Arquivo: RR88.M68
Reuniäo de Recortes, 23 de julho de 1988
(trecho)
Passados 20 anos, o que aconteceu?
Nós seríamos levados a responder. Passados 20 anos que explodiu a Revoluçäo da Sorbonne, ela trouxe transformaçöes profundas e no momento essas transformaçöes estäo conseguindo as suas últimas vitórias. Pois, depois de terem conseguido essas e aquelas transformaçöes, elas väo penetrando agora nas capilaridades da vida social, nas suas últimas conseqüências, nos seus aspectos mais ousados, nas suas aplicaçöes mais avassaladoras e acabam por ocupar o campo que os revolucionários tinham querido ocupar. As últimas vitórias estäo sendo obtidas agora. E. portanto, pode-se estar presente a uma vitória completa da Revoluçäo de 68. - Essa seria, pelo menos, a resposta que eu daria àquela pergunta. Resposta dada em funçäo de alguma coisa que está no nosso espírito.
É que há uma tradiçäo - cahä, cahá - ainda viva, uma Estrutura que de um modo ou de outro ainda tem certa aparência de fachada de pé, e isto aqui (Nota: refere-se ao mundo que nos rodeia) que nós näo quereríamos que fosse derrubado, quereríamos, isto sim, que fosse reformado para voltar a ser o que fora, cuja integridade nós desejaríamos que caminhasse para uma integraçäo ainda maior.
Ora, vemos que isso acaba de ser derrubado, esfarelado hoje em dia. Coisas como por exemplo as reformas do Felipe Gonzales: autorizaçäo do aborto, da homossexualidade, da droga - bem entendido, também do divórcio - e outras aberraçöes assim, diretamente resultantes da atmosfera anárquica da Revoluçäo de 68. Tudo isso se estabelece, se introduz, e as barreiras que existiam väo acabando por sumir. Entäo, é a consolidaçäo tranqüila e vitoriosa da obra de 68.
Mas, isso é o ponto de vista a partir do qual nós encaramos essa situaçäo. Eles encaram de outro lado. Eles se perguntam o seguinte: havia uma marcha violenta para a frente. A juventude de hoje continua essa marcha? Ou a juventude de hoje parou nessa marcha?
E na ótica deles a resposta é diferente. A resposta seguinte: o ímpeto da Revoluçäo de 68 cessou, e a mocidade de hoje é uma mocidade satisfeita, que näo procura novas formas, mas procura ficar implantada no terreno que foi assim modelado com uma espécie de compromisso entre um resto de tradiçäo e o movimento da Sorbonne. Mais ainda, há uma certa tendência para voltar ao tradicional. Näo uma volta completa ao tradicional, mas uma volta ao tradicional em alguns pontos.
Ele (o articulista da revista Corpo a Corpo) dá exemplos. O vestido de noiva e todo o aparato do casamento: grinalda com a flôr de laranjeira, o véu etc. Täo pouco revelador da realidade, porque afinal de contas a virgindade desapareceu. Mas o traje de virgem, é com ele que a moça se dirige ao altar aonde vai desposar-se com um moço que possivelmente lhe terá tirado a virgindade! (...).
Tudo isso representa em alguns pontos certa volta atrás.
É que eles da vanguarda revolucionária esperavam - esperavam... - que o movimento da Sorbonne fosse de explosäo em explosäo mais intensa, até arrebentar com tudo. E que 20 anos depois a explosäo estivesse no seu auge.
Ora, essa caminhada explosiva cessou e deu origem a uma assimilaçäo pacífica que faz com que a mocidade de hoje näo tenha ideais, näo tenha preocupaçöes, deseje exclusivamente um emprego, viva com papaizinho e mäemaezinha até o momento do casamento, se preocupe em ter filhos, näo sei mais o que, näo sei o que. E por causa disso eles consideram que há uma espécie de derrota do movimento do qual eles esperavam uma trajetória cada vez mais para frente.
É interessante nós nos perguntarmos o que há de realidade nisso e qual é nosso ponto de vista a esse respeito. Por ex., com a calça blue jean. Ela representou no seu tempo uma manifestaçäo, como indumentária, mais revolucionária do que o sans-culotte no seu tempo. Agora, (diz o articulista revolucionário) a calça blue jean é comprada pacificamente e usada por toda uma mocidade que já näo tem a indignaçäo dos blue jeans. E assim, esse símbolo de uma revoluçäo passou a ser uma tradiçäo.
Que devemos achar disso? Porque a opiniäo sobre a calça blue jeans é muito significativa de como esse tipo de revolucionário de vanguarda, mas de terceira pista, publicitário, que escreve revistas, escreve peças teatrais, que está no contacto imediato da onda revolucionária com a massa a ser revolucionarizada, como ele vê a coisa. E como por detrás os grandes responsáveis vêem a coisa. E como nós devemos procurar vê-la.
A situaçäo se define da seguinte maneira: todas as grandes revoluçöes tiveram esse dinamismo; elas explodiram e foram até certo ponto, mas no momento em que transbordaram de pequenos ambientes pré-frabricados - como foi o ambiente da Sorbonne - para ambientes pacatos e conservadores, elas correram o risco de produzir cristalizaçöes. Entäo se tratava de deter a revoluçäo no ponto em que a cristalizaçäo chegasse a tomar conta dos moleiröes. Porque, cristalizar os moleiröes é perder a partida para uma revoluçäo. Há um limite até onde uma revoluçäo pode ir e um limite além do qual näo pode ir. Esse limite, a orla até onde ela pode ir, säo os moleiröes. Quando os moleiröes se cristalizam, ela pára.
Isso nós notamos em todas as revoluçöes. Por exemplo, o protestantismo. Quando se estuda a história dos primeiros 100 ou 150 anos de protestantismo, dir-se-ia um movimento anarco-sindicalista. Refiro-me à conotaçäo petrolera e trágica desses movimentos no século passado. Lutero, Zwinglio, Wicleff, aquela gente toda, John Huss antes deles, todos esses eram homens que queriam queimar e queimavam, que depredavam, que arrasavam, que berravam, que hurravam.
Cem anos depois, o protestantismo parece tomar mais calma, ser mais criterioso, mais ajuizado, fazendo silenciosamente a conquista de um terreno que näo conseguiria conquistar a força armada. Entäo chega a hora da máscara do bom-senso substituir a máscara do terror. E a revoluçäo continua no seu bom senso aquilo que no terror ela näo conseguiria.
Os Srs. encontram o mesmo com a Revoluçäo Francesa. Depois dos excessos do Terror começa a reaçäo Termidoriana; entra-se para formas políticas - a Revoluçäo Francesa foi em larga medida política, talvez principalmente política -, entäo, começa-se a passar para formas mais pacatas: o Diretório, depois o Consulado, depois o Consulado vitalício, depois o Consulado de um só, depois a restauraçäo de uma monarquia de latäo na cabeça de Bonaparte, depois até à restauraçäo dos Bourbons.
Quer dizer, vai até lá a Revoluçäo Francesa. E que fazem os Bourbons? Os Bourbons restaurados fazem um papel parecido com o do Isopor: eles habituam a França tradicional ao regime que é republicano exceto que o chefe usa uma coroa. Quando cai a coroa, a república já está implantada nos costumes nacionais.
Para que isso fosse feito com mais cautela, com mais garantia de êxito, eles näo passaram diretamente de Carlos X, um rei ainda coroado em Reims etc., näo passaram diretamente para a república; mas puseram Luis Filipe no trono.
E Luis Filipe usava a fórmula de que ele tinha uma monarquia em que o trono era todo cercado de instituiçöes republicanas. Em 1848 ele foi mandado embora, retirou-se na abundância da riqueza que tinha herdado e que tinha acumulado durante esse tempo, e foi morrer na Inglaterra.
Veio o Bonapartismo. Só mesmo depois da queda de Bonaparte, e quase restaurado o pretendente legitisma que era o Conde de Chambord, é que afinal de contas acabou vindo a república.
Quer dizer, vai e vem, vai e vem...
Nesse movimento ondulatório ter-se-ia a impressäo que o ideal republicano tinha perdido toda a sua força. O contrário. Ele estava adaptado a formas novas de sensibilidade, ele se fazia entre os moles e para o gosto dos moles, depois de ter derrubado os obstáculos mais duros.
A mesmíssima coisa está acontecendo com o movimento punk etc. Eles foram duríssimos! E agora nós temos uma geraçäo habituada a viver em moldes punks sem ser punk; habituada a viver em critérios sorbonianos ou em fórmulas soborbonianas, sem ser sorboniana, e fazendo com que uma porçäo de últimas conseqüências do movimento da Sorbonne, como é por exemplo, a bermudas, as sandálias, o fato dos homens e das mulheres promiscuamente se beijarem sempre, o fato do casamento estar desaparecendo e dando origem ao amor-livre promíscuo e multiplicado, o fato dos filhos estarem cada vez mais independentes dos pais embora vivendo em bom acordo com eles dentro de casa; enfim, uma série de coisas dessas provam que o movimento da Sorbonne - no momento - é como um mar que se faz miudinho quando entra na praia, mas ainda é a força enorme do oceano que leva para a praia aquela ondinha que chega até onde pode chegar, molha aquilo que pode molhar.
(Aparte de JC: ...Kohn Bendit entrevistou líderes sorbonianos que dizem: Naquela époda queríamos derrubar a sociedade. Hoje fazemos parte dela... Por que näo transformá-la por dentro?)
É bem isso, ficar dentro da sociedade para derrubá-la por dentro.
Mas por aí os Srs. compreendem um tanto as dificuldades internas que é preciso termos em consideraçäo. Eles para terem gente que produza peças de teatro e essas coisas assim ao gosto do público, eles precisam ter gente que tenha certo elan artístico, que tenha certa verve, que tenha certa forma de talento ao gosto e às exigências mínimas do público contemporâneo. E essa gente, para produzir as peças que acarretem os efeitos que eles desejam, essa gente precisa crer na quimera de uma revoluçäo que vai para frente, vai para frente, para frente. Se eles percebem que isso é uma trama e que aquela pulsaçäo pseudo-heróica que os encantou näo é verdadeira, que tudo isso é dirigido e que tudo isso é destinado a baixar, e que as ondas colossais do mar estäo destinadas a serem ondinhas que depois chegam às praias. Se eles percebem tudo isso, o elan deles passa.
Ora, eles precisam do elan dessa gente. Entäo eles a mantém na ilusäo de uma Sorbonne que vai crescendo, crescendo... Para essa gente o público é este que estou dizendo aqui. E essa gente tende a desanimar, a entrar em crise, o princípio satânico-axiológico deles fica abalado, eles näo se conformam. É todo um vai e vem. Esse vai e vem tem como ponto de partida que estes ignoram os mais altos segredos.
Por aí os Srs. podem entender ainda melhor a necessidade da iniciaçäo, porque a revoluçäo näo vai se ela näo tiver a serviço dela uma porçäo de ingênuos que acreditam numa coisa que näo é realidade. E aí os Srs. têm o modo pelo qual a ponta da revoluçäo é mantida iludida a respeito do verdadeiro curso das coisas.
(O SDP passa a comentar o artigo Encaretou o Geral, da revista Corpo a Corpo).
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