Conversa
de Sábado à Noite – 3/2/90 – Sábado
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Conversa de Sábado à Noite — 3/2/90 — Sábado
Quem ama a sabedoria põe-se em nexo com aquele que a tem: “Meu programa na vida é ser como ele, e obedecer ao que ele me mandar, para que todas as minhas ações sejam conformes a sabedoria!” — A sabedoria no Sr. Dr. Plinio é o amor da Ordem do Universo, como por excelência representando a Deus — O amor à dor provém da sabedoria, e alguém que quisesse com inteligência evitar a dor, a abraçaria
* O desastre e demais efeitos da infidelidade
Então, qual é o nosso tema? Quem é que dá o tema?
(Sr. Guerreiro: Nós gostaríamos antes de tudo recordar a data de hoje, que são 15 anos do desastre que o Sr. sofreu, e do qual o Sr. ainda carrega as conseqüências. Queríamos também pedir que o Sr. se compadeça de nossa miséria, pois se tivéssemos sido mais fervorosos, muito possivelmente o Sr. não estaria sofrendo essas conseqüências até hoje.)
Isso, meu filho, seria menos. Mas a questão é que se nossas almas fossem mais sensíveis, estaríamos todos em muito mais progresso, e a TFP estaria toda ela num outro estado. E isto no processo revolucionário geral teria um efeito que é muito mais além do que se pode calcular, enfim, dos efeitos comuns de uma luta em que há duas partes que estão metidas, etc. Esse é que é o ponto para nós verdadeiramente doloroso. A gente tem que tomar em consideração.
* À medida que passa o tempo dir-se-ia que diminui o tormento, mas na realidade dá-se o contrário
(Sr. Guerreiro: Mas tem também o lado todo da privação pela qual o Sr. ainda passa.)
É, e que passo de bom grado, ouviu? Quer dizer, é uma coisa que evidentemente — é até uma coisa que não vale a pena repetir — mas é uma coisa curiosa: com o correr do tempo, certas privações decorrentes desse estado se tornam mais acentuadas. A gente diria que, pelo contrário, a pessoa iria se habituando, e notar menos.
Mas o passar — não sei se calculam o que é isso — grosso modo quinze anos sem andar com o passo inteiramente livre e normal, é uma coisa… É verdade que não há nada mais banal do que o passo livre, normal, é uma coisa comum, todo o mundo tem. Exatamente essas coisas que todo o mundo tem, quando um não tem pesam mais nesse um. São as coisas fundamentais. Por exemplo, respiração. Todo o mundo respira. Mas uma carência na respiração faz sofrer muito. Ver. Todo o mundo vê. Mas a falta de visão é uma coisa pavorosa. E daí para fora, não é?
E, não sei porquê, eu vou ficando mais sensível a essa história de ficar sentado, e leva para cá, leva para lá, que é uma coisa desagradável.
* “Tudo isso eu dou por bem empregado”
(Sr. Gonzalo: E logo o Senhor, sendo o Senhor quem é.)
Agora, tudo isso eu dou por bem empregado, daria por bem empregado se fosse apenas para obter como resultado o que está aqui: que todos continuamos nas vias de Nossa Senhora. Uns mais para frente, outros mais para trás, mas todos nas vias de Nossa Senhora. Já eu daria por bem empregado. Mas, muito mais bem empregado eu daria, é claro, se estivéssemos todos florescendo e prosperando, etc. Isso não tem comparação. Mas não tem comparação!
Mas a esperança — mas é uma espécie de esperança-certeza — de que Nossa Senhora a cada um de nós ainda tomará e porá na boa via, é uma coisa que domina, e que quand même dá muita alegria, muito ânimo, muito alento.
(Sr. Guerreiro: Cabe a nós ademais o pedir que Nossa Senhora abrevie o quanto antes essa situação em que o sr. se encontra, e o sr. possa voltar à inteira normalidade. E que a SDL nos inspire no coração esse desejo de reparação e pedir perdão a Nossa Senhora…)
Amén, meu filho. Eu gosto muito de ouvir isso, e peço que Ela atenda a esse desejo, que Ela vá de encontro a vocês, e que Ela dê tudo, etc. Seria com muita alegria.
E o que mais me dizem?
* Pergunta
(Sr. Guerreiro: Nós conversávamos sobre o tema de ontem à tarde no EANS, quando o sr. comentou que tinha recebido um telefonema do sr. Gonzalo, em que ele dizia que o sr. João havia levantado a questão da Sempre-viva no Retiro. O sr. ficou preocupado, porque depois começariam os pedidos. E o problema da TFP é a obediência. Quer dizer, não há obediência, então o sr. não pode aceitar os pedidos. O sr. passou a comentar a questão da obediência. Que não é uma obediência do faça isso, faça aquilo, mas é uma obediência nascida da admiração de um ponto muito alto da vocação, e por essa consonância de espírito com o Sr., a pessoa é naturalmente propensa a fazer aquilo que é o desejo do sr. que ela faça. O sr. dizia que era da admiração desse ponto muito alto que nascia essa obediência, do ver e do amar isto. O sr. comentava que na Sempre-viva foi dada uma fagulha desse ver e e desse amor. Depois, as sucessivas incorrespondências foram cegando as pessoas para esse ver e esse amor, mas que uma fagulha disso sempre ficava na alma. Levantou-se então a pergunta: se a graça do profetismo que existe em sua plenitude no Sr., se essa graça é susceptível de ser adquirida pelo ver e pelo amar. Ou se além desse ver e desse amor, haveria a necessidade de outra coisa, dada a envergadura dessa graça, não sendo só o ver e o amar suficientes para adquiri-la? Nós estávamos nisso ontem, quando o sr. Poli lembrou que o sr. precisava se preparar para a viagem de volta. Então o sr. disse para levantarmos o problema hoje aqui. Não sei se o sr. compreende como o assunto é muito interessante…)
É fundamental, não é? É um assunto fundamental.
(Sr. Guerreiro: E um fatinho que vem ao abono desse pedido, é que hoje cedo eu passei pela Igreja de Santa Cecília, e fui rezar junto ao Batistério onde o sr. foi batizado. Estava havendo missa, e eu entrei na hora em que era lido um trecho do Antigo Testamento. Era Salomão ainda jovem, e Deus perguntando a ele o que ele queria pedir para si. Salomão então pondera que ele era um rei ainda muito jovem, e que para governar aquele povo numerosíssimo ele precisava de muita sabedoria. E que então pedia o dom da sabedoria a Deus. E Deus ficou muito tocado com o pedido, pois Salomão poderia pedir poder e riquezas, mas pediu a sabedoria. E que então Deus lhe daria o dom da sabedoria, e ademais uma glória e uma riqueza como não tinha havido ainda sobre a terra. Quer dizer, a gente vê aí que certas coisas muito altas é necessário um movimento de Deus para concedê-las aos homens, que de per si não teriam condições de adquirir aquilo. Seria um argumento para a questão… O que o sr. acha disso tudo?)
* Distingüindo dom de inteligência e dom de sabedoria
Eu acho que provavelmente a sabedoria não poderia ser lembrada mais oportunamente a propósito desse assunto do que foi. Porque a sabedoria é uma virtude que se distingue do dom da inteligência. O dom da inteligência é o dom pelo qual nós temos a capacidade de compreender as coisas úteis para a nossa salvação, ainda que muito árduas.
Então, por exemplo, no sublime, misteriosíssimo mistério da Santíssima Trindade, há certas coisas que — o mistério é incompreensível — mas certas coisas que estão nos bordos do mistério, e cuja compreensão já elucida muita coisa. Mas é matéria tão alta, que realmente é preciso um auxílio da Providência muitas vezes para a pessoa compreender isto. Este dom se chama o dom da inteligência.
Agora, o dom da sabedoria não é propriamente o dom da inteligência, mas é o dom pelo qual a pessoa deseja os fins que deve desejar. E deseja os meios que conduz a esses fins.
Quer dizer, foi do que Salomão deu uma manifestação excelente, estando ali naquela oportunidade como rei muito jovem, já ele não se ilude, ele já dá uma mostra de começo de sabedoria: ele em vez de procurar tomar a realeza como elemento da fruição de uma porção de coisas na vida, ele entende que a realeza não foi dada para a fruição, mas foi dada para o exercício reto desses poderes, para o bem do povo que lhe foi confiado. E por causa disso se atormenta, porque isto é uma coisa muito alta, e que precisa ter. Que não está na ordem da inteligência, está numa virtuosa ordenação da inteligência — não é da penetração da inteligência — mas é uma virtuosa ordenação da inteligência, e portanto também da vontade, pela qual a pessoa quer fazer da realeza o fim que ela deve fazer.
(Sr. Guerreiro: Que Deus deseja.)
Que Deus deseja, e que ela por causa disso deve fazer, para a vontade de Deus.
É propriamente o seguinte. É o fim que está na natureza da realeza, e que por causa disso se percebe que é o fim que Deus deseja. E que a pessoa realiza porque Deus deseja. A pessoa reta ama a boa ordem em si, mas ela a ama porque ama a Deus, que é o Criador da boa ordem, e o modelo de toda boa ordem. Bom, não pode amar a Deus quem se sinta contente vendo o reino mal [governando], por exemplo.
Agora, o desejo da boa ordem das coisas é uma espécie de desejo que parte do fundo da natureza movida pela graça, e leva toda a natureza humana a mover-se naquela direção. E evidentemente é a virtude rectriz que conduz à santidade. O homem é santo na medida em que tem essa posição.
* Quem ama a sabedoria põe-se em nexo com aquele que a tem: “Meu programa na vida é ser como ele, e obedecer ao que ele me mandar, para que todas as minhas ações sejam conformes a sabedoria!”
Agora, no nosso caso concreto, a TFP é eminentemente ordenativa. E ordenativa com vistas a querer uma ordem que é a ordem reta, e querer a ordem reta porque Deus se serve da ordem reta para representá-Lo. Amando a ordem reta amamos a Ele, e amamos a perfeição, a santidade d’Ele, e obedecemos a Ele que tem o direito de ser obedecido.
Mas é evidente que para possuir autenticamente a sabedoria, é preciso a pessoa ser de tal maneira que, vendo esta ordem existir em outros, é normalmente levado a querer os outros. E é levado a querer a mesma coisa que os outros querem. E se tem alguém que de modo mais amplo, mais pleno representa, defende a causa dessa boa ordem, ele, que ama a boa ordem, é mais consonante com esse, e tende, em virtude da própria sabedoria, a obedecer a esse.
Mas não obedecer como por exemplo a máquina obedece ao maquinista, mas obedecer por um movimento interno de solidariedade, um movimento interno de consonância, um movimento interno de compreensão e de amor, pelo qual o indivíduo diz: “Meu programa na vida é ser como ele, e obedecer ao que ele me mandar, para que todas as minhas ações sejam conformes a sabedoria!”
Então, essa obediência se caracteriza inteiramente por uma avidez de sabedoria, que nos leva a agir de acordo com aquilo que quer aquele que é mais sábio.
* O desejo da sabedoria leva à união na ação, e à submissão àquele que a possui, como também a ajudá-lo a levar outros atrás de si
Então imaginem, por exemplo, na escalada de uma montanha, três ou quatro pessoas. Mas uma montanha, como tantas vezes são os píncaros de montanhas, muito brumosos. Um é melhor alpinista, sabe melhor como fazer, e tem, por exemplo, a vista, o faro, o ouvido, etc., mais dextros. De maneira que na bruma ele sabe se haver melhor. Agora, um outro que tem esta coisa numa gradação logo inferior ao primeiro, é o que melhor compreende e vê quanto convém seguir o primeiro, para chegarem ao alto da montanha. E por causa disso ele tem uma ação de união com o primeiro que é uma ação modelar. E, portanto, também de submissão. E ele ajuda o primeiro a levar nesta linha os demais.
Bem, o mesmo dir-se-á do terceiro, dir-se-á do quarto, enfim, de cada um no grau correspondente. É uma cadeia de obediências, partida de uma cadeia de consonâncias, partida dessa afinidade entre sabedoria e sabedoria. E é exatamente o que muitas vezes nos falta, porque nós não temos esse desejo de sabedoria. E não temos esse desejo de sabedoria por causa da Revolução. A Revolução é o contrário da sabedoria, o mundo contemporâneo nos chama para uma porção de disparates que são o contrário da sabedoria, nós evidentemente não queremos seguir a sabedoria nas suas vias. E daí a obediência tornar-se para nós coisa muito penosa. A gente compreende.
* A sabedoria confere uma espécie de participação no profetismo
(Sr. João: Isso é muito bonito, porque nos diferencia de todas as ordens religiosas. Não se trata de obedecer por uma regra. Aqui é uma obediência major, que só se verifica na prática quando se coloca nessa postura de sabedoria, e de submissão.)
É a sabedoria acrescida de alguma coisa. A sabedoria confere no caso uma espécie de participação no profetismo. Porque a gente vendo uma pessoa que tem o dom do profetismo igual a “X”, e percebendo que isto não é apenas uma revelação, mas é um conhecer dos desígnios de Deus em larga medida pela sabedoria, que leva a ver como se deve ver, como se deve sentir e agir, etc. — a própria sabedoria ajuda em algo o discernimento dos espíritos —, a pessoa tendo esse grande desejo da sabedoria adquire, na vista de alguém que tem o profetismo e o discernimento dos espíritos, adquire um desejo de os ter, mas sapiencial. Bem, que Deus recompensa fazendo com que de dentro dos olhos do Profeta, aquele que segue seja capaz de ver algumas coisas que o Profeta vê e nenhum outro vê.
(Sr. Gonzalo: Perdão, senhor, eu não peguei: de dentro dos olhos do Profeta…)
Seja capaz de ver algumas coisas que o Profeta vê, mas nenhum outro vê. De maneira que confere um certo dom de participação no profetismo.
De onde o seguir o Profeta não é, vamos dizer, como um homem que está afogando e aparece um daqueles peritos em ajudar os que estão se afogando, e que vai levando para a praia. Mas é uma participação, um colaborar em ser um só, que supõe no fundo uma posição inicial de sabedoria, que rompeu com a insania, a loucura desse mundo.
* A sabedoria é que leva a seguir a quem é sábio
(Sr. Gonzalo: Eu pergunto se não entra algo de um particular carisma da missão do Sr., que um pouco está além da sabedoria, nesse sentido?)
Não, é uma coisa diferente meu filho. O homem que tem um desejo de uma determinada meta, encontrando outro que caminha para essa meta de modo exemplar, tem uma espécie de sede de união com esse outro, para a obtenção dessa meta. Porque vê no outro como que a meta viva: a meta que ele deseja está viva no outro. E, por causa disso, ele segue o outro. Então foi a sabedoria que o levou a seguir quem é sábio.
* A sabedoria no sr. Dr. Plinio é o amor da Ordem do Universo, como por excelência representando a Deus
(Sr. Gonzalo: O sr. poderia dizer como é a sabedoria no Sr., concretamente?)
É a sabedoria de quem está colocado diante da Revolução, e vê o cúmulo da loucura criminosa da Revolução, querendo derrubar tudo, e instalar o reino do demônio na terra; e o cúmulo da virtude da sabedoria, consistindo em compreender em todas as coisas o que o demônio está fazendo, e odiar todas essas coisas! E, de outro lado, de todos os lados compreender como as coisas deveriam ser, como é que a graça está atuando, e amar isso.
Mas então tem qualquer forma de globalidade, que é o amor da Ordem do Universo, como por excelência representando a Deus. Mas, naturalmente, na Ordem do Universo, de um modo mais excelente, o que há de mais excelente na Ordem do Universo: a ordem da Cristandade. Mas, na ordem da Cristandade, a melhor ordem da Igreja. E na ordem da Igreja, a virtude pessoal dos que constituem a Igreja, e sobretudo daqueles que governam a Igreja. Isto é o que faz a virtude da sabedoria ter, no nosso caso, qualquer coisa ligada à sua missão profética de lutar pela sabedoria contra a loucura. E aí é a batalha!
* Por mais que a sabedoria seja pulcra, seja magnífica, abrir a alma para ela é abrir a alma para a dor
(Sr. Gonzalo: Isso teria nexo com o lúmen, com a luminosidade da vocação, da qual o sr. falava na reunião passada?)
Sim, é verdade. É fruto dessa sabedoria. A sabedoria de si é luminosa. E ela pousa naquele que abre a alma para a sabedoria.
Agora, é preciso notar o seguinte: por mais que a sabedoria seja pulcra, seja magnífica, etc., abrir a alma para ela é abrir a alma para a dor. Isso não tem conversa! É abrir a alma para a dor. Nesta vida, em conseqüência do Pecado Original, da Revolução e tudo o mais, é abrir a alma para a dor.
E o efeito próprio da sabedoria é que a pessoa tendo aberto a alma para a dor, quer a dor, ama a dor, admira a dor, e tem uma espécie de nojo e desprezo para com a vida sem dor. Esse é o ponto. Nas condições atuais é isso. Se oferecessem a uma pessoa com sabedoria uma vida sem dor, a pessoa não quereria. E isto porque a vida sem dor não faz sentido, dadas as condições militantes da Igreja, não faz sentido.
Seria como, por exemplo, a um cavaleiro da Idade Média oferecer o seguinte: você vai ser um cavaleiro, vai ser um homem provecto, notável, etc., mas eu imponho como condição o seguinte: não ficar sujeito a nenhum dos inconvenientes muito onerosos da participação na guerra. Não vai correr risco, não vai conduzir uma armadura pesada, não vai ter que realizar esforços terríveis na batalha para matar e não ser morto, não vai ter que atravessar desertos…
(Sr. João: Deixou de ser cavaleiro.)
Bom, o sujeito que dissesse: “Eu aceito com avidez isto assim”, não é cavaleiro. É um gozador da vida, é um nhonhô, é um patusco!
* A nossa grande incompatibilidade com o sr. Dr. Plinio está em não aceitar a dor
E para nós, nós não queremos aceitar isso assim. Para nós a coisa se põe de outra maneira: “Se se puder levar a vida sem dor, é melhor, desde que não se peque”. Porque para nós, na melhor das hipóteses, a vida é dividida em dois sulcos: a vida com o pecado, a vida sem pecado. Desde que a pessoa aceite a vida sem pecado, é com a menor dor possível! Porque a dor é a grande rejeitada. Bem, a pessoa que chegou a fazer esse raciocínio, ela errou tudo!
Bem, e a incompatibilidade no caso concreto nosso com quem nos guia, é a incompatibilidade porque nós o vemos aceitar a dor, e achamos que é muito bom que ele sofra — até ainda vai —, mas nós sofrermos… A questão é outra! Aí: “Não, e não e não, cuidado, não venha por aí, porque nisso eu não cedo!”
Quer dizer, nós somos amigos da Cruz enquanto pesando a Cruz no ombro dos outros! Mas sermos amigos da Cruz enquanto pesando nos nossos ombros, não! Não venha com essa!
E isso é real, não se pode negar. É de tal maneira real, que para nós é o movimento primeiro o afastar toda dor. (…)
(Sr. João: E ele estava em estado de graça, de inocência desde a infância dele.)
É, exatamente. O assunto de São Bartolomeu, que de vez em quando vem ao espírito, vem exatamente por causa disso. Ele o que é que é, São Bartolomeu? É o moço bom do Evangelho que resolveu dizer “sim”. Mas que no aceitar a Cruz — já não é no cumprir os Mandamentos, mas é no aceitar a Cruz, que pelas vicissitudes da vida pede de nós isso, aquilo e aquilo outro — no aceitar a Cruz teve menos generosidade do que no cumprir os Mandamentos. De maneira que durante todo o desatino dos Apóstolos, São Bartolomeu estava como os outros!
* O amor à dor provém da sabedoria, e alguém que quisesse com inteligência evitar a dor, a abraçaria
Agora, o Grand-Retour tem que ser este…
(Sr. Gonzalo: Seria voltar a dor e a sabedoria…)
Não. O amor à dor provém da sabedoria. A sabedoria mostra ao homem que o amor à dor é conditio sine qua non para ele realizar as suas altas metas. Para ele, portanto, corrigir os seus defeitos, para ele etc., é preciso ter o amor à dor. Agora, esse amor à dor ele precisa pedir.
(Sr. Gonzalo: São dores diferentes para cada um…)
É, mas sempre pega o homem no ponto sensível!
Alguém considerando lá a entrada de Jasna Gora, teria feito o seguinte comentário: “Essa cruz colocada aqui no alto não é nada ornamental. Ela é feia, seca, não convida, e portanto não obedece às regras da boa jardinagem, do bom arranjamento de um jardim”. Eu disse: “Esse indivíduo não compreendeu que um êremo não é um jardim de Lenotre para Luiz XIV passear. É uma coisa completamente diferente. É uma coisa que convida realmente o homem ao seco, ao frio, ao terrível…”
Eu me lembro bem que na Sede do Reino de Maria, eu quis uma cruz assim na Pará, no meio da nhonhazada. Tinha uma espécie de bosquezinho muito aprazível ali. Ali, dentro do bosquezinho, essa cruz. Depois, sem a figura de Nosso Senhor! É a mera cruz.
Depois, tem outra coisa — é das tais coisas: se o indivíduo quisesse com inteligência evitar a dor, ele a abraçaria. Esse é o fato. Quer dizer, quando o homem quer evitar a dor, produzem-se dentro desordens e coisas, etc., que o enchem de dor desde o alto da cabeça até a planta dos pés. Cristina Onassis é um exemplo entre milhões de outros. O que eu tive ocasião de dizer em Amparo ontem, ou foi hoje na Reunião de Recortes, que segundo uma estatística que eu li, na Alemanha Ocidental em cada 40 minutos se suicida uma pessoa.
(Sr. João: Foi para o tipo da TV espanhola…)
Ah, foi o tipo da TV espanhola. Mas ele não gosta de ouvir isso, hem?! [Vira a fita]
* A fuga da dor conduz a degenerescências e infelicidade
…tendo amado a cruz, uma paciência, uma compostura, uma unção na alma que vale mais do que qualquer felicidade. Uma ordem e uma limpeza que valem mais do que qualquer felicidade!
(Sr. João: Luz, refrigério e paz.)
Luz, refrigério e paz. Eu estava contando para os enjolras — aliás, até foi um fato muito esquisito: vocês sabem que eu passo pela Avenida Tiradentes, por causa da Igreja da Luz e do retorno para casa. Por causa também do fato de que muitas vezes é caminho para o São Bento, e caminho para o Praesto Sum, etc. Então, com uma certa freqüência eu passo por lá. E notava sempre do lado direito de quem vai, uma casa leprosa. É uma casa assim: no centro a porta, e de cada lado uma janela. Mas sempre fechada, e com ar de que ela, por imponderáveis, por dentro era habitada. Mas que era habitada por gente que se entregava por preguiça à sujeira mais transcendental! Aquilo sempre fechado, porque a própria luz do dia os incomodava lá dentro, dentro da imoralidade, da sujeira e de tudo dentro do que eles viviam.
Bem, que eles viviam naturalmente de pedaços de comida que davam, essas coisas do gênero, e que com isso eles viviam dentro do horror, do nojo e do vício uma vida de infelicidade medonha, por terem querido fugir de todas as pequenas dores! Não é de todas as pequenas dores: é de uma vida que habitualmente lava, que habitualmente limpa, que habitualmente ordena, que, portanto, habitualmente é fazer coisas desagradáveis. Essa vida se tornava agradável. Enquanto a vida que habitualmente é fazer coisas agradáveis se torna desagradável. A coisa é assim.
E um dia passando por lá, eu vi que uma janela daquelas abriu, e passou as pernas para o lado de fora da janela um cafuzo, com uma roupa que tanto poderia ser — ainda mais com essas roupas leprosas hoje em dia — tanto poderia ser um pijama no último grau da deterioração, como poderia ser uma roupa de usar na rua, nem sei o quê. Todo ele sujo, era assim 5 horas, 6 da tarde, a gente vê que ele tinha se embriagado, tinha bebido, etc. E com os pés creio que de fora, se a minha memória não me trai, ele batia assim com o pés, e via aquele movimento dos automóveis que passavam, as pessoas que passavam, e de algum modo a rua lhe pareceia aprazível.
E ele inveja a felicidade daquela gente que, a seu modo, quando comparada com ele, vive com sofrimento. Toma um ônibus cheio de gente, em comparação com aquele pai da vida, aquela gente está sofrendo. Mas o pai da vida sair do seu chiqueiro e olhar para um ônibus iluminado, e cheio de gente, e que vai para um lugar, e que tem um rumo, que vai fazer alguma coisa, para ele aquela gente é gente feliz. Ele tem razão! Ele tem razão. Aquela gente que está lá só não vive como ele, porque escolheu de ser micro-Onassis, e viver depois “onassismente”.
Mas limpos ou sujos, ricos ou pobres, os homens de hoje tendem para escapar da dor e levar uma determinada vida, de um determinado jeito.
* A ilusão “Onassis” dá-se com todas as classes sociais
(Sr. João: Está muito bem analisado, porque a gente tem a ilusão de imaginar que Onassis só quer ser aquele que tem muito dinheiro. Mas para essa gente que anda no ônibus, em escala menor o problema é o mesmo.)
É o mesmo. E eu acho muito curioso que há uma rua, não sei como se chama essa rua, que serve de caminho para o Praesto Sum, não para o São Bento. É uma rua muito estreita, e tem uma série de casinhas de um lado e de outro, inclusive uma ou duas casinhas de comércio, etc., de um gênero de gente que basta dizer isso para entender a pequena mediania dessas casinhas: várias dessas têm essas lanças com essa ponta dourada, que chegam quase em cima, dão a cobertura que podem dar.
Mas a gente olha, o chãozinho… porque em geral a casa chega até quase a rua, jardim não tem, então aquele espaço vago já é meio terraço, e eles ali têm um móvel para sentar, para tomar ar fresco, etc., e o chão é de cerâmica. Mas já a cerâmica é muito limpinha em algumas casas. Depois, na parede tem umas avencas, algumas coisas que eles põem porque sai barato, e enfeita um pouquinho. Aquela ponta da lança está limpinha, e a gente vê que toda a casinha é arranjadinha. E que eles ali dentro levam uma vidinha, que aquele que eu vi sair de dentro daquela casa gostaria de segurar-se naquela grade e ficar olhando como quem olharia para um palácio. E é porque eles sentem que gente assim inveja a felicidade deles, que eles põem aquelas lanças.
Eu acharia um dia que… assim, por exemplo, à noite — porque de dia não era factível, nós seríamos apedrejados — mas à noite pegarmos um automóvel e comentar de longe essas casinhas, com os graus de felicidadezinha, depois de termos passado por esse tugúrio de que eu falei, que do lado de fora já dá toda a impressão que deve dar. Seria um… não se diria que em São Paulo pode caber um passeio interessante, mas de fato esse seria um passeio interessante.
(Sr. João: Com o Senhor até nos tugúrios…)
Não, é interessante. Bem, e depois outra coisa: é evidente que eu, debaixo de certo ponto de vista, estou falando com certa dileção a respeito deles, um comprazimento, etc., é uma coisa evidente.
Agora, se estes têm uma casinha assim só para fugir do sofrimento, aquilo não vale nada. E eles podem de algum modo esperar fugir do sofrimento, porque existe um modo de praticar a virtude pelo qual a virtude se torna uma segunda natureza. E a pessoa acaba não sofrendo com ela. Por exemplo, uma dona de casa que mantém a sua casa muito limpa, mas que a quem se dá um pouquinho de tempo livre, etc., uma dona de casa assim pode ser egoísta como uma fera! Porque aquilo já não é sofrimento para ela.
Agora, essa, na mente dela tem um outro apartamento, uma outra coisa, existe um outro em que ela gostaria de estar, que ali ofereceriam para ela uma fruição a mais que ela não tem, e ela imaginaria que ela teria o dinheiro para pagar uma criada. E então ali ela fugiria daquela dorzinha que a gente pensa que ela não tem. É alguma segunda natureza, etc., mas ela podendo foge. Mas apesar de tudo ela não é uma mulher de dores. E o marido ela trabalha para não ser um marido de dores também. Esses são os tais ambientes que conseguem, na aparência, afugentar a dor. Esses ambientes não têm sabedoria! Esses ambientes ruem. E a ruína ronda em torno deles, mas é pior: estoura dentro deles!
(Sr. Paulo Henrique: São os casais de hoje…)
Bem, daí sai divórcio, sai o que queiram. Pode sair também um hábito meio nauseado e indiferente um com outro, achando que com um terceiro vai ser pior. Também pode ser. Mas tudo isso não tira o ponto fundamental: é que independente das condições econômicas, as almas desejariam outras coisas retamente, que não lhe são dadas. E com essa carência elas têm que se conformar.
(Sr. Guerreiro: Não são dadas por um desígnio especial de Deus, ou pela força das circunstâncias do depois do Pecado Original?)
Circunstâncias do homem depois do Pecado Original, mas o Pecado Original produz esses efeitos porque Deus quer. E às vezes nas almas que Deus ama mais, Ele faz intervir uma coisa dessas, um sofrimento desses. (…)
* Ou nós instalamos a dor na nossa vocação, ou nós esper- neamos com a nossa vocação de todo modo possível, porque nós não sabemos viver nem sem ela, nem com ela
[Essa forma de grandeza] desapareceu do mundo completamente. Mas, ou nós instalamos isso na nossa vocação, ou nós esperneamos com a nossa vocação de todo modo possível, porque nós não sabemos viver nem sem ela, nem com ela!
Quer dizer, o que é preciso é abrir os braços abertos, largos, para a cruz! E compreender que ela comunica uma doçura, comunica uma afabilidade, comunica uma ordem que é incomparável, apesar de que ela é cruz, e de que ela machuca os ombros.
(Sr. Gonzalo: O exemplo que o sr. indicava é inimaginável.)
É inimaginável.
(Sr. Gonzalo: Os sofrimentos dela, SDL, o sr. fala muito pouco deles…)
Não posso falar.
(Sr. Gonzalo: Disso o sr. tem tratado pouco conosco, mas também não pedimos…)
É, mas isso supõe uma série de outras coisas que não é… Eu compreendo o pedido, mas não…
(Dr. Edwaldo: O sr. sempre teve presente esse aspecto da dor. Eu me lembro que ao se mudar para a Sede do Reino Maria atual, o sr. disse que era uma sede que ainda não tinha as bênçãos da Rua Pará, porque nela ainda não se tinha sofrido. As pessoas entram na sede e sentem muita bênção, hoje, mas não pensam que é porque o sr. ali já sofreu muito.)
Ah, não, não, não. É por causa do estilo, da boiserie, do grau de luz que entra, não entra, do vitral… sei lá! Eles têm explicações! Mas de uma coisa tenha certeza: se eu deixasse a direção da TFP, dentro de menos de um ano estavam postos ali dentro objetos de prazer. De um jeito ou de outro, aparelho de som… rádio para pegar as notícias mais urgentes! E punham rádio e televisão naquela portaria que era o locus de D. Mayer, para ficar em pé e comentando as notícias lá, e comentando no tom do rádio e da televisão, com aqueles argumentos, aquilo tudo lá, macaqueando a Reunião de Recortes!
* Um fato misterioso
(Sr. Gonzalo: Senhor, está um pouquinho tarde…)
Uhhhh! Eu não pensei… que horas são? 3:10. Bom, eu acabo contando o seguinte.
Eu contei esse caso desse homem lá da Avenida Tiradentes, creio que foi nos enjolras do Praesto Sum. Suponhamos que seja. O fato é que no meio de enjolrada casos desses despertam muita curiosidade de qual é a casa, porque também passam por lá e querem saber qual é a casa. Isso é compreensível. Bem, e eu não tinha o número, porque não olhei o número, e nem pensei que eu iria falar para eles sobre isso. Quando cheguei lá, a coisa saiu.
Então, outro dia, quando passei em frente da casa, eu procurei tomar nota do número… Não tomei, mandei o Fernando, alguém que estava comigo, tomar nota do número, etc. Mas me chamou atenção o seguinte: é que as janelas da casa estavam substituídas por muro. Acabou-se. Mais nada.
(Sr. Gonzalo: Mas no dia segunte?)
Não, eu passei alguns dias depois.
(Sr. Gonzalo: De repente alguém foi para lá e falou alguma coisa.)
O que é que foi… Não, mas eu acho que eles não podiam fazer, e não teriam a temeridade de ir falar lá, porque devem saber que é um antro aquilo, um antro com drogas, com tudo. A gente não sabe essas coisas como são. Aquilo ficou murado. Parece que para dar a entender que a partir daquela data qualquer pessoa tinha deixado de morar lá, ninguém mais morava. Eu não acredito! Eu acho que está habitado mais do que nunca!
(Sr. Gonzalo: O sr. atribuía a que isso?)
Eu constato o fato, e constato que às vezes há coincidências assim nos fatos.
(Sr. Guerreiro: O acaso não existe.)
É, evidentemente. Daí o fato de eu ficar… Porque se existisse o acaso, eu diria que é o acaso. Daí eu achar o curioso da coisa e ficar intrigado. Porque eu não posso explicar a não ser como uma coisa do demônio, que quer ter aquele antro intacto, e que viu isto e teve medo que algum — isso podia acontecer, o João sabe — algum desses enjolras sabendo como é o negócio, tendo alguma coisa que falar na Polícia do distrito, de repente puxasse a prosa sobre isso… Isso você sabe que é perfeitamente capaz.
(Sr. Gonzalo: Fotos.)
Também fotos, etc. Mas todos eles, tendo à mão uma máquina de fotografia… uma coisa é certa: por coincidência, passando na frente com a máquina de fotografia, parava e fotografava. E o demônio não quer isso, porque não se pode mexer lá.
Daí vêm perguntas, como por exemplo: dessa [casa] não partirá um acesso para um subterrâneo? Esse subterrâneo onde é que dará? Eu vi que depois que eu falei de subterrâneos vocês todos ficaram desconfiados. Bem, e agora nasceu muito o desejo de ver a casa! Porque pela situação geológica do terreno pode-se imaginar se o subterrâneo é mais provável ou menos provável… Eu digo: fica perto daqueles linhas de metrô. Será que não escavaram alguma coisa ali, e será que esse mundo subterrâneo dos metrôs até que ponto existe ou não existe, em todas as cidades? A gente não sabe.
Bom, isso nos levaria ao mundo dos subterrâneos, que nos levaria a ficar conversando até amanhã cedo! Vamos andando, meus caros!
Há momentos, minha Mãe…
[Cumprimentos e pedidos de perdão pelo desastre.]
Nossa Senhora nos perdoe a todos nós!
[Reza-se o Confiteor.]
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