CSN
– 12/11/88 – Sábado .
CSN — 12/11/88 — Sábado
Grandeza de perceber o jogo da Revolução — A familia Comillas, de mendigo a marquês: a santidade sendo diretor de empresa de navegação
* Grandeza do Senhor Doutor Plinio em perceber o jogo da Revolução
(…) [Sobre a RR] Cada um vai até onde pode. O difícil ali, que eu tive certa dificuldade, foi perceber qual era o jogo. Percebido qual era o jogo, depois fazer a reunião, vá lá. Mas perceber o jogo…
Porque o jogo é esse, e a gente vê que é um jogo universal. Por toda a parte, com as variantes próprias a cada lugar, mas o jogo é esse.
Você sabe que é uma coisa curiosa, mas é agradável fazer a reunião, porque é agradável a gente mesmo ir compondo e improvisando na hora. Porque muita coisa é improvisada na hora. Não é pensada antes. E dá um verdadeiro deleite da gente ir construindo e armando a coisa. Muito agradável.
(GL: Viver nessa clave é viver num paraíso.)
É, verdadeiramente é. E as pessoas que pensam que o prazer só está nessas coisinhas que eles pensam, essa pessoa não entendeu o que é a vida. Simplesmente não entendeu o que é a vida.
E que perguntas há para hoje, meus caros? (…)
(GL: Se chegou a hora de dizer alguma coisa a respeito do Sr., e o que deve ser dito.) (…)
* O Marquês de Comillas: a santidade sendo diretor de empresa de navegação
(Esse é o venerável Marquês de Comillas.)
É o venerável. É o contrário do M. Émery. É um homem altão, batatão, que manda o que manda, faz o que quer, mas direito. E que manda não para fazer a vontade própria, mas a vontade de Deus. E Grande de Espanha! A mim esse homem encanta enormemente.
(GD: E despretensioso. Ele é o que é.)
É. Assim como nós estamos aqui, ele está aqui. E esse é o tal que quando, o biografo conta, que teve inumeras sugestões de ser padre, que procuraram de todo modo que ele ficasse padre. Que ele não quis ficar padre e disse: “A minha vocação é de dirigir a empresa de navegação de meu pai”. E que dirigiu essa empresa e muitos outros bens.
(GL: M. Émery teria desmaiado com isso.)
Ah, desmaiado. Não, e depois sobretudo que se cogite da santificação desse homem! Eu considero que isso é uma verdadeira mensagem, e é um espanholão no esplendor de sua personalidade! Eu acho que é uma figura que vale a pena ver.
Esse atual marquês é muito unido de parentesco, etc., coma família do Cardeal Merry del Val.
* Uma figura como não houve em toda a história de América do Sul
Agora, é um homem que a qualquer momento enfrenta qualquer perigo e topa qualquer parada, de qualquer jeito. Não tem nenhuma conversa. Figura assim, não me leve a mal meu GL, mas eu acho que na história da América do Sul não tem nenhum. Não tem. Uma coisa fantástica.
(PHC: Garcia Moreno fica em proporções…)
Um grande homem, etc., mas não é isso. Ele tem uma vantagem, sabe qual é? Ele por vários lados simboliza aspectos, não globalmente, mas aspectos do tal enquanto tal. Por vários lados.
(PHC: Ele tem muito brilho na face.)
Tem, tem. Tem donaire…
* Admiração de Alfonso XII pelo Marquês de Comillas
Aqui dentro tem uma carta do Rei Alfonso XII, pai do Alfonso XIII, ao primeiro Comillas, dizendo o seguinte — esse aqui chamava-se Cláudio —, Alfonso XII mandou avisar ao pai dele que iria passar as férias dele, Alfonso XII, na casa dele em Comillas.
Você está vendo que a despesa e tudo é uma coisa fantástica, receber um rei naquele tempo, casado com uma arquiduquesa d’Áustria…
* Maria Cristina de Habsburgo, ex-abadesa em Praga, Rainha da Espanha
Diga-se entre parênteses, ex-abadessa de um convento em Praga; convento que recebia as arquiduquesas casadouras, as quais nunca tinham voto de castidade, para poder se casar quando aparecesse o melhor partido para a Casa d’Áustria. E ela era abadessa, e recebeu de repente um aviso que ela tinha que se casar com o rei da Espanha! E saiu do convento e foi ficar rainha da Espanha, com os tiros, berreiros e bagunça da Espanha daquele tempo.
(CP: Mas é uma situação muito bonita.)
Muito. Entra em certo nexo com essa figura, com tudo isso. Eu ví uma fotografia, penso que não guardei, dela vestida de abadessa, antes de ser rainha da Espanha. É muito bonito, elegante.
O Alfonso XII morreu, e ela ficou a regente da Espanha com o Alfonso XIII menor. E ela levou ali, hem? E levar a Espanha ali não é levar a Bélgica ali, ou a Suiça. A coisa é puxada. Ela levou. E quando o filho ficou maior, ela entregou o poder. Foi uma homenagem geral da Europa à ela, etc.
* Alfonso XII querendo reter ao Marquês de Comillas junto a ele na côrte
O Alfonso XII, provavelmente com ela, foi passar uma temporada, as férias inteiras, na casa do pai dele. Depois convidou o rapaz para ir passar uma temporada com ele no castelo, tátátá. Aí tem uma carta que Alfonso XII escreve ao pai dele, dizendo o seguinte:
“Eu estou cada vez mais namorado de Cláudio… — isso se dizia antigamente sem nenhuma… compreende-se o que quer dizer —, ele tem essas e aquelas qualidades, aquelas, etc.”
Então desfila todas as qualidades: piedoso, e isso, e aquilo, etc. “Eu estou querendo arranjar um jeito de retê-lo junto a mim, e preciso agir com jeito; porque eu poderia, para atraí-lo para a côrte, dar a ele a grã cruz de tal coisa assim. Mas eu vejo o que é que ele faria: ele me devolveria a grã cruz, dizendo que não sente a vocação para ser atraido para uma vida de côrte intensa. E eu ficaria com a minha cruz e não ficaria com o Cláudio. E então o que eu quero é uma outra coisa. Então comunico ao Sr. — um pouco como quem consulta o pai — que eu vou dar a ele a chave de veador da Casa Real. Que é um cargo que dá ao titular a oportunidade de entrar para falar com o rei diretamente, sem precisar passar por todo mundo que precisa pedir licença”. Isso não é uma brincadeira!
(Meu Deus!)
A exclamação é essa: “Meu Deus!” “Porque eu quero tê-lo junto de mim! Mas aí ele vai ter que frequentar um tanto o Palácio. Eu então entrego ao Sr. a chave que vai junto, para o Sr. entregar a ele de minha parte”.
Bom, como esse historiador é “emerizento”, ele não conta como foi a vida de côrte do Comillas. Mas vocês sabem por que é que é, não vou dar uma palavra para explicar. (…)
* A familia Comillas, de mendigo a marquês
O pai dele foi o primeiro marquês. A avó dele era uma mendiga, que no lugarzinho da Catalunha chamado Comillas vivia de pedir sopa — na Europa fazem umas sopas operárias, muito concentradas, com osso de bicho, uma porção de coisas, pedaços de pão velho, etc., são coisas que alimentam… E esse pai dele, vendo a miséria da mãe, pediu licença para ir tentar a vida em Barcelona. Ela deu licença.
Ele economizando muitos ordenandinhos, fundou um pequeno capital. Com esse capital ele passou para Cuba, para fazer com um amigo que ficava em Barcelona, um comércio entre Cuba e Barcelona — mas Cuba ainda era colônia espanhola —, e o comércio rendeu tanto que ele se separou do amigo e fundou uma empresa de navegação. E daí veio a enorme fortuna que ele… Bem, eu acho isso legitimo! (…)
Há momentos minha Mãe…
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