Conversa de Sábado à Noite ─ 5/3/88 – p. 6 de 6

Conversa de Sábado à Noite ─ 5/3/88

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Comentários do Senhor Doutor Plinio sobre a importância de cada um reviver para si as graças místicas que recebeu * Considerações sobre como devemos receber o Santíssimo Sacramento; um exame de consciência aplicado à vocação * A apostasia, o acesso de loucura que se comete ao simplesmente conceber esta idéia; justiça e severidade no julgamento de Nosso Senhor

[Cópia mal gravada e com fundo musical, por esta razão algumas palavras não foram entendidas]

(Sr. Nelson Fragelli: Como é que o senhor vê a Deus? Qual é este facho de luz comunicativo por onde corre a visão que o senhor tem de Deus e [mas?] o senhor deixa para o seu tempo e, nós sabemos, para os tempos que virão?

(…)

Meus filhos não lhes está cansando?

(Sr. –: Tem tempo ainda.)

(Sr. –: Tem vinte minutos.)

Bem! Mas afinal vamos lá!

* Comentários do Senhor Doutor Plinio sobre a importância de cada um reviver para si as graças místicas que recebeu

Tomem os fenômenos que o Pe. Garrigou Lagrange considera, fenômenos da “mística ordinária”. E que todos nós sentimos.

Seria muito interessante que cada um pudesse reviver para si, por si ou para si, que fenômenos da mística ordinária sentiu. Em primeiro lugar, antes de tudo, essencialmente, a propósito da Igreja. Portanto de doutrina da Igreja tudo que você acabou de dizer, etc., etc. Depois a liturgia da Igreja, a disciplina da Igreja, a História da Igreja, tudo.

Mas tomem depois os fenômenos da “mística ordinária” que nós tivemos, vamos dizer, a propósito de coisas da natureza [que] de repente nos tocam, etc., etc., tocam de modo especial em que entra também o sobrenatural.

Estou para lhes mostrar ─ até se o Gonzalo Larraín que tem a memória muito boa pudesse lembrar. [Alguém] emprestou não me lembro a quem, ou se está guardado com o Amadeu, umas fotografias extremamente interessantes que Merizalde trouxe da Terra Santa, do Cenáculo.

(Sr. –: Gonzalo Larraín: Posso pedir para ele.)

Ele lhe mostrou, não?

(Sr. –: Gonzalo Larraín: Não, não, mas eu tenho a coisa na cabeça. Posso pedir para ele.)

Mas ele deixou para mim.

(Sr. –: Gonzalo Larraín: Ele deu para o Sr. Amadeu ou para o Sr. Fernando.)

Cuidado, o Amadeu é mineiro!

Vai perguntar se tem, ele de medo de ficar e depois não devolver isso, diz que não tem!

(Sr. –: … [inaudível] Falar com ele?)

Falar com ele.

Cuidado, é preciso ter cuidado.

A tendência dele… Já foi dormir até. E depois ele sabe, eu vivo mexendo com ele a esse respeito.

(Sr. –: Isso é um padrão da vida.)

É vamos deixar. Eu acho que nenhum de nós tem vontade de terminar em Minas Gerais!

Bem! Por exemplo, são coisas naturais à propósito das quais vem ao espírito coisas sobrenaturais.

* Nosso Senhor ao mesmo tempo velava e revelava a divindade. Era como um vitral, que ao mesmo tempo velasse e revelasse o sol

Bem, esses fenômenos da mística ordinária a pessoa… imaginem Nosso Senhor Jesus Cristo como emanando d’Ele a propósito das perfeições da humanidade d’Ele, e Ele era um vitral para a própria Divindade, a humanidade d’Ele era um vitral para a própria Divindade. O vitral ajuda a ver o sol, mas tapa o sol. Para usar a expressão que usam, às vezes, para isso os progressistas, mas que tem uma certa atração quando a gente interpreta bem:

Vela e revela a divindade”.

A expressão é muito interessante, porque parece um mero jogo de palavras, mas um vitral, por exemplo, vela o sol, mas revela o sol; faz uma espécie de tradução do sol para a perspectiva humana. E era propriamente o que a natureza humana d’Ele fazia com a natureza divina.

Agora imaginem só na perspectiva da “mística ordinária”, portanto ao alcance de todo mundo, o que é que a natureza humana d’Ele velava e revelava da natureza divina! Isso só na proporção da “mística ordinária”.

E então, lembre-se de seus momentos de “mística ordinária” e vejam que elevação vos penetrava na alma nesse momento, e calculem o que era a impressão quando Ele chegava perto! Eu creio que é Santa Marta que disse a Santa Maria Madalena, quando Nosso Senhor Jesus Cristo chegou à casa de Lázaro, eu creio que foi aí, essa frase: Magister adest, et vocat te, “O Mestre está aqui, chegou e te chama”.

Imagine Ele entrar assim na casa de Lázaro com todas as perfeições e chamar amorosamente Maria Madalena!… Somada a essas, todas a grandezas humanas, imagine isto que vale muito mais do que todas as grandezas humanas! Aí, aí é que nós começamos a compreender a Ele.

(Sr. Gonzalo Larraín: É claro. Por grande que seja a outra parte ela é menor.)

Muito menor! É enorme! É tão grande que se, nos homens são assim, Ele tendo sido Homem-Deus, os homens não quiseram adorá-Lo como Deus; mas se Ele fosse Homem só, os homens queriam adorá-Lo como Deus. Sobretudo se Ele irradiasse fenômeno da mística extraordinária também adoravam!

Não é Deus, não vem com história, etc., etc.”

Bem, então imagine uma igreja, … [inaudível], de uma igreja ruisselante, que tinha como que riachos de coisas dessas, dessa “mística ordinária” escoando por todas a parede, por todas as coisas, de todos os jeitos, etc., et., e nesta igreja sentado Ele num trono no altar mor e recebendo os que quisessem falar com Ele; como é que … [inaudível].

Como é que nós nos aproximaríamos?

Tomem em consideração que houve no tempo de São Pio X um santo qualquer ─ santo, hein! ─ que nunca se aproximou para falar com São Pio X sem se confessar antes. Porque dizia que ele não era digno de ser visto por São Pio X sem se confessar antes, ele precisava confessar-se antes. Um santo! O que é a confissão de um santo?

(Sr. Gonzalo Larraín: Acho que é o Beato Cotolengo.)

Não creio, acho que é Dom Orione. É santo se não me engano, Beato é em todo caso.

Bem, mas imagine o que é que seria… É o caso de perguntar se a gente teria coragem! E não dizer assim, você tem certeza que você…De cara eu vou! Mas de outro lado: “Magister adest et vocat te”, esta frase tem esculpida em letras douradas, sobre o mármore branco, na capela do Santíssimo em Santa Cecília. Muito bem colhida.

(Sr. Gonzalo Larraín: Porque Ele está aí, não?)

* Considerações sobre como devemos receber o Santíssimo Sacramento; um exame de consciência aplicado à vocação

Ele está lá e está chamando, Ele quer ser recebido em comunhão por mim.

Agora, qual seria a impressão se eu O visse assim? [Então] uma adoração sem nome, um respeito sem palavra, de não saber o que dizer, literalmente! E Ele com a voz divina d’Ele me dissesse: “Eu vou te visitar”. E eu visse Ele tomar as formas eucarísticas e apresentar-se a mim. “Receba-me!” Como seria minha comunhão? Como são as nossas comunhões? Nós nos lembramos de tudo isso na hora da comunhão? Não lhes parece que são umas comunhõezinhas… muito chuezinhas.

Bom, agora entra a bondade. Entretanto, esta comunhão Ele quer. Estar em estado de graça, Ele quer. Ele julga, e o julgamento d’Ele é indiscutível, Ele julga que Ele não se degrada entrando na alma quem está em estado de graça.

Então, agora vem o outro lado: então por estar em estado de graça, eu que sou tão indigno, Ele impõe, ensina, entretanto, tem propósito Ele ser recebido por mim.

O que sou como batizado? E que uso eu faço daquilo que eu sou? Que sou eu como membro da TFP? E que uso eu faço daquilo que eu sou?

Bem, isso é todo um ciclo de considerações que assim vocês nunca ouviram. Eu acho que é isso mesmo, não ouviram. Depois outra coisa, tome a nação…

(…)

não ouviram, está acabado.

A Igreja Constantiniana silenciou isso. Vagamente, vagamente se entendia, mas a questão é que isso não [é] para ser vago, isso não é para ser vago!

E simplesmente ─ me permitam que diga ─ considerem só isso: se qualquer um dos quatro que está aqui tivesse saído da TFP, nunca teria ouvido essa conversa, mas seriam julgado no último dia a respeito dessa conversa. E se alguma vez esteve para sair da TFP, por que bagatelas esteve para trocar essa conversa? Não [é] essa conversa! É essa a realidade! Quer dizer, o que teríamos feito para ouvir isto? Onde é que estaríamos a essa hora? A essa hora? Em que bar?! Em que prostíbulo?! Em que praia?! Em que montanha?! Em que companhias?! Dizendo que coisa?! Querendo que coisas?! Fazendo que coisas?!

* A apostasia, o acesso de loucura que se comete ao simplesmente conceber esta idéia; justiça e severidade no julgamento de Nosso Senhor

Não sei se percebem os acessos de loucura que podem entrar nessa idéia de sair da TFP? É evidente! Acesso de loucura! E se a gente facilitou com esses acessos, meçam a facilidade louca que a gente esteve fazendo! Quer dizer, como é louco em facilitar. Quanto facilitamos! Quanto hesitamos! Formamos planos temerários! Não é? Carlos Antunez que apostatou certo de que ele não se perderia, não é? Que ele ia continuar a praticar a religião muito bem, etc., etc.,

Estou certo que o Jaime também, mais ou menos, apostatou nessas condições, ou com essa esperança. Hoje, me disse o Fernando, que ele está mais ou menos um atéu, tem uma vaga crença em Deus, o resto é coisa…acredita em tudo, aceita tudo, nega tudo, nada é nada! Não pode deixar de ser! Como é que pode deixar de ser?

E o pobre Carlos está noivo.

(Sr. Gonzalo Larraín: É um assunto muito sério.)

Agora, isso por quê? Por causa de uma questão de um dinheiro que chegou ou não chegou aos Estados Unidos, uma coisa desse gênero.

(Sr. Nelson Fragelli: De fato os dois vinham a esta reunião.)

Ele estaria para estar ali; e os escravos sabem bem…

Bem, vamos dizer as últimas palavras a respeito de Nossa Senhora.

(Sr. Nelson Fragelli: Aquilo que o senhor explicita hoje, o senhor transmite continuamente, não?)

Continuamente, a todo propósito, de todo jeito, não há maneira de eu não explicitar. E é o por onde toda a minha vida está voltada, não é? Continuamente! Isso se vê, basta querendo me analisar um pouquinho que se vê isso, não é?…

(…)

gênero humano com tamanho do castigo ter permitido, ou disposto que isso se apagasse ao ponto em que ficou apagado e ter ao mesmo tempo querido que um grupo como o nosso ficasse incumbido de fazer essa difusão… misericórdia! E chamar o mundo para isto, que misericórdia fantástica! E aqui vem a coisa, como explicar essa misericórdia sendo Ele como é? Não há uma incompatibilidade entre toda essa grandeza d’Ele e a conseqüente justiça e, portanto, a conseqüente severidade, e o que Ele está fazendo por nós não se diria que ─ pense um pouco no que está esse mundo aí ─ já calcularam a severidade do juízo d’Ele sobre esse mundo? Não tem palavras! Não tem palavras!

Não sei se lhes contei de um padre que o Luizinho viu celebrar em Caxambú, não?

(Sr. Gonzalo Larraín: No MNF o senhor contou.)

É. Como é que esse pobre padre, com que olhar Ele considera? Se esse padre, de repente, tiver que comparecer perante o juízo d’Ele, como é que vai ser olhado? É um olhar que transparece, transfixa o homem, vara de lado a lado; ele solta uma blasfêmia e se joga pelo Inferno a dentro.

* O homem concebido no pecado original é tão miserável que é capaz de servir-se da bondade de Nossa Senhora para continuar em sua mediocridade

Bem, agora, está bom, isso se explica porque Ele pela misericórdia d’Ele, na sabedoria d’Ele, encontrou um sacratíssimo artifício para perdoar: é criar a Mãe d’Ele com a missão de obter por nós aquilo que só a Ela Ele poderia conceder. Aqui é outra coisa que tem uma grandeza! uma coisa!

Bem, e note que muito melhor do que nós, Ele podia medir o alcance do que Ele estava fazendo, infinitamente melhor do que nós, Ele saberia que depois do que eu estou dizendo ─ o que eu disse até aqui sobre a grandeza d’Ele nessa reunião, ouvindo falar de Nossa Senhora, nós temos um lado mau diante de nós que diz:

Que gostoso! afinal eu posso ainda continuar na minha mediocridade porque por meio d’Ela eu arranjo alguma coisa. Doutor Plinio nos fez fazer uma viagem, não sei a que extensões, anos luz da Terra, mas nos deposita no aeroporto, eu posso continuar na minha mediocridade, porque Ele me deu a Mãe d’Ele para eu me salvar dentro da minha mediocridade”.

Esses somos nós! O homem é esse! Concebido no pecado original é o que o homem faz. Tentações do demônio, etc., vai por aí.

Bem, e na realidade, aí é preciso ter o equilíbrio por onde isso seja a razão para nós amarmos a Ele tão mais que nos sintamos mais longe da mediocridade. E nós estamos tão longe desse equilíbrio que ou pedimos a Ela ou está tudo perdido.

Eu vou dizer, hein!, se não fosse Ela, eu seria o primeiro a desanimar. Eu diria: “Ele é Deus, Ele fez tudo e fez a mim também, mas Ele fez uma partida inviável, e quase que eu sou réu dessa partida, porque eu já nasço esmagado por ela?

Não terei meios, não vai, não funciona. Ora, eu sei que isto é assim, e que vejo que não funciona não era melhor para mim que eu não soubesse isso que eu ouvi nesta noite? Não era melhor para mim até não ter nascido?” “Melius illi erat si natus non fuiset”: “Seria melhor para ele que não tivesse nascido” ─ disse Ele dos que se condenam. Disse de Judas?

Agora, problema, problema para se considerar… Quer dizer, aí a gente compreende bem: de voluntate Dei ordinata, quer dizer, não por uma razão metafísica, por uma…ordenada e santíssima sabedoria que está na vontade d’Ele, Ele criou a Ela de tal maneira que Ela é o laço de ouro que amarra as duas pontas e que com um sorriso torna tudo viável, um sorriso de tal pureza e sem nos afugentar nos convida possantemente a mudar.

Aí ficaria a fita de seda que envolve o presente de aniversário de meu Nelson.

(Sr. Poli: De seda, de ouro, e de prata, não é?)

É sim, de seda, de ouro e de prata.

Eu não imaginei que eu fosse tratar disso aqui hoje à noite, do contrário eu teria feito esforço para o Fernando e o João ficarem; eu mesmo aconselhei a eles que fossem dormir que eles estavam arrebentados. E depois, amanhã começa todo o retiro espiritual para o Praesto Sum, importantíssimo para nós, etc., etc., não se pode fazer outra que não seja isso. Mas ao menos tem os apontamentos de meu Coronel e vão ter uma pontinha qualquer de coisa falada sobre Nossa Senhora.

(Sr. Nelson Fragelli: Depois nós continuamos noutro sábado.

(Sr. Gonzalo Larraín: O Sr. fica?)

Eu vou ficar aqui se Deus quiser.

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