Conversa da Noite – 6/5/89 – Sábado . 15 de 15

Conversa de Sábado à Noite — 6/5/89 — Sábado

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Formação das arquetipias na alma do Senhor Doutor Plinio — Processo psicológico, ação do carisma de discernimento dos espíritos — Exemplos a RR, a RF, a Suiça, a Tailandia,…

(Sr. GD: O Sr. não poderia falar um pouquinho sobre o discernimento profético do Sr., como é que são as culminâncias que ele atinge; como o Sr. vê isso em si mesmo? A pergunta nasceu a propósito da reunião de hoje à tarde, diante de todo o panorama que o Sr. desvendou. Se o Sr. poderia então falar dessa como que coluna de bênçãos, que ora aumenta, ora diminui, por onde as coisas são julgadas e discernidas pelo Sr.)

* Como o Senhor Doutor Plinio discerne os acontecimentos, exemplo da preparação da última Reunião de Recortes: a partir da sucessão cronológica dos fatos

Eu vou fazer a você o histórica da preparação da reunião de hoje. Foi assim. Havia duas qualidades, dois tipos de recortes. Uns eram recortes das reuniões anteriores, que eu não tinha utilizado. Eu faltei a duas reuniões, e hoje seria a terceira reunião a que eu faltaria. E tinha sido feito uma triagem do material das duas reuniões anteriores, creio que pelo Braio.

E ele colocou aquilo numa certa ordem, que acabou sendo a ordem cronológica. Os fatos, na medida em que foram se desenrolando ele acabou colocando.

Depois entraram os fatos dessa última semana. E eu, ontem à noite, me interessei muito mais especialmente pelos fatos da última semana, dessa que acabou agora. De maneira que eu entrei na Reunião de Recortes sem saber bem exatamente os fatos da semana anterior como é que eram. Mas achando que a ordem cronológica era uma ordem válida para se expor qualquer sucessão de fatos. Não precisava eu ver, portanto.

E dispus, também eu, os fatos dessa semana na ordem cronológica. Porque estava muito atrasado, e queria chegar a tempo para a reunião.

Depois eu fiz uma divisão no seguinte: O que eu tinha que dizer do Roberto Freire, no fim; era um terceiro grau. São as três partes da reunião que eu fiz.

* Como discerniu o papel do Roberto Freire, na preparação dos recortes

Agora, com é que eu cheguei a perceber o papel do Roberto Freire?

Eu tinha uma noção meio vaga da existência desse Roberto Freire. Eu tinha noção de que haviam dois partidos comunistas no Brasil, que essa divisão era — como costuma ser entre os partidos comunistas — uma coisa pour épater les bourgeois, mais nada. E que era, portanto, uma máscara, uma porcaria qualquer. E nunca me interessei por esse Roberto Freire. Eu vagamente tinha o nome dele no ouvido.

Foi ontem à noite, quando eu li as coisas do Braio — porque eu preparo a reunião na 6ª feira à noite; no sábado é mais um acabar apenas dos recortes — que em determinado momento eu peguei a história do Roberto Freire, e percebi como era o jogo.

E foi assim. Estava uma incógnita, eu ia percorrendo na ordem do calendário os recortes, e não descobria uma interpelação válida para esse negócio. E esta preocupado, porque eu tinha recortes sobre a crise da Igreja que não se encontraram, e que era a matéria principal destinada para a reunião de hoje. Eu estava lendo preocupado isso, e sem saber como é que saía dessa história.

Quando, de repente, eu li a história do Roberto Freire, e percebi — daqui a pouco eu vou dizer de que maneira percebi — eu percebi a jogada do Roberto Freire.

Mas não percebi logo assim de um relance. Eu percebi que ali havia uma coisa que talvez fosse o que eu disse à tarde. E formei o projeto de então dizer à tarde que uma hipótese possível era essa. Mas, não pôr assim uma coisa tão categórica quanto eu pus hoje à tarde.

Bem, e fui para a reunião.

* A graça que desceu durante a Reunião sobre o próprio Senhor Doutor Plinio

Foi lendo na reunião todos os recortes, que eu percebi que a matéria exposta em ordem de data ficava, entretanto, maravilhosamente disposta para servir de calço à tese que me tinha ocorrido ontem à noite. E que até a minha certeza cresceu ao ler a ordem em que estava, e que era puramente cronológica. A minha certeza cresceu.

De maneira que aí eu dei, não dei como uma tese absoluta, mas dei com uma probabilidade muito maior que o jogo [saísse].

Mas, verifiquei que admiravelmente a coincidência das datas tinha permitido uma muito bonita preparação da matéria. De maneira que houve uma coincidência providencial, e houve um certo momento em que eu percebi algo.

* Relacionando declarações de Roberto Freire com ditos girondinos, todo o plano encaixava

Agora, o que é que foi que eu percebi, e como é que eu percebi?

O Roberto Freire em certo momento disse alguma coisa de sabor girondino. Não me lembro o que é, mas de sabor nitidamente girondino. E me veio ao espírito, muito naturalmente, a idéia de que todos os sujeitos tipo girondinos, de centro, etc., fazem o jogo dessa natureza. E eu resolvi aplicar o esquena girondino ao Roberto Freire. E vi que se aplicava impressionantemente bem.

Daí então a minha primeira hipótese, que o calço do material confirmou muito bem. Porque enquanto eu dava a reunião da tarde, eu ficava vendo como estava bem calçado, mas muito bem calçado. Mas que foi uma coisa da disposição providencial de datas. De maneira que houve, sem dúvida nenhuma, uma clara visão da coisa em determinado momento, mas foi o aperçu de um ponto. Porque o resto foi uma coincidência providencial, mas não foi mais do que isso.

Eu lamento desapontar contando a coisa como foi, mas eu sou obrigado a ser totalmente claro, não é? É natural. E isso é que criou uma impressão de eficácia, de lucidez, etc., da reunião. Que a reunião no todo tinha, eu sou o primeiro a reconhecer: tinha. Mas, o modo pelo qual as coisas se passaram foi esse.

* Parte de uma analise das psicologias de como as pessoas, na Revolução Francesa, tomaram as mais diversas atitudes

[Aparte inaudível.]

Aqui eu precisaria pensar mais para poder responder, porque o fenômeno psicológico é mais complexo. Mas eu posso dizer o que me ocorre no momento a respeito dele.

Existe em meu espírito uma longa, longa análise do processo revolucionário. Nessa análise não há apenas a análise dos fatos, mas há muito mais a análise das psicologias com que as pessoas tomaram as atitudes; e das mentalidades próprias não só a essa pessoa, aquela, aquela outra, mas às várias correntes políticas, às várias atitudes temperamentais diante do fenômeno — no caso o fenômeno da Revolução Francesa, que eu tomei como padrão de todas as revoluções. Porque ela foi mesmo, foi o padrão de todas as revoluções.

Ela foi padrão até de um modo impressionante, de uma coisa que daqui a pouco, se me lembrarem, eu digo. Eu estou lendo agora o carteio de Mara Antonieta com os irmãos, etc., de um tal Feullet de Conches (?). Uma coleção pertencente ao Martini, famosa, do século passado. E me ocorreu umas reflexões a esse respeito.

Mas, enfim, tomando a Revolução Francesa como padrão, a gente chega a compreender muito melhor toda a tragédia humana, do que se a gente não a toma como padrão. E aí, com um certo discernimento dos espíritos, compreender muito melhor as várias categorias de espírito em face dessa tragédia humana.

* Necessidade do espírito humano de tomar um ciclo de acontecimentos como padrão de comparação

Essa operação de tomar um ciclo de acontecimentos como padrão, essa operação não é original. É própria do espírito humano. Quando a gente toma na literatura clássica, por exemplo, certos poemas, certas coisas assim — a Odisséia, a Ilíada, Guerra de Troia, aquela coisa toda, aquela mitologia toda grega, Agamenon, toda aquela história — são no fundo narrações que têm um fundo histórico, mas que a lenda acrescentou, enriqueceu, ou no total empobreceu, não sei, enfim, que tem muito de lendário.

E nisso que elas têm de lendário entra um padrão de acontecimentos humanos, um padrão de procedimentos humanos, que servem para quem lê interpretar uma porção de outras coisas.

Então, é uma coisa legítima a gente tomar um acontecimento que é próximo de nós — porque quando a gente fala em literatura clássica, os duzentos anos que nos separam da Revolução Francesa acabam sendo ontem — tomar um acontecimento próximo de nós, e não tomar a lenda, mas tomar o fato histórico como padrão.

* A vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, arqui-padrão da História

Bem, arqui-padrão a história de Nosso Senhor Jesus Cristo, não é? Por exemplo, a traição de Judas é padrão, tudo aquilo é padrão.

* A Revolução Francesa, padrão da Revolução

E a Revolução Francesa tomada como padrão, a gente fica com uma noção inteiramente clara, por exemplo, do que é a mentalidade de um realista chouan que se levantou e que pegou em armas pelo Rei. Como fica com a idéia clara da mentalidade de um robespierrista, no extremo oposto. E uma idéia talvez ainda mais clara do homem de mentalidade gomosa, que fica se esticando e se encolhendo entre a realeza e o comunismo praticamente do Robespierre. E com aquelas variantes, aquelas perfídias, aquelas vergonhas próprias do girondinismo.

* O carisma de discernimento dos espíritos do Senhor Doutor Plinio para perceber, num só dito do Roberto Freire, toda uma mentalidade

E quando eu vi um dito do Roberto Freire, eu peguei toda aquela coisa, em que aí sim eu acho que entra o discernimento dos espíritos, que é de pegar tão a fundo na mentalidade girondina. E então compreender como a manobra Roberto Freire, se pode bem supor nela uma mentalidade girondina. E como à vista disso, vendo que encalça bem, se pode tirar uma confirmação da hipótese. E isto é, propriamente, o jogo psicológico.

Agora, aí sim eu acho que no momento em que eu fiz a aproximação com o girondinismo, aquilo foi tão ràpido — na minha leitura — foi tão rápido, foi tão completo, que eu admito que tenha havido uma ajuda especial da graça.

* O carisma de discernimento dos espíritos, para saber ver na Revolução Francesa todo o gume

Como acho que há uma ajuda mais ampla e mais estável da graça, menos coruscante, mas mais estável, na compreensão geral do fenômeno revolucionário.

Por exemplo, na Revolução Francesa. O grau em que tudo é paradigmático, faz da Revolução Francesa uma coisa que a gente não sabe o que dizer. A gente tem impressão de que se não fosse fatos recentes, ultra comprovados e indiscutíveis, ter-se-ia a impressão que um homem de gênio compos essa tragédia. De tal maneira tudo é paradigmático ali.

* Um exemplo, na fuga de Varennes: a mentalidade da Rainha, e a de Luis XVI

Por exemplo, essa coisa que eu estava lendo nessa correspondência do Feullet de Conches. O Rei devia estar… Eles estavam fugindo. E a organização da fuga foi dividida entre o Rei e a Rainha em duas partes. A primeira parte foi organizada pela Rainha, e a segunda parte o bobão do Rei aceitou de organizar. Você já está vendo qual foi o fato, não é? Ela era muito mais inteligente que ele, muito mais capaz, etc., e ficou com a parte mais difícil da fuga, que era a parte mais próxima da cidade. Porque quanto mais a fuga se distancia do ponto — ainda mais a cavalo naquele tempo — mais vai ficando difícil de apanhar a vítima. E quanto mais a vítima vai chegando perto da fronteira, tanto mais fica fácil atingir a fronteira.

E então, ela com certeza jogou com jeito para ficar com a parte mais difícil, e o bobão do marido ficar com a parte mais fácil. Porque o cretinão, sabendo-se incapaz — porque devia saber — por amor-próprio eu acho que estava disposto a arriscar a vida dele, da mulher, dos filhos, da irmã, para não dizer que ele não organizou uma parte.

Mas, de outro lado, a gente compreende um pouco a posição do bobão. Porque se ele não organizasse nenhuma parte, o que é que aconteceria? Aconteceria que depois viriam as narrações, depois dele posto em Viena, viriam as narrações do que houve. E na narração ficaria visto que ele se deixou transportar como uma mercadoria. E que ele não foi julgado capaz de nada. E isto para ele era de uma humilhação horrorosa.

Quando um homem se sente assim deve renunciar à realeza. Ainda mais naquelas condições. Mas não sei se você vê o drama humano de renunciar à realeza, a fraqueza, a miséria humana: “Não, não renúncio! Eu nessa quadra não estou capaz, mas há tais e tais outras coisas que sei fazer melhor do que ninguém!” Todo bobo pensa isso. E todo o drama dele nessa coisa.

* Parando durante a fuga, para comer durante uma hora…

Bom, resultado… O Feullet de Conches conta sem sublinhar demais o negócio. A coisa foi até o momento em que o Fersen desceu da carruagem e despediu-se. Era a parte da Maria Antonieta que estava executada. Entraram os encarregados do Rei para começarem a executar. E a partir daí tudo foi besteira.

Estava combinado com uma tropa fiel ao Rei, já colocada na fronteira com o Sacro-Império, e portanto a poucos passos da libertação, a uma hora da libertação — chamava Sainte Menehould o lugarzinho —, estava combinado que as tropas do Marquês de Bouillet estariam ali para receber o Rei.

E eles pararam, o carro apenas parou para o Fersen soltar; ele fez uma saudação, tomou o carro que ele tinha, e voltou para Paris, para outras finalidades. Continuou. Quando estava a uma hora de Sainte Menehould, o Rei Luiz XVI disse o seguinte:

- “Bem, agora aqui tem a casa de M. de Chamilly, que é o meu valet de chambre, e que ficou de me preparar uma refeição deliciosa aqui. De maneira que nós vamos descer aqui e comer com ele. E daí a uma hora nós encontramos a tropa do Marquês de Bouillet.”

A Maria Antonieta desceu… vocês podem imaginar em que estado de espírito. A família toda foi junto. Ele em vez de fazer, pelo menos — não era justificável — mas pelo menos uma refeição sumária, ele ficou uma hora inteira comendo. Uma testemunha visual dizia que Maria Antonieta dava manifestações de pânico diante do adversário que podia sobrevir; e manifestações de impaciência de toda ordem. Ele comendo, comendo, comendo.

Quando acabou de comer, eles entraram no carro e vão para Sainte Menehould.

* O rei perguntando a qualquer um, como se não temesse ser reconhecido

Em Sainte Menehould havia uma bifurcação de caminho, e eles ficaram em dúvida qual era o caminho a tomar. Já é a fuga mal organizada. Porque não podia ter dúvida! Já havia naquele tempo mapas bons, uma coisa bem feita não podia dar lugar a isso.

Então resolveram perguntar a alguém. Eles tinham dentro do carro uma Madame de Tourzel, Marquesa de Tourzel, que era a governanta das crianças reais. E era a menos conhecida de todas, porque era menos ilustre. Eles podiam pedir à Mme. de Tourzel para pôr a cabeça fora do carro, que estava todo protegido por cortinas, e fazer a pergunta.

Não! O Luiz XVI abre a porteira e põe o carão dele do lado de fora, e pergunta: “Para que lado fica Varennes”? Um rapaz que estava lá, filho de uma gente de correio, vendo o carão de Luiz XVI, reconheceu que era Luiz XVI. Agora, como é que reconheceu? Reconheceu porque pelas moedas e pelas cédulas de dinheiro impresso todo francês conhecia a cara do Rei. Também não precisa ter lido o Point de Vue para perceber uma coisa dessas.

* O rei recebe ordem de detenção, e já vai se entregando…! O modelo de poltrão que o Senhor Doutor Plinio vê nesse fato

Ele não disse nada, e foi correndo, imediatamente, foi correndo para Varennes, afirmando que a Família Real estava lá, e que ia para lá. E amotinou uma minoria de sans-culottes que havia em Varennes. O prefeito de Varennes era sans-culotte. Armaram um escândalo, etc. Quando o Rei entrou, o pessoal estava todo amotinado.

E levaram o Rei para a casa de um funcionário público. Como disseram: “Vós estáis reconhecido, vós estáis preso, eu vos dou ordem de prisão”, quando ele deu ordem de prisão, Luiz XVI já foi entrando para se entregar.

Eu pergunto: Não é o arquétipo do nulo, poltrão, vaidoso, insuportável, irritante, desgastante ao último ponto? Não se diria que é uma figura imaginada por alguém para dar o característico do cretino acabado? Porque é propriamente isso.

Bem, eles sobem num quarto de cima, as crianças chorando, toda a cena que você pode imaginar. Vieram trazer comida para Luiz XVI. Ele comeu abundante! É uma coisa que… Já comeu há uma hora, porque está comendo agora de novo? Pára de comer isso aí!!! Qualquer um de nós teria uma tentação de daí para fora! Daí para fora!

* As tropas do Marquês de Bouillet oferecem a libertação ao rei

Bem, a Rainha quieta. Daí a pouco, barulho: eram as tropas do Marquês de Bouillet que tinham chegado. E que de espada na mão abriram caminho até o quarto onde eles estavam, grande saudação. Estava feito o contato entre a tropa contra-revolucionária, que já tinha, por sua vez, contato com Nancy, já era meio Sacro-Império. Portanto, estavam salvos.

Grande saudação… Eu estou imaginando a Rainha que se alegra! Eles dizem: “Sire, se Vossa Majestade quiser, temos cavalos para Vossa Majestade, a Rainha, etc., montem nas nossas garupas, nós saímos a todo custo do meio dessa canalha!”

Bem, eu acho que era o caso de aceitar.

[Evidente, não tinha outra alternativa.]

* A cretinice de Luis XVI chega ao extremo de preferir ter a vida salva nas mãos da guarda republicana; impossível de ler antes de dormir, pela indignação que suscita

Não tinha outra alternativa. Luiz XVI olha para o comandante da tropa, e diz: “Senhor tal, o Sr. — fixamente, com energia! Aqui o cretino, a besta quadrada se consuma — o Sr. me garante absolutamente que nenhum tiro pode acertar pelas costas uma pessoa de minha família?”

Essa é uma garantia que não se pede! Como pedir essa garantia? É um imbecil! Não está vendo que pode, mas que chegou a hora de arriscar?

Ele disse: “Sire, isso eu não posso.”

- Então chame a guarda republicana, porque eu vou partir para Paris.

Você sabe o que aconteceu? Eu já conhecia essa cena. De reler, eu me senti tão irritado, que eu estava para dormir, e entendi que eu tinha que mandar vir outra coisa para ler, porque não conseguia dormir em cima de uma narração dessas! E acho que vocês também teriam dificuldade. Em todo caso, não escolheriam isso para ler antes de dormir.

* A volta vergonhoso, recusando os oferecimentos de ser libertado, e a moleza continua

Bem, daí ele volta… O escritor mostra a coisa, a berline dele pesadona, que dá a volta. Eles descem, se instalam dentro com alguns representantes da Convenção, e começam para Paris devagarzinho. Aí é o martírio! Até chegarem a uma cidade do caminho, que eu não me lembro qual é, e o prefeito da cidade era muito monarquista, e ele foi recebido nessa cidade a toque de sino, e com homenagens, autoridades eclesiásticas e civis, etc., porque a cidade não reconhecia a República.

E hospedaram-no numa espécie de palácio que havia na cidade. Ele, um prisioneiro. E o prefeito chega para ele, e diz baixinho: “Majestade, pelos fundos desse palácio Vossa Majestade pode fugir hoje à noite, sem perceberem nada. Eu apronto os cavalos.”

Ele disse: “Não! Não é razoável. Eu agora continuo o meu caminho a Paris.”

O Weiss conta que quando ele chegou a Paris, chegou às Tulherias onde era a prisão dele, ele se deixou cair numa poltrona, e disse: “Uff! Que eu estou em casa!” Uma coisa que…

* Arquetipia da Revolução Francesa em vários outros pontos, até nos facínoras

Assim, a Revolução Francesa é toda ela arquetípica. A Maria Antonieta é arquetípica não sei de quantas coisas; Madame Elizabeth é arquetípica de outras. Até o Delfim é arquetípico. A Madame Royale é arquetípica; aqueles facínoras todos são arquetípicos.

* Por exemplo a imundicie do Barnave, se achando bonito diante de Madame Elizabeth

Por exemplo, um daquelas imundos da Revolução que entraram na carruagem — eu lamento contar —, mas a carruagem era tão próxima, quer dizer, tinha tão pouco espaço, que as pessoas sentadas em frente ao Rei e a Rainha, ficavam com os joelhos roçando pelos do Rei e da Rainha. E o Barnave que estava dentro, que era o republicano, imaginou que a Princesa Elizabeth estivesse fazendo provocações a ele. Por quê? Porque estava achando ele muito bonito, e que estava querendo namorá-lo!

É dessas coisas de… Um homem saído não sei de que sarjeta, uma coisa impensável! Bem, e escreveu um memorial de viagem, contando todas as impressões. E pôs no memorial: “Nesta ocasião a Princesa me viu, e me achou particularmente bonito. Ela com certeza me viu de perfil, eu sei que o perfil me favorece muito…” Essas coisas que, ainda que fosse verdade, um homem não escreve!

Você se lembra desse Cláudio que era meu enfermeiro aqui? Imagine o Cláudio achar que ele estava seduzindo uma princesa! É uma coisa por aí! Não vai, não vai!

* De analises assim o Senhor Doutor Plinio tira “leçons des choses”

Mas, tudo é arquetípico. E vocês analisando aquilo tudo do ponto de vista da arquetipia, tiram uma lição —leçon des choses — uma lição humana fabulosa! Que com o senso do discernimento dos espíritos ainda se torna muito mais rica. E isto serve muito para fazer trouvaille do [espírito?] que eu fiz hoje à tarde. É onde esse longo parênteses se prende a sua pergunta.

* Como o Senhor Doutor Plinio relacionou o Roberto Freire com os girondinos

(Sr. GL: Na hipótese que o Sr. levantou hoje à tarde, não haveria algo a mais do que o Sr. descreveu?)

Havia o seguinte. É que sobre um raciocínio que parece tênue — que é a psicologia girondina aplicada ao caso — sobre esse raciocínio… O raciocínio foi esse: o Roberto Freire está funcionando em face do comunismo oficial e ortodoxo como um girondino funcionaria em face da realeza. E o girondino tinha uma atitude diante da realeza, e outra diante da República. Mas eram ambas atitudes ambíguas. Mas é uma ambiguidade que torcia pela República.

O Roberto Freire tinha na aparência uma conduta girondina, mas que parecia torcer um tanto pela propriedade privada. Pouco importa. É o girondinismo. E o fato de ser girondinismo, de eu reconhecer aí o girondinismo, tão tipicamente, tão caracteristicamente girondino, me dava uma certeza, que provém da certeza que eu tenho da arquetipia da Revolução Francesa, e como funcionam as coisas lá.

E daí vem o jogo ousado na aparência, mas que é muito certo em provas na aparência tênues, mas realmente fortes. Não sei se eu me exprimo bem?

* Um outro exemplo das arquetipias que o Senhor Doutor Plinio emprega: a Suiça

(Sr. GL: Sim. Mas todo o profetizar do Sr. é assim, ou não? A via do discernimento dos espíritos é só assim como o Sr. descreveu, ou tem outras?)

Não, eu precisaria pensar, mas eu acho que tem várias outras. Mas que este sistema que eu apliquei hoje entra com certa frequência. Por exemplo, Suíça… (…)

sobre a Suíça. Uma primeira camada de idéias do meu tempo de menino. A idéia era a Suíça dos lagos, a Suíça das montanhas, Suíça do “Tartarin sur les Alpes”, a Suíça do turismo dos brasileiros que vão ter na Suíça. Eu não tinha estado na Suíça. Sobretudo a Suíça do Château de Chillon, na Suíça francesa, que é no Lago Léman, se não me engano, um castelozinho pequeno perto do lago… Você conhece esse Château de Chillon? Não sei se na realidade ele é tão bonito quanto…

(Sr. NF: É muito bonito.)

O Château de Chillon me encantava.

* Encanto pela tranqüilidade da Suiça, que favorece a reflexão

E eu tinha um encanto, em geral, pela paisagem suíça, e pela coisa suíça muito tranqüila, muito pura, muito estável, muito invariável. Mas, ao mesmo tempo, se prestando a reflexões quase indefinidas. Uma coisa parada e que se presta a reflexões quase indefinidas, é uma coisa que agrada muito ao meu temperamento, eu gosto muito.

Então, uma vontade ardente de ir à Suíça.

Junto a isso, uma certa noção assim meio pictórica, da Suíça dividida numa porção de republiquetas, umas aristocráticas, outras democráticas, mas todas limpas do veneno da Revolução Francesa, mesmo as democráticas. Porque não eram democráticas por metafísica, mas eram democráticas porque aquela organização, naquele lugar, convinha para eles. A morfologia da sociedade supunha uma forma de governo republicana, democrática.

Outra não. É aristocrática por uma razão análoga, etc. Nenhuma briga ideológica entre as aristocracias e democracias ali dentro. Mais ainda. Na hora de salvar o trono da França, eles foram dos mais fiéis, foram dos mais magníficos, etc. O que prova que aquilo era limpo de metafísica! Aqueles filhos de repúblicas defendendo o Rei contra os republicanos da França, é uma coisa que tem uma grande beleza! [Vira a fita]

* Influência do panorama na formação da mentalidade do homem, e do pensamento humano na configuração do panorama

Agora, então, essa placidez de alma, tranquilidade de alma, fidelidade do suíço, me parecia a complementação do panorama. Uma coisa que é um problema que eu nunca consegui resolver, mas muito bonito problema, é o seguinte: até que ponto o panorama forma o homem, e até que ponto o homem forma o panorama?

É claro que a mentalidade do suíço não poderia criar o lago Léman; e claro também que não poderia criar as geleiras. Mas, que modo de interpretar há, por onde a gente vê por uma certa forma o panorama, e acaba sendo que os homens movem de algum modo o panorama? É uma coisa muito bonita, e uma coisa muito agradável de se considerar.

* Contemplando os alpes suiços desde o avião, relação com a tranqüilidade de alma, a limpeza e a pureza

Ainda agora, quando eu estive na Europa, eu viajei de Veneza para Paris, de avião, e estava conversando com o João, mas naquele momento não olhava pela janela. Quando o João me disse: “Olhe, olhe!” Eu olhei. Era dia ainda, mas nos aproximamos de uma geleira enorme, eu não sei que monte era! Mas, Gonzalo, a luz do dia batia ali, e formava uma pedra, um cristal — era gelo, não é? — um cristal maravihoso, cheio de umas… sabe o gelo, o gelo de geladeira antiga, quando forma uma espécie de espinha dentro, todo cheio de reluzimentos, depois fora uma coisa lustrosa… Mas uma coisa assim imensa! Uma coisa lindíssima, me agradou muito, etc.

De outro lado, tudo isso com a idéia de um povo naturalmente muito puro.

* O contrário do calvinismo e do protestantismo

E tudo isso me dando uma espécie de preguiça de considerar um outro lado da coisa, que era a Suíça de Calvino, Suíça do Zwinglio, e a origem do protestantismo. Como é que no meio daquela maravilha, aquela sujeira imunda do Zwinglio, um padre católico apóstata, se meteu naquilo? Uma Suíça calvinista que recebeu à bala as tropas comandadas por São Francisco de Sales, Bispo-Príncipe de Genebra, que queria retomar a sua diocese?

Eles mostram ali: “As tropas de São Franciso de Sales foram derrotadas aqui!” A gente tinha vontade de pegar o muro e jogar em cima da cabeça deles! Bem, como é essa história? Uma interrogação.

* A Suiça de hoje, de um conforto só para a carne, nada para o espírito

Vou à Suíça, homem feito já. Mas vou à Suíça com uma porção de contatos para tomar, e coisas que não me permitiam de ver a Suíça tão devagar quanto eu queria. Hospedo-me num hotel de Genebra — acho que era em Berna, não me lembro bem —, um hotel magnífico. Mas, veja bem. Um hotel magnífico muito mais como possa ser magnífico um quarto de dormir, do que uma sala de visitas. Quer dizer, de um conforto estupendo, de uma riqueza muito grande, mas da riqueza da carne, está compreendendo?

* O quarto de hotel do Senhor Doutor Plinio, tanta comodidade que até impede fazer as orações da manhã

Tudo agradável, uns abajures feitos de um couro meio transparente, e com escuro sobre claro, representando umas florestas, umas coisas agradáveis de ver; uns tapetaços, umas lareiras acesas, com o pétillement [estalido] da lenha que se queima, e que chega mais ou menos até a gente. Mas é o “huuuuu”, aonde a gente tem vontade de mandar vir comida e comer “a la” Luiz XVI! E tudo quanto há de Luiz XVI em todo homem — porque há! — aflora…

(Sr. GL: Melhor dizer que não, porque do contrário todo o mundo vai pensar que tem algo de régio em si.)

Hahahaha! É bem verdade. Bem, fui dormir. O meu quarto… olha: dava para Luiz XVI passar uma noite! Um desses colchões de vários andares. Você se deita, afunda um pouco, depois mais um pouco, mais um pouco; e depois de você ter atingido o mole absoluto é que você dorme. Uma coisa encantadora, está compreendendo?

Separando da janela — eu acho que é para não deixar entra o frio —, umas cortinas pesadas, que conduzem ao sono pesado, assim dobradas, judiciosas, sensatas, bem arranjadas… Com cores ingênuas: azul pastel, essas coisas assim. Você posto naquela história, navegando no “luisdezesseisismo” está compreendendo?

Banheiro. Você manda a criada soltar o banho, você tem impressão que solta um rio! Porque torneiradas: “huáhuáhuáhuá”, aquela água? Você vai ver, está morninho, está no ponto ideal. Três ou quatro sabonetes para você escolher. Você tem vontade de usar todos!

A gente sai de lá tão “enluisdezesseizado” que nem as orações de manhã é fácil fazer. Ao menos é como a coisa repercutiu em mim.

* Uma cidade, uma vida em que até os heróis são heróis do comodismo

Saio para comungar, uma rua comprida, com uma série de cruzamentos. E em cada cruzamento uma estatuazinha de uma coleão famosa, representando se não me engano heróis da independência suíça: “Mas agora, você está falando de estátua, você pensa em pedra, não é?” Não. Feito de uma espécie de barro, e pintandinhas como uns camponezinhos ordinários, e umas figurinhas inexpressivas ao mais alto grau. Um soldadinho apoiado num escudo, mas a gente diria que é um aleijado apoiado na muleta. O comodismo em tudo! Até nos heróis deles, são heróis da comodidade! É uma coisa fantástica?

* Até o exército não estava pensado com heroismo, mas só como defesa da leiteria

À tarde, eu tinha uma apresentação para um tal Maldaner, uma coisa assim, que era o chefe de polícia suíço. E muito informado de coisas comunistas, etc., e que tinha, eu não me lembro bem quem é que me apresentava a ele, eu acho que era o Príncipe Alberto da Baviera. Ele estava informado que eu ia, me recebeu logo, e começou a me explicar por que razão é que eles tinham uma tropa organizada.

Uma conferencinha: “O Sr. Professor há de entender que um pequeno exército nosso, diante da avalanche de um exército russo não é nada, e é pouco provável que interesse aos Estados Unidos engajar um exército proporcionado a nossa topografia, para salvar esse país. Então o Professor me perguntará por que nós pomos tanto por cento do nosso orçamento para tropas, etc.

Mas, é que já está estudado que a Suíça é o meio de passagem de eleição, por isso mesmo, para as tropas russas. Eles esperam não encontrar obstáculos. Mas nós que conhecemos a topografia como os russos não conhecem, temos tropas apostadas em lugares por onde os russos não passam! E é essa fraqueza dos russos que faz interessante nós termos um exército proporcionado. Porque nós temos interesse em que os americanos não queiram entrar aqui, nem os outros queiram entrar, para não ser da utilidade de ninguém, nós sermos difíceis para todo mundo. É como nós salvamos a paz.”

Não está mal pensado. Mas o objetivo na luta da Revolução com a Contra-Revolução, é o menos heróico que se possa imaginar. No fundo é salvar as leiterias.

Depois, de vez em quando, tocava o telefone, ele atendia com uma voz muito tranquila, e dizia: “Está bem. Então tome o trem tal, e vá até tal lugar”. Parava. Daqui a pouco telefonavam novamente: “Ah, está bom. Então se a coisa é assim, faça assim”. Parava. Umas quatro ou cinco interrupções. Ele me disse, com uma cortesia de porteiro de hotel, ele me disse: “Não me leve a mal de interromper tantas vezes a exposição que eu estou fazendo, mas é que estou através do telefone correndo atrás de um bandido nas várias estradas de ferro suíças. Ele foge de uma estrada de ferro para outro, eu estou correndo atrás dele.”

* No teatro, assistindo a Aida

À noite vou ao teatro. Representavam aquela ópera de Verdi — não tinha outra coisa melhor para ver do que o Verdi — aquela ópera de Verdi que era a “Aida”. Um teatro enorme! Era um teatro marca Anhembi… Bem, um povo enorme, se fazer barulho, e ativamente, durante a sessão, levando crianças — naquela hora da noite não se leva criança — e uns “groom”-zinhos vendendo balas, bombons, chocolates para a criançada. E a criançada comendo, comendo, comendo.

Começa a cantoria de Verdi. Canta, tem coisas apreciáveis. Eu não sou tão anti-Verdi quanto é muita gente. E o povo acompanhando aquilo. Em certo momento, chega a hora da Aida entrar como triunfadora, num carro puxado por bois. E entram de fato os bois na cena! Ah, quando os bois entraram eles não se contiveram de entusiasmo! E aí aplausos, aplausos, aplausos! Os bois nem olharam de lado para ver o que era. Aquela coisa, entende?

Eu me levantei e sai. Não estava com vontade de ficar. Estava cansado, fui dormir.

* Arquetipias que o Senhor Doutor Plinio tirava dessas observações

Naturalmente, sai com o seguinte panorama: que havia uma Suíça anhonhozada, amodernada, deteriorada pela Revolução, pousando como uma camada psicológica sobre a Suíça do Lago Léman, do Castelo de Chillon, e de todas aquelas outras coisas. E que era uma Suiça moderna, com um estado de espírito determinado.

Qual é esse estado de espírito determinado? É uma espécie de hollywodização da Suíça, como todos os outros povos passaram. Onde apenas o desejo material, o gozo material, a vantagem material predominavam, num país com pouca possibilidade de progresso, e portanto onde a ânsia de ir para frente não ia. E aquele jeito, aquele gosto do self made man americano não tinha onde caber ali.

Então era preciso organizar uma prosperidade de ouro, pacata, tranquila, cultivando ininteligências como o modo de caber dentro daquilo, e completamente parada, sem ideais, sem nada daquilo que fizeram os grandes suíços de outrora.

Não precisa ser uma pessoa muito extraordinariamente inteligente para compor os dois panoramas, e ficar com uma idéia da Suíça como ela era em 1952.

* Confirmação das analises observando um grupo de suiços no Rio de Janeiro

Eu me lembro que uma vez estava no aeroporto do Rio, e chegou uma delegação em qualquer daqueles aviões, vieram uma série de suíços, que traziam todos umas bandeirolas suíças, a base era um disco de madeira, fincada dentro uma bandeirola pendurada. Todos eles passeando com aquilo.

E o Yves de Pontfarcy, o traidor, estava do meu lado. Eles passaram, e eu olhei para o Yves assim… E ele compreendeu o meu dardo em cima dele, e disse: “C’est regrettable. Il n’y a aucune doute! “ É a Suíça de hoje.

Agora, como é que pode ter repercutido sobre essa Suíça mais uma camada de mentalidade do Tratado de Helsinky, de política da mão estendida, e de todos os adoçantes errados e venenosos que caíram sobre o mundo, e que produziram a deterioração que deve ter produzido, mais a imoralidade?

Pode-se fazer um cálculo. Com base nesse cálculo, acontece uma coisa na Suíça, pode-se fazer um jogo de probabilidade do que houve lá.

* O discernimento dos espíritos entra com fosforescências ao longo do processo de analises psicológico

Que em tudo isso entra uma certa proporção de discernimento dos espíritos, eu vejo bem. Mas, é meio fosforescente ao longo de todo o processo psicológico.

* Tipo de vida revolucionário que atrai o suiço

Eu queria dizer o seguinte. Então os prazeres físicos da vida, degustativos da vida, a vida nhonhô, a vida despreocupada, etc., eram a forma de tentação revolucionária própria para aquela gente. Não pode ser, por exemplo, para um paulista do ABC. É completamente outra coisa. Não pode ser para um ricaço português que desembarca no Rio para fundar uma loja, ou abrir um restaurante. Ele tem desejos enormes de ficar riquíssimo. A gente compreende. Para isso ele veio para o Rio.

Se o suíço imigrasse, ele talvez prosperasse. Mas, naquela caixinha encantadora, ele tem que ser isso! Acontece que, tanto quanto eu saiba, eles imigram pouco. Pode ser que eu me engane.

Ou eu estou errado nisso, meu Guerreiro, que me olha tão fixamente?

* Arquetipias da Revolução Francesa: o casamento de Luix XVI com Maria Antonieta

(Sr. GD: É que nunca me ficou tão claro o papel decisivo que tem o estudo da Revolução Francesa para a formação do caráter contra-revolucionário da TFP.)

Huuuuu! Você quer ver, Guerreiro, se não há um projeto de Deus em consentir que pessoas tão violentamente opostas, e gritantemente arquetípicas, se casassem, como Luiz XVI e Maria Antonieta? Não foi para dar aos homens uma lição de fundo moral e religioso? Tinha que ser.

(Sr. GD: Coisa tremenda isso.)

* A dedicação de Madame Elizabeth

Depois, você pega o lado da miséria humana. Você quer ver o que é dedicar-se? A Madame Elizabeth, a irmã de Luiz XVI, estava lá evidentemente por dedicação. Ela poderia ter fugido a tempo, poderia ter dado outro rumo à vida dela. Aparecem nas cartas de Maria Antonieta — e não é só, até no Templo, em coisas que ela diz, que vieram até nós, etc. — coisas que Luiz XVI e ela ficariam bem felizes que a Madame Elizabeth não estivessem com eles, porque só servia para atrapalhar!

Quer dizer, ela estava ali se matando de dedicação! E as pessoas a quem ela se dedicava, a tomavam assim.

(Sr. Poli: A própria Maria Antonieta diz isso?)

Também. Eram pessoas educadíssimas, há bilhetes entre elas, por exemplo, em que Maria Antonieta trata a Madame Elizabeth de “ma soeur”, minha irmã, etc. Quer dizer, o auge da gentileza. Mas isso é gentileza que teria em Versailles, não exprime o fundo dos sentimentos.

Mas, isso também não é arquetípico da ingratidão humana? Quer dizer, no fundo eles dois não eram, a sua maneira, cada qual um egoísta? E não aparece o egoísmo em cena?

* Os arquetípicos irmãos do rei

Quer dizer, tudo na Revolução Francesa é tão típico… Eu não vou alongar a reunião tomando os dois irmãos do Rei, o Conde de Provence e o Conde de Artois. O típico de cada um dos dois: um, uma raposa velhaca como tudo, ateu até o fim, e bancando o seu papel por jogo — era o Conde de Provence; e o Conde de Artois a personificação da frivolidade, da curteza de vistas, uma curteza de vistas que chegava a ser misteriosa, não se compreende que um homem possa curto de vistas assim, e qualquer coisa do cavaleiro medieval!

Tudo isso é muito arquetípico, é muito dos tipos ecléticos, que não chegam a limpar seu ecletismo para serem monolíticos, ordenados e direitos. Tudo isso entra na Revolução Francesa de modo fantástico. E conhecer a Revolução Francesa é mais ilustrativo do que conhecer o próprio protestantismo. Até lá vão as coisas.

* Uma luz que há no Senhor Doutor Plinio que faz ver essas arquetipias em qualquer povo

(Sr. PHC: Agora, para conhecer esses personagens todos, esses povos, a Suíça, por exemplo…)

A Tailãndia! Luiz Daniel vai fazer uma projeção, eu tenho certeza que eu terei o que dizer sobre a Tailândia.

(Sr. PHC: Pois é. E isso estava por detrás da pergunta do Sr. Guerreiro, quer dizer, conhecer a situação real, atual, aqui do Brasil, como o Sr. a descreveu hoje à tarde, é esse algo a mais. Porque isso nunca houve na História. E uma vez explicitado, a gente vê que não pode ser diferente… Isso aí que me parecia estar por detrás da pergunta do Sr. Guerreiro.)

(Sr. GD: A gente vê que o Sr. não tratou desse dom em si mesmo, mas de um modo indireto, quer dizer, vendo a luz batendo em um fato, o que o Sr. vê do fato. Mas, o Sr. não tratou da luz.)

* Diversos modos de operar do discernimento dos espíritos

Você precisa, meu filho, distinguir duas coisas. Uma coisa é pegar um panorama psicológico, e outra coisa é discernir, perceber um fato concreto. Hoje à tarde eu percebi um fato concreto, e não um panorama psicológico — com base no panorama psicológico do girondino. Mas, eu de fato encontrei um fato concreto. Outra coisa é perceber como está a Suíça hoje, que é um panorama todo ele puramente psicológico, à distância e sem fato concreto.

Nas duas entra um auxílio da Providência, da graça, e um certo discernimento dos espíritos. Mas que não opera exatamente do mesmo modo. (…)

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