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Conversa de Sábado à Noite — 7/10/89 — Sábado

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O mistério da prova

* A verdadeira história é a história do que Deus quis fazer para os homens

uns sabiam lá no eremo que ele ia voltar para o eremo, que é como ele gosta de fazer. Ele não gosta de contar para todo mundo. Eu falei com ele e o timbre de voz, e tudo, pareciam muito bons, muito bons. A impressão que eu tive é de saúde muito boa, tudo muito bem.

(PH: Quantas saudades ele deve estar sentindo.)

Você sabe, meu filho, que para a gente sentir… (…)

Eu estou dizendo… para o que eu digo, não tenho nenhum fundamento teológico; eu precisaria estudar, é uma coisa jogada no ar como pré hipótese que antecederia a um estudo, e naturalmente feita com a facilidade de imolar esta hipótese caso não condiga com a doutrina da Igreja. Mas eu teria a impressão de que quando num lugar se passa uma cena de muito grande acontecer histórico, que nos planos de Deus teve muita importância. Não digo nos planos dos homens, mas nos planos de Deus teve muita importância. A verdadeira história dos homens é a história do que Deus quis fazer para os homens, o resto é conversa fiada. E nesse lugar ficam habitando umas graças e ficam atuando uns anjos em que a pessoa entrando, como que sente um pouco do que houve lá.

* Graças que habitam certos lugares e que com o pecado recolhem-se aos esplendores do Padre Eterno

Quer dizer, isso se imagina que seja na Terra Santa, onde por exemplo no Monte Carmelo onde Elias rezou; a gente sente alguma coisa que ficou lá. Mais do que qualquer lugar, para mim, Horto das Oliveiras e o Gólgota. Alguma coisa ficou lá. Mas também a gruta de Belém e não sei quantas outras coisas.

Isso se daria também com lugares de grandes aconteceres do plano de Deus. Quando os homens pecam muito num lugar eles eliminam a presença dessas graças e dessas recordações, e isso tudo é recolhido nos esplendores do Padre Eterno para ser de algum modo reapresentado no dia do juízo. Quando se julgarem os homens isto aparece, isto se viverá, isto se verá, etc. — de um lado.

Mas de outro lado também no céu empíreo, e mesmo na contemplação de Deus na sua eternidade, alguma coisa olhando a Deus a gente diz: aqui eu vejo enquanto tendo tendo intencionado tal episódio histórico, e tendo tal e tal resultado.

De momento o que eu tenho a impressão é que a Europa que nós andamos, amamos, se recolheu aos esplendores do Padre Eterno, e que voltou ao Criador. E aquelas graças, aquilo tudo está gruardado para os justos verem e apreciarem no dia do Juízo, e também para os que perseveraram naquilo sejam premiados, e os que pecaram contra aquilo sejam castigados. Fica como elemento do juízo, quase que documentário para o dia do juízo.

Não lhe parece que isso faria sentido? E a gente tem impressão que a Europa que nós amamos nós não encontramos lá. Ela está recolhida nos esplendores do Padre Eterno. A gente pode imaginá-la, mas compreender que aquilo tudo não é mais. Aí é que a gente entende alguma coisa. É terrível!

No Reino de Maria eu tenho a impressão de que alguma coisa se daria assim: que será como se tudo isso não tivesse cessado de viver, mas aparece com tanto acréscimo que a gente diria que houve mil anos de progresso ininterrupto daquilo que se recolheu para florescer no RM. (…)

* A prova axiológica de São José

Como não duvidar? Entretanto não podia duvidar. Você não teria receio pelo seu equilíbrio mental numa situação dessa? É muito significativo que no sonho tenha aparecido a ele um anjo. Quer dizer, ele dormia quando uma coisa dessa. É para não dormir! E depois outra coisa: ele não podia perguntar a ela. Seria ímpio se ele perguntasse a ela. Senhora, o que que houve? Como perguntar a Ela. O sofrimento d’Ela vendo o problema. Ela podia pedir para Deus licença para falar a ele, e Deus não fez isso. Não consta que eles tenham falado sobre isso. Deus fez aparecer um anjo.

* Deve-se crer na voz interior

Agora, eu levo a coisa até a ponta. Depois dele acordar, como é que ele podia ter certeza de que era um anjo e não era um sonho? Uma voz interior. É preciso acreditar na voz interior. Deus fala… Aliás o livro da confiança começa assim: “Vóz de Deus, voz interior da graça, vós pronunciais aos nossos corações palavras de doçura e de paz”. É a graça. É preciso dizer sim a isso.

E é isto que fazia com que aquele pessoal… (…)

* O agir de Deus não é como o funcionamento de uma empresa moderna

Devemos pedir a Nossa Senhora que nos dê sempre essa graça. Porque, como é que por exemplo aqueles homens dos discípulos de Emaús — é um fato tão encantador, não é? — os discípulos de Emaús “in fractione panis cognoverunt eum” — só o conheceram na hora em que Ele partiu o pão, mas assim mesmo eles estavam embevecidíssimos, mas não tinham reconhecido Nosso Senhor. No partir o pão reconheceram a Ele. Depois que Ele sumiu, eles não teriam sido levados a tentações axiológicas desa natureza?

Agora, a questão é essa. É que a pessoa de um lado está nas coisas de Deus, que Deus não age à maneira de uma empresa moderna, em que tudo tem que dar certo, que se arranja. Empresa norte americana. Senão Deus não teria permitido que a serpente entrasse no paraíso.

Eu me lembro quando eu vi pela primeira vez a narração da serpente no paraíso, eu tive que me conter para não formular comigo está idéia: “Mas Deus como é que faz isto? Põe tudo isso, uma beleza, depois põe esse lixo dessa serpente aí dentro? Não era melhor não pôr?” Depois a voz do egoísmo: “Para ficar eu reduzido à condição em que eu estou? Porque Deus quis pôr uma serpente lá dentro? Ele fez tudo tão bem! Estraga!” Entra um pouco disso na queixa de um certo filho meu. Depois, no fundo, o dodói nacional.

* “A flor da criação está na prova”

Agora, na realidade, a gente procurando ver a coisa bem, Ele quer que a criatura que Ele criou, que a criatura retribua a Ele o bem que Ele fez criando, e para isso Ele permite a prova. Ele não foi mais longe? Ele não revelou a encarnação do Verbo aos anjos, Ele, para provar os anjos? Coisa muito superior ao paraíso, não tem comparação. Ele não poderia não ter contado? Mas não estava na Sabedoria d’Ele não tolerar na presença d’Ele os que não quisessem aquela maravilha que Ele anunciava? Quer dizer, a prova não é uma contradição com a criação. A flor da criação está na prova. Criou e ele disse sim. Se nós estivésse bem habituados a isso, nós teríamos mais facilidade.

Bom, agora, meus filhos…



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