Conversa
Sábado à Noite – 14/5/2005 – p.
Conversa Sábado à Noite — 14/5/2005 — Sábado [VF058] (Augusto César)
Nome
anterior do arquivo:
Acontece o seguinte. Essa falta de seriedade tem um significado e um alcance muito maior ainda que a sua pergunta supõe, e eu queria pôr bem os pingos nos “is” na coisa.
A falta de seriedade está baseada na idéia, que fica implícita em todas as coisas modernas, que se a pessoa não levar a vida de brincadeira, a vida se torna impossível. A vida levada com seriedade é de tal maneira monótona, de tal maneira contrária ao modo de ser e as aspirações normais do homem, que ela se torna impossível e, portanto, a falta de seriedade são as janelas abertas por onde entra o ar fresco da vida. A brincadeira é o ar fresco; a seriedade é o aquecedor, mas, o aquecedor num dia quente, num dia onde já está difícil suportar o calor. Então, ainda entra o aquecedor no negócio…! É uma coisa que não é possível. E para que não se estoure, se brinca.
Você está vendo, portanto, que por detrás do problema da seriedade, há uma outra questão. É a seguinte.
A seriedade é realmente vivível, ela é realmente aprazível, ou ela não é aprazível e ela não é vivível? Ela não é, portanto, suportável?
Todo mundo reconhece que se ela fosse suportável, ela seria muito digna. Ela é, de si. Ela apresenta muitos atrativos, ela favorece a reflexão, ela favorece muito a formação intelectiva, ela favorece muito as boas maneiras, ela favorece muito, sobretudo, ela favorece evidentemente a aptidão do espírito para pensar em coisas que conduzem a Deus e, portanto, ela favorece o amor de Deus. E, nessas condições, ela tem uma porção de lados atraentes.
Mas… Tem isso que, a viver imerso dentro dela, se perde a respiração e, portanto, ela é ao mesmo tempo muito atraente, mas ela é insuportável. De onde nada de seriedade. Para poder viver, o sistema é a brincadeira. E então há uma espécie de confraternidade dos homens da brincadeira por onde se os homens que brincam estabelecem entre si uma espécie de conaturalidade, por mais que sejam inimigos e por mais se detestem, brincando, na hora da brincadeira, se abatem algumas barreias, se derrubam alguns ódios na base de uma cumplicidade. E eles se sentem cúmplices uns dos outros, contra a seriedade e o sério, como os homens impuros se sentem cúmplices contra o homem casto. É uma analogia de cumplicidades. E quando entra o homem sério no ambiente de brincadeira, entra o luto. E a coisa muda.
Imaginem, por exemplo, que vocês estejam num jantar lá, de vocês, em cima, e que esteja correndo bem, não só propriamente o lado gastronômico, mas que o ambiente esteja bem, estivesse um ambiente alegre, etc., e entrasse numa pessoa séria [e] que a pessoa fosse eu. Imediatamente, introduzia um clima ali dentro, que fechava as janelas.
(…)
Se eu entrasse de repente no jantar de cima, vocês poderiam ficar contentes, receber bem, qualquer coisa. Mas uma certa forma de descanso, de leveza, de… etc., etc., desaparecia. Automaticamente, desaparecia. E entrava uma idéia do cumprimento do dever, de luta, de batalha; de seriedade, numa palavra só, entrava, que vocês não poderiam suportar.
O A.… ele foi, como sabem, ele servia a mesa e fazia os outros trabalhos no Êremo de Amparo de Nossa Senhora, antes de ser Êremo, antes dele passar a me servir aqui, um pouco depois da morte de mamãe. Bem, ele me dizia que o ambiente lá em Amparo era um ambiente de respeito em relação a mim, por exemplo, nunca se conversava uma coisa contra mim, não se falava contra mim, absolutamente não. Mas que quando eu aparecia, eu não causava alegria, que, pelo contrário, quando eu ia embora, um ambiente de alívio.
Agora, por quê? Porque o tempo inteiro da refeição e fora da refeição, era o brinca-brinca. E, quando eu estava presente, era o tempo inteiro coisa séria, coisa séria, coisa séria. E se via que aquele pessoal não respirava a vontade na coisa séria. Eles respiravam à vontade dentro da brincadeira, da brincadeira, da brincadeira.
Se fosse só o seguinte: dizer coisas espirituosas de um quilate elevado, fosse brinca-brinca, mas fosse de um quilate elevado, já não seria nada bom — mas nada! — mas ainda vá. Mas a forma de estado de espírito reputada realmente repousante pela brincadeira, como ela é praticada hoje, é uma forma assim que encontra seu gosto e seu deleite na trivialidade, para não dizer na vulgaridade. E o tempo inteiro as pessoas se tratam vulgarizando uma à outra, não tomando a sério uma à outra, não tomando a sério nada do que estão fazendo, num universo que tende para o vulgar, que tende para rasteiro.
Agora, em réplica a isso existe a teoria da seriedade.
Quer dizer, a seriedade, pelo contrário… Eu vou pôr assim, me desculpem, afetuosamente eu ponho, mas eu ponho: não é tão provável que quando vocês chegarem a minha idade, vocês estejam com os recursos relativamente ainda aproveitáveis com que eu estou. Não é tão provável. O que quer dizer que esta via desgasta mais do que essa. Não se escapa, disso não se escapa.
Agora, o que quer dizer que de fato a “delectabilidade” — aquilo que não desgasta, que conserva, que mantém [o] frescor verdadeiro na alma — vive bem dentro da seriedade e que há aí uma calúnia contra a seriedade. Trata-se da analisar essa calúnia. Quer dizer, a doutrina da anti-seriedade está exposta. Trata-se de analisar a doutrina da seriedade. Porque a réplica está… no enunciado da doutrina da seriedade se desmente a doutrina da anti-seriedade.
No que é que consiste a doutrina da seriedade?
É no seguinte. A tese: se uma pessoa leva uma vida tranqüila, com muita elevação de alma e com todas aquelas tendências para o maravilhoso e para o sobrenatural muito acessas, das que falamos recentemente e num passado mais remoto no MNF — a condição é essa —, desde que se tenha essa impostação de alma, aí se recebe um frescor, se recebe uma esperança, se recebe um bem-estar, uma acomodação agradável, que faz com que as coisas comuns da vida, as coisas do existir cotidiano, vividas assim, se tornam francamente agradáveis também. E o ver a realidade atual sem as deformações e as caretas da brincadeira, tratá-las com as amenidades, as gentilezas, as cortesias, os afetos da douceur de vivre de outros tempos; fazer do mútuo respeito uma garantia de suficiente respeito que cada um receba dos outros; fazer do mútuo afeto uma garantia da mútua amizade, dá uma despreocupação à alma e uma confiança mútua e, portanto, uma vontade de abrir-se, uma vontade de distender-se, de ser o que é normalmente, que vale muito mais do que essas coisas que nós vemos por aí. Nem tem comparação.
E dá uma disposição nervosa extraordinária. Porque, enquanto o pressuposto da doutrina da brincadeira é que para estar alegre é preciso estar tenso, o pressuposto da doutrina da seriedade é que é só na distensão que se tem a verdade alegria.
Então, se pode dizer que um espírito que pratique a doutrina da seriedade, viveria perfeitamente num castelo gótico, dividindo seu tempo entre a oração, a vida dentro do castelo, com o que ela comporta de um pouquinho majestoso, quando o castelo é pequeno, mais elevado quando o castelo é maior; depois, de outro lado, a caçada e a guerra.
Esse convívio tendendo a elevar muito alto toda a coisa, de maneira, por exemplo, dois velhos amigos até o fim da vida se chamariam Sr. Conde, Sr. Marquês…
Eu estou lendo, por exemplo, as cartas de Metternich. Ele escreve para o embaixador dele em Londres… Bom, não é embaixador dele, é embaixador da Áustria, mas é o Príncipe de [Esterhazy?] — é um potentado da Hungria — e ele é o Príncipe de Metternich, um potentado na Áustria. Começa as cartas, para um embaixador que é funcionário dele e que vai executar as ordens dele, assim— ele, prince, começa: “Mon Prince”, para o outro. Depois vem o trato todo. Enfim, tratam da diplomacia, o que tem tratar um governo e seu diplomata.
De vez em quando: “Eu não lhe devo ocultar, mon prince, a minha preocupação sobre tal atitude do governo inglês…” Fricção com a Inglaterra contínua, porque a Inglaterra é constitucionalista e a Áustria sustentava a Monarquia absoluta. “Não devo ocultar, mon prince, isso, aquilo, aquilo outro… As potências marítimas — Inglaterra e França — tem uma posição insustentável diante dos três impérios continentais…”
É bonito tratar a Inglaterra e a França de potências marítimas porque tinham em níveis muito diferentes marinhas grandes. A Inglaterra, a grande marinha, mas logo depois… Quer dizer, numa lista não haveria intermediários entre a Inglaterra e a França. A França tinha bem menos, mas tinha muito mais do que as que vinham abaixo. Então, era também grande potência marítima. Potências marítimas é uma coisa. As potências continentais Rússia, Áustria, Prússia. “Os impérios continentais entendem isso de tal maneira, de tal, tal, etc., etc”. No fim: “Espero, mon prince, não ter abusado de seu tempo numa comunicação tão longa, etc., etc.”, votos de saúde, etc. e encerra.
Bom, dois homens que se tratam o tempo inteiro de “Mon Prince” de cá para lá, na teoria da brincadeira — porque são iguais — se tratariam… O Metternich era João Nepomuceno, então seria “Joãozinho”; e o Esterhasy vamos dizer que se tratasse de Estevão, seria Estevote, ou qualquer coisa assim. E a brincadeira, puxa-puxa, etc., como condição de alegria.
Na outra concepção não. A concepção da alegria é se tratar de “Mon Prince”, a alegria de ver a elevação daquele com quem se trata e de sentir que o outro também vê… E o mútuo afeto, a mútua estima, etc., tornando a vida enriquecida de algo que eu chamaria a presença de Deus e, portanto, uma certa participação da felicidade celeste. Corolário: Os prazeres normais da vida como, por exemplo, ler um bom livro, tomar um bom sorvete, estar sentado num bom sofá… não sei, digamos, dar uma volta a pé sozinho por dois, três, quatro quarteirões de uma cidade tranqüila, não infernizada a toda hora por veículos… Sobretudo, entrar numa igreja, reza… Não precisa ser muito. Também não é necessariamente pouco. É o que o élan da alma e o pedido da graça sugere no momento. Sair, encontrar um velho amigo, tirar o chapéu para ele, ele tira para a gente, aperta a mão, pergunta notícias da família, disso, daquilo. Um diz para outro: “Olhe, vamos andar um pouquinho em tal direção, porque faz parte do caminho de nós dois, eu estou com um pouco de pressa…” Vão conversando, etc. Isso faz uma vida sem riso e, se quiser, até sem sorriso. Mas é uma vida que tem toda a douceur de vivre de outrora. Mas é uma vida séria.
Agora, é uma vida que encontra no gótico a última conseqüência a si mesma. O brinca-brinca onde é que encontra as últimas conseqüências de si mesmo? Na Sorbonne, na Revolução da Sorbonne.
Bem, acontece que por uma porção de razões que não são essas que eu acabo de dar, que é uma escola de vida errada da brincadeira, e que a escola da seriedade digna, seriedade grave, seriedade gentil, seriedade respeitosa, seriedade afetuosa, que esta é a verdadeira escola de viver. Então, vêem que numa você encontra com o caminho para a Revolução e noutra o caminho para a Contra-Revolução.
O rictus1, a brincadeira e a molecagem de Satanás… Você sabe que existe isso? Uns espíritos diabólicos que tentam fazendo brincadeiras. Então, por exemplo, mudam de objeto de lugar, atrapalham uma velha dona de casa, puxam a orelha de um que está dormindo, fazem toda espécie de espièglerie, mas espièglerie ruim, não é espièglerie inocente. Os alemães chamam isso o poltergeist. [Polter?] é brincadeira, geist espírito.
Então, o poltergeist está presente no brinca-brinca; os Anjos estão presentes no outro. Isso eu acho. E como é que eu posso estar presente e ter a menor condescendência com aquilo… que o último desfecho é a Sorbonne, cujo desfecho último é a Sorbonne? Quando a Sorbonne é a abertura para o reino do demônio? Porque é a IV Revolução, é a entrada para a IV Revolução, o pórtico maldito por onde se chega a città dolente do Dante, é exatamente a Sorbonne.
Como é que eu posso não ser um homem que não tem nada em mim de uma coisa, está cheio de outra e que convida para a outra? Agora, eu sei que a objeção que se pode fazer para mim é que é muito mais agradável estar com o Fabinho, por exemplo.
(Sr. Gonzalo Larraín: Mas falando dos últimos tempos, das últimas graças, ou se está junto com o senhor ou é insustentável a situação.)
É que quando a gente… O que eu procuro fazer — eu noto que mamãe fazia também — é procurar tornar as aprazibilidades da seriedade, o mais possível, sensíveis. E convidar para degustá-las, aquelas com quem eu estou tratando. Certo de que, depois de um período, vamos dizer que é assim: no começo isso dá um “flash”, depois tem sua aridez e depois vem maiores “flashes”, e que isso aí é uma espécie — notem bem: “espécie”! Sublinhe a palavra “espécie” vinte vezes e ponha entre aspas — de mística própria. Há na seriedade uns arrebatamentos suaves, ordenados, ordenantes, convidativos, enfim, magníficos, e que esses arrebatamentos valem incomparavelmente mais do que todas as alegrias que se encontra nos caminhos de acesso à Sorbonne. Este é o ponto.
Por quê? Porque vêm consolações do Divino Espírito Santo e estas consolações valem muito mais do que tudo eu falei da ordem natural.
(Sr. Gonzalo Larraín: O senhor precisou chamar atenção nossa para que essa reunião fosse séria, porque é tal a sacralidade que o problema não se põe. Depois é que vem a…)
É, mas aí precisa notar uma coisa meu filho, que é o seguinte: É que estas reuniões aqui são beneficiadas por uma graça especial. Sem a graça especial, a seriedade merece todos os elogios que eu acabo de fazer dela. A graça especial faz a pessoa subir ao teto. E é preciso a gente ter bem isso em vista, porque às vezes essa graça especial se retrai para nos pôr a prova. É próprio de toda vida mística, da mística ordinária.
E nisto entra algo da mística ordinária. É que essa seriedade de que eu falo, à la longue não é manutenível, como eu a descrevo, sem a graça. Ela é um fruto da graça. E ela tem seus lados sensíveis e seus lados insensíveis; sua via purgativa, sua via iluminativa, sua via unitiva, etc., etc., como toda vida espiritual. E, portanto, há períodos em que se tem a ilusão de que o libelo acusatório da brincadeira contra a seriedade é verdadeiro, e é preciso atravessar esse deserto por fidelidade, como quem carrega a Cruz de Nosso Senhor.
E, já que eu falei da Cruz de Nosso Senhor, que é o ponto central de todo o tema, eu digo a você: se você toma isso em consideração, você compreende melhor ainda as relações de Nosso Senhor com os Apóstolos e a atitude dos Apóstolos com Nosso Senhor. Ele ora se manifestava de um modo aos Apóstolos que os encantava, e eles não sabiam o que dizer; ora a gente vê que essas atratibilidades d’Ele se encolhiam muito mais.
Bem, os Apóstolos imediatamente agiam en conséquence. O que Ele esperava dos Apóstolos é que na memória de tudo quanto tinham visto, andassem uns passos com Ele no caminho da aridez. Isso não queriam fazer. Aqui está o eixo da questão. “Per crucem ad lucem.” Há um certo momento em que a resposta da seriedade é: “Eu sou a cruz, eu estou crucificando de fato e comigo se sofre.” É a resposta da seriedade, e é daí que vem o aroma dela. Depois, não é na hora. E o argumento da brincadeira é: “Está vendo? Comigo não sofre nunca…” Se foge de todos os sofrimentos. Uma mentira! Mas a aparência é essa.
Você veja, por exemplo — se você me dá licença um instante —, a minha presença na Missa, como você descreveu muito bem. Porque eu à distância sinto que é como você diz: a minha presença na Missa, a minha presença na vida cotidiana, a minha presença no mundo, de saber que eu estou vivo em algum lugar do mundo — porque a coisa vai por aí — introduz toda essa cruz e luz da vida do católico. Introduz!
Bem, e é uma coisa evidente que a brincadeira mente que com ela não tem cruz, não tem luz, mas tem luz a boa luz do dia, tem o ar fresco, tem o sol que entra pela janela, que tem a gargalhada!
(Sr. João Clá: A seriedade oferece, dá a cruz, mas oferece a luz; a brincadeira oferece a luz mas dá a cruz.)
Eu vejo, quer dizer, nunca participei disso, mas posso imaginar, uma roda de brincadeira não existe sem que cada um meta uns alfinetes nos outros. Quando a roda se dissolve, cada um vai desconfiado, reanalisando as alfinetadas que recebeu. Como é que vai deitar? Que recordações conservam do dia? Que perspectiva tem do dia de amanhã? Tudo amargurado. Quando nós nos dissolvemos aqui, como vamos tranqüilos…”
Mas é preciso ver as duas Filosofias e quase as duas Teologias da vida, dos contatos, etc. E o lado um tanto místico, de mística ordinária, que entra correntemente nas nossas relações, e que faz, a seu modo, do MNF e muito mais de nossas correntes, nossas conversas à noite, verdadeiramente elevações em conjunto, sensíveis, por causa da bondade de Deus.
Bem, meu bom Gonzalo, meu caro Paulo Henrique, meu querido João, o que me dizem a isso?
(Sr. Paulo Henrique: É isso mesmo. Fora da TFP, as noites todas são assim, amarguradas. Só depois de conhecer o senhor, a TFP, o sofrimento, é que se sente verdadeira alegria e alívio mesmo.)
São favas contadas. Vamos dizer, por exemplo, você, Péricles, Lana eram amicíssimos. Mas eram amicíssimos por serem membros da TFP, mas não era uma amizade que rumava no sentido da TFP. Quantas e quantas vezes devem ter dado gargalhadas debandadas, e brincadeiras e coisas de todo tamanho. Mas, chegava um determinado momento em que aparecia o ressentimento recíproco, em que as alfinetadas apareciam, em que aparecia, à distância, o sentido de isolamento, etc., etc. Eu vejo no Grupo do Chile, um: quanta rivalidade, quanta picuetada, quantos ressentimentos mútuos, etc., tornaram impossível penetrar a consolação ali dentro, consolação espiritual. Os Anjos fogem disso. Mas é o fim de todos esses conúbios entre o Bem e o mal, de todo esse modo brincalhão de querer viver a vida da TFP.
Então, meu filho, não estou respondendo a você o que você queria?
(…)
[Vira a fita.]
O viver seriamente é uma condição para que venham as graças necessárias para arrebatar. Eu estou apresentando uma como embasamento natural da outra, de uma coisa sobrenatural.
(Sr. Gonzalo Larraín: Como fica essa questão da irresistibilidade?)
O que você chama “irresistibilidade”, meu filho, é alguma coisa muito mais sobrenatural do que natural, e que na linha sempre diminuta da mística corrente é um pequeno arroubo. Os místicos, por exemplo, tem arroubos assim: são levados ao ar e essas coisas todas. Na mística ordinária há pequenos arroubos em que a alma é quase que tirada de si mesma e posta numa coisa mais alta. E quase pequenas “assunçõesinhas” ao Céu.
Então, em ponto muito pequeno, às vezes, a graça nos pega inopinadamente por misericórdia e nos põe dentro disso. Agora, nesses momentos, é verdade, a pessoa me entende muito melhor e eu fico também em condições de me abrir muito mais. Isso é verdade. Eu daqui a pouco até vou dizer alguma coisa sobre isso. É ousado o que eu vou dizer, mas toca um pouco no que eu conversei no jantar com o João.
Mas acontece o seguinte. Tudo isso são coisas que a graça dá porque ela torna sensíveis certas realidades que normalmente não nos são sensíveis. Se você quiser, “Taborizinhos”. “Taborizinhos” onde Nosso Senhor foi se tornando sensível. Foi isso. Em ponto microscópico, na linha da mística ordinária, provavelmente há também pequenos arroubos assim, pequenos “Tabores” assim, de uma alma de um Fundador para com seus súbditos, etc., etc.
Como em rigor se poderia conceber, numa vida de família altamente católica, dos pais com os filhos, ou dos irmãos entre si. Isso num alto teor de vida católica se poderia conceber. Aí viria a irresistibilidade.
Por exemplo, na parábola do filho pródigo. É uma coisa evidente que a partir do momento em que o filho pródigo resolveu voltar, ele voltou com pressa; e que a casa dele se tornou de um poder de atração invencível para ele. De repente! Não está dito na parábola, mas percebe-se que o filho voltou rápido para casa. Chegou cansado da viagem, mas com a alma maravilhada, porque o lar se transfigurou para ele, como na transfiguração de Nosso Senhor. Não por uma transfiguração bluff, mostrando o que não tinha, mas fazendo ver os seus tesouros recônditos. É uma manifestação de uma realidade profunda, nem sempre visível. Não é?
E isso o que se dá nas relações entre Fundador e súbditos. Em geral, entre católicos e católico, do mais virtuoso ao mais antigo, de mestre para discípulo… nas relações se dá, em geral, uma coisa assim.
E curioso que depois — não vou entrar por aí agora, mas é muito bonito — é que em geral a natureza foi feita de tal maneira que ela imita a graça. Então, às vezes, no plano natural se dão coisas dessas também. Por exemplo, o sujeito foi aluno de um colégio situado, vamos dizer, no fundo de um vale. E ele saiu do colégio farto do colégio, etc., etc.
Um belo dia dele passa de automóvel perto do colégio, e olha o colégio lá embaixo no vale, e à hora em que os alunos estão em fila, voltando para a aula. Ele olha para aquilo tudo e se manifesta, naturalmente, que o sujeito tem um como que arroubo. Ele breca o automóvel e fica olhando: “Oh…meu colégio!” Até que os alunos acabem de entrar para a aula. Os olhos dele se enchem de lágrimas, ele toca o automóvel para frente.
É um fenômeno natural, iniludivelmente natural. Mas a graça imita a natureza ou a natureza foi feita para imitar a graça. Mas, enfim, há semelhança entre uma coisa e outra.
Mas quando é o sobrenatural tem outríssimo vôo do que o fenômeno natural que eu estou falando. Sem falar que, às vezes, os dois acontecem juntos. O filho pródigo, por exemplo, poderia ter tido natural e sobrenatural juntos, os dois impulsos, para voltar açodadamente para casa.
(Sr. Gonzalo Larraín: O senhor disse que ia dizer uma coisa ousada…)
(…)
…todos os contatos comigo. Um telefonema. Já aconteceu, e pode acontecer. Com vocês três, eu falo pouco pelo telefone, inclusive com você, mas pode acontecer que de uma hora para outra eu preciso chamar e chamo. Conforme for, o telefonema pode fazer mal. E eu sinto do outro lado do telefone que isso está acontecendo. Cai numa hora em que o sujeito está todo torto, todo [arevezado?]; em que ele vem ao telefone e percebe que eu percebi com ele está, e começa a achar que eu estou desprezando a ele, e [me] culpando porque, em que estado estava a alma dele para eu chamando a ele no telefone, ele… Não é dizer que não seja cortês, é cortês, mas ele nota que eu estou notando como ele está. Então, mal-estar, etc., etc., desliga o telefone tentado…
Eu sei aqui a coisa chegou no seu lado duro…
(Sr. João Clá: O normal seria que no relacionamento comum, cotidiano, com o senhor, sem as grandes consolações e enlevos, era de ser também elevadíssimo, com alegria, com sabor, mesmo quando houvesse infidelidade, etc.)
Meu filho, a questão é a seguinte. Se durante o dia, enfim, no período entre dois encontros nossos, o filho “X”, com que eu tenho que tratar, se pôs a torcer muito ou a desejar muito uma coisa por amor de si mesmo, ele criou condições que não tornam possível, no próximo encontro, ele estar com a alma leve para isso. É preciso, portanto, uma preparação remota, com muito cuidado de não criar ilusões, sonhos com coisas, vontades apaixonadas de ter, decepções horríveis porque não teve… Enfim, não entrar no enleiamento das coisas pouco mais ou menos terrenas.
Porque, do contrário, isso dá para a alma um peso em que ela tem preguiça e tem dor de procurar se levantar. E, eu volto a dizer, não depende, portanto, de mim de cada vez elevar a alma.
A tese do meu João no fundo é que podia… Hahaha!
(Sr. João Clá: Não, é evidente que entram essas misérias todas…)
Mas quando eu encontro as almas em estado bom, eu me abro sempre. E tão longe quanto for possível. Aqui está a questão.
(Sr. João Clá: Eu não quero contradizer em nada o senhor. Mas depende de outros fatores também. Estrondos, preocupações, trabalhos, etc.)
Sim, é verdade. Se eu estou num panorama de combate intenso, é preciso saber ver-me enquanto combatente, e saber perceber essa esplendoração no combatente. É toda uma outra questão. Não é que eu não esteja…
(…)
É a condição, e normalmente essa condição basta.
(…)
…nos momentos de provação que a Providência dá. Agora, tem o seguinte. Um lado ainda dentro disso que é preciso ver é que nessa esplendoração…
(…)
(Sr. João Clá: “…e se olharem mutuamente sempre, e de se verem até a última profundeza”.)
Muito bem, esplendido. Vocês poderiam até atirar uma cópia disso, de tal maneira é magnífico.
Bem, agora, qual é a versão brincalhona, o Gonzalo empregava uma expressão castelhana…
(Sr. Gonzalo Larraín: “Chabacana”.)
Chabacana. Eu não sei bem o que quer dizer, mas é uma palavra… O som quer dizer o que é. Qual é o conceito chabacano de intimidade?
É poder bater uma coisa no ombro do outro: “Meu velho, ouça isso assim.” E o outro: “É, não sei o que…” Dá uma brincadeira. Caçoa do primo do outro, e sai por aí o negócio. É um digladiar-se no meio das brincadeiras; ou, juntos, espancarem, caçoarem e esmurrarem de algum outro ou de alguma outra coisa. Tanto mais engraçado quanto mais for respeitável aquilo contra o qual se brinca. É ou não é isso?
(Sr. Gonzalo Larraín: Tal qual.)
Isso é abominável.
(Sr. Gonzalo Larraín: No relacionamento do senhor com a Sra. Da. Lucilia não se deu o fato de uma provação, no sentido que o senhor está falando em relação a nós.)
Não, mas houve uma coisa diferente. Isso se deu a partir de um certo momento, talvez porque eu fui saturando com o tempo e ela, coitadinha, foi descendo a ladeira da ancianidade, ou qualquer coisa assim. Talvez entrasse uma provação… Eu sou mais propenso a achar que entrasse uma provação.
Uma vez, eu conversava com ela e achava a conversa dela não muito enriquecedora, uma conversa normal, mas em que ela punha os tesouros da alma dela. E esses tesouros da alma dela tornavam aprazível a conversa que eu não me dava conta do elementar do que ela dizia.
Em certo momento, eu me lembro bem, quando morávamos ali numa casa da Rua Sergipe, que está destruída agora, a casa tinha assim o hall em forma de “L”, e quando eu tinha tempo, eu acabava de almoçar e convidava a ela para andarmos um pouco no hall, assim. E a abraçava, e íamos andando de um lado para outro, e conversando.
Bem, de repente ela disse uma coisa qualquer, e eu realizei de um modo mais agudo, mais pontudo, o que havia de… — abstração feita dos tesouros de alma dela —, o que havia de pobre na conversinha dela. Provavelmente também já [agavada?] [agravada] pelo espírito que vinha se debilitando com o tempo, etc., etc.
Então, até o fim da vida, a consideração da alma dela me produziu continuamente esse encanto. Mas a conversa foi se tornando cada vez mais árida e mais difícil, sobretudo, quando ela penetrou na franca ilucidez, porque ela desejava a conversa — ela era muito comunicativa —, e a gente tinha que manter a conversa naquele pequeno ritmo, naquele pequeno nível, com as preocupações maiores pela cabeça.
E aí era uma coisa deliciosamente pesada…
(Sr. Gonzalo Larraín: Não era obscura.)
Obscura não. Pesada. Quer dizer, arranjar o temazinho, fazer a brincadeirinha, etc., que entretivesse a ela, e que entretivesse normalmente, estavelmente. E que ela pudesse acompanhar. Sendo que tinha que ser contínuo, porque ela era muito comunicativa, e sentiria… Se os dois ficássemos quietos, ela sentiria como um abandono. E aí eu tinha que remar…
(Sr. Gonzalo Larraín: Mas da parte de “lumen a lumen” não se apagava.)
Ah, isso não. Entrou uma provação a outro título. Aí muito grande.
(Sr. Gonzalo Larraín: Na relação que dever haver com o senhor não deveria haver uma analogia em que o “lumen” nunca se apagasse?)
Não, necessariamente não. A gente vê em todos os autores espirituais, etc., que há aridezes tremendas. Você leia um pouco Santa Terezinha que você vê.
(Sr. Gonzalo Larraín: Mas ela parece que não tinha o relacionamento com ninguém, como devemos ter com o senhor.)
É verdade. E com a irmã dela, a superiora, ela tinha uma… Aliás, um pouco imaginário, mas um lumen contínuo. Mas eu acho que é fora de dúvida que tudo quanto é graça, de vez em quando pode apagar-se, a sensibilidade. Para ficar no “Eli, eli lammá sabactáni.”
(Sr. João Clá: Por exemplo, vendo o senhor de hábito, qualquer um recebe graças na hora, no sentido de compreender mais alma do senhor, etc.)
Ah… E eu estou disposto a vestir o hábito quantas vezes sejam necessárias, com muito gosto.
(Sr. Gonzalo Larraín: O senhor não é muita dessa tese não, não é?)
Não, mas eu acho que ele é muito bom observador e que merece Fé. Mas é que quando eu visto o hábito, eu não sinto esse efeito em torno de mim.
(Sr. Gonzalo Larraín: Mas isso é realmente assim. Só que se a pessoa vivesse continuamente com o senhor de hábito, caía na mesma história.)
Havia um meio de blindar as coisas… Pois se há na Eucaristia, nós fazemos comunhões inteiramente áridas. Por exemplo, hoje eu comunguei numa aridez inteira. É a Sagrada Eucaristia. Rosários rezados na aridez…
(Sr. Gonzalo Larraín: Quando o senhor está vendo as coisas pelo seu lado transesférico, o senhor não tem nesse aspecto, uma consolação contínua?)
Não, uma consolação contínua, não. Continuamente consolação, sim.
(Sr. Paulo Henrique: É que o senhor não deixa transparecer o contrário. Então, somos levados a achar que o senhor está continuamente nessa consolação.)
É, é diferente. Estar todo tomado por uma consolação, a gente diz: “Uma consolação contínua.” Outra coisa é ter continuamente uma consolação, mas que não toma alma inteira, nem está tendo um papel preponderante na alma no momento. Não é um jogo de palavras, é uma distinção.
(Sr. Gonzalo Larraín: O senhor tem a memórias dos flashes, mas não é contínuo…)
Mas está continuamente a mão. De fato, não é continuo, mas está a minha mão. Se eu, temperantemente acho que é o caso, eu pego e uso.
(Sr. Gonzalo Larraín: O senhor parece que está um pouquinho cansado…)
Não, não estou não. Não tenham receio. A esse respeito eu vou fazer a vocês uma pergunta, meio fora do tema, mas me ocorre. Na reunião passada vocês tomaram a iniciativa de encerrar a reunião, não sei se lembra disso, considerando que eu estava muito cansado?
(Sr. Paulo Henrique: Já tinham passado das três…)
Também tinha. Mas eu estava, por caso, meio dormindo, meio acordado e dizendo…
(Sr. Gonzalo Larraín: Não, senhor. O senhor disse que estava muito cansado, e se notava isso. O senhor não trocou nenhuma palavra na reunião, foi magnífica de fio a pavio.)
Uma vez ou outra tem me acontecido — até no meu tempo de estudante, remoto — que, às vezes, eu continuava a falar cochilando, e tive medo que medo que tivesse acontecido isso aqui.
(Sr. João Clá: Se acontecesse, são as melhores conversas…)
Hahaha! Absolutamente não! Absolutamente não! Não… Absolutamente não.
Mas então, como começo de conversa, o assunto ficou bem esclarecido? Como começo de conversa?
(Sr. –: Está muito bom.)
Agora, a pergunta que estaria na ponta é: “O senhor era capaz de descrever…”
(…)
Muitas vezes essas várias impressões sobre coisas diversas se misturam. Misturam até com probleminhas.
Por exemplo, eu vou dar a você um probleminha.
Para as minhas condições de locomoção é muito árduo entrar a pé no auditório. Porque eu caminho com dificuldade, aquela rampa é um tanto inclinada e pode ser que, em certo momento, eu escorregue. De maneira que, ou eu presto muita atenção no que eu vou fazer, ou eu não ando.
Ora, às vezes, eu estou um pouco menos atento nisso e, por distração, olho para cá ou para lá, recebo um cumprimento, mas tem dois ou três atrás que estão sendo, querendo, ser cumprimentados também. Se eu não cumprimento esses dois ou três também: tenho gente contristada. Então, começa uma distribuição de cumprimento, ao mesmo tempo que estou patinando em cima do tapete. Quando chega embaixo, para atingir aquele estrado que tem lá, há vários pequenos níveis que eu tenho pisar. E para mim isso é penoso, é difícil, e eu tenho que fazer com muito cuidado porque, do contrário, vou para o chão. De repente quebro um osso. De maneira que eu tenha que prestar muita atenção. Então, não posso fazer isso. Tenho que prestar muita atenção, e no meu espírito já está: “Eu estou aqui, o estrado está lá, eu já estou pensando: ‘Eu preciso chegar até lá, ali tem uma coisa para descer, subir, etc.’” Mas às vezes dói aqui, às vezes dói aqui, às vezes dói na planta dos pés… Como é que eu vou fazer para chegar até lá? É uma batalha.
Então aparece o problema enquanto estou andando ali: não era melhor entrar de cadeira, de uma vez? Não, porque eu sei que eu devo lutar contra uma certa máfia que anda por aí, pouco dentro do Grupo também, de que eu já estou muito velho e já não estou dirigindo o Grupo. Então, para lutar contra isso, eu tenho que fazer isso aqui. Em algumas ocasiões, eu tenho que aparecer andando, custe o que custar.
Então tudo isso se entrecruza com a sensação de que eu estou fazendo com compostura aquilo, e que isso está fazendo recuar, portanto, a vulgaridade, etc. Tudo isso vem junto, não vem uma coisa sozinha, tomando minha alma o tempo inteiro.
(Sr. Gonzalo Larraín: O senhor entra com tal superioridade, que ninguém tem que piar nada. Nem o Marquês que esteve aqui, nem ninguém.)
Aliás, com os nossos queridos príncipes, eu trato com muita reverência, mas sou eu, não é? E para bem deles, inclusive. Qualquer um.
Bem, meus caros… Agora… Espero não ter tido nada de descomposto, mas vamos dormir.
(…)
Para ser concreto, de ver o seguinte: nada dizer que desperte o riso. O propósito de seriedade deve ter por objeto imediato isso. Porque exilado o riso, necessariamente a seriedade vem. Não rir, nem despertar o riso.
(…)
…atitude, uma conduta que vocês fazem o propósito de oferecer a Ela, como uma atitude de amor, de súplica de ajuda, e por reparação por tanta coisa que foi feita e não deveria ter sido feita assim. Vocês então oferecem a Ela. Mas dizendo a Ela que dada fraqueza em que estamos, que nós não garantiremos que mantenhamos sempre. Que Ela tenha a bondade, a misericórdia de receber isso assim, e de com o tempo robustecer esse ponto em que nossa vontade é fraca.
O essencial do ato é isto.
Meus caros, vamos andando.
* * * * *
1) Tagarelar, palrar, ralhar, gritar, repreender.