Conversa de Sábado à Noite (Sub Gravi) – 1/4/1989 – p. 18 de 18

Conversa de Sábado à Noite (Sub Gravi) — 1/4/1989 — Sábado [Rolo JC 6] (Flávio Lorente)

A elaboração do livro está no seguinte pé:

O livro está escrito com acréscimos ao que vocês viram. Quer dizer, tem uma espécie de teoria da nobreza, mas em que é preciso andar com muito cuidado, porque Pio XII — o negócio do livro é o comentário de Pio XII — de fato não deu uma teoria geral da nobreza. Ele deu pontos de uma teoria geral da nobreza. E os há bem interessantes, etc., mas apenas pontos. E eu não posso acrescentar coisa minha, que não veio dele, sem perder completamente a credibilidade.

Isso deu todo um problema, acabei fazendo uma espécie de introdução, que é declaradamente minha, mas que explica muita coisa dele que ele diz, etc., isso vai.

(...)

Com resumos muito densos feitos pelo FLB [Fernando Larraín Bustamante?]. Então a gente tem que ver com cuidado. E o Fernando Gonzalo manda avisar que pelo Caio está chegando outra tonelada de papéis. E é prudente ver, porque de repente tem alguma coisa que a gente está engajada numa afirmação que não é historicamente verídica, uma coisa assim, e eles caem em cima.

E eu estou nessa perplexidade. Descobri naturalmente algumas coisas muito bonitas, como, por exemplo, uma coisa que me agradou muito ver, que na Espanha a condição pessoal de nobre, que é uma coisa inferior ao título de nobre — o sujeito nobre sem título, o Zayas... segundo o Mário Navarro é o nobre sem título, mas a gente vê pelo jeitão dele que ele é nobre —, essa condição de nobre sem título, ela era dada a todo chefe de família que tivesse em um dos reinos de Espanha mais de 9 filhos, em outro, mais de 7 filhos.

Bem, mas você compreende, qualquer “prequeté” que tem 7 filhos, 9 filhos, elevado à nobreza... é muito bonita a idéia, mas não acertou bem a conta. Resultado: que quando a nobreza foi abolida ficou só com o nome, mas como status político foi abolida em 1820 e pouco ou 1830 e pouco, a Espanha contava 500 mil nobres. Porque “prequeté, tatá”, título de nobreza, título de nobreza, numa nação que tinha talvez 10 milhões de habitantes. Quer dizer, que para cada 20 espanhóis um era nobre. Você compreende, não é possível! A coisa está mal calibrada.

Mas, de outro lado, uma idéia muito bonita. Então, como interpretar isso? Como fazer? Assim, uma porção de coisas que é preciso...

(Sr. Gonzalo Larraín Bustamante: O senhor não terminou ainda. Vai continuar nisso.)

O resultado é que vai continuar a me absorver. Agora, conto bem que assim como eu fiz com esse fim de semana, não haverá mais. Eu fiz isso para dar um empurrão, porque estava com a matéria extraordinariamente atrasada. Mas eu conto que isso não haverá mais.

(Sr. Carlos do Espírito Santo Hofmaister Poli: Rendeu bem o trabalho?)

Rendeu. Graças a Deus, rendeu bem.

E há mais alguma pergunta, meus caros?

(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor tem tratado sobre Elias e Henoc, etc. A não se confirmar essa hipótese, o que o senhor considera dentro desse horizonte, como coisa plausível para que a TFP continue a encontrar na opinião pública recursos para tocar a vida dela para frente. Não sei se o senhor compreende como é uma coisa perplexitante, no cenário da luta da TFP.)

Muito perplexitante. Mas eu acho que a palavra “plausível” da sua pergunta é uma palavra normalmente empregada numa pergunta assim, precisaria passar por uma interpretação mais precisa. Quer dizer, nas situações extremamente tensas, etc., o plausível não resolve as coisas. Nas situações de grande perigo, o plausível não resolve as coisas. A gente tem que passar pela estrada do improvável, e na estrada do improvável a gente vê o que é que faz e o que não faz.

Quer dizer, tem de esperar da Providência um gênero de auxílio que seja improvável. Não há outra coisa. E o caminho é a confiança. Quer dizer, aqui está propriamente a confiança. Quer dizer, se delineia uma situação improvável, de solução improvável, mas por causa da confiança se tem a plácida expectativa de alguma coisa que apareça, que resolva.

O que eu não creio que se possa resolver, essa atitude da confiança, tanto quanto me é dado observar nos outros e em mim, não se consegue ter sem uma pontinha de ajuda mística da Providência.

Quer dizer, sem essa pontinha, a gente pode ter todas as razões que queira, mas o ato de confiança dificilmente se desencadeia. É preciso sentir alguma coisa de místico para se compreender que é o caso de confiar naquela ocasião.

Agora, a Providência pode nos deixar numa espécie de noite no socorro místico.

(Sr. João Clá: Na pura ascese.)

Você conhece o caso de Santo Antão com a tentação do demônio, não? Santo Antão do deserto, o grande. Santo Antão foi tentado pelo demônio de um modo brutal! Mas de um modo brutal! E resistiu! Mas, de repente, ele se viu envolto em luzes, etc., viu que a luz reapareceu. E ele disse: “Senhor, onde estáveis Vós, quando vosso servo lutava contra o demônio?” E Deus lhe respondeu: “Eu estava em sua alma, resistindo!”

Quer dizer, é mística? O fato é que Deus estava naquela alma, pela graça, resistindo, mas sem que sentisse nada. Pelo contrário, ele não sentia a presença, mas a presença se dava. Com o que Deus deu a entender, que se Ele não estivesse presente, Santo Antão não resistiria.

Bem, agora, acho que nesse caso em que nós estamos, na medida em que a situação se aproximar, nós temos que ir pedindo a Nossa Senhora cada vez mais, que Ela nos dê uma convicção interior que participa... Porque a confiança é uma virtude que tem algo de profético, que participa do profetismo, e que nos faz intuir que isso deve ser assim. Como é que é? Também não sei. Mas deve fazer intuir.

(...)

Exatamente no interior da alma, que a bordoada no nosso adversário é tão forte, que nós devemos estar sujeitos a contrabordoada. Quer dizer, vale a pena! E apesar de ser um risco talvez contrário à virtude da prudência, considerada em seus aspectos correntes, por causa desse dado interior, vale a pena dar uma sapecada.

Agora, não sei se vocês querem entrar nisso?

(Todos –: Claro!)

Bom, agora, de outro lado, eu acho o seguinte: você veja como são os vaivens, e como é que vão maturando na cabeça de uma pessoa... De outro lado, acho o seguinte: que se uma coisa for muito claramente muito imprudente, se deve ter cautela com a voz interior. Mas, se a voz interior quiser, ela faz ver alguma coisa por onde a gente percebe que não é imprudência.

E exatamente, aqui toca o ponto. Eu não estou certo do que eu vou dizer agora, mas quer me parecer que nós estamos em termos de razão comum. Nós estamos tão encurralados, que é mais ou menos como o veado que está acuado junto a uma parede, no halali, e não tem outra saída. Ele costuma dar um pulo por cima de tudo, às vezes escapa. Mas às vezes cai. Cai, e aí está liquidado.

E às vezes a gente sente — sente, quer dizer, percebe pela análise das coisas — que é isso, que nessa situação nós vamos ficando. E que, portanto, nós ganhamos mais estrategicamente, ganhando alguns amigos, para enfrentar o adversário, do que não ganhando. Porque o adversário nós temos que enfrentar de qualquer jeito.

E isso para mim não está inteiramente claro ainda. Mas é exatamente nesse ponto que uma certa voz da graça me parece pôr uma espécie de ênfase de caráter psicológico. De maneira que eu, que não costumo fazer raciocínios dessa natureza: todo jogo é um jogo diferente, convém a todo custo salvar o feito até aqui, porque com esse feito até aqui nós chegamos até o fim, com mais tardança ou com menos, e isso não se repete. O feito até aqui não se repete. Não se pode contar com a idéia que o feito até aqui sendo desfeito, se refaça uma outra coisa. Porque isso vocês têm a consciência disso, do que é.

Então, nessa situação, o antigo raciocínio parece perder a sua força: a antiga tática, baseada na conservação a todo custo. E é mais a destruição a todo custo do outro que é a saída.

(Sr. Poli: Uma destruição...)

Do outro, do outro lado. Quer dizer, do adversário estratégico, político. A destruição dele a todo custo parece ser a meta. E eu vejo pela atitude de vocês, que vocês não estão achando absurdo o que eu estou dizendo.

(Dr. Edwaldo Marques: A meta deles também é essa.)

É. Porque até aqui, dos dois lados, em última análise vínhamos acumulando forças para nos jogarmos uns contra os outros. Mas isso por causa de... apesar de toda a disparidade [há] um certo equilíbrio de forças. Agora, se eles julgam que esse equilíbrio se rompeu, e pretendem pular em cima de nós, então vamos — para usar uma expressão muito ordinária, muito banal — almoçá-los antes que eles nos jantem!

(Sr. Poli: E o senhor espera do lance uma proporção que tenha o efeito de destruir o outro lado?)

Eu espero, a primeira coisa é uma mudança de quadro qualquer, por onde talvez se tenha uma saída. E espero, de outro lado, que se não houver uma saída, a gente tenha a possibilidade de se jogar em cima deles, e lhes levar prejuízos muito grandes!

No que é que está o prejuízo muito grande deles? Se, afinal, ficar no espírito de muitas pessoas a dúvida sobre se é ou não é verdade que com igualdade o mundo vai para o Inferno — porque indiretamente o livro diz isso, com igualdade absoluta o mundo vai para o Inferno —, se muita gente que eles queriam atrair para o consenso, não ficar de fora do consenso. E é, portanto, uma bomba desferida no consenso. É, portanto, no igualitarismo que é o ponto delicado do consenso. É ali que vai a bomba.

Agora, já por ocasião do “Em Defesa”, eu fiz um kamikaze, mas se chegar à ocasião de fazer um kamikaze agora, será que o que eu fiz com... [ilegível] ...e tantos para... [ilegível] ...eu não terei coragem de repetir aos... [ilegível]?! Então não vale a pena viver!

(Sr. Poli: É duro ser tentado contra qualquer coisa, mas ser tentado contra a coragem do senhor é muito difícil. Se há quem tem coragem é o senhor.)

São certas coisas que não são possíveis, afinal.

(Sr. Poli: O senhor em um artigo para “O Estado de S. Paulo” diz: “... e eu não temo a ninguém. Só temo a Deus e o pecado.”)

É verdade! Em última análise é. Não é dizer que eu seja um tontão, cabeça quente. Há muita coisa que eu temo. Mas em última instância, só temo a Deus e ao pecado.

(Sr. Poli: E todo mundo engoliu isso. Eu mostrei para vários, passavam adiante...)

Não, e depois dizer: “É fanfarronada dele, a vida dele não atesta isso, etc.”, também não. Quietos.

Agora, no fundo, tudo isso que eu digo pode atrair alegria, pode atrair admiração, pode atrair qualquer coisa. O instinto de conservação ruge...

(Sr. João Clá: Podemos nesse caso dizer como Henrique IV: “‘Tremblez, vieille carcasse.’”)

É, mas com um acréscimo: a gente deve pedir a Nossa Senhora que venha em nosso socorro, e que nos faça sentir a tal graça que nos torna heróis.

(Sr. Gonzalo Larraín: Agora, eles não podem fazer o silêncio sobre isso?)

Eu tenho a esperança, pelo o que eu vejo — vi agora na Europa —, eu tenho a esperança de uma certa parcela da nobreza da Europa concorde conosco. É essa a minha esperança. Essa esperança não é uma certeza. Mas quando eu fiz o “Em Defesa” eu tinha esperança que uma parte do clero topasse a parada. Essa esperança não se realizou, nós fomos esmagados. Mas a experiência mostrou que, esmagados, nós os esmagamos. Porque a Ação Católica morreu.

(Sr. Gonzalo Larraín: E a Democracia Cristã em conseqüência.)

Democracia Cristã em conseqüência. Quer dizer, todo o projeto de esquerdização do Brasil, naquela ocasião, foi um projeto que nunca os Jangos e os Jânios conseguiram substituir; esse projeto morreu. Até agora não conseguiram.

O medo deles de doutrina é tal, que eles não discutem mais em torno de doutrina. O único argumento que eles têm é o seguinte: “Eu sou Bispo, e afirmo que isso é assim. Isso é porque eu sou Bispo, ou porque sou Cardeal”. Mais nada. Agora, você compreende que se eles pudessem dar uns argumentos de razão, como eles recorreriam a isso!

Mas é por quê? Porque eles sabem que se abrir a boca, vai uma tapona na boca e lhes quebra alguns dentes. Então ficam quietos.

(Sr. Paulo Henrique Chaves: Agora, a esperança que o senhor tem hoje de que uma parte da nobreza adira ao senhor, essa esperança é mais forte do que a que o senhor teve a propósito do “Em Defesa”? O senhor acha que ela pode vir a se tornar uma certeza?)

É. E não é uma loucura isso. Porque o número de pessoas da nobreza espanhola que deram apoio ao livro foi bem grande. Um livro prepara o horizonte para isso. E também o número de nobres franceses, mas de muito boas casas, que deram apoio ao Aperçu, aquela história [do] mailing, mas é muito bom. Coisas que não vinham à tona, pelo menos, quando em outros “séculos” ou em “eras” — podia se dizer “séculos” — passadas eu estive na França, na Espanha e outros países.

De maneira que a gente precisa ter naturalmente muito cuidado, precisa saber manejar com jeito, etc., mas isso é assim.

Agora, alguém dirá:

— “Está bem, mas tudo isso, Dr. Plinio, no total, não é uma aventura? Já a nossa vida não é uma aventura? Afinal nós estamos andando, andando, andando, andando, e é como a estrela dos Reis Magos. Nós concordamos que vai à nossa frente uma estrela. Mas até agora essa estrela não chegou a Belém.”

Podia se fazer essa objeção. A resposta é:

— “Meu filho, se vai andando uma estrela na sua frente, confie! O resto é conversa. Você terá a sua confirmação no momento em que for o da Providência!”

(Sr. Gonzalo Larraín: Porque a tentação de ficar numa perpétua catacumba assim, é muito asfixiante. A perspectiva de uma facada dessas areja, e é uma coisa colossal!)

Mas depois precisa também considerar o seguinte: é que na realidade o acumular das circunstâncias, pondo claro que a Bagarre está vindo... porque isso ninguém duvida! As pessoas mais distantes de nosso ponto de vista, etc., acabam percebendo, intuindo de um modo ou de outro, que está vindo uma coisa colossal.

(Sr. João Clá: Uma aurora austral até na Namíbia...)

Até na Namíbia! Uma coisa do outro mundo! Bem, acaba acontecendo que nós vemos que o primeiro passo do que esperamos está chegando, que é a Bagarre!

(Sr. Gonzalo Larraín: O senhor diz que a “Bagarre” chega, mas chega e não chega, pergunto. Porque aurora boreal à parte, a convergência também vai caminhando...)

Não é tanto assim, meu filho. Por exemplo, que os Estados Unidos da Europa pararam e estão em crise, é fora de dúvida. As notícias não falam mais, estão de caquet baixo.

(Sr. João Clá: Por exemplo, 1989, deveriam estar comemorando o bicentenário da Revolução Francesa com bumbos e “platillos”...)

Nada!

(Sr. Gonzalo Larraín: Mas isso não faz parte da convergência?)

Isso faz parte da convergência, mas não irá para frente os Estados Unidos da Europa, não é. A coisa está... Quer dizer, a coisa é muito... Alguém dirá:

— “Mas, Dr. Plinio, isso não oferece a segurança que tem o cidadão na sua vida comum”...

Eu digo:

— “Ah! Isso, eu entrego os pontos! Eu entrego os pontos desde logo.”

Alguém dirá:

— “Não me oferece segurança que tenha Leistung para agüentar.”

Eu entrego meus pontos desde logo: também é verdade. Ninguém tem Leistung para agüentar isso. É preciso ter...

(Sr. Gonzalo Larraín: Para agüentar o quê? Perdão!)

Para agüentar o peso da perspectiva que está diante de nós.

(Sr. Gonzalo Larraín: Mas não é a perspectiva do ar puro, mas a perspectiva de que continua a situação como está.)

Não, eu estou dizendo o contrário. A perspectiva do puro.

(Sr. Gonzalo Larraín: Do que decorrer do assunto.)

É, do que decorrerá. Eu digo. Não, é claro. Se eu me resolver fundadamente a um passo desses, é evidente que eu preciso contar com tudo. É kamikaze.

(Sr. Gonzalo Larraín: Nesse sentido é mais aliviante...)

Do que a catacumba. Ah! Eu concordo! O catacumbal é asfixia. Asfixia. Agora, naturalmente, precisa contar também com outra coisa...

(...)

Eu não sei se estava no exemplar que vocês leram, mas é uma forma de organização social e econômica, que em certa medida já existiu, mas em alguma medida não existiu e ninguém propôs, que é... eu desenvolvo com base na idéia de família...

(Sr. Gonzalo Larraín: Isso nós não temos ainda.)

(...)

É a idéia de que... Eu vou expor em termos que não está no livro, apenas para ficar mais breve a exposição.

Mas você pode comparar, por exemplo, a organização de um povo, por exemplo, de uma monarquia, ou mesmo numa república, pouco importa, você pode comparar isso a uma pirâmide... Numa república, nos Estados Unidos, se quiser, ou a Suíça tem no alto o governo. Depois tem uma sociedade como ela é hoje, e mais ainda como ela foi no Ancien Régime. Então era o rei. Tem no alto o governo, depois tem embaixo as camadas sucessivas de pessoas intermediárias entre o governo e o último estrato, o mais baixo. Depois tem no fundo o último estrato, e está acabado.

Agora, dir-se-ia que se podia fazer a pergunta qual é dos dois que é mais poderoso, ou, se quiser, dos três: o do cone, em cima, que tem o poder, o de baixo, que tem o número, ou se é o elemento intermediário?

E se diria que o elemento intermediário é o mais fraco. Porque ele nem tem do poder senão umas parcelas, e às vezes nem isso, e nem tem do número alguma coisa de expressivo, de decisivo. E que, portanto, ele é destinado a ser imprensado.

Agora, isso é verdade, teoricamente falando é verdade. Agora, na realidade acontece que o mais importante para a direção de um país está no seguinte ponto: é que mesmo no estrato mais baixo, toda a organização social se compõe de grupos, de pequenas entidades, que essas entidades vão se escalonando e constituindo até as mais altas entidades por cima das quais está o governo.

E a prova disso é a família. Porque numa sociedade bem organizada, a família se encontra inclusive nos estratos mais baixos da sociedade. Mas a família tem, quando ela é bem organizada, uma força, uma vitalidade, uma possibilidade de entrelaçamentos entre si, e relacionamentos entre si, que constitui toda uma rede. Que pode muito mais do que uma multidão desgovernada e avulsa na Praça da Sé, ou pode muito mais do que o governo, se se virar contra o governo.

E, sobretudo, se nós imaginarmos as coisas como devem ser, que são não de pensar num indivíduo avulso — que é o deus do sufrágio universal —, mas pensar num governo, numa ordem social toda feita de baixo para cima, de famílias que vão então até o alto, depois, de organizações, profissionais, literárias, científicas, e de outras coisas que você queira, mas a começar no operariado e depois subindo, e que as duas coisas se conjugam a organização profissional e a família.

Porque a família recebe um elemento de continuidade, de talentos, de possibilidades, de aptidões, etc., que faz com que naturalmente os seus membros freqüentem certas associações, e que a família tenha muito mais influência nas associações do que as associações têm nas famílias. E que a influência das famílias leva a haver uma certa continuidade nas associações, e a formar, portanto, elites hereditárias dentro das associações.

Se a gente imaginasse uma organização de sapateiro, de filatelistas ordinários que compram selos e que vão vender e comprar entre si, e de colecionadores de moedas, e de clubezinhos que jogam xadrez, o que queiram; se esse micro-mundo estiver ao lado de uma organização de famílias possantes, ao cabo de algum tempo acaba se estabelecendo uma como que continuidade familiar dentro dessas organizações. E como as famílias atuam como indivíduos com a sua situação hereditária e, portanto, desiguais entre si como são desiguais os indivíduos, acaba sendo que se formam elites dentro.

E se todo mundo explicitar e bafejar o papel dessas elites, você tem uma sociedade de elites de ponta até a ponta, em que em nenhum momento aparece uma plebe desorganizada e solta nas mãos dos desordeiros; em que em nenhum momento aparece também um monarca absoluto que pega esse tecido social e faz dele o que quer. Mas é um tecido vivo que dá descargas elétricas em quem mexa contra ele, contra a própria lei.

(Sr. Paulo Henrique: Mas isso é um modelo que o senhor imagina para o Reino de Maria?)

Para o Reino de Maria.

(Sr. Paulo Henrique: Porque agora a família...)

Ah! Não! Acabou! A pergunta é a seguinte: como deveria ser organizado. E depois de pensado o que eu estou dizendo, meu filho, você chega à seguinte conclusão: ou se realiza isso ou não sai nada. Pode ser que isso seja irrealizável! Então vamos dizer que o mundo acabou. Porque ou se realiza isso, ou não se realiza nada. E as próprias famosas discussões sobre a monarquia e república, não sei o quê, elas morrem dentro disso.

E tem o seguinte: há na família, como ela se constitui, uma reação — na família bem constituída — simultânea contra a dejadez que leva uma família a decair, e também contra o excesso de velocidade que leva a família a querer a todo custo subir de qualquer jeito. Há uns freios, uns breques meio automáticos dentro da família bem constituída, por ela ter um certo modo de extrapolar, de repente, de seu próprio ambiente. E que, por causa disso, ela mesmo freia o “arrivismo”, o “parvenuzismo”, o desejo de fazer fortuna custe o que custar. Mesmo porque, ela faz apreciar uns certos brios de alma, um certo convívio, uma certa tranqüilidade, uma certa estabilidade e harmonia, com um bem maior do que a ascensão social e econômica.

(Dr. Edwaldo: Cada um tem seu lugar.)

Cada um tem seu lugar. E depois, outra coisa, não tem vontade de sair na disparada.

(Dr. Edwaldo: A sociedade hoje está tão partida, que cada um aí é avulso.)

Mas em grande parte porque a formação que a família deveria dar não existe, porque as famílias não há mais.

Bem, e aí um ataque contra nosso aristocratismo não cabe. Porque não é uma sociedade de elite contra uma sociedade de ralé desconcatenada.

(Sr. Paulo Henrique: Esse problema não existe...)

Dentro desse pressuposto, a gente examinando como são as famílias, isso é assim. Há certas máquinas por aqui, suponho que metrô seja assim também, que tem umas coisas automáticas, por onde correm, mas breca a própria corrida, etc. A família é, por excelência, isso. Ela é contrária a expatriar-se para cima como para baixo. Ela é conservadora, com uma tendência à melhora, lenta. Mas essa tendência se dá plutôt melhorando a própria condição do que saindo de condição.

[Sr. –: Está magnífico, precioso!]

(Sr. Paulo Henrique: Isso dito, fica um escudo na defesa que o senhor tem a respeito da teoria exposta.)

Mas um escudo tal, que eu duvido que haja quem possa contestar isso.

(...)

Não é, portanto, um muxoxo desdenhoso, mas é, pelo contrário, atenção, complacente, benévola, que toma em consideração. Não é um jujú, não é um brinquedinho, não são anõesinhos. Pelo contrário, a verdadeira fita métrica são eles. O rei é grande porque tem muitas formigas dessas. A estatura dele se constitui de uma grande concatenação de formigas dessas. E, portanto, a medida é a formiga, não é o rei.

Então, vocês tomam, por exemplo, às vezes eu brinco a respeito de Morungaba, cidade feia, etc. Mas se eu fosse viver em Morungaba, eu creio que eu perceberia que Morungaba tem coisas dessas, inclusive tem umas familinhas tradicionais, tem seu não sei o quê, tem isso, aquilo, aquilo outro, que tem muito mais valor do que parece à primeira vista.

E é de uma visão assim de Morungaba, por onde tudo o que está abaixo de mim é chão reles. É a visão de defeito da aristocracia e que faz ver tudo errado.

Bem, mas não parece a vocês, pelo o que eu digo, que lançar isso...

(Todos –: “Huuuu!”)

Bom, você vê de um lado o furo deles, hein? Mas você está percebendo o poder de conquista que isso tem?

E o curioso é o seguinte: que vocês não me fazem a seguinte pergunta que poderiam fazer: por que é que até agora eu não disse isso? Mas é que é, assim como eu estou dizendo — eu disse fragmentos disso —, só me ocorreu escrevendo o livro.

(Sr. Poli: Na RCR o senhor diz que o grande objetivo da Revolução é acabar com os organismos intermediários.)

Sim, isso eu digo. Mas essa descrição com base na família, esse funcionamento da família dentro do mecanismo das desigualdades...

(Sr. Poli: Aquilo é o embrião.)

É o embrião está. Isso eu sei bem. Mas assim com esse deployement não está. E eu acho que...

(Sr. Guerreiro Dantas: Mas isso está extraordinário!)

(Sr. Paulo Henrique: O senhor explicitou algo disso na Comissão Médica, a respeito da organização político-social do Reino de Maria.)

Isso, exatamente. E aqui você vê também de outro lado como isso é de acordo com o Reino de Maria. A bênção de Nossa Senhora que pode haver sobre uma coisa dessas é extraordinária. E, sem que eles percebam, fica dita uma coisa que nós temos dito inúmeras vezes, mas sem o exemplo concreto não pega. É o seguinte: a família só vive da vida espiritual, só vive da religião e da Fé. Se não tiver isso na família, ela fica insuportável. Mas fica insuportável.

(Sr. Guerreiro Dantas: O princípio vital da família é o sacrifício.)

É o sacrifício.

(Sr. Guerreiro Dantas: Das partes entre si.)

Exatamente, de se suportarem, se tolerarem, etc.

Eu tenho uma parte que eu não escrevi nisso, mas que eu refleti, e que hoje à tarde eu fiz até objeto do chá para os meus venezuelanos. Eu estou muito loquaz só do que eu penso... não estou ouvindo quase. Mas é o seguinte: na família, o que faz esse sistema de breques e de propulsões da família, em parte é o seguinte:

Um conceito que está no modo do homem tomar a própria vida, que a Revolução deformou profundamente, sobretudo no que diz respeito à família, e que é o seguinte:

A Revolução destemperou os caracteres, e todo mundo sonha com determinados sonhos de felicidade. São sonhos malucos: um quer ter um Rolls-royce... mas todo mundo acaba tendo esses sonhos assim.

E se a pessoa não conseguir isso, ela se considera infeliz, porque isso com que ela sonhou não chegou. Isso é a vida corrente: a pessoa queria levar a vida de uma atriz de cinema, se é uma mulher, de um ator, se é um homem. Lá vai daí para fora as mil gagueiras, eu não tenho que tratar disso.

Agora, qual é a verdadeira noção da felicidade na Terra, segundo a Doutrina Católica? A Terra é um lugar de exílio aonde nós viemos para sofrer. Mas não basta dizer que isso aqui é um inferno. Porque não é verdade. Tem situações que são à maneira de um inferno, mas são passageiras. O grosso da vida de um homem se passa numa mistura de aspectos agradáveis e desagradáveis. Mas que em geral dão um pequeno saldo a favor do agradável, que torna essa situação suportável para um homem que não tem quimeras.

E a definição de felicidade, a única séria, é vocês aceitarem o suportável como a própria definição da felicidade. Isso, você quer ver no que é que isso está na raiz da família? Quando uma família é assim, aí ela se sente feliz no seu próprio convívio. Porque ela leva esse afeto paterno, filial, fraterno, essa coisa toda, dá saldo sobre os inconvenientes do convívio, que sempre exige sacrifícios. Sempre A tem queixa com B, e acontece não sei o quê, não sei o quê. Isso estoura na desagregação da família, quando alguns começam a pensar em quimeras. E quando não pensam em quimeras, mas têm essa doutrina da felicidade igual a suportabilidade, aí se cria uma espécie de bom entendimento recíproco que é a alma da família.

Bem, e aí é que a família ao mesmo tempo impele, mas breca, impede ir longe demais, etc., é quando ela faz gente habituada ao suportável. Ao suportável no gênero dela. E nem quer subir muito, porque ela tem medo da vertigem do delicioso. Há um certo medo do delicioso na família bem conservada. E, pelo contrário, na família mal conservada é um tropel rumo ao delicioso.

Bem, e as próprias relações tão delicadas marido e mulher, se tornam insuportáveis, porque ambos sonharam o sonho romântico do casamento perfeito. E é o erro. O casamento perfeito não existe. O casamento feliz é com uma mulher suportável. Quando os dois se suportam, com pequeno saldo de bem-estar, está consagrado o casamento feliz. Isso eu não vou pôr no livro.

(Sr. Guerreiro Dantas: Não?! O senhor não porá nada disso?)

Penso não pôr... A sua surpresa me deixa um pouco na dúvida. Talvez seja o caso [de] pôr. Mas é que se afasta demais do tema.

[Todos argumentam no sentido de pôr.]

Mas olhe, o livro está ficando enorme, hein?! O que eu acho é o seguinte: que não se pode compreender o igualitarismo a não ser rompido esse equilíbrio, e levando o indivíduo a sonhar. Então, ele quer ser nobre, quer ser...

(Sr. João Clá: Quer ser Deus.)

Não há mais, hein! Satanás teve disso. Se você vai ver a relação entre os anjos, não há nada de desagradável. Mas o sonho de ser o que não se é, não está presente nas hierarquias angélicas. E senão o Céu seria um Inferno! Agora, lá embaixo está tudo desencadeado, é uma porcaria que nós sabemos!

(Sr. João Clá: E a hierarquia celeste é muito mais rígida do que a hierarquia humana.)

Muito mais. Não pode ser comparada a uma pirâmide. Nem é uma torre, é um fio de linha.

Quem nunca me explicitou isso, mas me fez conhecer isso... [Sr. Dr. Plinio aponta para o Quadrinho]. Enormemente!

(Sr. Poli: Esse capítulo do livro podia se encerrar com uma fotografia do Quadrinho.)

É, podia ser. Aliás, você olha aqui. Ela tem consciência do que ela é. Mas não há o menor desejo de ser outra coisa. Está ali, o que é que tem? Aliás, alguns de vocês a conheceram, não podem ter notado nela o desejo de... Não. É uma coisa normal, etc., está acabado, tão direito...

(Sr. Gonzalo Larraín: Agora, tem um sabor de bom senso. Isso que o senhor disse.)

É que eu acho que o sabor de bom senso está em tudo, mas aqui está o ponto de partida. De maneira que é mais intenso aí.

(Sr. Guerreiro Dantas: Eu pergunto se o corolário disso não é necessariamente a família numerosa.)

Necessariamente. Isso está no livro. Isso eu pus no livro.

Bem, agora aí vocês têm diante dos olhos verdadeiramente a dosagem de risco do jogo. Quer dizer, vocês têm também mais diante dos olhos a capacidade de [dono?] no adversário. Ainda mais com a idéia de fazer-se com a intenção de pegar famílias que ainda tem essa visualização das coisas. Quer dizer, uma coisa muito, muito boa.

Mas dissocia toda essa obra das noções do grã-finismo, de alta aristocracia puramente citadina, aristocrática, etc., dissocia completamente. Para dar outro aspecto, em que nós mesmos nos encontramos explicados para nós.

(Sr. Paulo Henrique: Famílias veiculadas de tradição.)

Tradição é isso. Sem isso não tem tradição.

(Dr. Edwaldo: Uma sociedade assim tem o “lumen” de Nosso Senhor Jesus Cristo.)

Tem, tem o lumen de Nosso Senhor Jesus Cristo.

(...)

Não sei todos juntos nos damos conta da mesma coisa. Mas aqui é a apresentação. A TFP entra em cena apresentando pela primeira vez todo o seu modelo ideal. Pretexto: comentar os documentos de Pio XII. Mas não é só pretexto. Você lê os documentos tem algum fundamento lá.

Agora, eu pergunto exatamente isso: se uma coisa dessas está na nossa cabeça, nós podemos deixar que venha a Bagarre sem termos escrito isso antes? Podemos fazer isso? Agora, de outro lado, temos direitos a arriscar tudo, para comunicar isso a essa gente que está aí?

(Sr. João Clá: Isso, antes de tudo, é um lance a ser feito diante de Deus. É um desagravo a Deus que só o senhor pode fazer.)

A Contra-Revolução para chegar à sua ponta, não tem que fazer essa proclamação de Deus, antes da Bagarre vir?

(Sr. João Clá: E é simbólico que o senhor faça isso aos 80 anos. E quando a Revolução vai colher os frutos de 500 anos de trabalho, uma funda de David acerta a cabeça do gigante.)

Mas tem uma coisa de terrível dentro disso. Você sabe o que é? Contra a Revolução, a favor nosso é que essa fórmula que eu apresento é verdadeiramente um ponto de convergência de tudo quanto é bom. Porque o indivíduo que honestamente, e dentro dos princípios de Leão XIII, queira qualquer forma de governo, ou de organização social, não pode deixar de querer nessa perspectiva. Mas se quiser nessa perspectiva a democracia da Revolução fica aguada, e não pode existir. Não vai.

(...)

Uma aspiração monárquica, na aristocrática ou na democrática, se encontra aqui. E nesse sentido, portanto, eu explicito melhor o que eu disse há pouco, nesse sentido é um ponto de convergência. Não como os revolucionários, mas de todos os contra-revolucionários entre si.

(Sr. Gonzalo Larraín: Isso bem distribuído cria um caso...)

Cria um caso medonho! Bem, mas veja bem, o princípio que fica posto aí é o seguinte: a primazia da vida espiritual para manter o homem capaz de conceber, de aceitar e de pôr em prática esse princípio do pequeno superávit de bem, de felicidade, ou isso vai por meio da graça, ou isso é uma construção no ar. Uma linda construção, mas no ar. Uma ficção.

[“Justus meus ex fidei vivet”?]. “O justo vive da Fé”. É preciso ter Fé Católica Apostólica e Romana, Fé na Igreja. Fé com admiração, Fé com devoção, com piedade, querendo a vida espiritual, sobrenatural, isso é o ponto de partida de tudo.

Bem, e dá à alma feita assim as três virtudes teologais. Quer dizer, isso aqui é o próprio borbulhar na ordem temporal da “sorgente” católica. O próprio. Por exemplo, eu não acredito que um país protestante ponha isso em prática.

(Sr. Paulo Henrique: Isso explica muito o lema “Tradição, Família e Propriedade”.)

Isso. Por que, qual é o ponto em que isso se baseia no chão, e como é que é?

(Sr. João Clá: Isso eles têm que engolir, ainda que seja grande e não passe pela garganta.)

A menos que o sujeito diga: “Não, eu sou um libertino, e quero levar uma vida de libertinagem”. Então, vá embora!

Quer dizer, vocês estão percebendo que é fato que é kamikaze. É um navio batendo com a quilha na quilha de um outro navio. Mas talvez em toda a nossa vida nós não tenhamos tido nunca ocasião de uma sapecada dessas. Agora, vale a pena deixar!?

(Sr. João Clá: Mas o problema nem se põe!)

Hahaha!”. Aliás, estava comentando com o Fernando Antúnez hoje, sobre o papel da família, uma coisa muito curiosa que eu vi em São Tomás. Aquele trecho que você me mandou, aqueles comentários, em certo momento vem um comentário de São Tomás assim entre as vantagens da monarquia. É que a monarquia é muito unitiva. Ora, a união é exatamente uma condição para tudo quanto é organizado viver. E, portanto, uma forma de governo que desuna é ruim. E isso se nota até na forma de governo que Deus deu aos animais, de quem Ele cuida especialmente.

Então, vêm tais e tais animais. Em certo momento fala da abelha. É o único animal que trata de “mãe”. Mater apis também faz assim. “Hahaha!”. A mater apis também faz assim! Você compreende o sabor que isso tem. Fernando Antúnez esteve me lembrando que na Liturgia da Semana Santa, creio que na Sexta-Feira Santa, fala também da vela, e então diz: “A vela, feita pelo produto da mater apis”. Bonito, não é? Muito bonito.

Bem, e aí está o livro. Você pediu para expor o livro, está aí o livro exposto.

(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor disse que sem a Fé Católica isso fica uma construção meio...)

Não é possível. Os homens não dão isso.

(Sr. Guerreiro Dantas: Agora, que esses princípios gerais explicitado, inerentes à própria sociedade, esses princípios só podem se sustentar duravelmente com o apoio da Fé Católica. Sem o apoio da Fé Católica não se sustentam.)

É isso.

(Sr. Guerreiro Dantas: Essa parte sociológica, primeira, para depois entrar na parte religiosa...)

Ah! Não, eu acho que primeiro é entrar na parte temporal, e depois, à maneira de quem responde uma pergunta, dirá: “Mas isso será viável? Não será uma construção concebida no ar? Olhe para os homens: eles são assim? Isso não é feito para uma humanidade que não existe? Você está fazendo um sonho?”. Porque muita gente diz: “Agora, nessa objeção ele roda!”.

E, “psssiummm!”. Agora, a questão é que para fazer isso dá um livro de uma espessura... Eu digo a vocês um outro aspecto: os espanhóis estão muito assustados com o tamanho do livro, ouviu?

(Sr. João Clá: Mas isso não é problema nenhum. Isso a gente cuida depois.)

Hahaha!”. Mas uma coisa que também é bonito nessa obra é o seguinte: propriamente, o que é a nobreza? O que é que faz a nobreza dentro disso? É uma bonita pergunta. A resposta é a seguinte: do que é que se diz uma coisa que ela é nobre? Você tem metais nobres, você tem uma linguagem nobre, você tem sentimentos nobres. Enfim, a palavra “nobreza” se aplica a uma série de casos, mais ou menos metaforicamente, mas com uma certa propriedade no caso. Não é assim como louco.

Agora, o que é propriamente a nobreza? A nobreza é o seguinte:

Toda criação é dividida em gêneros e espécies. E os gêneros são desiguais entre si, e as espécies, que são as várias categorias dentro do gênero são desiguais entre si também.

Agora, você propriamente diz que é nobre aquilo que realiza a seguinte coisa: é muito ousada a conclusão, mas está na lógica do que eu acabei de falar. Você propriamente chama de nobre aquilo que, pertencendo a uma espécie é tão excelente na espécie, que acidentalmente falando parece e pertence por uma analogia acidental à espécie superior.

Então, por exemplo, você toma um professor secundário. Esse professor secundário é tão bom professor, que de vez em quando o convocam na Universidade para dar uma aula, para substituir um catedrático, ou convocam para dar um curso universitário sobre uma matéria que esse professor secundário expõe. Porque o expor é o talento especial do professor secundário. Expõe de um modo magnífico! De tal maneira que ele é um habitué da universidade, continuando professor secundário. Essa posição dele o torna nobre em relação aos professores secundários.

O que é que é isso, um nobre? Ele continua professor secundário, não passa a professor universitário. Ele continua professor secundário. Mas ele tem qualidades tão excelentes, que ele dentro de sua posição toma uma série de acidentes da posição superior. E, por isso, enquanto professor secundário, ele é nobre em relação a seus colegas.

Vocês tomem a palavra “nobre” como quiserem, vocês encontram isso. Mas a objeção é essa: “Então, na mais alta das espécies não pode haver nobreza. Porque não existe uma coisa superior à qual eles podem ser congêneres, neles não há nobreza. E, portanto, o seu conceito é furado.”

E há uma resposta muito boa. E é a seguinte:

Nesse sentido último da palavra nobre é quem, no homem é aquele que realiza na ordem temporal e humana uma coisa tão excelente, que fica na linha de um gênero humano que não existe, e que seria como que os homens criados ab aeternu. Quer dizer, aproxima-se do sonho. Não é o sonho, mas é uma superação do homem pela qual ele tem algo de comum com criaturas que Deus de fato não criou.

E que no alto de uma organização social tenha que ter algo à maneira do sonhado, é verdade.

(Sr. João Clá: Pode ser algo de angélico.)

Também, também. Mas isso é uma necessidade do espírito humano. Ver e conceber as coisas assim, como uma espécie de élan que dá um salto [que] ruma a Deus.

(Sr. João Clá: O próprio Pe. Victorino tem um artigo baseado em Santo Tomás, em que ele diz que o homem tem uma necessidade de não ter a doutrina pura, mas de ver alguém que simboliza aquela doutrina.)

Isso. [Dê-me] isso também, que fica muito interessante.

Bem, então, nesse homem, tudo quanto diz respeito ao espírito, prepondera in genere suo, sobre o que diz respeito à matéria. Então, entre outros predicados que um homem assim tem obrigação de ter, ele deve ser magnífico, no sentido, por exemplo: Lourenço de Medici, o Magnífico. Ele tem que ser na linha da educação, na linha disso, daquilo, daquilo outro, ele deve ser meio um sonho. Não é um sonho, é muito mais do que um sonho, mas é o que a linguagem comum chama um sonho.

Bem, mas então, o resultado é que você tem — você veja como isso cai bem dentro da ordem — que existem nobrezas, ou ao menos, uma tendência a criar para-nobrezas em todo lugar onde se formam elites. Portanto, de alto a baixo da situação social, com as devidas proporções. Você tem algo de nobre, de alto a baixo.

E essa sociedade seria uma sociedade aonde você teria, ao mesmo tempo, algo de nobre espalhado por tudo — ao contrário da sociedade proletária, que essa nós não queremos —, mas de outro lado você tem várias formas de nobreza, quer dizer, várias modalidades de nobrezas distintas e desiguais, mas tem uma que é a nobreza por excelência, que essa é a nobreza anjo, ou a nobreza sonho. É a coluna vertebral.

Qual é a tarefa que corresponde a essa? Corresponde perfeitamente às duas modalidades que a nobreza teve. A nobreza feudal que derramava sua vida pelo país, etc. Depois, quando as guerras diminuíram — e aquelas guerras interfeudais, e com bárbaros, e com árabes, e com tudo... aquilo foi diminuindo — a nobreza dita territorial, dos que tinham extensões de terra nas quais eles eram os nobres, por serem os mais importantes, os mais “tátátá”. E, por causa disso, tinham uma obrigação de direção do bem comum naquela zona, e não só de cuidar do dinheiro. Era o “coronel”.

E as duas tarefas vão muito bem uma com a outra. Porque aquele que tem a direção de um conjunto, tem obrigação de dar sua vida pelo conjunto. Bem, então aí se compreende que essa seja a nobreza arquetípica, irmã das mil outras nobrezas. Enquanto falando de plebe, como se fala hoje, cheira à sociedade proletária. E isso assim é inaceitável, porque a proletarização é inaceitável.

(Sr. Gonzalo Larraín: Excelente. E isso está colocado?)

Eu até escrevi, meu filho,. Mas esbarra em dificuldades... tudo isso esbarra em dificuldades enormes. Eu li já vários resumos feitos sobre a nobreza de obras espanholas, e por nobre. Nenhuma dá essa noção. Bem, mas você sabe o que é? É o protesto de quem vai dizer: “Nobre nunca foi isso! Prove! Quem é o autor que já pensou isso? Isso você está fabricando! Olha aqui, D. Garciláceo de não sei o quê escreveu sobre a nobreza. Mais nobre do que você, que é um meteco sul-americano! Eu quero ver o que é que ele disse!”

No gênero da dialética você vê a dificuldade.

(Sr. Gonzalo Larraín: Só de espanhóis o senhor está tomando?)

Não, eu devo receber também de franceses. O Frederic e aquele outro estão trabalhando nesse sentido.

(Sr. Gonzalo Larraín: Mas isso só sai do senhor, não vai sai de outra pessoa.)

Eu acho que ninguém pensou nisso até agora.

(Sr. Gonzalo Larraín: O senhor tem direito de colocar um pensamento do senhor.)

Eu estou pensando numa fórmula intermediária, que é dizer o seguinte: “Será que subconscientemente a nobreza, como o povo a admite e como todos a sentem, não é uma noção que veio se fazendo dia ao longo dos tempos, e que encontraria nessa coisa a sua inteira explicitação?”

Então, eu sei que os autores não dão isso, não conheço um autor que dê. Eu pergunto o seguinte: quantas pessoas, nas várias classes sociais pensam na nobreza e sentem que isso exprime o que elas têm dentro de si? É uma tradição que vivia em todos, e que estava à procura de uma explicitação. Não será essa?

(Sr. Guerreiro Dantas: Não seria razoável que no limiar do terceiro milênio, se dissesse algo sobre a nobreza que até agora não foi dito, tomando em consideração tudo o que já se explicitou sobre ela?)

Mas, meu filho, não como um retrospecto do passado. A não ser uma tentativa de explicitar o que o passado tinha e ainda não explicitou. Aí pode ser. E que, de outro lado, é um elemento para o futuro. Porque assim concebida uma sociedade de elites, essas elites têm uma elite das elites. Não podia deixar de ser. Porque se uma coisa é plural, e se compõe de várias perfeições, tem que ter uma perfeição suprema.

(Dr. Edwaldo: É um tal arrasamento de idéia de democracia, que não sobra nada.)

Hahaha!”. Mas sabe o que é? Realiza a forma que São Tomás aconselha. Leão XIII também, da composição entre as várias formas. Ma é outra coisa que eles não tinham em vista. Mas essa é a sociedade e, portanto, o governo. E aqui está uma outra coisa que nós temos que falar daqui a pouco. É a sociedade e, portanto, o governo em que os vários elementos se somam. Porque aí cabe perfeitamente o elemento monárquico, cabe perfeitamente o bem comum representado pelo próprio povo.

E, portanto, é uma coisa que realiza, não à maneira da Câmara dos Lordes e Comuns, mas de um modo muito mais vivo, muito mais amplo e profundo! Isso é profundo! E me parece... é o canto da TFP! É cântico da TFP!

(Sr. Guerreiro Dantas: Depois que o senhor explicita uma coisa dessas, a gente sente que Nossa Senhora tem campo para dar graças para os homens durante mil anos de Reino de Maria.)

É. É exatamente. Depois, vocês querem ver uma coisa? Há quanto tempo nós vivemos dando voltas em torno desse assunto? Vocês devem ter em consideração que se um de vocês, por desgraça nossa, não concordasse com o que eu estou dizendo, mas um concordar de não querer, de estar entesado e não quer, rachava o Grupo. Por exemplo, essa comissão aqui, se se pode dizer assim, esse coetus se rachava.

Está bem. Eu expus sem o mínimo receio de não aceitarem. Em nenhum momento vocês devem ter tido a idéia de que eu estava receando que não fosse aceito.

Então, eu termino a reunião perguntando o seguinte: não é um pouco de Catedral Engloutie, mas da Catedral futura do Reino de Maria que toca dentro de nós? Não é um pouco do tocar de sinos do Reino de Maria que se mistura com o troar dos canhões da Bagarre?

(Sr. Gonzalo Larraín: Isso é muito o senhor.)

Nós somos inteiros isso! Nós somos inteiros isso. Quer dizer, a impressão que eu tenho é de que, apesar de ser uma reunião longa, e toda ela intelectualizada, etc., vocês saem daqui mais tranqüilos e mais distendidos.

(Sr. João Clá: Se a reunião tivesse começado às 6 da tarde, poderia ter durado até agora, tranqüilamente.)

Mas é verdade. É verdade. E fica muito bom. Agora, a meu ver, aqui, nessa hora, entrou também uma graça por onde as melhores apetências do começo da vocação se fizeram sentir. Bem, vamos dizer, quando vocês vinham do Chile, do Rio Grande, do interior, do Paraná, de Minas, vocês vinham atraídos por uma coisa que encontra nisso a sua plena explicitação.

E é, portanto, ao mesmo tempo uma luz da vocação que toca a sua Catedral en demi-Engloutie. E é o Reino de Maria que nos faz sentir os primeiros sinos da comemoração da vitória, do desfile, em que eu suponho que Nossa Senhora se faça sentir fisicamente presente, corporalmente presente, etc. É tudo junto.

E é, portanto, vamos dizer, uma conversa profética, em que o brilho do profetismo brilha aos olhos de todos nós. Como quem diz: “Meus filhos, estou demorando, mas notem, eu estou dando um primeiro sinal.”

Bem, meus caros, eu ia lhes dar ordem de manter a coisa...

(...)

Ditado pelo Sr. Dr. Plinio no sábado à noite, após o lanche

Continuação da Conversa de Sábado à Noite

[Gravação feita na noite do dia 2 de abril de 1989, consecutivamente a uma reunião de Sábado à Noite, e consecutivamente também à matéria tratada nessa reunião.]

1. – A exposição tomar caráter programático, com o enunciado do que seria a espinha dorsal de uma concepção de uma organização da sociedade humana vista segundo a Doutrina Católica.

2. – Esse enunciado de princípio é o mais breve possível, como está na índole de documentos desse tipo. Por isso, além de manifestar muito sucintamente cada ponto programático, se dispensa de apresentar uma justificação exaustiva de cada ponto. Ele trata somente da fundamentação de alguns aspectos de cada ponto que podem parecer mais elucidativos ao grande público, e ao mesmo tempo, de uma refutação de algumas das objeções que mais provavelmente poderão ocorrer ao grande público em vista do que aqui [está] contido.

3. – Quando tratar da família, não deixar de fazer uma referência à indissolubilidade, à castidade pré-matrimonial, com a enérgica repulsa do casamento por experiência, ser contrário à co-educação, como contrário também às excessivas intimidades entre os dois sexos. Contrário à limitação da natalidade, por todo método que não seja do [Ogino-Knaus?]. E contrário, finalmente, também à impunidade da sodomia e da bestialidade, que são formas de depravação escandalosas, cuja repetição impune corrói pela base a sensação de conaturalidade que todas as pessoas retas têm com a Doutrina Católica a respeito do casamento e da família.

4. – Quando tratar da hereditariedade, ter alguma coisa especial sobre a tradição, para justificar o tri-lema “Tradição, Família, Propriedade”.

5. – Quando trata de propriedade, manifestar uma adesão à “Rerum Novarum”, etc., sem deixar de referir à afirmação de Pio XII no Katholikentag de Viena, de que em nossos dias a questão social já estava resolvida praticamente.

6. – Afirmar sua oposição total ao comunismo, como sendo o contrário, o extremo oposto a tudo quanto foi dito. E mostrar que tanto o comunismo autogestionário gorbacheviano, quanto o comunismo de capitalismo de Estado são ambos (evitar o advérbio “igualmente”) contrários à Doutrina Católica e, portanto, ao espírito e à letra desse documento.

7. – Mostrar que o enunciado aqui realiza de um modo efetivo e pleno uma fórmula consensual, pois que os que desejam o que pode haver de bom nas três formas de governo e de organização social, encontram aqui o seu pleno encontro.

8. – Atacar o que há de falso na consensualização, como ela vem sendo entendida, isto é, em bases eminentemente evolucionistas e relativistas.

9. – Uma palavra enérgica também a respeito do ecumenismo a esse propósito.

10. – Não deixar de dar com um certo desenvolvimento a doutrina da hereditariedade. Ao falar desta, dizer que houve da parte dos antiescravagistas norte-americanos, e curiosamente também dos adeptos da ordem social vigente no sul, uma confusão. Um era o problema étnico, outro é o problema da organização sócio-econômica. Do primeiro problema não nos ocuparemos aqui. Do segundo problema, isto é o sócio-econômico, pode-se dizer que se pode ser perfeitamente bom norte-americano, deplorando que aquela organização haja desaparecido, ou que, pelo menos, não haja desaparecido tão inteiramente quanto desapareceu. E uma palavra de compreensão para os direitos dos norte-americanos que se manifestam nostálgicos daquela ordem de coisas, e que, portanto, mantêm uma esperança de que algum dia ela possa ser restaurada. Fazer sentir que a natureza federal e descentralizada dos Estados Unidos deveria permitir, entre outras coisas, que o norte tivesse uma organização e o sul outra organização, sem prejuízo para o vínculo federal. Pois são coisas que se passavam no âmbito estadual, ou pelo menos, no âmbito interestadual.

11. – Lamentar que, tanto na América do Norte quanto na do Sul, e notadamente no Brasil, a demolição das elites tradicionais, por ocasião da vitória do abolicionismo, tenha sido feita sem que se tomassem as medidas necessárias para evita à ruína das elites tradicionais. O que se poderia ter feito antecipando de muito a emigração. Não é aqui o momento de estudar se isso era viável, ou não. Ou se era desejável, ou não. Basta dizer que o efeito disso foi um efeito lamentável, se bem que até se possa dar, ainda que não conceder, que essa solução pluralista tivesse sido inexeqüível nas condições da época.

12. – Conversar previamente com o Grupo de Nova York sobre as acomodações necessárias para a circulação do assunto na América do Norte, como também no Canadá.

13. – O tema geral seria “Tradição, Família, Propriedade”. Quando se tratasse da tradição, tratar-se-ia da hereditariedade, inclusive dos títulos de nobreza.

14. – Ressalvar, de acordo com a encíclica de Leão XIII, a legitimidade das outras formas de governo. Acentuar que, num sentido mais amplo, o governo não abrange apenas a organização do Estado, mas a organização da sociedade. E isso por duas razões: em primeiro lugar, porque os homens não são governados apenas pelo Estado e pelas leis que ele elabora, mas pelos costumes que são produzidos pelos indivíduos, e notadamente pelos corpos sociais intermediários. Governar um país é obra, pois, cumulativa, dos governos e das organizações sociais.

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