Conversa de Sábado à Noite – 23/3/91 – Sábado – p. 6 de 6

Conversa de Sábado à Noite — 23/3/91 — Sábado

Há determinadas situações em que quanto maior o isolamento, tanto maior é a grandeza: tal o momento da denúncia profética do SDP * Quanto maior é a solidão, tanto mais próximo está Deus * A força vivificadora do Profetismo

(Sr. Gonzalo: …Nós gostaríamos de pedir ao senhor que tratasse desse momento, desse risco, e como o senhor se situa nessa panoramática toda.)

* O grandioso espetáculo da voz de Nosso Senhor, majestosa e solitária, fazendo ressurgir os corpos para o Juízo Final

Para exprimir bem o que eu queria dizer, eu vou me referir a um outro fato que não tem nada que ver com isso, mas que dá bem idéia da coisa.

Uma das coisas mais bonitas que há na Escritura é quando fala da ressurreição dos mortos. Então é uma voz que se faz ouvir, e, segundo o Cornélio, há desacordo a respeito dessa voz: segundo uns é a voz de um anjo, segundo outros é a voz do próprio Nosso Senhor Jesus Cristo. Você pode imaginar isto: a voz do próprio Nosso Senhor Jesus Cristo que, descido à terra, dá ordem a todos os mortos que ressuscitem.

Então você tem que imaginar a grandeza de uma terra devastada, onde ninguém mais vive, a não ser o último grupinho dos fiéis. Queremos imaginar que seja o último grupinho da TFP, o último resíduo da TFP. E vocês podem imaginar a sensação destes com a idéia de que tudo acabou, e como é o resto. Eles talvez não saibam que eles [não] vão morrer, então estão talvez esperando a morte. Não se pode saber como é que vai ser a coisa.

E de repente, sobre esse mundo de coisas, da terra transformada em cemitério, as florestas estão arrassadas por tufões medonhos, os mares saíram de seus limites, as montanhas se abateram e se transformaram em precipícios, os precipícios tumoraram e viraram montanhas, tudo assim, depois tudo com ar de desolação, mau cheiro das decomposições, etc., etc., e a maldição de Deus pesando sobre tudo isso. De repente a voz de Nosso Senhor se faz sentir sozinha, ou a voz de um anjo, mas agrada mais imaginar a voz incomparável de Nosso Senhor fazendo-se sentir, e dando numa só palavra, ou em duas palavras, ou em três, ordem aos homens para todos ressuscitarem.

Então, movimento na natureza, porque aquilo que constituiu nosso corpo está imbricado numa porção de outros corpos. E Deus só é que sabe das partículas todas de cada um de nós o que é que foi feito, o que é que foi feito, e como é que se deve reencontrar-se para produzir o que foi a minha carne, ou a sua carne, ou a carne de qualquer um de vocês.

(Sr. Guerreiro: Parece que aí seria uma matéria incorruptível.)

A partir disso é incorruptível.

(Sr. Guerreiro: Não seria a mesma matéria da qual fomos constituídos antes.)

Ah, não, não. É a mesma matéria posta em estado de incorrupção.

(Sr. Guerreiro: É a mesma matéria?)

Ah, é sim! São os nossos corpos que vão ressuscitar. Nós não vamos ser dotados de outros corpos. Mas é o nosso corpo, que é propriamente este em que você ou eu estamos.

(Sr. Gonzalo: É muito bonito, e arquitetônico.)

Muito, muito. E depois, se o corpo foi instrumento do pecado, é bom que ele sofra também. E, portanto, no inferno é o corpo que pecou que tem que ser atormentado eternamente. Mas também para o céu. Vai para o céu empíreo, ligado às delícias que a alma tem pela contemplação de Deus diretamente, já não no céu empíreo mas acima, vai para aí a unidade do homem reintegrada pela ressurreição.

Agora, aí sim, você tem razão, em estado glorioso e incorruptível. Não haverá mais corrupção. É definitivo.

Você pode imaginar o movimento misterioso e imponente do mundo inteiro se desintegrando, reintegrando, etc., e as matérias que vão voltando para as respectivas sepulturas. Em certo momento as sepulturas estalam, e vão aparecendo alguns corpos já gloriosos, e outros queimando e ardendo, etc.

(Dr. Edwaldo: Para o senhor ter idéia do que pode ser essa revolução do fim do mundo, se o senhor tomar o material genético existente em um homem, e colocá-lo em forma de fita, dá a volta no nosso sistema planetário inteiro.)

Que coisa, hem?! Aí a gente tem idéia. É uma coisa colossal.

Agora, então pergunta-se o seguinte: esta voz (seria a de Nosso Senhor ou do anjo) que ressuscitará os que estão mortos, esta voz como é que será? Será mais majestosa? E de que maneira se fará sentir melhor a santidade dela? Será imaginando-a num coro que canta, ou imaginando-a sozinha, levantando-se só, e contendo em si — seria a voz de Nosso Senhor — todas as harmonias possíveis de todas as vozes possíveis?

É claro que Ele sozinho seria mais majestoso do que todos os coros de anjos. Não sei se vocês todos sentem isso?

* Há determinadas situações em que quanto maior o isolamento, tanto maior é a grandeza: tal o momento da denúncia profética do SDP

Então, aqui se vê bem que há determinadas situações muito grandes em que quanto maior o isolamento, tanto maior é grandeza, e tanto maior é a glória.

E, por causa disso, eu tenho impressão de que nós, no momento em que chegue de a TFP denunciar tudo isso — porque por exemplo a Reunião de Recortes de hoje pode ser transformada numa denúncia — mas se eu quis fazer na segunda-feira outra reunião, estorvando um pouquinho o programa do nosso João com as suas magníficas projeções, foi porque eu tenho receio de que o instante histórico passe de fazer essa reunião que eu vou dizer agora.

Apareceu junto com os recortes que eu ia ler, apareceu tirado não sei de que jornal, é uma coisa dada pelo serviço de imprensa nosso, é um estudo de todas as técnicas que foram seguidas para levar o mundo à posição em que está. Mas é o mundo nesses últimos dez anos. E aí a gente vê bem tudo o que foi planejado, tramado, etc. Eu até mandei fazer com xerox aumentar a letra, e aumentar sobretudo os espaços, para comodamente poder pôr subtítulos, etc., e conforme for espalhar entre vocês todos o xerox e depois recolher, porque não convém que esteja circulando. Mas é uma coisa muito interessante, muito bonita.

A gente vê essa conspirata geral, mas a partir do momento em que você chega à conclusão de que é uma conspirata geral, o unum dessa conspirata constitui a afirmação implícita de que aquilo é vulnerável ali. Que aquilo tem o ponto mole ali. E então os homens que Nossa Senhora haja suscitado para denunciar, para fazer a denúncia profética no grande estilo, denúncia profética essa que eu não sei bem se terá mais importância pela sua ressonância em nossos dias, ou pela sua ressonância no Reino de Maria — também não sei bem — no momento dessa denúncia profética, eu digo que acho que eu não sei se fica mais grandioso imaginar esse grupo de homens pequeno na sua solidão proclamar, mas Deus lhes ampliar a voz de maneira que sacudam o mundo, ou que eles estejam dispondo de muitas parcelas, de muitos elementos, muitas coisas assim para a sua própria afirmação.

* Quanto maior é a solidão, tanto mais próximo está Deus

Se a gente procura onde está a beleza maior, seria lindo imaginar que eles proclamando qualquer coisa, multidões já estejam às ordens deles, e que comecem a marchar e a avançar. Seria lindo. Mas, quando a gente pensa na proclamação, na ordem de Nosso Senhor, sozinho diante do mundo todo quebrado e revirado, e em que só a voz d’Ele se faz ouvir, e… É uma coisa tão extraordinária, que eu acho que nós devemos ter uma certa desconfiança de nossos próprios padrões muito habituados à massificação, e a considerar prevalentemente a beleza da massa. Tem sua beleza. A massa bem orientada, a massa santa, por exemplo a multidão que acompanhou Nosso Senhor até o Sermão da Montanha — cinco mil pessoas para as populações daquele tempo era muita coisa — tinha sua beleza.

Mas Nosso Senhor suando sangue sozinho no Horto das Oliveiras, tão isolado que nem os discípulos queriam acordar, não tem maior grandeza?

Quer dizer, poder-se-ia talvez, eu precisaria pensar mais para poder afirmar, dizer o seguinte: que quanto maior é a solidão, tanto mais próximo está Deus.

* Maria Stwart e Maria Antonieta: a segunda teve morte mais gloriosa, por morrer inteiramente só

Vocês vejam por exemplo o seguinte, numa outra ordem de coisas, mas é só para medir o valor da solidão. Vocês considerem a morte de Maria Stwart e a morte de Maria Antonieta. Maria Stwart foi até o dia em que ela morreu, até o dia em que ela foi levada para ser decapitada, ela tinha damas de honor, etc., que faziam honra a ela, e que a ajudaram inclusive a vestir a toilette mortuária, etc. Ela estava numa espécie de apartamento no qual ela morava na última fase do processo, mas que não tinha nada de com com o cachot infame da Maria Antonieta, etc.

Bem, agora vocês imaginem a Maria Antonieta de manhã, passou a noite em claro no cachot sozinha, deitada sobre aquele catre sujo, e chega de madrugada, começa a nascer o dia, e ela começa a ouvir tambores que de todas as distâncias de Paris acordam a multidão para ir ver a decapitação dela. E ela fica esperando até esse povo todo se reunir, ela ouve as multidões que vão se aproximando, que cantam a Marseillaise, o Ça ira, etc., etc., e isso o tempo inteiro. Até ela ser pega e ser levada para a decapitação.

Depois, naquela carreta funerária, que é uma carreta, coberta de insultos e caminhando com aquela atitude dela magnífica, caminhando sem ver nada até o cadafalso.

Eu pergunto: das duas mortes, a segunda não é mais grandiosa?

(Sr. Gonzalo: Sem dúvida. E Deus está mais presente.)

É, Deus está mais presente. Está mais presente, não tem conversa.

(Dr. Edwaldo: Tão só que ela não teve nem padre para se confessar. Ofereceram um padre juramentado, e ela recusou.)

Era juramentado, ela não quis. O que aliás fala a favor do estado de graça dela, hem?

(Sr. Poli: Porque ela teria direito a pedir um padre juramentado que fosse.)

Teria. I.O.! Padre de I.O. você tem direito. Se você está para morrer, está na porta de um padre I.O., você tem direito de chamar e dizer que quer confessar.

* A estética das situações é mais bela que a estética das coisas materiais

Então, há uma espécie de estética das situações, estética dos momentos, e dos lances, etc., sobre a qual se poderia conversar muito, e que a meu ver tem mais beleza do que a estética das coisas materiais. E é a partir disso que nós deveríamos…

* A beleza de uma situação: um amigo íntimo descreve a morte de Edmond Rostand

Eu vi uma coisa nesses dias, um livro muito… frívolo eu não diria, mas você pode imaginar o que é: um homem que é um bom escritor, escrevia muito bem, mas não era um homem de grandes idéias. Ele descrevia situações e fatos muito bem do Edmond Rostand, o autor do Cyrano, , do Aiglon, do Chanteclair, aquilo tudo. E ele se tornou amicíssimo do Rostand, e quando o Rostand morreu em fins da Iª Guerra Mundial, ele estava no Sul da França, naquela parte do Pays Basque, onde o Rostand tinha construído uma casa que eu acho que devia ser esquisitíssima, mas que encantava o Rostand, porque era uma casa em estilo basco com um jardim estritamente versalhesco. Eu acho uma combinação muito difícil de conceber, mas foi o que o Rostand mandou fazer.

E ele era tão íntimo do Rostand esse homem, que ele estava hospedado na casa do Rostand, sem o Rostand estar lá, quando o Rostand morreu em Paris. E ele escreveu um livro chamado: “Vingt ans en compagnie de Rostand”. É uma coisa leve para uma pessoa que esteja cansada, etc., é interessante ler. Não tem a menor imoralidade, nem de longe.

Mas ele conta que ele estava na casa, etc., sabiam que o Rostand estava muito mal, com perigo de vida. Tinha uns amigos do Rostand na casa. Ele não conta porquê, mas eu tenho impressão que é por causa de dificuldade de trânsito ferroviário na Iª Guerra, num período em que ainda não havia comunicações de estradas de automóvel, então isso criava dificuldades, ele acaba contando que eles resolveram partir para Paris. Ele nem específica se foi para as exéquias. Eles acabaram indo para Paris, mas que antes de ir a Paris, ele entrou na sala, que não era propriamente esritório, era uma sala de estar onde o Rostand costumava trabalhar. Ele entrou lá, viu os papéis de Rostand, os objetos de Rostand, etc., impregnou-se bem daquilo, depois disse: “Puis, je sorti, et fermait la porte”. Está acabado. Mas o “fermait la porte” é o fim do livro, são as últimas palavras do livro. Quer dizer, as recordações do Rostand encerram-se ali, mas o convívio dele com o Rostand, l’affaire Rostand fica uma coisa que fica só para ele, que ele vai gozar depois.

Mas esse “fermait la porte” toma aí um caráter de uma situação de uma grande beleza. E nosso século não gosta de comentar situações. Nem fala disso. Ao menos é o que eu vejo em torno de mim: nem falam, nem nada disso. E isso priva a vida da sua verdadeira beleza, dos seus significados, de suas coisas todas.

E um dia, com tempo, havendo ocasião, etc., nós desenvolvermos entre nós essa estética das situações, estética dos gestos, estética das coisas, seria muito bonito. Isso en passant.

* A força vivificadora do Profetismo ressuscitando da morte do pecado os que constituem hoje a TFP

(Sr. Gonzalo: Para nós fala mais as situações em que o senhor está, não é? Concretamente a situação que se colocava hoje na RR, ou outras situações da vida do senhor, que acabam sendo muito arquetípicas. O profetismo tem algo que dá muita vida às coisas. Participa em algo da voz de Nosso Senhor Jesus Cristo no fim do mundo. E seria muito bonito o senhor tratar do caráter vivificante do profetismo. O que é essa vida que vem do profetismo?)

É evidentemente uma graça. Agora, uma graça que tudo leva a crer opere como as graças de que trata a Teologia. Mas, com uma missão específica e com uma abundância particular, uma força, uma eficácia particular. Porque nunca se morreu tanto como em nossa época. Uma coisa incrível. Vamos dizer, o fenômeno ressurreição é um fenômeno na nossa TFP — sobretudo se você considerar como ela deve ser considerada, quer dizer, em escala mundial — é uma coisa espantosa! Você vê uma coisa que é muito interessante, mas é o seguinte.

Você analisando os que compõem a TFP, você vê que são muito raros, se é que os há, aqueles que nunca cometeram um pecado mortal. Muito raros! E os que cometeram pecado mortal, dentre esses são muito raros os que não estavam seduzidos pela hipótese de uma completa apostasia da fé católica, e já tinham dado pelo menos alguns passos sérios nesse caminho. E é no caminho da Revolução. E nesse sentido, eram, na melhor das hipóteses, mortos vivos. De maneira que a TFP não alcançou, por exemplo, um bairro, um Estado, um país, etc., que fosse um reservatório sem fim de vocações, em que todos já eram muito bons, e que era uma pulsação admirável da vida antiga, que se captava para ressuscitar, para continuar.

Não há isso em nenhum lugar da TFP! Vocês poderão dizer: “Mas o Norte Fluminense?” Todos eles… você vê bem como é que andaram. É verdade que até é preciso dizer que por ação de D. Mayer, quando ele estava ligado a nós, mas fez-se une toute petite Vendée potencial, nacional, ali. Mas é de ressuscitados. Se houver, vamos dizer, em todas as TFPs do mundo, se houver dez que nunca cometeram um pecado mortal eu ficarei espantado. Portanto, um fenômeno de ressurreição já para o extremo da vida. Quer dizer, um trânsito do extremo da morte para o extremo da vida. São chamados para o que há de mais magnífico.

E os que conspiram contra a TFP, estando dentro dela e tendo saído, esses são piores do que os que nunca entraram na TFP. E são parecidos com Judas Iscariotes.

(Sr. Gonzalo: São portadores da pior morte.)

Da pior morte. É a pior morte possível.

Agora, no total, no total você vê que isso é mais uma instauração do Reino de Maria, do que uma ressurreição de velhos tesouros, de velhos tempos. Tem algo do ressurrecto. Mas que algo! Enfim, tem algo que se liga a isso.

Mas a nota dominante é que o impulso todo que vem vai mais longe do que o impulso que veio. E houve, portanto, uma adição magnífica na soledade, e para aguentarmos todos, até quando Nossa Senhora quiser, o peso dessa soledade.

Daí esse mistério dos grupinhos nascendo em todos os países, e não se formando grande TFP em país nenhum.

(Sr. Gonzalo: Essa vida vem então. Mas o senhor poderia tratar um pouco mais dela?)

É muito difícil… (…)

*_*_*_*_*