p. 4 de 4

Conversa de Sábado à Noite — 16/12/89 — Sábado

Nome anterior do arquivo: 891216--Conversa_Sabado_Noite__b.doc

O Vos Omnes”, símbolo do espírito do Sr. Dr. Plinio

* “O Vos Omnes”: “o conjunto ideal do estado de espírito que eu acho conveniente para mim”

hoje, e na última Reunião de Recortes que nós fizemos, foi tocado no começo o O Vos Omnes. E eu, durante muito tempo mandava tocar esse O Vos Omnes no começo da Reunião de Recortes. Eu não sei se se lembram…

(Sr. Guerreiro: Na Rua Pará ainda.)

Na Rua Pará ainda! E por quê? Porque para mim aquela música define, contém um espírito com o qual eu me sinto, tanto quanto possível, identificado. E que é um espírito de muita elevação, que poderia ser comparado a uma ogiva assentada sobre duas colunas muito altas. E as considerações, e o horizonte diante do qual se toca aquela música, e a própria partitura, são de uma muito grande elevação. E tem uma tranquilidade, um recolhimento, uma lógica, uma segurança, mas também uma bondade e uma tristeza extraordinárias. Que formam o conjunto ideal do estado de espírito que eu acho conveniente para mim, quando eu tenho que, por exemplo, fazer um trabalho importante, ou que eu tenho que tomar uma decisão importante. O ambiente interior ideal para mim é aquele. É o estado de alma em que eu me sinto mais próximo do que deveria ser a minha santidade, e mais próximo do que deve ser o meu caminho, meu progresso espiritual.

* A rejeição do Grupo ao “O Vos Omnes”

E exatamente esse espírito, daquela música, é o que não consola a ninguém. E todas as pessoas tocam um pouco naquilo, consentem em ouvir, mas as adormece.

Aquela música, eu verifiquei que é adormecente para os espíritos tocados de algum modo pela Revolução. De maneira que em vez de eles começarem a reunião preparados pela música, eles começam a reunião recusando a música.

E, em conseqüência, meio adormecidos e meio abatidos, enquanto eles gostariam que a Reunião lhes anunciasse a Bagarre e o Reino de Maria, que eles vêem na perspectiva de uma libertação da Bagarre Azul para uma ordem de coisas em que eles é que dão as cartas, como os Apóstolos sonhavam com o Reino de Cristo, mas em que eles seriam os Grão-Senhores.

Bem, pelo contrário, aquela música leva a considerar todas as nossas humilhações atuais, a considerar todas as dificuldades que vamos encontrar no futuro, mas reconhecendo a sublimidade de tudo isso, e a nossa deliberação de enfrentar isso.

Bem, mas hoje ainda eu notei um tal sono, um tal alívio quando acabou a música, que eu deliberei não tocar mais a música lá! Mas eu deliberei.

(Sr. Gonzalo: Não tocar mais a música durante a Reunião de Recortes?)

É! Eu durante muito tempo interrompi, uns dez anos talvez, fingindo que tinha esquecido. Também ninguém reclamou, hem? Ninguém pediu que se tocasse aquela ou outra música antes da Reunião. Ninguém!

Quando eu mandei tocar, não houve a mínima relutância, mas houve o mesmo fenômeno: um tédio e uma espécie de alívio quando eu comecei a falar. Porque eu comecei a tratar de outros assuntos, e…

(Sr. Gonzalo: Quando o Sr. começa a falar é outra questão, isso não é um erro…)

Enlevo? Enlevo… É porque aquilo é muito mais alto do que o enlevo que eu possa ocasionar!

Mas o fato é que a recusa de se colocar nesse estado de espírito, e de fazer o habitat de sua alma naquilo, é exatamente o por onde me recusam.

O Amadeu me contou uma coisa que eu via, não precisava que ele me contasse, mas, enfim, é para dizer que existe… (…)

* “O Vos Omnes”, “aquele espírito é o meu”

(Sr. Guerreiro: O Sr. poderia repetir um pouco isso?)

Para me ter em vista, é preciso como que reconciliar-se com o espírito daquela canção O Vos Omnes. Porque é preciso a pessoa reabituar-se àquilo, querer aquilo, amar aquilo, etc., para compreender… para amarmos a mesma coisa. Porque é muito difícil que a pessoa convivendo comigo, não perceba que aquele espírito é o meu.

Eu, graças a Nossa Senhora, não sou uma pessoa triste, sou uma pessoa até dada a alegre, jovial. Mas o fundo de minha alma é aquele. Eu só não sou triste porque resolvi carregar aquilo por inteiro, e transformei num hábito. Do contrário, eu seria triste.

Essa é a nossa via. E um dos aspectos altamente louváveis da formação que o João deu a esses enjolras, é que eles são alegres não é dessa alegria, é uma outra alegria. Essa da Bagarre Azul não está na cabeça deles. Mesmo quando se trata de meninos cuja família de algum modo figurou na Bagarre Azul, não é o que está na cabeça deles. Já estará o O Vos Omnes? Pelo menos não há nada que impeça.

Agora, isso foi uma coisa que contagiou os grupos a mais não poder. Por exemplo, aqueles exercícios… (…)

tinha uma preservação nisso. Mas o grosso do Grupo estava levado nessa coisa completamente. (…)

* O Vos Omnes e Grand Retour

Eu acho que o Grand-Retour opera essa volta. Mas que o Grand-Retour pode perfeitamente ser preludiado por movimentos anteriores, que preparem a alma para esta rotação.

(Sr. Gonzalo: Movimentos de que, senhor?)

Graças especiais, etc., E considero essa conversa aqui uma graça. Porque a impressão que eu tenho é que eu lancei essa história do O Vos Omnes, que normalmente eu não lançaria, porque eu teria medo de desconcertar e de desanimar as pessoas diante disso. Porque é pavorosamente verdadeiro…

(Sr. Gonzalo: E é muito triste ter que suspender.)

Muito, muito triste. Eu já pensei em fazer o seguinte: modificar a coisa, de maneira que de vez em quando toque de acordo com a época do ano: então, música de Natal, música do Advento, música de Páscoa, da Quaresma. Modificar assim. Mas cantar alguma coisa, não sei se concordam comigo, que tem um certo sentido. Aquela é uma reunião cujo tema merece ser precedido por um cântico.

(Sr. Paulo Henrique: Mas é o cântico que representa o espírito do Sr., como o Sr. acaba de dizer. Esse deve ser o cântico que deve preceder a Reunião de Recortes. O Sr. dizendo isso, acho que é uma ocasião de tomarmos a sério isso, e fazer apostolado para que não seja supresso da Reunião.)

Meu filho, faça uma coisa melhor: reze para que se constitua na Reunião condições para isso ser reintroduzido. Que se constitua na sua alma, que se constitua nas almas dos outros. E que não sobrevenha tão logo a distração. É melhor do que tudo. E reze até como um passo para o Grand-Retour. Porque no dia em que aquilo nos tocar de fato, nesse dia a gente compreendeu muita coisa.

* “O Vos Omnes”, o oposto da “Bagarre Azul”

Compreende que para uma pessoa que, como você diz, está ainda molhada pela Bagarre Azul, o que representa a posição em que se põe uma pessoa… E ali aquelas palavras podem ser aplicadas para Nosso Senhor ou Nossa Senhora, mas pelo que eu tenho visto concretamente se aplicam sobretudo a Nossa Senhora. Eu me lembro até que quando eu era pequeno, os padres do Colégio São Luiz davam prêmios, eram santinhos impressos — em geral eram impressos na Europa porque ainda não havia tipografias boas aqui — eram santinhos impressos com umas palavras ou outras. E um desses foi tocar a mim, era Nossa Senhora das Dores (era prêmio de aula), embaixo com o “O Vos Omnes”, etc., Nossa Senhora das Dores.

Mas, então: “O Vós todos que passais pelo caminho, parai e vede… — não se eu tenho o melhor automóvel de São Paulo; não se eu, no inverno, vou passar o inverno nos melhores hotéis do Rio, ou se vou para a Europa; não se eu isso, não se eu aquilo — mas parai e vede se há dor semelhante à minha dor”.

É tão diferente da Bagarre Azul! Mas, por outro lado, para quem toma a nossa vocação a sério, é uma tal dor a nossa vocação, que se nós tomamos as coisas a sério, nós poderíamos dizer a qualquer uma pessoa: “Pare e veja se há uma dor igual a minha”. Se a tomarmos a sério, é. Porque não há pessoas que em relação às quais tudo corra tão contra, como contra nós; que enfrentem tais obstáculos, tais incompreensões, tais batalhas, tais dificuldades, tais lutas do que nós, não há — desde que nós tomamos a sério a batalha na qual estamos.

Se fazemos disso uma partida de tênis com aquela coisinha, etc., aí tudo mudou. Mas se nós tomarmos a sério, é isso.

E depois, é incompreensível que nós não tomemos a sério, uma vez que nós tomamos o papel da pedra posta no rio, e levantando todas as águas que passam. Como é possível não percerber qual é a situação em que nós ficamos?

* “O Vós todos que passais pelo caminho, parai e vede se há confiança semelhante a minha!”

(Sr. Paulo Henrique: O Sr. disse há pouco que procura ser uma pessoa alegre, jovial. Quando o Sr. se faz fotografar, desde as primeiras fotografias, nota-se que o Sr. sempre toma um ar grave, profundamente refletido, demonstrando o estado de espírito do O Vos Omnes.)

Sou eu! Isto sou eu!

(Sr. Paulo Henrique: Essa dor o Sr. sente, e transmite para nós. Aquilo de fato é uma transição nossa que vivemos aqui, para entrarmos nessa consonância com a tristeza do Sr.)

É inteiramente isso, tintim por tintim.

Agora, nisso é preciso ter muita confiança. Já foi uma graça que nos fossse dito isso.

Agora vamos dar mais um passo, e imaginar o seguinte: que todo membro do Grupo, considerando a sua própria situação, pudesse dizer: “Pare e veja se há uma dor igual a minha”. O que seria o Grupo? Mas nós não teríamos a coragem de dizer isso. Não teríamos essa coragem. Porque o sujeito olhava para nós e dava uma risada. Dava risada: “Eu estou vendo que não é! Você não venha com essa história!”

Mas para ser meu filho, é preciso isso. Bom, mas é uma graça que eu tenha sentido que há terreno para dizer isso hoje à noite para cada um dos que estão aqui. Porque eu tenho muita esperança em Nossa Senhora a propósito de cada um que está aqui, como se tivesse iniciado a resvalada por esse caminho há cinco minutos, e que eu ainda pudesse segurar pela mão. É a mesma confiança que eu tenho em Nossa Senhora, a propósito de cada um que está aqui.

De maneira que talvez eu pudesse dizer: “O Vós todos que passais pelo caminho, parai e vede se há confiança semelhante a minha!” E é impossível que vocês não sintam, no meu modo de tratar a cada um, quanto eu confio a propósito de cada um. Bom, então caminhemos sem desespero, caminhemos com alegria, na alegria de nossa alma, mas essa alegria que não é incompatível com a tristeza.

Agora, meus caros, eu tenho que ir… porque o Amadeu está doente, e me pediu se eu pudesse deitar um pouco mais cedo, porque ele está muito indisposto. (…)

-

* _ * _ * _ * _ *

*_*_*_*_*