Conversa
Sábado à Noite – 19/3/1988 – p.
Conversa Sábado à Noite — 19/3/1988 — sábado
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Conversa da Noite
Bem, mas o que é que temos, entramos, fazemos?
(Sr. Guerreiro Dantes: Seriedade grandiosa do Brasil que o senhor queria conservar. O senhor não descreveu muito o encanto que essa seriedade produzia no senhor. Então se o senhor pudesse comentar um pouco como essa seriedade se apresentava na alma do senhor, descrevê-la um pouco.)
Eu conheci — eu vou começar pelo lado negativo — eu conheci em viagens que andei fazendo por aí, em pequeno levado pelas necessidades de saúde de minha mãe; e depois em moço levado por necessidade de apostolado — eu conheci daqui, de lá e de acolá uns casarões em que sobrava espaço e os móveis eram poucos, ordinários, e tudo mal cuidado. E desses casarões às vezes uma porta batia mal, na hora de fechar o trinco rangia… a gente ia dormir, tinha vários quartos de dormir que não estavam habitados. Em algum a folha de pau (porque não tinha veneziana, a folha de pau batia durante a noite porque não tinha trinco para segurar. Assim, essas desolações…
Pé direito muito alto, e pendendo do pé direito uma lâmpada toda suja de mosquito, na ponta uma lampazinha ampola elétrica, tão ordinária, tão barata que era quase vermelha… e uma meia dúzia de caipiras morando dentro… meia dúzia é o modo de dizer: três ou quatro. O pai e a mãe já velhuscos, uma filha que não conseguiu casar; um filho que a mulher abandonou e que estava chumbado numa melancolia irremediável!
Armários cheios de louça que ninguém usava, porque a família fora muito mais numerosa, e se dispersara. E eles bebiam não em xícaras mas em tigelas se alça e desbeiçadas… A dona de casa usando chinelo…
Então a casa alta e grande ficava com uma melancolia, com uma tristeza… uma coisa pavorosa! Eu preferia mil vezes uma casinha pequena bem cuidada do que a melancolia desses casarões. E não sei por que me vinha à cabeça a idéia de que me perseguiria um certo… uma certa ação do demônio por onde o demônio gostaria que eu ficasse seis meses doente numa casa desses, com pouco dinheiro, para tratar-me, consultando com um médico escalavrado da cidadinha, e médico dando remédios que não curavam, coisas que produziam doenças colaterais, e eu sem ver como é que isso saia. E do lado de fora o botequim em que eu ouvia tocarem a viola e cantarem canções de caipira. Isso compunha um quadro. Tanto é que compunha o quadro que é possível que, com exceção do Gonçalo, mais ou menos todos vocês tenham visto coisa parecida com isso.
Então há certos casos em que o fisicamente grande dá uma idéia de desproporção de casarão abandonado, de tristeza e quase que só falta aparecer um fantasma.
Bem, mas há outras ocasiões em que o fisicamente grande dá impressão de contrário: de um convite para a grandeza, um convite para a ascensão, um convite para realizar, para acertar, para merecer e ornar as coisas, para a glória de Deus evidentemente e de Nossa Senhora. Eu conheci inclusive Igrejas assim. Igrejas no interior, enormes, com esses vidros transparentes coloridos, os mais ordinários possíveis e de cores berrantes: uns vermelhos vermelhíssemos; uns azuis azulíssimos, uns amarelos espanta-gato! Uns verdes escuros de floresta virgem, assim uma coisas desses, formando desenhos pesadões e sem graça. Dentro, uns santos saindo umas lágrimas de madeira dos olhos, umas coisas pouco apetecíveis, etc.,etc.
E um vigário com um raminho de alecrim aqui para curar doença atrás da orelha e umas coisas assim. Não sei se chegaram a conhecer isso?
(Sr. –: Muito, muito.)
E percorrendo…
(…)
…sobre quem nessa idade a influencia da Fräulein já se fazia sentir, passava a idéia de matar aquelas seriemas todas a revolver! Mas, comunicada a idéia ao J.P. foi uma desaprovação finíssima… hahaha!
(Sr. Gonzalo Larrain: Mas o senhor propôs mesmo?)
Não que ele fizesse, mas: “Papai não era o caso? O que é esse bicho aí Papai?” Ele, com toda naturalidade do mundo e meio distraído: “São [seriemas?]”. — Do que é que serve essas seriemas? Ele quase me perguntou por que precisava servir para alguma coisa? Ficou a dois passos dessa pergunta.
— Mas isso podia se exterminar…
— Para que?! Eu senti que de repente me exterminava a mim em vez da seriema, hahaha! Não insisti.
Bem, mas de repente no meio de coisas dessas se encontrava, encontrava uma magnificência qualquer. Então, por exemplo, no Araxá, cuja desolação eu já descrevi varias vezes, eu acho que vocês já me viram descrever a desolação do Araxá, uma coisa… Você conhecer Araxá, meu filho.
(Sr. Paulo Henrique Chaves: De passagem apenas.)
Deve estar inteiramente diferente do meu tempo de menino. No meu tempo de menino era uma coisa de arrepiar. O fato é que o hotel em que eu me hospedava, que era o melhor da cidade, era tipo caçarão. Num quarto perto tinha um casal de muito tratamento, creio que era o Visconde e Viscondessa Cunha Bueno, creio. Era em toda caso da família Cunha Buneo, que é uma família muito rica e de muito tratamento. Mais adiante tinha um…
(…0
…Às vezes certas solidões nas capoeiras próximas da cidade, solidões bonitas. Mas na cidade, gente com bócio… porque havia um besouro chamado barbeiro, que te morde e dá aquele bócio. Esse bócio deixa as pessoas ficarem loucas. Então passava gente contando, mulheres loucas com bócio… As pessoas olhavam assim. E a cadeia isolada no meio de uma praça, com os homens com os pés postos par fora das grades, e chamando os conhecidos: “Fulano vem cá, quero falar com você!” — Não, eu volto depois! (Ás vezes nunca voltava, aquele estava trancado lá…).
E a fräulein Mathilde ofereceu, eu contei isso a vocês, ia oferecer cigarros, etc., para esses presos. Mas ela fazia uma alemoada — me desculpe, meu Guerreiro — ela fazia uma alemoada que você não pode calcular. Para aqueles presos, logo de uma vez mineiros, ela dizia para um velho que estava lá no fundo — me lembro desse velho com barbas alvas, em pé olhando, porque tudo vinha para junto das grades… tudo isso essas desordem no meio dessas horrores, uma coisa… ela dizia para o velho no fundo: “Usted. (ela falava um português meio espanholado, porque ela serviu muito tempo em Montevidéo) Usted. Lá no fundo, eu lhe dou esse maço de cigarro, não quer ter?!
— Quero! (De longe.)
— Então me conte qual foi seu crime!
Se não fosse a grade, caiam em cima dela!
Ele: — Não fiz nenhum!
— Não acredito! O juiz não tinha mandado você aqui se não tivesse feito um crime!
Mas assim a mais teutonica, a mais quadrada que pode haver! Vocês sabem bem, o Paulo Henrique melhor do que ninguém, como é inadequado para a terra essa gênero de interrogatório! Em qualquer lugar do mundo é inadequado, mas lá?!
Outro: — Eu matei, mas porque o homem era ruim!
A fräulein: — Não devia matar! A lei proíbe! E se metia a dar conselhos para aqueles homens, mediante cigarro. Eu olhando aquela cena sem dizer nada está compreendendo? Mas quando aproximava de longe, Gonzalo, eu já via alguns os pés postos do lado de fora da grade, e as mãos também: “Huáhuáhuá!!” Uma sala só para uns vinte homens morarem. Não tinha janela, não tinha veneziana, não tinha nada. Era a grade e ar. Uma coisa…
As malacachetas, os pores-de-sol, as vastidões falavam de um Brasil. O bócio e todo o resto que eu estou contando falava de outro Brasil. E o terceiro Brasil era da São Paulo rica que ia tratar doenças de fígado e outras coisas lá, e que era inteiramente alienígena a tudo isso, e que era formado pela Fräulein. Porque aquelas famílias todas tinham fräuleins, madamoiselles, misses, señorinas, qualquer cosia para formar os filhos. Quer dizer, num clima completamente diferente.
Você pode imaginar o encontro de águas inadequado que havia com isso. Mas, donde no meu espírito a idéia seguinte: o que vem de Deus é o chamado para vencer essas abjeções e fazer uma coisa estupendíssima. Então, esta, pelas dimensões, não seria o casarão, porque aquilo era um casarão, não seria o casarão. Seria uma terra de esplendor que dêem coisas que eu nunca ouvi dizer que a Europa tem.
Bem, de quando um bonito cristal rolando pelo meio da poeira. Cristal tem em Minas toda. Bem, eu amorossíssimo de cristais, apanhava, lavava, guardava. Mas eu pensava: poeira é uma coisa, cristal é outra. E há um Brasil do cristal, um Brasil da malacacheta. Ás vezes no meio da capoeira, árvores floridas, lindíssimas, mas lindíssimas! Ipês, eu gosto muito de ipê, gosto de ipê enormíssimamente!
(Sr. Gonzalo Larrain: Isso foi antes da ida à Europa?)
Não, depois, depois. Oito, nove anos já. Já era tanudinho. Creio que já tinha feito minha primeira comunhão. Você pode imaginar… você já viu a fotografia minha vestido para a Primeira Comunhão. Você pode imaginar aquele menino posto naquilo, e fazendo estas seleções!
Uma vez nós passamos por uma cidade chamada Sacramento. Esse Sacramento é um nome lindo, Santíssimo Sacramento nome de uma cidade. Essa Sacramento, era 7 de setembro. E nós ficamos num hotel que era no andar térreo, e na esquina de umas ruas que tinha movimento na cidadinha. E tinha uns dois ou três bandas de musica que andavam tocando pela cidade para festejar a independência do país que é 7 de setembro. E tocavam, tocavam, tocavam… eu não conseguia dormir, Rose não conseguia, Fräulein não conseguia, numa barbaridade!
Em certo momento a Fräulein levantou, foi à janela e disse: “Uns ustedes. São uns vagabundos! (Sistema kaiser, não é?) Ustedes são uns vagabundos, porque não param de tocar? Não sabem que amanha tem que trabalhar? Amanha vai tudo chegar atrasado ao emprego, o serviço vai torto, errado, porque ficaram apitando nesses aparelhos fora da hora.”
Eles olhavam lá para a “muiér”, e pum-pumpum… não brigavam com ela, não diziam o mínimo desaforo, mas tocavam! Quando passava a banda, ela não se conformava, levantava da cama, ia para a janela e falava.
Eu acrescento que a fräulein era quase completamente calva, e usava uma cabeleira. E ia sem cabeleira para janela!… Era quase o contraste da Europa calva e velha com o Brasil nascente de dentro da poeira e enrolado na sua poeira natal e trazendo na mão os esplendores que deveria levar e ornar para a glória da Nossa Senhora.
(Sr. Gonzalo Larrain: O senhor comentou no MNF que quando o senhor foi à Europa o senhor já via a seriedade do Brasil maior que a seriedade de Paris.)
Isso sim. Não a grandeza ainda. As dimensões do Brasil eu vim a medir depois.
(Sr. Gonzalo Larrain: Mas a seriedade?)
Seriedade sim, é outra questão.
(Sr. Gonzalo Larrain: Porque o Sr. Guerreiro Dantes perguntou sobre a seriedade.)
Não, eu queria ligar a seriedade com a grandeza. Essa enormidade incute um gênero de seriedade que quando se corresponde é de algo de um tamanho que de si a Europa não tem.
(Sr. Guerreiro Dantes: Daí a metáfora do cazarão?)
Exatamente. Essa era a idéia que eu conduzia. Bem, isso foi muito confirmado pelas nossas praias, enormes, magníficas, lindas! Eu percebia, com a imagem, comparando com a imagem que eu tinha de Paris, eu percebia que as coisas não eram assim na Europa. Que eram magníficas, de outro lado. Mas o convite para um feito de alma que certo litoral brasileiro dá, essas coisas não dão.
E Paris toda festiva, toda dançante, toda cantante, toda “piaffent”, era magnífica. Mas não tinha a seriedade de São Paulinho. O brasileiro brincava muito menos, saltitava muito menos, tinha muito menos charme, mas isso com bondade, e tinha uma forma de seriedade que o francês não tem. Muito menos brincalhão, muito menos…
(Sr. Gonzalo Larrain: Isso era o que o senhor sentia em si, ou senhor notava em outros também. Porque o senhor disse no MNF que o senhor ficou impressionado com a seriedade de Paris, com o pensamento que o senhor encontrou lá.)
Com o pensamento sim, muito mais. Mas diferente do estado calmo, sério, da São Paulinho, que não tinha tanto pensamento explicito, mas que tinha mais gravidade, vamos dizer assim, do que… tomando aqui seriedade por gravidade. A gravidade a São Paulinho tinha mais.
(Sr. Gonzalo Larrain: E donde vinha isso, Senhora Dona Lucilia ?)
Eu tenho dificuldade em dizer, porque por exemplo, o nordestino não tem essa seriedade, não tem essa gravidade.
(…)
…Horacio Black me mostrou fotografia bem do século XIX, mas vamos dizer assim 1880, 90, uma coisa assim, portanto fim do Império e começo da República, uma fotografia de minha mãe — estava em casa do Adolfo Lindenberg, que herdeu da mãe dele. Adolfo emprestou a ele — minha mãe, dois irmãos dela e a mãe do Adolfo. Bem, você não sei se nota que nenhuma daquelas quatro crianças sorri. A mãe dele está tão pequenininha ainda, tão criancinha que não se pode dizer nada. Mas pega Mamãe… Tio Gabriel era um pouquinho mais velhos, tinha uns cinco, seis anos. O outro irmão é mais moço que Mamãe… Mas todas muito sérios. Aquela seriedade… Não sei se notam que estão todas bem vestidinhos, estão muito bem vestidinhos, muito bem arrumadinhos, e muito senhores de si.
(Sr. Gonzalo Larrain: Muita categoria.)
Mas é uma categoria na qual o riso desmerece. E aquilo me parecia fazer falta em Paris, onde havia tanto pensamento. Eu não sabia explicitar mas sentia isso.
(Sr. Gonzalo Larrain: Ele mostrou só essa foto ou mostro das primas também?)
Só mostrou esta. As primas já são da geração seguinte.
(…)
…brincavam muito, como meus primos brincavam. Na hora da fotografia precisa seriedade, porque a apresentação da pessoa é séria.
(Sr. Gonzalo Larrain: Mas isso se poderia admitir em outro lugar que não fosse São Paulo, nesse tempo?)
Não havia.
(Sr. Gonzalo Larrain: O fundo disso o senhor não sabe qual é então?)
Não sei. Mas eram em todas as famílias que não a minha, também eram famílias boas — não era na família Prado, outra concepção…
(Sr. João Clá: Não seria um resto de devoção ao Sagrado Coração de Jesus?)
Não, porque a devoção veio depois. Quer dizer, concomitantemente, não formou isso.
(Sr. Gonzalo Larrain: A pergunta seria para pegar mais os fundamentos da seriedade do senhor. É claro que sabemos que o senhor é sério porque Nosso Senhor Jesus Cristo é sério… Até lá morreu Neves, digamos…)
Bom, mas isso confirmou uma seriedade que a tradição já tinha formada em mim.
(Sr. Gonzalo Larrain: O senhor dizia que essa gravidade não existia na Europa. Curioso que existia aqui.)
Eu tenho impressão, Gonzalo, que resultado em parte da vida muito sem entretenimento aqui. Essa vida muito sem entretenimento, em geral com as mulheres muito trancadas em casa, nos sistema português. Então levavam uma vida muito sem ter o que fazer, sem diversões. E sem propriamente salões de conversações. Tinha salões para receber visitas, as senhoras se visitavam. Os homens só faziam visita quando iam com as senhoras. Senão, eles se encontravam no escritório para tratar de negócios. Mas era muito raro um homem visitar outro homem quando eram, quando não eram parentes chegadíssimos!
(Sr. Gonzalo Larrain: Porque não era triste, era grave. Porque esse não ter nada que fazer podia dar tristeza ou melancolia… Naquela fotografia não estão tristes.)
Mas crianças tem o que fazer… porque tem jardim, os jardins enormes, porque o terreno era muito barato, de maneira que os jardins eram colossais, ainda tinha quintais, e tinha a fazenda, tudo o mais. As crianças tinham muito onde de divertir. Depois se divertiam. Mas a idéia é que chegando a hora da fotografia, era preciso, era a hora oficial, em que o próprio do oficial era ser sério, a atitude oficial era ser sério.
(Sr. Guerreiro Dantes: Esse traço de seriedade a gente vê que é muito próprio ao Profetismo.)
Seriedade gosto muito.
(…)
…colocado numa clave particular. Como definir essa clave? Eu não sei dizer também.
(Sr. Guerreiro Dantes: Como o senhor acha que é essa clave?)
Essa clave se define assim. mesmo o sujeito muito pobre, e portanto não tem propriamente o senhorio, porque o senhorio supõe alguém que a gente governe, oriente, etc., esse é o senhorio. Mesmo o sujeito muito pobre, quando se apresenta em qualquer lugar, ele deve apresentar-se de um modo a que a sua figura surgira respeito. Por exemplo…
(…)
(Sr. Paulo Henrique Chaves: Eles têm um certo “physique du rôle”, que os dos outros Estados não têm.)
Mas que não é a pose de querer bancar um homem importante, nem um nobre, não tem nada disso.
(Sr. –: É o natural deles.)
Um homem deve ser assim.
Você vê que coincide bem com o que eu estou dizendo de certo modo de ser. agora, qual é a origem histórica disso, eu não sei. Nas histórias da São Paulo colonial que já não é minha, a minha é um bom [posteridade?] não alcancei nem sequer império. Mas nessas histórias, assim lances, por exemplo, guerra dos Pires com os Camargos, que lembram guerras municipais do tempo dos romanos, do tempo dos gregos, do tempo da Idade Media, da Itália, naquelas cidades… Montagüi com Capuletto em Parma, essa coisa assim. Pelo domínio até no crime… Quer dizer, até esses bandidos profissionais, no praticar o crime, punha um certo senhorio — não é senhorio não, é uma dignidade por ser homem. A história da ONU da dignidade humana, direitos humanos, mas vivido de um modo não revolucionário.
(Sr. –: Paulo Henrique Chaves: Há uma gravidade que realmente marca o estado de São Paulo, que a gente observa inclusive viajando de ônibus de outros estados para cá, em fulanas que vêm mal vestidas, quando entram em São Paulo se compõem melhor, etc.)
É assim. Então eu volto a dizer: Não é questão de classe, não é questão de raça, não é questão de nada, mas é um estado de espírito que realmente existe.
(Sr. Guerreiro Dantes: E que o fundo do estado do espírito do senhor habitualmente é assim.)
Não, e faz questão de ser, porque eu acho que integra — eu sei que é uma coisa natural — mas integra a minha personalidade de católico. Eu tenho a noção de estar mais consonante com o Sagrado Coração de Jesus assim.
Veja o seguinte, que isso infelizmente não traz a conclusão de maior moralidade hem? Mas quand même, isso existe! Você veja dois prédios aqui de São Paulo muito típicos da São Paulinho, um deles é palácio Campos Elíseos. Indiscutivelmente tem seriedade. Não se pode negar isso, é serio o Plinio Campos Elíseos. Bem, aquele prédiozinho em frente é sério. Bem, vocês tomam…
(Sr. Guerreiro Dantes: O Club São Paulo é sério também.)
Também. É em estilo francês, mas tem uma nota de gravidade que esse estilo francês não tem. O museu do Ipiranga… Agora, no que consiste… Mais ou menos eu vejo… você veja, por exemplo, o quadro de Vovô, essa senhora aqui é um monumento de seriedade, não é?
(Sr. –: a Senhora Dona Lucilia .)
Ela, muito, muito, muito! Com tudo doçura do mundo tem esse fundo de seriedade. Você veja ali, uma senhora de uma categoria incomparavelmente superior, além do mais alemã, casada na França, é a duquesa da Nemur, mãe do Conde d’Eu. Querendo podem acender a luz para ver bem, esta é uma Princesa, a gente vê logo que é uma Princesa. Mas esta gravidade paulista ela não tem. Não sei se notam, ela não está sorriso, não é?
(Coronel Poli: Comparando, ressalta enormemente.)
Bem, essa aqui é uma caipira perto da outra… São mais ou menos da mesmo época. É uma caipira… mas não tem… eu gosto de dizer a verdade inteira, perto da outra é uma caipira. Mas tem uma gravidade que aquela não tem. Aquela lá é uma Grande-Dame, uma Princesa, é uma Princesa, ninguém pode negar isso. É porcelana… depois vê que teve super educação… Enfim, a gente vê tudo ali. Aliás, é uma gravura tirada de um quadro esplendido do Winterhalder, que era um pintor do arco da velha, o melhor pintor, talvez, portraitista da Europa do tempo dele. Pintou quase todos os reis da Europa, etc., pintou essa princesa. Está bom, mas tudo isso não se discute. Esse gravidade não tem.
Passou completamente, não é?
(Sr. Gonzalo Larrain: Mas fica no senhor. E para ser analisada, [aurida?]…
É, eu acho que isso é aurível hem? Isso é aurível.
(…)
…africanos não é o homem que está na África, é o homem que tem certas condições que tem certas condições que caracterizam o africano. O Etíope é africano. O Egípcio do Egito antigo não é um africano, é uma coisa diferente. Os egípcios eu ponho entre os asiáticos.
(Sr. Guerreiro Dantes: O senhor estava dizendo que essa gravidade os homens antigos tinham…)
Tinham em condições maiores do que os homens atuais. Os que vieram depois deles. Houve uma diminuição. Carlos Magno é uma espécie de revivescência de um certo elevadíssimo tom de gravidade. Você pega por exemplo, aqueles imperadores persas, Xerxes, Dario, Ciro, compara com o Rei Olavo da Noruega… o que é? Olha que esses Xerxes, Dario, Ciro, bandidos diretamente, mas o que era? Quer dizer, você pega os imperadores chineses — eu falo dos imperadores porque é o que eu conheço, o “vulgo pecus” não cheguei a conhecer — mas você pega um japonês, tipo algum japonês que tem aqui, à maneira nipônico, tem uma gravidade que o comum dos homens no Ocidente não tem.
Quer dizer, essa gravidade assim é uma coisa muito preciosa. Outro problema e saber como ela veio se instalar em São Paulo. Mas é uma coisa que tem uma certa grandeza própria, meio patriarcal, meio misteriosa, e veio se dessorando… com o tempo. Você concorda com essa apreciação ou não?
(Sr. –: Sim, claro.)
(Coronel Poli: Veio se dessorando por causa da Revolução?)
Não, já antes da Revolução. Já antes da Revolução.
(Coronel Poli: Depois de Nosso Senhor e antes da Revolução.)
Nosso Senhor foi a síntese perfeita.
(Coronel Poli: Os homens depois de Nosso Senhor, os católicos de antes da Revolução?)
Não tinham estofo para isso, porque isso supõe certo estofo. Mas estofo não é estofo aristocrático, eu volto a dizer. É o estofo de alma, é a natureza, mas é uma resistência, uma certa forma de leistung… que é coisa própria.
(Coronel Poli: Eu estava vendo outro dia com Sr. Paulo Henrique, no “Larrousse”, uma figura do Ciprião, aquela romana do [“delenga Catargo”?]Não há homem mais grave do que aquele…)
Eu acho que nesse Malet ilustrado que eu tenho, que figura a figura de um busto de César. Você não imagina o estofo, a personalidade! Mas a compostura, que você sente no timbre de voz de Cícero nas Cantilinárias. Quando você fala de Senado Romano, aparece algo dessa gravidade.
Mas há uma pergunta mais comum, mais destituída de grandeza, mais formulável em termos insignificantes do que a da Cantilinária: “Até quando Cícero abusarás da nossa paciência?” Você leu as Cartilinárias, meu filho?
(Sr. –: Não.)
Olha aqui, há Catilinárias traduzidas aí para português e vale a pena vocês comprarem, elas se vendem muito baratas… vendem avulsos, a primeira, a segunda, a terceira Catilinária. Valia a pena vocês comprarem.
Olha, essa gravidade na literatura francesa você encontra em Bossuet! Não sei como é que deu no Bossuet, mas essa o Bossuet a tinha por inteiro. Mas ele tinha por inteiro. Você pega aquele “discours sur l´Histoire universelle à l’usage du Dauphin”, aquilo é uma coisa de uma gravidade extraordinária…
… [Vira a fita] …
…não só ela, mas do que ela faz parte…
(…0
…apareceu em alguns espíritos eminentes; caracterizou algumas civilizações como a romano, que salientava uma certa majestade do simples fato de ser homem. E…mas o simples fato de ser homem.
(Sr. João Clá: Nas ruínas romanas se sente isso.)
Nas ruínas romanas, não é isso? Estou me lembrando do fórum onde eu fui assistir um concerto, é uma coisa… a gravidade daquilo! A Itália teve muito dessa gravidade, e apostatou dela… Venema tem gravidade!
(Sr. Guerreiro Dantes: Aristóteles todo dia rezava ao deus desconhecido, agradecendo três coisas: pelo fato de ter nascido homem e não besta; varão e não mulher, grego e não bárbaro!)
Hahahaha! Bonito! Mas vocês precisavam ler em Cícero, para ver em Cícero, que era um grande homem mas muito menor que o Aristóteles, muito menor que Aristóteles, para ver o timbre de majestade que toma em Cícero um simples, uma simples acusação de delegado de Policia. O Catilina andava tramando, política, uma conspiração, e o Cícero então se voltou contra, e faz então umas… “Nas trevas da noite você foi visto oculto em tal lugar. Tu não te envergonhas Catilina de esconderes não trevas onde estão os bandidos?!” Tem coisas assim, mas tem um vôo que é a tal gravidade!
(Sr. Guerreiro Dantes: Agora, a gente lendo o EDAC, O Legionário, os escritos do senhor, a gente percebe a gravidade de aquilo tem! Uma gravidade que nós devíamos ter, e admirar no senhor, mas que por defeitos nossos ao senhor foi obrigado a recolher um pouco essa gravidade.)
É, foi!
(Sr. Guerreiro Dantes: Mas o senhor vive dentro dessa gravidade.)
Ah, sim. Vamos dizer que eu fabrico em torno de mim uma atmosfera de gravidade em que eu possa respirar. Mas brincadeira, por exemplo, você não me vê fazer. Eu posso fazer um pequeno gracejo na intimidade, uma vez ou outro. Brincadeira, não. É muito pouco, uma coisa muito pálida, e é por condescendia. Brincadeira não faço. Não tenho vontade de fazer. E nisso há um choque!…
(…)
…lêem com facilidade Bossuet, vale a pena lerem os sermões de Bossuet. Eu tenho muito má memória, li vários sermões, mas o mais conhecido de todos, é a Oração fúnebre de uma Princesa Inglesa, que é cunhada de Luis XIV, casada com um irmão de Luis XIV, era muito bonita, muito jovem, etc., e morreu parece que envenenada. O Saint Simon tem toda a história dessa assunto. Ele começa assim, para indicar que ela morreu depressa, ele começa… Ela era chamada “Madame”: Madame est morte, Madame est mort!” Mas isso dito por ele tem um despliegue estupendo, etc. Ele não era o orador sacro preferido do tempo dele. Era preferido, muito bom orador, muito, muito bom, Massion. O Massion essa grandeza dele não tem.
Agora, o que é essa gravidade? Como é que ela se propaga quando ela aparece em píncaros tão diferentes? Por exemplo, o espírito meditativo chinês, não é propriamente essa gravidade, tem gravidade, mas não é essa gravidade. No chinês você encontra o senso artístico muito raffiné, uma série de coisas que você tem. Mas essa gravidade existia no Lúcio, mas era fruto da influencia católica e do ambiente do êremo. O ambiente do Êremo São Bento é cheio dessa gravidade. O nosso Hábito está cheio dessa gravidade.
(Sr. –: Está muito bom, isso.)
E para o próprio encaminhamento das minhas idéias essa conversa está sendo muito útil, porque focaliza uma coisa que eu nunca focalizei tão diretamente quanto estou focalizando agora.
(Sr. Gonzalo Larrain: Filipão, Duque de Alba…)
É gravidade. Levada quase ao excesso se não fosse espanhol. Mas esse excesso saudável faz parte da grandeza do gênio espanhol. Não é exagero didático, é outra coisa.
(Sr. Gonzalo Larrain: Gravidade italiana, quando houve…)
Veneza! Há uma praça em Siena, que é uma praça cheia de gravidade.
(Sr. Gonzalo Larrain: Isso corresponde a distintas claves, ou são diferentes aspectos de uma mesma clave?)
São matizes de uma mesma… Mas acho que a gravidade é mais um dom espanhol do que de qualquer outra nação. A nação grave por excelência, a meu ver foi a Espanha. Eu digo foi, porque a Espanha desse Gonçalves que está aí, a Espanha da DC é a anti-Espanha, é a contra-Espanha. Então, é uma gravidade o que? Tem ornato? Tem. Mas qual é o ornato? É o ornato que explora ao mesmo tempo o lambido e pouco ornado, quase até o escândalo também. As fachadas com uma parte central ornada ao inimaginável e com alas laterais lambidas, quando se trata-se de um convento, constitui uma grandeza gravíssima. E que é propriamente a cambria espanhola!
Você toma aquela descrição do Antero de Figueiredo do mendigo espanhol, aquilo tem gravidade. Gravidade eminente…
(Sr. Guerreiro Dantes: Os castelos espanhóis.)
Gravidade eminente!
(Sr. Guerreiro Dantes: Dir-se-ia que é o traço mais eminente deles é esse.)
É esse. Não, e depois, com está no temperamento espanhol, procurando o auge, e um auge tão radicalmente auge, que na primeira vista dá impressão do excesso, mas é uma espécie de mata-burros dos medíocres, porque o medíocre recusa: “Não!” Quem é medíocre atravessa o mata-burro e diz: Não, aquilo está excelente!
A nação grave por excelência… por exemplo, aquelas procissões de Sevilha, aquilo é gravidade.
(Sr. Gonzalo Larrain: Se em outra reunião o senhor pudesse explicitar mais a clave da gravidade paulista…)
Por exemplo, não é a espanhola.
(Sr. Gonzalo Larrain: Pois é. Para a gente pegar o que o senhor sente em si como fonte dessa gravidade.)
Você ponha a pergunta que eu tento resolver. Vai ser uma coisa como foi hoje à noite, para mim, não é difícil, mas é um pouco laboriosa. A gente tem que perguntar, etc.,etc., porque realmente não… Mas é de muita utilidade. Muita utilidade.
(Sr. Guerreiro Dantes: Se a TFP fosse toda revestida desse manto de gravidade, a coisa adquiriria outro porte.)
Mas ele em campanha, por não sei que reluzimentos da graça, ela tem algo disso. e a Fanfarra ainda altissonou mais isso.
(Sr. Guerreiro Dantes: Aquela jaqueta é que…)
É, é claro, é uma concessão que nos foi imposta por brutalidade. Não tem dúvida, é coisa lamentável.
Bem, mas o que eu queria dizer é o seguinte, que o que se percebe de TFP nas campanhas, entra na linha dessa gravidade. Não é?
(Sr. –: É inegável que sim.)
Bem, meus caros, foi uma noite proveitosíssima! Não chegou ao pleno esclarecimento que vocês desejavam, mas está a caminho.
(Coronel Poli: Ação de presença do senhor, que o senhor quer que a gente tenha.)
Veja por exemplo. Eu, por causa das necessidades de apostolado, minha presença no Auditório São Miguel nos sábados à noite, eu atenuo um tanto dessa gravidade. Mas ainda resta tanta, que eu noto que eles e eu formamos realidades, esferas que se tocam mais do que coisas que se interpenetram. Não há resistência deles, não há antipatia, não há oposição, mas há não compreender. De maneira que eu estava agora presidindo uma reunião, e eu estava vendo nas caras deles que eles como que não me viam. Não sei se o João participa dessa idéia, como que não me viam.
E eu lidava com eles, eles me entendem, me acompanham, ás vezes se entreterem com o que eu digo, de um modo geral eu acho que eles vão de boa vontade à reunião dos sábados à noite. Mas deduzir daí que eles me sintam como eu sou, eu não tenho impressão. E não se pode cobrar outra coisa. É assim. mas talvez…
Bom, mas agora, na linha da gravidade, eu queria que um de vocês me pudesse esse busto retamente embaixo da Duquesa de Alençon… Esses limpadeiras não entendem nada. [Sr. Dr. Plinio vai indicando:]
O busto não pode estar no centro do móvel… mais um pouco para cá… mais um pouquinho… Um pouquinho mais ainda! É, aí está bem.
[Algumas opiniões sobre a colocação do busto]
Eu não sinto isso assim… Vamos deixar provisoriamente isso assim. No sábado que vem a gente discute!
(…)
(Sr. Paulo Henrique Chaves: A TFP se poderia definir como gravidade com ornato.
A TFP sim, gravidade com ornato. Isso é a fórmula de um grego, já não me lembro qual…