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Conversa da Noite — 7/1/89 — Sábado

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Na TFP, amnésia da maldade

do mundo, reorganização da vida

de maneira a não haver lugar

para o estandarteCSN 07/01/89 — Sábado

Na TFP, amnésia da maldade do mundo,

reorganização da vida de maneira a não

haver lugar para o estandarte

Í N D I C E

I. Versões que uma criança recebe de seu ambiente

sobre o gozo e não-gozo da vidaI. Versões que uma criança recebe de seu ambiente

sobre o gozo e não-gozo da vida

(Sr. GL: Amnésia da maldade do mundo. Investida do demônio sobre a TFP através de feitiços, etc. Perguntamos: sobre a amnésia; e sobre a união como o Sr. como remédio contra ela.)

Eu acho o seguinte. É preciso a gente remontar ao tempo de criança, previamente a pertencer ao Grupo, para ver as versões que o ambiente comum espalha sobre o que é a vida, quais são essas. É uma coisa eclética, não é uma coisa muito homogênea, é preciso a gente ter entendido bem. E aí nós pegamos a coisa.

Então, tem duas espécies de coisas. Em primeiro lugar, uma idéia sobre o gozo ou não da vida; e depois uma certa idéia sobre a moral. São coisas diferentes.

Mas o gozo da vida põe-se assim. Fica um pouco pairando sobre o ar assim, porque um ou outro no ambiente familiar diz isso, que a vida é muito difícil, é muito dura; que tem épocas, tem situações, tem problemas, etc., que a gente tem que enfrentar, e que é verdadeiramente dura.

* A criança e os primeiros contatos com o sofrimento

Quando a gente é muito criança, nem compreende porque é que a vida é muito dura. Também para a criança eles não explicam. Ou a gente pega no ar ou eles não explicam. Se explicassem também não adiantava muito porque a gente não pegava bem. Fica aquela idéia de que a vida por alguns lados é muito dura. E a criança um pouco intui. Depois, vendo o sujeito que sofre, o outro que diz que sofreu, a gente percebe que há uma certa marca de sofrimento nele, e que a vida é dura, tem uns laivos de dura.

De outro lado, para obter que a gente cumpra o dever, os pais, os professores, os mais velhos, os maiores, de vez em quando dizem alguma coisa: “Não senhor, você tem que cumprir seu dever! O que é isso? É um homem mole? Você precisa passar nos exames, ou precisa fazer ginástica, ou precisa comer mais…” Enfim, tem que fazer uma série de coisas que você tem que fazer, e na vida você só presta se você for capaz dessa “leistung”, dessa carga de sacar de si uma certa coisa! Isso se soma com o instintivo da lógica infantil, fica-se com a idéia de que é o lado duro da vida para a criança.

* De outro lado vê os mais velhos gozarem a vida

Agora, de outro lado a gente vê largamente os mais velhos gozarem a vida. Gozarem de acordo com o temperamento deles. Uns são mais gozadores, então vão a festas, a teatros, enfim, o que der, bailes, etc. Convidam gente, são convidados, etc., etc. Outros gostam de uma vida mais sossegada, portanto levam uma vida mais em casa, mas uma vida ultra nhonhô, inteiramente como eles querem, tomada a exata medida; ora com mais dinheiro, ora com menos dinheiro conforme o estado de situação do chefe de família, mas em qualquer estado muito raramente com preocupações econômicas verdadeiras. Muito raramente com economias que dêem dor de cabeça. E quando a economia dá dor de cabeça não contam para as crianças.

* Ainda mesmo quando eles chamam de sofrimento,

é uma vida de delícias* Ainda mesmo quando eles chamam de sofrimento,

é uma vida de delícias

De maneira que a criança vê aquela vida nhonhô sossegada, tranquila, etc., etc., que compensa a idéia da dureza da vida. Eu me lembro de uns tios, eram duas irmãs de minha avó, uma era casada e outra solteira. A solteira morava com a casada. A casada morava com o marido dela, e esse casal tinha tido filhos, formava uma casa, um lar. Eu às vezes ia à casa deles. Essas duas irmãs de minha avó tinham lá suas doencinhas.

Mas eu me lembro de uma delas, essa era casada, o quarto de dormir, tinha o quarto de dormir — os quartos de dormir naquele tempo eram muito grandes — e tinha um sofá no quarto de dormir. E disseram: “Coitada da sua tia Fulana. Porque ela às vezes tem acesso de asma, então ela fica sentada nesse sofá, e sofre muito. Olhe, você está vendo sobre aquela mesinha, está o leque com que ela se abana”.

Está bom. Mas eu olhava para aquilo tudo e dizia: no total a vida dela, com os acessos de asma, eu trocava pela minha! Porque é uma vida tão tranquila, tão farta, tão sem problemas; o quarto dela tão cheio de lembrancinhas, quadrinhos e berloques, etc., etc., que vale mais a pena ter um acesso de asma nesse quarto do que viver sem acesso de asma em outros quartos que eu conheço!

Mais ainda. A condição de doente como ela leva, é uma ciência. Porque fica dorloté: “Você como está passando?” De manhã minha avó telefona sempre para saber se ela teve asma durante a noite… Então teve, não teve. Se teve manda contar como foi a asma. Minha avó não vinha ao telefone, porque estava deitada até não sei que horas, mandava recado que estimava que estivesse melhor…

Esse nhãnhã assim, que eu dizia: Isso é uma delícia! Em comparação com a vida que eu levo, é uma delícia! Se eu pudesse eu punha essa minha tia na minha pele, e entrava na pele da tia velha, e vivia o resto da minha vida aqui sossegado, porque é uma verdadeira delícia! Essa asminha que ela tem é uma verdadeira maravilha!

Jóias grandes, coleção de objetos bonitos, de tudo! Então, o sofrimento que a vida traz, de que essa gente fala, é o sofrimento que eles têm. Eu vejo qual é o sofrimento deles. Não é nada! Não é nada. Eles levam um vidão, todos eles. Resultado, no fundo esse sofrimento que eles falam é azar que bate de repente num, como pode acontecer que de repente um está andando na rua, torce o pé, aconteceu. Mas é uma coisa passageira, ou é uma coisa que é verdadeiramente um azar.

* Tragédia só acontece com os outros; comigo

e com os meus nunca acontece* Tragédia só acontece com os outros; comigo

e com os meus nunca acontece

Eu tinha um primo que nasceu com a vista normal. Teve uma coisa qualquer na vista, uma coisa qualquer de criança, e o médico oculista para quem o pai dele levou, pingou um ácido qualquer nos olhos dele… nitrato de prata, que queimou os olhos dele. Ele ficou cego para o resto da vida. Esse levava uma vida de rugidos!

Está bom, de vez em quando cai um tijolo na cabeça… Esse coitado, caiu um tijolo na cabeça dele. Mas é raro! Isso não quer dizer que a vida seja ruim. Quer dizer que a vida daquele é ruim. Mas sempre tinha um lado por onde a gente achava o seguinte: isso acontece com os outros, comigo não acontece. E não acontece comigo e não acontece com os meus. Nós somos mais pintados do que outros. Aconteceu com o primo Joca, mas por uma espécie de azar. Mas na nossa gente não acontece isso.

Mas vocês todos devem ter tido sensações assim. Bem, então, vai conversar com os meninos da mesma idade — nem se conversa esse tema sério entre os meninos, é uma algazarra perpétua — mas no mundo das crianças isso se repete. De repente um quebra uma perna, ou de repente um outro leva uma reprovação injusta, ou que ele diz que foi injusta. Ou de repente forma-se uma conjuração no recreio contra um outro, mafiam ele, ele fica numa posição muito ruim, ele se safa mais adiante.

Mas no total é despreocupação completa, algazarra inteira e vidão! Não levava vidão eu, por causa de minhas preocupações morais, por causa da questão da Revolução e Contra-Revolução que vagamente já germinava na minha cabeça, eu levava uma vida dura. Mas eles todos levavam uma vida deliciosa!

Bem, eu então dizia: A vida é essa. Já em menino começa assim. E é até o fim, porque esses meus tios que eu conheço, essas coisas todas, são as coisas mais vidinhosas que pode haver.

* Tio Américo e sua herança inesperada

Eu tinha um tio, tio-avô também, que herdou daquele senhor cuja gravura está no meu quarto, era pai dele, umas terras no alto da serra, que ele nem sabia que tinha. E ele só tinha herdado isso. Não sabia que tinha. Era um engenheiro da Secretaria de qualquer coisa aí, e fazia plantas, essas coisas de engenheiro. Ganhava um ordenado, vivia bem. Naquele tempo se apreciava muito cargo público porque não havia ainda indústria e vida econômica, senão muito elementar. Ele vivia bem. Uma vez recebeu um telefonema da LIGHT. A secção jurídica queria falar com o Dr. Américo Rodrigues dos Santos. Ele era grognon. Foi ao telefone: - O que é que é?

- Nós queríamos comprar as terras que o Sr. herdou de seu pai…

- Não herdei terra do meu pai nada, etc. Isso é história, fantasia!

- Não, o Sr. herdou e a LIGHT está querendo comprar. O Sr. veja aí.

- Mas o que é que é?

- É tal coisa, tal detalhe, o Sr. passe pelo Forum, em tal cartório, etc., etc., lhe dão todas as explicações. A LIGHT precisa comprar essas terras.

Bom, chega no cartório, é assim. Ele passa pela LIGHT, naturalmente aí interessadíssimo, os Srs. podem imaginar, chega na LIGHT: - É tanto, e nós lhe oferecemos à vista, em moeda sonante, tanto.

Era uma fortuna, porque a extensão que meu bisavô tinha era enorme, que ele tinha comprado por nada. Eram terras, matagais. Bem, ficou rico, passou a vida inteira entre Paris e São Paulo, gozando a vida até morrer, muito adiantado, 80 e muitos anos. A vida dele foi isso ininterruptamente. Quando chegou no fim da vida, ele já estava com o capital meio gasto. Deixou o grande hotel, passou para um apartamento, comprou móveis muito bons, e calculou assim: “Eu vou viver durante tanto tempo. O que me resta para viver como eu sempre vivi é tanto, eu vou dividir pelo tempo que eu vou viver. Depois eu morro”.

Bom, fez e morreu dentro do prazo. A idéia dele foi a seguinte: se eu morrer depois disso, eu vou viver na miséria. Mas aí minhas irmãs que têm dinheiro me dão dinheiro. Eu vivo uma vida de mendigo, mas de mendigo rico. E morro. Está acabado. Fez exatamente o que ele quis.

Ele tinha um outro irmão muito caseiro. Muito pachorrento, muito cuidadoso, etc. Esse não fez dinheiro. Levava uma vidinha assim da mesada das irmãs que eram ricas. E as irmãs davam o dinheiro na mão, ele tinha aquilo como se vivesse de um banco!

Bom, eu pensava: veja tio Américo e tio Augusto. Cada um tem a vida que quer. São vidas diferentes. Tio Augusto não gostaria de levar a vida de tio Américo, nem tio Américo a vida de tio Augusto. Moravam numa mesma casa, uma casa pequena, e não se viam durante semanas, porque na hora de tio Américo chegar, tio Augusto estava dormindo sono fundo, porque tio Américo tinha voltado de uma folia qualquer, e tio Augusto estava dormindo. Na hora de tio Augusto sair, tio Américo estava dormindo. E assim não se encontravam nunca! Era por meio dos criados, recadinhos sobre coisinhas da casa: compra uma lâmpada, essas coisinhas que tem que fazer, era assim. Eles não se viam. Quando se viam eram cordiais, nenhum invejava o outro.

* O grande apego: a idéia de que por mais que as coisas

variassem, nunca chegava a um termo de sofrimento* O grande apego: a idéia de que por mais que as coisas

variassem, nunca chegava a um termo de sofrimento

Cercado de exemplos assim, era mais ou menos todo mundo que eu conhecia. Fazia uma imagem da vida em menino que era essa. Mas o grande apego não era propriamente de fazer isso ou aquilo. O grande apego era a idéia que por mais que as coisas variassem por dentro dessa linha, nunca chegava a um termo de sofrimento trágico, nunca chegava a qualquer coisa que fizesse sofrer de verdade, e que gingando um pouco mais de cá e de lá, tudo era despreocupação e felicidade.

E isso era como um dogma, e o próprio habitat da alma era isto. E não se concebia a vida a não ser assim. E vocês mais ou menos têm que ter pego isso, de um jeito ou de outro têm que ter pego isso.

Acontece que a gente se habitua de tal maneira a essa idéia que a dificuldade é entrar numa outra concepção da vida. Porque vira e mexe aquela gente quer voltar para aquela toadinha distendida, despreocupadazinha ou distendidona e despreocupadona. Mas sobretudo naquela idéia de que certas coisas não acontecem, e que a vida inteira a gente está vacinado contra isso, porque isso não acontece. Cada um a seu modo é mais ou menos assim, é mais ou menos isso.

II. A realidade da vida é outra: Céu, Inferno,

morte, pecado mortalII. A realidade da vida é outra: Céu, Inferno,

morte, pecado mortal

Agora, a realidade da imagem da vida é outra, porque começa por ter o céu e o inferno; o pecado mortal. E você está jogando todas as cartadas a todo momento. E a todo momento, se você não prestar atenção, você está caindo no pecado mortal. E o pecado mortal, você sabe bem que arrasta até que de repente morra. Porque todo mundo vai vivendo, e antes de chegar aos 20 anos já perdeu vários colegas. Serão 3, 4, 5, entre colegas ou outros da mesma idade de que ouviu falar, que a gente não conheceu, mas perdeu. E a gente compreende que também pode perder.

Um ou outro, como foi meu caso, esteve mal à morte. Eu estive mal à morte com crupe, angina difitérica. Eu senti que eu ia morrer!

* Se quiser ser alguém na vida é preciso fazer força

Depois tem o problema, além do céu e do inferno, tem o problema seguinte. Se a gente quer ser alguém na vida, tem que fazer uma política para dosar seu relacionamento com os outros. Se não dosar, acaba levando coice e indo para o último lugar. Você toma o menino de melhor família, mais rico, mais bem colocado, o que quiserem. Se ele não abrir os olhos, os outros acabam tendo pouco caso por ele, julgando que é uma nulidade, que é um cretino, aproveitam-se dele, do dinheiro dele, mas tratam como um homem a não ser tomado em consideração em coisa nenhuma nem para coisa nenhuma, e ser portanto um tipo apagado, de uma situação inaceitável.

E precisa fazer força, e saber ter política, e saber meter o cotovelo em alguns, e saber meter o pé em cima dos outros, para a gente firmar para si a posição que quer. Isso é uma batalha! Não há menino com pudor no rosto, com brio no rosto que não tenha encontrado dificuldades dessa natureza.

Às vezes é mesmo pelo o que tem de mais. Se singulariza, sai da mediocridade e começam as setas. Tudo isso vocês mais ou menos — nós fomos educados em nações ou Estados do Brasil diferentes, etc., etc. — mas mais ou menos vocês têm que ter passado por tudo isso, porque é isso.

* Ilusão de que quem se dá à vida fácil não tem

encrenca, e de que os virtuosos são azarados* Ilusão de que quem se dá à vida fácil não tem

encrenca, e de que os virtuosos são azarados

O que é que faz o indivíduo? Ele renuncia ainda em pequeno a noção do pecado mortal e a levar a vida de virtude, em parte pela atração, vamos dizer logo, é a questão do sexto mandamento; em parte. Mas não é o elemento principal. O elemento principal é que ele não quer ter uma vida dura como a fidelidade à virtude supõe.

(Sr. GL: E a amnésia a que o Sr. se referia…)

Eu vou tratar daqui a pouco. Eu preciso pôr… A questão é sempre das tais coisas: as introduções grandes e depois a consequência pequena, porque da introdução bem feita emerge a solução. A questão é fazer a introdução com o cuidado que merece.

(Sr. GL: A vida dura não se quer.)

Não se quer, mas não se quer!! E se tem uma curiosa ilusão de que quando a gente aceita aquela felicidade fácil que é a filosofia da vida comum, as coisas não dão encrenca com aqueles.

(Sr. GL: O Sr. não acha que havia um demônio em certo período da BG azul para que as coisas não dessem encrenca mesmo?)

Não, e já no meu tempo de pequeno era isso! Já no meu tempo de pequeno era isso. Quer dizer, quem se punha muito em questão de pecado mortal, pecado venial, e cumprir, tátátá, não era só dizer que estava em estado de graça, e que portanto tinha dificuldades com os outros. Não é isso não. De fato era mais azarado. A criança sente isso até certo ponto, porque a criança tem muito mais feeling do que a gente pensa, sobretudo quando ela está em jogo; quando ela não está em jogo não liga, nem pensam.

(Sr. JC: As crianças percebem muito mais coisas do que a gente pensa.)

Ora! E pega aquilo tudo, e diz: “Bem, eu não vou me incomodar com a Religião, porque eu não vou sacrificar essa história que é quase uma religião. É idéia de que se eu não entrar naquele diapasão eu fico da turma dos azarados.” Isso é a coisa vista no seu fundo, ao menos a vida que eu conheci é assim.

Vocês me desculpem de entrar com uma reminiscência pessoal, mas para eu conseguir sair da quase indigência em que fiquei quando minha avó morreu, para esse status que não tem nada de luxuoso, mas é apenas decente, condigno, onde eu posso ficar sem me envergonhar, a batalha que foi em tudo e por tudo, era enorme! As menores coisas. Eu percebia que era em parte isso […], mas que em parte não era. Era um jogo de demônio e de circunstâncias, etc., que levavam a isso. Era preciso uma batalha de vida e de morte. Pelo contrário, havia outros que com toda facilidade faziam negócios! Tem uma boa idéia, vai ver, aquilo sai direito.

III. Dentro da TFP, uma maldita amnésia

da maldade do mundoIII. Dentro da TFP, uma maldita amnésia

da maldade do mundo

E isto forma uma verdadeira i-do-la-tria. E a tentação natural é a seguinte. A pessoa se apega tanto a essa idéia, que entra na TFP; E a graça, com todas as doçuras dela, prepara antes uma crise no sujeito com esse mundo assim, de maneira que ele começa a vituperar esse mundo. E aí ele vê alguma coisa que a graça o preparou para ver.

Depois ele encontra a TFP que, dentro da crise em que ele entrou, é a solução. E entra toda a doçura do thau que se encontra, o entusiasmo dos grandes ideais, etc., etc. E o sujeito que está habituado a levar a vida nhonhoza entra naquilo mais ou menos com sacrifício mas com compensações.

* Depois de ver toda a maravilha da TFP quer-se

somar a ela a despreocupação do passado* Depois de ver toda a maravilha da TFP quer-se

somar a ela a despreocupação do passado

Agora, chega um momento em que ele toma essa posição de alma singular, ouviu? É assim: “Bem, o jardim moral, mental da TFP, eu já conheço inteiro. Eu já ví tudo, e verdadeiramente é uma coisa muito bonita, etc., etc. Mas trata-se agora de tomar o meu modo de ser, os meus antigos hábitos, etc., naquilo que não são pecado, e somar a esse modo de ser novo. Não é sacrificar o modo de ser do thau. Não. É compreender que eu de Hábito, com essa cruz, com esse escapulário, com essas botas, com esses compromissos, com esses votos, posso viver assim com a despreocupação que eu tinha quando estava no mundo.”

Não se trata de imediato de voltar para o mundo. Trata-se de uma coisa diferente. É reencontrar aquela despreocupação, aquela normalidade, aquela vida folgada dentro da TFP.

E o sujeito faz meio subconscientemente. Agora, ele se volta nessa ocasião para seu próprio passado, para colher os elementos que ele vai salvar do naufrágio, e incorporar à sua situação dentro da TFP. Ele vive, tenta essa incorporação, a coisa dá mais ou menos certo. Mas nisso ele passa a ver a vida fora não como ele via, mas só aquilo que ele transplantou para dentro da TFP, é a mesma coisa que tem lá fora. Não tem outra coisa.

* Então vem a fraude do demônio: esquecimento

de como era o mundo e da crise que teve com ele* Então vem a fraude do demônio: esquecimento

de como era o mundo e da crise que teve com ele

Aí é que se dá a fraude do demônio. Aí ele se esquece do mundo como era, esquece da crise que teve com o mundo, na hora de tomar os salvados do naufrágio e levar para ilha onde ele construiu sua cabana, e que é a TFP. Aí dá-se ao pé da letra uma amnésia. Uma amnésia maldita mas se dá. Maldita e voluntária, mas dá-se. E mil aparências do mundo dão para isso.

* Na janela do Er. São Bento, vendo a mentira da cidade

Eu me lembro mais de uma vez estando em São Bento, eu olho por aquela janela da sala onde está o trono de Nossa Senhora, eu abro a porta, é raro mas por ex. quando eu ia saudar os jovens lá naquela sacada, eu estava na sacada, naturalmente estava olhando para eles, estava com consciência do que estava fazendo, mas qualquer um de nós olha para o ambiente. E via a cidade de São Paulo à distância. Tão tranquila, tão despreocupada… Uma ocasião não sei a propósito do quê, passei um sábado e domingo lá. A cidade mais tranquila ainda do que de costume.

Eu pensava com os meus botões: Eu estou vendo a mentira dessa cidade. Eu, para mim, graças a Nossa Senhora, isso não quer dizer nada. Mas pobres desses rapazes quando chegar um domingo em que eles nesse estado de espírito de somar as coisas, olharem para lá e virem a inocência que eu tenho aqui e a ilusão que aquilo causa.

* Quando trouxe os salvados do incêndio, organizou

de tal maneira que para o estandarte não há lugar* Quando trouxe os salvados do incêndio, organizou

de tal maneira que para o estandarte não há lugar

Meu filho você não concorda…

(Sr. JC: Inteiramente. Eu acho que há um degrau ainda nessa descida, que é a amnésia que a pessoa às tantas tem em relação à vocação.)

É, é essa hora! É essa hora.

(Sr. JC: Sim, mas a segunda amnésia, a mordida do demônio vem quando o sujeito já teve a primeira em relação às graças todas da vocação, do thau. Nessa hora vem a amnésia da maldade do mundo fora. Se ele tiver bem firme no espírito a noção das graças todas da vocação, do thau, que não mentem, quando chegar a hora da tentação da amnésia da maldade do outro lado, ele está muito mais forte, muito mais preparado.)

Eu não nego que isso se dê em muitos casos. Mas eu não acho que seja só. Pode dar-se outro caso. É que o sujeito segue o itinerário que eu estou dizendo, e ele cria essa atmosfera. Quando ele cria a atmosfera ele é posto de repente diante de uma narração, de uma coisa qualquer, de um fato, aonde aparece o sublime heróico da TFP. E nesta hora ele não encontra em que lugar tocar isso. Porque quando ele trouxe os salvados do incêndio, ele organizou de tal maneira que para o estandarte não há lugar! Ele aí sem perceber esqueceu o estandarte!…

(Sr. GL: A pergunta incidia bem nesse ponto, que a pessoa esquecia da TFP porque se esquecia da maldade de fora.)

É. Uma coisa ou outra pode dar-se. Eu estou descrevendo o mesmo processo com uma seriação histórica um pouco diferente. E uma coisa ou outra pode dar-se. Uma coisa ou outra pode dar-se.

Eu não quero dizer o que é, não é ninguém que está aqui presente na sala. Mas uma pessoa que eu vi, por ex., que foi assim. Eu já referi a esse caso aqui. Teve um acesso de inveja em relação a mim. Porque depois de um período de muitas renúncias, etc., etc., deixou uma situação mundana que tinha e resolveu levar uma vida séria. Resolvendo levar uma vida séria, começou a estudar. E aí fez a tal reincorporação das coisas, quer dizer, a vida, tátátátá.

Mas, esbarrou de repente com isso: que se para seguir a vocação ele precisasse estudar as matérias da vocação, em qualquer ponto da vocação ele me encontraria — isso ele me contou! —, e ele chegou à conclusão de que ele não se sobressairia, numa vida sem pecado como ele estava resolvido a levar, ele não sobressairia numa matéria em que eu estivesse. Portanto era preciso tomar uma matéria brutalmente oposta aos meus gostos, para não ter a minha omnipresença ali.

Agora, você está compreendendo que com esse resultado, o thau, etc., etc., como vai se apagando. Mas há operações dessas.

(…)

Enfim, aí se dá, com essa ou aquela seriação, com essa coisa, dá-se ao mesmo tempo o esquecimento da idéia que a gente fazia da vida, e o esquecimento do thau. Porque aquelas…

(Sr. GL: Da vida dura…)

Exatamente. Bem, e aí não há lugar para mim naquela vida. Então, Nossa Senhora intervém com graças.

(…)

A seriedade vem a ser exatamente essa posição perante as dificuldades da vida, da vida difícil, etc., etc. Quem não toma essa posição não tem seriedade.

(Sr. JC: O Sr. falava dos princípios.)

Isso. O princípio tem quem tem essa posição diante da vida, voltada para compreender que nem tudo é vida vivida de sapato de tênis, digamos. É isso.

(…)



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