Conversa Sábado à Noite – 27/2/1988 – p. 3 de 3

Conversa Sábado à Noite — 27/2/1988 — Sábado [VF057-JC018] (Augusto César)

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a santidade naquilo que ela pode ser comparada à aristocracia, ela é uma ordenação sobrenatural da alma do homem, mas considerada, sobretudo, em sua vontade; secundariamente, em sua sensibilidade e em sua vontade. Secundariamente, em sua sensibilidade e em sua inteligência. Mas é, sobretudo a vontade, é o amor, que caracteriza o santo.

A aristocracia é uma disposição reta e exímia… Aqui está: Santidade é uma disposição reta e exímia da vontade intensamente elevada pelo sobrenatural. No caso do santo no sentido próprio da palavra, quer dizer, o santo canonizado, santo heróico.

Agora, a aristocracia é uma ordenação reta, exímia, não propriamente da vontade, nem da inteligência, nem da sensibilidade, mas do homem como um conjunto. É o conjunto do homem que, propriamente, no santo, não entra tanto. Entra por reflexo, por circunstâncias, mas não entra tanto. E nesse conjunto, toda a ordem natural do homem fica posta muito em evidência.

Na medida em que o homem tem virtude, se soma a uma coisa exímia outra coisa exímia de uma ordem diferente. Naturalmente essa soma é favorável a ambas as ordens, mas não se confundem. Isso pode estar muito teórico. Eu vou dar um exemplo que exprime bem o meu pensamento.

Tomem uma senhora accomplie, uma senhora de salão accomplie

(Sr. Poli: “Accomplie” o que vem a ser mesmo?)

É completa, à qual não falta nada, tem em grau exímio tudo o que ela deve ter. Uma nobre.

Bem, ser música é uma coisa que aumenta a qualidade aristocrática dela? Não propriamente. No modo de tocar a música, a música pode ser aumentada — em certos casos, nem sempre — pela filtração das qualidades aristocráticas dela. Mas ela não fica mais duquesa porque ela sabe tocar música. A música é que fica um pouco “enduquesada” por ser tocada por ela.

E o exemplo característico para mim seria um instrumento musical nobre por excelência, que para mim é a harpa, tocada por uma duquesa. A gente imaginar no seu salão uma duquesa tocando harpa, ainda que seja sozinha, para se regalar, para se entreter, imaginando uma duquesa tocando harpa, aquilo tem uma ressonância… A harpa e a duquesa entram numa composição que vai muito bem uma coisa com a outra, mas a gente não poderia dizer o seguinte: “Ela sai daí mais duquesa do que as outras duquesas que não tocam harpa.”

(Sr. João Clá: Não… A harpa sai mais harpa.)

A harpa sai mais harpa e meio “enducada”. Mas ela não sai mais duquesa. Eu acho que isso focaliza bem as coisas.

Eu dou uma outra coisa, é um pouco mais chocante, mas é assim.

Na Faculdade de Direito, numa sala em que eu lecionava, havia uma figura do tempo do Império, se não me engano era o Visconde de Sepetiba. Nem sei bem quem ele era, mas, era um nobre… Nobre. Propriamente nobre! Que eu sei por alguns reflexos que era aparentado com os Andradas. Ele está de beca, aquela beca de professor, em pé, junto a uma escrivaninha, de corpo inteiro e numa atitude professoral! Mas de professor universitário, não professor secundário.

Bem, o professor universitário não é obrigado a ser nobre para ser um grande professor, e o nobre não é obrigado a ser professor universitário. Mas a autoridade de um professor universitário, e de beca universitária, adornando o nobre, e o nobre adornando com essa autoridade, são coisas que se somam muito bem, mas que não se confundem.

Então, eu poderia dizer que ele enquanto nobre ornava a beca. Eu posso dizer, de algum modo que a condição de professor ornava o homem, não tanto o nobre. Bem, embora eu pudesse dizer que esse nobre — não sei se é o caso histórico com ele, eu estou imaginando — que esse nobre dava as aulas muito aristocraticamente, como a duquesa tocava a harpa muito duquesamente, muito aristocraticamente. E que havia uma filtragem do nobre naquilo que ele fazia, muito mais do que a filtragem do que era feito na pessoa do nobre.

(Sr. Guerreiro Dantas: Eu pergunto se postos de lado os aspectos inferiores, negativos da alma de um nobre, de um aristocrata, se não ficam mais apurados e destilados os aspectos nobres? E, portanto, eles não crescem num certo esplendor?)

Pode se dizer o seguinte. No caso da duquesa que toca harpa, a harpa é de si um instrumento de uma forma muito nobre, e os sons da harpa são sons muito nobres. É uma coisa inegável. Então, no caso concreto da harpa, eu já não reconheceria o mesmo benefício no caso do piano e do violino. Reconheceria um pouco no caso do cravo. Mas é que o cravo é meio um pai e meio um filho da harpa, e reciprocamente. A harpa é um instrumento muito nobre. Aliás, aquele formato da harpa é… Eu considero, por exemplo, que a harpa é um ornato no salão. Você põe uma harpa num salão, é um ornato. Uma coisa colossal!

(Nelson Fragelli: O que o senhor acha do som da harpa numa palavra só, Sr. Dr. Plinio?)

Eu acho, a harpa e [o] cravo, nobres. Eu acho o piano burguesão. O piano é um pouco gordalhão, um pouco planturoso… Não é propriamente o que é a harpa, que é muito despida de carne, ela é muito espiritual, muito intelectiva, mas representa o sentimento humano, não enquanto voltado a uma criatura humana, mas tangido por abstração. Como também o cravo. O cravo representa certos sentimentos humanos quando o homem não está pensando em outra criatura humana, mas ele está pensando em abstrações, em coisas de… E caminham para a ordem metafísica, ainda que seja no caminho do sentimento.

(Sr. Guerreiro Dantas: Podia ser o instrumento das estrelas.)

Se, por exemplo, se soubesse que há uma estrela onde pessoas superiores tocam harpa e cantam… Nos daria vontade de visitar essa estrela, ou não?…

(Sr. João Clá: O senhor poderia aprofundar um pouco mais ainda uma questão. Por exemplo, a gente chega numa cidade, por exemplo, Veneza…)

Veneza é o lugar da harpa… Como do cravo!

(Sr. João Clá: Bem, a gente fica curioso em saber como nasceu uma cidade assim, com tantos matizes, coloridos, etc…)

(…)

passa esse, passa aquele, passa um rei tártaro todo vestido de ouro com seu cortejo, dentro do cortejo do czar…!O rei tártaro, meio descido da mitologia e figurando num cortejo, uma coisa que você não tem o que dizer! Agora, tudo isso é meio carismático, ou tem certas bênçãos naturais, muito fracas, na nobreza oriental pagã.

(Sr. Gonzalo Larraín: Há uma coisa que talvez possa ficar para a próxima vez…)

(…)

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