Conversa de Sábado à Noite – 30/3/91 – Sábado – p. 9 de 9

Conversa de Sábado à Noite — 30/3/91 — Sábado

O alcândor, a inocência e o holocausto na pessoa do Fundador

* O alcandor é uma espécie de ponto de referência de tudo quanto a alma pensa, faz e para onde ela se move

Diga meu filho.

(Sr. Guerreiro: […] É dessa visão alcandorada que vem toda vitalidade… […] O senhor não podia tratar dessa questão do alcandorado?)

Um pouquinho sempre pode se tratar. Eu tenho a impressão de que sobre o alcandorado da coisa, poderia se visto da seguinte maneira. É algo que se vê com toda nitidez na inocência da infância — isso não é nem sequer uma descrição, eu estou apenas entrando no tema — mas é algo que se vê com toda nitidez na inocência da infância. E naturalmente vê com um matiz próprio a cada alma, que está ligado à luz primordial de cada alma.

Agora, desta visão decorre um crescimento, se a alma é fiel, nós temos que imaginar, para alcançar o píncaro do alcandor, nós temos que imaginar alma fiel, que continua ser fiel e portanto, vai subindo. Nós temos que imaginar uma presença tão robusta desse alcandor dentro da alma, ou um alcandor tão robusto, que permanece na alma como uma espécie de ponto de referência de tudo quanto a alma pensa, faz, para onde ela se move, etc., etc., é o ponto de referência.

Mas com o tempo, com a maturidade, todas as coisas vão sendo conferidas com esse alcandor de maneira a saber até que ponto a elas cabe ou não cabe esse alcandor; até que ponto fica ou não fica dentro dela essa alcandor, e as coisas medidas segundo a linha, segundo o padrão essencial desse alcandor. E este serviço feito, fica então uma concepção de todas as coisas, e é ordenada segundo esse alcandor e que é, portanto, a penetração do alcandor em tudo. Mas nisso o alcandor toma uma espécie de robustez que está para com a condição dele na infância, como o sol do meio dia está para o sol da aurora. A aurora tem seus encantos, etc., etc., mas o sol do meio dia é a plenitude da aurora. E plenitude é plenitude. Então chega um ponto onde aquilo toma toda a alma da pessoa, toda a concepção das coisas da pessoa, etc.

* Esse alcandor se identifica de algum modo com o próprio Espírito da Igreja Católica

Bem, e daí nasce um ponto terminal, quer dizer, que convicção, mas convicção firme, robusta, etc., em que esse alcandor encontra sua origem, seu ponto de partida, por assim dizer sua matéria-prima dentro da graça à qual só se encontra dentro da Igreja Católica Apostólico Romana. Enfim, em última análise nós sabemos que a Igreja é a morada dos Espírito Santo, que o Espírito Santo é a alma da Igreja, e que, portanto, esse alcandor se identifica de algum modo com o próprio Espírito da Igreja Católica. E aqui a idéia de que a vida tem um sentido, ela tem um termo, mas o desejo de viver para o alcandor vencer, e o desejo de morrer quando já não há mais para fazer vencer o alcandor na terra.

Não sei se está claro?

* O céu é por excelência o sol do alcandor, é o paraíso do alcandor

(Sr. Paulo Henrique: A vida tem um sentido e tem um termo…)

O termo é esse, é levar o alcandor a este ponto.

Agora, também obtido esse ponto e prestado ao alcandor esse serviço reevindicatório que se deve levar, de tal maneira que sintamos que foi até onde nossas forças deram, a vontade de morrer por ter certeza de encontrar no céu. Quer dizer, o céu é por excelência o sol do alcandor, é o paraíso do alcandor. E afinal de contas esse alcandor não é senão um reflexo de Deus em todas as coisas na alma que vê em todas as coisas Deus, e, portanto, uma coisa que dá a esperança da visão beatífica.

Agora, então o que é que é esse alcandor primeiro, que é o ponto de partida de tudo? Como é que se pode descrevê-lo? Como é que se pode defini-lo?

Primeiro a descrição: é um estado de alma em que tudo é leve, tudo é diáfano, tudo é feito de bem-estar, tudo é feito de alegria, tudo é feito de despreocupação, tudo é feito de esperança, e tudo é feito de admiração. Propriamente admiração é a vela motriz do alcandor. É porque a alma inocente vê tudo isso e admira, ama portanto, vê a beleza disso e a ama, e se dá a isto, é por causa disso que se forma o pacto da alma com o alcandor que faz dessa alma uma alma admirativa própria a admirar tudo, própria a se encantar com tudo, que merece. Não é qualquer bagatela, seria um bobo, mas é o que merece. E por esta forma a encontrar na terra um verdadeiro prenúncio do paraíso.

Agora, a gente compreende que uma alma assim, morrendo vai para o céu. Que Deus corte a vida de uma alma e que nesse estado e sem se conspurcar nas batalhas com as primeiras águas sujas do pecado, que essa alma morrendo vá para o céu. Porque ela quase se diria que está no céu.

O que ela tem dentro de si, é um prenúncio, é uma prelibação do céu, é o beber um pouco algo do céu.

* Uma sensação do alcandor muito freqüente na infância é a impressão da própria leveza

De todas as sensações do alcandor, uma que eu não manifestei, ao menos pelo que diz minha péssima memória, eu não manifestei no MNF, por me escapar, mas que me era muito freqüente na infância, e provavelmente era para vocês também, é a impressão da própria leveza. Não sei se vocês tinham a sensação disso. Como a alma é leve, como o corpo é leve, como todas as coisas são leves, como elas são agradáveis, como elas são deleitáveis, etc., tudo isso faz parte do alcandor.

* O fatinho sobre o sono no corrimão: “o dormir aqui é tornar-me provisoriamente um ponto de confluência de todas essas coisas tão bonitas e tão congêneres”

Eu me lembro uma coisa que contada como eu contei, era uma estrepolia de crianças, mas que de fato é um gozar do alcandor. É um episódio meu — menino bem menininho ainda — que fui dormir no corrimão de um terraço de casa. Era uma dessas casas com dois pavimentos: andar térreo é quarto de empregados e porão onde se guardam móveis eventualmente antigos, e eventualmente reaproveitáveis.

Bem, e em cima mora a família onde tem toda residência da família. Havia ali um andar que estava alto em relação ao chão mais ou menos como aqui o chão deste piso em que estamos possa estar alto em relação ao chão da rua. Para uma criança cair, é uma boa altura, dá para morrem bem à vontade.

Bem, o que é que me levou à idéia maluca de me deitar naquele corrimão — é preciso dizer que era um corrimão bem largo também, mas largo do que a larga aquela cômoda que está lá…

(Sr. Gonzalo: Mas de qualquer maneira é…)

É exíguo.

(Sr. Gonzalo: A Senhora Dona Lucilia deve ter passado muito susto….)

Um susto enorme.

Mas afinal de contas, o fato concreto é que a idéia era essa. Era um dia bonito, o jardim… A criança é levada a ver como bonitas muitas coisas que depois ela verá que tinham uma beleza que era o alcandor daquilo, não era propriamente aquilo. O jardim, era um jardim bom de qualquer casa, não era um jardim bonito, mas eu via como bonito. O jardim bonito e o terraço com um ladrilho, uma coisa assim, para calçar terraço que também eu achava bonito. E o fundo da idéia era de que como aquelas duas coisas eram muito bonitas, era bom dormir um soninho agradável na linha de sutura das duas coisas bonitas. Como que nutrindo-me do belo que havia em ambas. E num ponto onde batia o zéfiro que vocês podem imaginar que possa haver num bonito dia, numa São Paulinho ainda sem poluição, quase sem indústria e portanto, ainda sem poluição; onde eu via os passarinhos saltitando — eram tico-ticos — saltitando no jardim, e eu via a parede e depois o chão desse terraço.

É até uma coisa curiosa que na minha sala na rua Maranhão, o piso daquele terracinho que tem do lado de fora, é exatamente o piso que havia nesse terraço.

Eu me lembro até que uma vez levando minha irmã para visitar a coisa, eu cheguei naquele terracinho, estava em pé lá, e ela olhou um pouquinho lá para fora, eu olhei para baixo e disse a ela: “Isso não te diz nada?”

Ela disse: “Ah, é; é o piso do terraço da casa de vovó”.

Eu disse: “É sim”.



Ela que não era uma pessoa tradicionalista, voltou-se para mim e me disse: “Mas olha aqui, por favor, não mande quebrar isso e arrebentar para substituir por outra coisa, deixe isso existir”.

Vocês vêem o que era a coisa.

* Por haver muito alcandor em mim, eu alimentava esse alcandor na fruição simultânea de várias coisas alcandoradas.

Eu me lembro ainda que eu senti o vento bater sobre mim, e senti a luz, sentia tudo, e que era uma espécie de síntese. O problema de segurança nessa idade interessa muito pouco, eu me estiquei e disse: “O dormir aqui é tornar-me provisoriamente um ponto de confluência de todas essas coisas tão bonitas e tão congêneres que estão aqui. E é como que encher-me de alguma coisa de muito boa que tem aqui que fica convergindo em mim”.

Mas a verdade era o contrário. É que por haver muito alcandor em mim, eu alimentava esse alcandor na fruição simultânea de várias coisas alcandoradas.

Eu não saberia explicitar naquele tempo, mas eu noto hoje, eu sei, eu me lembro bem da impressão, e sei explicitá-la hoje. E a explicitação é essa.

Agora, o que é que é esta esta luz que bate assim nas coisas e que lhes dá uma beleza que está menos nas coisas do que na luz?

Lembro-me muito bem que lendo uma coisa sobre aquele — como chama aquele pintor italiano que eu gosto muito que pintou o sol? — Claude Lorrain, que pintava na Itália. Ele pintava, por exemplo, às vezes, muros leprosos batidos pelo sol e ficando lindos. E alguém fez sobre o sol pintado por Claude Lorrain, esse versinho, é uma estrofe só: “Le soleil sens lequelle, les choses ne serait que ce qui elles sont” — “O sol, sem o qual as coisas não seriam senão o que ela são”. O sol batendo nelas, iluminando-as, fazendo-as ver melhor, entretanto dá a elas uma coisa que está nele, não está não as coisas. O sol aumenta a objetividade de todas as coisas. Mas faz parte dessa objetividade que ele põe as sua impronta ali, a sua própria luz que dá uma beleza que a luz em si não tem. Esta inocência é altamente embelezadora, altamente embelezadora de uma beleza…

* A graça faz com que cada homem tenha uma visão “Claude Lorrain” da vida

(Sr. Paulo Roberto: É muito bonito isso que o senhor está dizendo.)

É isso mesmo. Não fui eu quem fiz, eu estou me resumindo a narrar. Mas é magnífico!

Isto, que eu me lembro que havia em mim, era tudo isso, mas era a graça. Eu tenho certeza que isto era a graça. E essa graça resultante da graça que Deus dá a todos, mas resultante do batismo e da condição de filho da Igreja Católica, etc., etc, que faz com que cada um tenha uma visão Claude Lorrain da vida, mas iluminada pelo seu próprio sol interior, e que faz com que várias almas inocentes podem fazer convergir o que vários alcandores e formar uma coisa linda.

Uma coisa que eu me comprazo muito em pensar, etc., são os sete Santos Fundadores da Ordem dos Servitas de Maria. Por quê? Porque são sete co-Fundadores simultâneos de uma ordem religiosa que à medida que morriam ia sendo enterrados em sepulturas juntas ou na mesma sepultura, eu não sei bem, o fato é que as cinzas deles se misturaram inexplicavelmente e que são veneradas como uma só relíquia. Como as luzes-primordiais deles com certeza constituíam uma espécie de soma, de junção de várias luzes primordiais, de várias pulchritudes, etc., etc., dando uma coisa especial. Bem, este é o ponto de partida.

* A chave para a compreensão da Igreja Católica

Agora, a chave da Igreja Católica, da compreensão da Igreja Católica é quando a gente a olha com esta luz, e percebe que daí, da Igreja procede — a gente antes não percebia — mas procede uma coisa que a gente mais tarde vê que é a graça, mas que nos deixa ver que reside na Igreja um espírito que é o alcandor imaginário mais alguma coisa — mas é uma coisa puxada de reconhecer, eu vou dizer daqui a pouco qual é que ela é —, mas que nos faz notar, o próprio alcandor nota, que a Igreja é um organismo vivo, não é como as demais coisas que a gente vê e aprecia, admira, mas são inertes, mesmo quando são vivos, quando é um pássaro, quando é uma borboleta, ou quando é outra pessoa, a gente não vê o que vê na Igreja, a gente pode ver que uma alma é alcandorada, mas a gente não vê que um foco que produz o alcandor. E na Igreja a gente nota que é um foco que produz o alcandor, e que a gente conhece na meditação das pessoas de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora.

Quer dizer, considerando-Os, Eles são tão, tão superiores e na linha do alcandor, que por exemplo, quando a gente considera o Sudário de Turin, o que tem ali de alcandor é uma coisa que não tem palavras, de si é um milagre. É um cadáver! Mas a gente olha para aquele cadáver… Acabou-se! Não se trata mais de descrever, não se trata de nada senão viver. Mais ou menos como será a visão beatífica no céu. É, olha, e olha!

* Com o Santo Sudário é isso: “Ver-se, estar juntos e querer-se bem”

Aquele dito de mamãe: “Ver-se, estar junto e querer-se bem”, com o santo Sudário é isso. Olhar, estar perto, e querer-se bem. Não tem outra conversa. É isso. Mas que ali é o foco.

Em Nossa Senhora com a delicadeza do amor materno que no fundo é uma irradiação do próprio Coração de Jesus, e que a enche, que Nossa Senhora também tem isso. A gente olhando para Ela, é assim.

* Imagem de Nossa Senhora de Fátima: algo que está nela é este alcandor

Vocês hoje à tarde estiveram no auditório novo, para assistir a missa, não é? Devem ter visto a imagem de Nossa Senhora de Fátima que está colocada lá. Muito bonita! Muito, muito, muito boa. Mas algo que há nEla é este alcandor.

(Sr. P. Roberto: Quando caiu o pano via-se isso…)

Não é?

(Sr. Gonzalo: O senhor gostou muito.)

Eu achei estupenda! A Sagrada Imagem é superior. Mas essa é uma coisa… E depois dá um agrado de ver, que é uma coisa superior. Absolutamente superior.

Bem, então vem agora a nota dura que se acrescenta ao alcandor. É a dor. Porque até aqui eu descrevi o alcandor virgem da dor, ele não foi atingido pela dor, ele não sofreu, ele não deu, ele apenas viveu. Mas há um momento da vida em que a dor começar a entrar na vida do indivíduo. E ou o indivíduo tem pessoas que sofrem alcandoradamente e que dão ao homem a admiração da dor, e a compreensão de que a dor completa o alcandor, é um véu funerário sem o qual a vida não tem sentido. Então a pessoa fica admiradora da dor, admiradora do sacrifício, admiradora do holocausto, a própria palavra holocaustro dá o último achevé; o último acabado do alcandor é o holocausto inocente que se oferece para completar algo que falta não só em si mas na ordem das coisas posta nessa terra, a simples idéia do holocausto virginal, é a única palavra capaz de fazer crescer o sentido da palavra virginal, é a palavra holocausto.

Não sei se eu estou conseguindo…

* A única coisa que eleva a virgindade muito acima de si mesma é o martírio; e a única coisa capaz de adornar o martírio é a virgindade

(Sr. P. Roberto: Virgem e mártir…)

Virgem e mártir. É tão simples: “Fulana, virgem e mártir”. Mas a gente compreende o mundo que está nesses dois adjetivos. Santa Cecília, virgem e mártir. Pronto! Mas o que há nesses dois adjetivos é uma coisa colossal! Quer dizer, a única coisa que eleva a virgindade muito acima de si mesma é o martírio. Mas a única coisa capaz de adornar o martírio é a virgindade. Uma reversibilidade prodigiosa.

Então, há um momento… é uma espécie de momento solene dentro da criança em como que bate um bumbo. Bomm! Bom! Aquele bumbo dos nossos eremitas. Bom! Bom! Bom! Bom!, e entra a dor, entra o martírio e se senta ao lado da virgindade. E pede à virgindade este holocausto, que consinta nisso. E aí se forma o herói, é quando ele olhou para a dor, percebeu o alcandorado da dor, não a recusou, e entrou dentro dela, foi tomando uma outra luz, além da luz do alcandor, uma outra luz que é a luz do holocausto que vai tomando conta dele, e que vai fazendo… o que são as coisas.

A capacidade da criança de se sentir muito dolorida por bagatelas, por exemplo: quer muito bem uma pessoa e percebe, de repente… Mas com aquela capacidade de afeiçoar-se que tem a criança inocente, não é essa capacidade de afeiçoar-se calosa, de uma pessoa que ao longo da vida foi deixando cair tesouros de virgindade, e tesouros de sacrifícios no chão sem aproveitar. Mas é uma alma que é capaz de sofrer, sabe dar valor a uma decepção por causa de uma amizade que tinha e que não foi retribuída; percebe e se encolhe. E vem a pergunta:

Será tudo assim? Ou ao menos será habitualmente assim? E a decepção tem um lugar dentro de minha vida, um lugar comum, a decepção na qual eu queria dar uma coisa perfeita e recebo como retribuição uma porcaria, isto é o caminho da vida?”

Vocês devem também saber por experiência própria como isso faz sofrer na infância. E as interrogações que vêem e depois olhar em torno de si e compreender que não pode falar com ninguém porque vai receber consolações estúpidas: “Não, não pense nisto! Olha aqui, coma aquele pedaço de pão de mel que está lá com manteiga, está gostoso, e agora vá passear”.

A gente come o pão de mel, a gente vai passear, mas passeia pensando nisso e o pão de mel que a gente come esquece logo. E o passeio o que acompanha a gente é a decepção. É forçoso.

* A alma inocente não se revolta, ela tem a capacidade de compreender que as sombras da vida vão passando uma espécie de fuligem sobre o cristal da vida

Bem, a alma inocente não se revolta, ela tem a capacidade de compreender que isto é assim e que ao longo da vida vai ser assim; e as sombras da vida vão passando uma espécie de fuligem sobre o cristal da vida. E a gente vê que tal coisa é assim, que tal outra é doutro jeito, e que acontece assim, e que não era, ta-ta-tá.

Uma criança faz uma composição para o colégio, pensa que a composição está linda. Na hora do padre devolver — estou imaginando o colégio de padre, porque estudei em colégio de padre — devolver a composição, nota 4. Desaponto, chega em casa para a família e diz ingenuamente: “Olha aqui, fiz uma composição tão bonita e recebi 4”. Ninguém está querendo conversar sobre a composição, nem está querendo conversar com ele sobre a dor dele da composição que está mal feita, porque cada um tem sua vida, e não quer carregar aquilo que para ele é uma dor grande, e que para os outros parece uma bagatela. Afinal de contas ele dá um certo jeito e diz: “Está bom, leia a sua composição”.

Lê, e o pai — são coisas que as mães não dizem, não dizem como eu vou dizer — o pai, o irmão mais velho, um primo, um tio, às vezes até um amigo da família diz: “Mas isso aqui é uma composição que não vale nada! Olha aqui, tem tantos erros de português. Depois não tem graça o que você disse”.

- Mas eu disse que a rosa era linda!

- Mas isso todo o mundo sabe que uma rosa é linda, você disse uma banalidade. É preciso que os outros sintam a beleza da rosa no que você escreveu, não basta dizer que ela é linda. Você precisa aprender melhor isso.

Bem, ninguém tem pena, muda de assunto, e deixa o sujeito com embaraço: “Eu vou pedir para o meu professor para me ensinar a fazer sentir a rosa é linda, meu professor também não sabe. É um mondrongo que eu estou vendo à distância que não sabe isso. Se eu for dizer em casa, meu pai se zanga porque eu estou falando mal do professor, que ele viu pessoalmente e tem cara de bom chefe de família. E o bom chefe de família pode não saber descrever rosa. Agora, como é que eu vou saber fazer uma composição bonita?”

Bem, são mil coisinhas assim, que vão marcando o passo: bam! bam! A gente faz o papel daquela membrana do tambor, e bam! Bam! Há momentos, conforme for, se a alma não amou bem a inocência, não fez bem um só com a inocência, ela vai depositando amargura dentro de si. Acumula amargura!

- “Não é assim. São injusto comigo! Todo o mundo é injusto com todo o mundo. Isto aqui é uma coisa que não tem saída! E em que porcaria eu estou metido! Conseqüência, eu vou ser ruim para os outros como os outros são ruins para mim. E vou tirar meu partido da vida na medida do possível; em última análise pelo prazer da vingança. Mas eu vou fazer.

(Sr. P. Roberto: Quando se entra no Grupo se dá uma ressurreição…)

Isso.

(Sr. P. Roberto: Quando se conhece o senhor isso aí revive e a gente começa a ter fé …)

Naquilo que a inocência dizia.

Mas sabe o que que acontece, meu filho? É o seguinte. Isso é tão amargo, que o sujeito durante esse tempo fabrica para si outra fonte de prazeres. São os prazeres da maldade. Então, o prazer de fazer um debique com êxito, de criticar com satisfação, de alegrar-se quando vê o outro que fracassou. De ser de pedra com aquele que nos implora aquilo que nós já imploramos e que os outros não nos deram. E esses falsos prazeres da vida, viciam o sujeito como uma droga, e quando o sujeito entra no Grupo tem o concurso entre os dois prazeres.

Não sei se eu continuo claro ou está muito…

Bom, agora, o que é que acontece? É que é assim a marcha das coisas. Você entra o Grupo e vem esse thau. Mas depois entra a dor e repete a coisa. E é sob a forma de uma espécie de desencanto um tanto parecido com o desencanto primeiro: “Fulano não é como eu imaginava. Sicrano tal… No total o Grupo não é o que eu imaginava”.

* A alma que amou bastante o thau fará como a alma que na infância amou bastante a inocência

(Sr. P. Roberto: Do senhor não se pode dizer isso.)

Graças a Nossa Senhora não pode, mas há um outro lado: “Ele sozinho está querendo que eu siga com ele um caminho que eu quis seguir duas vezes na vida e que não anda. E ele não é para mim, algo que baste para eu seguir esse caminho. Eu não seguiria esse caminho sem ele, mas só ele e eu não vamos. Ele está sozinho, e eu não ando com um homem só”. Aí vem o tédio, e vem as coisas que são a provação. A alma que amou bastante o thau fará como a alma que na infância amou bastante a inocência, dirá: “Eu agüentarei!” A alma que não amou bastante o thau se transvia. (…)

Acontece que a questão é numa certa rotação da vida, nós termos a graça de dizermos sim. Mas há uma coisa muito bonita que é a seguinte: em algumas almas o fato é menos simples do que eu estou dizendo. E as pessoas embora não andem como deviam, conservam uma parte do pano da bandeira ligado ao mastro do navio. Vem as tempestade, dilaceram o mastro, mas uma parte do pano fica ligado ao mastro. E o navio passa por tudo, acontece de tudo, etc., etc., uma parte fica ligada. São as almas que disseram não, mas não um não completo. Um não que seria mais ou menos o seguinte: “Volte mais tarde que eu ainda te espero. Na hora eu digo não, mas eu tenho um soluço no fundo da alma, porque eu te digo não. Eu te levo comigo e fico contigo, e haverá um momento em que nós ainda nos encontraremos”.

Para essas almas, Nossa Senhora conserva as conversões, e as grandes conversões.

E aí vem a terceira coisa. O inocente, quer dizer algo da inocência que resta que ainda vive, bate alguma graça ali, e continua a viver, mais em holocausto com possibilidade de ser mais pura e mais inocente do que ela foi jamais. É o terceiro ato. (…)

um holocausto que andam de braços com o holocausto da inocência e formam um todo só. Então a gente compreende que uma alma ao apresentar-se diante do juízo de Deus, se ela está em ordem aparece como que coroado de rosas e de espinhos. A gente compreende isso. Mas compreende também o [heroísmo] dos cavaleiros medievais, aos quais pouco importavam de voltarem estropiados ou cegos, ou não sei mais o quê, e escangalhados. Eles tinham lutado pelo sepulcro de Cristo.

* No cruzado, a gente vê muito a ligação da inocência com o holocausto

No cruzado, a gente vê muito, e aliás, em Santa Joana D’Arc muito também, a ligação da inocência com o holocausto.

Por exemplo, Santa Joana D’Arc, virgem, acusada de bruxa pela Igreja — a Inquisição é um organismo da Igreja — condenada por um bispo e por um tribunal da Igreja como feiticeira, ela que sabia que ela era enviada de Deus, e jogada numa fogueira e queimada como tal… É virginal a mais não poder!

Fica ou não fica bonito ela ter morrido assim? Ela deveria achar normal morrer com glória, num palácio onde estivessem prestado homenagens a ela, onde ela morrendo tivesse o quarto dela cheio de gente chorando porque a virgem nos ia deixar, etc., etc., e ela dizendo lindas palavras de consolação. Não. Fogueira, e na fogueira a vaia do povo que ela tinha salvo dos ingleses. Não é brincadeira! Não fica lindíssimo que a virgem tenha morrido assim?

Agora, eu pergunto: que instituição no mundo engendraria essa situação? Só a Igreja Católica! E a gente vê… E depois de dentro da fogueira gritando: “As vozes não mentiram, as vozes não mentiram!”

(Sr. Gonzalo: Se ela não tivesse tido muito alcandor não agüentava…)

Nada! Bem meus caros, ficou assim…

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