Conversa de sábado à noite ─ 26/3/86 – p. 10 de 10

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Conversa de sábado à noite ─ 26/3/86

Para enfocar melhor a distinção do “lumen”, o Sr. Dr. Plinio começa por descrever como ele se apagou em duas igrejas que freqüentava * Após a viagem à Europa em 1913: “Eu vi essa luz se retirar, substituída pela treva que entrava; vi com indignação, mal-estar, com ódio, mas vi” * “A principal meta da História para meu espírito era manter esse contato com esse “lumen” que tinha deixado de existir em torno de mim” * O “lumen” da esperança do Reino de Maria e a certeza de sua superioridade em relação aos outros “lumens” * A repercussão na alma do Sr. Dr. Plinio da morte do Imperador da Áustria

(Sr. Guerreiro: O senhor numa conversa em Amparo, disse que o senhor via tudo envolto, digo, banhado numa luz, o senhor vivia envolto numa luz e via todas as coisas banhadas numa certa luz.)

É.

(Sr. Guerreiro: E a vida do senhor foi uma luta para conservar e defender essa luz.)

Foi. Que é propriamente o lumen da inocência.

Meu filho, uma coisinha, eu entendia isso que banhava toda minha alma. Quer dizer, eu não imaginava que eu fosse todo luminoso. Julgava que alguma coisa transparecia, até fisicamente, mas muito pouco, em comparação com o que havia interiormente.

(Sr. Guerreiro: Isso estava claro sim. Posto esse comentário que o senhor fez, a gente vê que isso é propriamente a medula da Contra-Revolução. Isto é propriamente a [sorgente?] de toda a Contra-Revolução. E propriamente a graça da Contra-Revolução se exprime assim, desse modo, nos seus primeiros momentos da consciência que o senhor tinha das coisas…)

Sim… E talvez seja a própria substância do espírito contra-revolucionário.

(Sr. Guerreiro: Agora, em Nossa Senhora, como é isso que a gente percebe que no senhor há um reflexo disso nEla. Não sei se o senhor quereria tratar desse assunto.)

* Um modo de ver a Igreja que comportava uma distinção da ação do Divino Espírito Santo da ação do homem

Eu preciso pensar. Por isso que eu estou, enquanto você fala, eu estou pensado. Não está gravando, está?… (…)

na leitura desse livro, eu tive análogos transportes com alegria por isso, etc., etc. Mas há depois também, a Igreja Católica, eu via e ainda vejo toda Ela cheia dessa graça, dessa luz como uma esponja cheia de água! Quer dizer, em qualquer ponto onde você aperta sai água. Também assim na Igreja Católica, qualquer ponto onde eu fixasse minha atenção sairia, eu notaria a presença de uma luz assim. Em tudo, tudo, tudo.

Não, naturalmente, em certas coisas que são evidentemente aberrantes d’Ela, por exemplo, já comentei aqui, que o Pe. Falconi mandou pintar uns quadros ali na capela mor, no presbitério, medonhos! Eu percebi naturalmente que aquilo era o espírito pessoal dele, não era o espírito da Igreja, e fazia abstração disso. Assim, de algumas outras coisas.

Mas o espírito da Igreja me parecia reluzir nas menores coisas da Igreja, de maneira que olhando eu via esse espírito, que em última análise é o Espírito Santo, surdir de lá, e a bem dizer, a respeito de todas as imagens, tão desiguais na sua apresentação material, no seu valor artístico, etc., etc., a desigualdade entre as imagens é quase do tamanho da desigualdade entre os homens. É colossal.

Eu sempre via o seguinte: o que é a parte do artista, e qual é a parte por onde o artista procurou refletir algo que é da Igreja. E esse algo de algum modo estava na imagem. E é esse algo que é da Igreja, somados os algos assim de todas as imagens de Nossa Senhora, por exemplo, ou de Nosso Senhor Jesus Cristo, eu tinha uma idéia do que é que era de fato algo do aspecto deles no Céu.

* O Sr. Dr. Plinio comenta uma imagem de Nossa Senhora que há em Jasna Gora a fim esclarecer sobre o “lumen” que vê em todas as coisas

Vamos dizer, aquela imagem que está lá no Êremo de Jasna Gora, que está do lado de fora, perto da entrada, e que o Luizinho mandou restaurar, arranjar, etc., e onde os enjolras comungam lá em Jasna Gora e depois vão fazer ação de graças, quando a Capela está muito cheia, vão fazer ação de graças num genuflexório junto aquela imagem. E me alegra ver que eles rezam ali, etc.

Aquela imagem é uma imagem sulpiciana, é uma imagem, é artesanal, não é uma obra de arte. É uma obra industrial de caráter artesanal. Mas algo a imagem exprime do que é verdadeiramente Nossa Senhora. E que é um dos traços da imagem, da fisionomia verdadeira de Nossa Senhora, no Céu, ou quando ela estava na Terra. E assim cada imagem, que não seja muito exótica, muito extravagante, tem um certo reflexo disso.(…)

Isso tudo para falar desse lumen, desse sentir, que eu tenho certeza que eu descrevendo, quer quando eu descrevi de minha infância, quer quando eu estou descrevendo aqui das imagens ─ imagem do Coração de Jesus, etc., ─ vocês todos têm impressão que em certa medida tiveram também. Não sei dizer exatamente em que medida, mas também tiveram.

Eu tenho impressão dolorosa de que na Igreja Católica, depois do Concílio, e na chamada era post-conciliar, alguma coisa disso, sem deixar de existir na Igreja, se tornou muito mais diluído, menos definido, menos visível, menos palpável, mas está ali! Mas está ali! Está ali à espera de uma reintensificação, mas está.

* Para enfocar melhor a distinção do “lumen”, o Sr. Dr. Plinio começa por descrever como ele se apagou em duas igrejas que freqüentava

E, por exemplo, eu não sei se vocês têm ido, antigamente… antigamente iam, com certeza à Igreja do Coração de Maria, ali perto da Martim Francisco, uma distância tão pequena que certamente iam. E não tinha com a intensidade do Coração de Jesus, essa chama não tinha. Tinha alguma coisa. Bem, não sei se estiveram nos últimos anos lá…

(Sr. G. Larraín: Eu não estive não… Mas acho que ninguém nem entra.)

Nem entra. Eu entrei. Eu saí com o coração partido. Por que tem alguma coisa, e é tão menos, e misturado com coisas tão despiacevolli e tão desagradáveis, que eu preferi não voltar nunca mais.

(Sr. G. Larraín: O senhor foi há pouco tempo lá?)

Creio que há uns dois anos atrás, uns dois ou três anos, não me lembro bem.

(Sr. NF: É exatamente isso que a gente sente.)

Você voltou também, meu filho?

(Sr. NF: Em Santa Cecília.)

Em Santa Cecília é a mesma coisa. Uma porção de coisas. Por exemplo, eu gostava muito de ver em Santa Cecília uma espécie de banda assim que tem com os bispos antigos de São Paulo, vigários, etc., todos em atitudes assim meio declamatórias, e em pé, sobre uma espécie de rodelazinha, e embaixo escrito o nome, etc., etc. Era uma coisa do modo constantiniano de ver o padre. Então tinha Dom tal, Dom tal… os vigários que tinham passado por lá e que tinham sido promovidos para o episcopado. Depois os vigários que tinham continuando, mas tinham sido removidos para outros cargos. E assim uma série de coisas. Tudo isso continua. Os vitrais, que são uns vitrais alemães suponho eu, muito agradáveis de ver, muito inocentes, muito bonitos até. Alguma coisa ficou, mas…

(Sr. Paulo Henrique: Parece que ficou o esqueleto. A alma desertou.)

Desertou. No próprio batistério, eu suponho que tenha sido batizado ali, que o batistério esteve pronto quando eu fui batizado. Bem, antigamente me enlevava. Hoje… Eu não sei o que é. A Igreja do Coração de Jesus conserva muito mais do que essa.

* “Gratia Plena”! Em Nossa Senhora há a plenitude do “lumen” que se vê nas igrejas

Está bom, mas o que é esse lumen que há dentro da Igreja? Há uma espécie de reversibilidade entre Nossa Senhora e a Igreja. Uma é imagem da outra. E em Nossa Senhora eu tenho impressão que num grau muito mais intenso do que nas Igrejas materiais que nós visitamos, incomparavelmente mais intenso, Ela é toda cheia de luzes assim. Comunicava, portanto, impressões assim, mas num grau incalculavelmente maior, mais santo, e de outra espécie.

Porque é preciso não confundir obviamente a Igreja Católica com as igrejas. Eu não estou comparando aqui com a Igreja Católica, mas com as igrejas. Nossa Senhora, para a alma da Igreja Católica, Ela é a Mãe dAquele que é a Cabeça da Igreja. Cabeça do Corpo Místico, Nosso Senhor Jesus Cristo. Nem há o que dizer, todo mundo sabe.

Mas a partir dessa reflexão sobre a Igreja, pode-se fazer melhor uma idéia do que é a plenitude de graças que Nossa Senhora tinha: gratia plena. E uma plenitude que aumentou durante toda a vida. A plenitude não quer dizer que Ela tinha todas as graças possíveis, mas quer dizer, que Ela estava cheia de graça. Mas Ela como que foi aumentando para caber mais graças nEla.

Nós não podemos imaginar, por exemplo, o que foi o aumento de virtudes d’Ela com… da santidade d’Ela com Pentecostes. Como imaginar uma coisa dessas? É uma coisa que não tem palavras! Ela depois de Pentecostes deveria ter sido de um reluzimento e de uma coisa…

Então, fala-se dos apóstolos que foram para a praça pública e começaram a falar, e pareciam até como ébrios,etc., etc. Não se diz o que Ela fez. Ela provavelmente ficou dentro do Cenáculo. E como era o reluzimento? E que fiéis entraram ali para venerá-la? E como era o atendimento que Ela dava, como era isso?

Gratia plena, Ela estava cheia de outras qualidades! E quando ressuscitou?! Ela estava então com todas as graças que Deus destinara dar a Ela. A tal ponto que não aumentariam mais. Porque a pessoa morreu, não aumenta mais. Ressuscita, não cresce mais.

Mas então aí a palavra “plenitude” toma uma energia indescritível. Assim era Nossa Senhora. Era uma maravilha que se comunicava a todos… nem sei o que dizer.

* O esplendor da inocência nunca perdida é superior à beleza da inocência readquirida

Agora, toda alma inocente, que conserva a sua inocência ─ é uma coisa curiosa, não tenho certeza do que eu vou dizer, mas acho que a inocência pode ser em certo [modo] readiquirida. Mas que há uma alvura e um resplendor da inocência nunca perdida, que é uma coisa que não é como a inocência readiquirida. A inocência readiquirida é magnífica, é um esplendor da penitência. É uma coisa lindíssima o esplendor da penitência, pensem em São Pedro.

Bom, mas a inocência de Nossa Senhora, jamais perdida. Jamais maculada, jamais e jamais e jamais! E confirmada em graça desde o primeiro instante de seu ser, de maneira que Ela nem sequer cometeu nunca um pecado venial, nem uma falta a mais astronomicamente pequena Ela não cometeu. Isso seria uma coisa…

A alma que nunca pecou contra a inocência e que conserva isso, como é batizada ─ e entre a graça que Nossa Senhora teve e a graça do Batismo evidentemente há uma analogia muito grande ─ ela é um modelo pequeno do que seria inimaginavelmente Nossa Senhora.

Seria mais ou menos como uma estrela que tivesse senão o tamanho físico que parece ter aos nossos olhos uma estrelinha no céu, um brinquedinho luminoso, em comparação com cem milhões de sois que seria Nossa Senhora. Mas a analogia pega. E se se imaginasse… (…)

* Após a viagem à Europa em 1913: “Eu vi essa luz se retirar, substituída pela treva que entrava; vi com indignação, mal-estar, com ódio, mas vi”

(Sr. Guerreiro: Virtude contra-revolucionária que habita a alma do senhor, isso em Nossa Senhora seria o quê d’Ela?)

Como eu nunca me permiti de estar trabalhando esses temas, eu me apresento meio cru aqui. Mas não é que eu queria desviar. É que a marcha de meu espírito é habitualmente essa, diante de uma incógnita procurar uma situação análoga a mais fácil, e procurar a solução na situação análoga. Para ver se depois eu transponho para a situação mais alta e utilizo isso.

Hoje, por exemplo, a conferência da tarde sobre os judeus tinha muito disso. Mas tinha muito disso. Quer dizer, tomar um terreno mais baixo, mais fácil, mais acessível, e daí tirar algo que eu possa transportar para o terreno mais alto. É a marcha comum do meu espírito.

Então não é uma tirada de corpo como pode parecer à primeira vista, mas é um método de indagar, um método de investigar. Será um método talvez sem beleza porque não vou diretamente ao ponto. Mas é o que eu posso. Não consigo fazer de outra maneira.

O que se dava em mim é o seguinte. Eu me reporto à minha infância logo depois que cheguei da Europa, em treze. Eu devo ter chegado da Europa na primeira parte de quatorze, ou em treze. Do que eu estou inteiramente certo é de que foi em um desses dois anos. Porque a Guerra Mundial não tinha arrebentado. Esse é o ponto…

Bem, e as figuras, imagens, etc., que eu tinha tido na Europa tinha evidentemente ficado no meu espírito alguma coisa. Mas menos do que pode parecer à primeira vista. A São Paulinho tinha ainda restos de tradição e restos de inocência impressionantes. Que me levavam a ver as coisas numa espécie de luz meio metafísica, meio sobrenatural, mas que de algum modo estavam no ambiente. Não só na minha alma mas no ambiente. E levavam as pessoas a de algum modo ver alguma coisa disso no ambiente. E se você examina gravuras, fotografias, etc., de antes da primeira Guerra Mundial; depois de terminada a guerra, da paz, você encontra uma quebra e uma fuga dessa luz difusa em tudo, que é uma coisa impressionante.(…)

Eu vi essa luz que banhava o ambiente como que se retirar, substituída pela treva que entrava. Vi com indignação, mal-estar, com ódio, com o que possam querer, mas vi.

Eu percebi que esse mundo sem essas coisas que estava entrando, existia irremediavelmente nas coisas novas que eram criadas. Então o cinema, por exemplo, não podia ter isso. Outra coisa que não podia ter isso era o trem. O trem que é um modo de transporte tão anacrônico para hoje em dia, naquele tempo parecia dilacerar o campo, dilacerar solidões, rasgá-las… e aquele corre-corre do trem, aquela fumaça, e aquela pressa, eles enxotaram anjos de cima dos campos, uma coisa impressionante. Donde eu era um inimigo pessoal de toda locomotiva e todo wagon que eu encontrasse.

(Sr. NF: Do automóvel!)

Automóvel! Eu era inimigo do automóvel. Eu tinha horror ao automóvel. Eu andava no automóvel. Mas o fato de eu não saber guiar automóvel, você compreende que eu em mocinho era fácil eu aprender a guiar automóvel. Eu não quis de raiva do automóvel, não queria ter essa conaturalidade com aquela porcaria que eu detestava.

Bem, mas afinal, caminhando, como eu naquele primeiro tempo, ainda o ambiente estava meio marcado por isso, a impressão que me ficou é que o ambiente fazia muito isso: pegava as coisas e as prendia a certos mitos que faziam parte da cultura e da civilização.

(Sr. NF: Perdão, não entendi.)

* A propósito de uma recepção que a embaixada alemã deu a um presidente, o Sr. Dr. Plinio trata sobre o mito da nobreza

Quer dizer o seguinte. Há por exemplo, aqui na “L’illustration”, se vocês me lembrarem durante a semana eu trago aqui para noite, uma recepção dada na Embaixada alemã para o Presidente Poincaré. Em que estão a baronesa… o embaixador era um barão de qualquer coisa. Porque antes da guerra, os principais lugares da diplomacia e da carreira militar, pertenciam à nobreza. Mesmo na França o número de nobres nessas duas carreiras era muito grande. E também o número de bispos da nobreza era muito grande.

E um general conde, um bispo conde, um general marquês… por exemplo, o famoso [Mc Mahon?]… O só dizer que o homem é marques, dá ao Chefe de Estado uma luminosidade que é uma luminosidade própria, que é difícil exprimir.

Então tem o barão, que devia ser um barãozinho de quinta classe, enquanto barão, porque o nome dele não podia ser mais ordinário: barão de Stein… judeu. Nem especifica que pedra é. Barão de qualquer pedra… barão de uma pedra qualquer. Nem é um rochedo. É uma pedra qualquer que você encontrou na rua, disso ele é barão.

Mas tinha o barão de Stein, a baronesa… ele era o embaixador. Depois tinha o Poincaré, tinha, se não me engano, o Clemenceau, e depois tinha o Liautey e outras grandes figuras, estavam nesse jantar.

Num roda, sentada a baronesa de Stein, a Mme. Poincaré, e duas ou três outras senhoras, conversando. E os homens em pé, formando uma roda, e evidentemente estavam em casa, em farda de gala, etc., etc., as senhoras que [egrettes?], com diademas, etc. Num lumen que não era apenas o esplendor do luxo. Não era o luxo nouveau riche, mas era o luxo mais algo, que era o mito da nobreza, mito medieval da nobreza, pairando sobre aquela gente.

Bem, mas muitas outras coisas eram assim. E isto eu hauria a pleníssimos pulmõesíssimos! E enchia muito minha alma. Portanto havia uma espécie de intercâmbio entre minha alma e o ambiente, aspectos do ambiente em que eu estava. E sobre os quais eu fixava com exclusividade a minha atenção. O que não fosse isso não me interessava.

* Como a noção de Cristandade e Civilização Cristã nasceu na alma do Senhor Doutor Plinio

E então vinha uma espécie de formação de como seria o mundo se todos os mitos que ainda restavam pelo ar fossem estendidos a tudo, e fossem tomados como eles deveriam ser tomados, como uma quintessência da verdade, e não como um erro. Daí a idéia, que eu não sabia formular, de uma civilização cristã e da Cristandade. A idéia de que isso tudo emanava da Igreja, senão tivesse havido a Igreja, ou cessasse de haver Igreja, isso morria na mesma hora!

Como por exemplo, os pássaros que estão voando, se uma máquina fabulosa fizesse substituir o ar pelo vácuo, esses pássaros cairiam na mesma hora. Assim também sem a Fé tudo isso cairia na mesma hora.

E isto que era, portanto, algo que banhava minha alma, mas banhava toda atmosfera, em minha alma tinha uma intensidade maior do que na atmosfera. De maneira que quando isto foi morrendo, a minha alma conservou tudo isso, não só por recordação, e pelo que se poderia chamar experiência vital, talvez se pudesse dizer que era alguma coisa da “mística ordinária”. Mas porque nela havia alguma coisa no me sentir eu a mim mesmo, havia alguma coisa que eu sentia que de mim, para meu conhecimento e uso, brotava uma [sorgente?] dessa.

* “A principal meta da História para meu espírito era manter esse contato com esse “lumen” que tinha deixado de existir em torno de mim”

(Sr. Paulo Henrique: Eu pergunto se na medida em que a Revolução ia destruindo esses ambientes, isso, tudo, essa luminosidade, deixaria de existir, ou refluiria para a alma do senhor. Deus faria o que dessa luminosidade? Não seria natural que Ele encaminhasse para alguém inocente, ávida de receber essa luminosidade?)

É outra bonita pergunta. Se eu recorro que me diz minha memória, que vocês sabem que não é boa ─ portanto eu não me fio bem no que eu estou dizendo, quer dizer, no que eu vou dizer agora não me fio. O que eu disse até há pouco é isso, eu me lembro assim ─ eu diria plutôt o seguinte. Que eu era uma muda das árvores abatidas na floresta. E a partir da qual toda a floresta podia renascer. Não as árvores que foram derrubadas. Mas do que dizer que eu seria uma espécie de receptáculo de uma coisa que iria para frente… era a mesma floresta que continuava.

É o que me parece mais provável, não tenho inteira certeza. É o que me parece mais provável. Quer dizer, nessa muda ficou algo de onde se podia fazer, em qualquer lugar, a mesma ─ não a mesma floresta que caiu ─ mas uma floresta do mesmo tipo de árvore.

Bom, agora, a questão é a seguinte. Á medida que eu fui sentindo isso desaparecer, como eu era muito criança e que eu precisava disso para continuar a ser eu mesmo, eu me agarrei mais do que nunca à Igreja. Porque a Igreja continuava, dentro disso que ia mudando, a Igreja até os anos trinta, trinta e cinco, continuava a mesma. Então era objeto de uma veneração minha a plenos pulmões, a pleno coração. Compreende-se bem.

Agora, desaparecendo do ambiente isto, foi… Não se pode dizer que tenha minguado em mim, graças a Deus, mas algo se transformou em couraça em repulsa e militança. De maneira que eu deixei de ser um menino sonhador, um pouco nas nuvens ─ eu creio que já mostrei a vocês um desenho que um colega fez, ou um parente, não sei bem, um desenho a lápis, de Rosée e eu quando tínhamos mais ou menos essa idade, comigo assim com a cabeça nas nuvens ─ para ser um combatente. Mas onde tudo isso continuava, graças a Nossa Senhora, vivo! Por que modo? Pelo refúgio na História! Porque na História eu hauria tudo isso, até com uma intensidade maior do que tinha no tempo que eu tinha alcançado com minha vida.

E a principal meta da História para meu espírito era manter esse contato com esse lumen que tinha deixado de existir em torno de mim, exceto na pessoa de Mamãe. E isso parece muito razoável.

* O “lumen” da esperança do Reino de Maria e a certeza de sua superioridade em relação aos outros “lumens”

Bem, agora, aí nasce um outo lumen que é o lumen da esperança do Reino de Maria. É então tudo isso apresentando-se menos nitidamente, mas com a idéia de que a partir do que foi e na continuidade do que foi, o será, vai ser muito maior.

Então aquelas palavras a maneira de um verso que eu escrevi “Quando ainda muito jovem”, etc., etc., exprimem isso. Eu voltei as costas para o futuro, e fiz do passado cheio de bênçãos o meu porvir.

(Sr. Guerreiro: Por que o senhor acha que seria maior?)

Porque não podia deixar de ser. O ultraje era tão grande que tinha que ser superado por uma desforra muito maior. E portanto a vitória de Nossa Senhora importa em fazer uma coisa muito maior do que fora feita. E eu tinha impressão que todo o meu padecimento, toda a minha dor, todo o meu sofrimento, que realmente é enorme, representava um pouco o papel da gota d’água no cálice do padre. Isso eu tinha impressão. Mas eu dou um exemplo que eu não posso escapar de dar. Embora… ainda estamos um pouco na hora. Eu vou passar um pouquinho da hora porque houve uma cerimônia no Auditório São Miguel, de conferição de capa a uns peruanos e a uns brasileiros novos. Tinha um sul-americano de outros países, mas o grosso era isso. Isso levou muito tempo, etc., e portanto me atrasei.

[Vira a fita]

* A repercussão na alma do Sr. Dr. Plinio da morte do Imperador da Áustria

Francisco II do Sacro Império, que passou para Francisco I da Áustria. Eu me lembro que eu vi uma fotografia de um quadro representando esse Francisco. Era um homem que tinha o físico de um gafanhoto. Magro… seco, magro, mas de uns ossos fracos, frágeis, ele todo era só osso… a gente tinha impressão que a pele que o revestia era uma pele que quase não vivia porque não tinha carne embaixo dela, era uma pelica esticada por cima de ossos envelhecidos. Bem, sentado no canto de um trono, vamos dizer que o trono tivesse a largura dessa poltrona, nós nos sentimos obrigados, por exemplo, todos que estamos aqui, a sentar um pouco no meio da cadeira.

Não vamos nos sentar aqui no canto e deixando um pedaço de cadeira vazia. Ficam pedaços vazios, a cadeira talvez exageradamente larga. Mas compreendem que não é ficar sentado num canto de modo ridículo.

Ele assim, vestido com um uniforme branco, e uma coroa grandona na cabeça, que a cabeça dele parecia não poder suportar. Um homem paupérrimo de cabeça.

O livro traz declarações dele que a imperatriz ouviu, ou alguém ouviu, e escreveu, logo depois dele morrer, em que ele dizia: “Eu vou passar para a História ─ nisso, coitado, ele se enganou ─ com a fama de um Imperador colossal. E entretanto é tudo errado. Eu sou um homem muito comum e modesto. Não tenho o estofo para o cargo que ocupo. Mas o que faz a minha fama é a fidelidade do Príncipe de Metternich, que faz coisas colossais, que um grande estadista faria, e todo mundo diz que sou eu”.

Ele se iludia achando que alguém olhando para ele podia achar que era ele… Mas a criatura humana é isso. A criatura humana é isso. Então ele dizia: “Mas o príncipe de Metternich fez isso…” Vem o elogio do Metternich…

Bem, bastava olhar para aquele homem para a gente compreender que ele era incapaz de compreender algumas das coisas que o Metternich fazia. Mas era muito nobre da parte dele suportar de ter um servidor tão grande. Era muito nobre. Porque normalmente o invejaria de morte e acabava derrubando o homem.

(Sr. Paulo Henrique: Esses políticos de hoje não querem ter nenhuma sombra.)

Nada, nada. A ver, se um Gorbachev qualquer quer ter um homem assim? Quem não percebe que apesar de tudo Mitterrand tem choques com o Chirac? É a natureza humana nós conhecemos como é, nem vale a pena perder tempo, analisando isso.

Agora, eu julgando o que eu julgo esse homem, quer dizer, eu lendo a notícia da morte dele e como se passou, etc., etc., eu percebia que morria um pobre gafanhoto, mas que ao mesmo tempo morria o Imperador da Áustia. E que na ordem dos mitos alguma coisa de enorme se passava quand-même. E que a História é assim! A História é assim. E eu muito atentamente recolhi todos esses mitos. Isso é o tal passado de que falava: as ruínas da Cristandade, etc., etc., etc.

E daí veio toda a estrutura doutrinária da Contra-Revolução: É a Igreja Católica vista assim, e portanto vista na sua autenticidade pré-conciliar, e o passado examinado assim também. E aí fica lindo. Por que o mito se manifesta!

Bem, mas então, tudo isso, a inocência tomava, selecionava, se nutria, etc., mantendo o tal lumen. Isso o fenômeno que eu notei… (…)

ter me esquivado de dizer tudo. Porque é impossível ter tido mais boa vontade em dizer tudo.

* O Sr. Dr. Plinio diz que não procura esquivar-se da pergunta quando o tema diz respeito a si; ao contrário do que pensam certos filhos

(Sr. G. Larraín: Não, a boa vontade é sempre grande. Nós é que talvez não tenhamos dito tudo o que quereríamos na pergunta que fizemos.)

Bom, então façam no próximo sábado.

(Sr. G. Larraín: Porque a nós nos parecia o caminho traçado em Amparo, muito importante.)

Com todo gosto… É que eu vi hoje o João Clá e o Fernando Antunez… me fizeram umas perguntas assim durante o jantar, eram perguntas de uma outra natureza mas eram perguntas sobre mim. E em certo momento eu disse uma coisa, eu vi que eles brincaram um pouco mais, eu não entendi o que era. O Mário Navarro estava presente. E agora aqui, à noite, quando se despediram de mim, eles disseram que era muito bonito, etc., mas que afinal eu tinha procurado esquivar-me do assunto chamando tal coisa a baila e tal outra.. Eu vejo que eles têm na cabeça que eu procuro esquivar-me desses assuntos…

De maneira que não seria de espantar que outros tivessem a mesma idéia… Sobretudo se eu tiver algum filho muito desconfiado… não sei se tenho. Mas não há, de minha parte há todo o desejo sincero de responder a pergunta.

(Sr. Guerreiro: Uma pergunta rápida, o senhor quando disse em Amparo que via-se banhado naquela luz, etc., o senhor via mais o mundo externo banhado nessa luz ou a mais a alma do senhor?)

Mais imediatamente era a minha própria alma. Mas ela entrava numa espécie de consórcio imediato com o que ainda havia de luminoso naquele tempo. E se nutria disso.

(Sr. G. Larraín: Aí fica a ponta de trilho!)

Meus caros! Não me levem à mal, mas eu preciso ir andando! Vamos rezar a Oração da Restauração. “ Há momentos minha mãe…”

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