Conversa de Sábado à Noite – 15/12/90 – Sábado – p. 8 de 8

Conversa de Sábado à Noite — 15/12/90 — Sábado

A volubilidade do eslavo diante da Contra-Revolução e da graça

* A tranquilidade sacral dos eremitas durante a cerimônia

(Sr. GD: Se o Sr. pudesse tratar de toda essa problemática que está afetando o lado leste, e o quanto aquelas graças da cerimônia de ontem à noite são uma espécie de antídoto para que a alma não tenha seduções que esse demônio do caos vai sugerindo.)

Sobre a graça de ontem eu fiz a seguinte reflexão. Eu insisti muito que a parte musical estava, evidentemente, muito bonita que não era necessário encarecer. Estava esplêndida em todo sentido. Mas o que a mim me tocou mais como sinal sensível da graça ali foi a atitude dos rapazes, a fisionomia dos rapazes enquanto eles executavam aqueles vários números. Não sei se você chegou a prestar atenção. É antes de tudo uma serenidade e uma tranquilidade com que eles faziam aquilo, e que certa execução que eles tiveram que fazer dois ficaram na primeira fila com os trombones voltados para o povo e acionando aqueles trombones, com uma calma como se estivessem sozinhos no quarto. Depois mais para trás a calma era um pouco menor, mas era notável, ainda mais para enjolras assim. Mas era uma calma sacral. Não era um calma qualquer, era uma calma sacral.

Havia qualquer coisa que pousava neles que fazia sentir o sagrado daquela calma. E sobretudo me pareceu notar no modo do José Afonso proclamar. Os gestos, a voz — a voz é uma voz magnífica — os gestos, a voz, o modo pelo qual ele acentuava certas palavras, notava-se ali além da perfeição musical, notava-se quase que encoberta, quase que escondida atrás da perfeição musical uma ação especial da graça que era de arrepiar.

* Graça nova para o Grupo e para os eslavos

Agora, vamos comparar essa graça com a graça quotidiana da TFP. Ela é uma graça diferente ou ela é uma intensificação de uma graça nova? O que é que é uma graça nova nos nossos caminhos?



Esse problema é muito importante, porque exatamente na matéria eslava, russa, etc., a hipótese que é preciso não perder de vista ao considerar o que está se passando lá, é que é muito arquitetônico que ao par de tudo quanto nós sabemos, e das parapsicologias e dos horrores, uma graça nova esteja visitando alguns daquele povo. E isso é preciso não perder de vista.

Então, como é que seria essa graça nova deles e como é que é a nossa graça. E começando por perguntar se há qualquer coisa de graça nova nos rapazes que declamaram, que cantaram ontem e nos dias anteriores tocaram música, etc.

* A graça manifestada na cerimônia: rompimento das conexões com o mundo

O fato concreto é o seguinte. A graça que eles tinham lá é por inteiro a graça da TFP, mas com um modo de pureza — eu vou indicar daqui a pouco o que é que eu entendo por pureza no caso. Com um modo de pureza que nisto faz com que haja não uma graça nova, mas alguma coisa de novo no modo de aparecer a nossa graça. E qual era a pureza aí? Era uma espécie de destaque, mais limpos do que de costume eles mesmos costumam ser, mais limpos da presença do homem do mundo de hoje dentro deles.

(Cel. Poli: Isso é muito significativo.)

Muito. Mas ao mesmo tempo real. Quer dizer, o que agradava neles é que a graça costumeira brilhava neles com uma intensidade especial, porque uma certa névoa ruim, uma espécie de poluição contrária, que é a adesão ao mundo de hoje, costuma empanar neles essa graça, e estava menos empanada. Não deixava de estar, mas menos empanada do que de costume. Não sei se vocês todos sentiram isso como eu, se isso define o que sentiram?

(Dr. PRR: Tinha algo de personagem de vitral.)

Personagem de vitral que é para o que tende um membro da TFP. Quer dizer, se um membro da TFP der um personagem de vitral, ele não inovou nada, ele se purificou de muita coisa. Nesse sentido da palavra pureza. Envolve a outra, mas não se reduz à outra. É uma coisa diferente.

Quer dizer, é uma graça, portanto, de destilação contra-revolucionária em que — em francês tem a palavra aquantence, que eu não saberia bem traduzir para o português — as conexões do homem comum, do membro comum do grupo com aquilo que tem… as conexões dele com o que ele era antes de ser do Grupo e com o mundo dele, que ele deixou fora, mas com o qual ele costuma ter uma certa xipofagia, isto está adelgaçado e circulando menos sangue, com vantagem. O que então fazia o personagem de vitral transparecer mais, e nosso bom José Afonso estava bem vitralesco. Se um personagem de vitral pudesse falar, poderia falar naqueles termos.

Agora, então, nós temos aqui uma definição que se compõe de dois elementos. Algo que despoja, algo de que se libertam, quero dizer, e algo que eles já têm e que brilha com mais intensidade porque o que obnubilava cessou, diminuiu. (…)

até certo ponto nós temos mais aquantence com o mundo de hoje do que eles. Não se pode negar. Eu ficaria encantado se eu pudesse negar isso, mas eu não ousaria negar uma coisa dessa.

(Cel. Poli: É quase evidente.)

É saliente, não só evidente mas saliente.

Mas é uma coisa curiosa, que nós temos mais thau do que eles. É uma coisa muito interessante como isso é subtil. Quer dizer, abarcamos muito mais os fenômenos revolucionários e contra-revolucionários nas suas complexidades, o grosso de nós do que o grosso deles. E portanto em nós brilharia muito mais se as nossas aquantences não fossem terríveis, e nós tivéssemos feito concessões a essas aquantences realmente muito lamentáveis. Muito, muito lamentáveis.

Mas eu digo isso para mostrar, em primeiro lugar, a complexidade desses fatos e como é preciso a gente ter uma precisão de vista e de expressão para definir tudo muito bem e para entender bem coisa.

* Pauperismo russo, preparação para a vinda do demônio

Agora, se não estiver fatigante o que eu estou dizendo, eu passo para o outro lado da questão, que é a questão eslava, etc.

Com esse pessoal eslavo como o Caio descreveu, é uma coisa que eu não imaginei que fosse nem de longe como o Caio disse. Eu sabia como era a miséria, papapapá, mas imaginava essa miséria — é verdade que é nos seus aspectos mais favoráveis, mas enfim —a la vila Moscou. E pelo que diz o Caio não é nem de longe. O que está abaixo da vila Moscou isso, é quilômetros.

(Sr. MN: E a vila Moscou tem uma característica que pareceria o oposto do que existe lá. Eles têm um desejo de melhorarem as coisas. Em pouco tempo cada apartamento tomou um caráter um pouco diferente do outro.)

A gente vendo janela aberta, lá dentro nota coisinhas, tem quadrinhos, tem….

(Dr. EM: Quando se trata de casas iguais nota-se muito mais, porque eles mudam o aspecto externo das casas.)

Exatamente. Por quererem se diferenciar. E depois pela idéia — porque aqui está a questão — a idéia que é preciso ter algo de deleitável na vida. E que procurar algo de deleitável na vida é um dever. Quer dizer, não se tem o direito de deixar a vida privada de um certo nível mínimo de deleite.

(Sr. GD: Essa é a dignidade que a TFP defende para qualquer homem.)

Para qualquer homem, perfeitamente. E reivindica em certo sentido mais do que o pão.

Eu me lembro que quando eu tinha assim 21 anos mais ou menos, eu não me tinha formado ainda em direito, eu fui convidado por um membro do grupo que tinha uma casa de fazenda no interior. Uma casa de fazenda grande. Nessa casa, um casarão desses antigos, caxotões, eu estava ali, e a comida muito boa, você sabe que eu sou exigente, o dono da fazenda amabilíssimo — não costumava ser — mas como dono de casa primorosamnte amável, levando a coisa a uns extremos como eu vou dizer daqui a pouco. Foi nessa fazenda que eu levei um tombo e fiquei durante muitos dias inutilizado, porque o cavalo estava com a barrigueira mal apertada e eu caí. O dono da casa ia ele pessoalmente me servir na cama. Não vinha copeira nem nada disso, mas vinha ele próprio. Depois, com uma amabilidade e com um espírito de acolhida que eu não imaginava.

Apesar de tudo isto eu sentia um vazio, um mal estar que eu não sabia exprimir. De repente eu explicitei. Era uma casa que não tinha um bibelot, não tinha um quadrinho. Ainda que seja esses quadrinhos idiotas de folhinha de fim de ano, arvorizinha cheia de maçãs, embaixo tem carneirinho, e umas crianças que brincam com o carneirinho, essas coisas assim, ou então uma paineira na beira de um rio, umas coisas assim que a imbecilidade arranja um jeito de se apropriar disso e fazer disso uma expressão artística própria. Ainda que seja isto, para poder olhar um pouco. Não tinha. Em cima de uma mesa você não encontrava uma toalhinha. Já não digo uma toalhinha fina, mas um crochê, uma coisa, um bibelozinho bobo, um cinzeiro que imita o jeito de um cachorrinho, essas coisinhas assim mais ordinárias, não tinha um.

E eu compreendi qual é o mal estar que podia causar na alma de um rapaz de 21 anos, portanto muito novo ainda, a carência de qualquer bibelot. Há nisso um princípio de um mínimo de ornato na vida, tomando a expressão de São Tomás, se não me engano, “dignidade com ornato” é indispensável para a vida, há um elemento que é indispensável para você ter vida bem organizada. E o que se quer satanicamente ali é habituar a natureza humana a não ter ornato na vida, e nem ter dignidade também. É zero e acabou-se. Não teve outra coisa. E acho que isto já é uma ante-véspera da aparição do demônio nas formas e linhas em que eu me exprimi em vezes anteriores. Não é o caso de eu estar repetindo. Mas, a meu ver, é uma ante-véspera do demônio.

E nessas condições a gente tem que as pessoas ali estão quebradas assim que é para se entregarem ao grande paralítico, ao grande morfético, ao grande imundo, ao grande desfigurado, que para fazer um com ele e o adorarem num ato de revolta contra Deus. E depois todo o resto que você pode imaginar. Não vou perder tempo em analisar isso.

* Um povo desconectado com o mundo da Revolução

O que eu quero fazer notar é o seguinte. É que uma parte da população russa se conservou, não passou pela Renascença e se conservou mais ou menos como era no tempo de Ivan, o terrível, que foi o homem máximo da Idade Média russa. E uma outra parte, mais rica, vamos dizer, a nobreza, a nobreza média e grande, mas quanto maior a nobreza mais isso se deu, pelo contrário auriram a Renascença inteira. Aqueles palácios de São Petersburgo ao longo do Neva, aquelas coisas todas, todos intoxicados de todas as coisas do Ocidente, fazendo de São Petersburgo a janela pela qual toda essa poluição entrava no mundo russo. Quando arrebentou o comunismo, eles muito significativamente embalsamaram São Petersburgo e deram para uma cidade de segunda ordem. Transferiram tudo para Moscou, porque Moscou estando mais medievalizada, estava mais perto de ser levada para o primitivo, e foi esmagada e posta no primitivo, pura e simplesmente.

E nesse todo, nessa situação eles fizeram do fundo da Rússia, onde era difícil os ocidentais irem, verem, etc., eles fizeram, vamos dizer, a metrópole futura do demônio.

Agora, essa gente que está assim esmagada, ou é gente que ficou lá, não conseguiu fugir, e que por causa disso se deixou esfarelar, morreu ao longo do tempo, e deixou a coisa toda se esvair, ou é gente que é do povinho, que era disso mesmo, e que se quebrou. Mas esta gente que está preparada para isso não tem essas aquantences com o mundo da Revolução.

Uma coisa que o Caio me disse e que me deixou desolado. A igreja de São Basílio com aquelas cúpulas, a cúpula maior parece que é dourada mesmo, cor do metal, e o tempo não atacou. Mas as outras estão todas espandongadas. Aquelas cupulazinhas que tinham cores diferentes, está tudo… Diz que do lado de fora a igreja mete horror. Eu tive impressão que eles não entraram. Fizeram bem, porque é IO. Mas, enfim, mete horror aquilo. Para vocês terem idéia, porque aquilo é uma jóia, é um encanto, é uma maravilha. Eles fizeram daquela maravilha esse horror.

* O povo russo diante da Contra-Revolução: não têm o que os deteria a aderir, mas lhes falta o que os levaria a aderir

Agora, qual é então a ação da graça sobre essa gente? Essa graça é uma tentativa de restaurar uma Contra-Revolução que resiste à morte e que quer vencer a morte? É o nosso caso. Ou é uma coisa completamente nova? E qual é o dinamismo da luta desta gente, e como é a posição dessa gente encontrando-se com o Ocidente e com a Contra-Revolução. Esse é o problema deles.

Não sei, meu Gonçalo, se está claro?

(Sr. PHC: Essa falta de aquantence deles com o mundo de hoje facilita também para o dinamismo da graça favorecê-los no sentido de conectá-los com o Sr.)

Aqui está o ponto delicado. Porque encontrando eles o estandarde da TFP, a Contra-Revolução, eles não têm alguma coisa que os detém a aderir, mas eles não têm algumas coisas que os levam a aderir. E a problemática é totalmente nova. Isso é muito delicado. Mas uma vez que estamos com o problema posto sobre a mesa, é preciso abordar isso.

Eu precisaria ver alguns desses para perceber qual é o jogo da graça, porque não é dedutível em pura razão teórica. Porque para a variedade dos jogos da graça, Deus tem tanta maneiras de agir que nós não sabemos, não podemos deduzir a priori o que está acontecendo.

* A volubilidade do eslavo diante da graça

(Sr. GL: Mas por que o Sr. dá por suposto o jogo da graça. É a questão da Lituânia, imponderáveis ou por jornal falado?)

É por anteriores jornais falados do José Lúcio, que eu sei que põe uma certa dose de otimismo no jornal falado, mas que eu acompanhei com enorme atenção, enorme cuidado, e em que eu via que havia um jogo da graça. Há ali um jogo da graça para certas almas que deveriam agir sobre toda a população. E esse jogo da graça, como todo jogo da graça encontra obstáculos, encontra facilidades, etc., e tem que se pronunciar diante de nós. O que é que nós representamos para eles.

Eu não consigo sem ver alguns formar uma idéia de por onde a Providência está pegando a coisa. Tanto mais quanto eu vi, pelo caso que o José Lúcio contou, reações de pessoas em que a mim me parecia provável que havia jogo da graça, mas que trataram a graça que recebiam com a ênfase e a volubilidade própria do eslavo. De maneira que num primeiro momento dando uma grande solidariedade, noutro momento metendo um ponta-pé. Que é o próprio deles. Então há mais um elemento, que é além da atitude dessa graça perante o que vem do Ocidente, e perante o ambiente mefítico interno criado pelo comunismo, são dois elementos distintos, mais o jogo do temperamento deles: com o pecado original, com as bebedeiras, com a preguiça, com tudo o que tem posto ali, e que cria uma situação delicada.

Por exemplo, um caso. Um rapaz — esse eu não me lembro de ter visto a fotografia dele, mas o JL qualificava de ótimo, etc., etc. Vocês conhecem o caso?

[O Sr. contou aqui mesmo.]

Então eu não preciso estar repetindo. Esse homem de repente se casa com uma mulher muito mais velha que ele, vai para o Ocidente, se desinteressa do José Lúcio, de tudo… e eu admito a possibilidade que ele tivesse graça. Existe isso.

Outra coisa. Um que era padre recém ordenado, celebrava missa, e que tinha uma certa noção da crise dentro da Igreja, etc. Pergunto ao José Lúcio recentemente: o que que foi feito desse homem?

- Ah, Dr. Plinio, apostatou.

Eu disse: mas por que é que apostatou?

- Não, ele teve uma briga com bispos católicos lá, disse que não entendia mais nada, etc., e saiu.

Vocês estão vendo o emerveillement dele diante da coisa e de repente o ponta-pé. Por uma questão de amor próprio… Vamos dizer que ele tivesse razão no interesse. Nada autorizaria ele a meter um ponta-pé na Hierarquia.

Quer dizer, é toda uma problemática muito delicada em que nosso papel consiste em ajudar a eles não a ignorarem a novidade do cenário mas a serem muito cautos no descrever o cenário. Muito matizados no descrever o cenário. E portanto darmos um certo apoio, mas um apoio com as restrições que é o melhor do apoio. Porque, vamos dizer que o corrimão de uma escada é o melhor que há na escada. A escada seria um lugar de desastres, de acidentes se não houvesse corrimão. Na aparência o corrimão tolhe a liberdade de quem sobe, mas tolhe a liberdade de cair, de fazer asneira, de fazer besteira, é uma coisa indispensável.

(Sr. MN: Isso tudo que o Sr. descreve me fez lembrar o que acontece com os enjolras. Pergunto se não há uma analogia de situação, e se a graça que atua sobre os enjolras não poderia atuar sobre eles?)

É, eu acho que eles são muito enjolrões. Mas a questão é que o que caracteriza a graça deles da nossa não é propriamente isso, mas é a possibilidade de tomada de atitude deles e qual a fidelidade diante do espírito medieval ocidental.

(Sr. MN: É um problema que os enjolras não têm?)

Não. Isso eles aderem… Mas este é o princípio, é o ponto.

* Analogia entre a situação da Contra-Revolução e a do povo russo

Quer dizer, a cena histórica é essa: nós representamos um passado que está tão esquálido, tão perseguido e tão pobre, espiritualmente falando, quer dizer, nossa posição na sociedade ocidental é muito parecida com a deles. Só que nós somos os perseguidos do lado simbólico, do lado moral, do lado social da palavra, e eles são os perseguidos do lado material. Porque diminuição eles não têm nenhuma. Eles vivem ali no meio dos outros. Mas não têm esse dedo apontando contra nós e nos denunciando, nos pondo à margem continuamente, e que é a nossa história.

(Dr. PRR: Diante de uma Idade Média perseguida então?)

De uma Idade Média perseguida e levada ao último ponto da perseguição. Esse é propriamente o caso. Eles estão no último ponto da miséria, nós estamos no último ponto da perseguição. E, portanto, vamos dizer, do mal estar psicológico. Isso não é negável.

* Povo russo: apesar de tudo, menos adesão ideológica ao comunismo do que o Ocidente

(Dr. PRR: É preciso uma generosidade muito grandes dele para aderir…)

Para compreenderem que são resíduos que se encontram. Eles são resíduo, digamos, de um pouco de IO, mas IO já é veneno, e resíduo de uma certa ordem natural na qual não entraram os venenos da Revolução. Tanto mais que há uma coisa curiosa com eles que é o seguinte: eu tenho impressão que o número das adesões ideológicas ao comunismo talvez tenha sido maior aqui do que lá. Mas eu acho que, por exemplo, estou olhando para você me lembrei do Chile. O que vocês contam do Chile, para chegar a levar um Allende ao poder, havia muita adesão.

Bom, eu pergunto: tudo não leva a crer, pelo que está se passando, que a massa lá aderiu muito menos a isso? A massa aceitou. Aceitou não. Aguentou o peso que caiu em cima dela.

(Sr. MN: É isso mesmo. Os historiadores sérios hoje dizem que o número de comunistas na época de Lenine era de 18 mil.)

(Sr. GL: Mas o resto é um grupo de animais. No Chile quando progrediu com Pinochet o povo se entusiasmou pelo progresso, e eles não. Há uma imbecilização…)

Que é um pecado muito grave. Não descordo. Mas resta saber se a adesão ao comunismo não é uma coisa pior. É muito delicado. Tudo isso é muito difícil de pôr nos devidos gonzos, nos devidos pontos, etc.

(Sr. GD: Mas muito bonito.)

Muito bonito, o problema é muito bonito. Mas eu me pergunto se vai ser possível, por exemplo, fazer compreender uma complexidade dessas já não digo para os enjolras mais novas, mas mesmo para tipo dos enjolras que assistem RR. Tão complexo é.

* Passividade russa

Por exemplo, na Europa. É fora de dúvida que a Idade Média tinha as maravilhas que tinha, mas tinha muito de camponesão. Mas aquilo que tinha de camponesão era movido por um desejo de melhora que se moveu. Na Rússia não tinha. Quer dizer, a IO não comunicou isso a eles, eles nunca se rebelaram contra a IO, enguliram a IO com uma passividade vergonhosa, o que existe na Ucrânia de mais aproveitável, segundo me disseram, não sei se é verdade, é uma parte da Ucrânia que pertenceu ao império da Áustria, onde eles então ali fizeram pressão e aquele pessoal ficou católico. Mas que representa até certo ponto uma passividade espantosa em certa perspectiva, não é?

* Ante a diversidade de ritos orientais, pergunta-se que espécie de graça nova a providência dará a esses povos

Tudo isso considerado, eu tenho impressão que pode haver uma graça ali que esteja para a graça antiga nossa numa relação meio parecida — eu daqui a pouco vou explicitar meu pensamento — numa relação meio parecida com a dos melquitas com a Idade Média.

Você toma uma cerimônia litúrgica melquita séria, numa igreja melquita bonita, uma coisa direita, é uma coisa contra a qual nós não temos nenhuma restrição. E a graça que você tem na Saint Chapelle você não tem no rito melquitas. Mas tem uma graça irrepreensível. O que é que a Providência vai dar a eles agora, nesta ordem, o que é que está dando? Eu não tenho elementos para opinar, e por causa disso eu fico muito na dúvida.

* Algo haverá que alterar na visão que os nossos trouxeram da Lituânia

E não adianta alegar a esplêndida acolhida que eles receberam na Lituânia porque é outro mundo. Aquilo já não é a Rússia, é uma outra coisa, é outra cultura. Lá eles foram bem acolhidos, tatá, é uma outra questão. Eu daqui a pouco digo uma meia palavra sobre a Lituânia.

Agora, tudo isso eu não disse a eles antes de viajarem porque não me pareceu provável que houvesse oportunidade de tudo isso entrar tão em cena quanto de fato entrou. E eu vou ter que explicar a eles quando chegarem, conversar, etc., etc. Eu estou certo que isso ajudará para abrir os olhos, para verem, tal e coisa, e aí é que a gente pode ver bem o que é que é para alterar no estado de espírito que eles puseram. Não em relação a certos pontos de vista, mas em relação a certos outros pontos de vista. (…) [Vira a fita]

(Sr. GL: …inclusive para tentar os membros do Grupo.)

* Deve ajudar a quem a graça quer ajudar

Até o fim, até o inimaginável. Mas enquanto ela os estiver querendo bem, ela quer inclusive que a gente os queira. Como é bonita a parede feia onde bate o sol do quadro do Claude Lorrain, a parede é bonita. Assim aquela alma é delectavel, a gente deve querer.

É muito bonito, não é meus caros. Bem, quero lhes dar abeas corpus. Vamos dormir, não é?

Não é isso meu filho? Ah, ah, ah.

(Sr. GL: Quanto isso se aplica. Se não fosse a paciência do Sr. quanta coisa teria acontecido de ruim.)

Você pega outras pessoas que você sabe que eu gosto muito. Aturo, tolero, e lá vai a coisa, e vai indo…

Há momentos minha Mãe…

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