Conversa
de Sábado à Noite – 15/6/91 – Sábado
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Conversa de Sábado à Noite — 15/6/91 — Sábado
A confluência de dois nomes ma expressão de uma personalidade: Corrêa de Oliveira e Ribeiro dos Santos * A audaciosa certeza da vitória dentro do securitarismo português * O sacrifício gotejando sangue, no duro e sem graça
(Sr. Gonzalo: Nós gostaríamos antes de mais nada dizer ao senhor que nos rejubilamos muito com o triunfo do senhor na Argentina e na França.)
Sobretudo no caso da Argentina, eu não me desfaço da hipótese de que isso estava vinculado com outros núcleos… (…)
* “Plinio Corrêa de Oliveira, um nome que não me exprime bem”
(Sr. Paulo Roberto: …que o senhor desse também algo da simbologia do nome do senhor, para mostrar o entrechoque que haveria entre a Revolução e o nome do senhor, em função desse antecedente histórico de Ninive, e isso que os comentaristas históricos dizem dos nomes, etc. Está ligado com a questão do todo, que o senhor tratou em Jasna Gora.)
(Sr. Guerreiro: O que há no fundo deste nome, desta pessoa, que produz essa espécie de choque no adversário, e para aquelas almas que têm um resto de bem, de inocência, o nome do senhor soa com muito atrativo, com muita cintilação, e dsesperta um grande atrativo. Tem uma gran percursão nas almas.)
A pergunta é boa, mas a questão é a seguinte. Eu mais de uma vez me fiz essa pergunta, e esbarrei com dificuldade de caráter minor, mas que me atrapalharam no caminho. Porque eu não acho, naturalmente vocês vão dizer que não é, etc., mas eu não acho que o nome Plinio Corrêa de Oliveira me exprima bem.
(Sr. Gonzalo: O senhor não acha?)
Não acho. Plinio é um nome pagão. É Plinio o velho, e Plinio o moço, dois naturalistas romanos. E não sei… Depois, outra coisa, o nome Corrêa de Oliveira, em português é um nome comum. Corrêa é um nome muito comum…
(Sr. Guerreiro: Corrêa de Oliveira não é comum.)
Não, é o nome de uma muito boa família, isso eu sei. Mas o nome não soa a nome de grande família. Soa como um nome comum. Eu acho que, por exemplo, o nome da família de mamãe é muito mais sonoro. Eu acho que… (…)
* A beleza de certos nomes
(Sr. Paulo Roberto: O simbolizado é que importa.)
Eu ia dizer isso. Eu estou tão sem cerimônia, que eu ia dizer isso. Ninive, por exemplo, de si é um nome bonito? Eu não acho. Lembra canção de ninar. Mas a questão é que, como a gente imagina como era Ninive, para designar aquela cidade que você sabe que era Ninive, o nome pega, e acaba interpretando a cidade. Mas eu acho, por exemplo, Babilônia um nome incomparavelmente mais expressivo do que nínive.
Eu não sei para prezados ouvidos colombianos como é que isso soam hem?
(Sr. Paulo Roberto: Jardins suspensos da Babilônia, por exemplo.)
É, por exemplo. Depois, Semiramis… É uma mulher prestigiosíssima. Deve ter sido muito cachorra, mas é uma mulher prestigiosíssima. Você fala de Semiramis, deixa Catarina a Grande da Rússia, que no gênero era uma grande cachorra, mas era uma grande mulher, deixa de longe… Semiramis é uma coisa… É como, por exemplo, Cleópatra, que eu considero um nome de primeira beleza. Cleópatra é um nome de primeira beleza.
Como certos nomes, por exemplo, da Idade Média, que eu achava uma verdadeira beleza, e que no meu tempo de pequeno ainda se usava às vezes. Algumas meninas, algumas moças do meu tempo, que chamavam Beatriz. Mas o nome hoje desapareceu completamente. Eu acho Beatriz um nome de toute beauté. Quer dizer, qual é a beleza de um nome, e qual é o mistério que pode se esconder atrás da sonoridade de um nome, é uma coisa toda especial.
Você veja, por exemplo, nome de Família. Por exemplo, …… é um nomezinho, não é? Agora, Habsburg é uma coisa que tem todos os prestígios e todos os veludos da realeza, e toda a força da combatividade e da garra política. Inteligência, etc., etc., é Habsburg, está acabado. Está liquidado o negócio.
Nessa tabela de nomes, não sei se vocês todos sentem esses nomes como eu. Vocês pegam, por exemplo, um nome brasileiro que eu posso mencionar, porque não tenho nenhum parentesco com eles, conheço por alto: Andrada. A Família Andrada e Silva do José Bonifácio, é um bonito nome.
(Sr. Gonzalo: Holanda Cavalcante.)
Holanda Cavalcante é muito bonito. Esses que estão aqui são Holanda Cavalcante.
(Sr. Gonzalo: Albuquerque Cavalcante também.)
Isso é outra família, é um outro ramo da mesma família. São bonitos nomes. Tem duas modalidades: uma é Albuquerque Cavalcante, e outra é Arcoverde de Albuquerque Cavalcante. Eu estou confundindo um pouco. Uma é Arcoverde de Albuquerque Cavalcante. A outra é Cavalcante de Albuquerque, sem Arcoverde. São familias aparentadas, são ramos de uma mesma familia.
(Sr. Guerreiro: Albuquerque Maranhão também.)
Albuquerque Maranhão é um muito bonito nome. Bom, mas são nomes que têm som. O que é que faz um nome ter som?
(Sr. Gonzalo: …)
Mas muito mais bonito para mim é Bourbon Penthièvre.
[Soubisse.]
Rohan-Soubisse. Você sabe o escudo dos Rohans, a divisa qual era, não é? Roi ne suis, prince ne daigne, Rohan je suis.
Bem, nome italiano, prodigioso de bonito a meu ver, mas é só para uma família principesca, é Esti [?]. É muito bonito. Mas um sujeito qualquer que anda na rua chamado Esti — Giacomo d’Esti — não quer dizer nada.
[Medina Coeli.]
Medina Coeli e Medina Sidônia. Muito bonito. Bom, Alba mais do que qualquer um deles. Alba é o nec plus ultra.
Agora, como é que soa para vocês o nome Bragança? Vocês de língua hispana? Acham insignificante por ser português?
(Sr. Merizalde: Pela sonoridade eu gosto.)
Bom, mas com toda franqueza, esses nomes brasileiros aqui soam para você bonitos, ou não?
(Sr. Merizalde: Acho muito bonitos. Mas acho-os bonitos em razão de ter conhecido o senhor…)
Ohhh! (…)
(Sr. Gonzalo: …se nessa pista o senhor podia analisar o nome do senhor.)
Eu vou ser muito sem graça, mas não tem remédio. Eu nunca me permiti análises dessas, de medo de megalice. De maneira que eu estou a pé.
* Jesus, um super nome
(Sr. Gonzalo: Assim como o demônio foge do nome de Jesus…)
Aliás é um nome… É um super nome, não é? Super nome! O nome de Jesus é de tal maneira um super nome, que eu não aprecio muito o sistema espanhol de dar o nome de Jesus a qualquer um. Mas eles fazem: Jesus não sei o quê, Jesus não sei o quê. Não. Jesus é um só, único, está acabado. Ninguém é Jesus.
E uma pequena coisa: eu acho muito mais bonito Jesus como nós dizemos, do que Iesus, em latim.
Mas eu de fato, meu filho, não tenho… É muito sem graça o que eu estou dizendo, pode até parecer heresia branca, mas eu sempre me procurei abster de considerações dessas, porque são considerações que podem levar a uma megalice, a que qualquer homem está sujeito. E precisa tomar muito cuidado.
Eu não me recuso a ter a conversa aqui com vocês sobre isso, mas me encontro muito pobre de reflexões, etc., sobre o meu nome. Os de outros não. Eu poderia falar indefinidamente….
* O nome Ribeiro dos Santos: aristocratizante, discreto, recolhido, doce…
(Sr. Poli: E o nome da SDL?)
Para mamãe não pegou bem o nome de Lucilia Corrêa de Oliveira. Ela é propriamente uma Ribeiro dos Santos. Todo jeito dela, tudo o mais, ela é uma Ribeiro dos Santos.
(Sr. Poli: Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira é um nome fabuloso.)
Eu acho o nome Ribeiro dos Santos muito mais bonito do que Corrêa de Oliveira. Eu volto a dizer: eu sei que genealogica-mente falando, Corrêa de Oliveira é muito melhor, mas o Ribeiro dos Santos tem uma qualquer coisa… Eu não sei se vocês sentem isso ou não, mas tem uma qualquer coisa que é de um aristocratismo discreto, recolhido, mas muito selecionado, e com qualquer coisa de doce, que havia em mamãe.
(Sr. Poli: Depois, o Lucilia….)
Lucilia também, vai muito bem o nome. Aquela senhora, por exemplo, do quadro lá, Gabriela Ribeiro dos Santos. É o nome. Se ela chamasse Gabriela Corrêa de Oliveira, não caía bem.
(Sr. Poli: Tem algo de benfazejo no nome de Lucilia, que vai muito de acordo com a ação dele.)
Tem, eu concordo. Depois você toma outros nomes, que são nomes fabulosos, fora do campo brasileiro. Por exemplo, Godefroi de Bouillon, é uma coisa fantástica. Assim você toma uma série de outros nomes.
* César e o seu “alea jacta est!”
(Sr. Guerreiro: Agora, o personagem comunica algo ao nome, que se ele não tivesse adquirido aquele gênero de personalidade que adquiriu, o caráter de virtudes, etc., possivelmente o nome dele não teria essa carga.)
Eu concordo.
(Sr. Guerreiro: Há outros nomes em que a pessoa foi grande, dando significado a um nome que de si não tinha esse valor.)
O episódio histórico, ou o homem ou a dama famosa marcaram o resto
Agora, isso se explica em parte pelo seguinte. Essas estátuas ou bustos de antiguidade, que diz que foi Cícero, ou que foi César, que foi não sei o quê, não tem muita garantia de autenticidade quanto ao personagem representado, porque eles não desculpiam o nome embaixo. De maneira que fica uma coisa opinitiva.
Foi por quê? Porque há uma velha tradição, mas uma tradição que passou por invasões de bárbaros, por tantas coisas que a gente não sabe bem o que é, o que não é. Mas eu vi um busto representando César, que exprime de tal maneira aquilo que foi César, que é uma coisa verdadeiramente espantosa.
É um homem de cabeça relativamente pequena, com um narigão, mas um natigão a la ave de rapina. É difícil imaginar um navio tão de ave de rapina quanto aquele. Em geral é preciso ter uma grande cabeça para suportar um narigão. Nenhum de vocês é muito narigudo, e eu posso falar, portanto, sem atingir ninguém. Eu examinei antes de falar, e achei que são narizes um pouco maiores uns, menores outros, como é normal por toda parte, mas nenhum é assim muito narigudo. (…)
É muito difícil que o nariz grande não dê à cara uma impressão de estante para carregar aquele nariz. O que é muito déplaisant, muito pouco piaccevoli. Mas no César, naõ. A gente diria que o nariz dele é pensante, e que todo o pensamento conflui para a ponta do nariz sob a forma de uma resolução: “Pensei, ergo resolvi!”
Agora, são olhos penetrantes, não muito grandes, tão pouco bonitos quanto podem ser olhos, não são olhos bonitos. Olho em geral é uma cosa bonita, mas nele é tão pouco bonito quanto pode ser. E o resto da cabeça dá a impressão de ocupada por um cérebro de primeira qualidade, que destila cristais vaporosos — é uma contradição cristal vaporoso — mas os pensamentos dele são cristalianos, evaporam-se na cabeça, saem cristais. E resoluções de ave de rapina.
A gente vê que foi um homem colocado na vida, em muitas ocasiões, nessas soluções onde vai tudo, em que o indivíduo é obrigado a jogar tudo por tudo, e que as grandes resoluções foram mais os grandes momentos da vida dele, do que as grandes batalhas e as grandes vitórias.
Então, a gente compreende todo o homem colocado na passagem daquele riacho, mas que significava a invasão da Gália, então enquanto província romana revoltada tinha um limite em relação à Itália, e ele invadindo a Gália, todo o resto da batalha da Gália, de belo Galica, estava jogada. Ele mediu, sentiu toda incerteza, e assumiu a incerteza. E assumiu não tanto por julgar que era a saída mais lucrativa, mas por julgar que era o risco que a arquitetura dos acontecimentos impunha tomar. É uma coisa especial. Qur dizer, a vida dele figuraria feia se ele tomasse uma retirada prudente ali.
Então era preciso, para conservar o pulchrum da vida dele, era preciso arriscar. Uma vez arriscado, precisa arriscar tudo, e cair em cima dos gauleses como uma fera!
Bem, isto tudo está consensado na fórmula: alea jacta est.
Agora, aqui o lado musical da frase. A frase é muito musical.
(Sr. Gonzalo: A frase terá tido sua repercussão pela História devido à musicalidade?)
A musicalidade concorre com os elementos anteriores, pelo jogo do alea jacta est. Mas também você veja: a palavra “jacta” aqui tem o peso de uma coisa que foi lançada, que foi atirada. E depois o “est” é o ponto final: pum! Caiu. Eu me joguei, agora vou entrar na bagunça.
Então fica muito bonito. Mas são circunstâncias especiais.
(Sr. Guerreiro: O espírito dele imprimiu àquilo uma forma de força, de graça, de encanto, que paira através de toda a História.)
E o estralo da primeira chicotada no ar que ia depois começar o chicoteamento dos gauleses: pam, pam!
* “Pela audaciosa certeza da vitória, com o pouco que tenho, é que eu não quero perder nada do que tenho”
(Sr. Guerreiro: O senhor não gostaria de comentar um pouco mais todo esse assunto? A gente percebe que o senhor teve momentos em as profundas cogitações do espírito do senhor tomaram vida, o senhor imprimiu-lhes um verbo. O verbo se fez no espírito do senhor.)
Você sabe, com risco de desapontá-los, mas achando sempre que a verdade é, para cada um, o que há de mais belo a sustentar — não tem remédio — eu digo o seguinte. Eu sei que, pelo favor de Nossa Senhora, tomado muitas atitudes muito corajosas ao longo de minha vida. Eu sei disso. Muito temerários, em que eu tenho jogado tudo.
Mas, no fundo do meu espírito, por mais que sobretudo o Gonzalo e o Luiz Daniel se desapontem, existe muito do espírito securitário português. De maneira a pesar o pró e o contra, o pró e o contra, até o último ponto. E em geral me resolver, depois de muito pensado, muito mais pelo temor do contra, do que pelo desejo da vantagem do pró. Quer dizer, muito mais em atitude de defesa, do que em atitude de ataque.
Agora, isso que parece muita modéstia eu dizer, eu vou mostrar o outro lado como, para vocês verem assim o espírito humano quando se põe a nu inteiramente, como é.
Acontece o seguinte. Que isto provém, entretanto, de uma posição muito audaciosa. A convicção é a seguinte: é que se eu conservar íntegras certas condições de luta com as quais eu nasci, no fundo Nossa Senhora me dará a vitória. E se eu permitir que essas condições de luta sejam desfalcadas, sem razão muito madura, eu perderei essa ajuda.
De maneira que é pela audaciosa certeza da vitória, com o pouco que tenho, é que eu não quero perder nada do que tenho. De maneira que entra uma audácia e uma coragem muito grandes, em ter a certeza da vitória com tão pouco. Mas, entra então, pela obrigação de desejar a vitória, uma obrigação de poupar as circunstâncias até o último ponto, porque eu poupo a vitória que está prometida. Está bem claro isso?
Então, em atitudes de minha vida que revelam uma coragem muito grande, há mais espírito de sacrifício do que propriamente coragem. Quer dizer, o seguinte. Eu tive que, em certas ocasiões de minha vida, expor a grave risco o pouco que tinha, e expor inteiramente, para evitar para a causa uma ruína completa. Mas aí eu fiz a coisa assim: é certo que a causa sofre uma ruína completa se eu não tomar tal atitude, e nessa coisa eu me exponho à ameaça de um esmagamento completo. Mas, do que é que me adianta ter o pouco que eu tenho, se a causa para a qual eu existo fica comprometida de modo irremediável?
Então eu vou jogar!
Bom, mas isso é feito, em geral, com tanta ponderação, com tanta dor — porque eu sofro com isso — e custa tanto chegar à conseqüência, que a deliberação final é muito bonita, porque ela é muito séria, e se cumpre inteiramente: eu faço mesmo. Mas, ela não tem a beleza artística. Eu não termino isso numa atitude bonita: “Venceri, ergo…!” Não. Eu termino achando-me a mim mesmo sem graça, achando meu sacrifício talvez mal recebido por Nossa Senhora, por ser oferecido por mim, e com a dúvida seguinte: “Esse sacrifício eu deveria fazer, mas as mãos que oferecem esse sacrifício estão à altura do oferecimento que estão fazendo? Agora chega a hora do seu exame de consciência. Preste atenção.” E a coisa termina no exame de consciência.
Você compreende que não é da beleza do alea jacta est. Não tem a beleza do alea jacta est.
(Sr. Guerreiro: Ele não tinha tido o Batismo…)
Não era batizado. Era um pagão. Quer dizer, as resoluções que eu tomo nesse sentido são resoluções penosíssimas, mas tocadas assim…
(Sr. Gonzalo: O senhor poderia dar um exemplo?)
O exemplo mais característico foi o “Em Defesa”. Porque no “Em Defesa” eu joguei tudo.
* O que o SDP herdou pelo lado de Dr. João Paulo e pelo lado da SDL
(Sr. Gonzalo: O senhor disse que tinha essas características de luta com que o senhor nasceu…)
Não, eu exponho o pouco daquilo com que eu nasci.
(Sr. Gonzalo: Mas aquilo são elementos de luta. E seriam quais, por exemplo?)
Meu filho, eu falo com toda franqueza. Quer dizer, do lado de papai um grande nome de Família, e grandes alianças com aquelas maiores famílias todas de Pernambuco, etc., e o grande nome do João Alfredo, que é um nome de Monarquia e não de República, e que recebe daí uma limpeza que a República não comunica aos seus grandes homens. E o Tio João Alfredo era um símbolo da Monarquia. Ele foi, durante o período em que esteve em vida a Princesa Isabel, o Presidente do Diretório Monárquico no Brasil, designado por ela o tempo inteiro, numa correspondên-cia contínua com ela, etc., etc. De maneira que tinha isso.
Mas, de outro lado, a vantagem… (…)
…teve constantemente homens importantes em nível provincial. O que não é sinônimo de provinciano, hem? Num país grande como o Brasil, provincial e provinciano são coisas muito diferentes. E depois, sobretudo São Paulo. Em São Paulo, Minas, Rio, e Estado do Rio Grande do Sul, isso é completamente diferente.
Depois, o lado de mamãe, pelo contrário, é um bom nome de Família, mas muito menos bom do que o de papai. Também não era gente riquíssima, mas era gente muito abastada. E sabendo dar ao abastado uma certa forma de polimento, de categoria, que vale mais do que o luxo.
(Sr. Guerreiro: Isso é uma flor do espírito.)
Exatamente. Uma flor do espírito e do modo de ser. Eu conheci a eles todos, eu fui um deles, e sabia o que era, por exemplo, uma reunião de família deles, neste ambiente assim. O que tinha, sem espalhafato de grande riqueza, de selecionado e de… era uma coisa especial.
Bom, mas que completa muito o que vinha do Norte. E que formava um total realmente muito vantajoso.
E eu tratei de valorizar isto quanto possível, para o bm da causa. Porque eu sabia bem que essas coisas me seriam um peso. Porque seriam títulos para eu megalar, tanto mais que, seja dito — eu vou só falar de São Paulo agora, nenhum outro Estado do Brasil — mas… (Vira a Fita)
* O sacrifício gotejando sangue, sem graça e no duro
…pouco a capacidade de explicitar, etc., que é uma vantagem para o espírito muito grande, mas que dá megalice. De maneira que eu sabia que eram fardos que eu ia carregar do lado da vida espiritual, ser desapegado dessas coisas, não megalar nunca, mas conhecer o que é, e saber fazer valorizar para o bem da causa.
Com uma circunstância a mais… Eu estou me pondo aqui em trajes matinais, mas para ser inteiramente franco, há uma circunstância a mais dentro disso, que é a seguinte. É que eu percebi desde logo que eu nunca me vestiria bem. Por uma série de defeitos, os mais inesperados, entre os quais — eu já contei isso — eu tinha uma vista em moço excelente, privilegiada, eu não sabia ver manchas em cima de tecidos. Não sabia ver! Mamãe às vezes falava: “Filhão, você não vê essa mancha?” Eu olhava e dizia: “Mamãe, não vejo a mancha. Onde é que está?” Ela desenhava: “Olha aqui”. Eu: “Mas, meu bem, eu não estou vendo…” E eu não via a mancha mesmo. Eu cheguei a pensar em ir ao oculista, mas depois vi que era bobagem, porque era uma vista esplêndida. Não via.
Depois, outra coisa: o escolher tecido bonito, essas casimiras… Eu não sei. Gravata… Eu não tenho nada que ver com isso. Sapato… Nada disso tem que ver comigo. É uma coisa que eu ponho para… Mas não me exprime. Eu tenho a sensação de estar vestindo a roupa de um outro.
Agora, o resultado é que eram handicaps contra, e que eu tinha que saber fazer valer. Bom, nisso tudo uma situação assim precária, portanto.
Agora, jogando o “Em Defesa”, eu tinha certeza que o improvável que se realizara miraculosamente, é que eu, o isolado, o repudiado, ter se transformado de repente num líder católico nacional, que isso viria água abaixo, e que não apareceria em minh vida outra oportunidade para restaurar aquela situação, como de fato não se restaurou.
Eu tive que estrangular meu próprio pescoço, e dar aquilo de presente. Agora, foi um presente sem beleza. Não tem o gesto de Condé em Rocroi. Não tem nada. Não tem a maturidade dos cercos de Turenne. Não tem nada. Tem o sacrifício gotejando sangue, sem graça e no duro!
(Sr. Gonzalo: Tem a beleza da Paixão de Nosso Senhor.)
É, mas o que é d’Ele não tem limite!
* A humildade e a severidade consigo mesmo impedindo de ver os lados positivos
(Sr. Gonzalo: Mas o mal que o “Em Defesa” tem feito, faz e fará à Revolução até o fim do mundo, Rocroi fica desse tamanho, Turenne fica uma formiga, e depois vão perguntar quem são esses personagens…)
Isso é fora de dúvida. Bem, mas enfim,, na preocupação de evitar megalice, e na preocupação de fazer exame de consciência, e exame de consciência bem feito, que me apertasse bem, eu acabei só vendo em mim os lados negativos. E quase que não saberia falar dos lados positivos, a não ser a coisa meio de superfície, quase mundanas, como essas que eu falei. E daí o fato de eu também ter dificuldade de relacionar o meu nome comigo, e todas essas coisas, não é por uma humildosa de Heresia Branca, mas é porque eu me encarei de tal maneira que não sei fazer de outro jeito.
Bem, meus caros, fugit irreparabile tempus…
Eu achei que vocês acharam a reunião sem graça.
(Sr. Gonzalo: Não! Uma reunião magnífica!)
Mas uma coisa vocês não esperam de mim, e não devem esperar: é que eu pinte a verdade de bonito, para agradar meus amigos. Isso não. Ela tem que ser apresentada como ela é. Se ela é feia, é feia. Pronto, acabou.
Vamos rezar a Oração da Restauração.
[Orações finais.]
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