Conversa de Sábado à Noite – 20/7/91 – Sábado – p. 4 de 4

Conversa de Sábado à Noite — 20/7/91 — Sábado

A procura dos últimos fundamentos da ordem que a Contra-Revolução deve defender é um fruto da vocação profética * O estético das coisas e o estético das palavras para designá-las estão inteiramente claros na mente do SDP

(Sr. Gonzalo: Descansar com o Profeta Elias é bem mais interessante do que conversar conosco.)

Não, não concordo. Quando a gente aproveita bem o que leu no Profeta Elias, a gente tem vontade de conversar com os outros. O Profeta Elias era evidentemente comunicativo, expansivo, etc. Isso é o que ele era.

(Sr. Gonzalo: Como o senhor outro dia não fez despachinho porque estava muito cansado…)

Isso é diferente, é um dia comum de trabalho, etc., etc. Vamos sentar e começar. Eu só lamento mantê-los nessa caldaia, mas não tem remédio.

* Explicitações do princípio da ordem sacral e hierárquica, frutos da vocação profética

Então, quem é que…?

(Sr. Guerreiro: …se um espírito constituído assim, portanto a virtude e a correspondência à fé que o senhor teve, se seria isto que moveria a Deus a Ele abrir as comportas desse continente que está mais no alto, esse istmo que não é horizontal, mas que está colocado para o alto? O Sr. Nelson depois faria outra pergunta.)

Você prefere, meu filho, fazer agora?

(Sr. Nelson: Acho que depois fica mais ordenado.)

Eu acho que mais diretamente a coisa se põe assim. Que essa posição anti-igualitária do universo é uma posição filosófica ante o universo, mas que precisaria ser aprofundada até os seus últimos fundamentos. Pode ser que haja, mas eu não vejo fundamento maior, mais profundo do que esse do movimento ascensional do espírito para as perfectibilidades, e o movimento colateral que estabelece correlações, dentro das quais qualquer ser se insere.

E seria natural que aqueles que fossem os profetas e os arautos, os que juntos constituíssem o profetismo do século XX, que esses tivessem uma noção do fundamento filosófico disso até o último ponto dessa hierarquia, que está nisso que eu digo, ter esse fundamento para poderem, com novas e ulteriores explicitações, levar o assunto à sua totalidade. E a defesa da verdade tão agredida nesse ponto [em] nossos dias, que essa defesa se fizesse até o fundo.

Tudo isso que eu respondi naquela noite, resulta de considerações anteriores, na procura dos últimos fundamentos, dos últimos fundamentos de uma ordem de coisas que nós devemos defender com as últimas gotas do nosso sangue, e com as últimas dedicações de nossa vida, etc., etc.

E então se poderia dizer que esse “L” a que você alude seria o gráfico, o esquema, o símbolo da ordem, exatamente porque contém os dois elementos dessa ordenação que você pode aplicar indefinidamente a tudo. Mas de onde depois devem decorrer predicados e princípios de estética, de ética, e de uma porção de coisas mais ou menos ao infinito.

E essas explicitações que eu tenho feito ao longo dos anos são no fundo explicitações do princípio da ordem, mas da ordem hierárquica e sacral. Aliás, nos devidos termos, da ordem sacral e hierárquica. O sacral precede o hierárquico.

E a minha tendência, portanto, a me pôr nisso, e esse vinco de espírito que me põe tão empenhadamente nisso, é um fruto da vocação. É uma coisa que deveria, para os que são mais moços que eu, e que tiveram menos tempo de refletir, etc., e que de outro lado talvez não fossem tão preservados do ponto de vista do igualitarismo quanto eles mesmos desejam, seria um elemento para ajudá-los a expungir de si todos esses gérmens, esses fermentos de igualitarismo, e assim garantir inteiramente a sanidade da posição que defendemos, etc., etc.

Essa seria, portanto, a minha resposta. Mas e você, meu Nelson?

(Sr. Nelson: Eu tenho uma pergunta, mas confesso que achei a sua resposta agora um pouco curta demais.)

Eu também estou achando, mas é que eu não tenho outra coisa a dizer! Isso esgota a resposta.

* Uma carta com a cortesia de salão, que dignifica o destinatário, e que pode atrair à conversão um igualitário que por ela se deixe tocar

(Sr. Nelson: Ainda na pergunta do Sr. Guerreiro, quando o senhor faz, por exemplo, uma carta como essa para o Presidente Collor a respeito do México, etc., como é que o público percebe nesse documento essa posição do espírito do senhor? Porque isso sendo em função do profetismo, tem que extravasar num documento político, um documento da ordem temporal, esse modo de ser da mentalidade do senhor.)

Eu tenho o cuidado de que as minhas cartas sejam o mais possível parecidas com o meu modo de me dirigir verbalmente às pessoas, e o meu trato pessoal. E no meu trato pessoal eu gostaria que fossem as coisas de tal maneira que ele fosse sempre um trato não só elevado, mas próprio a elevar. De maneira que a pessoa com quem eu tratasse não só sentisse a elevação na qual eu me ponho por vocação, mas sentisse que essa elevação está de algum modo franqueada. Que se ela saborear essa elevação, se ela admirar essa elevação, alguma coisa dessa elevação entra nela. E que, portanto, está cortezmente oferecida pelo próprio tom da carta.

E que, de outro lado, a carta tendo essas características, tem ainda algumas outras. Ela é uma carta muito cortês, eu gostaria que ela tivesse o tom de uma conversa de salão, mas de uma conversa de salão política, no qual nem tudo fossem guirlandas e lantejoulas, mas houvesse espinhos em muitas rosas, e houvesse complicação em muitos pontos. Enunciadas com a maior cortesia, mas no duro!

Depois, gostaria também que nessa carta o indivíduo que a recebe, lendo-a, diria: “Mas, afinal de contas, que trato elevado, que trato cortês, como eu me sinto dignificado”. Não o seguinte: “Ele me quis esmagar nesse trato, mas é o contrário. Ele me quis dignificar com o trato que ele dirigiu a mim”.

Eu vejo que daí pode provir num espírito igualitário ao qual eu me dirijo, uma reação bem diversa. Ele pode dizer: “Esse sujeito o que é que está pensando com esse modo dele falar, de se expressar, etc.? Ele está pensando cerrar de cima comigo, porque eu me sinto humilhado com o tom dele, e sinto-me irritado. Seria muito melhor que ele tivesse comigo um tom muito mais natural, menos elevado. Eu gostaria de outra coisa.”

Eu compreendo que o igualitário possa pensar isto. A minha intenção não é de agradar todo e qualquer igualitário, mas o igualitário cujo estado de espírito o torne susceptível de uma conversão. Esse só pode sentir um começo de atração e de uma conversão lendo aquela carta. Ele esbravejará, não se aguentará de ódio, se ele for invejoso, e no fundo se tiver essa seguinte reação: “Esse tipo escreve assim, eu não escrevo assim. O que ele achará de mim? Quando chegar a ocasião de responder para ele, ele vai fazer a comparação. E o que é que ele vai achar de mim?”

Bom, mas contra isso não há defesa.

(Sr. Nelson: Está muito bem. Aí eles sentem a grandeza do senhor.)

Exatamente.

(Dr. Edwaldo: Isso explica muito o silêncio.)

Também, porque não têm o que responder, não sabem como responder. (…)

* O estético das coisas e o estético das palavras para designá-las estão inteiramente claros na cabeça do SDP

(Sr. Nelson: Dois objetos pode-se relacioná-los num conjunto de uma maneira errada, de uma maneira feia. Isso também em matéria histórica, em matéria psicológica. Um homem que não é dotado de um senso psicológico correto, ele pode constituir um panorama errado, feio ou imperfeito. No caso do senhor, ao relacionar esses diferentes elementos, qual é o senso que orienta esse relacionamento do senhor, para que eles cheguem a uma perfeição?)

É, isso eu preciso pensar um pouquinho… Não poderia responder assim tão já.

É uma coisa assim. Primeiro uma pergunta: isso aqui se relaciona com o quê? Segundo lugar: esse relacionamento fica notavelmente belo, ou simplesmente belo, ou apenas aceitável, ou é inaceitável? Se for de todas as categorias menos a [inaceitável], eu aceito o panorama. Está acabado.

O estético das coisas e o estético das palavras que devem designar as coisas está muito claro na minha cabeça. E eu tenho para isso uma memória muito boa, de maneira que a coisa e a fórmula ocorrem facilmente ao meu espírito. Eu tenho muito a noção da gradação disto, e qual é, por exemplo, a coisa esplêndida a ser designada por uma palavra muito bonita. Ou uma coisa de uma beleza simplesmente comum, a ser comparada com outra coisa também bonita do ponto de vista comum.

* O bonito vocabulário, uma vitória sobre a Revolução

E habitualmente procuro exprimir-me do modo mais bonito possível, porque cada vez que eu consiga uma expressão bem bonita, é uma vitória sobre a Revolução na mentalidade de quem está me ouvindo. De maneira que eu habitualmente vou, na escolha, à coisa mais bonita que no momento pode me ocorrer, e estabeleço a relação.

* A palavra “empíreo” para designar uma beleza diáfana e fina

(Sr. Paulo Roberto: Por exemplo, por que o senhor escolheu a palavra empirização para designar isso na última reunião?)

Eu acho o seguinte. Isso é característico. A palavra “empíreo” é uma palavra muito bonita. Ela tem qualquer coisa de diáfano que a palavra Império não tem.

(Sr. Paulo Roberto: O “y” do “empyreo” antigo…)

É, o “y” do “empyreo” tem uma beleza toda especial, tem um som de violino todo especial no “y” do “empyreo”.

Donde, o céu empíreo, ou o império celeste são coisas, do lado do estético, são muito diferentes. O empíreo é mais belo.

E por causa disso, se é possível designar uma coisa no auge de sua beleza diáfana, fina, e até mesmo frágil, eu escolho a palavra “empíreo”, e portanto “empirização”, que é o ato ou o fato de tornar empíreo, de muito bom grado.

(Sr. Nelson: Está muito bem.)

(Sr. Guerreiro/Sr. Gonzalo: Já está tarde, SDP.)

É, eu peço licença, mas eu estou começando a cair de sono. Eu lamento. Eu preciso, sabe o que é?, é comprimir um pouquinho as minhas conversas post-reunião, para que eu fique com a noite mais livre. Porque eu deixar de fazer a reunião de sábado à noite para os enjolrinhas, acho uma judiação. Tenho o gosto de fazer a reunião para vocês. Mas a solução é a reunião dos enjolrinhas não ser tão tarde, de maneira a não chegar aqui tão tarde.

* Observar e catalogar no espírito os pequenos matizes que diferenciam às vezes uma mesma palavra

Mas, você vê, por exemplo, falar de céu empíreo, é outro efeito sobre o auditório do que qualquer palavra comum. Como também, é uma coisa curiosa, a palavra “império”. Quando hoje eu usei a palavra na Reunião de Recortes falando do império russo, mas o império russo comunista, não sei se vocês notaram que quando se emprega a palavra “império” nesse sentido de uma potência, não tem o som bonito quando se diz Império… do Império Britânico, portanto. O Sacro-Império Romano-Alemão…

Mas é no próprio modo de pronunciar a palavra fica faltando alguma coisa quando a gente diz um império russo, império econômico, qualquer coisa assim. E essas coisinhas assim é uma verdadeira delícia a gente poder observar e ter catalogadas no espírito. De maneira que aí fica fácil, na hora da gente falar, a gente designar uma coisa, designar outra, fazer um discurso, etc., etc.

Voilá l’affaire! Meus caros, me desculpe, mas vamos rezar três Ave-Marias.

*_*_*_*_*