Conversa de Sábado a Noite – 7/5/1988 – p. 11 de 11

Conversa de Sábado à Noite — 7/5/1988 — Sábado [VF 058] (Plinio M. Gomes)

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(Sr. Paulo Henrique:… as “alterosas”… aquilo anda numa decadência…)

Decadência das “alterosas” é?

(Sr. Paulo Henrique Chaves: Eu não sei como estava antes, mas achei que aquilo tudo esteve muito, muito…)

Mas o que, por exemplo, meu filho?

(Sr. Paulo Henrique Chaves: Mediocridade do povo. Depois tudo lá…)

(…)

A moralidade…

(Sr. –: A moralidade também muito decadente. Essas bermudas… isto tudo é traje comum.)

Em Minas… bom, mas a Hierarquia não faz senão favorecer isto o tempo inteiro. Querem isto, não é? Que coisa bárbara, não é?

Escute uma coisa: Vamos dizer ao coronel que ele fique sentado ali que o salão é grande. Não é peste bubônica que ele tem.

(Sr. Paulo Henrique Chaves: Ele está aqui atrás. Ele vai ouvir.)

(Sr. Gonzalo Larraín: Ele está ouvindo tudo (todos falam ao mesmo tempo).)

(Sr. Gonzalo Larraín: Tudo o que o senhor está falando, ele está ouvindo.)

Como é que eu faço sinal para ele para cortar?

(Sr. Gonzalo Larraín: Eu já combinei com ele.)

Como é que você faz?

(Sr. Gonzalo Larraín: Eu digo: “Coronel.”)

Então, vamos sentar.

(Sr. Gonzalo Larraín: Dr. Plinio, eu peço desculpas por não ter ido a Reunião de Recortes, mas…)

O que é que houve?

(Sr. Gonzalo Larraín: Eu estava meio doente com problemas de intestino, um pouquinho de fígado…)

tão pouca gente, não é?

(Sr. Guerreiro Dantas: Pelo menos… nós nos lembramos do último dia em que foi feito uma reunião com tão pouco “quorum”, assim…)

Quando foi?

(Srs. Guerreiro Dantas / Gonzalo Larraín: Não. Nós não nos lembramos.)

É. Não se lembram, não é?

(Sr. Gonzalo Larraín: O que é muito bom.)

Ahhh!

(Sr. Gonzalo Larraín: Mas o que é muito bom. Assim se pode hablar, mas en câmara caritatis. O senhor pode abrir, mas el alma.)

Pois é. Cada coisa tem sua vantagem. Uma coisa é a vantagem de número grande, que dá animação. E outra é a vantagem do número pequeno que dá convívio, não é? Vamos aproveitar… Cada um aproveita alguma coisa… Ou, por outra: de cada reunião se aproveita, de cada tipo de reunião se aproveita algumas coisas.

E qual é a pergunta?

(Sr. Gonzalo Larraín: Sr. Guerreiro está de preguntero, Sr. Dr. Plinio.)

(Sr. Guerreiro Dantas: Sr. Dr. Plinio, nós conversamos lá em cima sobre um assunto que está ligado a duas reuniões que o senhor fez atrás, por ocasião da Sra. Da. Lucilia, quando então o senhor explicitou todo aquele assunto sobre a maternidade e sobre a exigência que há, no fundo, a condição de mãe na linha de ela ter uma forma de bondade, de misericórdia e de disposição de perdoar, “a priori”, tudo; que quando a pessoa não tem isto a pessoa acaba crescendo com uma dicotomia no espírito que é simultânea ter… [faltam palavras] …uma desconfiança muito grande e ingenuidade muito grande.

Aquela reunião foi uma reunião magnífica, Sr. Dr. Plinio. Provavelmente foi uma das reuniões mais abençoadas que nós tivemos aqui sobre a Sra. Dra. Lucilia. Aí então conversávamos hoje, novamente, sobre todo este assunto e consideráramos todo o problema da questão de quanto ela (a Sra. Da. Lucilia) tem tido e parece que tudo indica que terá cada vez mais, um papel enorme no endireitar na coisas difíceis e complicadas na linha de nos colocar nos caminhos do senhor.

Então, a TFP nas suas realizações, em todo o seu trabalho, na sua batalha, a gente vê que acaba sendo, que quando as coisas ficam meio difíceis quem acaba resolvendo o assunto acaba sendo ela.

Na reunião passada, o senhor tratou da Sra. Da. Lucilia, o senhor considerou o operar dela natural: como era ela em vida com o senhor e ficou um tanto o operar sobrenatural da Sra. Da. Lucilia. Então, Sr. Dr. Plinio, nós conversávamos exatamente sobre esta questão e víamos, trocávamos idéias, sobre quanto ceda vez mais toda esta questão do preternatural se infiltrando em tudo…)

Ah, em tudo, em tudo.

(Sr. Guerreiro Dantas: Está chegando a um grau em que realmente a gente tem a impressão que é ela, quando ela entra essa esta ação e aquilo que era impossível se realiza e as coisas tem então uma esperança de continuidade. Agora, Sr. Dr. Plinio, então nós considerávamos toda esta problemática e nós perguntávamos se o senhor não gostaria de tratar um pouco mais conosco sobre toda esta questão da infestação preternatural, porque a gente pressente isto e de outro lado a gente sente o quanto ela intervém quando se recorre a ela para corrigir isto, para fazer cessar esta ação considerável… [faltam palavras] …esta alma com uma certa dificuldade assim, outra e outra dificuldade, problemas, campanhas, manifestos… enfim todo gênero de dificuldades que a gente sente que de repente entrem fatores que complicam…)

(Sr. Gonzalo Larraín: No relacionamento, também…)

(Sr. Guerreiro Dantas: No relacionamento entre as pessoas, também. Posto a gravidade que isto está assumindo, nas nossas vidas e a gente vê que isto tende a crescer cada vez mais, nós perguntávamos se o senhor não gostaria de explicitar um pouco mais todo este assunto e também, Sr. Dr. Plinio, explicitando o problema o senhor também tratar da solução que cada vez mais nós vemos que a ela pode ter sido dado um poder, uma modalidade de força tão suave, mas tão eficiente, que a gente não vê como, não se vê como, resolver certos problemas. Não sei se o senhor tem considerado muito esta questão, tem pensado nisto, mas a gente vê que isto é uma questão que pediria de nossa parte mais atenção e mais estudo sobre ela para situar um pouco a ela.)

Sim, não há dúvida.

(Sr. Guerreiro Dantas: Então, Sr. Dr. Plinio, nós estávamos voltados para esta expectativa de o senhor poder explicitar mais este assunto todo. Não sei se o senhor gostaria de tratar isto agora ou se está um pouco tarde.)

Não, não, não. Dá para eu tratar sim. Alguma coisa dá para eu tratar.

Aliás, esta coisa…

(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor dá licença um pouco…)

Pois não, meu filho. Coloque a cadeira onde quiser. Está muito bem.

Esta coisa conduz diretamente a um ponto que é muito importante na nossa vida, que é o relacionamento de vocês entre vocês. Porque se a gente vai estudar o que poderia ser o relacionamento dos membros da TFP entre si, se este relacionamento fosse inteiramente modelado pelo exemplo que mamãe deixou, pelo espírito que ela ensinou, este relacionamento seria um relacionamento magnífico e altamente benfazejo para a vida espiritual de todos. E aí entra, também, um demônio nesse relacionamento entre todos. É uma projeção da coisa do demônio, de uma ação do demônio, misturada com uma circunstância que eu vou descrever daqui a pouco. E se a gente pudesse, com o auxílio da graça obtida por ela, e da graça não só obtida por ela, mas de que ela era um veículo muito grande em vida para os que queriam…

(…)

era um exemplo e um veículo de graças neste sentido. Ela difundia entre si… Em torno de si, quero dizer, ela difundia este ambiente, para os que quisessem acertar o passo com este ambiente. Não querendo… O homem é evidentemente livre, não é? Mas, ela era o modelo do relacionamento perfeito e esse modelo, para nós, poderia ser muito instrutivo, além das graças que ela traz. E o que traria isto para vocês de ânimo, de alento, de coesão, de facilidade de perseverança, seria uma coisa extraordinária. E eu acho que nós poderíamos pedir a ela que favorecesse isto muito especialmente e por isto eu passo a tratar de questão.

Não sei se está claro o que eu estou dizendo ou não.

(Sr. Guerreiro Dantas: Está claro. Apenas eu pergunto o seguinte: por que o senhor considerou que no momento não é melhor tratar deste assunto do relacionamento do que propriamente deste emaranhamento preternatural que há, cada vez mais, na vida da TFP e que nos dificulta exatamente numa…)

Neste inter-relacionamento.

(Sr. Guerreiro Dantas: Mas não é só entre nós, não. É no fundo com o próprio ideal, com a Causa, com o senhor.)

Sim, sim, tudo junto. Daqui a pouco, eu falo da questão.

Vamos tocar a questão seguinte:

Nós estamos habituados a considerar nossos deveres de piedade, nossos deveres de moral, nós estamos habituados a considerar no nosso relacionamento dos homens uns com os outros… Então os três primeiros Mandamentos, para o comum dos homens, são mais ou menos incógnitos. Porque amar a Deus sobre todas as coisas… Bem, em tese, vá lá. Mas, no que é que consiste o amor de Deus? Como é que de fato a gente ama a Deus e como é, então, o amor a Deus sobre todas as coisas? As pessoas não sabem direito. É uma coisa vaga.

Não tomar seu santo nome em vão”, não se toma. Sobretudo o que isto proíbe é não abusar do santo Nome de Deus. Portanto, nada de blasfêmias, etc.. Evidentemente isto não se faz. Mas aquele respeito religioso, diante do nome de Deus, esta reverência cheia de amor, diante do nome de Deus e de tudo que é divino e que toca em Deus, que diz respeito a Deus, também não se sabe como é que é.

O terceiro é o cumprimento dos preceitos de domingos e de festas. Isto vai lá… Mas também não se tinha à idéia da sacralidade de um domingo, da sacralidade do dia consagrado ao Senhor, tudo isto não se tinha. Quer dizer: toda a doutrina de nosso relacionamento com Deus no tempo pré-conciliar em que vocês se formaram era disposta tão sumariamente que era de pouca influência sobre o espírito dos homens. Muito pouca. Quer dizer: era um “x”.

Isto levava as pessoas a não poderem resistir eficazmente às tentações do demônio nesta matéria e a nem terem idéia de que o demônio tentava contra este assunto. De maneira que… Então, uma cidade aberta, completamente aberta.

E é o ponto sensível porque é na fidelidade aos três Mandamentos que se baseiam a fidelidade dos outros. De maneira que nós devemos perguntar-nos agora nesta conversa no que é que o demônio — em concreto para o homem contemporâneo; não em tese, mas em concreto —, para o homem contemporâneo no que é que o demônio tenta o homem contra os três primeiros Mandamentos. Isto é a coisa em concreto. Para nós sabermos no que é que somos tentados, etc., etc..

E no que ele tenta e sobretudo tentou as pessoas da geração de vocês. Com os “enjolras” já é meio diferente. Se me lembrarem, eu descrevo como é a questão dos “enjolras”.

Na geração de vocês a posição de vocês perante Deus foi tomada no tempo da Bagarre Azul. Vocês todos são da época da Bagarre Azul e o modo pelo qual vocês viram a vida e viram a religião é o modo do tempo de Bagarre Azul. Isto ficou dentro. E nós temos que fazer, portanto, uma análise num quadro já envelhecido quanto à realidade comum, mas que é o quadro que existe em vocês. E para vocês compreenderem como é esta tentação, vocês tem que se reportarem aquele tempo. Do contrário, não vai.

A idéia é uma idéia minimalista, no sentido seguinte:

A vida pode facilmente ser uma delícia. De um modo ou d’outro se entende esta delícia com os matizes que for. Isto varia muito de país para país, de estado para estado, de cidade para cidade, de família para família, de município para município, varia.

Mas, em todo caso é a mesma idéia geral da civilização contemporânea marchando de progresso em progresso já vindo de uma longa série de progressos que datam mais ou menos do [Mongolfier?] e da máquina a vapor até a época contemporânea. Então, fazendo do mundo um lugar de encantamento onde os prazeres, e os deleites estão sendo cada vez mais multiplicados, e onde os sofrimentos estão sendo cada vez mais rarefeitos, e onde há uma alegria de viver e um desejo de sorver esta alegria de acordo com a escola doméstica, mas um desejo ardente de sorver esta alegria.

Isto fazia uma espécie de distinção: algumas coisas são pecado e infelizmente a gente tem que, portanto, renunciar a estas coisas para viver bem com Deus. Mas as outras coisas que não são pecado, a gente pode sorver a largos haustos sem perder o Céu, sem perder a boa amizade com Deus. E deve sorver porque existe o mundo para isto e o mundo é delicioso. Então tomar o mundo como ele era e receber a mentalidade dele por inteiro para sorver a delícia que ele apresenta da vida do tempo da Bagarre Azul. Eu acho que… é totalmente assim, chapadamente assim.

E face às delícias desta vida valia a trilogia evocada muito bem pelo Mitterrand num dos discursos dele que significava o apetite do homem diante das coisas desta vida, significava isto: “Quero tudo, quero já e quero para sempre.”

Então, por exemplo, “quero ficar rico!”: quero todo o dinheiro possível; quero já, agora, antes de eu acabar de pronunciar a palavra “agora”, eu já quero ficar riquíssimo e depois para sempre, uma fortuna que não me dê preocupação, que nunca me abandone. Então em face de tudo quanto o mundo oferecia numa bandeja de prata para cada um era: “Tudo, já e para sempre!” E esta era a meta. Se obtivessem isto, teriam a vida completamente feliz.

Qual é o papel que nesta parte do gozo da vida representava a religião? Nada! Exceto no diz respeito a impedir que coisas imundas transcorressem, os prazeres imundos entrassem pelo meio. É só! E quand même, hein? Quantas vezes entravam!

Agora, aqui entrava já a tentação do demônio direta, porque esta impostação é eminentemente anti-sacral dominada pelo espírito hollywoodiano completamente, totalmente e tendo como padrão mais ou menos consciente ou não o estilo norte-americano de vida. E este estilo penetrando sub-repticiamente, de cá, de lá e de acolá e envolvendo tudo, e cada um querendo que cada vez mais a influência norte-americana se acentuasse, porque era também isto.

Eu acho que vocês concordam com isto totalmente, inteiramente.

Acontece que, onde é que está nisso o pecado?

O pecado está nisto no seguinte. Não é só em querer levar uma vida só de alegria, só de prazer, renúncia ao dever, renúncia a luta; mas é uma noção completamente falseada da vida porque a vida não foi feita para o prazer — o Claudel tinha razão, mas não só o Claudel —, ela foi feita para o heroísmo. A vida deve ser concebida como uma larga batalha, uma larga aventura, onde o êxito está em ter sido herói. O êxito está ter-se sacrificado e ter realizado um feito, realizado uma obra, realizado uma luta. Este é o êxito. A vida como a Bagarre Azul apresentava era a vida das nulidades para os homens nulos que não tem vontade de fazer outra coisa senão se divertir. É inteiramente isto.

Então, por exemplo:

Do fidalgo que era um homem de guerra, antes de tudo e que se encontrava na alegria de ser um homem de guerra e de fazer profissão oficial de heroísmo, estar ligado ao bem comum pelo vínculo do compromisso heróico do nobre, em qualquer maneira e se ele ficasse liquidado, ele ficar ainda… Quer dizer: estropiado numa guerra, numa batalha, qualquer coisa, doente, etc., etc.; ele dava tudo isto por muito bem empregado, fazia parte da aventura da vida. Ele é homem realizado.

Isto não se compreenderia de nenhum modo na época de vocês e causaria revolta, nem sei o que causaria.

Eu lendo numa dessas coisas aí, de livro de Ancien Regime, vi uma senhora que comentava que um parente — uma senhora que tinha um castelo; uma senhora nobre, que tinha um castelo no interior da França — que tinha posto lá, morando, um parente dela, menino de dezoito anos e que voltou da guerra cego. Ela dizia: “Ele é forte e tem a possibilidade de viver uma longa vida inteira cego, o que representa para ele uma vida tão longa dentro destas trevas perpétua. Mas, ele está animado e vive a vida com ânimo.”

Você está vendo que a idéia de que ele foi massacrado pela vida, que leva uma vida… mora dentro da catástrofe — porque é uma catástrofe — mora dentro da catástrofe, mas dentro desta catástrofe ele tem a idéia: “Eu fiz um holocausto, eu fiz uma vida sublime.”

Esta consideração é, para o período da Bagarre Azul, é completamente contrária à Bagarre Azul, completamente contrária a Hollywood, contrária a tudo.

Daí uma forma de vida que nós temos comentado mil vezes no MNF, oposta a tudo quanto é sublime, a tudo quanto é extraordinário, grandioso, magnífico, a tudo que tem um significado espiritual qualquer.

Então, vocês vão vendo a decadência. Por exemplo: casas de comércio. Eu alcancei um restinho disto para vocês terem idéia de como era a mentalidade de um comerciante. Ele recebia rapazes, ele tinha muito empenho em terem rapazes para vender no balcão mas que fossem rapazes amáveis, afáveis, cujo trato com os clientes atraísse os clientes a voltar. E, portanto, sumamente respeitoso com as moças e com as senhoras e para isto seria preciso que fosse um rapaz que não caísse na troça dentro de São Paulo — metrópole para o Brasilzinho daquele tempo.

Então, de acordo com o costume adotado pelos comerciários em Portugal e em todo o Brasil como ex-colônia de Portugal, o comerciante contratava, no interior, rapazes que ficavam morando numa pensão mantida pela casa de comércio, em que havia hora certa para chegar e hora certa para levantar de manhã para ir para o trabalho e havia mesa comum para todos comerem, casa, roupa lavada, tudo o mais, garantido pelo próprio 0estabelecimento comercial. E quando o pai julgava que seu filho estava esquisito escrevia ao comerciante. O comerciante era o representante do pai. Ia examinar o que é que o rapaz tinha e como era, não sei mais o quê, cuidava da saúde do rapaz, fazia “n” coisas. De maneira que o pai via seu filho progredir mas sob as asas do pai de família que era o comerciante. E o comerciante se dedicava a isto a fundo.

Você está vendo que isto não [vai], da parte dos comerciantes, sem um certo idealismo. O desejo de que os rapazes fossem modelares, fossem direitos, fossem sérios etc., etc.. Um certo idealismo, que eles julgavam conexo com sua posição de comerciante.

Entra a “hollywoodização”: acaba com isto. “Morem onde quiserem, divirtam-se como entenderem; se perderem não tenho nada a ver com isto. Eu quero ganhar o meu dinheiro e você ganha o seu. No fim do mês, eu lhe pago o seu ordenado e você se perca em que inferno for, contanto que você esteja aqui no dia seguinte para trabalhar. Se fizer um trabalho que amole, você diz graças para as moças ou coisa assim, as famílias ficam desagradadas; eu te ponho fora, você tem o olho da rua! E a mim não me incomoda te por fora. E o que você vai fazer depois não me interessa. Eu não ligo para você. Você para mim é um produtor de dinheiro, mais nada.”

Toda aquela vinculação afetiva que se ligava à profissão de comércio parece incompatível com o comércio, a ponto tal que, se na Bagarre Azul contassem isto para vocês, vocês teriam uma certa dificuldade de acreditar que este fato existiu. Seria preciso mostrar documentos do tempo, etc., etc., para acreditar. Se acreditassem, não ficariam alegres. Podiam até achar simpáticas, mas não ficariam alegres; porque a vida é mais prática apenas ganhando dinheiro.

Quer dizer, é uma concepção fundamentalmente sem moral e sem Fé, de todas as coisas — em concreto tomadas — para que a pessoa pudesse gozar.

E depois isto é assim…

(Sr. Gonzalo Larraín: Não tem escapatória nenhuma.)

Nenhuma!

Nenhuma porque eu sou tão mais velho do que vocês, mas no meu tempo de moço era assim.

(Sr. Gonzalo Larraín: Nós fomos absolutamente criados assim.)

Quer dizer, eu peguei o período entre deux guerres. Vocês formaram a mentalidade depois da Segunda Guerra Mundial. Pois está bem. No período entre deux guerres já era assim por causa do zénite a que já chegou — entre deux guerres — a influência norte-americana, de Hollywood bem entendido.

Agora, daí uma espécie de visceral egoísmo porque vinha uma reflexão assim: “Eu preciso dentro desta maravilha aqui meter o peito e comer o que eu possa. Quer dizer, tirar as vantagens para mim que eu possa e um outro me é um trambolho. Ele me pode ser uma companhia agradável, eu posso gostar de conversar com ele, como eu posso gostar de ligar a televisão e ver um artista falar, Mas daí deduzir que eu vou ser o amigo dele? Não!”

A palavra “amigo” morreu antes de vocês virem para a vida.

Quer dizer, assim: “Meu caro amigo” num cartão de visita… [Mas,] não tem amigo. É uma encenação de cada um de um isolamento tristíssimo, em parte decorrente do definhamento do amor materno. Porque quando o indivíduo não tinha da parte de sua mãe esta espécie de amor sério, grave, apreensivo, zeloso, nobre…

Em cada mãe — mesmo mulher do povo — [tendo?] [tem] qualquer coisa de majestoso, o amor da mãe pelo seu filho… Tanto é que é uma coisa que se respeitava.

A mãe tomou uma atitude pelo filho… Vamos dizer o quê? Um júri. O criminoso é condenado do modo mais violento pelos jurados porque ficou provado que ele tinha os crimes piores possíveis. Mas, se a mãe se apresenta querendo falar com ele, cessam as oposições, ninguém critica porque é mãe dele e ninguém diria: “Que senhora tonta! Como ela vai agradar agora o filho nesta ocasião!?” Não. É a mãe? Acabou-se! Passa todas as barreiras, passa através de todas as guardas, faz tudo, porque é a mãe. Da parte da mãe se compreende o que for. Compreende-se que ela leve um doce para ele comer nesta hora, compreende-se que ela leve um bolo, que ela leve um dinheiro, compreende-se que ela diga a ele que ele é um colosso… Compreende-se qualquer coisa porque é mãe. E não tem perigo — vocês nunca ouviram alguém dizer um comentário seguinte: “A essa senhora faltou o senso da justiça!” Nada. Porque ela é a mãe e, portanto, da parte dela ainda que ele tenha tentado contra a vida dela, ela ir dar um jeito. Nele, achariam sublime. E a única forma de sublime que se tolerava era esta, que a mãe fizesse uma coisa dessas.

Mas, na vida concreta isto é cada vez mais raro.

As mães, destas assim, [foram] tornando-se cada vez mais raras, tratamento aos filhos sumário, abreviado, rápido. O filho não tinha da parte da mãe aquele amor paradigmático antigo em que a mãe era a fonte de misericórdia do filho. Com aquela pessoa, ele podia contar até o fim do caminho, ele podia fazer um absurdo contra ela, ele poderia caluniá-la, ele poderia fazer qualquer coisa que ela vinha para ele com carinho e dizia: “Meu filho, o que está lhe faltando?”

A ausência disto tudo criava uma sensação de isolamento ácido, de desconfiança, de isolamento que acabava repercutindo até na relação entre os irmãos. Os irmãos tinham aquele hábito de estar juntos, uma certa conaturalidade, naturalmente, também existente, mas todos sabiam que em determinado momento da vida aquilo se desconjuntaria e que cada um ia cuidar, no seu canto, de sua vida e que nessa hora os outros não valeriam para uno. Se uno fosse muito azarado, acontecesse muita coisa triste e fosse um representante permanente de desgraça e da desdita dentro da família, também se afastavam.

Por exemplo, vamos dizer que um ficasse cego e pobre ao mesmo tempo. Não adianta vir com conversa: nas reuniões alegres de família se tratava de evitar este. E ter aquele infortúnio ali pelo meio, não faziam. Podiam cessar as reuniões da família para não ter que excluí-lo, mas, manter as relações como deviam ser, não acontecia. Porque era isto: era um tipo que vai tornar presente a nós uma aspecto da vida que estraga a nossa vida. Pois se nós nos lembramos que isto pode ser assim, a nossa vida perdeu o sentido e a mentira da Bagarre Azul perdeu o sentido. Então: “Fora!” e “Vá curtir o seu infortúnio sozinho! Nós mandamos de vez em quando um bolo para você, damos um telefonema; não permitimos que você vá cair na sarjeta, mas também se dê por muito contente que seja isto.” E se este aí quisesse ir morar num instituto de cegos e sumir no meio dos cegos, está bom, é o que ele tinha que fazer.

(Sr. Guerreiro Dantas: É tremendo, mas é inteiramente verdadeiro.)

É inteiramente verdadeiro!

Sabe qual seria o comentário? “Ele foi um homem e encontrou o seu próprio caminho”, ou seja, caminho longe de nós. É brutal, mas é isto.

Mas, há aí toda uma vida sem Deus, um implícito ateísmo dentro disto.

(Sr. Gonzalo Larraín: O ateísmo é só isto ou algo mais?)

(…)

Agravou, mas é na linha de que cada geração era portadora de alguns restos de Civilização Ccristã que impedia o ateísmo de chegar até o fim das próprias conclusões. Então, o que acontecia era que cada geração de ateus era mais atéia que a anterior, mas algo ficava. Na geração de vocês ficou muito pouco. Esta é que é a realidade.

Mas o ateísmo — vinha nisto também — que era o horror a certo pulchrum que a própria dor traz à vida. Então, por exemplo, vamos dizer, as coisas que eram bonitas, na minha família, contar, [eram] a respeito da vida de meu avô, como [ele] foi.

A mãe de Adolphinho insistiu várias vezes comigo — uma insistência afetuosa, mas que chegava quase ao importuno — para eu escrever a vida do pai dela, que era meu avô. Era sempre isto: a vida, as situações trágicas, os apertos em que ele se encontrava, como ele vencia estes apertos… Essa era a vida dele.

Essa presença do aperto, na dificuldade, no apuro, como dando dignidade a vida e fazendo com que o indivíduo sentisse um bem-estar, por causa disto, interno: “Venci tal coisa, passei por tal coisa…” A famosa carta de São Paulo em que ele conta todos os riscos que ele correu, os sofrimentos etc., etc., e diz para se gabar, para desmascarar os falsos profetas com ele estava em luta.

Está bem. O indivíduo fazer isto de sua própria vida e sentir o gosto disto feito e fazer disto um elemento de felicidade, no meu tempo de moço, já era inteiramente impossível, era inteiramente impossível. O verdadeiro era a soma de prazeres e a soma de prazeres desfechando na viagem à Europa. Quanto mais viagens à Europa, mais feliz. Porque era onde se tinha felicidade inteira era na Europa. Então, viagens à Europa a todo o momento que se quisesse. Era o critério.

Formava um ateísmo prático que equivalia a uma heresia. Sem nós termos em conta de herege, nós introduzimos na nossa vida um estilo de viver e de sentir herético. E se alguém nos quisesse transportar para o ambiente da senhora do Quadrinho, nós nos julgaríamos tirados do mar das delícias e entrar pelo mar das tristezas. A solenidade, a lentidão, a reflexão, a ponderação, a bondade, tudo isto era tido como uma coisa impossível de aturar.

Então, eu dou uma coisa mínima da vida de meu avô.

Eles viveram num período em que algum tempo… Eles quem? Portanto, minha mãe e meu avô, as duas gerações. Quando se deu o fato que eu vou dizer, ele era já velho e minha mãe era moça feita, os irmãos dela eram também moços feitos e que restava ainda o hábito de fazer alocuções, saudações.

Por exemplo: um aniversário.

O filho da casa fazia uma data simbólica, 21 anos ou então 30 anos — que é uma data que dobra um certo cabo na vida —, ou uma coisa assim… O batismo de uma outra criança ou crisma de um outro, umas coisas assim. Faziam uma mesa de doces e convidavam os amigos, os parentes, para celebrar aquele fato ocorrido na família naquele dia. Tudo em ordem.

Costumava-se fazer então algum discurso. Alguém que estava presente dizia algumas palavras oratórias, de taça na mão e, às vezes, o orador com um certo talento. As pessoas gostavam de ouvir.

Mas, o número de ocasiões para estas peças oratórias foi crescendo e a qualidade dos oradores portanto foi caindo e esse discurso passou a ser um abacaxi medonho. Diretriz de meu avô: “Vocês precisam compreender que a pessoa que está falando, que vai falar, é uma pessoa que tem uma certa necessidade de se expandir, de aparecer e que é uma coisa que a gente deve ter pena de ver que ele fica engarrafado ali. Portanto, quando ele vai falar, a gente por bondade tem a obrigação de cessar a conversa e ficar prestando atenção ainda que seja cacete. Não sair da sala enquanto ele estiver falando e depois felicitá-lo. Ainda que seja uma pessoa que a gente conhece pouco, a gente tem obrigação de fazer isto. Eu… na sala onde eu estiver havendo discurso, eu quero ver que meus filhos que estavam na sala se mantiveram até o fim dos discursos, baterem palma e felicitaram o homem por mais cacete que fosse.”

Mamãe contava o caso de um homem que começava a falar e as pessoas iam saindo da sala, ostensivamente, diante dele e ele ia andando atrás e fazendo o discurso, de taça na mão, dos últimos que saiam da sala. Quer dizer uma coisa horrorosa, uma humilhação medonha. O sujeito fazia.

Minha mãe me dizia que não havia conversa, se isto se desse na presença de meu avô, ele notando que um filho ou uma filha se mexeu, recebia um olhar dele que entendia que não podia sair e este tinha que ficar ouvindo os discursos até o fim.

Isto eu tenho certeza que nos ambientes diversos em que vocês se formaram e tudo o mais — Paraná, Minas, Santiago, Chile… ambientes muito diversos — isto seria tido como um peso insustentável.

(Sr. Gonzalo Larraín: Um cárcere!)

Inaceitável! E não havia pai nem mãe nenhuma que conseguiria isto do filho. Por mais que o filho quisesse bem o pai ou a mãe, isto não conseguiria. Talvez conseguisse alguma vez — na melhor das hipóteses — muito duvidoso. Mas, como hábito, estar presente? Isto é uma coisa que os filhos não fariam! E acho que provavelmente no ambiente de vocês a fortiori não fariam. E vou dizer mais: o pai nem se metia a balão de encomendar uma coisa dessas. Nem se metia a balão porque ele sabia que não ia ser obedecido.

Quer dizer, é uma coisinha pequena que revelava uma certa arte de viver em que o sacrifício aceito por cada um dentro do convívio equivale a uma espécie de injeção de açúcar naquele convívio e que rende muito mais de bem-estar do que qualquer outra forma de bem-estar que se encontra.

E isto, provavelmente, vocês não conheceram. Eu, pelo menos, não conheci. Absolutamente não.

O que eu conheci foi o contrário: este culto do prazer, de Bios, de Kanon, de que eu já tenho falado. Aliás é preciso dizer, hein? “Bios” no meu tempo propriamente não… O sujeito doente tinha que fingir que não era doente, tratar-se às escondidas e viver alegre como não fosse doente e era má educação conversar sobre doença. A tal ponto tinha chegado! Porque doença é tema sério e não vai.

Por exemplo: conversar sobre os mortos da família? Não tem perigo. O que fizeram os antigos, não tem perigo. É pessoal que morreu! Já foi! Nós vamos falar do pessoal presente.

Provavelmente vocês encontraram manifestações desta natureza “n”. Só isto, o tempo inteiro.

Outro dia me contaram: uma casa… Não me lembro bem quem é, mas que se deu este fato, fato contemporâneo. Uma moça morreu na casa, quer dizer uma moça da casa…

[Vira a fita]

porque faz sofrer. E fazer sofrer não pode.

Este estado de alma brutal pelo qual 24 horas antes estavam todos chorando porque ela ia morrer. Morre, a memória dela é posta de lado como a recordação de um cão sarnento. Isto indica bem a onipotência deste estado de espírito que nós estamos falando.

Agora o lado do demônio.

(…)

Isto, dado o princípio de que não há uma tentação natural que venha acompanhado de uma tentação preternatural e que o demônio entra nestas coisas e acentua, nós temos que tudo isto é [aumentado] por uma vibração do demônio assim: dando um excesso de prazer quando a coisa vai bem e um excesso de abatimento quando a coisa vai mal e, por causa disto, cada um dos participantes desta civilização do prazer se encontra numa situação de depressão quando está sozinho, de frustração do outro mundo porque ele sabe que não está atendido naquilo que ele quereria, mas que ele não pode se abrir com ninguém, que ninguém quer perder o tempo ouvindo as dores dele e que ele é um azarado, que já ficou doente, que já perdeu o emprego, que já uma outra vez brigou com alguém, que já perdeu o prestígio com isto, que etc., etc., etc..

Conseqüência disto é que horas de depressão profundas em que pouco falta para a pessoa se revoltar contra Deus. Suicídio, drogas e tudo mais…

(Sr. Paulo Henrique Chaves: A causa de todo este estado de espírito é exatamente a falta de amor a Deus…)

Mas, nestes termos. É a falta do amor ao sublime, a falta de amor ao holocausto, a falta de amor à bondade, a falta de ter conhecido alguém que representasse esta bondade até o fim para a gente crer que isto é possível. Simplesmente crer que é possível; [o] que já é uma coisa medonha.

Nisto uma impostação atéia, fundamental e ultra endemoniada. Com isto de curioso: que o indivíduo nesta feira de vaidades, para ter êxito, precisa fingir que está alegre, precisa fingir que está feliz, que todas as coisas dele vão bem e quando ele finge, ele tem uma certa faculdade de persuadir (alguns que tem alguma faculdade de persuadir) que é impressionante.

Não é raro no caso de suicidas que suicidaram [serem] pessoas que a gente pensa que nunca se suicidariam porque pareciam felizes. Não é raro. O que é que há ali?

É que a pessoa para poder brilhar diante dos outros precisava fingir-se feliz e o demônio lhe dá um certo reluzimento para isto, mas, ele fica naquela mentalidade do “ride pagliaccio”. Este é o tom. Neste tom entra o gosto da velocidade excessiva, entra o gosto, enfim, de todo o espavento da civilização moderna que o indivíduo deveria odiar.

Eu não estou convencido que nós tenhamos feito sair de nossas almas inteiramente isto. Não estou convencido.

É disto que provém, a meu ver como causa principal, os desentendimentos dentro do Grupo. Porque se o indivíduo se alegrasse de ter no outro alguém que pensa como ela e ter as mesmas idéias e desta semelhança de almas deduzisse uma amizade, ele estaria todo voltado para o amor de Deus. E este amor de Deus falta.

Isto seria, numa palavra, o que eu teria para dizer.

Precisaria ver um pouco a hora.

(Sr. –: 3:05h.)

(Sr. Gonzalo Larraín: Nós podíamos continuar no próximo sábado, Sr. Dr. Plinio.)

Foi claro o que eu disse, ou não?

(Sim, claríssimo!)

(Sr. Gonzalo Larraín: Está extraordinariamente claro e no solo claro como também muito útil, Sr. Dr. Plinio.)

Eu falei muito cansado, espero não ter bolostrocado nada.

Os meus três complicados, três ou quatro, seriam muito menos complicados se fossem acessíveis a este estado de alma: veja aquele que é tão diferente de todo o mundo que rompeu com este mundo e que participa de meu ideal. “Este é meu irmão, mais do que meus irmãos segundo a carne e, portanto, com estes eu vou ter as analogias, as afinidades, as paciências que eu teria com meus irmãos segundo a carne.” Como isto mudaria o nosso convívio! Mas eu sinto isto pouco.

(Sr. Guerreiro Dantas: Haverá reunião da CM, amanhã?)

Se Deus quiser! Que Nossa Senhora os ajude!

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