Conversa da Noite – 22/7/89 – Sábado . 6 de 6

Conversa da Noite — 22/7/89 — Sábado

Unum” da alma do Senhor Doutor Plinio: O que graça pede é: Lambesc com a Revolução!; Amor de Deus contemplativo de onde decorre ese estado de espírito * Um desejo de absoluto que no fundo é um desejo do céu * A espera de um “flash”, do qual nascera o Reino de Maria * Graças de apertura para a Senhora Dona Lucilia

(Sr. GL: O que tínhamos era esse. Não sei como o Sr. prefere?)

O embarras de choix ainda é mais difícil para mim, porque de um modo ou doutro eu estou concernido em quase tudo isso.

[Decidem por uma pergunta a quatro mãos. Dr. Marcos expõe impressões dele sobre a reunião que ele fez para os supporters norte-americanos, sobre o “desponsório místico” — tema tratado em reuniões anteriores, e que ele já havia dado no ano passado para os mesmos supporters. Notadamente teve um aproveitamento especial um correspondente filipino.]

(Dr. MRD: Agora, isso não vai sem um certo milagre.)

É uma graça marcantíssima, de índole miraculosa.

(Sr. GL: Fazendo um conjunto com isso, se tivéssemos mais fidelidade, nós saberíamos apresentar o Sr. de uma outra maneira para o mundo, da maneira como deve ser. Falta fé em nós para esse ponto. E a questão toda da BG, GR, etc., está muito ligada com essa problemática. Como o Sr. vê isso?) (…)

* O que graça pede do Senhor Doutor Plinio: Lambesc com a Revolução!

Eu não compreendo bem, pelo seguinte. A opinião pública aparece aí como um indivíduo só. E pode se ver a coisa assim. Então, diante da opinião pública, uma pessoa pode ser mais preocupada em fazer a opinão pública sentir o perigo do castigo, e por causa disso meter-lhe medo, do que estar preocupada em dizer alguma coisa de doce, que possa atraí-la. Mas acrescente-se outra coisa: estar mais preocupada em promover a justiça de Deus, do que em salvar as almas. São duas coisas ligeiramente distintas, mas a distinção vem a propósito.

E eu acho que no feito de espírito das graças que eu recebi, está arquetipicamente esse ponto: é preciso fazer vencer a Contra-Revolução, e promover a glória de Deus. Portanto, em determinado momento, Deus há de dispor as coisas de tal maneira que um procedimento a la Lambesc seja possível. E é só isto que dará verdadeiramente a vitória. O resto são operações complementares, interessantes, boas, mas propriamente a questão é a la Lambesc: mete a carga de cavalaria, mete a pata, mete o sabre, corta, talha, arrebenta! Porque é assim que se ganha a batalha!

* Continuo desejo de ser nocivo à Revolução

(Sr. PHC: A linguagem do Sr. sempre foi “a la” Lambesc mesmo.)

Sempre. Não, e quando eu sou mais arredondado, mais suave, é para “lambescar” melhor. Quer dizer, é ainda para achatar. De maneira que se eu não posso achatar a não ser sorrindo, sorrirei. Mas achatarei!

(Sr. NF: A ação do Sr. vem sendo assim, ou o Sr. reserva esse estilo para situações mais favoráveis, que devem vir?)

Não. É um pouco diferente. O que caracteriza o Lambesc, o que eu chamo de Lambesc, não é de usar ou não usar o processo Lambesc. Mas é o usar ou não usar aquilo que é mais nocivo ao adversário.

Aí não tem dúvida: se for preciso sorrir, sorrio, etc. Mas é para ser mais nocivo! Porque o que eu quero é ser nocivo.

* Amor de Deus contemplativo de onde decorre ese estado de espírito de nocividade

Agora, isso é um ato de amor de Deus permanente. É um ato de contemplação, é um ato de amor de Deus permanente. Aqui está a questão. De maneira que no menor traço, no menor modo de ser de uma pessoa, ou qualquer coisinha, eu esteja em condições de dizer [se] está ou não está de acordo com o amor de Deus.

(Sr. PHC: Nesse sentido pode-se aplicar também as palavras da Sagrada Escritura sobre Santo Elias, ao Sr. Porque isso é procurar fazer justiça a quem deve, que é a Deus.)

É. Mais do que a ninguém. Amar a Deus sobre todas as coisas é procurar que a Deus se faça justiça sobre todas as coisas. Parece ultra razoável.

* O “unum” de essa mentalidade: o “encumbramiento” de Deus sobre tods as coisas, elevando-as

(Sr. NF: Naqueles modos de ser do Sr., que o Sr. apontou no início, que nos levam a temer falar do Sr.: primeiro, porque o Sr. é muito intransigente; segundo, porque o Sr. reporta tudo a princípios bem mais elevados; terceiro, o Sr. relaciona com a religião, e um quarto que eu não me lembro. Qual é o “unum” dessa mentalidade?)

O unum é o seguinte. Na Revolução há um unum em fazer o contrário constantemente, para achatar e rebaixar, e fazer com que as coisas sejam menos semelhantes a Deus e, portanto, Deus menos amado. Então, nosso unum é em razão oposta. Não sei se está claro?

[Está magnífico.]

E esse é o unum mesmo. Não tem conversa.

(Sr. NF: É uma resposta bem RCR.)

É, graças a Deus. É esse o negócio. Eles querem o tempo inteiro banalizar, fazer coisas abaixo da crítica, e nós queremos o tempo inteiro elevá-las. Agora, o que é mais elevado é mais semelhante a Deus. E é porque isto é semelhante a Deus, que nós queremos.

* O amor de Deus manifestado: fome a sede do absoluto

Aliás, é uma coisa que no MNF tratamos várias vezes, mas nunca assim tão expressamente como se tem agora ocasião de tratar. Tem o seguinte.

Há qualquer coisa na alma do homem que faz com que ele, na sua inocência, seja apetente do absoluto, de uma coisa que é absolutamente assim, que é inteiramente assim, e que é adoravelmente assim, e que dá ao homem uma espécie de alívio: “Afinal eu encontrei aquilo que eu queria, ou Aquele a quem eu queria!”

Quer dizer, isso é propriamemente o amor de Deus. Quem não tem esse amor absoluto, não tem amor de Deus. E quando a gente vê os santos, etc., falarem do amor de Deus, a gente vai prestar atenção, é o amor a esse absoluto que os move, etc.

E nós queremos, num mundo cada vez mais relativista, cada vez mais incoerente, etc., nós queremos fazer prevalecer um feitio de espírito pelo qual se tem fome e sede do absoluto. Quer dizer, da verdade que é verdade, que é inegavelmente verdade, e que enuncia, que fala de um Ser que é Aquele que é. E que é o absoluto, de tal maneira absoluto que Ele não é perfeito: Ele é a perfeição. E Ele não é um ser bom: Ele é Aquele que é, por excelência.

* Um exemplo: São Francisco de Paulo cuidando dos doentes pobres

Isto deita como corolário um amor às coisas boas, todas, na medida em que elas são relacionadas com esse absolutamente bom.

Vamos dizer, por exemplo, no áudio-visual de ontem. Eu acho que vários de vocês viram esse áudio-visual. Estava estupendo o áudio-visual. Havia umas fotografias de São Vicento de Paulo, e depois uma de São Vicente de Paulo tratando de uns doentes. Não era fotografia. Era fotografia de uns desenhos ou de uns quadros falando de São Vicente de Paulo.

A gente pensa naquela espécie de sofreguidão de São Vicente de Paulo de encontrar pobres para ajudar; o desejo de que não ficasse ninguém desatendido, mal servido, etc., por ele, que ele atendesse a todo mundo, e que todo mundo ficasse bem.

No fundo o que tem é um desejo de absoluto, de ver o bem espalhado para todos, e todos gozando do bem, porque Deus é o Bem. Senão aquela posição não teria forças suficientes.

E infelizmente não se sabe identificar esse amor ao absoluto como amor de Deus. E daí saem equívocos de toda ordem, não é?

* Um desejo de absoluto que no fundo é um desejo do céu

Mas é este absoluto que se exprime no que eu falei a respeito de minha atitude de alma, e a atitude de alma da TFP, você vai ver, no fundo é isso: o espírito anhelando estar nas paragens do absoluto. Ou seja, o céu.

* O desejo de bem do Senhor Doutor Plinio está à espera de um “flash”, do qual nascera o Reino de Maria

(Sr. NF: A respeito da edificação que o Sr. é chamado a fazer, qual é o “unum” da mentalidade do Sr. Quando o Sr. pensa, como São Vicente de Paulo, em fazer o bem a todos, como é esse bem, como ele se exprime?)

É uma pergunta que está bem feita, ahah! Acontece o seguinte. É que o mal é hoje em dia muito mais visível do que o bem, muito mais palpável do que o bem. E é por causa disso mais fácil a gente se enfurecer pelo mal porque ele está destruindo, do que enlevar-se com um bem que não está sendo construído.

Mas também acontece que há uma coisa que põe uma delonga, além dessa, no processo de conjecturar o bem. E é o seguinte. Se você toma em consideração o modo pelo qual o bem na História tem aflorado, e tem produzido os seus resultados, os grandes lances do bem tem-se feito por uma espécie de flash. E a partir desse flash é uma civilização que nasce, é uma área de civilização que floresce, etc.

E enquanto esse flash não vem, não adianta a gente procurar advinhar como será. Porque ele será como será. A gente sabe como ele não será!

Por exemplo, Cluny. Eu tenho certeza que Cluny foi um flash coletivo colossal. As cruzadas também, flash coletivo colossal. Desse flash deverão decorrer as formas de verum, bonum, pulchrum que a gente tem em vista. Mas, de qualquer forma, o lado positivo não nos aparecerá tão claramente, a não ser quando pelo movimento da graça ele tenha começado a se delinear em nossas almas.

(Sr. NF: Mas por que aquilo que o Sr. diz na RCR, que a legitimidade é o reflexo da realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo em todas as coisas…)

Sm, é verdade. Isso é uma verdade básica para nós. Mas qual é a sua pergunta, então?

(Sr. NF: E por que essa não seria a resposta à pergunta anterior que eu fiz, à qual o Sr. repondeu mencionando um “flash” que ainda está por vir. O que mais esperar da Contra-Revolução além do restabelecimento da legitimidade de Nosso Senhor em todos os níveis da civilização e da cultura?)

É que Ele é de um determinado modo, e o reino d’Ele também será, que conforme as épocas e as circunstâncias corusca de modos diferentes. De onde aparecerem formas de brilho diferentes, de acordo com as circunstâncias e com as épocas. E capaz de inspirar um amor de um tipo diferente.

* Por enquanto as graças que há são de encaminhar para a TFP, mas só como “icebergs”: a espera do “Grand-Retour”

(Sr. GL: Se os membros do Grupo soubessem apresentar o Sr. de modo certo, o que o Sr. vê nessa linha de manifestação da TFP nessa hora de demolição de todas as coisas? O Sr., por assim dizer, auscultando a Nossa Senhora, o que o Sr. percebe nessa linha?)

Eu creio perceber o que o Marcos dizia há pouco. Quer dizer, graças especiais, que vêm para as almas, no sentido de orientá-las rumo à TFP. Mas que por enquanto são icebergs de graças assim que vão se formando. A grande graça decisiva virá no momento do “Grand-Retour”, e daquilo que Nossa Senhora quiser. Mas já desde logo a gente vai notando coisas que se alteram.

* Exemplo: graças atuais na nobreza francesa

Por exemplo, o Frederic [Désuches], uma coisa assim. Ele me escreveu uma carta sobre a situação da nobreza francesa. Nessa carta ele diz o seguinte. Que a nobreza francesa está no estado em que estava há algum tempo atrás. Quer dizer, muito prostrada, muito negada, muito espezinhada. Agora, por exemplo, mandaram tirar os títulos de nobreza de todos os nomes da lista telefônica — é canalhice do Mitterrand — e que isso faz com que eles trabalhem em condições muito desfavoráveis, etc. E que, portanto, todos os que têm meia idade, e daí para trás, mais velhos, esses são muitos desanimados.

Mas que basta ele tratar com o jovem da nobreza a respeito da questão, e dar as idéias da TFP, o jovem adere como a coisa mais natural do mundo.

Bem, ainda que possa haver um certo exagero na expressão dele, a gente vê que uma grande parte disso é verdade. E que essa verdade exprime muito a graça especial cuja hora está chegando.

(Sr. GL: O “Grand-Retour” acaba sendo isso: que se possa mostrar o Sr. de estatura inteira. Que nós vejamos e que possa mostrar.)

É isso, exatamente. E isso eu tenho impressão de que na realidade está chegando a hora disso, e vêm graças muito grandes nesse sentido.

* Sinais da graça: os êremos

Há uns sinais de graças assim, que deixam a gente pasmo, inclusive dentro do grupo. Por exemplo, é uma coisa que se tornou mais ou menos comum na Saúde, o rapazinho ficar com 15, 16 anos, se a família não cria obstáculo, fica eremita.

Agora, você pensar o que representa de sacrifício a vida de um eremita… a quanta coisa eles renunciam para levar aquela vida que eles levam, e levam de bom grado, com uma naturalidade desconcertante.

Ainda agora, por exemplo, eu estou vendo o CLLC. Não sei há quantos anos ele não é mais eremita. Chegou a São Paulo, foi para o Êremo, meteu-se no hábito e está lá marchando, andando, subindo, descendo, rezando jaculatórias, rezando não sei o quê… Fazendo tudo o que a vida do Êremo comporta, natural, como se fosse a coisa mais agradável do mundo!

Quer dizer, há graças. Isso é às torrentes! Eu vejo um enjolrinhas aí da Saúde. De repente vou ao São Bento, está o rapaz com um hábito novo, e ajoelhado ali para pedir a bênção. Eu fico vendo que aquela cara está de repente transferida para dentro do São Bento. Isso para ele não é nada!

Vocês tomem o tempo em que vocês eram mocinhos, o que é que seria transferir para um êremo? Era uma batalha! E olha que vocês todos receberam thaus muito bons! É o quê? É uma graça que vai socavando… E acho — e também nisso eu estou de acordo com o que disse o Marcos — que quanto mais for alta e como que reservada a matéria dita, vale a pena dizê-la em certas circunstâncias. Porque as graças parecem favorecer mais as verdades puxadas. Isso é a impressão que eu tenho.

(Sr. Poli: Para todos os ambientes?)

Não. Isso vai abrindo caminho. Quando a gente nota, é porque a graça atuou.

* Graças de apertura para a Senhora Dona Lucilia

(Sr. Poli: No caso do Dr. Marcos, lá nos EUA ele falou também da Sra. Dona Lucilia. O Sr. discerne alguma graça especial nesse sentido? Uma graça nova?)

Não. O que eu considero é o seguinte. É que o fato de haver dentro do Grupo essa abertura para com ela, e de não haver fora do Grupo — porque o que há fora do Grupo é muito pouco — indica bem que é uma ação da graça circunscrita, como um spot light de sol aceso sobre uma ilha, e a mecha feita pelo sol concorda exatamente com os contornos da ilha. Assim concorda com os contornos de número e geográficos nossos, o modo pelo qual a graça age. Não sei se eu estou claro?

(Sr. GL: Muito bom, está magnífico.)

* É precisa saber discernir e usar a graça

Agora, a questão é que é preciso ter muito jeito no usar essa graça. Porque é preciso discerni-la, é preciso ter discernimento dos espíritos paraver bem como andar nessa graça. Mas essa graça é assim.

(Sr. GL: É preciso pedir que ela tome conta de nós. Porque do contrário fica inautêntico.)

Perfeitamente. A pessoa tendo essa graça fica prudente, justa, forte, etc., etc., e aceita qualquer solução.

Meus caros, realmente agora o sono está me invadindo um pouco prematuramente…

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