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Conversa de Sábado à Noite — 24/11/90 — Sábado

A excelência da virtude da fé no Sr. Dr. Plinio * Uma aptidão natural com um fim sobrenatural, em que a aptidão dá brilho à missão e ao mesmo tempo é abrilhantada por esta * A facilidade para a sublimação das coisas e a paixão pela lógica

* Para o Sr. Dr. Plinio não se tratava só de praticar essa ou aquela virtude, mas de possuir uma certa mentalidade que é o espírito de todas as virtudes

(Sr. GL: …. [Faz uma exposição do que o Sr. Dr. Plinio tratou em Amparo, do homem do Reino de Maria, etc.] Como é o tesouro que está no centro desse castelo que o Sr. nos mostrou?)

A questão é que a resposta poderia caber numa palavra mas não seria satisfatória. É preciso, portanto, eu enquanto conversar, eu ver se eu faço a “mise au point” direta do assunto. Porque do que se trata em última análise no meu espírito é o seguinte. É o espírito católico, apostólico, romano, a posse do estado de graça, o modo de ser por onde eu teria com a Igreja Católica a afinidade total que eu queria ter, por onde o espírito dela habitasse em mim e eu habitasse nela. E que eu sabia perfeitamente que é o Espírito Santo, o Espírito de Nosso Senhor Jesus Cristo, o espírito de Nossa Senhora, eu sabia naturalmente que isso forma um todo só.

Então não se tratava só de praticar essa ou aquela virtude, mas tratava de praticar todas as virtudes de maneira a possuir o estado de graça. Mas mais do que praticar todas as virtudes e possuir o estado de graça era possuir uma certa mentalidade que é o espírito dessas virtudes.

* Heresia branca: prática das virtudes sem a mentalidade correspondente a elas

Quer dizer, a gente tomando uma pessoa que tem o conjunto — a gente via isso muito na heresia branca do meu tempo; a gente analisando as ações praticadas por essa, aquela, aquela pessoa, encontrava que mais ou menos eram ações todas elas boas. Em todo caso não eram ações que comportassem a perda do estado de graça. Eu vou dar o exemplo característico das senhoras que praticavam a Religião e que eram muito mais numerosas do que hoje. E que literalmente, por ocasião das cerimônias religiosas, etc., enchiam as igrejas. A gente via essas senhoras e via que eram boas mães de família, que cumpriam seus deveres, que nunca tinham roubado na vida, que nunca tinham pecado contra a castidade, etc. Enfim, todos nós conhecemos senhoras dessas em grande quantidade. Mas o espírito dessas virtudes elas não tinham. Quer dizer, há um ponto central dessas virtudes todas que elas não tinham, não tinham apetência de ter, e por falta de apetência, por assim dizer, não tinham a capacidade de ter essas virtudes. De maneira tal que a gente olhando essas senhoras diria que elas eram ao mesmo tempo irrepreensíveis e totalmente vazias.

Donde se seguiam algumas coisas. Por exemplo, elas não tinham por dever de estado nenhuma obrigação, de momento, assim, para considerar a coisa assim, nenhuma obrigação de fazer apostolado, não tinham nenhuma obrigação de trabalhar pela expansão da Igreja Católica — porque já viviam no meio católico, aquilo tudo era mais ou menos assim, etc. Vamos imaginar, por exemplo, uma senhora numa cidade pequena do interior. Era todo mundo mais ou menos assim, todo mundo mais ou menos católico. Ela poderia afervorar uma ou outra amiga, conseguindo que rezasse uma ladainha todos os anos para se preparar para a festa de Santo Antônio, assim umas coisas dessas podia fazer. Não fazia, em parte, porque ela mesma sentia uma relativa irrelevância do fato, em parte porque ela não tinha essa mentalidade. Mas ela ter a idéia, o espírito da Igreja Católica ela não tinha.

E isso se podia dizer de algum modo dos católicos praticantes antes do tempo das Congregações Marianas. Eram muito pouco numerosos. Eram tão poucos numerosos que eu só os conheci e só soube que existiam depois que eu entrei no movimento católico. Eu não sabia, eu ignorava completamente que existissem aquelas pessoas. Mas analisando eu via que eram pessoas comuns, pessoas boas, etc., mas que não passavam dessa história. Agora, o fato de elas não perceberem a Revolução, não tomarem posição em face da Revolução, não procurarem alertar os seus contra a Revolução, não terem a noção do drama dentro do qual a Igreja ia entrando, e nem ter as condições para irem compreendendo este drama às vezes se explicava porque elas eram de um tempo que não havia isso: mamãe, por exemplo; mas às vezes não se explicava por isso. Era inteiramente do tempo, elas viam as coisas etc., mas não se incomodavam. Isso significa de um modo negativo o que faltava e o que constitui o em torno do que a muralha foi construída. O em mim em torno do que a muralha foi construída. Isso está dada uma explicação negativa. É evidente que havia também eclesiásticos nessas condições, inclusive bispos, que a gente via que levava uma vida correta. Nunca me passou pela cabeça de pôr em dúvida, por exemplo, a pureza daqueles homens, ou mesmo a integridade da fé daqueles homens. Nunca me passou pela cabeça. Mas é uma coisa que não havia dentro a chama dos Apóstolos do Últimos Tempos, não havia a chama de São Luis Grignion. E se você desse São Luis Grignion para eles lerem, eles deduziriam daí que era preciso, por exemplo, rezar o ato de Consagração todos os dias.

(Sr. GL: Se consagravam como escravos.)

E consagravam como escravos, mas dava tudo na mesma. Porque não tinham as condições para compreender qualquer coisa que não fosse aquela piedadezinha terra-terra. E assim morriam.

(Sr. GD: E levava para o céu…)

Creio que sim, ao menos a maior parte das pessoas ia para o céu. Que céu, que purgatório? Quer dizer, o céu era o céu, que purgatório eu não sei?

(Sr. GL: O céu tem graus também, não?)

Também tem grau, também tem grau.

* Uma excelência da virtude da fé, por onde se conhece o espírito da Igreja no que ele tem de mais autêntico

Agora, é precisamente — o Guerreiro falou do céu — precisamente isso era construído especialmente para incluir na minha rejeição as pessoas que também fossem para o céu mas nesse estado de espírito. Era preciso não ter esse estado de espírito. Porque as batalhas que vinham exigiriam um estado de espírito tão diferente, a missão que vinha era tão diferente, que em concreto comigo, se eu fosse ter aquele estado de espírito, eu não iria para o céu. Aquela boa velha que podia até gostar de mim…

(Sr. GL: A preta do Estevão de Resende.)

Exatamente. A preta do Estevão de Resende, por exemplo, ela pelas condições dela podia ir para o céu. Mas se eu não fizesse isso, eu acabava prevaricando e passando para o lado da Revolução. Agora, o que é que é isto em última análise. Eu tenho impressão que é uma excelência da virtude da fé, por onde se pega, se conhece o espírito da Igreja no que ele tem de mais autêntico, de mais saliente, de mais ótimo, e, agora vem uma excelência da caridade, se ama especialmente aquilo. Donde vem a Igreja enquanto amada especialmente enquanto espezinhada, enquanto posta de lado pelos que não viam as coisas como são. E depois então a esperança. A ordem não é, portanto, fé, esperança e caridade, mas na ordem psicológica seria o seguinte: isto tudo é tão absurdo, é tão absurdo que não seja como eu acho que deve ser, que eu tenho esperança absoluta de fazer isso reviver. E é o amor a isso do espírito da Igreja, é que fazia o resto todo de minha alma. E o ser um varão inteiramente imbuído desse espírito. E outra coisa, é no fundo o que faz a TFP. Porque você vê que a TFP tem contrabandos dentro dela de indivíduos que não querem ser assim, e que querem imitar a boa velha senhora que fabrica bananadas, que ela dá de presente para o vigário quando chega o aniversário dele, e outras coisas do gênero, e há gente que se delicia com isso.(…)

Agora, esse espírito assim tem em si um grande brilho. E então não é tão difícil descobrir que ou a gente limpa a face do católico dos reflexos psicológicos do espírito da senhora que faz bananada, ou a gente perde a partida. A gente tem que ter o brilho do espírito que está em nós. Não é?

* Uma aptidão natural dada ao Sr. Dr. Plinio com um fim sobrenatural, em que a aptidão dá brilho à missão e ao mesmo tempo é abrilhantada por esta

(Sr. GL: …. No caso do Sr. há um colorido muito amplo em todas as virtudes. Isso vem de onde? Só da intensidade da fé?)

Não, meu filho, aí tem o seguinte. As virtudes, quando a gente as considera num homem, a gente deve considerar o modo de ser daquela virtude enquanto ela se caracteriza moralmente, mas também enquanto ela se utiliza das aptidões de um homem. São aptidões que estão, de si, fora do campo da moral: são aptidões. Ela se utiliza dessas aptidões para pôr ao serviço dela, então ela ilumina essas aptidões com a luz dela. Mas há uma distinção em si entre a aptidão e a luz da virtude.

Então acontece que está no feitio do meu espírito de ser muitíssimo observador, e muitíssimo observador por algo onde entra o seguinte: é que como pela virtude da fé eu vejo muito claramente tudo quanto é conforme à Religião Católica, e depois tudo quanto é contrário, eu vejo muito bem os mil matizes de todas as coisas. Quer dizer, uma aptidão que eu tenho que é utilizada pela fé para esta finalidade. Eu posso admitir até que me tenha sido dada essa aptidão naturalmente para o exercício sobrenatural. Como, por exemplo, para outro, vamos dizer para o missionário, que tem que andar muito a pé, a Providência podia dar muita aptidão de andar a pé e não se cansar, etc., a serviço do zelo missionário dele.

Assim também poderia me ter dado essa aptidão de ver enormemente no que é que a Igreja está concernida ou não, em que estou concernido eu enquanto católico ou não, e portanto um ver enormemente como é que são as coisas à luz da Igreja Católica. E uma certa aptidão, vamos imaginar, também para me exprimir, para dizer aquilo que eu estou sentindo, que eu estou pensando. E, vamos levar a imaginação mais longe, uma aptidão também para dizê-lo de um modo que seja o menos possível monótono, que possa atrair, etc., etc. São três aptidões. Essas três aptidões ficam a serviço de uma missão. Mas elas de um lado dão brilho à missão e de outro lado as aptidões são abrilhantadas pela missão. É uma coisa recíproca. E isso eu creio que…

Por exemplo eu imitando o jeito daquele baiano dizer “minha flor”. Mas a questão é a seguinte: eu peguei todo o espírito que havia na cabeça daquele homem a esse respeito, e peguei a mentalidade dele como era, e entendi porque é que aquela entonação de voz exprimia aquela mentalidade. Como eu vi isso, contando o caso me vem expontaneamente ao espírito o jeito. E percebi que um mundo de gente, é seu caso, que não sendo brasileiro — você mora aqui no Brasil há muitos anos, mas os hispanosinhos e outros — podia não entender bem o que é um baiano. Eles mesmos acabaram entendendo o que queria dizer aquela flor, e entendiam como é o baiano através daquilo. Mas donde é que vem isso? É uma série de aptidões posta a serviço da fé, que servem para abrilhantar a fé mas recebem um brilho da fé. Assim eu julgo exprimir a coisa.

* Cluny, impregnada de bom espírito até o século XX

(Sr. PHC: Essas aptidões abrangem a história no passado, presente e futuro. Nesse sentido particularíssima, porque nenhum outro Fundador teve essa missão.)

É, creio que não. Podia-se ter pensado disso quanto a Cluny. Cluny enquanto conservando o que convinha da cultura romana, clássica, sem se deixar babar por aquilo como fez a Idade Média, depois criando uma coisa nova que era a Cristandade, Cluny pode ter tido uma coisa assim, e teve com muito brilho.

Você sabe de uma coisa engraçada que houve de Cluny comigo, não é? Uma vez eu fui a um lugarzinho da França que é muito conhecido como peregrinação, que é Parai le Monyal, onde o Sagrada Coração de Jesus apareceu a Santa Margarida Maria, etc. Eu fui lá e no convento de Santa Margarida Maria não havia missa. Era domingo e eu precisava assistir missa. Me disseram que “Il est dans la parroisse. Vous avez que est y aller, monseiur”. Ainda não havia missa nova, eu fui com toda normalidade para parroisse. Entrei e vi que era uma igreja velha, mas eu queria assistir missa, eu não estava preocupado com coisas arquitetônicas. Enquanto eu estava assistindo a missa e rezando, e tal, de repente olhei para um pedaço de muro e disse: puxa, que arquitetura. Mais adiante eu pensei: eu preciso fechar os olhos nessa missa, porque essa igreja aqui não é linda mas ela tem uma coisa qualquer que me atrapalha de rezar, eu começo a fazer arquitetura aqui. Depois saindo eu indaguei. Aquela era uma parte central da velha igreja de Cluny. Mal conservada, mal tratada, mas tinha bom espírito por toda a parte. Resultado, se tornava para mim impossível rezar.

Aliás, é um horror, mas eu não sei se contei a vocês. Mamãe, muito devota do Sagrado Coração. Eu quis comprar para ela uma lembrança desse lugar insigne, e vi bem em frente ao convento uma livrariazinha, que assim para ver de longe era muito bem guarnecida. Eu vi de longe uns cartõezinhos presos por uns grampos, com iluminuras medievais impressas. Eu podia comprar, por exemplo, uma coleção disso para ela, qualquer coisa. Cheguei lá e fui ver os cartões. Eram pensamenteos de Voltaire, Rousseau, Diderot, Dalembert, etc., vendidos ali numa livraria católica de Parais le Monyal. Eu comprei alguns mas para mostrar em São Paulo como estava a crise da Igreja. Para mamãe não ia mostrar aquele horror. Depois com o tempo se perdeu.

Bem, meus caros, mas então está claro isso ou não?

* Uma graça mística que dá ao Sr. Dr. Plinio facilidade de sublimar as coisas

(Sr. GD: Qual a relação das aptidões naturais do Sr. com a excelência da virtude da fé? ….)

Você não esteve em Amparo desta vez, mas em Amparo eu tratei disso um pouco mais longamente do que de costume, creio eu. Mas eu posso dizer muito sumariamente isso aqui. No meu tempo de infância, de primeira infância até começar a luta, portanto no tempo da felicidade que está descrita na oração da restauração, no tempo daquela felicidade havia uma coisa que eu vejo que era uma graça, e no sentido que eu vejo o João e de algum modo o Miguel, etc., empregar a palavra, é um graça mística, por onde me era muito fácil a partir de qualquer coisa que eu via, sublimar aquela coisa. Compreender o aspecto sublime de que aquilo poderia ser capaz. E aí ter uma idéia, que nós no MNF chamávamos de transesfera, de uma esfera possível de coisas simplesmente maravilhosas, etc., que numa certa ordem de idéias seria como que um cone de todas as realidades existentes na terra, de todos os predicados das coisas existentes na terra. Seria se você quiser, de algum modo, o céu empíreo, algo do céu empíreo. Então tinha uma facilidade que estava no meu espírito de qualquer coisa que eu tivesse diante de mim, que correspondesse a um certo feitio que no fundo eu não sabia mas era a Contra-Revolução, um certo feitio de excelência em qualquer linha, eu pegar o máximo que aquilo podia ter, e às vezes até misturar a coisa e acabar achando que aquela excelência estava na coisa quando de fato não estava. Eu tinha pegado pequenos sinais essa excelência na coisa e tinha sublimado.

* “O Plinio ao ler vê mais do que o próprio autor e acrescenta algo que o autor não disse, mas que estaria na lógica do que o autor disse”

Uma coisa característica foi o período em que o Fernando, mas amistosamente, moveu uma espécie de guerra contra mim na Rua Pará ainda a respeito dos comentários que eu fazia dos livros que eu lia. Ele tinha sido um muito bom congregado mariano, fervoroso, depois passou um período largo de decadência, e depois se reafervorou. E nesse intervalo que ele passou esse período de decadência, ele estudou enormemente matemáticas, tornou-se catedrático da Faculdade, etc., e eu lia autores católicos, enfim, contra-revolucionários. E na hora da conversa ele não conversava sobre as matemáticas, porque eu não entendia, e eu falava sobre as coisas católicas que interessavam a ele, embora ele não as lesse. Mas quando ele, por assim dizer, se converteu, levado pelos livros que eu li, ele procurou ler esses livros. Ele gostava muito de ter biblioteca muito bem arranjada. Então não me pedia emprestado meus livros que eram mulambos, eu destroço meus livros. Ele comprava, mandava encadernar, etc., pôr na biblioteca dele e lia, lia com atenção, seriamente. Ele era um espírito sério. Mas ao cabo de algum tempo ele começou a dizer o seguinte — para os outros, não para mim — “é uma coisa esquisita, mas eu não chego a encontrar nos livros que o Plinio lê o que ele conta. Eu vejo que ele não está mentindo, mas a questão é que o autor não tem o que ele diz. Eu pego tal ou tal passagem que ele elogiou, a passagem está lá, mas precisa acrescentar algo à passagem, que a passagem não tem, para ver nela o que o Plinio viu”.

Imediatamente o Paulo tomou conta da coisa para começar a dizer que u fantasiava as coisas. Mas o Fernando fez a “mise au point” muito boa. Ele dizia: “O Plinio ao ler vê mais do que o próprio autor, e pensa que o autor disse porque ele viu. Porque qualquer um de nós lê o que está escrito e julga que o autor disse. Mas no caso do Plinio não é. Ele acrescenta algo que o autor não disse, e não é mentira dele, estaria na lógica do que o autor disse. E ele faz a lógica até onde o autor não chegou e dá àquilo um sentido que o autor não tinha. Ex., Joseph de Maistre, nesse ponto, naquele, naquele outro”. No começo eu me defendi com uma certa fuga, mas depois ele me deu exemplos que eu vi que não tinha, que era isto mesmo…

Mas você vê o que tem dentro disso, que é uma aptidão para perceber naquilo um certo “pulchrum sumo” ou altíssimo que o autor não tinha em vista tratar. Jó, por exemplo, é um livro inspirado, mas a questão é que o Divino Espírito Santo não ia tratar disso… [Vira a fita]

a tendência a essa aptidão, mas também a esse desejo que faz meio parte da fé, meio parte da caridade, que leva meu espírito a estes píncaros, muito frequentes, muito numerosos, e que se ligam ao brilho de que falava o Gonçalo e outras coisas assim.

* A paixão pela lógica, outra excelência do espírito da fé, que é meio uma aptidão e meio uma graça

(Sr. GD: E nisso está a excelência da virtude da fé à qual o Sr. se refere.)

É uma das excelências do espírito da fé é essa. Outra excelência do espírito da fé, é meio uma aptidão e meio uma graça, é uma paixão pela lógica. Você deve ter notado várias vezes isso. Eu tenho um gosto enorme pela lógica. E quando a lógica conclui, eu deito uma confiança nela em que eu me jogo inteiro. Isso é assim porque tal raciocínio chega a tal coisa. E como a lógica aponta a verdade isto é assim, e lá vou. Em coisas gravíssimas eu jogo a confiança que eu tenho na lógica verdadeira, eu jogo inteira.

Agora, isto você vê que reluz especialmente quando eu faço um raciocínio lógico a serviço da fé. Ali dir-se-a que a fé brilha na lógica e a lógica brilha na fé, respectivamente, mas que há um brilho qualquer nisso eu percebo, e que deixa muitas vezes o adversário com medo de engajar uma disputa, porque como é que essa história sai depois? Ele me amarra aí com um desses argumentos lógicos, como é que eu saio dessa encrenca? Você pode ter certeza que tem gente que tem medo de discutir comigo por causa disso. Isso é outro aspecto do espírito da excelência da fé. Quer dizer, faz parte do espírito da fé um pressuposto que é a segurança de que o espírito humano por princípio axiológico é apto a conhecer a verdade, e porque apto a conhecer verdade é apto a conhecer por uma das melhores vias da verdade que é o racicínio. E portanto se eu raciocinei e meu raciocínio está firme, eu pam! lá vou. E jogo. E eu poderia dizer para a lógica: nunca se ouviu dizer que tendo recorrido à vossa proteção e implorado o vosso socorro fosse por vós desamparado. Mas você talvez note que eu tenho uma lógica muito “soinhé”, quer dizer, eu não vou empregando lógica sem mais nem menos. O raciocínio é apresentado com um certo cuidado de apresentar o racicínio, por onde ele brilha por si, e a concatenação é feita de um tal modo que o meu ouvinte não adianta espernear, porque está passada uma corrente nele que ele está amarrado, não adiante ele espernear. Aquilo é daquele jeito. E a lógica toma uma beleza própria dentro disso.

Mas isso em última análise tem uma relação muito grande com o espírito de fé, porque quem não tem essa confiança na lógica, não tem confiança no que pensa. Não tendo confiança no que pensa, como é que pode ter certeza do que é que sua inteligência representa a respeito da fé? Sai um raciocínio meio bambo.

(Dr. PRR: Isso participa da inerrância da própria Igreja. Porque a gente vê naquelas encíclicas, bulas papais, sobretudo da Idade Média, tinha um brilho naquilo que é mais ou menos o que a gente vê no raciocínio do Sr. Me parece que a matriz é uma só.)

É a graça do Divino Espírito Santo dada à Igreja nas proporções já não digo oceânicas mas celestes que deu a ela, e para nós deu umas gotas, mas as gotas servem muito.

Agora, uma coisa que já não é tanto ligada com a fé, é mais aptidão, de que eu uso muito no apostolado mas é mais aptidão, não é tanto ligado com a fé, são as correlações e a facilidade de fazer metáforas.

(Sr. GD: As correlações não seriam uma decorrência do espírito lógico?)

É isso, é o espírito lógico introduzido na observação, olhando tal coisa, tal coisa, a lógica descobre as correlações.

* Discernimento dos espíritos e aptidão natural

(Sr. GL: E o discernimento dos espíritos como entra em tudo isso?)

O discernimento dos espíritos é uma coisa diferente. É a observação do que se passa no outro por minúsculos indícios, às vezes, em que vê inteiramente como é.

(Sr. GL: Pode ser um outro mas pode ser uma situação política, pode ser…)

Mas aí não, é o tino político que supõe o discernimento das situações.

(Sr. GL: Mas não é participante do discernimento dos espíritos?)

Sim, mas num sentido especial. É enquanto não propriamente vendo o bom espírito, mal espírito só, mas enquanto vendo qual é a intenção daquele, qual é daquela outra e como é que faz o jogo, como é que o jogo diplomático se faz. Isso discerne independente da fé, mas muitas vezes é serviço da fé e em função da fé.

Olhe aqui, o fim da Tatcher. Aqui é característico. É o discernimento de um espírito e de uma situação.

(Sr. GL: Mas é natural ou participando do dom de discernimento dos espíritos?)

Participando sim, confundindo-se não.

(Sr. GL: Então são várias coisas que se vão somando e formando uma unidade muito harmônica.)

Isso. E a serviço da Igreja. Por exemplo, aquela duquesa de Nemour que está ali, aquela mulher teve pouquíssimo papel na Revolução e na Contra-Revolução, uma coisa assim, mas eu olhando para a carona dela e para o jeitão dela, eu percebo o que há de Revolução e de Contra-Revolução nela. Isso é discernimento dos espíritos. Mas percebo uma porção de outras coisas que são o seguinte. Você olhando para ela você pode perceber. É o seguinte. A alemãzona aligeirada e tornada mais leve pela encadernação francesa. Você vê que ela antes de tudo é um bom garfo, não é? E ela é nora do rei, come à vontade e não faz cerimônia. Ela até é bem mais moça do que parece aí. Ela parece uma mulher de uns 40, 40 e pouco anos, ao menos na minha ótica. Mas eu acho que ela não é, que ela tem uns 30, ou menos até. Mas que está robustona, de tanto comer. Mas você veja os gestos e a pose dela quase não tem mais so pesado alemão, e ela é muito feminina. É uma influência francesa que aligerou a bichassa. Mas o bom garfo e uma certa solidez de espírito, que falta muitas vezes ao francês, ela tem.

(Sr. GL: Agora, isso, o que é que é isso?)

Isso é discernimento dos espíritos. Mas o pegar o como é que se encontram nela o elemento francês e o elemento alemão é uma observação natural, psicológica, muito boa, mas não é diretamente, pode não ser efeito de uma graça. Então é uma psicologia eventualmente muito ajudada pela Providência mas que não corresponde à definição estrita do discernimento dos espíritos. Ao menos creio eu.

* No “Grand Retour” a esperança de que o espírito do Sr. Dr. Plinio seja absorvido por seus filhos

(Dr. PRR: Agora, como se dará a transmissão dessas aptidões para o Reino de Maria?)

Aqui entra em linha de conta o seguinte. Que nós devemos contar com o “Grand Retour” e com o “Grand Retour” uma capacidade dos meus filhos absorverem o que está em mim muito maior do que é hoje. Meio capacidade, sobretudo desejo. Porque eu estou falando tudo isto mas é possível que em um ou outro aqui dentro o desejo de absorção não seja muito grande. O sujeito quer continuar a ser elinho, e portanto uma meia recusa do que eu estou dizendo.

(Dr. PRR: Pergunto porque sem isso o Reino de Maria não existe. Porque o Reino de Maria vai ser propriamente a transfusão desse espírito para…)

Para meus filhos. Mas eu acho exatamente que isso deverá vir com o “Grand Retour”, por misericórdia de Nossa Senhora.

Você estava na RR, não é? [Sim.] Você viu o pessoal todo descer para aquela homenagem reparadora a Nossa Senhora embaixo. Eu estava de cadeira e você talvez me tenha visto descer também. Você deverá ter feito a observação que eu fiz. Aquilo estava direito mas não estava animado pelo meu espírito. É uma coisa evidente que se as pessoas tivessem descido animadas pelo meu espírito desceriam sem uma espécie de pressa boba com que desceram e com mais compenetração de que iam fazer um ato de reparação. Eles iam por ir, quase achando agradável aquela surpresa no fim da reunião. E portanto descer aquela rampa… aquele movimento muitos estavam achando agradável e fazendo aquilo daquele jeito por superficialidade. Esses não querem ter meu espírito. Se oferecessem a eles de descer lá como eu desceria, eles não quereriam fazer isso. Eles querem ser os zerinhos que são. Eu creio que vocês não julgam que é severo o que eu estoud dizendo.

Por exemplo, eu desci e um pouquinho me desinvencilhei das conversas em torno de mim e consegui ir quieto, para preparar bem meu espírito para um ato de reparação. Porque aquilo não é uma pagodeira, é um ato sério. Nossa Senhora sofreu ali um atentado muito sério, esse atentado é uma manifestação de ódio muito séria, essa manifestação de ódio de algum modo se diria às pessoas de todos nós, e portanto era natural que nós tivéssemos a compenetração da coisa para oferecer uma reparação séria, porque o ato é sério. Que negócio é esse?

Bom, o jeito do pessoal cantar “Do prata ao Amazonas” e aquilo tudo é um jeito superficial. Ou vem o “Grand Retour” em cima disso ou não tenho certeza… a coisa morre em mim. Agora, no que é que dá se não vier o “Grand Retour”? Morre em mim mas morre nos que estão em torno de mim. Porque eu morrendo dá ao mesmo tempo uma sensação de desolação sem nome e de libertação sem nome. São as duas coisas ao mesmo tempo. Então, de vez em quando um ou outro encontrará um ou outro, e numa hora de graça ainda comenta aquele tempo… Mas o grosso é que cada um se mete na sua chacunierzinha, faz qualquer coisa. Às vezes quanto eu ouço cantar: “dispersit sunt, dispersit sunt lapide sanctuarii”, eu penso nisso. Mas era aquele modo de descer aquela rampa. Tanto é que os eremitas de SB e PS não descem aquilo daquele jeito. É outra coisa, outra coisa. Porque eles aceitaram uma certa coisa que nós não quisemos aceitar. Mas eu tenho esperança que o “Grand Retour” nos dê isso. Por que é que eu tenho esperança? Pela razão que você indicou, que do contrário não passa nada.

(Sr. GL: De um modo ou de outro passará. Pode ser com outros. Oxalá seja conosco, porque senão ai de nós.)

Ai, ai. (…)

* Fé Católica, Apostólica, Romana, o que há de mais excelente na alma do Sr. Dr. Plinio

(Sr. GD: …. O Sr. não poderia dar uma certa hierarquia dessa parte mais interior do profetismo que o Sr. tratou? Eu pergunto se o ponto mais eminente é aquele jorro de alma do Sr. para os aspectos mais altos.)

É, mas com essa particularidade. É que esses aspectos eram desvinculados, eram desinteressados, e desvinculados de qualquer vantagem para mim. O que teve como consequência que quando eu cheguei, um pouco mais maturidade que uma criança pode ter, a ter a minha atenção bem chamada …. Jesus Cristo, nesse momento eu tive um conhecimento de fé de que Ele era Deus, e um conhecimento de fé de que à maneira d’Ele, coerente com Ele, refletindo a Ele inteiramente, e vivendo da vida d’Ele estava a Igreja Católica, Apostólica, Romana. E aí uma fé em Jesus Cristo como Deus, e na Igreja Católica como Igreja divina, em Nossa Senhora como Mãe de Deus, uma fé esta sim o que tem de melhor na minha alma. Aliás, você vê, não preciso descrever, graças a Nossa Senhora eu creio mesmo, é isto. Não tem conversa, é isto mesmo. Mas que resulta dessa tendência à sublimação. No alto píncaro dessa sublimação, também no alto píncaro da lógica, olhando para Ele: é! E logo acompanhado de adoração. Esse é o ponto. Quer dizer, olhando para Ele, pensando em Nossa Senhora, a gente então tem a verdadeira fé Católica, Apostólica, Romana. Esse é o negócio, e isso eu vejo que essa tendência à sublimação facilitava enormemente, mas enormemente.

(Sr. GD: De onde foi possível quando o Sr. teve o discernimento da Pessoa d’Ele ter todo esse arroubo e…)

É, no meio das coisas que um menino vê de repente… Eu cria nEle como uma criança, etc., não tem dúvida. Mas quando a perfeição d’Ele, sublimíssima, eu tive a noção de que por mais que eu quisesse sublimar Ele já tinha sublimado tudo, era a Sublimidade. Ele era a Sublimidade propriamente, mas era a Sublimidade inclusive nas coisas que pareciam não conduzir à sublimidade, como por exemplo o ser afável com os pequenos, bondoso, ter pena, ter sofrido, ter sido arrastado… uma sublimidade naquilo tudo!… que ahhhh! Como é isso? Mais do que os episódios da vida d’Ele, anteriormente aos episódios da vida d’Ele, que eu tinha uma devoção assim, é Ele como Ele era, o Sagrado Coração d’Ele. Depois a Igreja Católica e Nossa Senhora. Agora, a Igreja Católica eu via que era “cor unum et anima una” com Ele. Para usar uma expressão que se usava antigamente, era carne e unha com Ele. Quer dizer a unha não é uma coisa morta, é uma coisa viva, mas que vive da carne, como a carna se protege, talvez se nutra da unha. Assim era a Igreja Católica e Ele. Não tem conversa. Daí a minha surpresa quando eu soube que alguém negava que Ele fosse Deus, ou que Ele tivesse existido. É louco?! Como é que nega? É evidente que existiu. Por que é que é evidente que existiu? Porque O descrevem assim, Ele não pode deixar de ter existido. Está acabado. Está doido?!

(Dr. PRR: Isso é o centro de tudo.)

É o centro. Mas no católico essa é a posição.

Bem, meus caros, vamos dormir.

* Vigilância do Sr. Dr. Plinio para com a pureza de seus filhos

Há momentos minha Mãe…

(Sr. PHC: …achei que faria bem para ela a oração da Restauração. Eu pergunto se…)

Era preciso pedir o imprimatur, ouviu? Não sei a quem, nem de que jeito, nem nada.

Agora, vou dar um conselho. Com correspondentas não procure fazer esse tipo de apostolado.

(Sr. PHC: No caso concreto é casada…)

Entre santa e santo altar de cal e canto, meu filho. Você me viu alguma vez fazer apostolado assim, não? Nada, não é? Você precisava ver a queixa das alunas porque eu tratava à distância, está entendendo?

(Sr. PHC: Lembro-me ainda de repercussões da Campanha, de ex-alunas do Sr. que ficavam indignadas porque o Sr. não as olhava.)

Ficavam indignadas. Uma ocasião eu entrei e elas estavam todas sentadas na escadaria, em bancos, etc., da Universidade, todas fingindo que estavam estudando para ver se eu olhava para alguma quando entrava, porque eu era muito mais moço, tinha quase a idade delas. Então ver se pegava, não é? Eu entrava a toda pressa e subia, e está acabado.

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