Conversa de Sábado à noite – 4/6/1988 – p. 4 de 4

Conversa de Sábado à noite — 4/6/1988 — Sábado [VF 059] (Cezar Fabri)

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Eu tenho a impressão de que há uma diferença muito grande, assim, à primeira vista — depois a gente vendo bem não há —, entre o que foi a vida de D. Pelayo segundo o que o povo imagina, ou de um Carlos Magno segundo o que o povo imagina, e do que foi a vida na realidade. Porque a gente imaginando de perto, na vida de Carlos Magno, na vida de D. Pelayo — são vidas diferentes, mas, enfim… —, do Cid, etc., etc., há muitas ações que são de recuo, que são de jeitinho, que são de ficar encolhido, de toda espécie de tretas e retretas, como você dizia pitorescamente há pouco.

Mas depois a gente vê que esses aspectos são aspectos em que eles até, talvez, tenham sido também exímios, [mas] esses aspectos são aspectos colaterais de uma vida cujo sentido fundamental era avançar. Ingredientes de uma vida cujo sentido fundamental era avançar.

Bem, e que o povo, portanto, quando vê em Carlos Magno um homem que avançou, ou que vê no D. Pelayo um homem que avançou, o povo tem razão, porque os recuos e as tretas e retretas estavam a serviço de um avanço geral; e que o avanço era sentido da vida deles. As coisas eram auxiliares. E ainda que levasse muito tempo, ainda que consumisse muito esforço, ainda que, ainda que…, a linha era essa: era a linha do avanço rumo a vitória.

Bem, o mesmo se poderia dizer de outras vidas. Elas são… a linha delas é avançar. E a gente considerando o sentido geral dos acontecimentos, é um avanço, avanço…, mesmo quando aparecem retretas. Bem vamos dizer, por exemplo…

(…)

E a posição de um D. Pelayo deve ser vista de avançando mesmo quando parece recuar. Esse é um problema fundamental, é a visão fundamental. Quer dizer, portanto, que o lumen dele é o lumen do avanço, não é o lumen do recuo. E no recuo, ou na treta e retreta, ele só pode ser bem visto enquanto se considera que aquilo é um avanço. Esse é um ponto fundamental. De tal maneira a mensagem que ele dá de si é avançar.

Agora, esse avançar é no fundo uma espécie de déploiement, de despliègue de personalidade. E esse despliègue é a afirmação de que aquilo que se tinha em conta de morto, liquidado e incapaz de viver, era capaz de inspirar uma como que ressurreição. E que era intrinsecamente à posição liberal do século passado, diante da reação católica, era uma posição assim: a Religião Católica não tem mais molejo de alma dos homens para produzir as formas de heroísmo que ela produziu em tempos anteriores. Mudou a alma humana, e a Religião Católica ficou, como seria em matéria de medicina, o desenvolvimento da farmacopéia, etc., etc., está inteiramente antiquado, não se usa mais.

(Sr. João Clá: Acontece com certos antibióticos.)

Acontece com certos antibióticos. Você veja. Aliás, a comparação é até muito melhor, porque acontece mesmo que, na reação ao antibiótico, o vírus às vezes se fortifica e o antibiótico não acompanha a fortaleza do vírus. E ali se diria que a Religião Católica não acompanhava a fortaleza do vírus. É como eles querem apresentar.

Uma porção de fatos históricos poderia desmentir isso. Por exemplo, os triunfos do Bem Aventurado Pio IX desmentem isso: a Imaculada Conceição, o Concílio Vaticano I, a Infalibilidade Papal e várias outras coisas desmentem isso.

Mas não deixa de ser que, em conjunto, num conjunto enorme de fatos, a Religião Católica está em recuo. Ela até apresenta em certo despiègle, algum desenvolvimento no terreno especificamente dela, que é o terreno religioso, mas o mundo inteiro caminha para uma outra coisa. E haveria de dar o que deu com o Vaticano II: quer dizer, o mundo vencendo, vencendo, infiltra-la-ia; as reações dela contra o mal externo seriam cada vez menores — isso vai até Pio XII, de S. Pio X exclusive até Pio XII — e depois dá no que vemos.

Mas de S. Pio X exclusive em termos, porque ele isolado reagiu, mas de fato a gente vê que a torrente do espírito do mundo estava penetrando a tal ponto que ele estava completamente isolado e acabou assassinado. De maneira que, realmente, é fora de dúvida que era um recuo.

Agora, era preciso que os católicos tivessem o dom de apresentar nas suas próprias personalidades, como que, experimentalmente que a Religião Católica é capaz… — mas assim, vendo, olhando —, que a Religião Católica é capaz de dar alento aos mais audaciosos despliègues, e aos avanços mais inauditos, mais inconcebíveis, que a isso Ela é capaz de dar o corpo.

E independente de qualquer coisa, olhar-se para o católico e dizer: “Este vai ao fim de qualquer cominho”.

(Sr. Gonzalo Larraín: Vai vencer.)

Vai vencer. Ir até o fim do caminho quer dizer chegar até o fim de todas as vitórias.

(…)

Por que? Por que eu tenho a certeza que o asterisco, que é um sinal gráfico muito modesto, mas que o asterisco fazia o leitor saborear o artigo até certo ponto, parar um pouco e preparar o paladar para o que vinha. Pratos sucessivos entre os quais há um intervalo necessário.

(Sr. Mário Navarro: Nos cardápios antigos havia asteriscos.)

Havia. Por exemplo, entre os peixes e a volaille, por exemplo, havia asteriscos. Depois volaille e os rôtis, asteriscos, etc., para exprimir isso. O papel do asteriscos.

Não deu jeito, está acabado, ele não quis, se opôs, ele é dono do jornal. Eu não vou cessar de escrever por causa dos asteriscos. Mas é uma coisinha pequena para indicar a importância desses imponderáveis.

Agora, aquele fazendeiro que disse que ele não gostou do manifesto, aquele doador, não gostou exatamente porque ele não gosta de uma linguagem que se eleve ao ar até esse ponto. Mas a minha obrigação é de aproveitar todas as oportunidades para usar essa linguagem. Não é só de em um manifesto da Reforma Agrária provar que a Reforma Agrária não presta, mas é provar isso, mas [também] provar que o élan de alma que está se opondo à Reforma Agrária, introduz no convívio dos homens outros valores.

Bem, e exatamente é esse um dos pontos em que a contra-ofensiva do Caiado é das mais subtis. Porque ele realmente, com a habilidade própria do Estado de São Paulo, apresenta uma eficácia triunfal que evita, ao mesmo tempo, evita as classes da vulgaridade, por algum lado, e por outro lado faz dele o condestável da vulgaridade. É o D. Juan: é freqüentador da boite do interior, é um homem que sai dançando, que quebra garrafa na cabeça de um outro, mas que não machuca, que dá risada, que sai pulando, que é o amigo do homem a quem ele feriu, e que o homem fica entusiasmado por ele, e o segue… É o brincalhão e o folgazão. É a grandeza na clave máxima a que o nhonhô possa aspirar, e que se põe em contraposição conosco.

Vamos dizer, por exemplo, se o Caiado recebesse visitas nesse salão, ele girava. Era impossível. Mas também se eu recebesse visitas no salão de Caiado era impossível. Nem sei se ele tem salão. Ele deve ter uma copa, uma coisa assim, que ele há de ter. Com uma super geladeira, isso sim.

Agora, então, voltando ao caso, esta atitude, esta certeza e esta vitória que se afirma…

(…)

Uma coisa pode ser vista inteiramente de seu ponto de partida, como pode ser vista de seu ponto de chegada.

Ora, a placidez é um ponto de partida, não é um ponto de chegada. Ela é esplêndida como ponto de partida. Ela é esplêndida como um ponto de partida que continua a acompanhar a ação até o fim, mas ela não é o ponto de chegada. Essa ação não tem por fim ser plácida. Ela tem por fim mover as montanhas. E isso é placidez mais algo; não é a mera placidez. Quer dizer, nós não devemos dizer que isso tudo se reduz a uma magnífica placidez. Isso não seria uma magnífica e supereminente placidez.. Eu concordo. Mas, não se reduz a placidez. E a placidez é o ponto de partida. Mas a cauda final é outra.

Agora, qual é a cauda final?

A causa final é a sublimidade. Defender a sublimidade, o direito dela a ser, a existir, a marcar todas as coisas que ela deve marcar, a reinvidicá-la, proclamá-la, ostentá-la, marcar com ela a ferrete todos os infames, de maneira que o contraste deles com a sublimidade os reduz a zero! É como pegar no criminoso e pôr, antigamente, aquela flor de lis marcada a ferro! O sujeito urra, e depois a vida inteira fica aquela flor de lis infamando o sujeito. Isto é propriamente o termo final.

E essa placidez é bonita enquanto gerando o resto. Porque do contrário, ela só, por si, não se explica. E se você quiser, você poderia pôr num ponto de partida a placidez, e noutro ponto de partida um [Lambesck?], no ponto de chegada o [Lambesck?].

(Sr. Gonzalo Larraín: Em defesa da sublimidade.)

Ah, sim, em defesa da sublimidade. Do contrário não vale nada, é bravata, é cowboy. Aí está propriamente a coisa.

Agora, o que é sublimidade?

É o aspecto das pessoas e das coisas por onde elas mais se assemelham a Deus. Evidente. Ainda que você diga, por exemplo, “a sublime humildade de São Francisco de Assis”. No que é sublime? É que ela mais se assemelha a Deus. Santidade heróica é a santidade sublime, é a perfeição moral sublime. E esse desejo da sublimidade em tudo, esse insaciável da sublimidade é um insaciável de Deus.

Aqui está o conflito com o M. Emery. É mais um ponto onde M. Emery e nós nos encontramos numa posição insanável, mas ela é assim.

(Sr. Gonzalo Larraín: Em todas as coisas.)

Nada, em qualquer coisa que seja, ela tem uma posição.

Por exemplo, vamos dizer, ontem, eu tomei como um outro tomaria uma bofetada desferida contra si próprio…

(…)

* * * * *