Conversa
de Sábado à Noite – 07/04/90 – Sábado
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Conversa de Sábado à Noite — 07/04/90 — Sábado
“Eu morreria inconsolável de nesta agonia da Igreja ter sido possível fazer uma coisa que eu não fiz” — A censura que nos faria Nosso Senhor pela pouca água que Lhe damos para matar Sua sede nessa Sua segunda Paixão — Reflexões para a Semana Santa
* Uma reunião tem frutos quando corresponde a uma certa graça que esteja na receptividade dos interlocutores, e daí a grande importância das perguntas
(Sr. GD: Na linha da problemática RCR, profetismo, BG etc., que ordem de assuntos o Sr. teria no espírito, que gostaria de comentar e não comentou ainda?)
Acontece o seguinte: temas, você tem razão, são inúmeros, mas a conversa, para olhar apenas para o nível baixo, ela só é repousante e só é agradável — é o nível baixo — na medida em que a matéria corresponde a uma certa graça que esteja na receptividade dos interlocutores. De maneira que os interlocutores dão muito mais o tema interessante e vantajoso do que quem está fazendo a interlocução. Eu compreendo que seja meio surpreendente isso, mas a realidade é essa. É a graça presente na alma de cada um de vocês que indica o que é que vocês gostariam de tratar, que fosse tratado. E é ali então que a graça vai favorecer e dar à conversa aquela ressonância, aquela sonoridade, aquele eco bom que faz dela uma conversa frutosa de um lado, e agradável de outro.
Quando não tem essa ressonância a gente se esbalda para tocar a conversa e a conversa produz um resultado muito pequeno. De maneira que vocês são os indicadores do tema. Isso é minha impressão. Aliás, é muito natural o que eu digo.
Não sei o que é que diz a isso meu Paulo Roberto.
(Sr. PR: É isso mesmo.)
Aliás, é uma responsabilidade, hem? Porque essa roda aqui tem e pode ter ainda muito mais muito peso na vida do Grupo. Vocês todos têm um chamado individual pelo qual na vida do Grupo vocês correspondendo à graça podem ter um peso muito grande sobre a vida coletiva do Grupo. E é um erro imaginar que a vida do Grupo se faz exclusivamente de um diálogo meu com uma espécie de soldado desconhecido, que seria um membro qualquer do Grupo. Mas faz-se muito pela distribuição que eu faço de graças a alguns, os quais por sua vez redistribuem a terceiros.
Portanto a escolha do tema para os sábados à noite é uma escolha que importa muita responsabilidade. Até alguns têm mais graça para isso do que outros. Depende muito das circunstâncias. Em certa ocasião um tem mais graça, outra ocasião um tem menos graça, outro tem mais. Depende muito de todas as circunstâncias. E a gente deve deixar a coisa correr um pouco a la buona, porque é a la buona que a graça se sente — por assim dizer se sente — livre de agir à vontade.
* O crescimento de todo ser vivo em certo momento atinge um estágio em que é apenas o aumento de uma figura que já está delineada, o que se faz de modo quase insensível. O mesmo dá-se com as almas
O que é que você diz a isso?
(Sr. GD: … quais são as graças que Nossa Senhora no momento está falando no fundo da alma do Sr.? ….)
Vocês se arriscam a ouvir uma resposta sem graça, porque a resposta que eu tenho que dar é muito sem graça. Sem querem eu falo.
(Cel. Poli: Será a primeira vez na vida que o Sr. dará uma resposta sem graça.)
Eu não quero dizer sem graça na ordem sobrenatural, mas sem atração, sem atrativo, sem charme nem nada.
Você toma, por exemplo, uma árvore que está crescendo. Por exemplo um cedro do líbano, qualquer coisa assim. Essa árvore, ou então uma árvore muito menos pretensiosa, vamos dizer um plátano. Quando ele é pequeneninho, ele vai saindo do chão, vai se transformando, etc., etc., até tomar uma certa estatura, está no dinamismo de todo crescimento de um ente vivo, quer seja da ordem humana, quer da animal, quer da vegetal, que durante um período o crescimento é extremamente sensível, e se percebe por mudanças de aspecto, etc., etc. Depois atinge uma certa situação em que continua a crescer, mas o crescimento é apenas o aumento de uma figura que já está delineada. E se faz também muito menos rapidamente, de um modo quase insensível. De maneira que a menos que se tirem as medidas, até não se percebe que houve crescimento. Às vezes percebe, porque a árvore está perto de uma janela e a gente tem a ilusão de que a árvore não está crescendo mais; compara de vez em quando com a janela e percebe que a árvore subiu. Mas é só com critérios desses que se percebe que a árvore tenha subido. Depois há um determinado momento em que a árvore pára de crescer, se estabiliza. Depois, por fim, começa a murchar, a secar.
Agora, com a alma não há um momento que pare de crescer, cresce sempre, mas pode acontecer que a alma depois apresente no seu próprio crescimento uma tal continuidade, que essa continuidade não tem nem de longe a atração e o interesse de observação que tem o desenvolvimento de um árvore pequena. E na idade em que eu estou, nas condições em que eu estou, eu me vejo a mim mesmo como imóvel, e espero em Nossa Senhora que eu não esteja imóvel. Tenho a impressão que dou a vocês a impressão de uma imobilidade completa, de não crescimento. Está feito.
* Insistências inúteis sobre um tema que o Sr. Dr. Plinio não quer tratar
(Cel. Poli: A gente vê no Sr. tantos desdobramentos de novas energias, uma tal vitalidade…)
Mas aí que está, a vitalidade é a mesma, não cresce. Você não pode dizer que do ano de 1989 minha vitalidade tenha crescido. Oh, meu filho, você calcule: na minha idade crescer a vitalidade!
(Cel. Poli: A gente sente o crescimento do Sr. continuamente.)
(Sr. PHC: A Igreja cresce sempre em graça e santidade, e a luz reflexa da Igreja também.)
Ela cresce, mas é imperceptível, portanto não tem graça. É como a árvore que a gente só nota pela comparação com a janela que ela está crescendo.
(Sr. PHC: Se não se visse crescimento no Sr. acho que nós ficaríamos blasés.)
Mas vocês não devem confundir variedade com crescimento. Eu compreendo que uma pessoa de minha geração tem muita variedade de alma, e que essa variedade de alma pode entreter, isso eu compreendo. Aspectos diversos, etc., etc., aquilo que dizia o Poli há pouco. Mas não é sinônimo do crescimento de que falava o Guerreiro. Nós vamos passar nos bagarrant a noite inteira sobre esse tema.
Mas a impressão que eu tenho de mim visto por dentro, é de um crescimento à maneira dessa árvore. Quer dizer, eu não me vejo crescer. É a resposta sem graça que eu falei.
(Sr. GD: …. Todo ser humano é assim. Eu acho que um anjo que está na bem-aventurança celeste pode-se dizer que há em alguma medida isto.)
Ninguém no céu cresce.
(Sr. GD: Ou cresce.)
Não, no céu todas as almas atingiram o pleno da santidade que elas podiam atingir. Vamos dizer, a própria Nossa Senhora não cresce no céu.
(Sr. GD: O convívio contínuo com Nosso Senhor não implica num…)
Não cresce. Os anjos por toda a eternidade não cresceram. O céu tem essa imobilidade bem aventurada.
* Metáfora demonstrativa do pouco valor da glória extrínseca no céu
(Sr. PHC: Os méritos que ele deixou, os frutos daquilo que ele semeou na terra, na medida que aquilo vai frutificando, mais glória ele vai obtendo no céu.)
Extrínseca. Não quer dizer que ele dentro dele fique mais santo.
(Sr. PHC: É algo mais que se incorpora à pessoa dele.)
Extrinsecamente. É como por exemplo uma medalha que se dá a um herói que já recebeu muitas outras medalhas.
Você imagine por exemplo que eu tivesse nascido num lugar muito pequenino. Jundiaí por exemplo. Depois tivesse feito uma vida muito grande, com muita projeção, a vida que eu não fiz. E tivesse recebido muitas medalhas. Em certo momento Jundiaí resolve me dar o título de cidadão honorário. Eu recebi uma glória extrínseca a mais: cidadão de Jundiaí. Mas isso em comparação com os outros títulos que eu teria, seriam títulos tão maiores que o ser cidadão de Jundiaí quase não pesa. Assim será para quem está na glória do céu, e honrado por Deus pela Sua intimidade, e conversando assim em qualquer avenida do céu encontra de repente Carlos Magno, encontra de repente São Simão estilita, encontra de repente São Tomás de Aquino, São Franciso de Assim, etc., conversam, e no céu se nós nos encontrarmos, nós poderemos dizer um para o outro: “sabe o que é que me contou hoje à tarde São Francisco de Assis?” Os outros tomam com naturalidade, porque é aquela glória, aquele convívio, aquela coisa magnífica, etc.
E o prêmio que vem da terra é como a medalha de Jundiaí, a cidadania honorária de Jundiaí. A terra é Jundiaí para o céu.
(Sr. PHC: Mas na terra a alma não pára de crescer.)
Enquanto está na terra não, não deve parar.
* “Meu grande remorso, hipotético mas remorso, é de não ter chegado ao pleno a que a Providência me destinaria”
(Sr. GD: O Sr. poderia então descrever como é o vulto dessa árvore, e por que o Sr. acha que ela chegou a um ponto em que grosso modo ela adquiriu uma estatura meio definitiva?)
Porque comparando o que essa árvore foi ganhando no curso do tempo com o que eu sinto em mim que ela tem para dar, eu tenho a impressão que ela não tem mais muito que dar.
(Cel. Poli: Não tem muito mais para adquirir, para dar tem.)
Bom, se você quiser, para adquirir, é para adquirir. Não tem muito mais para adquirir.
Não, não é só isso não. É que a gente cresce dando. A alma só cresce dando, sofrendo, aguentando mais pela causa, etc., etc., etc. E eu sinto que mais do que em tempos passados eu sofri, e tive ocasião de dar, mais do que isso eu não percebo que eu pudesse aguentar. Exceto se vier uma graça muito grande, muito maior do que eu tenho presentemente, eu não percebo que eu possa aguentar. Tenho a impressão de que eu cheguei a um certo plenum. Meu grande remorso, hipotético mas remorso, é de não ter chegado ao pleno a que a Providência me destinaria.
* “Eu morreria inconsolável de nesta agonia da Igreja ter sido possível fazer uma coisa que eu não fiz”
Ainda outro dia estivemos lendo aquela conversa de São João Bosco com São Domingos Sávio, já no céu o Domingos Sávio, que ele perguntou para o Domingos Sávio: “Mas será que se eu fosse mais santo a Ordem salesiana não estaria muito mais desenvolvida?” São Domingos Sávio disse para ele: “Estaria, é fato, mas o que o Sr. conseguiu já é colossal. Alegre-se”. Mas a questão é que me deixaria meio inconsolável de nesta agonia da Igreja ter sido possível fazer uma coisa que eu não fiz. É mais ou menos como se eu estivesse acompanhando Nosso Senhor na Paixão e Ele tivesse me pedido um pouco de água, e eu tivesse enchido o copo com água insuficiente. Eu morreria inconsolável. Ora, na Paixão d’Ele, Ele pede para cada um de nós alguma coisa à maneira de um copo d’água. Nós podemos ter certeza de que todos nós demos o copo d’água cheio? Talvez não tenhamos.
* Cada um de nós foi chamado a matar a sede de Nosso Senhor ao longo dessa Paixão atroz que está aí oferecendo todo o esforço, todo o sacrifício que nós poderíamos fazer. É certo que se Ele nos aparecesse, Ele nos diria: “Meu filho, tão pouca água nesse copo?”
Já imaginou: você está na Paixão, participa daquilo tudo, mas você vê que depois que Nosso Senhor bebeu a água, Ele dizer a você com amor e com dor: “Mas meu filho, tão pouco nesse copo?” Você vai correndo pegar outra água e não tem mais. Ou você se estabana, cai no chão e quebra o copo. Ele continua, mas carregando a sede que você não matou. É ou não é verdade que isso fica até o fim da vida? A gente sofre sede da sede d’Ele. É verdade, ou não?
Isso é o que nós fazemos quando nós não damos a Ele o que Ele queria de nós. Então eu tenho medo de não ter enchido o copo d’Ele. É razoável. Porque quem é que pode ter, a não ser Nossa Senhora, a certeza de ter enchido o copo d’Ele? E o ter levado aquela censura: “Meu filho, tão pouca água nesse copo?” Eu acho que a pessoa se liquefaz. Não é o que aconteceria a vocês? Se desfariam. (…)
Mas tomando em consideração que cada um de nós foi chamado a matar a sede d’Ele ao longo dessa Paixão atroz que está aí, e que essa sede nós mataríamos oferecendo todo o esforço que nós poderíamos oferecer, todo o sacrifício que nós poderíamos fazer, é certo que se Ele nos aparecesse, ele nos diria: “Meu filho, tão pouca água nesse copo?” Isso é certo. E disso eu tenho pavor. É muito razoável, é muito lógico.
* Nosso Senhor tem poucos a quem pedir isto. Pede a nós, e nós damos os copos negligentemente cheios, de qualquer água do caminho
Como reflexão de Semana Santa… Estamos na orla da Semana Santa. O que há de próprio para uma reflexão de Samana Santa por excelência é isso. Vocês pensarem, quanta gente não foi chamada como nós fomos. Bem, nós fomos chamados. Quantos dos que foram chamados não deram o que tinham que dar e apostataram. Nós estamos dentro. Ele tem poucos a quem pedir isto. Pede a nós, e nós damos os copos negligentemente cheios, de qualquer água do caminho, em vez de ir procurando uma fonte onde haja uma água magnífica, que chegue a tempo, que possa ser entregue a Ele. Trazermos um jarro, caso Ele quisesse beber mais, podermos encher o copo para Ele. Nada! Nós fomos a um qualquer regato, nos dobramos, pusemos o copo ali dentro: “olha, tá!” E depois ainda saímos com a idéia de que fomos um colosso. Porque ainda tem mais essa.
Vocês podem calcular por aí o remorso dos apóstolos. Deveria ser uma coisa nem sei do quê. Não tem palavras o remorso deles. Mas os nossos!
Houve uma santa dessas santas da Idade Média, Santa Brígida, uma daquelas santas da Suécia, Santa Edwiges, uma daquelas santas a quem Nosso Senhor apareceu — era o fim da Idade Média — [e disse] que acabava de ser solto por Ele para castigo da humanidade um demônio pior do que o demônio que tinha sido solto por ocasião da crucifixão.
Bem, a Igreja sofre Paixão hoje em dia. (…)
* Se nos fossem pedidas contas, o que é que nós teríamos a dizer?
Uma pergunta só: do que é que valem as nossas comunhões? Do que é que vale o nosso rosário? Como é isso? Quer dizer, se nos fossem pedidas contas, o que é que nós teríamos que dizer? Eu não faço essa reflexão assim porque minha idade me põe mais perto da morte, não é isso não. É porque é uma coisa em si terrível, e que me preocupou a vida inteira. É isso. E se for pouco? Se não for suficiente? Se tal coisa que eu devesse ter dito com entusiasmo não foi dito com entusiasmo suficiente. Como é que eu fico?
Alguém dirá: “Não, mas isso é muito duro, pense em outra coisa”. Não, eu quero pensar na coisa dura. É a mesma coisa que se eu tivesse feito isso com Nosso Senhor na Paixão e Ele me dissesse: “Meu filho, tão pouca água nesse copo?” Eu disser: não, não vou pensar porque é muito duro. Não sei! Eu tenho a impressão que meus miolos estourariam dentro do crânio se eu fosse fazer uma coisa dessas. Não pode ser. Então como é que fica tudo isso?
Eu não quero acabrunhá-los com meditações muito pesadas, mas quando se aproxima a Semana Santa a ocasião é particularmente indicada para a gente… A Igreja faz mesmo cerimônias de Semana Santa, etc., para tocar as nossas almas nesse sentido. E como é que fica? É uma coisa evidente.
* Vocês seriam muito eloqüentes em fazer um sermão para os outros mostrando no que não estão correspondendo. E na hora de falar de si mesmos, o que teriam para dizer?
Cada um faça a reflexão que for fazer, para fazer bem feita faça a respeito dos outros, porque é muito difícil fazer a respeito de si mesmo. Mas cada um tem diante de si uma porção de irmãos na vocação, e tem o Fundador. Agora, pense o seguinte de cada um dos outros que está aqui: se ele correspondesse inteiramente à graça não dava para vocês imaginarem o que é que ele seria? Dá. Em algo dá para imaginar. Então o bem que ele faria não dá para imaginar? Agora, vocês estão inteiramente certos de que cada um dos outros está fazendo todo o bem que poderia? Não estão certos. Vocês estão certos do contrário. Então vocês seriam muito eloqüentes em fazer um sermão para os outros mostrando que falta está fazendo, e tereteté, seriam muito eloqüentes nisso. E na hora de falar de si mesmos, a si mesmos, o que é que vocês teriam para dizer? São coisas que fazem pensar.
Eu lhes aconselho o seguinte: na sexta feira santa às três da tarde estarem numa sede, estarem num lugar qualquer e pensarem nisso. Porque é a hora em que Nosso Senhor está morrendo. Vamos dizer de duas às três é a hora final da vida d’Ele, e Ele está exalando [os cinco] suspiros. O lugar mais adequado seria estar numa igreja, mas hoje como é que se pode pensar nisso? Então estejam na capela de uma sede, numa sala de uma sede, mas estejam num lugar santo, e procurem pensar nisto, refletir nisso.
* “Nosso Senhor sofreu pelo que eu estou fazendo agora, e teve atenuações pelo que eu posso estar fazendo agora”
Nosso Senhor está morrendo na cruz e Ele me viu, e me conheceu inteiramente, a cada um dos que estão aqui. E Ele viu a minha vida inteira, e Ele no alto da cruz teve sede. Quando Ele gemeu: “sicio, tenho sede”, os teólogos dizem que Ele tinha a sede do corpo. Perdendo sangue em quantidade dá muita sede. Mas que não era o principal. O principal era a sede das almas que Ele tinha, e portanto Ele teve sede entre outras milhões e milhões de incontáveis almas, ele teve sede da alma de Plinio Corrêa de Oliveira. E Ele viu lá até que ponto eu correspondo a esta sede d’Ele nesse momento em que eu estou falando. E na medida em que eu não estiver correspondendo inteiramente, Ele sofreu no alto da cruz. Como se eu tomar a sério o que eu estou dizendo, e falar a coisa como eu devo falar, pelo contrário, eu matei um pouco da sede d’Ele no alto da cruz. É uma coisa curiosa, que Ele no alto da cruz teve a visão profética disso. De maneira que Ele sofreu pelo que eu estou fazendo agora, e também teve atenuações pelo que eu posso estar fazendo agora. E portanto eu tenho o poder, cada um de nós tem o poder, de atenuar o sofrimento d’Ele no alto da cruz. Então pensarem: Ao menos nesta hora eu vim me recolher aqui, pôr-me diante do Santíssimo Sacramento, quieto. Aos pés de uma imagem de Nossa Senhora e pedir que Ele toque minha alma, que Ele faça um bem para minha alma, que Ele dê vida na minha alma a estes pensamentos.
* As orações de Semana Santa do tempo constantiniano, que maracaram a vida do Sr. Dr. Plinio até hoje
Eu me lembro que no tempo constantiniano. Aqui no Brasil havia muito. É possível que Merizzaldi tenha conhecido alguma coisa do gênero na Via Sacra na Colômbia. Faziam Via Sacra, mas o padre fazia Via Sacra com [o povo] dos fiéis. começavam pela primeira estação, às vezes o padre, às vezes alguém lia qualquer coisa, e por exemplo: Jesus Cristo diante de Pilatos… Aquelas várias estações da Via Sacra. Então quando Ele dizia: “Nosso Senhor Jesus Cristo é pregado à Cruz”, o coro cantava uma cançãozinha em latim que era concernente a isto, despertando os sentimentos dos fiéis…
[Vira a fita]
Eu não me lembro em latim como era, mas o princípio era: crucifixe fige plagas corde meu valide— fixai em meu coração de um modo efetivo as chagas do Crucificado. Depois se encerravam as orações daquele passo assim: adoramos te Christe et benedicimus tibi, quis per sanctam crucem tuam redemisti mundo — nós te adoramos Cristo e nós te bendizemos porque por tua santa cruz redimiste o mundo. Aí enquanto o padre passava de uma estação para outra o coro cantava mais alguma coisa e tudo se repetia quatorze vezes durante a estação.
Você pegou alguma coisa assim ainda na Colômbia? [Sim.] E com certeza com muito comparecimento de povo, etc., não é?
Bem, e eu peguei muito, se fazia muito no Coração de Jesus. E eu peguei muito isso. E essas duas orações: Sancta Mater crucifixe fige plagas corde meu valide, e depois essa outra, me impressionavam muito. E até hoje quando eu passo diante de um crucifixo, eu interiormente digo adoramos te Christe et benedicimus tibi, quis per sanctam crucem tuam redemisti mundo, depois acrescento Mater Dolorosa. De maneira que quando eu passo diante dquele crucifixo que tem na entrada dos Buissonets, por exemplo, eu digo sempre isso, e o pessoal que está comigo no automóvel acompanha a oração.
* Com que espírito deve-se rezar os mistérios dolorosos
Está bem, na sexta de duas às três da tarde é a hora da gente dizer isto: “Santa Mãe fazei isto. Fixai as chagas do Crucificado no meu coração valide, quer dizer validamente, de fato”. Para isso ficar, não passar a Semana Santa com as tontices da vida comum, etc., mas ficar firme no nosso espírito isso. Isso é esplêndido.
Melhor ainda seria se nós recitássemos os mistérios dolorosos do rosário todos os dias nesse espírito, quer dizer, com essa idéia: “Cada mistério que eu vá rezar aqui, eu atenuo as dores que Nosso Senhor sofreu naquele tempo”. É uma coisa assim meio estonteante mas é verdadeira. E portanto eu estou dando a Ele um copo d’água que Ele está me pedindo. É coisa muito boa, mas é muito boa fazer isso.
E acho que se simplesmente o resultado da conversa dessa noite fosse que nós fizéssemos isso, pedindo perdão pela água que nós não Lhe demos. Já seria uma coisa formidável.
(Dr. EM: Para ser efetivo precisaríamos pedir perdão pela áugua que negamos ao Sr.)
(…)
* O sofrimento do Sr. Dr. Plinio a partir do início da formação do Grupo
O fato é o seguinte: que se a minha vida pudesse ser representada como um gráfico, a partir do momento em que a TFP começou a existir, quer dizer, no pré Grupo, na Rua Imaculada Conceição, em 1928, a partir desse momento começou um sofrimento, que era mais tênue no começo porque vinha com enorme esperança de que aquilo tomasse jeito, etc., etc. Você já imaginou esse período todo no nosso gênero, na nossa toada o que é que representa? E a tristeza que é?
(Dr. EM: E o Sr. como mendigo.)
Como mendigo. E mendigo tratado com pouco caso, com desprezo.
* “A dureza de que são capazes as almas muito chamadas é uma coisa maior do que a dureza de qualquer tipo que passa na rua. É uma coisa espantosa”
Eu me lembro uma vez no Eremo de Jasna Gora. Acabava apenas de se fundar o São Bento. Eu fiz uma reunião para os eremitas de Jasna Gora, porque JG é mais antiga que o SB II, acabava de ser fundado o SB II. Eu já tenho contado esse fato. É tão característico que eu tenho contado mais de uma vez. Eu sentei-me e tal, expus o que u julguei que deveria expor, depois perguntei se queriam me dizer qualquer coisa. Um eremita levantou-se e disse: “Dr. Plinio eu queria reclamar que um eremita do SB II disse de nós assim, que somos isso, que somos aquilo, etc., etc., isto é uma irreverência, uma falta de respeito para conosco, etc., que somos os mais velhos e que merecemos toda consideração, taratatatá”. Eu deixei falar calmamente. Quando ele terminou eu disse: “É ao que o Sr. está reduzido, e os Srs. todos que estão nessa sala. Eu fiz essa censura várias vezes, os Srs. receberam com indiferença. Não melhoraram e não lhes causou a menor impressão o que eu disse. Mas basta que um meninote do SB II diga, que os Srs. ficam todos alvoroçados. De maneira que os Srs. não são sensíveis à voz de um homem experimentado e maduro, mas os Srs. são sensíveis à voz de um moleque. Este é o castigo onde os Srs. estão”.
Bom, não pensem que… eu acho que eles esqueceram disso, hem?! Ficaram quietos, porque o sujeito quando leva uma dessa não pode dizer que não, tem que ficar quieto. Mas é uma coisa tremenda.
E isto vem pelos tempos a fora, tempos a fora, tempos a fora, de um modo pungente. É carregar isso. Muitas vezes me negaram água, é infinitamente menos importante do que negar água a Nosso Senhor. Mais ainda. Se isso não importasse negar água a Nosso Senhor não tinha importância.
(Sr. MN: Quando no dia do juízo nós perguntarmos quando é que negamos água a Ele, Ele dirá que foi quando negamos ao Sr.)
Ah, dirá. Porque Ele diz no sermão das bem-aventuranças: “Estive preso e vós não me visitastes, estive sedento de água e vós não me destes, etc., etc”. Aí Ele dirá, isso é certo. Mas às vezes há casos assim da gente ficar… A dureza de que são capazes as almas muito chamadas é uma coisa maior do que a dureza de qualquer tipo que passa na rua. É uma coisa espantosa.
* Os sofrimentos do Sr. Dr. Plinio com o desastre, as lutas com o estrondo em 75, e com as ingratidões e indiferença dos membros do Grupo diante disso
Por exemplo eu me lembro o estrondo de 75. Quando aquele estrondo começou eu estava todo espatifado por esse desastre. Eu me lembro que eu era obrigado a dar telefonemas para várias pessoas, etc., etc. Eu estava com as mãos e tudo tão quebrado que era preciso segurarem o telefone no meu ouvido para eu falar. E assim eu sustentava batalhas telefônicas.
(Cel. Poli: Tinha duas linhas telefônicas e foi instalada mais uma.)
Para eu poder falar, chamar deputados, senadores, toda espécie de gente, militares, etc., etc., para aguentar o baque. Chegavam de todo o Brasil. É Jó com as calamidades. Depois graças a Nossa Senhora isso foi baixando. O lance terminal ainda foi um estrondo agudo e terrível no RS. Quando terminou afinal o estrondo no RS, terminou todo o estrondo.
Eu me lembro que cheguei para a reunião à noite no Auditório São Miguel e noticiei: terminou o estrondo felizmente, porque o general tal foi depôr no inquérito, era o secretário da segurança, e depôs magnificamente bem, arrasou aquilo, e a comissão encerrou os seus trabalhos. Enfim, declarou que suspendia os trabalhos. Ia deixar correr o prazo regulamentar para encerrar automaticamente, que foi o que aconteceu. Mas o estrondo está acabado.
Se eu tivesse dito que eu tinha esmagado um mosquito o interesse não seria maior. Eu tinha travado uma batalha onde eles me viram me desfazer. Não houve uma palavra, um aplauso, uma palavra de gratidão, uma palavra de entusiasmo, nada! (…)
Pensando em pensamentos metafísicos, não é? Ou então sobrenaturais: “minha abotoadura está quase se rompendo; meu automóvel lá fora de repente um moleque risca; eu preciso mandar fazer camisas, onde é que eu vou encontrar camisa barata e boa, da qualidade daquele outro que está sentado diante de mim, e que vai olhar minha camisa nova para ver se eu tenho camisa igual à dele? A “F” mandou pedir não sei o quê. Eu fiz, não fiz?” E coisas transcendentais assim das almas grandes, não é? O estrondo… É uma coisa amarga, ouviu? Mas amarga. “É… normal”.
* A indiferença dos membros do Grupo para com o estrondo escandalizou até Dª Rosée
Uma vez minha irmã veio aqui — o estrondo estava começando — eu estava na cama com um peso pendurado nessa perna para a perna não encolher e eu não ficar manco, com um braço enfaixado, outro braço não sei o quê, eu estava que não podia me mover. Minha irmã apareceu aqui, começou a conversar comigo, sozinha no meu quarto, ela me disse o seguinte: “Essa rapazeada toda que está aqui enchendo sua casa no que é que eles estão pensando? Eles não estão vendo uma ofensiva medonha contra a TFP? Estão todos tão alegres, me recebem com uma cara festiva, querendo saber novidades, mas que não são as novidades referentes a vocês. O que é isso?”
Eu compreendi, porque eles entravam no quarto para mim, alegres, alegretes, satisfeitos. Não tinha a menor seriedade. Se a TFP fechasse, para eles era indiferente. Talvez fosse um alívio. Não fechou por um triz. Há mesmo fatos disso que eu ainda não pude contar porque comprometem terceiros, mas o Edvaldo conhece um fato, que ocasionou até uma viagem de D. Mayer ao RS, e nesse ponto ele foi dedicado, foi benemérito. Se não fosse nós termos encontrado a solução de mandar D. Mayer para lá, fechava a TFP. Você se lembra, não é? [Sim.] É uma coisa tremenda. Quer dizer, isso é um sofrimento pavoroso, mas pavoroso.
* “O estrondo foi um período de sofrimento em que nada me foi poupado.” Injeção no olho
(Dr. EM: Para o Sr. isso era um sofrimento maior do que o estrondo em si mesmo.)
O estrondo foi um período de sofrimento em que nada me foi poupado. Eu me lembro que toda a vida havia uma coisa que me causava um horror. É saber que há gente que toma injeção nos olhos. Não sei se vocês têm esse horror também. A idéia de uma agulha penetrando dentro dos olhos é uma coisa horrorosa. Por causa da pancada que eu levei na cabeça, ou qualquer coisa assim, quando o tratamento estava pelo fim — o estrondo ia começar — eu queria ler para me distrair um pouco, e não conseguia porque não conseguia focalizar direito os olhos. Mandei vir o oculista e ele me disse que os olhos estavam normais — eu usava óculos já — que aquelas lentes mesmas estava direito, mas que eu precisava passar por um consultório de oculista para ele ver direito o que é que tinha etc., etc.
Logo que eu pude, eu saí de automóvel para ir ao oculista. Mas para mim era uma festa, porque era a primeira vez que eu saía à rua. Lendo de manhã o “OESP”, eu li uma notícia do Estado em que eu percebi: aqui vem cair o mundo em cima de nós. Era o primeiro estalido do estrondo. No meu primeiro passeio, hem! E um passeio tão modesto: ir para o oculista, você faça idéia. Chego lá no oculista eu explico para o médico o que é que eu tinha. Ele diz para a secretária dele: “Dona fulana traga aqui as agulhas de injeção”. Ela trouxe uma bandejinha toda enfeitadinha, com um paninho, e uma cinco agulhas em forma assim. Ele pegou uma agulha e disse: “Eu vou fazer uma experiência no seu olho”.
— Mas meu Deus, essa?! Eu já estou curtindo a apreensão, eu estou vendo pela notícia do Estado que o mundo vai nos cair em cima da cabeça, agora além disso ainda vem essa agulha no olho?
Me enregeci, lá foi a agulha para o olho. Era para ver se um conduto qualquer, lacrimal, estava funcionando bem. Se saísse água é porque estava funcionando bem, se não saísse, não estava. Felizmente estava. Ele tirou a agulha, eu: “Fuuuu!”
A menor coisinha não me foi poupada. No fim disso acabou o estrondo, [tentarola]: “Como está quente hoje, hem?” É terrível.
(Dr. EM: O Sr. previu a história da agulha.)
É, eu falava de agulha de blaser. É uma coisa, brincadeira, não é?
(Dr. EM: Era uma sonda de metal, mas equivalia a uma agulha.)
Uma sombra do quê? Ah, uma sonda, é? Ainda bem que eu não soube o que era. Era uma sonda. Ah. Aliás, é indolor, não é? [É.] Mas uma agulha no olho?!
Eu me lembro que anos antes tinha aparecido um rapaz do Grupo, aquele Otávio. Você não conheceu aquele Otávio, conheceu?
(Sr. LDM: Não Sr.)
Teve uma morte tremenda.
Esse Otávio apareceu no Grupo, e apareceu com um esparadrapo amarrado no olho. E eu perguntei a ele: Otávio o que é que você tem? Ele me disse: “infecção no olho”. Eu disse: “ah, bom.” Eu pensei: o médico passa uma pomada nas pálbepras e põe isso em cima, não tem importância. Não, de cada vez é preciso fazer uma injeção no olho. Quando ele falou em injeção no olho, eu: “Ahh, você faz injeção no olho?” Ele geração-novescamente não percebia que era diferente de uma injeção no braço.
* Apostasia e trágica morte do Otávio
Esse Otávio depois apostatou, levado pela idéia de que na repressão ao comunismo a TFP era menos eficaz do que uma organização contra terrorista, uma organização terrorista contrária aos terroristas, chamada CCC: Comando Caça Comunistas. Ele se meteu nisso, entrou por aí por fora, saiu do Grupo, nem podia ficar no Grupo nessas condições. Andou fazendo crueldades com comunistas, não sei o quê, resolveram matá-lo. Ele estava no RJ tomando banho de mar na praia, e veio com gente, parece que tinha mulheres no grupo, da praia para o hotel para se vestir, quando eram um tiro nele e ele caiu no chão. Começou a pedir padre, dizendo que ela era católico que queria padre antes de morrer, e se não me engano não teve padre.
Agora, você já imaginou um homem que abandonou a TFP, abandonou os sacramentos e que está saindo de uma praia de mar no Rio, em que estado está a alma dele?
* “O Felipe Abla fez esse comentário: que ele me odiava, mas que o D. Mayer manifestou um ódio tão maior contra mim, que ele ficou escandalizado”
(Cel. Poli: Agora, quem é que saindo da TFP não vai acabar na praia, e não vai acabar fazendo 500 abominações, e evitar uma morte dessas?)
Eu dou a você apenas um exemplo. D. Mayer concorreu muito para o que Felipe Ablas apostatasse. Para arrancar o Felipe de dentro da TFP, etc., ele concorreu muito. E ele concorreu dizendo para o Felipe que para boa formação católica dele, era preciso que ele saísse da TFP. O Felipe hoje é ateu, casou-se lá com uma mulher em Curitiba, teve um filho dessa mulher, depois separou-se da mulher e anda girando por aí completamente ateu. D. Mayer está tão doente, que está deitado na cama — isso um relato que eu recebi hoje de um ex-membro do Grupo que viu e mandou me contar — não se levanta mais, não toma mais alimentos a não ser líqüidos, não consegue tomar alimentos sólidos, e apenas diz algumas coisas numa voz difícil de perceber. Este Felipe está solto por aí. O Felipe estando numa reunião do D. Mayer e com Fedelli, etc., o Felipe fez esse comentário: que ele me odiava, mas que o D. Mayer manifestou um ódio tão maior contra mim que ele ficou escandalizado. Está aí D. Mayer que pode estar morrendo a esta hora. Como é isso?… Como é que fica esse negócio?
(Cel. Poli: Também quem é que saindo do Grupo e sendo o Sr. quem é não vai deixar de ter sentimentos ruins em relação ao Sr.?)
Ah é, me odeia. São coisas terríveis.
Mas enfim, meus caros, precisamos ver um pouquinho a hora. Que horas são, hem? [2:55]
(Cel. Poli: Mas a noite está muito útil.)
Não sei se não os massacrei.
[Pelo contrário!]
Eu garanti ao Guerreiro que o assunto de que eu trataria não seria nenhum pouco um assunto leve e agradável, isso não foi. Talvez tenha sido um assunto necessário. Para a introdução da Semana Santa é muito bom.
Vamos andando, então, meus caros?
(Cel. Poli: Um assundo que Dª Lucilia tinha muito presente.)
Uhh, enormemente, enormemente.
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