Conversa
de Sábado à Noite – 16/3/91 – Sábado
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Conversa de Sábado à Noite — 16/3/91 — Sábado
Uma visão e adoração contra-revolucionária e anti-émerysiana de Nosso Senhor Jesus Cristo, abrangendo num só todo todos os aspectos olvidados ou implicitamente negados na apresentação de Sua figura ao longo da História
* Um consenso difuso entre todos os bons fiéis sobre as perfeições de Nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo no seu aspecto físico, que faz com que se saiba subconscientemente como Ele foi
(Sr. Gonzalo: Nós vamos entrar na terceira semana do símpósio sobre as reuniões aqui, e surgiram algumas perguntas. …. Nós queríamos perguntar como é essa união do senhor com Nosso Senhor, com Nossa Senhora, e como essa união foi se desenvolvendo até hoje? Não sei se está claro?)
Está claro, e eu vou responder. Mas vou responder com certa hesitação a respeito da precisão dos termos e dos conceitos, porque eu nunca conversei sobre isso com ninguém, e não tive ocasião, portanto, de explicitar para mim mesmo, de modo inteiramente adequado, o tema de que eu vou tratar. E o tema é por si mesmo muito delicado.
Você toma um dado que é indiscutível, e que é que até a borrasca do Concílio Vaticano II — em que eu prefiro não entrar, porque aí é uma tal sombra que se faz sobre a Igreja, precisa toda uma outra linguagem para a gente poder falar em termos ortodoxos — até a borrasca do Concílio Vaticano II a Igreja ensinou a todos os fiéis com correção, ortodoxamente, quem era Nosso Senhor Jesus Cristo. Quer dizer, não só quem Ele era, o Homem-Deus etc., mas como Ele era. Quer dizer, como era a santidade d’Ele, como era a pessoa d’Ele.
Não se pode admitir isto de outra maneira, e depois é evidente que é. Quer dizer, a gente tomando os tratados de moral, de Teologia, os comentários todos da Escritura, etc., está tudo direito. Nós mesmos recebemos em épocas diferentes, mas em épocas que não são descontínuas, que tinham uma certa continuidade, nós recebemos esse ensinamento direito. Tanto é que quando falamos sobre o assunto, não se pronuncia entre nós a menor descontinuidade. É esse mesmo ensinamento, dado em lugares diferentes do Brasil, em nações diferentes do mundo — sobretudo quanto estamos aqui au grand complet — acaba sendo que a coisa é assim. Quer dizer, o ensinamento é o mesmo, e está acabado. A arte sacra O pinta como nós O imaginamos, etc., etc.
Depois, há certas coisas muito bonitas, e até tocantes a esse respeito. Por exemplo, uma coisa que eu já comentei, eu vou tratar apenas de passagem, mas à medida em que os séculos foram passando, as imagens de Nosso Senhor foram sendo mais parecidas com o Santo Sudário. O que é uma coisa que por um mero processo histórico natural é inconcebível, porque, pelo contrário, quanto mais os séculos se afastam de um personagem, tanto mais é difícil conceber bem esse personagem como ele foi.
E com Nosso Senhor Jesus Cristo é o contrário. Por uma ação da graça, quanto mais os tempos vão andando, vão se aproximando mais do Santo Sudário de Turim, que aliás ninguém conhecia, só veio a conhecer no século passado, e quando o século passado caminhava para acabar, etc., etc., é que isso se deu. Porque foi fotografado só então, etc., o que nós sabemos bem, e que é uma coisa muito bonita.
Mas também dá-se outra coisa. É que quando algum artista particularmente piedoso consegue pintar melhor a Nosso Senhor Jesus Cristo, há uma espécie de aclamação de todos os fiéis de que isso é mesmo. De onde uma piedade especial para com aquela imagem.
Por exemplo, o Beau Dieu d’Amiens. Todo o mundo reconhece: aquilo é verdadeiramente daquele jeito. Dá-se também com certas pinturas de Frá Angélico, e tudo o mais, vê-se que tem uma semelhança com Nosso Senhor Jesus Cristo toda especial, a um título particular, etc., etc.
Paulo Henrique e talvez Paulo Roberto tenham visto a capela delle Scrovegni, em Pádua?
(Sr. Paulo Henrique: Eu não visitei essa capela em concreto. Eu vi slides que passaram aqui no ASM, e o senhor comentou.)
Você não esteve, meu filho?
(Sr. Paulo Roberto: Não, eu não estive, mas vi também a fotografia.)
Mas não correspondia bem ao que você imaginava de Nosso Senhor Jesus Cristo?
(Sr. Paulo Roberto: Claro.)
(Sr. Paulo Henrique: Pela projeção eu me arrependi depois de não tê-la visto. É de fato uma maravilha.)
De maneira que, por exemplo, estando nós todos juntos na Europa, eventualmente, uma pergunta que eu lhes fizesse: “Vamos a Pádua ver a capela delle Scrovegni, isso…. pronto!
Quer dizer, há um consenso sobre Nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo no seu aspecto físico, e portanto nos aspectos morais que o aspecto físico revela, um consenso difuso entre todos os bons fiéis, que faz com que se saiba subconscientemente como Ele foi. E creio eu que é por uma graça. De tal maneira que em aparecendo uma explicitação qualquer melhor, há um júbilo por causa daquilo.
* A partir de determinado momento, sem cair no erro, Nosso Senhor é apresentado conforme os defeitos da época, em que o homem esculpe nEle aquilo de que gosta
Acontece que, entretanto, a partir de um determinado momento, foram se fazendo, segundo o meu modo de ver, certos silêncios sobre aspectos d’Ele, por onde o comum das imagens d’Ele passou a refletir menos alguns aspectos do que as imagens plenitude que a gente pode imaginar. Isso de um lado.
Agora, de outro lado, também isso é verdade, é que nos modos da oratória sacra glorificá-lo, quer a grande oratória sacra — portanto, de grandes oradores sacros da Europa, etc., etc. — quer a oratória sacra mirim da nossa América do Sul, e tal, alguns aspectos foram sendo postos de lado, e alguns outros aspectos foram sendo acentuados. E nunca se negou nEle nada do que Ele tem, mas os relevos desses aspectos, sem caírem no erro, foram entretanto dando menos acento a uns tons, menos a outros, etc., do que a plenitude de um beau Dieu d’Amiens, ou do Santo Sudário de Turim, etc., nos indicam.
E que é uma coisa um pouco conforme aos defeitos da época, porque os da época procuram não ver nEle, não O tomaram como um Mestre que esculpe-nos a nós, de maneira que nós olhando para Ele nos deixamos modelar por Ele, não é assim que fazem, mas fazem de outro modo. Eles procuram ver em Jesus Cristo o que eles gostam, e esculpem de algum modo, sem cair num erro teológico, numa heresia nem nada, esculpem a Jesus Cristo mais como eles gostam.
* Uma visão unilateral que deforma Nosso Senhor Jesus Cristo
Às vezes é só pelo silêncio. Porque O esculpem de um modo correto, satisfatório, em um aspecto, em uma atitude de sua alma, em uma posição de sua alma, não esculpem nas outras. Às vezes é só por aí. Quer dizer, a considerá-Lo por exemplo em sua bondade infinita, estaria bem expresso assim. Mas de fato Ele não tem apenas a sua bondade infinita. E a escultura, ou a pintura, enfim todas as formas de arte sacra de um determinado século, tendem a minguar aquilo o quanto possível em alguns aspectos, não reproduzindo, fazendo com que os fiéis não tenham diante dos olhos a Ele expulsando os vendilhões do templo; mas só O tenham diante dos olhos como perdoando, por exemplo, a Madalena ou a mulher adúltera.
Donde a idéia de que Ele foi só perdão, que Ele nunca fez, e censuraria quem fizesse, o que nós sabemos que Ele fez no Templo, etc., etc.
O que tudo no seu conjunto traz uma espécie de deformação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Vejam bem que eu tenho receio de dizer com isso coisa que eu não quero dizer. Não quero dizer que tenha havido uma heresia sobre Ele, mas foi uma falta de focalização luminosa, uma coisa assim que se tornou muito freqüente.
* Uma Contra-Revolução anti-émerysiana, abrangendo num só todo todos os aspectos olvidados ou implicitamente negados na apresentação da figura de Nosso Senhor Jesus Cristo
Agora, acontece que em geral a partir da Revolução Francesa para cá, o modo pelo qual Ele foi reproduzido é um modo que também coincide com certos desfiguramentos da própria fisionomia moral da Igreja Católica. De onde formar uma união, formar uma sincronia entre uma certa focalização da personalidade d’Ele e um certo aspecto da Igreja Católica.
E isto criou para nós a necessidade de, para termos bem a idéia de como Ele foi, e para que a idéia que nós devemos ter do que Ele foi condiga com o que o nosso senso católico indica, e com o que nós vemos pela leitura do Evangelho, pelo que os profetas disseram d’Ele, etc., [a necessidade de] uma espécie de recomposição muito prudente, muito cheia de veneração para com a Igreja, mas real, uma verdadeira reintegração, no sentido de tornar mais uma vez integramente íntegra, superlativamente íntegra a figura moral d’Ele para nós — [a necessidade] de uma luta contra essa tentativa de desfigurar num conjunto o aspecto d’Ele, o aspecto da Igreja, o aspecto de todas as autoridades legitimamente constituídas como deveriam ser, desde o Papa ou o Rei até o pai de família, e o aspecto de toda a sociedade civil, naquilo que ela ainda conservava de tradicional.
Agora, então, para nós a necessidade de fazer uma espécie de Contra-Revolução anti-émerysiana, abrangendo num só todo todos esses aspectos, de maneira que muitas vezes a gente pode ter uma idéia de como foi Nosso Senhor Jesus Cristo, pensando em São Pio X em tal aspecto de sua vida. E outras vezes a gente pode ter uma idéia de como foi Nosso Senhor Jesus Cristo pensando, vamos dizer, em Santo Antônio Maria Claret, e neste ou naquele outro santo. Na maior parte das vezes santos mais ou menos recentes, porque eu acho que são santos de épocas em que essa necessidade se tornou mais aguda e que, portanto, no seu modo de ser exprimiram mais isso.
Então, a nossa adoração para com Ele tomaria toda a sua integridade no momento em que, olhando para Ele, víssemos expresso, num anseio e num júbilo extraordinário, tudo aquilo que o nosso senso católico íntegro pede. E daí um gáudio muito grande que nós podemos inferir daí, etc., etc.
Agora, daí decorre que muitas vezes vendo até alguma coisa da sociedade temporal nas suas tradições legitimamente católicas, aí se tem uma idéia mais exata deste ou daquele aspecto d’Ele. E daí uma espécie de piedade com que nós falamos da sociedade temporal desfigurada. No fundo é porque a idéia que nós formamos dessa sociedade temporal é mais parecida com Ele, e nos dá de algum modo uma noção d’Ele.
* Mais que uma correção, uma ampliação de visão
(Dr. Paulo Roberto: A Contra-Revolução seria uma espécie de restabelecimento da fisionomia moral d’Ele para toda a sociedade.)
Isso. Então esse restabelecimento por exemplo seria um protesto incandescente de indignação contra certas coisas da arte moderna dita sacra, que representa Nosso Senhor com orelha de burro, enfim de maneiras blásfemas. Voltando para trás no tempo, e tomando por exemplo a arte sacra no meu tempo de menino, da qual vocês conheceram muitos exemplares, porque isso fica pelas igrejas, etc., vocês vêem então mais uma espécie de análise reverente, que verifica que falta algo, mas não como quem corrige o que está lá, mas como quem amplia o que está lá, deduz, aprende no que está lá o que ali falta. É uma coisa muito diferente, não tem nada de comum com o opus de um protestante, de um monstro desses…
(Dr. Edwaldo: Se a gente fosse ler a “Carta ao Rey” agora, entenderia de um outro modo.)
Sim, está muito bem encontrado, porque outro dia eu folheando papéis, etc., eu encontrei um trecho da Carta ao Rey…
(Sr. Gonzalo: Foi no áudio-visual.)
Foi no áudio-visual.
(Sr. Poli: Foi um flash aquele trecho.)
Foi muito bem escolhido aquele trecho. Bem, mas aquela Carta ao Rei tem alguma coisa que faz ver uma imagem ideal da realeza que não é uma fantasia nossa, nem é uma correção que nós fazemos numa doutrina ortodoxa atual sobre o Rei, mas é tomar um Rei que desfigura a realeza e corrigir.
Nós poderíamos fazer, sem corrigir, mas completando, uma oração: “Mostrai-nos, Senhor, vossa justiça; mostrai-nos, Senhor, vossa cólera sacral, mostrai-nos, Senhor, vossa sabedoria, etc., etc. — e sobre a sabedoria daqui a pouco eu vou dizer uma coisa — mostrai-nos isso, aquilo, aquilo outro, em Vós! Para nós conhecermos mais plenamente o que sois Vós. Não que a vossa imagem que eu esteja vendo minta sobre Vós. Mas nós queríamos, além disso, outra coisa!”
* Uma iconografia que não mostra a sabedoria divina
Você pega, por exemplo, as imagens — inclusive aquele grupo do Coração de Jesus — do Menino Jesus no templo falando aos doutores. A fisionomia que os artistas procuram apresentar é de inocência, de muita facilidade de expressão, de muita segurança, mas que seja propriamente a virtude da sabedoria, não. É um olhar sulpiciano, no qual propriamente a sabedoria não se nota.
Não se pode dizer que todo objeto de arte sacra tenha que exprimir a sabedoria como nós estamos dizendo. Mas é que chegou a um ponto onde não exprimiram nunca. Então seria lícito, por exemplo, que um artista considerando aquele episódio da vida de Nosso Senhor, quisesse representar a inocência naquele episódio. Um artista não pode ser tão polimórfico que ele represente todas as virtudes de Nosso Senhor numa imagem. Está muito bem.
Mas, aqui eu pego a coisa melhor do que nos exemplos anteriores que eu dei. Fazer uma série de imagens sobre isso, imagens esculpidas ou imagens impressas, etc., onde eu não conheça nenhuma que exprima a sabedoria d’Ele, como por exemplo o Frá Angélico pintou aquela de São Domingos sentadinho ao pé de uma cruz folheando uma Bíblia, e pensando — onde se vê a sabedoria! — isto é o que ficou faltando para nós. E aqui eu pego melhor do que nos exemplos anteriores, que tem qualquer coisa que arranha, eu pego aqui bem o que faltava, e como faltava, em que sentido faltava. A tal ponto que eu posso quase deixar como posto de lado o que eu disse, para focalizar a atenção nesse ponto.
* Uma pesquisa no passado para chegar à adoração global de Nosso Senhor Jesus Cristo, uma reconstituição explicitativa de uma coisa que temos no fundo da alma
Agora, daí decorre que nossa adoração vai a Ele naquilo que nós conhecemos, com explicitações diferentes. E que como a mesma coisa se dá com a Igreja, porque foi a mesma coisa que se fez com a Igreja, aquilo que nos faltou conhecer na Igreja, faltou-nos conhecer nEle. E como nós tivemos a graça de amar a Igreja por inteiro, nós também amamos a Ele por inteiro, embora querendo conhecer nEle mais do que certas coisas diziam.
E isso tem como resultado uma pesquisa no passado: o que é o conjunto das coisas do passado que profetizam o Reino de Maria, e neste conjunto, o ensemble da coisa nos dar uma visão de como O veremos no Reino de Maria, numa adoração de como Ele é, e como mais claramente O veremos no Reino de Maria.
Não sei se isto está claro, ou não?
(Sr. Gonzalo: O senhor depois vai personificar mais?)
É, então você tome, por exemplo, uma coisa que foi abolida, mas que estava perfeitamente bem, perfeitamente certa: a Guarda Nobre Pontifícia, como eu a vi funcionar no Vaticano. Quer dizer, era um uniforme mais ou menos do século passado, os membros da Guarda Nobre eram todos oficiais, e eram todos nobres. E era uma couraça com aquele elmo de dragões de cavalaria, quer dizer, o uniforme era para montar a cavalo, e depois umas culottes brancas que vinham até umas polainas que chegavam para cima do joelho. E tudo muito bem arranjado, muito bem encerado, na perfeição!
Vendo-os, por exemplo, em torno do altar da Confissão de São Pedro, na hora em que se dava a consagração, o modo deles baixarem a espada, e se não me engano de se ajoelharem, era uma perfeição, mas que era uma perfeição também da Igreja. Aquilo espelhava algo do espírito da Igreja. E aquilo que espelhava do espírito da Igreja, espelhava do espírito de Nosso Senhor Jesus Cristo. E tão raro de encontrar nas manifestações da Igreja, no tempo imediatamente pré-conciliar em que eu vi essas coisas, quanto raro de encontrar na iconografia de Nosso Senhor Jesus Cristo.
De maneira que você encontra em vitrais da Idade Média a representação de Nosso Senhor Jesus cristo a cavalo, com uma espada na boca, e avançando para realizar as suas obras de punição etc., etc. Você não encontra isso em nenhuma igreja. A Idade Média caminhava para a expressão disso. Mas isso não está manifesto em nenhuma igreja. Em algumas iluminuras sim. Mas, por exemplo, uma igreja em louvor de Cristo Gladífero, não.
E a nossa adoração a Ele abrange tudo isso, é uma adoração global. Mas essa adoração global, que é até certo ponto uma reconstituição explicitativa de uma coisa que temos no fundo da alma, e que nós adoramos inteiramente, a ponto de que está no fundo de nossa alma, nós exprimimos e vemos a inteira conformidade com a doutrina católica, isto é uma espécie de plenitude de adoração. Um pouco como Nossa Senhora procurava saber como era a fisionomia do Messias antes d’Ele se encarnar. E se conta que quando Ela chegou a conceber inteiramente o Messias, veio então a Anunciação.
* Desde o batismo o gérmen da visão global de Nosso Senhor Jesus Cristo
(Sr. Gonzalo: Nossa Senhora tinha os elementos para pintar essa iamgem de Nosso Senhor que a graça Lhe comunicava na alma. Nós vemos que o Espírito Santo depositou pelo batismo na alma do senhor também os elementos para o senhor formar a visão de Nosso Senhor que o senhor tem. É claro que em menino o senhor não idealizou a imagem que o senhor formou depois, mas havia uma semente sagrada que já estava em sua totalidade, e que foi aumentando meio independente das coisas externas.)
Até certo ponto sim.
(Sr. Gonzalo: Se o senhor pudesse tratar disso como é?)
Você quer ver uma coisa muito bonita? Aí você pega bem a coisa. É mais ou menos como a idéia global de santidade que as pessoas têm muito antes de terem feito os estudos que dão essa idéia global de santidade. É uma espécie de primeiro gérmen, de primeira nota, de primeira harmonia que contém tudo. E que se desenvolverá e crescerá como uma árvore. Mas que já na primeira semente contém todas as virtualidades da árvore.
Assim também no que diz respeito à figura de Nosso Senhor Jesus Cristo. O batizado conservando a inocência, e procurando retamente desenvolver a idéia que ele tem de santidade, tão germinativa, apoiado pelo ensinamento da Igreja, iluminado continuamente pelo ensinamento da Igreja, mas há qualquer coisa que é intuitiva e viva nele, por onde ele vai aprendendo o ensinamento da Igreja, e vai por assim dizer aplaudindo em nome de alguma coisa que estava anterior na cabeça dele, e que dava o consenso dele quando ele ouve que a Igreja pensa aquilo, aquilo é, a meu ver, um fruto do batismo. E é infuso.
(Sr. Gonzalo: No caso concreto do senhor como era isso? Porque nem os Apóstolos, em certo sentido, que viram Nosso Senhor, a totalidade absoluta de Nosso Senhor eles não viram, porque eles não tinham a matriz do Reino de Maria. E tanto que a Civilização Cristã veio depois. Vê-se que no senhor o primeiro movimento de inocência já vinha com algo que dava essa totalidade. O que é isso?)
Com a devida reverência, eu acho que os Apóstolos tinham [graça] para ver, e não corresponderam à graça.
(Sr. Gonzalo: E no senhor como é isso?)
Aqui não vale a pena nós tratarmos da questão, porque isso iria longe, eu tinha impressão de que todo o mundo na infância tinha tido isso. Aí é uma velha discussão que não vale a pena tratar. E que Nossa Senhora me ajudou a conservar a inocência, tá, tá. Mas, que na realidade todas as almas têm isso, pelo menos no seguinte modo: que quando se apresenta alguém dando isto na íntegra, elas estão feitas para aderir. É, portanto, mais uma potência receptiva do que produtiva. Agem quando se age nelas. Mas, de fato, quando se age nelas, elas estão todas prontas para corresponder e ir para frente. É a descrição de uma alma com muito thau.
* Sentimento de luminosidade, de doçura e de profundo respeito diante da prática de virtudes ou de uma virtude nova ainda não conhecida
Agora, eu posso descrever como era em mim. Isso é outra coisa. Posso dar a descrição. Mas com essa reserva: que eu tenho a impressão que isso é uma coisa geral, mas mais acentuada em mim. Mais acentuada, mas dentro da regra geral.
Isso se compunha de três elementos. Um primeiro elemento era um sentimento de luminosidade, de doçura e de profundo respeito, quando eu estava posto diante da prática de virtudes ou de atos que eram feitos segundo uma virtude que eu ainda não conhecia. Então, conhecendo aquela virtude, ou conhecendo um certo aspecto daquela virtude que eu ainda não conhecia, e vendo elogiar isto — o elogio que eu ouvia ajudava a pegar — isso dava na minha alma uma impressão como de uma certa luminosidade que eu sentia pairar no meu campo visual e ao mesmo tempo dentro de minha cabeça. E que me deixava muito encantado.
* O encanto da alma inocente ante o milagre das rosas na vida de Santa Isabel, Rainha de Portugal, ou a convocação das Cruzadas por Urbanho II
Vamos dizer, por exemplo, uma coisa que se canta para crianças: a história de Santa Isabel, Rainha de Portugal. Ela era tia-avó ou sobrinha neta da duquesa da Hungria. As duas tiveram o mesmo milagre. No caso concreto da Rainha de Portugal, ela ia levar esmola para os pobres. Eram pães. E ia levando, portanto, uma série de pães num avental dobrado. E ia com o seu séquito, etc., para distribuir para os pobres.
E o Rei passou perto dela, e já tinha dito a ela que não queria que ela fizesse isso. E perguntou a ela: “Mas o que é que levais aí?”
Ela sorrindo, disse: “São rosas, senhor”. Abriu, e estava cheio de rosas o avental dela.
Você pode imaginar para uma criança favorecida pela graça, e… [Vira a fita]
…com o que há de onipotente em quem transforma os pães em rosa. Mas como é alto o poder transformador desses pães em rosa. E como é santo esse poder. E dAquele que paira acima de todos, e que é tão grande que faz isto muito de cima, muito de longe, etc., Ele faz isto e está acabado.
Mas, de outro lado, acontece que o fato d’Ele tão grande intervir num episódio por um lado tão pequeno, dá a impressão que a gente tem quando veria um grande rei fazer carícia numa criança pobre. Assim, passar a mão por debaixo do rosto, qualquer coisa, de uma menina pobre. A reação seria essa.
E por detrás vem um princípio: a Rainha fez muito bem. Porque ela ia dar esmolas aos pobres, e se deve dar esmola aos pobres. E ela, portanto, agindo assim fez muito bem. E Deus sancionou o conselho de dar esmola aos pobres, ou o mandamento — eu acho que entra um mandamento aí, conforme o grau da pobreza — sancionou isto por um ato de poder que, sem ser um ato de poder recriminatório para o Rei, entretanto continha uma severa censura ao Rei.
Agora, isso forma uma espécie de quadro de conjunto, que mais ou menos a criança vê, mas vê no seu conjunto. Mas vê de tal maneira que, se um educador dissesse para a criança o que eu acabei de dizer, seria preciso que um bom narrador contasse isso para a criança de maneira a tocá-la. E depois um comentador dissesse para a criança o que eu acabo de dizer, mas de um modo agradável, de maneira à criança se sentir tratada o tempo inteiro com bondade. Isso entrava na alma da criança assim: “Vruuummm!” Mas eu julgo que produziria nela os efeitos que produzia em mim.
Assim, por exemplo, também a partida dos cruzados para a guerra. Então, em Clermont-Ferrand, Urbano II, bem-aventurado, a gente imagina um Papa ornado com os ornatos [pontifícios], aquela homenzarada toda, etc., ele que fala, etc., etc., em certo momento produz uma explosão: “Vamos mesmo libertar o sepulcro de Jesus Cristo!” Então: “Deus vult! Deus vult!”, e uma onda…! A gente vê que foi uma graça… (…)
* O itinerário do entusiasmo pela cruzada na alma do Sr. Dr. Plinio
Eu vou descrever o itinerário disso na alma de uma criança inocente.
A primeira idéia que se apresenta espontaneamente para a criança — e eu me lembro que foi comigo — a idéia do Santo Sepulcro de Nosso Senhor. Mataram Nosso Senhor, os judeus, e O deitaram no sepulcro. Não foram os judeus que deitaram, mas para mim ficava a idéia de que eram os judeus.
(Sr. Gonzalo: Estavam por detrás.)
Estavam por detrás. Então Nosso Senhor, a suma perfeição, a suma bondade, a suma santidade a Quem eu queria como se devia querer, deitado no sepulcro. Uma injustiça tremenda, uma maldade horrorosa. Mas, de outro lado, o sepulcro ficava como que perfumado pela presença d’Ele, e todo sacrossanto do corpo d’Ele estar ali. E, portanto, o sepulcro no qual eu imaginava o corpo d’Ele presente — eu sabia que não estava mais, mas uma vez estivera presente — se embalsamar de respeitabilidades e de sacralidades, por um processo misterioso de contágio do sagrado, pelo fato do sagrado cadáver d’Ele ter tocado naquilo, ficou respeitável de uma respeitabilidade participante da d’Ele. Não preciso dizer mais nada para entender o quanto… o sepulcro estava vazio, mas Ele tinha estado lá dentro. E, portanto, respeitável, venerável, a um grau inimaginável. Como era amável, como era digno de ser amado.
Agora, a isso se conjuga uma outra coisa. É a idéia dos maometanos péssimos que mantinham o sepulcro abandonado, maltratado, e que não permitiam que fossem lá para rezar. O que era mais uma ofensa Àquele que tinha ressuscitado. Era, portanto, uma blasfêmia, e era um sacrilégio mesmo.
Eu não sabia dizer que era uma blasfêmia, e depois acrescentar, retificando a minha expressão, que é um sacrilégio mesmo. Isso se passava more infantil. Mas era isso que estava na minha cabeça.
Agora, de onde ir fervendo em mim a sensação de que aquilo não devia ser assim. Ou seja, uma pressa de que cessasse. E uma pressa vindicativa! Judiciária e vindicativa: “Se ninguém julga isso, eu julgo. E se ninguém faz isso cessar, eu quero!”
Mas, infelizmente eu não estava vivo naquele tempo. Do contrário eu teria ido fazer isto. Mas vejo de repente que apareceu um Papa, e que apareceram cavaleiros, e que esses cavaleiros partiram para a cruzada. Eu então imaginava esses cavaleiros com uns elmos, com tudo o mais da Idade Média, altamente simbólicos dos sentimentos que eu sentia. Você pode imaginar o meu entusiasmo pela cruzada!
* Correspondência única
Mas, a questão é a seguinte. Vocês fazem bem em não contestar o que eu estou dizendo, porque alongaria a nossa reunião inutilmente…
(Sr. Paulo Roberto: Mas não tem nada que contestar mesmo.)
Não, o que eu vou dizer. É que a minha idéia é que todos os meninos e meninas, meus parentes, diante de quem se contava isso em aulas de religião, ou em conversa com mamãe, etc., ela contava, etc., sentiam alguma coisa de muito próximo do que eu sentia, se não era a mesma coisa. Apenas é que, tocados do mesmo sentimento, que eu de nenhum modo sabia que era a graça sobrenatural — e, aliás, também uma criança nessa idade, eu estou imaginando uma criança de 5, 6, 7 anos, não pega bem o que é a graça, etc., etc. — me parecia observar neles como isso entrava neles como uma luz. Mas que depois, por frivolidade, por conaturalidade com as coisas do mundo opostas a isso, isso se evolava e saía da cabeça deles. Enquanto o amor que Nossa Senhora me dera a isso fazia com que eu ficassem pensando nisso, e procurasse guardar na minha alma, guardar no meu coração.
* O encanto com a Igreja e o Sagrado Coração de Jesus vistos enquanto fontes do espírito de cruzada
Agora, daí vinha uma idéia de como era a Igreja. Porque a Igreja era a instituição que tinha provocado isso. Mas tinha provocado isso por vários lados. Ela tinha formado os cruzados nos quais havia uma disposição para isso. Ela tinha apresentado essa situação para eles pelos lábios de um Papa, que eu aliás não sabia que tinha sido um santo. É bem-aventurado. Mas era um Papa. E quando eles exclamaram “Deus vult!”, havia nisso um ato de adoração a Deus que era produto da ação da Igreja sobre a alma deles. Logo a Igreja era uma grande cruzada! Era a fonte do espírito das cruzadas. E Nosso Senhor Jesus Cristo podia e devia ser visto, o seu Sagrado Coração podia e devia ser visto como um coração do qual todo o élan das cruzadas partiu.
Não adiantava me dizer, e ninguém me dizia, mas não adiantava me dizerem que a revelação do Sagrado Coração de Jesus veio séculos depois das cruzadas. Porque o Coração existia, e foi sempre o mesmo, antes das cruzadas, como durante e como depois. Portanto, isso é uma objeção tola na qual eu não me deteria.
E daí, de vez em quando, umas reflexões assim na Igreja do Coração de Jesus: “Como eu ficaria contente se naquele altar, ou naquele outro lugar, eu visse pendurada uma espada, ou duas espadas de cruzados! Minha alma inteira se estremeceria diante da… — isso eu não sabia dizer; eu hoje examinando o que eu pensava naquele tempo, eu hoje descrevo assim, mas era isso — que sensação de integridade eu tinha! Porque aí é a Igreja então íntegra!” E ficava encantado com isso.
De onde perguntas: “Por que hoje não fazem uma cruzada?” Mas de onde outras perguntas: “O Pe. Falconi, que é o reitor aqui da igreja, tem ar de quem pregaria uma cruzada? Bom, não tem. Mas eu não tenho o direito de formar dele esse juízo, porque ele é uma parte viva da Igreja, e mais viva do que eu, porque ele é padre e eu sou leigo. De maneira que eu não vou examinar o Pe. Falconi, mas continuo a dizer: a Igreja é a Igreja dos cruzados!”
(Sr. Gonzalo: Isso com 5, 6 anos de idade!)
Não, aqui já um poucco mais velho: 8, 10 anos. Uma coisa assim.
* “Você é um qualquer com o qual a coitada de Nossa Senhora tem que se contentar, porque pessosas até melhores do que você não têm essa integridade que você acabou tendo”
Agora, sempre a mesma história: os de minha geração são culpados por não pensarem isso, por não quererem isso, por vaiarem quem dissesse isso, porque eles se deram à Revolução.
Não vou tratar disso agora…
(Sr. Gonzalo: É isso. Mesmo que eles tivessem sido muito bons, nos interessa saber como isso foi no senhor, não neles. Se eles capotaram ou não, o fenômeno com o senhor teria sido o mesmo.)
Não… A respeito disso eu tinha um raciocínio. O raciocínio é o seguinte. Vocês estão querendo que eu conte como era.
(Sr. Paulo Henrique: O senhor estava dando alguns elementos disso, e disse que daria três elementos. O primeiro deles era um sentimento de luminosidade e doçura, e profundo respeito pelas virtudes da Igreja. Tudo isso que o senhor está dizendo está dentro desse primeiro elemento ainda?)
É isso. Faltam dois. Mas eu quero acabar de dar o primeiro elemento.
Às vezes vinha-me à cabeça, pela diferença entre os outros e eu, e pelo que a mim restava fazer, vinha-me a pergunta seguinte: “Mas não será que eu tenho uma missão colossal, e que eu sou portanto chamado a, etc., etc.?”
E a resposta é: “Não! E não se iluda. Porque você tem tal defeito, tem tal defeito, tem tal defeito, e portanto você não pode ser chamado para isso. Você é um qualquer com o qual — eu me lembro bem a expressão que vinha à minha cabeça — a coitada de Nossa Senhora tem que se contentar, porque pessosas até melhores do que você não têm essa integridade que você acabou tendo. Mas as qualidades que elas têm em vários aspectos são maiores que as suas. De maneira que era só este, ou aquele, ou aquele outro correesponder, que te deixava longe!
“Mas, Nossa Senhora está numa espécie de estado de mendicância, onde teve que se contentar com o pão que se dá ao mendigo, que sou eu. Eu sou o pão ruim, seco, velho, que se dá para o mendigo. Ela tem que se contentar. Mas eu não sou absolutamente uma grande pessoa nem uma grande coisa.”
Não sei se está claro como é lógico o sistema, achando que todos receberam como eu, pensam como eu, a conclusão que se tira é essa. Não é uma humildade extraordinária, não. É a lógica.
Então, aqui está a coisa, e eu posso voltar aos dois outros elementos.
* A cordilheira de tamanho incomensurável de toda a doutrina católica, sempre coerente ao longo dos séculos, constitui prova tangível da divindade da Igreja
Meu Paulo Henrique, qual era o primeiro elemento?
(Sr. Paulo Henrique: O senhor falava da luminosidade e da doçura, e profundo respeito para com as virtudes da Santa Igreja.)
Sim. Exatamente isto era provocado no caso concreto por um ato de virtude que eu via. Mas vinha a idéia de que há ao lado do belo imediato daquilo que eu estou vendo, que eu imediatamente vejo que é belo, vinha a idéia de que há atrás, como substractum daquilo, uma justificação racional. E que aquilo não era só porque eu me comovi, não era uma emoção, a emoção era boa, era um sinal de que a coisa está bem, mas não era só. Havia toda uma doutrina moral baseada no raciocínio, e do qual era mestra a Igreja, e que se desdobrava em outros conhecimentos que eu não tinha, e que era a santidade da moral oficial da Santa Igreja Católica.
E o que mais me espantava é o seguinte. Ao longo [do tempo em] em que ia estudando Religião no Colégio São Luiz, e Catecismo, e ia vendo a vida, eu ia vendo uma espécie de cordilheira imensa, de tamanho por assim dizer infinito — não é infinito, mas vamos dizer incomensurável! A expressão boa é essa: de tamanho incomensurável — toda a doutrina católica sobre esse ponto, sobre aquele ponto, sobre aquele ponto. E eu me dizia a mim mesmo o seguinte:
“Isto não foi um homem que compôs. Foi ao longo dos séculos uma concatenação de homens com mentalidades diferentes, de países diferentes, de formações culturais diferentes, mas que todos foram acrescentando sua pedra a essa catedral. Agora, o que é que está por detrás disso para haver tanta união, tanta coerência nessa obra dos séculos?”
(Sr. Paulo Roberto: O senhor pensava isso em menino?)
Em menino, mocinho, 11 anos, 12, 13… Depois várias dessas coisas foram tomando corpo ao longo dos tempos. De maneira que um primeiro pensamento que nasceu aos 9, 10 anos, aos 14 e 15 estava se explicitando inteiramente. O meu espírito era lento, não era um espírito galopante.
Agora, então, eu chegava à conclusão seguinte: essa gente que eu conheço, se ficasse dependente só deles construir uma doutrina assim, que espécie de absurdos eles elaboravam? Entravam em choque uns com os outros, e saía um monstro! Porque isto é o que fazem os homens. E se essa coerência toda se construiu, aqui está o Espírito Santo. E está uma prova tangível, como eu digo agora que está tangível esse lenço que eu estou segurando, está uma prova tangível da divindade da Igreja. Porque ou Deus está nisso, ou os homens não fazem. Porque esta gente não faz. E não há razão nenhuma para imaginar que gente do século IV, ou do III, ou do II, ou do XV, ou de qualquer outra coisa, fossem farinha de outro trigo! Era a mesma gente: é o gênero humano. Quando a gente ouve falar de coisas da História, eles fizeram disparates também como estão fazendo esses loucos que estão por aí. Então não é. É Deus que fez isso!
* A Igreja, cátedra de Cristo, tão sagrada quanto o sepulcro de Cristo; e daí a veneração para com a superioridade de tudo que é eclesiástico
Isso dava uma espécie de respeito a Deus, tendo como sala de aula d’Ele a Igreja Católica. E Deus que dentro da Igreja — especialmente para os da Igreja — fala a todos os homens, mas fala dentro da Igreja, e o seu auditório imediato são os filhos da Igreja. E a Igreja em si, por ser a cátedra de Cristo, é tão sagrada quanto o sepulcro de Cristo. Mas isso então se diz na realidade de qualquer edifício sagrado chamado igreja, mas diz-se também de um convento, diz-se de um seminário, diz-se de tudo aquilo que é eclesiástico, e que participa da superioridade única, exclusiva e extraordinária daquilo que é eclesiástico.
Donde um respeito e uma veneração ao clero que era absolutamente indispensável que eu tivesse, para eu manter até hoje a fé nas circunstâncias que nós vemos. Quando eu vi o D. Mayer dizer que nós éramos anticlericais, eu pensava com um triste sorriso interior: “Se esse Bispo soubesse como eu amo o clero, e ele soubesse como eu o amo por ser Bispo, e isso no meio de tudo quanto ele me faz, porque ele é Bispo da Igreja Católia, ele ficaria pasmo!” Mas não adianta contar isso para ele. Você que tratava com ele sabe que não adiantava contar. Depois, ele nem queria ouvir isto! Ele cortaria, faria uma brincadeira, uma coisa…
(Sr. Poli: Ele percebia, mas não era com simpatia que ele percebia. Entrava inveja.)
É, infelizmente.
(Sr. Poli: Ele via que por trás desse respeito do senhor entrava uma santidade que ele não tinha.)
* “O mais precioso que eu mais devo amar dentro de tudo isso é minha humildade discente em relação à Igreja”
Bem… Mas afinal de contas, então vocês estão vendo aparecer um outro elemento que — para usar uma palavra francesa à míngua de uma palavra portuguesa —surplombe isto, que sobrepaira e serve de telhado para isso, que é o que eu sinto, o que eu vejo, o que eu penso, etc., etc., não é nada em comparação com a minha posição dicente diante dessa Igreja que montou essa moral deduzida dos Evangelhos, de toda a Escritura, etc., e que ensina tudo isso. E o mais precioso, que eu mais devo amar dentro de tudo isso, é minha humildade discente em relação à Igreja. Porque vale mais, porque eu a qualquer hora saio com absurdo também. Mas se eu estiver agarrado a Ela completamente, aí o absurdo não sai.
E então é um outro critério, um outro elemento que se soma a isso: o elemento discente, a noção docente-discente. Não é mais um descobridor de coisas. As coisas que eu descobri estão muito boas, porque conferem com o que a Igreja ensina. Se eu encontrasse alguma coisa que não conferisse, estava péssimo, e era preciso quebrar, porque não é o que a Igreja ensina. A Igreja fica pairando em cima, como Nosso Senhor Jesus Cristo pairava em cima das criaturas. É uma analogia.
* O entusiasmo pelo Fundador e Vivificador desta obra extraordinária que é a Igreja!
E você está vendo bem como tudo isso convinha bem como fruto da obra do espírito de Nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo com a idéia um tanto emerysiana que procuravam inculcar na nossa cabeça a esse respeito. Ahhh! O Fundador da Igreja, fez isso! Ahhh! Uma impressão… Vocês compreendem bem, para quem chega a formar da Igreja essa impressão, a impressão que tem do Fundador da Igreja, que é o Vivificador da Igreja! E não é só uma impressão, é uma convicção, é uma fé! É isso, é Ele.
* A idéia do profetismo, só aceita porque acompanhada da idéia de que a condição de dicente não se rompia
E qual é o terceiro elemento, meu filho?
(Sr. Paulo Henrique: O senhor iria enunciar ainda. Mas não sei se viria agora o terceiro, se estaria dentro do segundo, ou o senhor já nessa fase considerando o arquétipo de toda a História…)
Eu não me considerava o arquétipo de toda a História.
(Sr. Paulo Henrique: Mas ao fazer essas considerações a respeito da Santa Igreja, não estava tudo explícito da posição em que o senhor se colocava como discípulo. Porque na verdade o que o senhor tinha para si era mais do que aquilo que havia sido ensinado…)
Não era mais. Eram deduções que eu tirava do que havia sido ensinado.
(Sr. Paulo Henrique: Mas deduções que iam além daquilo que havia sido ensinado.)
Sim, é porque eu ia refletindo…
(Sr. Paulo Henrique: O senhor já começava a ensinar. Quer dizer, a partir do momento em que o senhor via desde menino, o senhor já ensinava coisas que outros anteriores não tinham visto, ou apenas vislumbrado, e o senhor ia muito além. Portanto já fazia parte do corpo docente.)
Ah, não, não, não!
(Sr. Paulo Henrique: Eu digo enquanto profeta.)
É, mas o profeta do Novo Testamento não é oficial.
(Sr. Paulo Henrique: Pois é, mas nos termos daquilo que foi projetado no áudio-visual.)
É… Quando afinal veio a idéia do profetismo, só veio porque veio acompanhada da idéia de que a condição de discente não se rompia. Porque do contrário não teria aceito.
(Sr. Paulo Henrique: Não se rompia, mas de fato se tomamos fatos ou explicitações do senhor, remotíssimas, elas já vinham com essa conotação de ensino peculiar, um ensino que nunca havia sido explicitado ou dado para os fiéis…)
Para as crianças…
(Sr. Paulo Henrique: Não só para as crianças não…)
Bom, aqui nós entramos no tal terreno…
* A idéia da necessidade de união com Nosso Senhor Jesus Cristo, com a Igreja e com Nossa Senhora para salvação da própria alma
(Sr. Paulo Henrique: Eu não sei se o senhor ia colocar isso como terceiro elemento, se fazia parte do segundo, ou…)
Não. Eu ia pôr um terceiro elemento, que é o seguinte: a condição de alma a ser salva, e que estava no risco de perder-se, e que precisava desconfiar de si, increpar-se, tocar uma verdadeira caçada sistemática contra si mesma, e freqüentar os sacramentos da Igreja, rezar dentro da Igreja; enfim, numa palavra, ser muito piedoso, porque do contrário nada dava certo. E na piedade, o ponto de união com Nosso Senhor Jesus Cristo e com Nossa Senhora. Aí é um outro elemento do quadro, mas que não podia faltar ao quadro.
E com a preocupação enorme de me salvar, porque eu pensava nisso, quando eu li a frase de São Paulo, eu pensei: “Ele tem razão, eu já tinha pensado nisso!” Quer dizer: de que serve ao homem salvar o mundo inteiro, se ele perde a sua própria alma? Então, do que é que serve eu vencer essa porcaria da Revolução se eu vou para o inferno?!
Então, num certo prisma, de um certo ponto de vista, mais do que a contra-Revolução é a minha própria salvação pessoal. O que, aliás, é a doutrina católica exata. Mas que para mim tinha o aspecto de trouvaille. Mas que mais tarde eu veria que era ensinado pela Igreja.
Aí está a descrição.
* No progresso da saúde, como no da perseverança, tem-se uma sensação de estabilidade imóvel; enquanto na doença qualquer piorazinha é percebida imediatamente
(Sr. Gonzalo: A pergunta era também para o senhor tratar de como isso foi se desenvolvendo, e como é agora. Como foi crescendo essa união com Nosso Senhor, e como ela é agora?)
Há uma coisa curiosa que no homem a sensação da saúde e a sensação da doença tem qualquer coisa de assimétrico. Não são simétricas. De maneira tal que, por exemplo, quando a gente é bem moço, os maiores encontram com a gente e diz: “Oh, mas como você está esplêndido de saúde”, etc., eles comparam isso com o estado deles. Então notam como a saúde de um está crescendo, ou diminuindo, etc. Mas quando a gente é moço a gente não sente isso. A gente tem a impressão da saúde uma coisa estável que não se consolida com a idade, que não se aprimora com a idade.
E muitas vezes eu ouvia referências amáveis de pessoas mais velhas sobre a minha saúde, dizendo: “Mas está fortíssimo, etc. e tal…” Aliás, não diziam “fortíssimo”, porque eu não tinha nada de um Tarzan. “Está saudabilíssimo, etc., etc.” E eu pensava comigo: “Esse velho gagá está só cuidando dos reumatismos dele, então olha para mim em termos de reumatismo. Mas isso aí é natural! Não tenho reumatismo porque o meu dedo não está torto, porque o meu nariz não está quebrado… Assim eu não estou reumático! É natural. O que ele quer mais? O homem é assim. Ele é que é torto. E ele que não me amole com essas observações sanitárias dele, que não me interessam absolutamente nada!”
Eu não percebia que eu ia crescendo em saúde, até um certo ponto ápice a partir do qual começa a velhice, e a doença começa.
De maneira que a saúde tem uma sensação de estabilidade imóvel, e por assim dizer velha. Quer dizer, uma coisa que foi, que durou muito tempo, e que ainda vai durar muito tempo. Não falemos nisso.
(Sr. Poli: É muito curioso por onde o senhor entrou.)
Sim, mas é muito prático. Agora, a doença não. A doença a gente sente como é que a doença vai aumentando, qualquer piorazinha na doença a gente imediatamente percebe, etc. De maneira que também a perseverança, com o progresso inerente à perseverança — porque a perseverança traz progressos — a gente não nota, a gente tem impressão de que está na mesma. E de vez em quando, por algum lance fugaz, a gente tem de repente a impressão de que se melhorou muito. Mas é uma coisa fugaz. Depois aquilo passa, e a gente se sente como há 20 anos atrás.
* Julgar estagnado o Fundador, uma forma de pecado contra o profetismo que leva ao desejo de atirar-se no mundo
(Sr. Gonzalo: Agora, nós devemos ver no senhor os dois lados, porque se percebêssemos que o senhor é descontínuo, seria chocante; mas se não percebêssemos também que o senhor está numa ascensão contínua, a axiologia ficaria quebrada. Isso é algo de prodigioso. Por isso a pergunta sobre a união com Nosso Senhor agora.)
Existe uma certa forma de pecado contra o profetismo que leva a ter essa idéia da estagnação completa. De maneira que a pessoa julga…
(Sr. Poli: É uma certa forma de pecado…)
De pecado contra o profetismo que leva a pessoa a ficar com essa concepção de uma continuidade estagnada, completa. Que faz exatamente o tédio das reuinões, ou o tédio da vida da TFP, e a vontade de pular pela janela para fora, para ir para a rua, e para ir no fundo para a perdição. No fundo… E nem é tão no fundo.
E exatamente aqui há uma espécie de luta entre a TFP e eu, velha de guerra, porque eu procuro fazer ver sempre, embora com certo esforço, que em mim nada há de estagnado, que é a réplica a essa visão, que não se baseia em argumento nenhum: é uma pura saturação.
(Sr. Paulo Henrique: Isso é uma doutrina consagrada. Não tem por onde nós fugirmos a isso.)
É tédio: “Eu não estou com vontade de reconhecer isso, e não reconheço. Por quê? Porque eu estou farto do horizonte que ele aponta. Estou farto da virtude que ele procura praticar, estou farto do que ele ensina, eu estou farto dele! Porque eu quero o mundo!” No fundo reduz-se a isso. Não é outra coisa.
* O desejo de ser um com o mundo leva à cegueira, e todo o esforço do Sr. Dr. Plinio para agradar, para evitar que caiam no mal não é tomado em consideração
(Sr. Paulo Henrique: A Nosso Senhor crucificaram porque Ele representava tudo isso.)(
É… Donde, então, eu para compensar isso, faço o possível para, tentando fazer as minhas reuniões, etc., etc., cada vez mais adaptadas, cada vez melhores em certo sentido, e cada vez mais adaptadas às idéias deles. De maneira que eles tenham por onde pegar, tenham alguma coisa que os distraia, alguma coisa que os alegre, etc., etc., que lhes dá o prazer do bem, para ver se evita que eles caiam no prazer do mal.
E quando uma reunião chega a isso, nota-se que há uma pequena descompressão nessas almas assim. Mas é uma pequena descompressão com mau-humor, não como quem diz… Vamos dizer, por exemplo, um sujeito que tem um braço enfaixado, e que pela primeira vez pode movimentar o braço, ele tem uma descompressão. Mas é uma descompressão que caminha para o bem-estar, para a posição natural do braço.
Eles não. Eles diante de uma coisa dessas, eles ficam quase emburrados de ter que alegrar-se com uma coisa boa, porque sentem que lhes corta o caminho para o mal. E aí não há verem que estou me esforçando para ensinar, para melhorar, etc., etc., que eu talvez esteja cansado mas que eu não dou o braço a torcer, e que faço. Que se se levantarem para fazer uma pergunta, eu responderei como a um senador, etc., etc. Tudo isso não lhes diz nada, porque o que eles têm, e que é o absoluto para qualquer caminho, é a vontade de aderir ao mundo e de ser um com o mundo. E nada os detém nesse passo, a não ser graças com que Nossa Senhora vai sustentando pelo caminho, mais ou menos…
Assim por exemplo a Reunião de Recortes que eu fiz na… [Troca a fita]
…apesar da atonia da sala. Vocês todos viram a atonia da sala.
(Dr. Edwaldo: As pessoas percebiam que, mesmo sem querer, as cabeças iam se pondo em ordem.)
Iam, mas isso para eles não tem valor nenhum: pôr a cabeça em ordem e ter uma idéia exata do Golfo Pérsico. Para eles interessa muito menos do que saber como é que eles vão fazer um negocinho para poder comprar um automóvel. E note: não é pelos confortos do automóvel. É para dizer que tem automóvel. É o prazer inebriante de aparecer pela primeira vez no respectivo êremo — um eremita, portanto — tendo comprado um automóvel. Isso. Isso diz enormemente mais do que o resto.
Agora, aí são as recusas. E são também os castigos, porque uma coisa dá na outra.
(Sr. Gonzalo: Esse crescimento do senhor em amor, porque o senhor disse que quando era menino,o senhor dizia que a inocência do senhor via certos aspectos das coisas, mas quando o senhor foi crescendo, o senhor foi vendo mais os conjuntos. A pergunta é: e agora? Porque é muito difícil pensar que o menino viu tudo de uma vez. Talvez seja assim. Mas na mesma profundidade. Certamente em algo o senhor cresce. E isso é o que vai nos maravilhando.)
Sim. Isso fica muito difícil pelo modo pelo qual o homem sente o progresso da saúde.
Eu vou ver se pensando encontro pelo menos umas boas metáforas para fazer sentir isto. Disso podemos tratar na próxima vez, se vocês quiserem.
No fim conto a vocês uma coisa que é um tema inteiramente diferente. Mas é para vocês rezarem por uma alma… (…)
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