª dinastia, — aquelas coisas do outro mundo do oriente — instalou aquele ídolo, nunca mais nem ninguém limpou, nem ninguém mexeu com o ídolo, nem nada, não tocou. Passa um burrico levando uma dama e um menino, e um carpinteiro príncipe vai andando a pé ao lado com um bordão, o ídolo: Pummmmm. É uma coisa do arco-da-velha.

Vocês vejam essas coisas como são, negócios de passagem da cruz, etc., etc., … (…)

(Sr G. Larrain: … há algo no modo todo de ser da cruz do Senhor que é algo que de si ainda que não houvesse peso, o peso clássico então… não sei um homem que perdeu a vista, ou que lhe cortaram os dois pés — não estou falando do Senhor, se fosse conosco isso — é uma coisa que é pura elevação, nós não nos queremos elevar, esse é o problema. […] Aí a pessoa diz: agora chegou a hora da minha cruz mesmo. Mas a hora da cruz já está sendo à muito tempo, mas consiste em realmente ter a coragem de aderir a essa sublimidade e cortar com o resto. Como se dará isso, da gente cortar de uma vez […] o que o senhor acha de quando virá isso?)

Aos poucos, ouviu?, está vindo; mas, todo o mundo está fechando os olhos para não ver.

Porque, seja como for, a Bagarre Azul acabou. E aquelas festas todas da Bagarre Azul acabaram também. A gente percebe que o empobrecimento mais ou menos vem, e vem mais ou menos para todo o mundo, no seguinte sentido da palavra: não de ficar pobre, mas uns ficam menos ricos, e os outros ficam pobres, mas acaba aquele gastar de dinheiro como quem joga fora confeti, e idéia de que a vida é uma festa, e acabam vindo as faltas disso, depois com a idade começam a vir as doencinhas, depois vêm as doençonas, vem as atrapalhações, e vem uma porção de coisas, que vem. Pior, é quando houver outros desnudamentos de altares em que a pessoa sinta que caiu no chão. Isso vai acontecer durante a Bagarre, que a felicidade acabou.

(Sr G. Larrain: Aí o Senhor acha que a gente abre os olhos para a sublimidade?)

Não, mas os fatores opostos a isto, diminuirão muito. Há um certo momento da dor em que o individuo chora, e diz: “Oh! meu Deus!” As portas para o caminho da cruz estão abertas.

Meus caros o que é que eu posso fazer? O que é que eu posso fazer?

Há momentos…

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