Conversa
de Sábado à Noite – 30/4/1988 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 30/4/1988 — Sábado [VF 058-JC019] (Plinio M. Gomes)
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…não entende e especialmente cauto. E eu não entendo nada de medicina e coisas anexas, conexas, etc.. De maneira que eu sou muito cauto. Mas o que se deu foi a coisa mais aprazível possível, numa vida cheia de nevoeiros, de poluições, de borrascas como a minha, foi o seguinte:
Estando aqui da última vez — eu não me lembro bem a que propósito, de que fato, de coisas… Ah! Eu queixei-me ao Rodrigues que o regime estava muito duro, não sei mais o quê. Mas, queixei-me assim… conversa social.
Bem, o Rodrigues me disse: “Há uns novos métodos de diabete, que se pode atenuar o regime. E, da próxima vez que eu venha aqui — ele estava partindo, com hora marcada, qualquer coisa —, o senhor conversa comigo sobre isso, que eu indico ao senhor como fazer. Mas, para isso seria preciso o senhor fazer um exame prévio — de uma coisa que eu tinha a mais profunda antipatia e já tinha ouvido falar: as triglicérides, está compreendendo? O que serão essas triglicérides, eu não sei — e de mais não sei o quê, tá, tá, tá, tá… Mas basta tirar uma vez sangue que o senhor — todos esses exames se fazem com a dose de sangue tirada e vem até no mesmo relatório, etc., etc., já vem tudo de uma vez —, aí o senhor me apresenta e vamos ver como graduar o regime de acordo com isso.”
E, eu pedi para o Leôncio… Lembra-se? O médico, não é?
(Sr. –: Sim, exatamente)
Para vir aqui em casa para tirar o sangue, porque hoje, com essa história de AIDS, não sei o quê, o negócio de tirar sangue é uma coisa… — o Leôncio é uma pessoa de muita responsabilidade, muito razoável, muito equilibrado, direito, etc., e eu confio nele. Então, ele veio e tirou. Depois, eu parti para o Êremo do Amparo de Nossa Senhora, para fazer trabalhos. Quando voltei, encontrei o exame aqui, à noite, na hora de dormir — sexta-feira à noite, de umas semanas atrás. E eu disse ao Fernando Antúnez… Primeiro fiquei na dúvida: “Deve vir desses exames borrascosos: subiu o açúcar, o sangue indica colesterol alto — eu não sei se colesterol é apontado aí —, alguns desastres devem estar indicados aqui.” Porque na minha idade, você só pode esperar desastre. Nada vai para melhor.
Eu disse ao Fernando Antúnez: “Bem, Fernando — eu estava vendo uma coisa qualquer — me abra isso aí e veja o que é que tem aí.” Fernando abriu e foi lendo atento e não disse nada. Depois deu uma risada e disse: “Não podia estar melhor. Está uma coisa magnífica.” Foi ver o tal glicérides e tudo estava no ponto ideal seguinte — essas coisas tem o máximo e o mínimo. Não pode, portanto, ir assim abaixo do mínimo, não pode evidentemente, ir além do máximo. Mas o mínimo, também não convém que esbarre na parcela do mínimo, porque todo estado de saúde, tem uma doença que lhe corresponde, que se baixar muito… por exemplo, açúcar baixo. Diabete é açúcar alto, pode produzir estado de coma diabético, pode produzir não sei o que, se abaixar de tanto e há um nível ideal para tudo. Em todos os pontos o meu exame estava… [nota do datilógrafo: foi dita uma expressão, que não se conseguiu pegar, mas que significa que o exame estava bom.] Bem, [eram?] todos.
A gente poderia desconfiar que no laboratório, algum inimigo progressista, qualquer coisa, tivesse feito isto, para me jogar no precipício das imprudências. Mas, eu tinha tomado o cuidado de fazer o Leôncio, registrar o sangue…
(Sr. –: Ele mesmo faz.)
Não, é num laboratório, porque o dele não está funcionando. Num instituto muito bom, chamado, não sei porquê, Lavoisier. É muito considerado.
Marcar lá, que o sangue é de Amadeu Lago. De maneira que esse perigo não podia aparecer, porque a… não terá ainda… [inaudível] …para eliminar a vida do Amadeu. Porque percebem que não é o Amadeu, mas é o senhor… aí também já vai um limite que até lá não é possível.
No dia seguinte aparece o Rodrigues. Encontro com ele à tarde — não sei se você estava lá quando se deu… [inaudível] …não me lembro bem.
Alguém diz que achava que lá não se encontrava.
Eu mostrei, ele e disse: “Olhe tem isso.” Ele tinha armado um regime. Quando mostrei, ele ficou assim, meio aturdido e me disse: “Não, Dr. Plinio. Não tem regime. O senhor pode declarar eliminados todos os regimes e cortado toda a história, porque é muito raro, numa pessoa jovem, a gente encontrar um exame tão bom como esse do senhor”. [Exclamações]
[Alguém diz que essa notícia deveria ser celebrada, etc..]
Não. Eu vou dizer o que há.
Eu sou cauto, e então disse ao Rodrigues:
— Bom, Rodrigues, mas não era bom eu mandar fazer, daqui a um mês, um exame para ver como está?
— Não, não precisa porque esse regime que o senhor está fazendo, essas triglicérides… — você veja até que ponto chegou o conhecimento de certas coisas — no que examinou o seu sangue, dá o total de evolução de seu sangue, nos quatro meses anteriores. Indica normalidade inteira nos seus quatro meses anteriores. Quer dizer, nos dias que o senhor esteve em restaurante, comeu à vontade — uma vez por semana eu faço isso —, o seu sangue não se alterou em nada. Se o senhor quiser, daqui a uns quatro meses, o senhor faça um outro exame. Se o senhor quiser.”
Então, aos poucos, eu estou avançando. Tão aos poucos, que o primeiro bife com batatas que eu vou comer, deve ser quinta-feira, porque vem carne do interior.
E, depois outra coisa: não é bom me soltar como bicho no pasto. É devagar. [Ordi no questo apetito?], está compreendendo? Não é só [ordi na questo amore?]…
(Sr. –: O senhor está comendo pão e manteiga?)
Ah, sim! Pão com manteiga, eu estou comendo todo dia.
(Sr. –: Açúcar também?)
Ainda não. Pelo Rodrigues, podia ser. Ainda tomo açúcar dietético. Estou controlando o peso, o peso não tem subido. O Rodrigues me disse que era um exagero passar todo dia. Eu disse: “Olha Rodrigues, isso é um exagero. Mas, eu que sei o que isso me custa, restabelecer cem gramas nesse peso, de maneira que para mim é melhor…”.
(…)
(Sr. –: Ele disse que o senhor precisa ter um peso fixo? Ou que o senhor pode pesar mais e não acontece nada?)
Não. A questão não é essa. É que, se comer à vontade, eu subo logo para os noventa e tanto.
(Sr. –: Ele disse que o senhor teria problema?)
Tem, porque aí — ele não disse, mas todo mundo sabe — afeta a pressão arterial imediatamente. Isso todo mundo sabe. Engordou: ataca a pressão arterial. Ainda mais quando tem a minha idade.
Eu dei muitas graças a Nossa Senhora.
(Sr. –: Porque dá como curada a diabete…)
Ele começou a dizer e parou no meio. Quer dizer, é um pouco forçado dizer que está curada. Eu acho que é um [caso?] de como que restabelecimento muito excepcional. Mas você precisa ver que é o fruto de vinte anos de um regime de uma fidelidade total. Eu guardei o regime como se guardam os Mandamentos. Eu fui isso.
(Sr. –: Mas também de uma vida duríssima…)
Ah! Duríssima.
(Sr. –: Então que daria para alterar todos os sangues, em todos os pontos…)
Ah, ah, ah.
(Sr. –:… a temperança com que o senhor faz tudo.)
Eu pretendo, aliás, continuar a comer alguma coisa do regime, indefinidamente, para não… a gente deixando uma coisa desagradável, com a idéia de que nunca mais… entra uma certa intemperança. Não tem “nunca mais”. Se Nossa Senhora quiser, tem pior que isso. Não é?
Voilá la fer.
(Sr. –: Vamos rezar um “Magnificat”, depois da reunião, se o senhor quiser.)
Eu agradeço muito.
Mas agora, vamos entrar na pergunta.
* * *
Quem é que faz a pergunta?
É o Caio.
(Sr. –: Seria eu.)
Então, diga.
(Sr. –: Estão relacionadas com as duas reuniões últimas, daqui…)
Dividia-se em duas partes: uma parte é como ela fazia em vida — é uma discrição; depois, em segundo lugar, como ela fazia depois de morta.
Ela era muito pouco intervencionista. Quer dizer, por exemplo, há mães e pais, etc., que no educar, intervêm muito: “Faça isso, não faça aquilo…!” Freqüentemente se tornavam [insuportáveis] hoje… [inaudível] …mas, tornavam insuportáveis. Então: “Cumprimente de tal maneira, e faça tal outra coisa e diga tal outra coisa”, etc., etc.. O sistema dela, não tinha nada de liberal. Há certas coisas que ela entendia que deviam ser feitas de uma certa maneira, aquilo precisava ser feito assim.
Mas, ela nesse sentido, não era intervencionista. Ela, de vez em quando dava um conselho e dizia alguma coisa: estava no seu papel de mãe, fazer. Mas com muito cuidado de não se tornar importuna, não se tornar desagradável, não exercer uma tutela opressiva, quase deprimente. Um cuidado extraordinário nisso.
Mesmo quando nós éramos muito pequenos, eu noto que ela tomava um cuidado muito grande nisso. Mas fazendo a passagem dos antigos tempos, eu noto que isso se dava em parte, porque muitas mães se sentem — quando elas têm algum interesse pelos filhos e querem fazer algum bem pelos filhos — elas se sentem numa alternativa e naufragam na alternativa, por não saberem se situar corretamente diante do fato. Mas, é o seguinte: ou estarem intervindo demais — então, criar uma situação impossível —, ou intervir de menos, porque por qualquer coisa que não intervenha, pode passar o mar. Hoje as coisas estão tão comprometidas, que por coisa qualquer que não intervenha, pode passar o mar. O que pode fazer uma mãe?
No tempo que nós éramos crianças, minha irmã e eu, já essa situação toda estava… os elementos próximos disso estavam postos. Uma geração que estava entre nós e que seria a dos nossos filhos, já estava engajada nisso. Portanto, vinha de nós e nós mesmos não… [inaudível] …se raízes disso e compreende que não seria nada fácil educar-nos nessa perspectiva.
Mas, é que ela tinha um recurso que… um recurso especial da graça, da natureza, mas um recurso que está ao alcance de muitas mães, de muitos pais, etc., desde que saibam agir, que é exatamente influenciar sem falar. Influenciar precisa um modo de ser, de viver, de fazer, um modo de comunicar-se e ao meso tempo de [produzir] apetência da companhia dela, do contato, do convívio com ela, e ao mesmo tempo faça entender o que ela não disse. De maneira tal, que o filho é ensinado, mas não está toda hora, aquela coisa que… Não funciona! Sobretudo com menino. Com a menina… Enfim, vá lá! Talvez… Mas com menino? Não funciona absolutamente, não é?
(Sr. –:… Desse intervencionismo, do que o nativo, não é?)
Muito, mas muito.
(Sr. –: Em tese.)
Em tese, de um modo, às vezes, desagradável. Você sabe bem como eu sou complacente com tudo quanto é alemão, mas ponhamos nossos limites nas coisas. Muitas vezes pesa de modo desagradável.
Depois, outra coisa. Em muitos corretivos alemães, você não sente o afeto, você sente a compreensão: “Não faça! Está acabado.” E é o que você junto a ela, não sentia. Não havia uma vez só em que a compreensão não viesse — há pressão, porque a mãe tem que fazer pressão sobre o filho — não visse com tanto afeto, com tanta delicadeza, etc., etc., que torna dispensável esse dirigismo educacional incessante, não é?
Então, por exemplo, o seguinte: vamos dizer… Nunca, nunca, nunca… Eu todas as noites… Até o momento de eu entrar para as Congregações Marianas, portanto, desde os catorze anos, até os vinte, seis anos, a idéia de independência do homem, é que o homem ficava… punha calça comprida, ficava independente, o pai dava a chave da casa. Ela nunca me perguntou — toda noite, eu saía — ela nunca me perguntou aonde eu ia. Nunca! No máximo — eu ia muito à casa de um irmão dela — no máximo, se ela queria que eu levasse alguma coisinha à casa do irmão, como por exemplo, um remédio para a cunhada dela — essas coisas de vida de família — às vezes, ela me perguntava: “Você vai hoje à noite a casa de Gabriel?” … [inaudível] …Ela dizia: “Bom, então, me faça o favor — ‘me faça o favor!’ — você leve tal remédio; você leve tal revista”, enfim, essas coisas que há na família, mas, era para esse efeito concreto. Efeito fiscalizador? Nunca!
Nunca, eu indo a uma festa, eu… na volta, ela perguntava: “Com quem você dançou?” Nunca. Nem “com quem você esteve?”, nem “com quem você procurou?”… Nunca, nunca, nunca nada.
Ela acompanhava muito, prestava muita atenção no que eu contava — eu muito expansivo, ia contando as coisas… nem tinha o que esconder. O que eu queria contar eu contava. Ela prestava muita atenção, mas não era uma atenção assim… de polícia de quarteirão, agastado, está compreendendo? “Hum… eu vou ver agora que besteira você faz.” Não. Era calma, tranqüila, como está aqui no quadro, benévola, mas se aparecesse alguma coisa que ela não gostasse, ela dizia depois, nunca diante dos outros. Na hora de eu dizer “boa noite” para ela, que era [à] noite, a hora do ajuste de contas, era longo, conversávamos… Sim, metafísica pelo meio… meu pai acordava e dizia: “Gente, vocês não podem conversar isso amanhã!?” Isto é metafísica…
(Sr. –: Ele dizia assim mesmo?)
Dizia. “Isso se pode conversar durante o dia como de noite, porque conversam agora? Esse Ribeiros dos Santos…” Mas ele dizia sem mau-humor também, dizia com muita… um pouco brincando até. Nós não ligávamos, continuávamos a conversar… [inaudível] …com boa vontade, a coisa passava muito bem.
Bem, mas ela quando falava — ela tinha um jeito de falar que era muito característico. Eu não sei se contei a vocês um negócio de um casamento chinfrim, não?
(Sim)
Ela pronunciou a palavra “chinfrim” — eu não conhecia — ela pronunciou a palavra “chinfrim” com tanta significação, que eu fiquei com horror. Eu peguei aquela moça e “pist”… deu-me pânico que se pudesse imaginar que eu ia fazer um casamento “chinfrim”. Mas ela não me chamou, nem nada. Assim… conversando, ela me disse:
— Meu filho, eu ouvi dizer que você está dançando muito com a fulana?
Eu disse:
— É.
Ela disse:
— Olhe aqui, isso não é gente de bem, como nós. Você fazendo esse casamento com ela, é um casamento “chinfrim”. Você quererá fazer um casamento “chinfrim”?
Deu-me um tal horror de fazer um casamento chinfrim, que — era uma temporada de festas em Santos; o parque Balneário tinha festas quase toda noite, nós íamos — olha: [peti?]… que eu não dancei com ela.
No outro dia, eu estava no Coração de Jesus e — eu velho e ela velha —, ela saiu de dentro da sacristia, nossos olhares se cruzaram e a cumprimentei amavelmente — ouviu? É evidente, não é? — eu me lembrei… [peti?], “chinfrim”… [Risos]
Sessenta anos depois: “chinfrim”. E era chinfrim mesmo. Depois eu examinei, etc.. Mas era um menino de catorze, quinze anos, que idéia pode ter das camadas sociais, como era em São Paulo, etc., não tem idéia.
Bom, assim, outras coisas. Por exemplo, uma noite, nós fomos jogar — para encher o tempo —, primos, primas — quanta coisa há assim — fomos jogar na casa de um contra-parente. Jogar baralho, não sei o quê. E, a coisa durou… Eu acho que já contei isso aqui.
(Não)
Durou mais ou menos até as duas da manhã que, para aquela São Paulinha daquele tempo, era muito tarde. Eu estava pensando: “Ela está acordadinha e está apreensiva de não me ver chegar.”
Mas havia uma combinação que quem perdesse a partida de baralho, a pessoa que ganhava tinha o direito de — que só se compreende na extrema intimidade como entre irmãos e irmãs — pintar a boca do outro com ruge ou batom, entende? E ficar uma boca assim…
Bem, em certa hora, eu disse: “Olhe, está tarde demais. Vamos embora.” E eu tinha perdido. Estava com a beiçama assim, toda de batom e pensei: “Mamãe vai estranhar, mas eu vou… Para pedir para entrar aqui num banheiro qualquer e lavar o rosto, fica uma coisa desagradável, esquisita, etc., etc.. Nenhum homem está fazendo isso. Lavam os lábios em casa.”
Quando cheguei, apenas toquei a campainha, ela abriu a porta e me disse:
— Meu filho, que hora é essa de você voltar?
Eu disse:
— Meu bem, eu estive em casa de fulano de tal.
Ela disse:
— Até agora?
Eu disse:
— Até agora. Eu estou saindo de lá.
Ela disse:
— E essa pintura nos lábios? O que isso significa?
Eu expliquei. Quando expliquei, ela achou natural e deveria haver um tom de verdade no que eu disse, que ela se deixou convencer inteiramente e foi para o quarto dela. Deixou-me… Passava-se cadeado, corrente de metal nos trincos das portas, antigamente, etc.. Eu fiz aquilo tudo com a preguiça que você pode imaginar. Fui falar com ela no quarto e eu a encontrei deitadinha. Cheguei, não houve mais conversa sobre esse assunto. Eu lavei-as depois fui. Ela estava deitadinha esperando a conversa, saiu outro assunto. Está acabado.
Mas eu vi ali, tudo quanto em sã moral… [inaudível] …como seria condenável, se eu tivesse vindo de onde não devia.
E essa reprovação penetrava profundamente, fazia entender o ensinamento da Igreja de um modo vivo, quer dizer, uma ilustração. E uma mãe deve fazer isso, está na tarefa dela, nem preciso desenvolver isso aqui.
Mas, depois telefonar para a dona de casa e dizer: “Anita, Plinio esteve mesmo, ontem aí, até essa hora?”, etc…? Absolutamente, não. Está acabado porque ela tinha visto que era aquilo mesmo e estava o incidente encerrado, pronto.
Eu mesmo, não pensei na coisa. Anos depois é que me relembrei do fato e eu me lembro de todos esses pormenores.
A única vez que ela fez um dramalhão comigo — eu já contei — foi quando eu cheguei atrasado à minha formatura. Não contei isso?
(Não)
Formava-se naquele tempo de fraque. Fraque e cartola. E eu mandei fazer… Eu nunca fui grande pontual para nada, nem nos calendários, nem nos horários, e não tinha fraque. Mandei fazer meu fraque naquela ocasião. E, fraque era uma coisa muito complicada, porque depois ficava por alguns anos, para você assistir aos casamentos das outras pessoas, etc., aquele fraque.
Até a idade de formar-se era um jaquetão escuro, que vinha mais ou menos como esse aqui. Mas de casimira inglesa muito boa, etc.; depois, que se ficava mais velho, formado, era o fraque completo. E eu tive que fazer um fraque, porque eu tinha a calça… [inaudível] …, mas eu não tinha o paletó e achei que aquilo se encomendava à última hora, que não tinha importância.
Cheguei lá para o meu alfaiate… e não era… uma complicação. Mas ele me prometeu que mandava levar em casa a tantas horas, que era a última hora para eu me vestir e ir a faculdade.
Chegou na hora de ir embora e disse:
— Filhão, vamos a faculdade? Você não se vestiu? Não pôs o seu fraque?
Eu disse:
— Meu bem, não. Meu fraque vai esperar por…
— Como? Seu fraque vai esperar?
—… [inaudível] …Vai esperar sim.
— Mas chega logo?
Eu disse:
— Chega.
Ela desceu com a mãe dela, com a minha irmã, com papai, com familiares… [inaudível] …Eu disse:
— Eu agora, pego qualquer automóvel e chego.
Bom. Chega lá — eles chegaram também com antecedência, para conseguir lugares — sentaram-se… corre o tempo, corre o tempo, eu não apareço. Aparecem todos os professores e vão se sentando na arquibancada dos professores, eu não apareço. Entra o diretor, declara aberta a sessão e começa a chamar o pessoal para a formatura.
Primeiro o discurso do orador da turma, depois a formatura, depois parece que vem o discurso do paraninfo, não me lembro bem como é.
Bem. Transcorre tudo e eu não apareço. E ela, assim, com pavor de desastre de automóvel: “Ele deve ter sofrido desastre de automóvel para ele não aparecer. Não se compreende de outro jeito, etc.”. Ela estava ao lado de Rosée. Rosée muito espevitada, nervosa também, disse: “Não, é isso! É evidente! Não tem outra explicação…!”
Ela foi ficando.. vocês podem imaginar.
Afinal, quando chamaram o penúltimo, eu entrei na sala. Então, de fraque. Foi aquele alívio. Porque o homem levou muito tempo para entregar o tal fraque, enfim, atrasado; está acabado.
Bem, eu, de acordo com o velho estilo, formei-me e tara-tá-tá. Depois fui para ela. O rito essencial para mim, era beijar a ela, não é? Ali na faculdade mesmo, no salão, beijei-a, etc., tudo muito bem.
Chegamos em casa, descemos de automóvel, tomamos uma escada que se subia, etc., chegamos lá dentro, ela disse:
— Eu preciso falar com você.
Eu disse: “Pois não”, meio espantado.
Fomos ao quarto dela, que ficava no fundo da casa — tinha que tomar sol, o quarto, porque… por causa da saúde dela. Batia sol ali que um horror. Ela disse… fechou a porta com chave e se ajoelhou diante de mim, disse:
— Mas o que é isso que você fez? Sua mãe ficou quase louca.
Eu não atinei com o que era.
— Mas meu bem… Quase louca? A senhora? Por minha causa? Logo hoje? O que houve?
Disse rindo.
— Não ria. É uma coisa que eu fiquei louca. Você me sujeitou a um padecimento.
Mas, queixosa, não resmungona, procurando desperta pena nela. Mas, não cobrando de mim. Eu disse:
— Mas, meu bem, o que houve?
— Você vai me fazer uma promessa, agora, soleníssima, de que nunca mais você vai fazer atrasos desse gênero.
Meu feitio é de me atrasar. Ela sabia que o feitio da família dela é de atrasar. Ela se atrasava. Mas, ela estava tomada por aquela coisa e eu fiz uma promessa, assim… uma promessa camarada, que ela também se contentou com a mercadoria que eu oferecia.
Então ela me disse: “Sua irmã estava nervosíssima; sua tia; sua não sei o quê; sua avó; e não cabíamos em nós de horror. Afinal de contas, no dia de sua formatura, vem à notícia: ‘Você está no hospital todo estraçalhado.’”
Mas ela sabia que isto havia de acontecer anos depois, num hospital do caminho de Amparo e não é por correria, nem por atraso meu, está compreendendo? É por outras razões, entende?
Por exemplo, eu não tive a menor tentação de me agastar com ela, de me zangar com ela, de qualquer coisa, nada, nada, nada, nada. Porque era feito com um afeto tão penetrante e a gente via que era um tal querer-se bem naquilo, um tal querer-se bem, mas, empenhado e enlevado, que eu nunca soube que tivesse havido no mundo, uma repreensão mais pacífica do que aquela. Embora, éploré, realmente éploré e… Está bom. Nunca mais voltou o tema.
Muitos anos depois, diante de pessoas, eu levantei o caso, brincando um pouco com ela, para ver o que restava no espírito dela. Ela voltou à coisa: “Não, porque não deve ser, porque eu não sei o quê…” Mas, sem cerimônia, nem a menor, nem a menor, nem a menor.
Com o meu modo de ser, isto pega até ao fundo da alma, quanto podia pegar. Mas, se fosse no sistema da cerimônia, não pegava. Eu acho que todo mundo é assim.
(Sr. –: Como todo mundo é assim?)
Se lhe pedissem com ela me pediu, se deixava tocar. Se pedisse, como eu vi tantas mães fazerem, de outro jeito, isso dava encrencas. Não é “dava”, eu vi em torno de mim, dar tanta encrenca, como eu não sei o que dá. Aí não tem fim. É um círculo vicioso que não tem fim, não é?
Eu me lembro os pitos que ela me passava em pequeno. Eu já contei isso aqui. Ela me chamava e eu em pé. Ela, às vezes, abria assim ligeiramente — quando? Isso era bem menino — os joelhos e me punha assim aqui, me segurava pelas costas, me olhava e dizia:
— Filhão, — nessa hora era ‘filhão’, não é? — você fez tal coisa assim, assim, assim, não minta para sua mãe.
Eu disse:
— Fiz, meu bem.
— Ela disse: Mas olha, você andou mal, por tal coisa, por tal coisa, por tal coisa.
Mas, explicava tão direito… e depois ela “chinfrinsava”, hein? Porque ela dizia:
— Isto aqui é mal feito, por tal coisa assim, tal coisa e eu não quero ter filho assim.
Mas, era uma tal rejeição moral, teórica, daquilo… Mas era um tal querer-me bem, no mesmo momento em que ela dizia, que eu via que era um princípio que ela aplicava. Um princípio ao qual ela pelos seus melhores lados, era inteiramente aderente mesmo.
Quando ela me disse, para aquela nota falsificada: “Eu ter um filho falsário? Eu? Nunca!” Mas, não era assim: “Você nem sei que espécie de animal, de fazer uma ciosa que ninguém faz”. Não. Falsário em si é uma coisa horrível. “Eu aceito a vergonha de ser mãe do falsário, não me separo de você, mas, tome nota: você me conspurcou.” Era o fundo do negócio. Por aí a coisa é séria.
Bem. Isso era o modo de ela tratar. Sem falar — eu estou dando os momentos de tensão — mas, no convívio dela, eram raríssimos. O resto todo eram um intercâmbio de afeto contínuo, a todos os instantes, de todos os modos, de todas as formas, etc.. É preciso bem dizer também, hein? Com muitas provas de dedicação minha para com ela. Mas muitas. De todas as formas, de todos os jeitos. Isso ela via bem, não é?
Agora, acho que ela de um modo, onde a iniciativa é dela, a alma dela faz isto para os membros do Grupo. Quer dizer, tem assim, uma espécie de ação de veludo, mão de veludo, que pousa sobre eles e os convida a verem as coisas com calma, verem com bondade, com distensão. Ela faz sentir alguma coisa disso, no fundo de alma, ao menos daqueles que aproveitam bem essa presença, no cemitério e eu não explico de outra maneira, a freqüência tão grande.
Alguém poderia dizer: “Não. É para ser visto pelo senhor, lá.” O que não é verdade, porque eu só vou aos domingos, a uma hora marcada. Nem sei se essa hora é mais cheia do que outras horas. Mas, quando eu vou fora de hora — acontece poucas vezes —, eu sempre encontro gente, sempre encontro gente. Encontrar o cemitério sem ninguém presente, umas duas vezes ou três, nesses anos todos, no máximo.
E tem gente que está lá, quieta, quieta, assim… Mas eu percebo que ela está exercendo uma ação sobre a alma daquele. Tanto é, que eu apareço, eles saúdam, etc., eu não falo nada, nunca trato de nada com eles, para não interromper aquilo que é uma ação dela sobre eles. Não vou perguntar, nessa ocasião: “Você pôs em dia tal coisa?” Nada. Absolutamente nada. Quando eu vou lá, não trato de nada. Apenas cumprimento e ele começam com aqueles clássicos pedidos: “Dr. Plinio, pela campanha do Equador; Dr. Plinio para Uruguaiana, não sei o quê Dr. Plinio, para…” Enfim, aquelas questões. Chego no automóvel, rezo três Ave-Marias por tudo, está acabado.
Mas, eles voltam para a tranqüilidade e, a única coisa que eu faço é, quando está perto de seis horas, eu faço pressão para eles saírem logo. Porque eu tenho medo que algum se deixe prender lá dentro, entende? Daí dá história, etc..
O Mário Navarro, que pulou de um daqueles muros…
(Sr. –: Eu pulei também.)
Você pulou meu X?
(Sr. –: Sim senhor fecharam a porta, pluf.)
O ideal não é esse. É não deixar fechar a porta. De repente quebra uma perna, sai uma história qualquer.
(Sr. –: Não. Não, eu não digo que faça por hábito. Só aconteceu uma vez. Mas, não se pode ficar dentro do cemitério.)
É, aí me dá medo, não é? É só.
Não sei se a resposta responde ao que vocês queriam ouvir.
(Sr. –: Ainda enquanto cura, digamos, porque isso é o operar. Mas, ainda para curar esse lado mais profundo da falta complementar de espírito materno, de que o senhor tratava antes, se vê que ainda tem muita outra coisa para ela dar para nós. De muito mais intensidade, uma vez que ela quereria dar muito mais, nesse sentido. Vê-se que para dar a volta, dessa supressão, desse equilíbrio primeiro, do qual o senhor dizia, na reunião passada, a ação teria que se tornar muito mais intensa. Agora, essa intensa é nessa linha ou tem alguma coisa a mais? Como é isso?)
Quer dizer, eu notava muito nela, uma certa elevação de espírito, por onde ela sempre considerava as coisas, pelos mais altos aspectos. Sem ser nem um pouco uma filósofa, nem uma doutora, ela via a coisa pelos mais altos aspectos. Por exemplo, é… [inaudível] …Um modo de agradá-la, era agradar a mãe dela. O menor pequeno carinho a mãe dela, ela, por assim dizer, gostava mais do que um carinho feito a ela, por assim dizer.
Agora, a gente vê porquê. Não era por uma mera — há um afeto filial dela para com a mãe, muito natural, muito legítimo — mas é que ela media bem, na alma da mãe, aquela delicadeza, que efeito produzia, etc., etc,. e ela mitificava um tanto a mãe. Imaginava, portanto, que isso produzia tais efeitos muito bonitos e etc. e tara-tá-tá, que não era verdade. Donde também, eu me negar a fazer tanto quanto ela queria, de eu deixar a minha avó, absolutamente gatê e insuportável.
Bem, mas que, então, ela via, na mais alta expressão, o que haveria de bom se a mãe dela fosse como ela imaginava, o que haveria de bom, em fazer aquilo para a mãe dela e como princípio, estava claro para ela e a vida que o princípio tinha na alma dela, que não era uma vida algébrica apenas — entrava a lógica — mas, era um sentir o bonum, pulchrum, não apenas o verum do princípio, que alma dela aderia inteiramente aquilo; que ela achava que devia ser assim, que isto era ordenado, que isto era bonito, etc., não é?
Episódios da vida do pai dela, ou de outras coisas do gênero, ela, pelo modo de achar, de ela elogiar a coisa, ela ensinava a ver como a coisa era. Não sei se ela exerce esse efeito sobre vocês. Não tenho tido sinal disso. Mas, seria natural que fizesse isso.
Eu quero ver um pouquinho a hora, se vocês não levarem a mal. Ainda tem um pouco de tempo.
Mas, o que há?
(Sr. –: Qual é o efeito… [inaudível] …).
Por exemplo, um negócio que eu já contei a vocês. O pai dela, recém casado, enfim, casado há alguns anos, perguntar para a mulher:
— Você tem — quando estavam novos, em Pirassununga — sua dispensa está bem preenchidao?
Ele disse:
— Sim, está. Por que?
Ele disse:
— Porque eu só tenho uma moeda aqui no meu bolso. Não tenho mais nada.
Os dois estavam olhando pela janela — é o hábito do interior, não é? —, olhando pela janela, vem se aproximando um homem, pobre, que tira o chapéu e diz: “Eu sou tuberculoso e estou precisando de um dinheiro para comprar um remédio. O senhor não terá um dinheiro, a senhora não terá, para me dar? É tanto.” Era o valor da moeda. Ele tirou a moeda e jogou assim, no chapéu do homem. Mas, amavelmente. Disse: “Vá comprar o seu remédio”, etc., etc..
Minha avó, ficou, olhou aquilo e lembrou da dispensa: de repente o pessoal comia… ela já tinha vários filhos. Como é que era? E, ele disse: “Assim se confia na Providência.” Uma coisa desse gênero.
Quando chegou a noite, esteve na casa do pai dela.
[Vira a fita]
O senhor é… um homem quis entrar, o meu avô recebeu, ela não sabia quem era. Quando o meu avô saiu, atendeu o homem, ele disse: “Esteve aqui fulano, me trazendo uma causa muito boa, de umas terras dele e me deu tanto já de adiantado por conta dos honorários. De maneira que você pode estar sossegada e continuar as suas despesas domésticas à vontade, normalmente, porque nós estamos com bastante dinheiro.” E tocou a causa. Não sei que fim a causa teve.
Mas, o ensinamento que o meu avô dava, era isso: “Confiar na Providência, mesmo nas situações mais absurdas… [inaudível] …”
Contado por ela, você sentia a Providência; você sentia a situação transida, do pobre tuberculoso, que não tem dinheiro e que está reduzido a estar trotando pela rua para pedir uma esmola; a incerteza dele se afinal nessa ocasião encontraria; você sente o transe do meu avô: “Dou? Não dou?” Afinal o ato de confiança. Depois a lição que ele deu a esposa e depois aos filhos. Todos esses estados de alma, ela involuntariamente sabia. Ela vivia intensamente isso e você sentia.
Então não é uma coisa meramente algébrica: “Um pobre tem direito a vida. Um doente pobre tem direito a vida. Se você tem uma moeda, mas está com sua dispensa cheia, você deve esse ato de confiança a Providência, dando esse dinheiro para o pobre.”
Aliás, eu não sei se seria sob pena de pecado, hein? É louvável que faça, pelo menos isso é. E vai dar… [inaudível] …confiar na Providência… [inaudível] … A esposa que acata, sem muito heroísmo, ficou quieta. Não disse: “Totó é assim que… [inaudível] …”. Apenas não censurou o esposo. Depois a Providência aquela noite mesmo…Você compreende?
Esse episódio — eu não acredito que o meu avô pudesse ser canonizado — mas, se ele fosse canonizado, na vida de um santo, se contaria. Não tem dúvida.
Bem. Ela fazia a gente viver isso. Ela tinha uma capacidade de fazer viver, capacidade de narrar com vida, que era uma coisa única.
Eu me lembro quando nós éramos mais velhinhos — já não tem nada com oral. Bem. Tem alguma coisa. — ela contar os “Três Mosqueteiros”, depurados naturalmente, do Dumas. Era uma… aquela criançada toda, ficava elétrica, porque ela fazia viver cada uma das situações. Naturalmente o herói bem-amado dela não era o Dartagnan, era o Portos, não é? Nós torcemos pelo Dartagnan, mas o Portos, muito correto. Ela contar que o Portos… O Portos, não. Athos!
Ela contava que, enlevada, que o pessoal, não gostava muito de jogar com Athos. Porque quando o Athos perdia, de manhã cedinho, quando o credor estava dormindo, o empregado do Athos [o] estava acordando para pagar a dívida, porque o Athos era de um escrúpulo no pagamento das dívidas, uma coisa absoluta. Isso era dito para nós nos formarmos, a sobrinhada toda se formar. Mas, o pessoal ficava, “Ahm…”, assim de ouvir a narração, porque ela fazia viverem, não é?… [inaudível] …Narradora muito boa… [inaudível] …ela me diria: “Já é tarde.”
(Sr. –: Vamos rezar o “Magnificat”, Sr. Dr. Plinio?)
Eu vou rezar sentado, estou muito cansado.
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