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Conversa de Sábado à Noite — 21/01/89 — Sábado

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O pulchrum da lógica sem ornato — O papel do ornato — Autenticidade e ação de presença

* Há um determinado momento em que é preciso chegar à lógica pura

(Sr. GD: O Sr. ontem dizia que o Sr. prefereria tratar os assuntos só pelo lado lógico, sem os ornatos que o Sr. normalmente coloca. Por que o Sr. prefere assim?)

A questão é a seguinte. É toda uma tradição que está ligada a isso, e o modo de ser… Assim como — eu imagino que seja, não tenho certeza porque eu nunca mexi naquelas cameras fotográficas — mas eu imagino que ali tem uma história assim de pedra que se puxa para frente, a objetiva vai mais para frente; puxa para trás, a objetiva mais para trás…

(Sr. JC: De acordo com o objeto, estando ele mais longe ou…)

Mais longe ou mais perto. Conforme então a coisa vai ou vem, eu tenho impressão que a apresentação do objeto muda. E assim também a questão do ornato, não ornato, etc., etc. No fundo do meu espírito o que tem é que quer um problema teórico se apresente a mim com ornato, quer dizer, eu mesmo me apresente a mim o problema teórico com ornato ou sem ornato, ora às vezes é com ornato, ora sem ornato — eu vou explicar daqui a pouco o papel do ornato nisso — há um determinado momento em que é preciso chegar à lógica pura. E deixando de lado os ornatos, pegar tam, tam, tam, como uma equação, como uma coisa qualquer, à lá São Tomás: Isso é assim, assado, tátátá, como quem ajusta as contas. E ver se na pura lógica, não posta qualquer outra consideração, se aquilo resiste ao raciocínio.

* É uma espécie de operação em certo sentido suprema, terminal do espírito

E isto é uma espécie de operação em certo sentido suprema, em todo caso terminal do espírito, em que foram feitos os ajustes de conta na lógica e no seco, e foi verificado que é assim. Então, por exemplo, minha paixão pelos Exercícios Espirituais de Santo Inácio. É porque não tem ornato. Mas é o ajuste de contas. A verdade do negócio qual é? O tema é tal, e o negócio é tal!

E por detrás de muita exposição que eu faça, muita coisa assim, vocês verão que no fundo está isso.

Na operação final isso se apresenta assim. Então, por exemplo, na exposição que eu faço, etc., etc., por exemplo a respeito do tal enquanto tal, há um determinado momento na liquidação das contas em que eu reduzo a questão a isso: isso é assim, assim, assim, assim. E é na pura lógica que a questão se encerra.

Agora, por que razão? Porque é próprio da lógica chegar a um ponto supremo de despojamento de todos os aspectos acidentais, por mais preciosos, por mais valiosos, por mais interessantes que sejam, despojar de todos os assuntos acidentais, pegar o assunto essencial, e na lógica verificar: é ou não é?!

* Ver a realidade crua e nua, é em algum sentido uma visão superior

Eu ia dar um exemplo ontem, depois não dei o exemplo porque podia induzir a uma certa confusão, mas eu dou o exemplo agora porque serve muito bem ao meu pensamento. Vocês tomam — você, por exemplo, morou na França, viu isso várias vezes com certeza — tomam as árvores de Paris, há um determinado momento que perdem todas as folhas. Ficam secas! E você vê ali a arquitetura da árvore. A estrutura da árvore e a arquitetura dessa estrutura. Mas você vê a árvore. Aquilo é a árvore sem folha, sem nada, é no duro.

E ali você percebe, em primeiro lugar, a última realidade da árvore. E um certo encanto que a árvore tem, que vem não das folhas ou das flores, mas da distribuição com que estão feitas. E que é em algum sentido uma visão “superior” da árvore. Isso não tem dúvida nenhuma que é.

Agora, eu não dei porque acontece que por essas bênçãos naturais de Deus para a França, a árvore despida das suas folhas ainda tem uma poesia, além da arquitetura lógica da árvore, tem uma poesia que confunde um pouco. Poderia prestar-se a uma objeção, etc., então eu não…

* Uma espécie de união entre a verdade e o Sr. Dr. Plinio

Mas enfim, para fazer sentir o que é o nú da árvore, eu gosto muito e me encanto, me apaixono por essa coisa cernida no seu próprio fundo, sem desvios, sem aspectos colaterais, etc., e onde o sério do meu espírito pode deitar a garra ali: eu estou persuadido!

E na hora em que eu me persuado, eu deito a garra no tema porque eu entendi, e devo ser capaz de o virar e revirar como entenda, mas no fundo o tema deitou a garra em mim. Porque eu estou persuadido e, portanto, estou a serviço daquilo que não é apenas uma verdade que eu conheci mas é uma tese. Portanto, é o elemento de uma causa, que de um modo ou doutro, como é que essas várias causas formam um só, isso já é uma outra questão, mas enfim há uma causa.

E por causa disso é muito raro vocês me virem falar de um assunto ou de uma verdade, com indiferença. Eu volto a dizer, eu dou a garra naquilo, aquilo é meu, mas eu sou daquilo. Nessa hora se dá uma espécie assim de união entre a tese e eu, a verdade e eu, que no fundo é entre Deus Nosso Senhor e eu. Mas peguei aquilo, aquilo é daquele jeito! Está acabado.

* No mero raciocínio o ornato está em ver a coisa como deve ser

Agora, o que é que faz o ornato dentro disso? É uma outra questão. É que o homem pega…

(Sr. GL: O Ornato…)

O ornato natural da coisa, sem preocupação de agradar, correspondendo a uma exigência do meu espírito, o que é o ornato? É uma outra questão.

É que de fato, consideradas as coisas como deveriam ser, nesse vale de lágrimas elas frequentemente são de um modo muito incompletamente como deveriam ser. Mas tomadas as coisas como deveriam ser, o homem apanha a realidade ou pela observação e pela visão direta da coisa, ou pelo raciocínio. Eu já falei do raciocínio. Mas uma mesma coisa ele pode apanhar pelo raciocínio de um jeito, e pela visão do outro jeito. Aqui entra o ornato.

* O ornato completa a noção da tese, vista sob outro aspecto

Porque o ornato costuma ser a manifestação imponderável da realidade da mesma coisa, vista por outro aspecto. E o ornato é uma outra via para compreender aquela mesma coisa. Eu não sei se me exprimo bem. Por exemplo, a idéia da realeza, o papel da realeza enquanto governando um povo, pápápápá, é uma coisa téorica. Mas há uma porção de conceitos ligados à idéia da realeza que são expressos por uma coroa. Bem, a coroa é o ornato da realeza. Ela não é a realeza. Mas eu não terei entendido inteiramente o que é e a realeza se eu não conhecer coroas, que foram coisas que a cultura humana, o talento humano, etc., elaborou de simbólico para me completar a noção que eu devo ter de realeza.

* O ornato mais a lógica dão uma noção harmoniosa da verdade

Então é toda uma outra ordem de aspectos da realidade que se juntam à primeira. À serviço da primeira? De algum modo sim, de algum modo não. Porque o que a coroa diz da realeza, é alguma coisa que eu pela lógica não posso chegar até lá, de um lado; e de outro lado, meu espírito é como a visão que tem dois olhos e não tem um olho só. O meu espírito precisa ver a coisa pela lógica, depois precisa ver a coisa pelo ornato, para constituir aqui dentro uma noção harmoniosa da realeza.

* Para se ter uma noção global do ser é preciso vê-lo sob os três aspectos: “verum-bonum-pulchrum”

(Sr. JC: A lógica não diz mais respeito ao verum, enquanto o ornato diz mais respeito ao bonum-pulchrum?)

Certamente. Mas a questão é que o verum de uma coisa é necessariamente ligado ao bonum e ao pulchrum. Porque uma coisa tem que ter, vamos dizer, no Paraíso, tinha-se necessariamente o pulchrum, mas que era uma manifestação da própria essência do ser. O bonum também, uma manifestação da própria essência daquele ser. E vendo sob esses três ângulos o ser, eu tenho uma noção global do ser.

Daí decorre que em outra postura do espírito é necessário eu conhecer o bonum da coisa e o pulchrum da coisa. E que cada uma tem o seu modo de expressão que é próprio àquela gama de realidades.

Então, a respeito da realeza, por exemplo, eu digo tudo quanto possa dizer, mas falo depois — é o bonum— do rei enquanto pai. Já não é o rei enquanto governando a nação. Mas enquanto pai. E toda a gama de realidades morais e afetivas, etc., que a realeza leva consigo. Depois há o pulchrum da dignidade real. Que já é outra gama de coisas.

* Esses três fatores é preciso saber conjugar e distinguir

E é desejável, tanto quanto a limitação de meu espírito e dos outros possa permitir, é desejável que eu conjugue essas três coisas, mas também seja capaz de distinguir. De maneira que parcial ou totalmente eu possa com aisance, com desembaraço, jogar com uma coisa, com outra, etc., como eu entenda.

Mas não é só pegar três noções: o verum, o bonum e o pulchrum não são três varetas de um guarda-chuvas. Por algum aspecto elas se parecem com isso, mas é muito bom que eu na compreensão da coisa total, seja capaz de falar de um aspecto de uma coisa, pondo o bonum ou o pulchrum daquela vareta. E misturando ora o bonum, ora o pulchrum, ora o verum, ao tratar daquela vareta. Porque assim é que eu tenho a noção da vareta — para falar prosaicamente — de um guarda-chuva; ou da árvore, para falar mais poeticamente de uma árvore, eu tenho essa noção muito mais adequada, muito mais perfeita, muito mais completa da realidade.

Agora, como o bonum e o pulchrum são em função do verum, se aquele ser não existisse ele não teria nem verdadeiro bonum nem verdadeiro pulchrum, seria um ens rationis que não teria realidade. Então, em função do bonum e do verum é necessário que depois de ter muito mexido nas coisas, a gente de vez em quando volte à árvore sem flores nem folhas.

* Assim como o homem respira, come, bebe; assim também deve usar do “verum-bonum-pulchrum”

E é esse método que é feito pelo espírito não planejadamente, mas por uma necessidade vital, como o homem ora respira, ora come, ora bebe, ora ouve música, e ele não faz um programa: “Eu vou dar tantas horas à bebida, tantas à comida, tátá…” Há uma necessidade do unum do homem de ir mexendo nisso. Também nós devemos fazer isso, ir remexendo isso assim.

Então há horas em que se fala entusiasmadamente do bonum, ou fala entusiasmadamente do pulchrum de uma coisa que tem subjacente o seu verum. Mas, seja como for, como o verum é mais fundamental, de vez em quando no que eu chamaria quase o bailado do espírito, dentro dessas realidades todas que Deus criou, é preciso parar e olhar a árvore apenas na sua realidade tronco.

* É pelo gosto das coisas aristocráticas que o Sr. Dr. Plinio gosta do ornato

Agora, é certo que é pelo meu gosto pelas coisas aristocráticas que eu gosto do ornato, do pulchrum, portanto. É bem certo. E muitas vezes enquanto eu exponho, eu mesmo me distraio em empregar uma idéia que me surge no momento, em explorá-la diante daqueles com quem estou conversando, como quem abre uma garrafa de vinho para distribuir. Eu me distraio, me agrada, me agrada ver que eles se agradam. Eu sei que faz bem para eles, como faz para mim, é uma distração de meu espírito falar sobre aquilo, é o modo meu de amar aquilo. Está muito bem.



Mas no fundo, no fundo, no fundo, porque liga tudo isso, põe aquilo tudo em ordem, põe as folhas, os frutos e as flores todas em ordem, é a estrutura.

Então, se vocês analisam o que eu faço agora, por ex., mais de uma metáfora, de uma coisa… Eu empreguei há pouco uma palavra francesa, eu não me lembro o que é que era… Essa palavra francesa eu a empreguei já instintivamente porque ela dá mais poeticamente uma coisa que em português se poderia dizer de outra maneira. Eu empreguei porque sei que vocês entendem francês, e sei que vocês saboreiam a palavra que está dito. Eu disse em francês uma palavra qualquer.

Como passou ao alcance do meu espírito, eu pus aquele ornato no que eu dizia. Porque o meu espírito se deliciou com isso, eu pus. Mas, o por onde nós somos unum, é antes de tudo pelo encadeamento lógico daquilo que nós pensamos.

* O verum tem uma beleza primeira, independente de qualquer outra produção

Acontece o seguinte. É que quando a pessoa vê o raciocínio seco, de fato não vê apenas o raciocínio seco. Mas a pessoa vê algumas coisas. Como no efeito é legítimo ver a causa, a gente vê o espírito do pensante que pôs ali o seu pensamento. Depois, acontece que, por outro lado, de vez em quando, o raciocínio puro e seco deixa transparecer uma beleza da coisa que, embora seja beleza, não é propriamente a beleza ornamental, mas é uma certa beleza linear, meio essencial, do tipo exatamente da beleza dos galhos das árvores de Paris. Quer dizer, a gente vai ver bem, é alguma coisa que na própria estrutura tem uma beleza própria que é uma beleza primeira que o verum tem, independente de qualquer outra produção.

(Sr. PH: O próprio fato do Sr. argumentar com uma árvore francesa já indica essa propensão para o ornato. O Sr. poderia exemplificar com uma árvore daqui da praça Buenos Aires…)

Mas eu ia argumentar com uma árvore assim, exatamente para não ficar apenas no francês, e o ver como existe essa beleza, para mim.

* Exemplo: estrutura da árvore próxima ao Cemitério da Consolação

Não vale a pena vocês irem ver à noite, porque à noite eu receio que o lugar não seja bom. Mas de dia vocês podem ver. Tem aqui naquele larguinho atrás do cemitério da Consolação, uma dilatação de rua mais do que um larguinho, mas tem aquilo lá. E no meio há uma árvore, que ao menos até há algum tempo atrás — e já tomei o hábito de passar por ali e não prestar atenção — mas ao menos até algum tempo atrás era magnífica como estrutura. Porque ela resolvia com um tacto, um a propósito e uma naturalidade extraordinária o seguinte problema:

Ela tinha um tronco pequeno. Ela tinha uma galharia enorme. Em vez do tronco parecer cotó, a estrutura do tronco dava uma ilusão de que o tronco era muito maior. E a gente considerando de longe tinha a impressão de um tronco lindo, muito proporcionado com aquilo. Mas o unum era um unum que existe, mas é teórico e invisível. Que está na mera inter-relação dos galhos entre si; que estaria portanto no pensamento do artista mais do que na realidade.

(Sr. GD: Um mundo abstrato.)

É, abstrato, mas real nesse sentido.

(Sr. JC: Uma espécie de cone de Fujiama que existe.)

É, exatamente. Mas não no ápice, mas do lado de dentro da árvore. De maneira que o verdadeiro é vocês fazerem essa aproximação em três distâncias diferentes. Uma distância onde tenham a ilusão de que o tronco é alto, e é proprocionado; depois tomam a meia distância, vocês começam a ver mais a galharia e perceber a rede dos galhos como é que se expande; e bem de perto vocês percebem que o tronco não existe mas existe.

Agora, eu por exemplo estou falando disso agora, me comprazo em dizer isso. Mas vocês vêem que o espírito de Revolução é tal que não é lícito às pessoas conversarem sobre isso. Se vocês quiserem conversar com alguém, vocês não encontram interlocutor. Mesmo uma pessoa que não tenha pego o interesse do assunto, e os imponderáveis dessa conversa, chegando lá não entende porque é que vale a pena destrinchar isso daquela árvore. Tanto mais que é uma árvore grande mas banal. Não é uma árvore extraordinária nem nada disso. Mas como arquitetura ela é muito bonita.

E aqui está a beleza essencial da árvore. Mas na exposição que eu acabo de fazer, vocês notam ao mesmo tempo que eu descrevi a coisa no seu seco, e que Nossa Senhora me dá os meios naturais — quiçá salpicados com um pouco de graça — mas dá aos meios naturais dispor a coisa naturalmente como é, até chegar ao conceito difícil e árido da beleza de um tronco inexistente. Bem, mas que eu expus a coisa com a precisão de um técnico que quer dizer como é o negócio. Nossa Senhora me deu o meio de saber dizer a coisa com a precisão nua e crua do que eu quero dizer. Minha idéia ficou inteiramente clara.

* No olhar o seco, às vezes percebe-se um pulchrum de ordem superior

Mas ao mesmo tempo que vocês vêem a minha idéia clara, vocês percebem — e agora nisso entra o pulchrum— que nisso de teórico que eu disse se manifesta um pulchrum que não está em nenhum ornato mas está na coisa em si. É um verdadeiro pulchrum, que não é nenhum ornato.

Eu não tenho o mínimo dote de pintor, nada. Mas se eu fosse pintor, eu tentaria exprimir isso na árvore, tornando visível por um simples olhar a um apreciador comum essa realidade. Ou então fotografando, seria possível eventualmente. Mas que um artista de segunda classe, para tornar a coisa mais aprazível imaginaria flores na árvore, ou imaginaria frutos bonitos. E com isso ele se eximiria do trabalho árduo de saisir, de apanhar o que é que era o verdadeiro bonito que estava ligado ao mero verum, e exprimir isso.

Agora, supõe um gosto pela coisa e uma não preguiça do espírito — gosto pela lógica e uma não preguiça do espírito — pela qual se chega até lá. Eu não sei se o exemplo que eu dou exprime bem o meu pensamento.

Então, no olhar o seco, você às vezes percebe um pulchrum de ordem “superior” que é distinto da realidade, mas está tão ligado à realidade, que por isso mesmo ele é mais pulchrum para os espíritos exigentes do que a florzinha que um artista põe na ponta da árvore.

* O verum é a fonte do bonum e do pulchrum. Pulchrum est splendor veritatis, diz São Tomás

Também então numa demonstração há muitas vezes alguma coisa da realidade que aparece no seco, que é como esse tronco: não tem o pulchrum dos enfeites, dos atavios, das coisas, mas tem uma espécie de pulchrum essencial, que é um desses momentos felizes do espírito humano, em que ele percebe o bonum e o pulchrum nascendo de dentro do verum, numa espécie de sorgente, e que é o mais saboroso, porque o verum é a fonte do bonum e do pulchrum.

(Sr. GL: Mas no modo do Sr. ser, como isso se verifica?)

Meu filho, para dizer tudo bem, é a inocência. A inocência tem um modo de pegar o verum que chispeia pulchrum! E o homem não inocente não tem.

(Sr. GL: E a inocência no caso do Sr. dá isso.)

É. Então você pega a linda definição de São Tomás do que é o pulchrum: splendor veritatis. É uma coisa que enchameia, é o esplendor que sai de dentro da verdade. Donde uma noção do verdadeiro pulchrum, que quanto mais um estilo, quanto mais uma coisa, sem desdenhar a coisa que é principalmente ornato, possa pôr a vivo a realidade gerando seu esplendor, tanto melhor é.

* Uma beleza parecida com o processo trinitário

Por exemplo, eu disse agora aqui, e disse no mero desejo de me explicar: a verdade gerando seu esplendor. É uma coisa muito lógica. Mas eu percebo que dessa coisa meramente lógica sai realmente o por onde a verdade gera o seu esplendor; tem uma beleza da verdade enquanto gerando e o esplendor enquanto sendo gerado, que parece um pouco a relação do Padre Eterno com o Filho, lembra um pouco o processo trinitário. Portanto uma superior beleza que se reflete passageiramente nisso, e que se nota em São Tomás, e em alguma coisa de Santo Inácio. Porque embora Santo Inácio não tenha visado o pulchrum nem nada, há momentos que daquilo sai uma fagulha, como o fogo sai da pedra do isqueiro: tchummmm! Pum!

Agora, há uma hora em que o espírito humano deve até evitar de se deter na consideraão dessa geração tão bonita para olhar a coisa. E há uma outra hora no processo mental em que ele não precisa nem deve prestar muita atenção na coisa, mas no que é gerado, conforme o seu espírito está tendo necessidade de ter que considerar um aspecto, outro ou outro da coisa.

* O que o demônio promete, isso é o que ele vai tirar

E aí a gente vê como vivendo na superfície a vida parece pesada, parece banal, parece monótona, parece não sei mais o quê. O sujeito recorre nem sei a quantas misérias, quando na realidade, se ele vivesse em profundidade, ele teria outra vida. É a tal história: o demônio sempre quando promete uma coisa ele tira aquilo que ele prometeu. Não vai tirar só outras coisas não. É aquilo que ele vai tirar.

Ele tira por exemplo ao indivíduo o prazer que poderia ter — que eu nunca tive, porque mesmo antes do desastre, tudo, vocês me conheceram antes, sabem bem disso, eu não era homem de ficar longamente em pé para olhar qualquer coisa, eu jamais gostei de ficar em pé. Mas quantas vezes, porque eu morei a dois passos daquela árvore, eu tinha vontade de mandar trazer uma cadeira de casa, e ficar sentado em várias posições em torno daquela árvore. Mas não pude fazer, por causa da banalidade do espírito contemporâneo, algum automóvel que passasse lá e me visse admirando aquela árvore ia dizer que eu estou gagá.

(Sr. PH: Se a gente pega uma pessoa e pára para fazer um comentário assim, a pessoa fica meio…)

(Sr. GD: Sobretudo aqui no Brasil.)

Note outra coisa hem? É um país que por excelência estaria disposto para isso, porque o feitio de espírito nacional dá para isso. É preguiça e a atração pela sensualidade que conduz a outra coisa, que leva a pessoa a não pensar nisso.

Nós autem in innocentia nostra ingressus sumus: nós entramos com nossa inocência. Olhamos a árvore. Não é? Mas eu estou disposto a qualquer outra pergunta.

* Antes de ter piedade, admire!

(Sr. JC: Nosso Senhor quando foram prender a Ele, e disse Ego sum!, e caíram os soldados por terra, é uma tal afirmação de substância, de verum…)

Na palavra “ego”…

[Vira a fita]

Mas esse “eu” é! “Ego sum”! Mas Ele disse “Eu”.. Huuuu! Ele! “Sum”. Não é uma fantasia, mas Ele é. Mas Ele é com uma plenitude de ser perto do qual eu sou uma palha! Cara no chão! Magnífico!

Mas não é verdade que, por ex., com esse pouquinho que estamos falando sobre isso, fazemos uma meditação soberanemente piedosa a respeito do episódio?

Agora, uma pregação fora disso: “Ah, Senhor, quanta dor sentistes nesse momento…” É muito bom, mas ponha no ponto adequado. Não passe adiante sem ter colhido essa jóia. Admire antes de ter piedade. Mesmo porque sua piedade nascerá de ver Aquele sujeito àqueles. É o primeiro ponto da compaixão: esses vís, esses biltres, esses pocas disporem de tal maneira dAquele que é!! Onde é que estão com a cabeça!? Que atrevimento sacrílego é esse? E daí vai para fora.

Então, tudo isso o espírito vai adequando no momento próprio, etc., etc. E a nossa vocação chama as almas a isso. Quer dizer, há um chamado para sermos assim. E há uma coisa curiosa. Dentro de tantos e tantos homens, a alma planteia por não ter coisas assim. E vai buscar regalo e satisfação em quanta porcaria. Mas se atendesse a isso… Não é?

* Uma outra nota de pulchrum: a linguagem elevada

(A Via Sacra que o Sr. escreveu tem muito de verum, bonum e pulchrum.)

Eu tive a intenção de fazer uma Via Sacra que saísse do balofo de tantas Vias Sacras, ortodoxas, boas, dizendo coisas muito boas, mas que a gente não visse sair da sorgente. E ali não: o que eu tive intenção foi de fazer conhecer a sorgente da coisa. Então, no “Diálogo” muito também.

Agora, se insere sobre isso uma outra coisa que é uma outra nota de pulchrum que se insere sobre isso, que é o seguinte. A linguagem — eu não sei bem até que ponto isso existe no castelhano e em outras linguas, mas no português é assim. A linguagem tem como que 3 andares ou 4. Mas então há uma linguagem muito elevada, séria, mas que não tolera a expressão banal das coisas. Depois há uma linguagem que é uma linguagem muito correta mas não tem aquela elevação. Depois há a linguagem chula. Há pelo menos esses 3 andares.

E eu tive a preocupação como obrigação de exprimindo o meu espírito, dizendo qualquer coisa, eu tomei por propósito nunca dizer nem escrever sem ser uma linguagem sempre elevada. E esta dá uma espécie de pulchrum de outra natureza, que não é a da coisa que sai da sorgente, mas é quase o habillé da história, que também é necessário.

Você vê, por exemplo, na Europa — aliás, você muito a distinção aí dos países da Europa com outros países —, na Europa vão vender laranja, maçã, etc., chegam às vezes a encerar a casca da fruta. Quando a fruta não vai ser comida, e que não tem perigo da cera tirar o sabor da fruta, eles enceram. E vai bem, porque a cera faz realçar melhor alguma coisa que o opaco comum com que uma casca de fruta se apresenta, oculta.

Por exemplo, numa laranja isso é visível. Uma laranja encerada tem uns tons que não são de dourado, mas dir-se-ia que entrou ouro na produção daquilo…

(Sr. JC: Ouro com vermelho dá laranja.)

Ah, é isso é? Então você vê. Bem, mas que faz com que aquilo tome uma beleza que ressalta da laranja, mas tem alguma coisa a mais: tem o brilho da cera. E assim a linguagem elevada, não só portanto a linguagem correta, mas a linguagem elevada, essa linguagem faz ressaltar alguma coisa na mera coisa. A cera é um ornato? Não se pode dizer, mas ela faz a beleza da coisa aparecer melhor.

E talvez você tenha encontrado isso no “Diálogo” de permeio com outras… De maneira que ora é a esse título, ora a outro, que o pulchrum aparece. Então há graus e estilos que quem escreve, sendo uma pessoa que quer o bem, ele deve pôr todas essas coisas no que ele diz.

* A beleza de linguagem do “Diálogo”

(Sr. GL: E a santidade da Igreja vista aí? Porque quando eu lí eu disse: isso é santo, aqui está a santidade da Igreja.)

É a… Olha que eu não sabia que você tinha tido essa reação, não estava ao seu lado nem nada, mas posso descrever um pouquinho, conhecendo o trabalho, descrever um pouquinho o que você sentiu.

É uma probidade, uma honestidade intelectual pela qual as coisas se destrinchavam umas das outras, e se concluiam umas das outras, com tanta propriedade, tanta verdade, tão direito, que ao todo você chegava a uma espécie assim de vez em quando de clareiras de verdade globais, que encantavam você. Bem, que brilhavam do brilho próprio da coisa, da conclusão verdadeira, saindo da candura daquela passagem de um ponto para outro.

(Sr. GL: Perfeitamente isso. Sobretudo a honestidade.)

É, mas essa honestidade tem seu pulchrum. É o pulchrum da inocência. Porque tinha exatamente a inocência posta numa linguagem digna. Então você disse: “Isso aqui não tem fraude, não tem artífico, não tem nada. Tem a mera vontade de acertar, de descrever a verdade e de apresentar para o meu bem. E isso uma alma que não tenha em si o espírito da Igreja, em última análise a graça, não faz!”

(Sr. GL: Perfeitamente.)

Olhem a resposta: perfeitamente. Quer dizer, eu sei o que está posto no que eu escrevi e o efeito que deveria produzir se não fosse encontrar toneladas de insensibilidade.

* Últimos artigos para a “FSP”: há laranjas onde não se tem o direito de pôr cera

(Sr. PH: Qualquer coisa que o Sr. escreve, do primeiro artigo do Legionário ao último da FSP, se encontra isso, tem isso.)

É, por exemplo, esses dois últimos artigos que eu escrevi, eu não pretendo que sejam artigos lindos. Eu vou dizer mais: se fossem artigos lindos, empanaria um tanto o que eu queria mostrar, que é a trivialidade dessa gente, desse jogo e dessas coisas assim. Há laranjas onde você não tem o direito de pôr cera. E onde entra a Erundina não pode entrar cera. De maneira que não é isso. Mas há quand-même uns reluzimentos disso em alguns pontos, em algumas coisas, que tem disso. Que tem disso dentro, eu tenho certeza que tem.

(Dr. EM: A seta que atinge o alvo. Eles ficam sem resposta.)

Não respondem mesmo, ninguém responde. Você nunca ouviu dizer que alguém me replicasse. Quem é que replica? Ficam quietos. Vem depois a difamação…

* Autenticidade entre o homem e o que ele diz, nisso está o pulchrum

(Dr. EM: Vem uma galeria de silêncio depois, colossal.)

É. Mas a perfeição da vitória é o aniquilamento do adversário. Isso na primeira coisa é assim. E no fundo entra isso, com a inocência que se torna visível e que vinga os seus direitos. Por exemplo agora, o que eu disse, “a inocência se torna visível e vinga os seus direitos”. Bom, mas é verdade que a linguagem é uma linguagem elevada, mas a coisa é bonita em si. A gente ser levado ao conceito de que a inocência tem em si a força vindicativa, e que quando ela se apresenta na sua pureza cristalina ninguém lhe resiste, isso dá-nos uma idéia da inocência que tem uma beleza que sai da sorgente.

Então podia uma pessoa me dizer: “Defina seu estilo literário”. Eu não sei, é o da inocência, não sei meu estilo. Ego autem in innocentia mea ingressus sum. Redime me et miserere mei. Pronto.

Meu Guerreiro, eu estou lhe vendo tão quieto, o que é que há?

(Sr. GD: Não, é que o assunto é muito elevado, a gente fica meio meditativo mesmo.)

(Sr. Poli: Mas tem que haver uma proporção entre a pessoa que diz e a frase dita: “a inocência que se torna visível e vinga seus direitos”. Não é qualquer um, mesmo inocente, que pode dizer isso.)

Mas é mais uma vez vir à sorgente. Um homem que diga isso de si, e que você percebe que não é verdade, você chega a não perceber o bonito literário da coisa. É que não há. Mas quando você percebe que há autenticidade de um homem e o que ele diz, você vê da verdade sair… é a definição de São Tomás de Aquino: Pulchrum est splendor veritatis. Depois, a palavra “splendor” fica tão bonita aí, não é?

* “O conceito canta na voz do homem sincero”

(Sr. JC: É como o princípio do Evangelho de São João.)

É. Agora aqui, no Evangelho de São João, como em outras coisas, entra uma coisa muito delicada, muito bonita, se você deitar a atenção. Tem um encanto, mas é o seguinte. Quando a coisa é muito autêntica, ela toma — até como escrita, mas eminentemente falada — um tom de voz que é uma espécie de cantico do próprio conceito. O conceito canta na voz do homem sincero.

(Sr. JC: Essa é outra: “o conceito canta na voz do homem sincero”.)

É uma frase simples. O que é que tem de enfeitado nessa frase? Tem a realidade de que ela vem impregnada. E esse contato com a realidade causa à sua alma um bem-estar, o seu ser se sente acrescido e completado com isso, e seu júbilo canta dentro de você.

* A Revolução engessa os espíritos

(Sr. JC: A gente se sente meio dentro de um gesso que nos imboliza, e quando ouve uma coisa dessas o gesso se espatifa todo.)

E aqui você pega, porque as hediondezas da Revolução são meio insondáveis. Aqui você pega a coisa no fundo. Você pega o hediondo da Revolução que cria um ambiente onde você ou entra dentro do gesso onde outros estão engessados, ou você não tem contato com ninguém. Agora, então o demônio te diz: para ter as delícias do contato você entra no gesso também. Mas aquele diálogo de engessados é pior do que a sua solidão.

Você sai de dentro do gesso e fica só, o demônio começa a te atormentar: “Você está só, olhe como eles conversam!”

(Sr. JC: Sêneca dizia isso: “Quanto mais vezes estive entre os homens, menos homem voltei”.)

Hahahah!! Que dito magnífico!

(…)

* A torcida coloca o narrador numa posição paradoxal

coisas dessas eu vi se darem com mamãe. Ela se deitava num sofá, numa chaise-longue como se dizia naquele tempo, e Rosé e eu, e os sobrinhos todos dela se empuleiravam literalmente em torno dela, até atrás da cabeça dela, etc., para ela contar. E ela contava muito bem, mas contava de tal maneira que a pessoa ficava assim como você diz. Mas para contar bem, ela contava com muitos pormenores, para a coisa ficar viva. Mas contando com pormenores, ela dava uma espécie de sofreguidão de acabar, de chegar à conclusão.

E eu vi gente dizer depois: “É pena, mas ela conta por demais pormenores. A gente fica com uma vontade enorme de chegar ao fim.” E alguns meninos ou meninas diziam: “Titia depressa, Titia. Titia, depressa!” Quer dizer, a excelência da narração dela levava a uma impostação já exagerada, que não era só de chegar ao fim, que é bom, mas querer encurtar e privar de substância para deglutir o fim. Que não foi o que você disse de si mesmo, é uma outra coisa.

Você está vendo o defeito no espírito deles, que era no fundo a torcida, o defeito no espírito deles colocando o narrador numa posição paradoxal: se não conta tudo com todos os pormenores, a coisa morre. A pessoa não quer os pormenores porque quer o fim. É um defeito no espírito de quem ouve. Assim, esse de que eu falava há pouco, caiu nesse defeito. O que eu posso fazer?

* Como a Srª Dª Lucilia contava o caso das “aiguillettes” de Ana d’Áustria, D’Artagnan, etc.

Eu me lembro que ela contava… Bom, não sei, aqui já vai entrar em pormenores: o episódio das agulhetas. Eu não sei se vocês ouviram falar disso, etc. Agulhetas, aiguillettes em francês. Aiguille em francês é agulha. Aiguillette é um diminutivo, é agulhetas. Mas de fato era um ornato que usavam naquele tempo, que eram uns pingentes, um ornato para rei naturalmente, caríssimo, pingentes todos eles cobertos de brilhantes, de uma ponta a outra.

E o rei deu à Ana d’Áustria não me lembro se 12 agulhetas, ou 13, qualquer coisa, como presente para ela, como presente, como dá uma jóia numa ocasião qualquer, aniversário, qualquer coisa assim. Agora, nisso vem à corte da França o Duque de Buckinghan, que era o principal favorito do rei Carlos I, e que vinha em missão política para tratar uma coisa da parte do amo dele, do rei Carlos I, com Luiz XIII e Richelieu, que era ministro.

Bem, e conheceu Ana d’Áustria e se fascinou com Ana d’Áustria. E reciprocamente, Ana d’Áustria com ele. E Ana d’Áustria no momento de despedida, ela que estava ornada com as agulhetas, deu uma agulheta para ele. E então o Duque de Buckinghan saiu, e o Richelieu tinha um espião que observou a cena. E contou, Richelieu contou a cena a Luiz XIII alguns dias depois, quando o portador da agulheta já estava longe. E a coisa era irreparável, a rainha não podia alcançar a história.

Então, o rei ficou informado, e o Richelieu disse a ele o seguinte: “Eu aconselho V. Majestade o seguinte. Ofereça para daqui mais alguns dias um grande baile na corte. E ao anunciar o baile à rainha, manifestar sua resolução de que ela deve comparecer, convidá-la para o baile, etc., dizer que gostaria muito que ela comparecesse com as agulhetas. E comparecendo, V.M. conta as agulhetas e nota que está faltando uma. E aí desconsidere-a diante de toda a corte, dizendo o que ela fez da outra agulheta, que V.M está informado, etc., e repudia a esposa”. Porque Ana d’Áustria era contrária a Richelieu.

Então o rei convidou e disse a Ana d’Áustria: “Eu pediria a V. Majestade comparecer com o tão bonito ornato que lhe dei.” Que é uma coisa em si compreensível que um esposo peça para sua esposa.

Bem, então Ana d’Áustria ficou muito atrapalhada como é que ia resolver o caso, ela ficou numa verdadeira agonia. Porque ela percebeu que o rei notaria que tinha uma agulheta a menos. Ela não sabia que o Richelieu tinha feito tudo isso, mas ela viu que o rei notaria que tinha uma agulheta a menos. Então perguntou não me lembro a quem, o que é que poderia fazer.

Então o homem disse: “Eu só conheço um homem que seja capaz de resolver esse caso: É D’Artagnan! Um cadette de Gascogne, um simples pequeno mosqueteiro que está começando a carreira, mas é um homem isso, aquilo, aquilo outro. V. Majestade incumba D’Artagnan de ir à Inglaterra em super velocidade, por tal estrada, por isso, por aquilo outro, tátátá, talvez ele chegue na hora do baile!”

Então a Rainha falou com o D’Artagnan, aparece o D’Artagnan com chapéu com pluma, se inclina diante da Rainha.

(Sr. JC: Ela descrevia toda a cena.)

Toda a cena. Aliás, é preciso dizer, no modo de ela contar não entrava a idéia de um ato sexual nem nada disso. Era um puro devaneio do Buckinghan por ela, e dela pelo Buckinghan. Mas a idéia da sensualidade não passava, era uma coisa na pura fábula, para criança de 12 anos e menos.

Então, ela contava alguma coisa do trajeto, que ela não se lembrava todo, e seria preciso ter um mapa para ir percorrendo. Ela contava os aspectos mais inesperados do trajeto que o Dumas inventava. Bem, afinal chegou ao Buckinghan. E o Buckinghan pegou a agulheta, deu. E de volta, depois de mil peripécias, chegou e entregou a agulheta à rainha. A rainha já estava pronta — você está vendo que é um romance — com as 12 agulhetas, enfim, faltando uma, esperando a última hora para se apresentar ao rei. Ela iria naturalmente com as agulhetas que tinha, com a esperança que o rei por distração não contasse. Mas com a morte na alma.

Quando: “prá-prá-prá-prá”… Se ouve o galope do cavalo que chega. “Será o D’Artagnan?!” Alguém olha pela janela, é o D’Artagnan. “Ahhh! Faça subir depressa, depressa. Porque o rei pode de um momento para outro entrar e me vir pegar pela mão para irmos para o baile.”

Então fazem o D’Artagnan entrar por portas escusas, não sei mais o quê, e entra, apresenta-se, e dá para ela a agulheta. Ela põe e vai sozinha para o baile, para encontrar com o rei. Então encontra com o rei, e o rei olha para ela… O Richelieu mandou fazer uma agulheta igual, uma só. O rei deveria começar por dizer a ela: “Madame, está lhe faltando uma agulheta.” Ela deveria estar muito no apuro, ele devia puxar uma agulheta e dizer: “Aqui está uma para preencher a coleção”. Depois que ela pusesse, pam!

Então, o rei vendo aquilo, chega à convicção de que Richelieu tinha caluniado a rainha. E disse: “Madame, como testemunho de minha confiança, etc., eu lhe mandei fazer outra agulheta. Me faz favor, ponha no seu peito agora”. Então, grande vitória!

Vocês podem imaginar uma coisa dessas bem contada, a torcida. Depois, o ambiente de corte, o ambiente de baile, e o rei, e a rainha, e o Buckinghan, e tudo isso contado com muito esplendor, etc., etc., vocês podem imaginar nessa idade… era uma torcida medonha. Então havia sobrinhos que batiam na perna: “Titia, mais depressa Titia! Pule tal episódio, deixe isso, corra…” Mas é não ter saída.

Aliás, mostra a vocês um pouco de passagem a diferença da educação infantil que tínhamos em casa, com o que se tem hoje em dia fora. Quer dizer…

(…)

Estou de acordo! Mas quanta coisa não há que está perdida nisso? Isso faz bem ver. Isso é bonito.

Eu interrompia a ela pedindo mais pormenores, quando ela contava. Era o contrário dos outros.

* Os homens da providência especial marcam muito

(Sr. GL: Ação de presença dela.)

Mamãe tinha!

(Sr. GL: Tocava muito ao Sr.)

Muito, muito.

(Sr. GL: Ação de presença em tudo isso.)

Você encontra uma diferença entre os homens que estão na providência geral, e os homens que estão na providência especial. Quer na ordem natural, quer na ordem sobrenatural. Quando o homem está na providência geral, a ação de presença dele não marca muito. Ele marca o que marca os outros homens, é uma coisa honesta, direita, etc., etc.

* Esses homens amam o que dizem e a todo propósito tem a respeito daquele ponto um “canticum novum”

Mas é frequente que quando o homem está numa ordem da providência especial, quer natural, quer sobrenatural, ele tenha um amor àquilo que ele diz, uma espécie de compreensão meio insondável daquilo que ele diz, por onde ele vai tirando mais e mais, mais e mais, a gente se pergunta qual é o fundo do baú. Mas ele vai, vai, vai, vai, porque o fundo do baú é a realidade criada por Deus, diante da qual ele teve uma compreensão boa, ele tira coisas inesgotáveis.

E tem um amor também inesgotável por aquilo. De maneira que a todo propósito ele tem a respeito daquele ponto um canticum novum. E acontece que quando o homem está tomado assim pela coisa, ele é meio o homem que toca a harpa, meio ele é a partitura que está sendo tocada na harpa, e meio ele é a própria harpa que sonoriza aquilo tudo. A pessoa dele é tudo isso. E a junção desses papéis no homem forma a ação de presença.

* Uma espécie de totalidade do ser, que indica a ação de presença

(Sr. GL: E os imponderáveis…)

Saem daí. Porque o homem no emocionar-se ele é a harpa que a inteligência tocou; os sentimentos dele se transonorizam por imponderáveis: é um movimento de sobrancelha, é um gesto de mão, é isso, aquilo, aquilo se faz sentir de mil maneiras. A partitura está no espírito dele: ele é a harpa e é o que toca a harpa. De maneira que… E o conjunto forma uma espécie de totalidade de ser. A harpa, a partitura e o músico que é a harpa, forma uma espécie de totalidade de ser que indica a você a ação de presença.

* Ver isso está ao alcance de todo mundo, entretanto poucos vêem

Mas, por exemplo, isso não se pode conversar com qualquer um. Você vai viajar num avião, senta ao lado de um sujeito, engaja essa prosa, ou você pede um cumprimento da passagem e vai com ele até onde ele for no avião, ou você convida para passar uns dias em casa, mas você não interrompe uma conversa dessas num avião. A questão é que você não encontra esse homem!

(Sr. GL: Nós sim.)

Bem, mas esse é o problema da nossa querida TFP. É que isso está ao alcance de todo mundo. Está ao alcance de todo mundo. Vocês estão particularmente receptivos a isso por uma graça que tiveram, que vem da pertencença às reuniões, vem muito do Retiro, vocês estão particularmente sensíveis a isso. Mas habitualmente falando… Quer dizer, na realidade, quantas reuniões minhas mesmo vocês zuparam por uma razão completamente de segunda, ou dormiram, ou fizeram qualquer coisa?

E pode acontecer que se estabeleça uma barreira entre os meus ouvintes e eu de cera opaca e não de cera translúcida, pois esconde completamente.

(Sr. JC: As somas de pecados veniais, nem é mortais, mas veniais vai tornando a vista completamente…)

Catarata! Você vai ficando com a vista cada vez mais embaçada. Pronto. Acabou a história. Essas coisas são… A alma humana é muito cheia de… na incorrespondência é muito cheia de disparates, não é? Eu vi essa situação…

(…)



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