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Conversa de Sábado à Noite — 10/2/90 — Sábado

As cores do Brasil ideal e do Sr. Dr. Plinio * Falta de aproveitamento a nossa natureza em matéria de pulchrum

* Cinzento, a cor que representa a Rússia

Então? Quais são os temas, quais são as coisas?

(Sr. GL: Parece que o Sr. tinha algo que queria tratar?)

Ah, não isso é só de passagem. Tratou-se na RR a questão de ambientes e costumes, etc. Um escritor russo que fazia. Escritor não. Um desses sujeitos de cinema russo que tratava com francês. Falavam de uma filmagem francesa na Rússia, e o francês então disse uma coisa qualquer a ele, perguntou: “Vocês querem preto e branco ou querem colorido?” E ele disse: “Não, eu prefiro preto e branco”.

O francês estranhou. “Por que isso?”. Ele disse: “Não, porque o preto e branco convém melhor para o grau de luminosidade e coisa e tal da Rússia”. Então o francês mais uma vez estranhou e ele disse: “Olhe, vocês ocidentais fazem, pelo jogo de cores e pelo colorido, vocês fazem as coisas aparecerem mais bonitas do que são na realidade. Ao filmarem lixo dão ao lixo aspectos de pedras preciosas. E na Rússia o colorido das coisas é tal que pede um cinzento para tudo. E portanto é assim que nós queremos o branco e preto”.

* As cores do Brasil ideal e do Sr. Dr. Plinio

Isso chamou um pouco de atenção no auditório e começou-se a tratar da questão… Ele disse: a cor da Rússia é o cinzento. Então qual seria a cor do Brasil? Quer dizer, uma cor que representasse o espírito brasileiro.

(Sr. Poli: Atual.)

Não. O espírito brasileiro como nós quereríamos que fosse. (…)

(Sr. GL: O atual o Sr. disse que é cáqui?)

Cáqui, que é uma cor que eu absolutamente não gosto. Mas então no automóvel na volta uma das pessoas que estavam no automóvel retomou o tema. E eu estava dizendo que eu tinha pensado ali um pouco sobre o caso e que eu achava — você talvez estranhe — mas que a cor bonita para representar por exemplo para um escudo de armas do Brasil, qualquer coisa assim, era uma bonita cor de laranja. Não é qualquer cor de qualquer laranja, mas uma bonita cor de laranja. Eu estou tomando por exemplo as laranjas como elas são vendidas na Europa. Eles enceram a laranja, ao pé da letra, e apresentam bonita, lustrosinha. Há cores de laranja muito bonitas.

(Sr. PHC: Próxima do pêssego?)

Ah, pêssego tem cor linda. Mas eu acho que a cor da laranja serve melhor para o Brasil.

Agora, me ocorreu uma coisa agora. Que como combinação de cores para o Brasil talvez a coisa que fosse mais “dizedora”, como expressivamente dizem vocês, seria um certo tipo de manga meio dourada e com uma parte rosada. Há mangas lindíssimas. E talvez ali se encontrasse ainda melhor do que na laranja o colorido ideal para o Brasil ideal, para o Brasil do Reino de Maria.

(Sr. GD: E nos tira dessa escravidão do verde oliva e…)

Oh, uma coisa horrível, uma coisa horrível. São cores que assim falam alto e… Talvez Gonzalo não tenha tido tanto ocasião de ver umas mangas bonitas, das melhores espécimes desses, são douradas — douradas é o modo de dizer, mas é dourada — e róseo, mas que a gente tem vontade — ao menos eu que sou muito sensível a cor, de comer a casca. De tal maneira é bonito.

Em Ribeirão Preto eu me lembro de ter visto mangas assim de “toute bauté”.

(Sr. EM: Tinha, porque até isso se vai acabando.)

Bom, basta ser bonito para ir acabando. Mas no tempo que eu conheci Ribeirão Preto era frequente. Qualquer fazendeiro que quisesse tinha facilidade de plantar isso. E não é para vender, hem! É para ter, para ficar lá para os colonos, para todo mundo.

(Sr. JC: O nome muito pouco poético de coração de boi.)

É, muito pouco poético, uma coisa horrorosa.

(Sr. GL: E a cor da TFP?)

Ah, eu acho que é o nosso vermelho e o nosso dourado, sem tirar nem pôr. É esse vermelho e esse dourado.

(Sr. Poli: O branco o Sr. compôs o arminho no escudo. Também entra?)

Entra como uma espécie de fio, de traço. Mas, por exemplo, na capa não faz falta. Numa bandeira da TFP, por exemplo, não precisaria. Para o escudo de armas da TFP fica muito bonito, e para a cruz do eremita. Aquele fio de ouro separando o branco e o vermelho fica muito bonito.

(Sr. GL: Com qual cor o Sr. se sente mais identificado?)

Acabava sendo o vermelho e o ouro da manga.

(Sr. GL: Para o Sr.?)

Para mim, eu gosto muito. Mas essa é uma conversa…

* O transisférico da combinação de cores da manga

(Sr. Poli: É explicitável o porquê o róseo e dourado da manga exprime o Sr. e o Brasil?)

Eu acho o seguinte: o que tem de mais bonito naquela combinação é que não há propriamente — você viu já isso, não é? — não há propriamente uma lista separando o cor de rosa. Há uma interpenetração. Há um momento, por causa do “degradé”, em que a granulação dourada se mistura com granulação de um vermelho um pouco róseo, e que fica mais carregado na medida em que chega no foco da vermelhidão. E de outro lado também o dourado que tem nessa zona intermediária, se minha memória não me trai, é um pouco mais pálido do que na parte dourada mesmo. É uma combinação muito bem feita, muito harmoniosa de coisas ideais. Como transesférico é de uma beleza extraordinária.

* Nossa natureza em matéria de pulchrum é muito pouco aproveitada

A natureza setentrional é muito mais bonita do que a nossa, mas a nossa tem maravilhas estarrecedoras que a setentrional não tem. E ou nós apelamos para essas maravilhas para construir o nosso firmamento de beleza, ou nós não teremos tirado da natureza o partido criterioso, sapiencial que devemos tirar.

Então você veja por exemplo a orquídea. Eu tenho impressão de que os plantadores de orquídea não visam a orquídea idela, nem tem uma idéia exata da orquídea ideal. A quantidade de modalidades que há de orquídeas e as várias orquídeas “or com ur[?]”, que se poderiam compor litaralmente com enxertos, etc., conduziriam a belezas extraordinárias.

Você tomando parasitas aqui no Brasil. Há uma parasita chamada chuva de ouro. É muito bonita! Mas é muito bonita! Esses burros aqui plantam para dentro de casa avenca, que é uma coisa que qualquer vaca come, está compreendendo? É uma coisa imbecil. Porque não plantam chuva de ouro? Eu já sei qual é a resposta. É porque não dá o ano inteiro, e avenca dá o ano inteiro. Ponha no seu jardinzinho fora umas coisas dessas com aquele tal chim-chim, não sei como é que chama, chachim com a chuva de ouro. Quando chega a época da chuva de ouro você traz para dentro de sua casa e olha, mas tenha um pouco de cuidado, um pouco de senso de trabalho, um pouco de gosto do maravilhoso. “Voilà!”

E você sabe que, por exemplo, para este efeito certas coisas de que eu não gosto eu gostaria. Por exemplo num bairro como Itaquera. Não é um bairro rico, é um bairro “plutôt” pobre, ou quase completamente pobre. Está bom, você pôr em Itaquera umas duas, três, praças públicas com estufas para receber as plantas que não são da época do ano, mas de todo habitante que queira, para ir pegar na época, levar em casa, e poder compor com isso com estufa da prfeitura, compor para si um lugar bonito… Dá para mais. Você põe bem no meio da estufa um pequeno chafariz com curso de água dentro e põe conforme as conveniências botânicas um certo arejamento de um certo modo, porque como é óbvio o arejamento entra por muito dentro disso. E deixa inclusive criancinhas bem pequenininhas brincarem lá dentro, etc., etc. É uma coisa que é, isso sim, um modo de ajudar a família a viver. Estimulando na família do gosto do bonito, etc., etc. Mas a questão é que esses vereadores nem pensam nisso, nem querem isso.

(Sr. GD: Conversando com uma senhora japonesa, ela disse que a flor de cerejeira não dura mais que 24 horas.)

Mas no Brasil então dura mais, porque eu vi uma cerejeira plantada no ENSDP que deu flores de cerejeira bem bonitas por muitos dias.

(Sr. GD: Esta senhora com quem falei disse que no Japão isso dura muito pouco tempo.)

Você vê. Eles se dão por bem pagos por terem um pouco a cerejeira.

(Sr. PHC: Na Europa dura uns 15 dias. Vai desabrochando e quando chega a um auge cai.)

Sim, para ficar a fruta, não? Mas também que fruta que fica, hein? É mais bonita que a flor. De qualquer maneira muito mais interessante do que a flor.

Agora, eu acho que essa exploração do maravilhoso é que deveriam fazer aqui, inclusive importando bichos de outros lugares, plantas de outros lugares. Poder-se-ia fazer coisa muito bonita. Mas eu tenho certeza que cortariam isso pela raiz. Não podia ser. Pronto, engula. (…)

(Sr. GL: Situação da Igreja, Collor, êxodo, situação do Grupo, ….)

Hoje à tarde estive conversando com o Rodrigo, naquela horinha que ele conversa comiga depois das reuniões a respeito desse negócio. (…)

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