Conversa
de Sábado à Noite – 22/6/91 – Sábado
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Conversa de Sábado à Noite — 22/6/91 — Sábado
Inclemente consigo mesmo, e fiando na ajuda de Nossa Senhora, o SDP pôs em marcha o dinamismo da Contra-Revolução * O aristocratismo católico do Fundador * Argumentação contundente dos Corrêa de Oliveira, e as atitudes de salão dos Ribeiro dos Santos
* A vitória da Contra-Revolução a partir da aliança das qualidades naturais com as graças sobrenaturais no SDP
(Sr. Guerreiro: …nós nos perguntávamos se sobre as qualidades às quais o senhor havia se referido, se o senhor não poderia continuar a tratar desse assunto, ligado àqueles primeiros elementos que o senhor nos havia dado na semana passada.)
Aqui é preciso tomar em consideração o seguinte. Eu enunciei o problema, a dificuldade, nos termos em que se apresentava para mim, no tempo em que o problema se apresentou para mim. Mas, que na realidade, numa análise mais profunda, a coisa tinha uma dimensão maior.
O problema era o seguinte. Eu ouvia falar em graça, Mater Divinae Gratiae, etc., eu ouvia falar em graça. Mas eu não tinha noção do que era verdadeiramente a graça. O ensino dos padres jesuítas daquele tempo era um ensino muito bom, de Religião, mas eles falavam da graça muito por alto, explicavam pouco qual era o papel da graça. De maneira que a análise do papel do sobrenatural nesse encargo, quase não entrava — de um lado.
De outro lado, havia uma espécie de efeito da graça sobre as qualidades naturais que eu tinha, o qual efeito aumentava muito o alcance dessas qualidades. Mas eu não sabia que isto era efeito da graça. Eu pensei que eram qualidades naturais.
Então, naquele tempo eu apresentava as coisas como eu disse aqui, nesses termos incompletos. Para fazer uma enumeração completa seria preciso dar ao papel da graça todo o relevo que tem. E mesmo uma coisa que eu sentia que havia em mim, que era um certo brilho, uma certa louçania, uma certa… eu não sei bem como dizer, mas que eu sentia, eu sabia que resplandecia muito em mim. Eu hoje vejo — vejo há muitos anos, depois que eu estudei o papel da graça, etc. — compreendo que era muito principalmente frutos da graça. Mas que, incidindo sobre qualidades naturais, levava a um alto grau.
Portanto, tem que se falar aqui não só das qualidades naturais, mas das sobrenaturais, consideradas num todo só.
Agora, então, o seu pedido seria que eu continuasse a falar sobre isso. É isso?
(Sr. Guerreiro: Sim senhor.)
Bem, aqui tem outra coisa. Eu tinha a noção de que naquele tempo…
(Sr. Gonzalo: Aquele tempo seria quando, SDP?)
Dez, onze, doze anos. Que foi quando eu optei de servir a Contra-Revolução, de combater a Revolução, de ser bom católico, etc., etc., que confirmava muito os pendores, as boas inclinações iniciais realmente muito boas que Nossa Senhora me havia dado.
Então, eu achava que a vitória da Contra-Revolução sobre a Revolução não se daria se eu não desse a essas qualidades naturais todo o desenvolvimento que eu queria. Mas, que não bastariam. Que era preciso um certo curso de acontecimentos que estava já incumbado na dinâmica Revolução-Contra-Revolução. E que por causa disso eram essas qualidades acentuando essa dinâmica, mas essa dinâmica como uma força enorme que se tratava de pôr em movimento, uma força muito maior do que as minhas qualidades, mas que se tratava de pôr em movimento, isto mais a ajuda de Nossa Senhora — mas aí dessa ajuda eu tinha uma idéia muito menor do que deveria ter pela doutrina católica — isto faria a vitória!
* Inclemente consigo mesmo, ser capaz de pôr em marcha a dinâmica da Contra-Revolução
(Sr. Guerreiro: Essa era a promessa que havia, e que seria cumprida?)
É. Essa promessa se dirigia, sobretudo, à minha moleza: “Você faça tudo quanto está em você, empenhe seu máximo, e de um modo inclemente para com sua moleza, que o resultado será que você poderá pôr em movimento a dinâmica da luta Revolução-Contra-Revolução, você poderá acionar a Contra-Revolução que está adormecida e amolecida, porque no dinamismo da luta entraram fatores ruins”. Era a heresia branca, etc., mas que eu não sabia definir. Se eu fizesse isso, então a Contra-Revolução venceria.
Agora, isso não foi uma visão, não foi uma revelação. Foi uma cognição da verdade que era esta. Quer dizer, punha-se assim: “Você conhece, você está vendo o lado fraco da Contra-Revolução. Você está vendo que a força da Revolução não consiste na força dela, mas consiste na fraqueza da Contra-Revolução. Toca a você entrar nas fileiras da Contra-Revolução e torná-la forte, pelo uso valente, varonil, corajoso, sem molezas repugnantes, nessa luta. Então você acionará essa dinâmica de modo certo. Naturalmente Nossa Senhora ajudará, etc.”
Mas aí muito mais vago, e muito menor do que eu fui conhecendo depois como sendo a doutrina católica.
* Uniram-se no SDP a argumentanção contundente dos Corrêa de Oliveira, e as atittudes de salão dos Ribeiro dos Santos
(Sr. Gonzalo: O senhor aprofundaria isso ainda mais?)
Sim, mas sobretudo no sentido de que vocês pedirem, porque não vejo bem em que sentido querem que eu aprofunde.
(Sr. Gonzalo: O pedido mais específico seria isso: da importância e como é que isso se dá e se deu.)
(Sr. Paulo Roberto: Se o senhor pudesse descrever também um pouquinho, como é que esse legado aristocrático se apresentava na família do senhor, e do qual o senhor foi o continuador.)
Na época em que esses problemas se apresentaram para mim, portanto, dez, doze anos, treze, quinze anos, eu tinha uma idéia — é uma coisa curiosa de dizer — sob certo ponto de vista, um tanto agrandada do que eram esses valores. Mas só um tanto. Porque a família, como eu disse, era muito dotada nesta ordem. E pelo que ela era dotada, ela era mais simbólica, e mais expressiva do aristocratismo do que a genealogia dela justificava.
Eu já disse da outra vez, era uma boa genealogia, mas o que ela apresentava era muito mais do que isso. E do passado mais remoto da família eu conhecia pouco. Eles falavam do passado da minha avó, do meu avô, e depois alguma coisa dos meus bisavós. Mas, já por exemplo de minha trisavó, que é esta que está nessa parede de cá, Maria Joana da Luz, eu sabia muito pouco. Foi depois com o tempo, conversando com mamãe, etc., etc., eu soube mais coisa. Antigamente sabia muito pouco, e eles entre si falavam pouco dos maiores deles.
Eu sabia que todos esses maiores deles estavam no catálogo das boas famílias nobres, antigas de São Paulo, que era a Genealogia Paulistana. E sabia que remontavam o que genealogicamente se tinha em conta de primeira linha, não sei se no Chile ou na Colômbia era a mesma coisa, mas se tinha como coisa de primeira linha ou de descender de fidalgos portugueses, ou de ser fundadores do País, descendendo dos primeiros que fundaram cidades…
(Sr. Gonzalo: No Chile é a mesma coisa.)
Não é? E como eu sabia que naquele catálogo, que é historicamente intocável, todo o mundo considera perfeito e acabado, os antepassados deles estavam lá, portanto meus, eu nunca abri para ver. O Paulo, para ver se encontrava o que criticar, e mexer comigo, o Paulo abriu e foi ver, etc., etc., mas não tinha nada que criticar. Portanto, passava como uma coisa comum.
Mas, por exemplo, eu com o tempo fiquei vendo que a família do Paulo era uma família genealogicamente muito mais qualificada do que a minha. Esse Luiz Morais de Barros, foi amigo meu, é sogro do Eudes. Houve um tempo em que constituímos uma roda de três amigos: o Luiz Morais de Barros, eu, e um sujeito que era primo do Paulo, chamava-se Francisco Barros de Campos. Estudávamos no mesmo colégio, e formamos dessas rodas que existe entre meninotes. E o Luiz Morais de Barros, muito língua solta, uma vez que o tal primo do Paulo não estava presente — eu nem conhecia o Paulo, o Paulo me conheceu muito depois — ele me disse:
- “Eu estive conversando com mamãe sobre sua família e a família do Francisco, e a minha família também. E mamãe me disse que a minha família tem o pé na cozinha. Que a sua família é uma boa família, mas que a família do Francisco é muito melhor que a sua”.
Eu nem sabia de quem esse Francisco era neto. Era uma Francisco que havia por ali, e ficou nosso amigo. Mas você vê que ele qualificou bem, a mãe dele disse bem. Porque era bem exatamente assima coisa.
Mas, como eles era uma coisa boa — os Ribeiro dos Santos —mas representavam, pelos dotes naturais, pelo modo de ser, etc., muito mais do que eram, e eu não sabia fazer a distinção entre uma coisa e outra, eu imaginava que eles eram mais do que eram.
Depois, certas ingenuidades de criança. Eu conhecia toda a história das relações deles com a Princesa Isabel. Eu tinha estado na recepção da Princesa Isabel. Não me lembrava mais, porque era um menino de 4, 5 anos, mas tinha estado na casa da Princesa Isabel, etc. Depois via chegarem cartas da Princesa Isabel para vovó, de vovó para a Princesa Isabel, para a Baronesa de Muritiba, que era Dama de Honor da Princesa Isabel, essa coisa toda eu via perfeitamente chegar.
Mas eu pensava então que no tempo do Império eles tinham com a Princesa Isabel a intimidade que eles tiveram no exílio. Ora, isso não é verdade. Eles conheciam muito vagamente o Imperador e a Princesa Isabel, e não faziam parte da corte. E a paulistada toda não fazia parte da corte. Era gente muito metida em São Paulo, e achava que São Paulo era o centro do mundo, e que a corte não tinha muita importância. Isso era a mentalidade deles.
(Sr. Gonzalo: Coisa sobre a qual o senhor não está se pronunciando..;)
Nenhum pouco… Eu compreendo bem que um fluminense, um mineiro, um gaúcho — meu Deus do céu! —, um paranaense, podem achar isto muito antipático. Mas, quando a gente conhece de dentro é muito menos antipático… Ah, ah, ah!
Agora, eu notava que essas qualidades deles eram de algum mmodo inerentes a mim. Mas que notava que havia certas coisas que só depois eu vim a saber que eram virtudes. Que eu nem sabia que eram virtudes. Eram modos de ser meus, que eram profundamente entranhados em mim, e que eram o contrário do que eu via elogiar como Hollywood e democracia.
E notava que havia um choque entre Hollywood e democracia de um lado, e o modo deles de ser. Portanto, o que havia do modo de ser deles em mim, como uma coisa contrária. De maneira que era uma coisa de Contra-Revolução a fidelidade a esse aristocratismo.
Em certa idade, praticamente nessa idade, eu vim a saber também da família de papai. Como a família de papai não morava aqui, e naquele tempo se vinha de Pernambuco para cá de navio, era uma coisa muito difícil, lenta, cara, etc., etc., eu não conhecia ninguém da família de papai. Mas depois, prestando atenção no que diziam, eu via que eles davam muito realce ao Tio Conselheiro. Eu quis saber quem era o Tio Conselheiro. Então me explicaram que era irmão de meu avô, tio de papai, etc., e quem é que ele tinha sido, o que ele tinha feito, etc., etc.
E um belo dia eles armaram uma viagem para o Rio, para passar uns dias de repouso, mas o ponto mais chistoso da viagem era a visita ao Tio Conselheiro. E me levaram para visitar o Tio Conselheiro, junto com Rosée que se manifestou fechada, pouco interessada pelo Tio Conselheiro, e eu muito!
Mas isso é porque a família dava a entender assim que o Tio Conselheiro e meu avô Gabriel, avô de minha mãe, meu bisavô, tinham sido homens extraordinários. E que se eu tivesse senso da honra, eu daria um homem mais ou menos daquele valor. E eu queria saber, porque como era um modelo para mim, o avô Gabriel tinha morrido há muito tempo, era meu bisavô, e eu queria saber o Tio Conselheiro como era, para ter uma idéia. E notei que ele era muito inteligente mesmo. O homem era muito inteligente.
Para mim então ficou um padrão posto assim: inteligência aristocrática, Tio Conselheiro. Papai tinha uma bela inteligência. Ele desenvolveu pouco, aproveitou pouco, mas ele tinha uma bem bela inteligência, era muito bom advogado, também advogou pouco, por indolência. Mas ele era um muito bom advogado. De vez em quando, uma vez ou duas na vida me deu uns conselhos, muito bons conselhos. Por exemplo, ele me dizia, criticando um pouco os Ribeiro dos Santos, mas isto sempre, em todo casamento há em que os maridos procuram puxar os filhos para a família dele, e a mulher para a família dela. E cada um dos dois tem críticas a fazer à família do outro. Isso é inerente ao casamento.
E então assim ele dava a entender que os Ribeiro dos Santos tinham um palavreado bonito mas pouco claro. E que estava no talento da família Corrêa de Oliveira ter um palavreado correto, mas que brilhasse pela clareza dos conceitos. Mas não dizia assim. Porque dizer assim, eu de repente perguntava a mamãe se era verdade, e saía um desentendimento. Então ele dizia assim, mas assim com uma calma… vocês não podem calcular o que era a calma dele, uma calma assim como quem falava para séculos nos quais não vai acontecer nada, ele me disse: “Meu filho, você precisa prestar atenção no seguinte. Quando você escrever alguma coisa, que seja claro, que as pessoas à primeira vista entendam, e não crie problema. Isto de muita palavra bonita, de bonito som, mas que não é claro, não adianta de nada. É farfalhada inútil. Você entenda bem isso”. Eu entendi bem do que é que ele estava falando.
Aliás, a apreciação dele era justa, exceto a pessoa com quem ele visava. Ele visava um irmão de mamãe, que era intelectualizado, e que tinha uma linguagem bonita. Talvez um pouco enfeitada, mas aristocrática.
(Sr. Gonzalo: Era o Dr. Gabriel?)
Gabriel. Eu acho que a apreciação dele não era inteiramente verdadeira, mas tinha algo de verdade. E eu tomei aquele conselho para mim. Achei que aquilo era verdadeiro, e tanto quanto eu pude tomei aquele conselho para mim.
Então, sobretudo facilidade de aprender, compreensão da coisa até o fundo, concatenação lógica, e argumento contundente, me parecia que era a coisa dos Corrêa de Oliveira. Mas coisa a ser feita aristocraticamente. E maneiras, atitudes de salão, diplomacia, tacto, tentar agradar os outros, era coisa dos Ribeiro dos Santos. Mas achava que essas coisas se fundiam em mim sem choque.
* Aristocrata e católico
Mas, notava o seguinte: que se eu aderisse à Revolução, tudo isso eu teria que renunciar, porque o mundo dos jovens do meu tempo não toleravam isso. Numa roda de jovens falar assim, e ser assim, era absolutamente intolerável como usar chapéu de três bicos. E, portanto, que eu fazendo assim conservava uma identidade comigo. No fundo identidade com minha vocação. E que a minha vocação não era apenas de lutar pela aristocracia como um elemento fundamental da boa ordem católica, mas era também de, na medida em que eu pudesse ser assim sem afetação, ser um aristocrata.
(Sr. Gonzalo: Simbolizar.)
Simbolizar e impor. Agora, impor de que maneira? Uma vez que esse pessoal que me cercava era muito dominado por preocupações práticas, fazendo indieretamente sentir a vantagem prática desses predicados intelectuais que eles não queriam reconhecer. Então, no trato com eles, impor-me por esse lado. Mas impor do imposto imposto, assim, na batalha! E eles não podiam dizer que não, porque era uma coisa evidente. Então, isto se impunha pela prática. Era prático ser aristocratizante.
Nisso entrava uma correspondência à vocação, e entrava um ato de identidade com aquilo que eu naturalmente era e devia ser.
Bom, eu compreendo que se poderia dizer que essa narração é muito pretensiosa. Eu estou sendo interrogado. Eu não posso mentir. Eu compreendo bem que se prefira mudar de assunto. Mas não se pode exigir de mim que eu minta, porque seria mais agradável se eu mentisse.
Então, vinha um pouco ligado aqui uma idéia que só muito mais tarde eu tive, é que assim como os reis tinham um certo carisma, os nobres tinham uma certa participação no carisma régio. Donde alguma coisa de sobrenatural na aristocracia católica, muito mais difuso do que na pessoa do rei, ou da família real. Mas que havia uma correspodência, um ato de aceitação desse carisma, vivendo a condição de aristocratizante inteiramente.
(Sr. Gonzalo: Isso muito inerente à vocação.)
Muito inerente à vocação.
(Sr. Gonzalo: O senhor sentindo que sendo assim, a promessa se realizaria. E não sendo assim, não se realizaria.)
É isso. E eu estava cumprindo as condições postas pela Providência na ocasião. Quer dizer, “utilize seus dons”. Eu estava utilizando.
(Sr. Gonzalo: Houve aristocratas que a Providência pediu que não manifestassem esse aspecto de sua personalidade, e que se encerrassem num claustro, por exemplo. Aqui não. No caso específico da vocação do senhor, Deus quer que essas qualidades brilhem, e isso é algo inerente ao thau.)
Tal qual.
(Sr. Gonzalo: O senhor poderia dizer como é que isso se liga com a vitória? Há algo metafísico e algo de religioso que está ligado à promessa da vitória.)
Tem o seguinte. Havia um senhor que por razões de prudência e de conveniência eu não quero dizer quem é, que tinha um filho na TFP. Era um senhor de boa família, mas sobretudo casado numa boa família. Quando o filho dele entrou para o grupo, ele teve uma abertura com terceiros que chegou aos meus ouvidos. Era um senhor muito democratizado, muito democratizado. Ele disse: “O meu filho é católico, está muito bem. Mas tem também umas manias de aristocracia. E esta mistura de aristocracia com religião é uma coisa que eu não posso suportar!” Esse senhor era irmão da Ordem Terceira do Carmo, e era católico praticante. Mas, completamente da esquerda católica. Dizia: “Isto eu não posso suportar!” Estava dito entre-dentes que é o que ele tinha aprendido comigo, porque na família não era assim.
Quer dizer, o tal enquanto tal não teria existido no conjunto das nossas idéias, se eu não tivesse tido o cuidado de corresponder a esse ponto ao tal enquanto tal. Quer dizer, eu não tinha chegado a ser verdadeiramente um monarquista.
E não sendo monarquista, a TFP não teria tido a posição do tal enquanto tal que nós vemos.
(Sr. Guerreiro: Não seria contra-revolucionária.)
Não seria contra-revolucionária.
(Sr. Guerreiro: Teria sido semi-contra-revolucionária.)
Ou seja, revolucionária de conta inteira.
Agora, acontece também que isto sendo assim, também os dois Príncipes contra-revolucionários da Família Imperial não teriam ficado contra-revolucionários. E toda a esperança que eles representam para a causa católica não teria existido.
E teria ido mais longe. É que não teria sido possível evitar que quanto mais eu puxasse nossa gente para a piedade, tanto mais eles teriam ficado heresia branca.
Quer dizer, nesse ponto e nesta fidelidade isso se pôs assim.
(Dr. Edwaldo: Isso também é fundamental para o Reino de Maria. Porque na linha de recolher tudo o que devia ser recolhido, isso é um dos aspectos fundamentais da vocação do senhor de ter recolhido, porque isso estava morrendo também.)
Ia morrendo, mas ainda vivo, inclusive vivo em mim. Quer dizer, é uma coisa recolhida viva.
(Dr. Edwaldo: Mas se não tivesse havido a correspondência, teria morrido. Porque o que a gente vê aí fora…)
Nem me fale! É uma abominação sem nome!
* O Grand-Retour terá como suporte necessário a nossa correspondência no momento atual
Agora, a questão é a seguinte. Vocês poderão me dizer: “Mas o Reino de Maria, afinal de contas não podia ficar dependente de um Grand-Retour simplesmente?”
Não. O Grand-Retour supunha condições de aceitação, condições de correspondência. Se não houvesse isso não teria… É um pouco, um pouco como os apóstolos. Não é dizer que não precisava Nosso Senhor ter pregado, porque em certo momento viria o Espírito Santo, e eles ficariam sabendo tudo. Não é. Precisava toda a pregação de Nosso Senhor antes, para depois vir o Espírito Santo e fazer a obra dele, tendo em conta o que eles tinham sabido de Nosso Senhor.
Assim também, tudo quanto nós levarmos de correto e de bom para o dia do Grand-Retour será o suporte necessário para receber as graças do Grand-Retour, e dar a elas a vida necessária. O suporte está nessas coisas.
(Dr. Edwaldo: O Reino de Maria é uma sociedade.)
É uma sociedade. E isso deverá viver na sociedade. Vai ser bonito que o Reino de Maria conserve esses traços, não é?
(Sr. Gonzalo: O próprio Grand-Retour parece ser uma graça especial para ver esse ponto com muita clareza, no senhor. O equilíbrio e o papel que isso tem na alma da Contra-Revolução… É a visão completa do senhor. Na visão completa, esse elemento, dado o pecado de Revolução, é um elemento capital.)
Capital. Dado o pecado de Revolução, é capital.
(Sr. Gonzalo: Há algo aí de muito nuclear.)
* Espírito aristocrático imbuído do espírito religioso
Você encontra uns certos elementos disso num dos livros, eu não me lembro se é do Átila ou do Solimeo, publicado por ocasião do estrondo aqui, em que eles tratam da questão do culto, legitimidade do culto à memória de mamãe. Então eles tratam… (Vira a Fita)
…o livro trata — livro com aprovação do Pe. Vitorino — trata da questão de culto. E desenvolve a idéia de que prestar culto é um ato de reverência, que não se deve só a Deus e aos Santos, mas a tudo aquilo que mesmo na ordem natural é superior a nós. Então, por exemplo, culto à bandeira, culto à pátria, culto aos pais… Mas não é como um ato especificamente religioso. É a homenagem que segundo a ordem natural das coisas a bandeira, como é símbolo do país, e outras coisas do gênero merecem ter.
E enquanto tal, existe, portanto, um ato — esse é o ponto —, um ato que sua essência tem algo de comum com o próprio ato religioso, um ato pelo qual a gente prestando reverência àquilo que é superior a nós, nós praticamos algo que participa por sua natureza do ato do culto religioso. Ou seja, há algo de religioso na reverência que se presta a essas coisas que são, por sua natureza, superiores a nós.
E honrar pai e mãe não é só prestar culto ao pai e à mãe, mas é a todos que são legitimamente nossos superiores. Por exemplo, o sujeito que falta com respeito ao professor, viola o mandamento “honrar pai e mãe”. O sujeito que falta com o respeitoao Chefe de Estado, viola este mandamento. ora, o Chefe de Estado, o simples professor de Geografia ou de qualquer outra coisa, são objetos naturais de um culto. Você está vendo como as duas coisas se relacionam muito intimamente.
E existe, portanto, uma mentalidade de culto, se você quiser — a palavra não é correta — cultual, existe uma mentalidade cultual, que presta reverência, que presta culto nesse sentido, a tudo quanto é superior. E que tem gosto em prestar culto, se sente realizado, e se sente contente em conhecer algo de superior, e tributar o respeito que deve tributar.
Este estado de espírito é por excelência o espírito religioso. O homem que tem essa mentalidade, tem a excelência do espírito religioso, que é um espírito de religar, de tomar os vínculos naturais do trato social, e estabelecê-los, reconhecê-los como eles são.
Uma coisa que não é claramente apontada pelos que olham o lado aristocrático da questão, é que esta situação envolve uma recíproca, e que importa numa relação pai-filho do cultuado para com o cultor. De onde toda a extensão que eu quis dar às exposições que eu fiz sobre o Toussaint, aquele preto da Ilha São Domingos, toda a extensão que eu quis dar, para mostrar como é o espírito aristocrático, não enquanto ele é visto de baixo para cima, mas quanto ele de cima vê os inferiores. Não tem nada de comum com o espírito democrático. É uma outra coisa. Mas é um complemento indispensável do espírito aristocrático.
Aí nós temos o espírito aristocrático no seu total. Mas que é todo ele, portanto, embebido de afinidades com o espírito religioso.
(Sr. Paulo Roberto: Pode-se dizer que o aristocratismo que irá impregnar o Reino de Maria, vai ter necessariamente algo disso que é a conjunção providencial no senhor dessas duas famílias, e são valores que não se restringem ao senhor, mas que vão marcar o Reino de Maria, se se pode dizer…)
É sim. E nem são privilégios dessas duas famílias. É preciso estender largamente pelo mundo.
(Sr. Paulo Roberto: Mas que no senhor houve uma conjunção muito feliz de tudo isso.)
Foi.
(Sr. Paulo Roberto: E que isso deve ser a marca registrada do Reino de Maria.)
É isso sim. Mas com muita amplitude. Não é coisa privativa de São Paulo, nem do Brasil, nem sequer da Civilização Ocidental. É uma coisa que deve estender-se pelo mundo afora. E, portanto, também por exemplo entre os negros. Para ir logo de uma vez ao pé da letra.
(Sr. Poli: Na conferência sobre o Toussaint o senhor deixou isso claro.)
Eu fiz a conferência sobre o Toussaint para dizer isso. Quer dizer, o caso do Toussaint como uma alma que morreu em odor de Santidade, etc., interessa muito, eu presto toda reverência. Mas sobretudo eu quis aproveitar a oportunidade para fazer ver com que respeito, com que amor, com que espírito de concórdia, com que espírito de religião, quer dizer de ligação, um homem nas nossas condições deve olhar um simples e modesto preto escravo.
(Sr. Gonzalo: Era isso mesmo. O Toussaint era um pretexto…)
Uma santa ocasião. E nisso eu deito todo empenho que seja assim. Deito todo empenho.
* A Contra-Revolução deve ser fundamentalmente anti-igualitária, marcar a piedade e a justiça de Deus
Agora, essas coisas, de fato, como a Revolução igualitária foi a fonte da impiedade, é preciso que a Contra-Revolução seja fundamentalmente anti-igualitária, e marque a piedade.
Com uma coisa que também é indissociável do Reino de Maria, e que está ligado ao Santo do Dia que eu fiz hoje à noite para os enjolras, que é a questão da justiça de Deus, e da obrigação que nós temos de prestar adoração à justiça de Deus, e culto à justiça de Deus.
Eu disse a eles o que vocês estão fartos de saber. É que imaginar um Deus a quem, de tanto misericordioso que é, falte a virtude da justiça, é imaginar um Deus caricato. Eu usei uma comparação boa para frapper a imaginação dos enjolras, eu disse: imaginem um homem com um rosto muito bem feito, um homem apolíneo. Mas, que por uma coisa qualquer tem um olho pendurado para fora da órbita, e preso à órbita apenas por um nervo. Esse homem fica todo ele horrível, apesar do rosto dele ser magnífico. porque fica um monstro.
Um Deus a quem faltasse a justiça, ou qualquer outra perfeição, poderia ser o que fosse, não seria um Deus. Porque Ele seria medonho!
Então dissertei longamente sobre a justiça, como a justiça deve ser, etc., etc. E dei exemplos, falei do inferno… Homem, escovei esse assunto per longum et latum. Por quê? Porque é o outro lado do espírito revolucionário com que quiseram adulterar a Religião Católica, apresentando um Deus do qual se tem a impressão que as ocasiões em que Ele foi justo, foram ocasiões em que Ele escapou-se a si próprio, mas que Ele não deveria ter feito o que fez.
Por exemplo, Nosso Senhor expulsando so vendilhões do templo. Conta-se, mas não se comenta. E não se pede aos alunos admiração pelo ato que Ele praticou. Ele fez isto, quase como quem diz: “Você sabe, nessa ocasião Ele perdeu a paciência.”
Fica dado a entender, no fundo, que foi uma ação de Deus que foi errada.
(Sr. Guerreiro: As cruzadas foi um erro a Igreja ter apoiado.)
Ah, sim, mas isso aí eu ouvi cantar em prosa e verso. Eu ouvi cantar nos meios católicos que João XXIII foi Núncio Apostólico em Constantinopla. E que ali ele tomou contato não só com os turcos, mas também com aqueles povos que ainda dependiam do Império turco, e que são ali da Bacia do Mediterrâneo, na Ásia Menor. Então sírios, libaneses, etc., etc. E que esses todos têm muita queixa dos cruzados, porque os cruzados pintaram o caneco, etc., etc. E que eles se teriam deixado converter se não tivesse havido a cruzada. Uma coisa que não vale a pena perder tempo, não é?
E que por causa disso resultou a João XXIII uma mentalidade oposta ao espírito de cruzada, e ecumênico. A verdade não é essa? (…)
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