Conversa da Noite – 5/8/89 – Sábado . 7 de 7

Conversa da Noite — 5/8/89 — Sábado

As leis da atuação da graça; Quando a graça é abandonada, ela se retira; mas se volta um pouco é sinal de que voltara com muita força; como um rei que manda tocar as trombetas para anunciar sua chegada! * Graças da Sala do Reino de Maria; da Sempre-Viva * Lembranças da Senhora Dona Lucilia na Sala do Reino de Maria

* Uma galho de cerejeira

mas é um alemão que arranjou um jeito de aclimatar aqui no Brasil as cerejeiras — Guerreiro, vale a pena você chegar aqui um pouquinho para ver —, então, no ENSDP, mas num canto qualquer do êremo, num segundo claustro, uma coisa, eles abriram assim no chão um círculo — o chão é ladrilhado — abriram um círculo e plantaram isso. Deu uma arvorezinha alta, esguia, e toda coberta só disso. Não tem folha, é só isso, e é cor muito bonita.

(Sr. NF: Eu acho uma tonalidade mais bonita do que na Alemanha. Na Alemanha não existe assim. Lá é uma cor rosa muito esmaecida. Esta aqui é uma cor mais afirmativa.)

Acho também meio azulada. Eu sinto um pouco de azul aqui. Quer dizer, entra uma pontinha de azul nessa composição. É muito, muito bonita. Cerejeira no Chile, como é?

(Sr. GL: Não me lembro muito bem.)

(Sr. FA: É mais clara, menos carregada.)

Mas eu acho muito bonito. É um colorido muito… para usar uma palavra francesa, muito réussi.

Mas olha aqui: vale a pena vocês verem a árvore lá, porque não tem um lugar que não há folha. É só isso. Agora, há uma coisa curiosa, que é o seguinte. Esta folha, de perto, é menos bonita. Eu desconfio… Porque eu acho que flor de árvore em geral não pode ser vista de perto. Por exemplo, ipê visto de perto perde muito.

Bem, fica aí… para ornar a nossa reunião.

O que me passou pela cabeça, era de propor que em Jasna Gora e no Êremo de Elias plantassem isso. O Átila quando viu, imediatamente pensou em plantar no Êremo de Elias. Sabe o que eu fiz? Desaconselhei… Sabe por quê? Vem a prefeitura e declara que é de interesse público. E confisca para fazer um parque para criança. É a conseqüência.

Vou dizer mais. O Êremo do Amparo é bem distante da cidade, não é? Eu teria medo de fazer um parque disso no Êremo do Amparo.

Bom, meus caros vamos à nossa matéria. As flores já floriram. Qual é o tema, qual é a pergunta, qual é o problema? (…)

Como age a Providência: as leis da atuação da graça

Essas coisas de atitudes da graça, procedimentos da Providência, etc., são muito especiais e muito — é evidente, é uma banalidade o que eu vou dizer — mas muito conformes ao ensinamento da Igreja sobre a graça. É evidente.

* Exemplo: as graças da Sala do Reino de Maria foram rejeitadas

E nós nos poderíamos reportar a uma coisa, e aí pegaríamos bem: a Sala do Reino de Maria. A Sala do Reino de Maria desbotou para nós. E quando nós fomos passando para Jasna Gora, começamos a fazer reunião em Jasna Gora, foi a coisa mais fácil de conseguir, mais fácil de fazer, foi abandonar a Sala do Reino de Maria e passar para Jasna Gora. Eu não vi ninguém que manifestasse, naquela ocasião, umas saudades da Sala do Reino de Maria. Foi jogada fora como um sapato velho.

É verdade que ela ficou ali intacta, ninguém a desmontou, ninguém pediu para dividi-la com biombos em quartinhos para hospedar gente, nem nada disso — isso seria também quase um sacrilégio —, mas do resto ela ficou lá.

Durante algum tempo ainda havia tantas graças na sala, que ia gente rezar durante o dia lá. E muitas vezes havia mais gente rezando na Sala do Reino de Maria do que na Capela. Mas depois isto mesmo foi se esmaecendo. E esmaecendo, a Sala do Reino de Maria desapareceu completamente da vida do Grupo. E ficou apenas uma sala para algumas reuniões extraordinárias, onde não havia lugar onde pôr. Então, o MNF, pôs o MNF lá. Cessou apenas em circunstâncias recentes. E aí com o pesar de todos os componentes da comissão do MNF. Mas a sala estava apagada, é como uma luz que se apagou. Esta é a realidade da sala.

* Uma graça que reapareceu na reunião durante o estrondo Mutuca

Mas, de outro lado, durante uma reunião que houve durante o estrondo ocasionado por D. Mayer, e aquela coisa toda, eu convidei para uma exposição — vários dos que estão aqui provavelmente estiveram lá — uma exposição da situação, e para conversar, etc., em nível mais alto, com as pessoas mais responsáveis, mais idôneas do Grupo, para conversar sobre o caso.

Nesta reunião, estranhamente — onde, aliás, a atitude de todos foi muito boa — nesta reunião, estranhamente me pareceu sentir que a graça Sala do Reino de Maria um pouco se fazia, um pouco, anunciar lá. Eu estou certo que com vários eu comentei isso. Não me lembro se algum dos que estão aqui estavam presentes quando eu comentei isso? Mas, enfim, eu comentei isso.

* Quando a graça é abandonada, ela se retira; mas se volta um pouco é sinal de que voltara com muita força

Mas no fundo do meu espírito estava assim: que quando a graça é abandonada, e ela se retira de algum lugar, ela pode levar muito tempo para voltar, mas quando ela volta, uma pequena volta dela, rápida, transitória, é entretanto um sinal de que ela voltará mais. E saí deste fato com a esperança de que ela voltasse.

* Como estão voltando agora as graças da Sala

Realmente, por uma séria de circunstâncias inteiramente ocasionais, foi realizada recentemente uma reunião na Sala do Reino de Maria, depois de muito tempo. E a sala estava brilhando com quase todos os seus fogos, e com quase todas as suas graças.

Eu me lembro que, não sei bem a que propósito, foi levado um Crucifixo para a sala, foi osculado, etc. Eu não me lembro mais.

[O Sr. tratava da crise na Igreja. E no final foi introduzido o Crucifixo para o Sr. oscular.]

Bom, afinal de contas, o fato é que de lá para cá nasceu naquela sala, a propósito daquela sala, uma apetência de voltar para lá. Mas essa apetência é por sentirem a graça que voltou.

Mas, então, agora, eu vi hoje na reunião da tarde, indiscutivelmente estava um muito bom ambiente na sala. E se propusesse naquela ocasião de passar a fazer todas as reuniões na Sala do Reino de Maria, seria recebido por aclamação. Só não foi proposto porque eu não quereria, eu sabia que isto não era o momento de fazer.

* Semelhanças com a Sempre-Viva

Então, eu fico com a esperança muito grande de que se dê a mesma coisa conosco e, portanto, com a Sempre-viva.



Quer dizer, em determinado momento a Providência, porque Ela quer e porque Ela é dona dos seus momentos, dos seus instantes, a Providência a rogos de Nossa Senhora faça chegar para nós uma graça assim, e que a coisa seja como se tivesse cessado ontem. E nós retomemos a coisa de inteiro! Que significa que, depois de uma longa ausência, de nos castigar com uma longa ausência, na qual entretanto a Providência nunca tirou a mão de junto de nós — porque senão nos teríamos dispersado — depois de uma longa ausência, que foi mais uma ausência de aparência — Deus não esteve ausente, esteve escondido — depois de um longo escondido Ele aparece, e faz sentir-Se de novo.

* Relações entre a Sala do Reino de Maria e a Sempre-Viva

E há uma relação entre a graça da Sala do Reino de Maria e a graça da Sempre-viva. Uma relação evidente. Aquela sala é uma sala que tem várias circunstâncias… (…)

* Se esa volta gratuita da Providência se der, será com novo brilho

E se isso reviver, revive com a circunstância seguinte, a que eu dou muita importância. É que se dá um mútuo encaixe, pelo qual tudo se torna mais fácil, toda a compreensão de nós uns com os outros, e comigo, se torna mais concreta, mais real, etc., e a colaboração melhor também. E todo o trabalho cresce de ponto, evidentemente.

Então, eu vejo nesta volta das graças da Sala do Reino de Maria uma espécie de pequena, bela e amorosa lição de como é que as coisas se restauram. Para nós compreendermos que também será por um movimento gratuito de Nossa Senhora que o espírito da Sempre-viva voltará a nós.

(Sr. CP: Um movimento inteiramente gratuito da Providência? Foi isso que o Sr. disse?)

É isso, é. É assim que esse espírito voltará a nós.

* A volta desse espírito transformar-nos-á como aos Apóstolos em Pentecostes

E voltando a nós, nos transformará, mais ou menos como foi com Pentecostes, em que o Espírito Santo baixou.

Os Apóstolos estavam fazendo uma coisa santíssima: eles estavam fazendo uma meditação, um recolhimento, etc., sob a presidência de Nossa Senhora. Aliás, na presença de Nossa Senhora, sob a presidência do Papa, que era São Pedro. Mas era uma coisa santíssima, não é?

Mas, por si sós não obrigariam o Espírito Santo a baixar. Mas, o Espírito Santo encontrando Nossa Senhora com os Apóstolos ali Ele quis baixar. Quis por um ato de iniciativa d’Ele, que complementou a missão de Nosso Senhor Jesus Cristo no plasmar as almas. Foi ali que o espírito da Igreja se tornou inteiramente presente e visível nela, que a Igreja reluziu na plenitude das suas luzes.

* Ligeiros sináis de perdão da Providência; trata-se de possuir um espírito

Acho que alguma coisa assim está nos faltando. Nós nos afastamos, peccavimus, etc. Está bem. Mas eu tenho impressão de que há ligeiros sinais de um perdão. E com esses ligeiros sinais de perdão, sinais de uma esperança, de um reflorescimento, etc.

Agora, com esses sinais também, uma espécie de convergência de espíritos na ação, no apostolado, muito grande. Porque se se compreender bem que se trata de possuir inteiramente um espírito do qual o espírito da Sala do Reino de Maria é uma amostra; e se nós compreendermos que fazer apostolado é difundir aquele espírito, mas é especificamente difundir aquele espírito, eu tenho certeza que todo o nosso apostolado muda de jeito. E que nós o faremos com tal empenho, e com tal acerto psicológico, de tal maneira calhará nas almas onde deve calhar, e atrairá as almas que deve atrair, que será uma coisa especial. (…)

* Ação da Providência na transferência da Sala do reino de Maria para Jasna Gora

A Providência o que é que fez em relação à transferência da Sala do Reino de Maria para Jasna Gora? Ela de algum modo deu uma graça própria a Jasna Gora. De maneira que não se pode negar que nós tivemos ali muito boas reuniões, reuinões com graça… Não se pode negar isso. Isso é verdade. Não são reuniões da Sala do Reino de Maria. Mas é a bondade da Providência nos acompanhando mais de longe, entristecida, com afeto e de longe. Mas continuando a nos dar um apoio, dando um amparo. De maneira que muitas e muitas vezes, caminhando para Jasna Gora, eu acabei percebendo o seguinte.

No começo eu não conhecia ainda aquele bairro e tinha horror àquele bairro. À força de freqüentar ali, aquilo tudo foi se transformando e se transfigurando ligeiramente — apenas ligeiramente —, e eu várias vezes senti em minha alma sopro de graça sensível naquele caminho, atravessando aquelas vastidões, etc. Graça de um nível muito menor do que da Sala do Reino de Maria, mas verdadeiras graças. De maneira que se amanhã nós tivéssemos que abandonar Jasna Gora, não tenham a menor dúvida: eu deixaria Jasna Gora com certo pesar.

Agora, o que é que quer dizer tudo isso? A Providência amorosamente nos acompanhou. Ela não abriu mão de nós. Mas Ela quase que ficava reduzida a tomar de nós essa distância, para o nosso próprio bem. E por amor a si mesma. Porque por amor a si mesma Ela não se barateia. Não pode ser. Como Ela pode se baratear?

* Assim Ela fez com a Sempre-Viva

Bom, com a Sempre-viva foi a mesma coisa. Se nós declarássemos extinta a Sempre-viva, agora, já, seria um golpe medonho! Por onde se fica vendo que aquela graça ajudou-nos a nos sustentarmos. A graça não nos abandonou. Nos amparando mais de longe, ela entretanto não nos deixou de amparar.

Em determinado momento ela fará o papel da mãe que vai ver se o filho se adoçou, se ficou menos injusto, se se eriçou menos. O carinho dela volta a bem dizer redobrado, e fala, se aproxima, etc., nessas condições.

* A volta das graças, como um rei que manda tocar as trombetas para anunciar sua chegada!

E eu vejo nesse restaurar da graça da Sala do Reino de Maria, sobretudo com este fato de que alguma coisa apareceu naquele momento tão crítico da vida do Grupo, eu vejo uma promessa que vem de longe!

(Sr. GL: Qual é o momento crítico mesmo?)

Durante aquele estrondo todo. Foi uma situação muito crítica! Bom, eu vejo assim a graça que vem, como um rei que vem fazendo tocar os seus corneteiros muito de longe: “De vez em quando toquem as trombetas, para o meu filho ouvir que eu de longe estou chegando, para a alma dele se preparar”.

E assim a gente tem impressão que as trombetas do Rei ou da Rainha estão se aproximando pela voz dos fatos.

(Sr. GL: O Sr. sente sinais da graça assim?)

Sinto esses que eu estou dizendo. Bom, que não são de que vem a Bagarre. São de que Ela está de volta, a Rainha, Nossa Senhora. Mas essa volta, por sua vez — por razão, e não por graça — essa volta coincidindo com o quadro de fatos em que nós estamos, me leva a supor — supor — que entre uma coisa e outra existe uma conexão. E que essa convicção nos levará certamente, uma vez que a conexão se firme, se defina, etc., tudo fará crer, pela idade a que chegamos, pelo tempo que passou, pelo quanto o mundo caiu, pelo esboroamento de todas as coisas, inclusive em Sancta Mater Ecclesia, que tudo leva a crer que a conjunção indica hora que chegou.

Isso, eu volto a dizer, são suposições. Mas suposições que eu nunca apresentei assim. Nunca, nesse tempo inteiro, eu nunca fiz suposições dessas, porque não havia base nos fatos para fazê-las. E porque eu não quereria criar uma esperança ilusória de que a Rainha estava chegando, quando eu não ouvia ao longe as trombetas d’Ela tocarem. Mas aqui eu posso dizer que me parece ouvir que as trombetas da Rainha está chegando.

(Sr. Poli: Mas é uma super situação.)

Sim, não tem dúvida nenhuma. E depois outra coisa. Do que eu vou dizer agora, não me parece fácil escapar: se não é este o momento, Ela está dando uma espécie de avant-première do momento, para nos preparar. Porque do contrário seria uma ilusão, seria um jogo, que Ela não faria.

Agora, então, se poderia ir um pouco mais longe… (…)

* Lembranças da Senhora Dona Lucilia na Sala do Reino de Maria

enquanto terminava reunião, depois enquanto conversava com o Dr. LN, depois com o Rodrigo na sala, durante a conversa, mecanicamente olhava para a sala, olhava para o ambiente. E me saturava, me enriquecia com o ambiente.

Mas me veio mais de uma vez essa pergunta: se ela [Senhora Dona Lucilia] estivesse aqui, o que é que ela acharia dessa sala? E eu pensei: “Isto corresponderia à fina ponta do espírito dela. E eu tenho impressão de que ela se sentiria aqui como no lugar próprio onde o espírito dela se encontrasse inteiramente realizado”. E tudo isso faz supor que a ação dela em certo momento se desenvolva mais claramente no sentido da aquisição desse espírito.

* Os costumes da Senhora Dona Lucilia: nunca sair de casa, sendo viúva

(Sr. GL: Ela não chegou a conhecer?)

Não. Eu a quis levar mais de uma vez. Mas acontece o seguinte. Naquele tempo não havia ainda aquela entra de automóvel. Ela teria que fazer aquele percurs a pé, para ir ao cemitério, para ver os restos de papai. E ela dizia sempre que uma esposa que ficou viúva, nunca sai de casa antes de pela primeira vez ter ido ver os restos mortais da sepultura de seu marido. E que ela só sairia de casa para ir à missa, ou para ir à sepultura de papai. E como ela não podia sair nem para uma coisa nem para outra, ela não iria a nenhum lugar.

(Sr. GL: E ela não saiu nunca? Depois que Dr. João Paulo morreu?)

Nunca. Nada.

(Sr. GL: Puxa, ela ficou sempre aqui?)

Sim. Porque ela tinha uma nevralgia nos pés que não podia…

(Sr. Poli: Ela foi à missa algumas vezes, sim. Eu me lembro…)

De qualquer maneira, ao cemitério, o automóvel não podendo entrar, aquela distância ela não podia percorrer. Ela tinha assim as concepções… Por exemplo, quando papai estava vivo, ela usava todo dia um colar de pérolas. Quando papai morreu, ela não usou. Eu pensei que na primeira semana, no primeiro mês, fosse uma coisa de luto. Mas depois passando, eu perguntei: “Mas meu Bem, por que a Senhora não põe seu colar de pérolas?” Ela disse: “Não tem mais razão de ser. Seu pai morrendo, não tem mais razão de ser”.

Olha que ela estava velha, e ele velho também. Mas é uma concepção das coisas, um modo de entender as coisas, muito bonito a meu ver. É o modo de ser dela, etc. Assim são as coisas.

Meus caros, vamos então rezar?

Ela gostaria muito de ver essa cerejeira. Muito, muito, muito.

(Sr. GL: Ela está vendo…)

Isso, isso. Mas muito mais ela está gostando de ver as nossas almas.

[Orações finais.]

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