Conversa de Sábado à Noite – 6/8/1988 – p. 6 de 6

[Obs: Foram comparados os Rolos JC 1 com VF 60 e JC 15, conforme foi pedido pela Tabela_CSN-Datilografar. Os subtítulos são do próprio microfilme.]

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Conversa de Sábado à Noite — 6/8/1988 — sábado [Rolo JC 1 – VF 60] (Flávio Lorente)

Como se desenvolveu desde menino a certeza da própria vitória

não sei se foi dito, e por isso não vejo bem sob que aspecto é que figura a religião depois da monarquia. Não haverá algum engano nisso?

(Sr. Gonzalo Larraín: Não senhor, era isso mesmo.)

(Sr. Guerreiro Dantas: Maria- monarquia- religião.)

É, realmente a concatenação se compreende bem, mas para pôr tudo bem em ordem, poderia ser Maria-religião-monarquia. Não pega tanto, mas… vamos deixar essa observação registrada e não vamos nos perder nisso, e vamos tocar o assunto. Agora, sua pergunta então a esse respeito como era, meu filho?

(Sr. Gonzalo Larraín: Se a união triunfante do senhor com Nossa Senhora não estava ligada a essa trilogia. E como é a união triunfante do senhor com Ela.)

* Como o Sr. Dr. Plinio formou a noção de “Thau”

Quer dizer, eu posso dizer qual é a união de minha alma com minha própria vocação, com meu próprio “Thau”. Como o “Thau” é um dom de Nossa Senhora, e sem Nossa Senhora não há dom. Mas esse é um dom eminentemente de Nossa Senhora e, portanto, faz um nexo de uma ligação com Nossa Senhora além de outros aspectos da questão [que] a gente poderia examinar, etc.

Mas é preciso ver o seguinte: que quando a minha mentalidade, desde menino até a extrema idade de hoje, quando a minha mentalidade foi se formando, eu não tinha noção do “Thau”. A noção do “Thau” me apareceu muito tempo depois, mais ou menos no tempo de D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, quando estávamos para nos mudar para a Rua Martim Francisco. Foi mais ou menos nesse tempo. Quer dizer, já era homem feito. E não tinha noção de que a vocação para o nosso Grupo… não tinha uma noção inteiramente definida de que fosse uma vocação especial.

Eu me sentia muito levado a isto, mas como eu percebia muito claramente os fatos, as circunstâncias, as coisas que tinham dado ocasião a que eu pensasse isso, que eu pensasse aquilo, aquilo outro, eu considerava muito mais um efeito normal da marcha do meu espírito, como cada um vai formando a sua mentalidade, do que eu considerar uma ação especial da graça para que a minha mentalidade fosse aquela.

Foi preciso uma longa evolução para eu tomar uma espécie de recuo, assim, de distância visual da nossa própria vocação, e tomar a idéia de que havia a graça do “Thau”. Foi lendo uma coisa do Antigo Testamento, a respeito daqueles que eram poupados numa matança…

(Sr. Gonzalo Larraín: Ezequiel.)

Foi o Profeta Ezequiel. Lembro-me que concorreu muito para isso o Castilho. Se não me engano foi o Castilho que encontrou esse trecho no Ezequiel e veio comentar. Depois, então, eu ampliei muito e mostrei o que era. De maneira que eu assistia ao nascimento de tudo isso, enquanto vocês encontraram isso já feito, com uma construção feita.

Na minha ótica interna, eu não me atreveria a apresentar o papel de Nossa Senhora tão marcante, como depois se apresentou aos meus olhos. Porque eu julgaria sem proporção, nem minha pessoa, nem a obra que eu estava fazendo — da qual eu esperava a vitória da Contra-Revolução —, eu não tinha o atrevimento de colocar isso no alto plano que depois a evidência dos fatos deu a prova de que era assim.

* [O Sr. Dr Plinio e seus seguidores ficaram sós na Igreja]

Depois, compreende-se, porque à medida que nós fomos caminhando, foi ficando mais acentuada a efetividade de nossa obra. E a oposição interna dentro da Igreja foi aumentando a noção de nossa identidade com a Igreja. Porque este cai fora, aquele trai, aquele apostata, aquele ataca a Igreja, aquele não sei o quê, não sei o quê, nós vamos ficando sós.

E daí nasceu uma pergunta: “Quem somos nós”, que deu origem a uma [fita?] [série de reuniões]. Mas aquelas elucubrações [daquela fita?] [daquelas reuniões] ainda foram muito desenvolvidas com o tempo, com os fatos, com os acontecimentos, etc.

* A efetividade da atuação pública mostrou as dimensões da missão

Podem imaginar, por exemplo, o papel dentro disso da RAQC. Quer dizer, quando nós vimos que por uma luta nossa, e por um livro feito por nós o Brasil não caia no comunismo. Quando nós vimos na véspera ou na antevéspera de cair, o Jango falar pelo rádio, e falar contra nós, diretamente… não mencionou o nome, mas foi o mais claro possível: “Atacam até o santo Cardeal Motta de herege, etc.”. Quer dizer, éramos nós, e nós percebemos que os fios que nós puxávamos chegavam até as canelas do Presidente da República, e que deixava em polvorosa o Cardeal, etc.

* [A mão de Nossa Senhora estava sobre o Grupo: tinha-se uma missão]

Aí ficou muito mais claro para todos nós quanto isso era excepcional, extraordinário e, portanto, quanto a mão da Providência estava nisso. Da Providência e de Nossa Senhora, evidentemente. E, então, tudo isso foi tomando destaque. De um fundo mental de idéias, de impressões lógicas, destacou-se a noção da missão, etc., destacou-se depois.

União com Nossa Senhora e triunfo da própria missão — [Essa visão o Sr. Dr. Plinio tinha desde menino]

A noção do triunfo. Primeiro a ligação com Nossa Senhora, depois a noção do triunfo. A noção da ligação com Nossa Senhora estava implícita pela especial devoção que eu, desde aquele episódio meu de menino, tinha a Nossa Senhora. Donde eu não era capaz de conceber qualquer coisa sem Ela; ligado depois à leitura de São Luís Grignion, mas, sobretudo, ligado depois à leitura da Revelação de Fátima, onde aquela profecia do triunfo confirmavam todas as nossas teses, as nossas opiniões a esse respeito.

Eu me lembro que naquele tempo eu fiz, para aquelas semanas de estudos que nós fazíamos, uma conferência. E que eu dei num quadro negro, meticulosamente, todas as razões que havia para esperar a nossa vitória. Mas que eu disse o seguinte… e eu pensava assim, depois os acontecimentos ainda confirmaram mais. Eu hoje talvez já não dissesse o que eu disse naquela ocasião porque vieram dados novos. Eu disse: “Todas as razões que nós temos para confiar — talvez alguém de vocês se lembre disso — no triunfo da Contra-Revolução, estas razões são razões de probabilidade, não são razões de certeza. Razões de alta probabilidade, etc., mas certeza nós temos por causa das revelações de Fátima. Porque as razões de probabilidade, por maior que sejam as probabilidades, certezas não são.”

* A certeza absoluta do triunfo acionada por nosso Fundador, provinha de duas observações da infância

Por onde vocês estão vendo que a certeza absoluta do triunfo e, portanto, o caráter verdadeiramente triunfal vinha de duas coisas: já em menino aquela idéia de que essa ordem não podia durar, essa ordem não podia vencer, porque ela era toda errada. E que, portanto, ela iria cair. Bem, acompanhado de uma idéia confusa de que como ninguém dos que eu conhecia e dos que eu via na imagem do mundo que me dava o cinema, e que me davam as revistas, davam os jornais, ninguém pensava assim, o resultado é que o triunfo teria que ser um triunfo acionado por mim, e por uma ordem de cavalaria que em determinado momento eu haveria de fundar.

* [Nosso Pai e Senhor tinha um pressentimento interno muito forte de que venceria]

Mas isso mais no terreno dos pressentimentos. Um pressentimento muito forte, valendo por uma certeza, mas dessas certezas que não nascem da razão, que nascem de disposições internas, que são muito importantes, mas eu não sabia dar importância bem a elas naquele tempo.

(Sr. Guerreiro Dantas: Não nascia de razões, o senhor disse?)

Nascida desse pressentimento… esse pressentimento é um pressentimento razoável, mas não trazia consigo uma prova. Porque eu não poderia ter certeza, por exemplo, que não apareceria em qualquer momento um movimento, um grande cardeal, um grande Papa, um São Pio X, etc., que desencadeasse uma coisa tão colossal, que o nosso movimento fosse uma gota d’água nesse rio de bênçãos.

Quer dizer, então, eu tinha certeza de que venceria, mas não de que nós venceríamos. Porque realmente, como é que eu podia ter certeza? Mais ainda: eu desejava o contrário, eu desejava que aparecesse um São Pio X que inundasse a Igreja desse rio de graças. Se eu [me?] encontrasse uma gota d’água nesse oceano de graças, eu ficaria satisfeito! É natural!

* [Depois do isolamento veio à confirmação da vitória através da profecia de Fátima]

Bom, mas depois com a luta, com o isolamento, etc., veio então Fátima. Depois da luta, do isolamento, etc., a certeza: “Isto á assim! Agora, é assim, mas o que tem isso que ver com Nossa Senhora?”

Evidentemente Ela era a meta visada por esses destruidores. Eu os vi falar contra o rosário; eu os vi silenciarem Nossa Senhora; eu os vi tripudiarem sobre todas as devoções privadas, inclusive as que se voltavam para Nossa Senhora, e falar só no Cristo… E no Cristo que era um Deus não muito definido. Tudo isso eu vi, eu presenciei. Naturalmente eu percebi bem: dado o papel d’Ela na economia da salvação, Ela atacada assim, não podia deixar de ser atacada à vista dessa ofensiva. E essa vitória é a vitória d’Ela! Se fosse uma derrota, a derrotada era Ela. Quando for uma vitória, a vitória será d’Ela!

E realmente…

(…) [Corte nº 1]

* A visão atual da vocação é a maturação da visão primeva

de nossa própria vocação, nos termos em que vocês a vêem hoje. Que representa uma explicitação e uma enorme maturação dos dados antigos. Mas realmente, de novo, em relação aos dados primeiros, não tem nada. É a fiel conservação do depósito primeiro, da graça primeira levada até o seu cume. Há entre essa concepção primeira e a concepção atual, a mesma analogia que há entre a aurora e ao meio-dia. Quer dizer, é o mesmo sol que se levanta, que tem os mesmo raios, mas está na sua luz matutina, ou na sua luz meridional! É isso! Nós estamos na luz meridiana dessa vocação.

Pode ser que o meridiano ainda cresça mais. Pode ser que não seja meio-dia, mas 11 horas, ou 10:30 h. Mas enfim, a metáfora serve para explicar o meu pensamento.

Bom, agora, isto então, agora…

(…) [Corte nº 2]

* A visão terra-terra da realidade, e a visão arquetípica

esse busto também, mas tomem essa imagem aqui do Sagrado Coração de Jesus. Você imagine que fosse pintado, muito bem pintado, mas de várias cores, colorido. Não produziria o efeito que esse superbranco, já um tanto poluído pelo ar de São Paulo, entretanto produz. É um arquibranco que fala assim à alma, nessa linha.

Bem, é curioso que esse arquibranco, nesta capacidade de indicar os imponderáveis, preparam o espírito para uma coisa que eu falo aqui com afeto, etc., é uma concepção arrojadíssima, e cuja veracidade a gente percebe olhando para dentro de si mesmo, mas é o seguinte:

Há um certo modo de conceber as coisas onde a gente não olha as coisas como elas são, mas a gente as olha como são como um ponto de referência para compreender, sobretudo, o que elas deveriam ser. E no compreender como elas deveriam ser, o indivíduo forma duas visões da realidade: uma visão da realidade é a visão terra-terra. Depois, uma visão verdadeira, e que precisa ter. A gente deve estar agarrada a essa visão com garras de águia.

Mas depois há uma coisa mais delicada: que é a partir da compreensão da coisa como é, a intelecção daquilo como ela devia ser, do modo que ela deveria ter, como ela deveria ser, que nos revela o fim da coisa, e o que ela tem de mais essencial. E eu volto a dizer: é uma compreensão da coisa. Tem o ar de uma fantasia que se acrescenta à realidade, mas na realidade é uma compreensão que está não na superfície da realidade, mas está no fundo…

(…) [Corte nº 3]

* A visão ideal das coisas faz ver uma realidade profunda que a visão terra-terra não dá

não tolda a realidade do terra-terra. O terra-terra é como ele é. E a gente não pode perder de vista em nenhum momento. O que a gente deve é compreender que o terra-terra tem uma profundidade maior do que aquilo que aparece. E que essa profundidade é uma contradição aparente na metáfora, mas é uma profundidade para cima. Que a profundidade das coisas consiste no mais alto aspecto que elas poderiam ter. Mais ou menos como se dissesse que o sentido da pirâmide mais profundo se vê no ápice da pirâmide. O profundo da pirâmide está no ápice.

Então, a profundidade das coisas está na visão ápice que se pode ter delas. Então, a partir disso, a gente forma, pode formar uma noção, por exemplo, de uma cidade ou de um país, assim: como é que o país devia ser, como é e como não deveria ser. É tridimensional. E o que tem de…

(…) [Corte nº 4]

* Um exemplo tirado de Metternich

então, ela e o Metternich vão para lá, para ver qualquer coisa de governo lá. Bem, chega lá, há uma grande parada, e o Metternich…

(…) [Corte nº 5]

num carro, e noutro carro vai o Metternich com o Príncipe de [Wittischgretz?] — um título superperfumado na Áustria —, e depois, então, os homens descem dos carros, montam a cavalo, para dirigir também a parada, inclusive o Metternich. Não sei como ele arranjava aquele negócio, porque ele era civil, não era militar. Mas tinha que saber. E ela ficava sozinha no carro que servia de tribuna para ver passar a parada toda.

Então passa a parada, ela encantada… muito bonito, viu o [Clementz?] desfilar, naturalmente… de primeira importância, desfilar entre dois arquiduques, etc. Quando veio um estafeta para avisar que tinha chegado um telegrama, uma comunicação qualquer, de que o Tzar da Rússia deveria passar por Praga a tantas horas da noite, e que depois iria para o sul, se aprofundaria dentro do Império austro-húngaro, sem dizer para onde ia.

Então, dada aquela importância do Tzar, aquela coisa toda, um corre-corre, etc., para saber que horas — porque naquele tempo não era tão certo — o trem passaria por Praga, para ter um arquiduque na estação, para receber o Tzar privadamente, uma vez que o Tzar não queria ir em público, mas para apresentar os cumprimentos do Imperador.

Então chega a notícia de que o Tzar ia parar em Praga, e depois iria para Viena, mas tocando apenas na cidade de Viena, de maneira que não viria o Imperador. Então, por que era, por que não era? E perguntas, etc. Afinal de contas, acaba-se vendo que o Tzar iria para a Itália, não sei mais o quê. Então era um ursão pulando dentro da sala de visitas, está entendendo?

Todo o movimento de corte, de tudo, em torno do deslocamento do Tzar! Isso é uma coisa mais mítica do que real! Porque o Tzar que chega, o arquiduque que vai esperar, são homens como deveriam ser, que ornam uma cena que representa algo que não é o terra-terra é a moldura. É o mundo da molduras. Mas é um píncaro, dá-nos uma idéia de como as coisas deveriam ser. Nós nos regalamos.

Voilà l’affaire! E por isso quando o Edwaldo visita o Museu dos Coches em Lisboa — sabe que é o mais bonito museu de coches do mundo, está compreendendo? — o Edwaldo fica encantado, não é Edwaldo? “Hahahaha!”.

(Sr. Mário Navarro da Costa: Como é aquela questão do Chanteclair?)

O sol… Sem o sol as coisas não seriam senão o que são. Precisa o talento francês para dizer isso: o sol, sem o qual as coisas não seriam senão o que são! Realmente, essa casa, à noite, é a mesma coisa que de dia. O sol é que lhe acrescenta algo. É a realidade, o suco da realidade.

Bom, vamos andando, meus caros!

(Sr. Guerreiro Dantas: Vivam as guirlandas…)

Isso! Vivam as guirlandas!

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