Conversa
de Sábado à Noite – 17/11/90 – Sábado
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Conversa de Sábado à Noite — 17/11/90 — Sábado
O homem medieval, o cavaleiro andante, o “Vir Catholicus” que reunia em si o equilibrio entre a força e a compaixão * Faz parte da mensagem da TFP para este século a restauração do cruzado ou do cavaleiro andante
* A Idade Média foi a época que realizou, no cavaleiro, o ideal da hombridade
[…]
Vamos dizer assim. Põe-se aí o problema da hombridade. O que é o conceito de hombridade, como é que deve ser a hombridade?
Nós vemos que há uma porção de modos de classificar a hombridade que são mais ou menos de acordo com as várias revoluções que foram se sucedendo, e que de um certo modo o europeu elaborou um tipo de hombridade que ainda é — até há pouco pelo menos era — equilibrado, porque ainda tinha um prolongamento da Idade Média, que foi propriamente a época em que o ideal da hombridade se realizou totalmente no cavaleiro.
Porque o cavaleiro, por exemplo, eu não vou discutir aqui uma questão que fica para a Régine Pernoud, eu não sei que atitude ela toma perante o caso, mas é a questão do cavaleiro andante.
* O cavaleiro andante reunia em si o equilíbrio entre a força e a compaixão
O cavaleiro andante é, por muitos, muito criticado. Parece que eram aventureiros, e sem-vergonhas, etc., etc. Outros elogiam.
Mas o ideal do cavaleiro andante, era um ideal que correspondia muito à idéia de um equilíbrio entre a força e a compaixão, a força e a bondade, que exprime bem o que é que era o conceito de hombridade para o medieval. Quer dizer, o cavaleiro andante era tido como um símbolo de hombridade. Era um homem que se atirava à aventura para toda espécie de lutas, em todas as espécies de circunstâncias complicadas e difíceis, etc., andando pelos vales e montes, pelas aldeias, por tudo o mais, numa época em que não havia um policiamento organizado, e à procura de injustiças a reparar, de viúvas a proteger, de órfãos a tutelar, de doentes — não tanto a curar, mas a defender contra esses ou aqueles que os quisessem espezinhar, os quisessem roubar. Enfim, era um herói natural, por amor a Jesus Cristo Nosso Senhor, do fraco, do pobre, do desvalido.
Não entrava uma preocupação de classe social, porque isso valia para todas as classes. Quer dizer, uma duquesa posta em fuga por vizinhos do seu esposo que tinha morrido, e que era, portanto, uma mulher de alta categoria, mas que estava no momento precisando de uma ajuda, encontraria no cavaleiro andante um herói que lutava por ela.
Então, era um homem que ia armado completamente como se fosse para uma batalha, e que entrava ele pessoalmente na luta, para defender esses ideais.
* Uma instituição que tem muitos riscos
Eu vejo o risco dessa instituição como instituição. Porque é fazer com que certos tipos armados cavaleiros fossem ao mesmo tempo juízes, e personificassem uma porção de pequenos poderes do Estado, que não podiam ficar entregues a um homem, por exemplo, que não tivesse feito estudos de Direito, e que não soubesse onde é que estava o verdadeiro direito; não tivesse feito estudos de moral, e não soubesse bem direito como resolver um caso moral difícil. É um homem que não tinha controle, não tinha autoridade exercendo-se sobre ele, e que portanto poderia também ser levado por uma inclinação pela viúva que ele estivesse protegendo, e tomando uma posição unilateral, etc. A instituição evidentemente tem muitos riscos.
Se esses riscos se produziram, ou se o bom espírito que há no ideal da instituição fez com que muitas vezes ela funcionasse bem e nobremente, é um problema histórico que não nos ocupa.
* O homem medieval via na aventura a realização de sua própria personalidade
[O que nos ocupa] é o tipo do homem medieval, homem de fé, por amor de Deus fazendo o bem, desapegado, expondo a sua vida por dá cá aquela palha, mas expondo sem se julgar um infeliz, gostando da aventura, com alegria de viver a aventura, e vendo no risco uma realização de sua própria personalidade. Mas, ao mesmo tempo, um homem que era capaz de apear do cavalo para ir fazer o papel de bom samaritano para um coitado que tivesse caído de um barranco e quebrado a perna, esses acidentes que nas viagens daquele tempo podiam ser muito freqüentes pelas condições ainda muito carentes das estradas, etc., etc., etc.; depois, aquelas florestas em que havia antros de bandidos que saqueavam, que combatiam o cavaleiro sozinho…
Quer dizer, vista de um lado, a coisa é a mais nobre que pode haver.
* O encanto do SDP pelo cavaleiro andante, uma realização do “Vir Catholicus”
(Sr. Paulo Roberto: Belíssimo.)
Belíssimo! Eu me lembro que quando pela primeira vez eu ouvi falar de cavaleiros andantes, eu me arrepiei — eu era menino — eu me arrepiei de entusiasmo, de respeito diante daquilo. Mas, sobretudo, diante do equilíbrio desta posição, em vista de uma alta sublimidade de ideal, que é o amor de Deus, e a prática do heroísmo, da aventura por amor e Deus, e amando os desvalidos por amor de Deus, e aguentando a luta por amor de Deus em favor dos fracos e dos desvalidos, eu vejo nisso uma realização do vir catholicus completamente, nas condições daquele tempo que se prestavam muito para que esse tipo de varão assim se realizasse inteiramente.
* À medida em que o Estado foi se desenvolvendo, os homens foram ficando mais fracos e medrosos
Bem, há uma coisa aqui que eu não vou desenvolver, vou tratar apenas de passagem, porque não levanta um problema moral — porque nós estamos tratando aqui de um problema moral —levanta um problema sócio-político-econômico que eu vou deixar de lado. Mas o fato concreto é o seguinte: é que à medida em que o Estado foi ordenando as coisas, e pondo nas coisas algo de razoável, ele foi pondo técnicos. Porque o moralista é um técnico, é um especialista. O jurista é um técnico, é um especialista. E ele foi tirando da cena homens que sabiam cahin-caha das coisas, por uma espécie de sublime intuição. E que com isso o Estado foi eliminando as possibilidades do homem ser herói, de ser herói na vida cotidiana. E a vida cotidiana passou a ser por excelência a vida da nhonhozice, do conforto, da tranquilidade, criando o horror à aventura, e criando o horror a esses grandes lances de generosidade, dos quais à medida em que o Estado ia se aparelhando e se desenvolvendo, os homens foram ficando mais fracos e mais medrosos.
* O Poder Judiciário substituiu o cavaleiro andante
(Sr. Paulo Roberto: O Poder Judiciário tomou conta de tudo.)
O Poder Judiciário tomou conta de tudo. Mas o juiz togado… Eu me lembro dos juízes do Brasil colonial, organizados segundo a Justiça portuguesa: juiz da vara verde, juiz da vara vermelha, juiz da vara branca, conforme era penal, juiz cível, juiz comercial, ele ia para o Forum precedido por um escravo, um negrinho que levava numa almofada uma vara de acordo com a cor daquele tipo de judicatura que ele exercia. E o povo tinha que abrir fileiras e tirar o chapéu, etc., porque o juiz ia passando, gravemente, com ar solene, no meio da população.
Mas o juiz da vara vermelha, da vara verde e da vara branca podiam ser figuras necessárias, simpáticas. Não era mais o cavaleiro andante. Depois, a prisão, onde o carceireiro é que mantinha as pessoas presas, o beleguim que ia prender os indivíduos… Quer dizer, era o Estado com as suas garras onipotentes que saía atrás de um ladrão e segurava quem podia, e levava para o cárcere, e depois julgava, etc., etc. Aos poucos a aventura e este tipo de homem iam saindo, para dar o tipo de um homem já bem diferente.
* A aventura da vida medieval vai sendo deglutida pelo conforto da vida civil
E aqui começa — eu não vou analisar se isso foi bom, se foi ruim, se podia ter sido evitado, eu não vou analisar nada disso, eu analiso uma outra coisa que é a seguinte. Houve uma decadência do homem da seguinte maneira. A vida civil foi se tornando cada vez mais agradável, cada vez mais atraente. Vida civil que para o nobre era a vida no castelo, mas num castelo que já não tinha interesse militar. Era apenas uma residência mais ampla e mais decorada, etc., etc. Mas, na quase totalidade dos castelos as muralhas foram derrubadas, para dar lugar a jardins, as pontes levadiças foram substituídas por pontezinhas que ficam por cima daquele valo, quando os valos não foram eles mesmo preenchidos, os muros derrubados, e o castelo colocado no meio do jardim.
Bem, continua ainda muito bonito, fizeram os jardins bonitos, etc. Mas o heróico cedeu lugar ao bonito. E a vida pomposa, com uma certa dignidade participante da dignidade régia, e a obrigação para o nobre de ir combater quando havia guerra, quer dizer, a mobilização geral se decretava para os nobres, ainda mantinha alguma coisa disso. O nobre em geral, em moço, fazia um longo serviço militar, ele aprendia cavalaria, ele era um militar durante uma grande parte de sua vida, mas um militar que combatia muito menos. E que passava boa parte do tempo com as senhoras nos salões dançando, conversando, dizendo ditos de espírito, jogando, bebendo, comendo… É verdade que até a Revolução Francesa, com uma apetência tremenda de combater. Isso é verdade.
Mas, a gente está vendo os dois tipos de vida: a medieval, que tinha nisso o seu último ressaibo, e a vida civil, e como a vida civil vai deglutindo a vida medieval. Porque o atraentíssimo da vida civil vai criando o gosto do prazer. O prazer já não é a aventura, já não é a viagem dentro do desconhecido para uma luta muito grande, mas o prazer é uma outra coisa. O prazer é o prazer mole, protegido pelo Estado, e da vida despreocupada.
Bom, acontece ainda mais. Com o desenvolvimento do comércio, das navegações,etc., o dinheiro começa a ter um papel cada vez mais maior na vida. E é o burguês muito rico que começa a entrar na cena ao lado do nobre, e muitas vezes empurrando o nobre para o chão, e ficando só ele sentado no sofá.
Bem, e o burguês já não tem nem noção nem compreensão para isso. E aí esse resto de idéia de guerreiro morre. E nem os nobres, em grande número de casos, nem os nobres mais têm senão vagos resquícios desse espírito que tinha tanto equilíbrio de espírito católico antes de tudo, de varonilidade e de bondade.
* Homens — nobres e plebeus — que complementam a varonilidade com a cultura e a instrução
Ao longo da evolução que eu vou contando, deu-se também uma evolução de caráter cultural. Quer dizer, esses homens, a la homens, e com toda varonilidade, começam a ficar artistas: eles gostam dos interiores bem decorados, els gostam para si de roupas muito bonitas, vestem-se esplendidamente, eles gostam de tudo quanto constitui o decor da vida. O homem descendente do cavaleiro andante, descendente do cruzado, descendente do Senhor Feudal, esse homem se completa harmoniosamente sendo homem de instrução, de letras, escreve, é diplomata, exerce assim funções que supõem um espírito cultivado e amadurecido. E cada vez mais a condição de nobre supõe não só a educação mas supõe cultura. E esse cultivo é exigido pelas circunstâncias, e eles adquirem.
Mas, isto é uma outra complementação da varonilidade. Não é uma diminuição mas é uma complementação. Porque eles fazem isso com tanta varonilidade que nem passa pela cabeça de ninguém que isto poderia não ser varonil.
E certos modos de ser, por exemplo, no tempo de Napoleão III — portanto, vamos dizer, entre 1850 e 1870 — aquela barbinha sedosa onde passavam cosméticos para alisar aquilo, o cabelo com tais e quais fixadores, e não sei mais o quê, cria o homem da Belle Époque que é todo dado a essas coisas assim, cria o nobre francês do Faubourg Saint-Germain, que ainda é totalmente varonil: alguns vão combater a Algéria, outros vão ao Tonkim, outros vão lutar em outros lugares, outros são diplomatas, outros são ministros que entram em lutas, que entram em brigas, etc., etc. Enfim, há de tudo. Mas, varonis até onde possam ser, eles são homens assim, homens de cultura.
E a plebe que vai fornecendo homens muitíssimo varonis também — um exemplo desses é o infame Clemenceau, por exemplo, o “Tigre”; nas fileiras da nobreza seria um Bismarck, é um outro tigre, the Lord Kitchener, daí para fora — são homens de uma força extraordinária. Churchill foi talvez dos últimos espécimes desse gênero. São homens de uma força extraordinária. Mas que guardam todas as afetividades, todos os requintes, todas as distinções, etc., próprias à delicadeza de alma. A bondade vai diminuindo, mas a delicadeza de alma, que significa a bondade para com os seus próximos, bondade para com alguns amigos, bondade meio maçônica e humanitária, mas enfim bondade para com o gênero humano — isso ainda fica, e fica bem para o tipo do europeu mais ou menos até a guerra de 14-18.
* O Senhor Doutor Plinio fez de si um cruzado, contra o qual se volta o ódio dos ímpios e durões
Agora, em todos nós se criou uma coisa que foi para mim um problema conseguir equilibrar, que era conservar toda a sensibilidade do meu tempo bom, mas tirando do meu temperamento mole, extraindo de dentro do meu temperamento mole a energia necessária não para dar um durão, mas para dar um cruzado!
Não quero dizer que eu tenha conseguido. Eu quero dizer que foi a meta que eu tive na minha formação.
E vocês vendo um pouco o que eu quero apresentar na TFP, o por onde o indivíduo da TFP que atenda a esse convite, e queira devidamente, ele será assim: ele será culto, será inteligente, gostará das coisas agradáveis, etc., etc., mas será antes de tudo um cruzado vivendo para as coisas do pensamento, para as coisas da fé mais ainda do que as coisas do mero pensamento científico ou filosófico, vivendo enfim para todo o resto. E no qual as coisas se equilibrem. E a TFP toda: capa, hábito, estandarte, tudo é calculado com essa meta.
E evidentemente que, por exemplo, ontem à noite os nossos venezuelanos descendo ali, tem que ter produzido o choque do homem — e vocês vão ver daqui a pouco o choque — do homem completo, ao menos cuja meta é ser um homem varonil, mas com o espírito aberto para uma série de coisas, contra o durão. E o furor contra nós é o furor do ímpio contra quem tem fé, mas mascarado sob o aspecto do furor do durão contra o homem completo.
* Faz parte da mensagem da TFP para este século a restauração do cruzado ou do cavaleiro andante
Você quer ver uma coisa que não vai com o durão? É o MNF.
(Sr. Gonzalo: Justamente por isso é bom que o senhor o retome logo.)
Ah, ah, ah! Ah, ah, ah!
Mas, eu queria dizer o seguinte: que o problema que nós devemos pôr a nós mesmos é: como restaurar isto. Eu tenho impressão que a primeira coisa é nós termos isso bem calculado, bem pensado, etc., habituado ao nosso espírito, e acrescentado a isso nós termos um hábito de admirar isto, porque o homem anda para onde ele admira. E nós devemos compreender que faz parte da nossa mensagem para o nosso século exatamente essa restauração do cruzado ou do cavaleiro andante. Mas, com os acréscimos que a civilização foi dando a ele.
(Sr. Gonzalo: O homem completo, como o senhor chamava em reunião anterior.)
O católico completo.
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