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Conversa de Sábado à Noite — 14/7/90 — Sábado

O processo de formação do homem perfeito, arquétipo do Reino de Maria: a soma dos restos de Idade Média ao longo dos séculos mais os acréscimos concedidos pela Providência * No Reino de Maria, uma luta de gigantes: o auge da Contra-Revolução x auge da Revolução * A “Bagarre”, uma luta também psicológica, na qual deveremos saber pregar aos povos

(Sr. Gonzalo: Se o senhor pudesse tratar um pouco sobre o ponto de síntese da alma do senhor, e por outro lado sobre a explicação de como é o senhor em função de toda a mentalidade que rege os atos do senhor. É claro que o senhor já nos tem dito muita coisa, mas enquanto um ponto píncaro que nos leva a acertar nosso olhar, nosso caminho em função do senhor, é isso que pedimos.)

É bem verdade…

* Mais bonito que a presente hora histórica, só os dias da vida de Nosso Senhor

(Sr. Gonzalo: Diante dos acontecimentos que se preciptam, e das circunstâncias nas quais nos veremos concernidos, não são suficientes algumas coisas que antes eram suficientes. É necessário mostar a figura inteira. Aliás, é uma lindíssima hora histórica, uma coisa de um pulchrum… São propriamente os dias para os quais nascemos.)

É, mais bonito do que isso só os dias da vida de Nosso Senhor! Não tem outro…

(Sr. Gonzalo: Então, a diferença entre poder colocar as teses do Diálogo, que são fabulosas, e o senhor poder abrir um outro livro, que não é o Diálogo, mas um livro do fundo da alma do senhor, e podermos proclamar esse livro para fora, isso é uma coisa propriamente são os grandes tempos da História.)

Estou inteiramente de acordo com você. E posso dar alguns elementos para a resposta.

Agora, os elementos são um pouco surpreendentes, pelo seguinte. O que eu tenho em mente é o que eu vou dizer aqui. Mas eu sei que o Reino de Maria não vai ser só isso. É o que eu posso dizer, o que eu sei dizer do Reino de Maria.

* A perfeição católica a partir da soma de restos da Idade Média ao longo dos séculos

Você conhece nossa tese de que ao longo do processo revolucionário, mesmo depois da Revolução Francesa, a civilização ocidental, ex-católica, continuou a produziu alguns restos de frutos de Civilização Cristã novos. E que esses frutos estão na inteira coerência, na inteira continuidade dos frutos que produziu antigamente, nos melhores tempos. De maneira que para nós termos uma idéia do que seria o homem completo, como o poderia ter produzido o Ocidente se correspondesse à graça, para nós termos idéia disso, nós deveríamos imaginar o homem de cada época como produtor de algo a somar ao homem medieval. E que, portanto, em certo sentido, corrigia alguma carência do homem medieval.

De maneira tal que você tomando figuras do século XIX, você encontraria alguma coisa do século XIX que acrescentaria à coisa da Idade Média, porque foi um resto da Idade Média que foi crescendo. Bom, mas é claro que você fazendo a soma de todos esses restos, você obtém uma noção mais completa da perfeição católica, de uma civilização — portanto, de um tipo de homem também — você obtém mais civilização católica do que você obteria se contasse só com o homem medieval. Mas ciente de que o que ficou pelo caminho é maior do que aquilo que foi continuando. De maneira que essa soma é muito menor do que seria a soma dos séculos, se tivesse sido fiel sempre.

Então, é uma coisa que debaixo de um certo ponto de vista é um ideal, mas é um ideal minguado, em comparação com o que seria o ideal inteiro do desenvolvimento inteiro da coisa medieval.

* Como ter a idéia total do homem perfeito

Agora, seria preciso para isso fazer um trabalho assim: tomar a síntese do homem medieval como ele era, e perguntar o que é que acrescentaram a ele os dois últimos séculos da Idade Média.

(Sr. Poli: XI e XII?)

Vamos dizer que a Idade Média tenha terminado com o Humanismo e o Protestantismo. Portanto, não terminou num século… É mais ou menos como o estuário do Amazonas: entra pelo mar adentro. Ali também cada era entra um pouco dentro da outra. Está na linha dessa teoria que eu vou dando. E nós poderíamos imaginar o homem do fim do século XIV, portanto já meio infiltrado, mas ainda com a sua fisionomia total medieval, e ir comparando o que é que deu o século XV para ele. Depois o século XVI, XVII… Ou poderia fazer com o século XIII. É opinativo.

Agora, depois chega em determinado momento que você se sente inopinadamente, sem perceber, já longe da Idade Média. Os vínculos com ela estão rompidos, não restam mais vínculos que a amarrem, existem apenas laços de saudades, de transição, mas os vínculos não amarram mais. Isso até onde conduziu? Como é que completa assim, assim, assado, para chegar até um certo ponto terminal?

E então, aí, a gente ter uma idéia total possível do homem perfeito. Bom, mas isso exige uma finura de análise terrível, porque do contrário não pega. O sujeito erra.

* Uma graça análoga ao “Grand-Retour” na formação do homem píncaro

Agora, depois, seria preciso tomar em consideração que um homem assim, que portanto representasse tudo quanto essa tradição conservou de vivo hoje, mais muita coisa que vive só nele, mas que é o resto de uma tradição, de uma continuidade viva — não é, portanto, mero produto de ler num livro e procurar imitar, é uma continuidade viva — e imaginar essa continuidade viva e fiel, coroada por sua fidelidade, como uma espécie de Grand-Retour, que poderia não ser uma emenda dele, mas poderia ser o Retour dele às origens com as quais ele não rompeu.

(Sr. Gonzalo: Que origens seriam?)

A medievalidade pura. Então, ele teria, por uma graça análoga ao Grand-Retour, ele ser dotado daquilo que seria necessário para ele representar esse homem píncaro, mais o inimaginável que o Reino de Maria lhe dará.

Portanto, seria uma construção muito complexa de se fazer, que eu até creio que não se pode fazer inteiramente, que tem uma parte do Segredo de Maria dentro disso — e ao pé da letra o Segredo de Maria de São Luiz Grignion de Montfort — mas que se pode pressentir à força de desejar e à força de execrar.

Então, nós podíamos falar de um desejo criativo, de uma nostalgia criativa. O desejo fala do futuro, e a nostalgia fala do passado. Mas, tomando em consideração que entra algum dado novo que a gente não sabe qual é. E que esse dado novo é provavelmente o presente mais precioso, porque é o que Nossa Senhora dá, que é a soma do que Ela teria dado a mais aos homens ao longo dos séculos se tivessem sido fiéis, que Ela teria dado por cima do processo. E isto é só mesmo uma espécie de Pentecostes — não é a Pentecostes oficial, é claro — mas uma coisa análaga ao Pentecostes é que poderia dar bem exatamente isso.

* Um ideal tão alto que seria a melhor preparação para a “Bagarre”

Agora, note bem o seguinte: que simplesmente o que eu estou dizendo aponta para um ideal tão, tão alto, que vocês chegam a uma conclusão curiosa: se os membros da TFP pelo menos entrevissem qual é esse ideal, isso lhes daria um ânimo extraordinário! E seria a melhor preparação, uma das melhores para a Bagarre. Agora, como fazer esse jogo? É muito delicado.

* A plenitude do sentido da palavra “tradição”

Eu vou dar um exemplo. Tomem, por exemplo, D. Luiz e D. Bertrand. O que há neles de bom — e que não é pouco — o que há neles de bom é uma continuidade viva de uma coisa. Eles não aprenderam isso em nenhum livro, e talvez se lessem uma descrição não se sentiriam concernidos por essa descrição. Mas, de fato, isso eles têm. E você compreende a diferença que há entre uma realidade viva continuativa, e a leitura de um livro de História onde a gente vai ver a coisa como foi, para re-imitar.

Bem, e aqui você tem talvez a plenitude do sentido da palavra “tradição” no nosso lema: que é conservar todas as continuidade vivas até a última ponta da fidelidade, com a certeza de que lá o prêmio de Nossa Senhora nos acolhe.

* O contra-revolucionário santo: um revide da Providência contra a Revolução

(Sr. Gonzalo: Agora, o senhor vê que é uma questão de ter o olhar limpo, ou não ter o olhar limpo, no fundo. Há um ou outro ponto na vocação do senhor que são certos pontos ápices, digamos, que dá toda essa somatória que o senhor está dizendo. E às vezes alguém se surpreende, porque se diria que isso era uma coisa impossível. Vai se ver, o caso do senhor é impossível. Se nós não conhecêssemos o senhor, e alguém no-lo descrevesse, nós diríamos que um homem assim é impossível. Acontece que não é impossível, tanto é que se realizou. Isso obedece ao quê?)

Mas o que é o “isso” aí?

(Sr. Gonzalo: Esse tipo de perfeição, esse grau de somatória de perfeições desde a Idade Média. Isso obedece a um desígnio da Providência?)

Um desígnio da Providência. É um revide contra a Revolução. A Revolução quis anular tudo quanto os grandes varões dos séculos pré-revolucionários e revolucionários quiseream fazer, a Revolução quis anular. Nossa Senhora em certo momento, na hora de quebrar a Revolução, Ela faz um tipo que seria o resultado desse processo que eu acabo de descrever, mais ainda muito mais, por onde Ela esmaga a Revolução.

Agora, seria um tipo contra-revolucionário, não seria um santo no sentido genérico da palavra, mas seria um santo no sentido específico da palavra, que deveria brilhar especialmente por todas as virtudes que especificamente a Revolução quis destruir, etc.

(Sr. Gonzalo: Mas com algo a mais.)

Com algo a mais, que é naquela linha, mas provavelmente com uma solução de continuidade. É um salto que leva aquela linha tão longe que se diria que não tem continuidade.

Bem, o que dá a você os elementos para você conjectuar como vão ser os homens péssimos do fim do mundo, e os poucos que restarem que não vão morrer, bons.

* O homem ápice da Civilização Cristã foi o cruzado nobre

(Sr. Poli: Essa continuidade histórica a partir da Idade Média, que os séculos foram em algo acrescentando, não sei se estaria no fluxo do pensamento do senhor ir dando os pontos mais significativos que foram formando o homem contra-revolucionário atual, com a soma dessas perfeições e o mais que Nossa Senhora vai dar? Não sei se está claro?)

Está muito claro. Quer dizer, eu posso dar. Primeiro, como eu nunca pensei em construir isso assim, eu precisaria pensar para fazer uma coisa já não digo completa, mas uma coisa que se aproximasse do completo. Eu precisaria pensar. Eu posso dar uma coisa muito incompleta. Eu digo isso para caso alguém ouvir essa fita, entender bem como é que eu estou focalizando a questão.

Então, eu dizendo assim, e portanto per summa capita, e com mil reservas, restrições, eu diria o seguinte. Que o homem da sociedade temporal, o homem ápice da Civilização Cristã foi o guerreiro, o cavaleiro medieval. Foi o cruzado, e na sua plenitude o cruzado nobre, ou que se tornaria nobre na cruzada, pela sua valentia, etc., esse seria o homem ápice.

* No homem ápice, coisas maravilhosas e restos de barbárie

Agora, você pode notar que nesse homem ápice havia coisas maravilhosas, mas havia nele restos de barbárie, de rudeza, de brutalidade, etc., que estouravam de cá, de lá e de acolá, juntamente com requintes muito grandes.

Esse negócio de um banquete sobre o qual eu li uma vez uma referência: entra um prato, são empadas grandes. As pessoas abrem as empadas, voam passarinhos de dentro. Então os covivas, todos nobres, tomam os arcos que tinham consigo, e começam dentro da sala — salas enormes dos castelos góticos — a matar os passarinhos com as flechas. Os lacaios pegam os passarinhos que estão caídos… Você está vendo: deitando sangue no chão, pena de passarinho, um piaillement de passarinho que está com medo, com susto, esvoaça de cá e de lá. E depois um passarinho esconde atrás de um móvel, eles vão atrás do móvel… Uma caçada que tem qualquer coisa de comum com a carnificina, ao lado do guerreiro que há nisso.

A presença da fibra do guerreiro no banquete agrada muito. Não é um banquete que amolece. Mas não agrada nenhum pouco os modos de fazer. Depois, a empada suja, com o passarinho que esteve dentro… O passarinho não podendo quase respirar, ali dentro já meio moribundo, quando voa, voa mal. E ele suja a empada, eles nem tomam isso em consideração, nem têm nojo do passarinho nem nada.

Bom, e depois, é preciso também dizer, uma espécie de insensibilidade concreta para o sofrimento do animal, que é uma imagem do sofrimento do homem, é qualquer coisa que também não está bem.

(Sr. Paulo Henrique: Deixaria os ecologistas fora do ar…)

Ah, bom, nem sei quanto!

* Uma barbárie que os séculos foram civilizando

Agora, isto é uma coisa que os séculos seguintes foram aprimorando. Por exemplo, de que maneira? Suprimindo gradualmente essa caçada, até ela desaparecer, mas introduzindo nos banquetes qualquer coisa de magnífico. Por exemplo, um boi inteiro, uma espécie de churrasco, um boi inteiro assado, rôti, e que vem com arautos, com aqueles espetos, e os homens se levantam, e cortam pedaços de carne para a senhoras, cortam para si, etc. Vem tocando cornetas, estão os pajens muito bem vestidos, os lacaios… Tudo isso são coisas boas e bonitas, inegavelmente, mas que elas mesmas ainda têm qualquer coisa de um pouco silvestre. A tal ponto que a gente concebe um churrasco feito no campo, mas não concebe um churrasco feito numa sala de cidade, nem o churrasco recortado por um homem que está vestido em traje de gala. São coisas que não vão.

Agora, depois disso começa a aparecer, durante a sucessão das coisas, começa a aparecer a baixela de ouro, a baixela de prata. Depois os jesuítas trazem a porcelana da Índia, e eles aprendem a fazer porcelana na terra da Europa, e aparecem porcelanas estupendas, coloridas, e com não sei mais o quê, etc., etc.

* Um equilíbrio entre força e gentileza que se faria espontâneo, se não fosse a Revolução

Não sei se percebem que ao longo disso vai havendo um raffinement em que muita coisa do homem selvagem desaparece. Bem, mas com o perigo de deglutir o herói. Fica só a porcelana e desaparece o herói. Se não tivesse havido o Humanismo, o Protestantismo, etc., pelo meio, ter-se-ia encontrado esse equilíbrio como que instintivamente. Não seria preciso um tratadista de moral para encontrar esse equilíbrio. Ele teria nascido espontaneamente. O tratadista de moral faria a descrição do que apareceu, e conferiria com a lei de Deus. Mas ele não era o arquiteto desse costume novo.

Isso nós não conhecemos. Então devemos guardar a idéia de uma soma de toda a prouesse do guerreiro caça-passarinho, com toda a gentileza do fidalgo do tempo do século XVI, do século XVII, que tinha as maneiras, etc., sem que uma coisa excluísse a outra.

Bom, eu não tenho meios de calcular as somas dessas coisas, imaginar um homem assim. Mas se compreende um homem assim.

* Aos poucos, vai aparecendo a cultura…

A isso se soma outra coisa. O homem medieval era eminentemente um homem prático e concreto. Ele era um homem de Fé, e que se deixava, portanto, guiar pela Fé. Mas ele não era um pensador, nem era um homem de cultura. Aos poucos vai aparecendo a cultura. E a cultura vai se somando a essas formas de delicadeza, de maneira a fazer do homem o fidalgo de espírito cultivado, que não é o cientista. Pondo o cientista, fica um mau cheiro de laboratório na coisa que é insuportável. É propriamente um homem culto, que sabe um conjunto de coisas, assinaladamente maiores e mais adequadas do que tem um homem comum que não tem cultura. Mas, a quem o fato dele ser letrado acrescentou mais alguma coisa no espírito.

* E chega-se ao nobre de salão, guerreiro e governador

Você tem nobreza pérfida, perversa, no Enciclopedismo, a qual tinha esse valor somado ao seu aspecto verdadeiramente aristocrático. E você tem a conversa de salão, com todo o espírito, com todo o brilho, com toda a graça que tem, etc., somada ao que vinha anteriormente. Bem, e com isto de próprio no nobre, que o nobre era sempre um homem público. Continuava a ser guerreiro, continuava a ser governador, com um certo discernimento que o exercício da função pública confere, sobretudo quando numa família se exerce há séculos. Uma família que governou uma província durante séculos, são pequenos reis locais.

* E um homem produtivo do ponto de vista econômico

Você some a isto um senso do seguinte. Essa vida sempre em progresso exige cada vez mais riqueza, porque o progresso custa dinheiro. E para ter mais riqueza é preciso aproveitar melhor as terras que tem. Logo, uma preocupação econômica que nasce, e a preocupação econômica que nasce, com preocupações científicas de aproveitar melhor a terra para ela dar mais — na linha da criação ou do plantio. E pequenos começos de aperfeiçoamentos industriais, para darem mais dinheiro. Você tem um tipo de gentilhomme que além de ser guerreiro, homem de cultura, homem de salão, homem de governo, é ao mesmo tempo um homem que é produtivo do ponto de vista econômico. E produtivo para se manter, porque do contrário não acompanha essa ascensão.

Bom, você tem uma espécie de interpenetração dessas qualidades entre si, que forma uma espécie de homem completo, muito especial.

* No século XIX, um impasse: ou o lucro, ou o segundo plano

Você toma aí o tipo do pater familias do século XIX. Aqui já a deformação é muito maior, porque houve a Revolução, e portanto o lado de homem de governo ficou prejudicado nesses homens que não governam mais, o lado de homem público está prejudicado. Eles não são tão especialmente guerreiros, porque todo o pais é convocado para as armas, mas eles conservam restos disso. Mas então um dado novo, que é a possibilidade de atender às necessidades desse esplendor crescente por meio de lucros inauditos: comércio à distância, jogos de bolsa, jogos de indústrias. E você está vendo que alguma coisa começa a impedir a ele de ser como ele era. E ele já não pode ser inteiramente como ele era, sem se jogar nessas novas coisas. Mas não tendo se jogado nessas novas coisas ele está fadado ao segundo plano.

* Seria possível manter aquele equilíbrio junto com o progresso?

(Sr. Paulo Henrique: A Revolução criou um impasse, pelo qual esse equilíbrio foi quebrado. E o senhor veio reatar essse equilíbrio, para ser ponto de partida para o Reino de Maria.)

Aqui nasce um problema. É o seguinte. Essas coisas são filhas de melhorias, e são mães de serpentes. E você tem na História qualquer coisa de novo, que é o seguinte: algo que em si é bom, e que gera o mal. Aqui aparece um problema: como é que é isso? Houve uma deformação nisso, e teria havido um jeito de fazer adequadamente essas coisas, ou seria preciso em determinado momento cortar o progresso, porque o progresso a partir de certo ponto é mal? É um problema muito complicado. (…)

(Sr. Gonzalo: O senhor estava tratando do processo para se chegar ao homem perfeito. Se entramos na questão de progresso, etc., a gente vê que é um assunto que não está…)

Não, não é isso que entra. Entra outra coisa. Entra a entrada da Indústria e o caso que ela criou. Só isso.

(Sr. Gonzalo: Mas isso não faz parte do processo da formação de uma pessoa com a vocação da TFP, digamos.)

Quer dizer, o seguinte. Em rigor, em rigor não seria possível imaginar — então em condições inteiramente diferentes das atuais — uma indústria não moloch, e que produzisse no campo e em condições não urbanas, numa grande continuidade familiar de gerações de patrões e de empregados, uma coisa potável?

Bem, essa pergunta interessa de passagem, para evitar de nossas elocubrações a esse respeito esbarrarem com essa idéia de que nossas elocubrações supõem uma brecada no progresso. Quer dizer, para evitar ao longo do tema uma objeção. Esse é que é o laço.

Você conheceu M. Vesperien, não? Sabe quem é?

(Sr. Gonzalo: Sim senhor.)

M. Vesperien tem qualquer coisa disso. Ele tem qualquer coisa de um burguês, de muito boa estirpe burguesa, antigo, etc., etc., habituado a tratar com bastante dinheiro, que fala sobre o dinheiro com aisance, com facilidade, mas que não dentrou na jigajoga do dinheiro. De maneira que alguma coisa no tipo humano é possível ser assim. E eu às vezes me pergunto se não deformaram o exercício dessas profissões a um ponto que parece impossível exercê-las bem.

* A origem do banco atual: os montes de piedade

Por exemplo, o banco. Você sabe que o banco é originário dos antigos montes de piedade, que eram instituições católicas.

(Sr. Poli: Montes de quê?)

Montes de piedade. Era um dinheiro que o sujeito tinha…

(Sr. Poli: Ah, existe hoje ainda. É o que chamam de monte pio.)

Monte pio. Como se diz em francês mont de piété, traduziram. Mas é monte pio. Mas não é bem o que é hoje o monte pio. Era uma espécie de casa de penhora, onde as pessoas apertadas iam colocar uma jóia, uma coisa qualquer, e retirar quando pudessem pagar. Ou depositar um dinheirinho para a direção do banco gerir aquilo, e fazer render moderadamente, porque eram pessoas que não tinham meios de fazer tocar a sua vida.

Agora, daí veio o gigantismo do banco. Esta atividade não poderia ser exercida… (…)

burguês de muito boa burguesia? Nós esbarramos sempre com isso: quando toma a proporção de gigantismo, não. Fora do gigantismo é mais ou menos… (Vira a Fita)

* Paralelamente à Revolução deveria ter crescido também a reação contra-revolucionária

ao longo de todos os tempos teria vindo desenvolvendo o seu espírito contra-revolucionário. E seria, portanto, um contra-revolucionário mais completo do que os homens que conheceram a Revolução menos desenvolvida.

Então, vamos dizer, por exemplo, um carlista do tempo auge do Carlismo, quer dizer, um intelectual carlista que fosse ao mesmo tempo um requeté, um carlista nessas condições era um homem que podia perfeitamente fazer uma crítica da Revolução mais afiada do que faria algum no tempo a Chouannerie. Mas um homem do meu tempo tinha condições de fazer uma crítica mais afiada do que um carlista.

Então, paralelamente, o lado contra ter-se-ia desenvolvido muito bem. E como acontece que historicamente falando, e com toda a reverência que você sabe que eu tenho à Hierarquia, a Hierarquia caminhou menos rapidamente do que a Revolução — quer dizer, acumulou-se um monte de Revolução que ela não condenou tão claramente, tão bem quanto a Revolução afirmou os seus erros —, ter-se-ia por essa maneira facilitado à Hierarquia de ver o problema mais claramente, e agir mais claramente. E aí nós teríamos o que seria propriamente o homem da Contra-Revolução no momento de estourar a Bagarre.

* O discernimento dos espíritos, primeiro elemento do acréscimo dado por Nossa Senhora



(Sr. Gonzalo: O senhor está tratando só do ponto de vista natural, ou misturado com um pouco de graça?)

Não, na miniha descrição vem misturado com um pouco de graça, porque todos esses tipos que eu estou evocando foram assim em parte por ação da graça.

(Sr. Gonzalo: Como entraria nesse caso toda a problemática do discernimento dos espíritos? Porque neles, nessa análise que o senhor faz do passado, pareceria que esta excelência não existiu. Então, como o senhor coloca, em que lugar, o discernimento dos espíritos?)

Bom, isso parece estar ligado ao seguinte fato histórico, do qual não há provas mas que parece indiscutível: é que forças do mal puderam conferir, soprar nos ouvidos dos maus umas informações, e deram uma ajuda, uma viveza que lhes deu não propriamente um discernimento dos espíritos — que é uma graça — mas uma capacidade de estar informado, de estar ao par dos espíritos muito a fundo. Coisas que os bons não tiveram. Mas quando a obra do mal chegou a penetrar completamente os espíritos, aí a alguns foi dado o discernimento dos espíritos, para ver e para combater.

(Sr. Gonzalo: Mas isso faz parte não da continuidade. Já faz parte do acréscimo.)

Do acréscimo. É o primeiro elemento do acréscimo. Se é que não foi o contrário que foi verdade. Quer dizer, os bons foram tibiamente bons, e não foram favorecidos por isso com aquele grau do discernimento dos espíritos que outros podem ter tido depois.

* No Reino de Maria, uma luta de gigantes: o auge da Contra-Revolução contra o auge da Revolução

(Sr. Gonzalo: Mas no caso concreto que estamos tratando, o senhor acha que isso faz parte do acréscimo que Nossa Senhora daria, e que não está dentro da linha da continuidade, necessariamente?)

Bom, para justificar a doutrina do acréscimo, eu queria mostrar o seguinte. Que se a Revolução chegou propriamente ao seu auge — parece que chegou — quando chegar a hora de ela querer dominar, ela terá atingido uma plenitude de conhecimentos, de táticas, de jeitos, de coisas que presumivelmente ela não perderá. E ela ficará no Reino de Maria, mesmo na aurora, encolhida mas muito mais capaz do que nunca foi até então. E analisando o Reino de Maria com as suas possíveis fraquezas, etc., com uma argúcia muito maior também. De maneira que a história da humanidade será necessariamente, para não dar numa derrapada, será necessariamente a luta de duas frentes desiguais em força, porque os bons serão mais fortes, mas iguais pelo menos em recursos contra-revolucionários, etc. De maneira que é uma luta de gigantes.

(Sr. Poli: Quer dizer que não vai ser possível ao senhor destruir a cabeça da Revolução?)

Acho que não. E que essa vai até o fim do mundo.

(Sr. Poli: Por que não se identificará, ou por que faz parte do corpo místico do demônio?)

Isto. É o corpo místico do demônio, e propriamente porque a luta desde Adão e Eva até o fim do mundo é uma só. E pelo menos nas linhas fundamentais e genéricas, tem que ter uma certa continuidade.

(Sr. Gonzalo: É um aude de Revolução muito reduzido.)

Muito reduzido, exatamente. Reduzido quase a nada. Mas, digamos assim: que a serpente fique reduzida à sua cabeça, mas essa cabeça contém uma experiência e uma capacidade aperfeiçoada durante 500 anos.

(Sr. Paulo Henrique: Ela não vai perder. Aquilo fica condensado, e quando ruir o Reino de Maria, ela tem todo o potencial…)

E o poder que ela soube roubar.

* Uma herança de experiências que os maus sabem guardar, e que os bons não gostam de receber

Para ser inteiramente claro, preciso, é preciso tomar em linha de conta o seguinte: que nesse jogo, nessa coisa, a força do mal vai ficar, como eu disse, detentora de toda essa velhacaria, esperteza, experiências, etc., como fica o demônio no inferno. E que nessas condições eles ficarão como um homem, por exemplo paralítico, mas que se se movesse, se moveria com outra elegância e com outra força do que antes, porque ele ficou meditando sobre o como mover-se durante todo o tempo de sua paralisia.

Agora, suporia que os bons quisessem também eles receber a herança dos que os precederam. E este é o ponto delicado. É que os bons têm qualquer coisa à maneira de um contra-apetite. E essa espécie de vinculação ao passado, para herdar tudo quanto o passado deu, e se deixar modelar pelo passado para ser o futuro, é muito contrário ao espírito revolucionário. Inclusive pelo desejo de ser independente.

Isso seria a linha geral.

* Outro elemento do acréscimo: um afervoramento das virtudes teologais e cardeais

(Sr. Gonzalo: Agora, o discernimento dos espíritos seria um dos elementos do acréscimo. Que outros elementos o senhor colocaria? O profetismo também é…)

É, mas muito mais do que isso é um afervoramento enorme das virtudes teologais e cardeais. Propriamente virtudes.

(Sr. Poli: Para o homem de Estado, não é?)

Para todos: para clérigos e civis. Um afervoramento enorme das três virtudes teologais, e das quatro virtudes cardeais. De maneira que de fato o homem fosse, pela correspondência à graça, muito melhor católico. O resto que eu disse seria fruto do ele ser muito melhor católico.

(Sr. Gonzalo: Isso seria de se pensar adquirível um pouco pela continuidade.)

Não. Eu acho que vem coisas que a continuidade nunca poderia dar. São tão maiores…

(Sr. Gonzalo: O senhor poderia dizer um pouquinho como?)

À maneira de uma Pentecostes, dá de repente.

(Sr. Gonzalo: Sim, é como se manifesta?)

Isso eu não consigo advinhar.

* Um acréscimo que tem uma continuidade lógica e ontológica com o que houve

(Sr. Gonzalo: Por exemplo, um dom do aristocratismo que não se tem, por mais que se busque na continuidade para trás. Isso já faz parte do acréscimo.)

Eu acho que sim. Mas é preciso ter cuidado, hem? Porque na hipótese que você figura não tem por uma infidelidade…

(Sr. Gonzalo: Não..)

Ah, é. Bem, se tivesse fidelidade inteira, teria toda a continuidade, mais…

(Sr. Gonzalo: Não tem dúvida. Mas seria fidelidade a quem deveria. Aí não seria por continuidade. Seria porque essa pessoa teria recebido algo que é um acréscimo à sua própria pessoa.)

Sim, perfeitamente. Mas com cuidado num ponto: é que esse acréscimo é inteiramente harmonioso com o que houve. De maneira que nesse sentido não há uma continuidade cronológica, mas há uma continuidade intrínseca, que levanta de repente uma coisa pré-existente. Seria, por exemplo no caso dos Apóstolos, a continuidade do que eram as virtudes deles antes de Pentecostes, com o que foram as virtudes depois. Não é uma continuidade cronológica, mas uma continuidade lógica, ontológica. Na realidade é assim.

* A obrigação que o civil tem de auxiliar a Hierarquia em sua missão de santificar

(Sr. Paulo Henrique: Agora, passa-se no momento atual verdadeiramente por um istmo. Porque se a gente toma do lado da Hierarquia, que continuidade haverá? No campo temporal está bom, temos um exemplo vivo, mas fora disso a coisa parece que…)

Não, não. Mas tem o seguinte: no magistério eclesiástico há qualquer coisa de pastoral. A Hierarquia tem o ensino para santificar. E ela para santificar precisa conhecer aqueles a quem ela deve santificar, exatamente, para santificá-los adequadamente. E nesse conhecer, o civil tem um papel muito grande junto ao eclesiástico, como aquele que revela a sua classe como é, e ajuda a pilotar a ação dele dentro da classe. E isso é uma coisa da qual os civis se julgaram desobrigados, mas a ponto de não passar nem pela cabeça dos mais virtuosos!



(Sr. Paulo Henrique: Mas isso indica que substituiria, ainda que por um lapso de tempo, a ausência no campo eclesiástico…)

Não, isso não. Isto ajudaria muito, uma colaboração mais estreita assim, aos sacerdotes mesmos serem mais santos. Porque eles compreendendo melhor o papel dos leigos, eles se defenderiam mais contra as tentações que através dos leigos agridem a eles.

(Sr. Paulo Henrique: Eu digo no momento histórico em que vivemos hoje, isso praticamente deixou de existir no campo deles. Para nós existe, mas no campo eclesiástico não se tem notícia.)

É, não se tem notícia.

(Sr. Paulo Henrique: Que alguém represente essa continuidade.)

Eu não tenho notícia. Aí será preciso que talvez na Bagarre, etc., Nossa Senhora suscite vocações extraordinárias.

(Sr. Poli: Em último caso tem São João…)

Tem o seguinte: nenhum de nós sabe se Elias e Henoc não foram elevados sacerdotes até o Episcopado. Porque o fato deles não terem sido sacerdotes da Antiga Lei não quer dizer que não sejam na Nova.

(Sr. Gonzalo: SDP, está meio tarde já para o senhor… São três horas, e o dia foi puxado para o senhor.)

Não foi nada terrível. Vocês querendo pôr mais alguma pergunta, para concluir harmonicamente a noite…

* A “Bagarre” será também uma luta psicológica, na qual será preciso saber pregar aos povos

(Sr. Gonzalo: Nós gostaríamos de perguntar ainda muitas coisas, para personificar mais ainda, e uma série de outros dons que a Providência deu ao senhor, etc. Como ver melhor, e como poder na Bagarre começar a pregar a quem devemos…)

(…)

Você falou em pregar. Por exemplo, aqui é característico. Nós não sabemos se, por exemplo — essa é uma idéia que me vem muito à cabeça — se durante a Bagarre, a Bagarre não vai se só uma luta armada. Vai ser também uma luta psicológica. E para a luta psicológica vai ser preciso saber pregar aos povos. Se nós tivéssemos um setor da TFP que soubesse dizer sobre os Novíssimos as coisas impressionantes, e que nas esquinas das ruas, nas ocasiões de grande aflição pública, subisse numa barrica e falasse, dentro do caos da Bagarre, isso não seria uma forma de apostolado muito grande?

(Sr. Gonzalo: Mas com o espírito do senhor.)

Sim, claro. E este espírito não poderia reacender-se em muito sacerdote?

(Sr. Poli: Tem que se reacender.)

Tem que se reacender. Porque nós não podemos imaginar um Reino de Maria com os sacerdotes no estado em que eles estão atualmente. É inteiramente impensável.

(Sr. Gonzalo: Mas nós podemos deixar para a próxima semana…)

Podemos! Com muito gosto! Vamos andando então, meus caros.

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