Conversa de Sábado à Noite – 26/12/1987 – p. 11 de 11

[Nota: Esta mesma reunião se encontra também no rolo: [JC 018]. (Neimar Demétrio)]

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Conversa de Sábado à Noite — 26/12/1987 — Sábado [VF 056] (Neimar Demétrio)

(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor disse para o Sr. Fernando Antúnes que o senhor de ontem para hoje tinha pensado sobre o tema daquela palavrinha que o senhor nos deu ontem à noite.)

Eu estou conseguindo me lembrar bem qual era o tema, vocês falaram, foi o Gonzalo até que falou na questão de esticar os prazos, e o problema era quando é que o esticamento de Deus, enfim, até quando Deus consentiria no esticamento.

Bem, e a esse respeito eu queria fazer notar um ponto que é interessante porque encaminha a solução de um modo que a gente não imaginava, mas não traça a terminal, mas é um dado para a solução. Meu João você entendeu bem qual é o problema?

(Sr. João Clá: Sim.)

É o seguinte, está dito a respeito do fim do mundo, creio que é no apocalipse, que se aqueles dias não fossem abreviados nem os justos perseverariam. Bem, o que quer dizer, os verdadeiros justos, quer dizer, não é os justos “laranjões”, que eram na relatividade das coisas os justos daquele tempo, que esses não perseverariam, eu acho que se deve entender que eram pessoas efetivamente justas, por justo se entende a pessoa que está no estado de graça.

Bem, entende-se um estado de graça insigne, de maneira tal que é difícil derrubar, não esse estado de graça de emergência, o sujeito confessou-se, entrou em estado de graça, passou dez minutos em estado de graça, a primeira "fassurada" que viu consentiu e caiu, está acabado.

Bem, mas então nós vemos que há dois pontos de referência, em si os acontecimentos iriam mais longe, mas o próprio Deus por misericórdia para com os justos não permitiria por um outro dado de referência, não é porque Ele absolutamente falando não quisesse que a coisa, ou ao menos não consentisse que a coisa fosse mais longe, mas é por causa dos justos. Quer dizer, Ele é Pai, compreende-se, Pai cheio de misericórdia e que proporciona as provas não apenas em função do que seria metafisicamente ou axiologicamente melhor, mas Ele também toma em consideração as graças que Ele dá aos justos, e [pedindo?] [medindo] o grau de exigência que Ele dá para os justos até onde vai, até onde não vai. Que sem entrar nisso a culpa do justo, por desígnios insondáveis d’Ele, é assim e está acabado.

Então você pega alguns exemplos tirados da vida de santos, são absolutamente frisantes. Santa Terezinha queria morrer vítima do amor misericordioso, de fato morreu, mas morreu muito cedo, parece que ela tinha 22 anos.

(Sr. Gonzalo Laraín: 24 anos.)

Vinte e quatro anos quando faleceu, está bem. Mas ela poderia, — ainda mais dada à doença que Ele escolheu que ela morresse, — Ele poderia perfeitamente ter destinado a alma dela duração mais longa, com mais méritos para salvar um maior número de pessoas. Mas, houve um ponto de equilíbrio de que Ele entendeu que ali parava e aí Ele a chamou para o céu, não é?

Sóror Maria de Jesus Torres, o João estava dizendo ontem, ela morreu quatro vezes e ressuscitou três, foram ressurreições por assim dizer discretas, na própria cama, ela acabava apenas de expirar, muito doente, comparecia perante Deus, Deus incumbia a ela de novo serviço na terra, ela voltava e exercia a missão dela e tal. Mas, enfim morreu três vezes. Na quarta vez ela manifestou o desejo de ainda continuar na terra para lutar ao lado dos que no século XX haveriam de enfrentar as grandes provas, e Deus não quis. Porque entendeu que o que Ele podia pedir daquela criatura estava sofrido, não é?

Vocês vêem por aí que há um limite misterioso que Deus dá pelas graças, pelas dores. E em rigor também com Ele, em rigor Ele também poderia ter sofrido mais no alto da cruz. Você dirá: eu não concebo como?[!] Por exemplo, poderia ter durado um pouco mais, é evidente. Mas, não durou, houve um determinado momento em que Ele conheceu que “consumatum est”, e tendo conhecido isso “eflavit spiritus”.

(Sr. Gonzalo Laraín: Mas aí não é pelo mesmo princípio dos justos.)

Não, foi por outra razão, em atenção a Ele. Bom, com os justos será em atenção aos justos, então o princípio dado para Santa Terezinha, Sóror Mariana Francisca de Jesus Torres, Ele mesmo traça um limite misterioso de dor, para os que são provados, e quando cessa aquela dor cessou.

Bem, então, nós não podemos por puras considerações teóricas determinar o momento. Então o momento pode, embora seja possível a coisa arrastar-se ainda mais, em nós, estudando as resistências em nós, nós podemos mais ou menos ver até onde chega o ponto de saturação, não a saturação do preguiçoso, que tem preguiça de sofrer e que porque dá berros com qualquer coisa, mas a saturação honesta, efetiva, onde o homem “vir dolorum” diz, eu agora não agüento mais, eu vou morrer se Deus não tirar o fardo das minhas costas.

(Sr. Poli: Morrer ou comprometer a perseverança.)

No caso dos justos comprometer a perseverança, quer dizer, é uma morte espiritual mil vezes pior, 1 milhão de vezes pior do que a morte moral, não é? A morte física eu quero dizer.

Bom, isso responde, não tem nada de espetacular, mas responde sensatamente a pergunta. Então pode se achar que haverá um determinado momento em que a gente diz “consumatum est”, eu sinto que eu bebi todas as lágrimas de dor que estavam em minha taça, e que agora vem à graça.

(Sr. Gonzalo Laraín: Portanto, a última palavra a respeito da Bagarre está com os justos. O senhor falou ontem dos inimagináveis, que são coisas que não se imaginaria, mas que de fato aconteceu.)

Que seria pouco piedoso imaginar.

(Sr. Gonzalo Laraín: Até onde o senhor acha, sondando-se, sondando os acontecimentos, que se pode chegar, sem essa espécie de fervorinho de que esse ano é o ano da Bagarre, realmente não é, tem 79 anos que não é isso.)

Não é, não é sério, isso não é sério, não faz parte das nossas… Mas vocês mesmos podem ter uma coisa que é interessante e que se passou com vocês. Nós não vamos sempre voltar ao mesmo tema, mas tratando da questão um pouco por alto, não tem dúvida nenhuma que essas reuniões de sábado à noite representaram para vocês um certo alívio numa caminhada dura que vinha seguindo, mas quando vieram a essas reuniões, vocês não tiveram idéia no começo de. Aliás, eu também não tinha, do mundo de graça que nos daria ocasião, mas afinal acabou sendo que as reuniões vieram e que o mundo de graças baixou sobre vocês, quando vocês menos pensavam, tornando-lhes a caminhada menos dura, sendo que talvez não seja muito temerária a suposição de que se nós fossemos mais generosos, nós não sentiríamos tão dura à caminhada, e se não fosse tão indispensável. Mas Nossa Senhora por bondade fez para nossa falta de força o que seria um prêmio a nossa força se nós tivéssemos sido fortes. Quer dizer, são as coisas inesperadas que acontecem. E também nós não devemos afastar de nós essa continua esperança temperante de um inesperado bom.

São coisas muito delicadas, assim a Providência toma nossas almas, prova-as de um modo tremendo, mas dá pelo meio umas graças que a gente só tem consciência eu cessaram, mas que daí depois a gente tem saudades. Eu creio que foi ontem à noite com vocês que eu falei a respeito das minhas idas a Fátima. Bem, mas eu não disse a vocês porque não me ocorreu de dizer, etc., que eu tinha, mas não era inteiramente consciente, quando cessou é que eu percebi.

Que quando eu tinha esses desafogos e que ia rezar lá em Fátima eu tinha, me vinha umas graças, aquilo me parecia tão desafogante, tão alegre, apesar de eu compreender que aquela sova continuaria, bem eu compreendia que continuaria. Eu vou aquela Igreja com nostalgia do que eu tive de graças no meio de tantos sofrimentos. Aliás, quando se chaga a idade em que eu estou às etapas da vida são as graças que a gente recebeu, o resto é conversa. Quer dizer, eu era estudante, e depois eu fiquei um homem formado, isso não quer dizer nada, é uma coisa completamente sem significação, o que tem significação são as graças que nós recebemos, as graças que às vezes foram dores, e às vezes foram libertações.

E aí é o mistério do trato com as almas que não nos ajuda muito fixar no calendário, mas que em determinado momento pode ser que nos leve a dizer agora chegou, pode ser. Eu acho que é a resposta prudente, adequada, calma, do que falamos e é isto. E com isso também eu proponho que deixemos isso e vamos ao que tem a dizer.

(Sr. Guerreiro Dantas: Hoje é a última reunião do ano aqui na casa do senhor e nós queremos agradecer ao senhor e a Sra. Da. Lucilia todas as graças que aqui recebemos. A Sra. Da. Lucilia que nos deu tantas graças sem nós esperarmos, é razoável a gente espera ainda mais, graças maiores, não é verdade?)

É claro, é até uma das coisas, é uma das fórmulas de agradecer é esperar mais.

(Sr. Poli: É muito próprio do senhor.)

Ao menos é muito próprio dela.

(Sr. Guerreiro Dantas: E nós desejamos que ela nos dê a graça de podermos ser cada vez mais filhos do senhor e que ela aumente esses vínculos e esses laços. É o que nós desejamos para os que estão aqui e aqueles que por razões de serviço uma boa parte do ano fora.)

É, eu penso sobretudo no nosso caro Edwaldo que está longe, em uns e outros, eu penso com muito afeto. Penso também no Caio Xavier, porque ele se manifesta tão feliz, tão contente quando assiste essas reuniões que é impossível não pensar nele, isso… Eu pelo meu lado agradeço a Nossa Senhora essas reuniões também, porque é uma coisa curiosa com o trabalho da graça, é o seguinte, o pagamento que a graça dá é que muitas vezes, é que quando a gente é instrumento dela, a gente por assim dizer percebe a graça, nascendo, eu não posso dizer nascendo, mas como que nascendo, entrando numa atmosfera estival, de verão em almas que uma vez ou outra podiam estar lá bem pelo outono, um pouquinho pelo inverno também, podiam estar.

E que a gente vê a graça, e vocês talvez ainda não tenha a experiência de quanto à gente se rejubila quando percebe que uma alma disse um sim para uma graça que Nossa Senhora pôs nela, é uma coisa de uma beleza muito grande, e que dá muita alegria em presenciar, ainda que a gente não tenha sido o instrumento dessa alma, dessa graça.

Por exemplo, aos sábados à noite, eu digo no Auditório São Miguel, eu vejo pessoas que eu nem conheço, ou que eu conheço de vista porque apareciam continuamente diante de mim, mas com as quais eu nunca troquei uma palavra, não é? Mas, a gente às vezes olhando percebe o progresso, bem, e o progresso resulta da ação de muitos outros, não é? Ou é resultado de minha ação de presença, não discutimos isso. Mas, é uma pessoa que para mim é uma pessoa estranha, exceto pelo olhar, e eu vejo o olhar que vai lucrando, que vai ganhando, é uma coisa que dá um gáudio maior do que qualquer outra coisa na vida.

De maneira que também a mim, Nossa Senhora nas reuniões se sábado à noite deu uma espécie de apoio, de ânimo muito grande, Ela usa de uns para fazer bem para outros, mas reciprocamente, de maneira que tudo isso Ela tira glória para Ela e naturalmente para o Divino Filho d’Ela, não é? Isso é o que caberia dizer.

(Sr. Guerreiro Dantas: Perguntamos ao senhor se o senhor não poderia explicar um pouco mais toda a questão da monarquia.)…

(…)

[Nota: O trecho realçado está exatamente assim no microfilme. (Neimar Demétrio)]

Um livro comentado pelo “Point de Vue” sobre toda a vida da corte, um livro que explica o seguinte: o que é uma corte? Eu me lembro que conhecendo a corte de Napoleão I, não sei que famoso personagem de um país inimigo de Napoleão I, portanto, da Europa não revolucionária que esteve na corte, seguinte, é um lugar de muito luxo e de muito trabalho, mas uma corte não é, bem é isso. É de muito luxo e de muito trabalho, uma corte não é.

Agora, por que é que não é uma corte? E o que é que é uma corte. Porque Napoleão procurou simular uma corte verdadeira, os personagens dele na grande maioria não tinham autenticidade, ele tinha conseguido “rallier” alguns nobres do “Ancien Regime”, mas era uma minoria que estava ali mal à vontade, meio apóstatas e meio prevaricadores. E de outro lado era uma coisa tremenda, mas era isso, de outro lado estava ali por necessidades financeiras, acorrentados pela miséria, e Napoleão sabia disso, então não se podia dizer que havia a nota do “Ancien Regime” na corte dele.

Bom, porque que é que aquilo não era uma corte, era por falta de autenticidade o que é, o que é que é uma corte? E eu seria tendente a dar a seguinte definição, as coisas nasceram assim,no Funck Brentano desenvolve isso muito bem,a corte era o desenvolvimento normal da casa do rei. À medida que o régulo, pequeno rei municipal da pequena cidade foi ficando mais importante a sua casa foi ficando mais ampla por necessidade de ter salas mais amplas para receber pessoas porque o número de pessoas que o procuravam e que ficavam esperando para receber audiência e que era muito grande, eram pessoas de várias ordens, as pessoas tinham que se encontrar que ficar lá esperando, mas esperando supunha um espaço maior.

Agora, tudo girando em torno da pessoa dele, era primeiro a casa dele, quer dizer, a esposa dele, os filhos, as filhas, os parentes, a mãe dele, quando ainda estava viva, etc., etc., que em geral tinham aposentos no próprio palácio dele. Quando não tinham, veio mais tarde, ter palácios fora, no começo tinham aposentos no próprio palácio dele, nas Tulherias, no Louvre, sobretudo no Louvre foi muito tempo assim, os reis tinham gente em quantidade assim morando, e cada um por sua vez tem a sua pequena corte particular.

Bem, e então iam procurar o rei, era um gênero de gente que se encontrava habitualmente a parentela do rei. Depois os indivíduos que serviam cuidando da guarda real, da cavalaria real, da mesa real, enfim das várias direções, dos vários serviços do rei, que iam se tornando cada vez mais importantes também, e supunham um número grande de criados e tudo bem dirigido. Então por causa disso, por exemplo, na corte da França os grandes cargos de mais alta nobreza eram cargos de pessoas que serviam a casa do rei, “Le chanson, le sénéchal, le marechale, etc.,” eram primitivamente pessoas que tomavam conta do vinho “le chanson” da cavalariça era o condestável, “condestable” o que quer dizer o conde do estábulo, e assim o “grand panetiére” que tomava conta dos pães que se consumia no palácio real, etc., etc. E mais ou menos isso era distribuído a nobres do interior que passavam um tempo na corte e que durante o tempo que passavam eles exerciam essa função, entravam em rodízio, depois voltavam para os seus castelos.

Ou nobres de muito boa família, mas que não tinham eles terras no interior, guerreavam para o rei, mas que serviam o rei em período de paz nessas funções muito altas. Bem, e que se encontravam. Depois eram os funcionários altos da magistratura, os mais altos chefes do exército, os mais altos chefes da marinha. Os encarregados das finanças, os encarregados do trato com o clero, enfim, os embaixadores de fora, que vinham falar com o rei, os embaixadores que o rei tinha fora e que vinha falar com o rei.

Isso não estava dividido em ministérios como está hoje, mas havia uma certa divisão assim meio imprecisa, mas tudo vinha ter na mão do rei, e o rei era o centro e propulsão de direção de todas essas atividades sem prejuízo das autonomias locais. Bom, e além do mais tinha as pessoas atraídas pela obrigação de se fazerem ver de vez em quando pelo rei, porque eram pessoas que tinham grande função no Estado, grande função na sociedade e que o rei queria saber como iam, e que se apresentando de prestando homenagem a ele, assumia um compromisso de que a fidelidade deles estava sempre em dia. Quer dizer, portanto, ainda que não tivessem nada que ver com o rei, de vez em quando tinham que se apresentar ao rei.

Bem, agora isso fazia uma espécie de mescla de sumidades nas várias categorias e ordem de ser do reino, e essas mesclas de sumidade ainda eram misturadas com outro tipo de gente, entrava uma corporação de operários, cujo patrono era aquele. E como o rei tinha aceito a condição de protetor daquela corporação, eles vinham em massa fazer as coisas para o rei, e eles é que traziam para o rei um presente, etc., o rei falava um pouco com eles e já estava encomendada uma mesa opulenta para eles comerem depois, e comiam, bebiam, etc., havia já uma dependência para esse tipo de coisas.

E tudo isso junto fazia da corte o que? Um conjunto de pessoas, de sumidades do reino dos mais variados tipos, das mais variadas províncias, e essas sumidades do reino ficavam na impossibilidade, na contingência de se saudarem, de se tratarem umas as outras, e fazerem relações de onde vinham, tratados políticos entre um e outro, entre um grupo e outro grupo, mas assim…

(riso geral)

Porque estão rindo?

(Sr. Poli: É que tem tanto suco…)

Mas é, então você tome por exemplo, grandes familias, vamos dizer, por exemplo, Lorena e Rhoan. Os Lorenas, até Saint Simon muito intransigente nessas coisas dizia, que não se pode negar que esses são verdadeiros príncipes, os príncipes da Casa de Lorena. Eles eram um ramo da casa reinante no ducado de Lorena, havia um duque de Lorena, que era a casa reinante no ducado de Lorena que não fazia parte do reino da França, mas eles tinham um ramo mais moço que não tinha terras e que ficou habituado a morar na França e que eram príncipes e que acabaram se casando jeitosamente, são muito políticos, acabaram casando-se jeitosamente com grandes familias nobres e ricas, então ficaram ricos com o casamento. E tinham um ultra estado, ultra estado, eram quase a casa real.

Bem, eles freqüentavam todos a corte, os Lorenas enquanto príncipes colaterais de uma casa soberana que era a casa de Lorena com a linda coroa de espinhos de Nosso Senhor de ouro, encimado depois, sabem onde tem aqueles arcos, eram feitos por peixinhos de ouro chamados “Bhar” porque eles são de Bhar e de Lorena. Bem, e os peixinhos representavam um outro ducado junto com este.

Bem, e então havia a do Rohan, era príncipes também, príncipes de um ramo, de uma categoria inferior aos príncipes da casa real, por que? Porque eles eram, havia antigamente na Bretanha uma família de duques da Bretanha que eram verdadeiros príncipes e eles eram filhos ilegítimos, descendentes ilegítimos dos duques da Bretanha. O ramo legítimo acabou desfechando numa só descendência, a duquesa de Bretanha e casou com Luís XII, e o ducado de Bretanha, ressalvado as suas autonomias locais ficou assumido pela coroa francesa. Mas, esses que eram da casa ducal, embora como filhos ilegítimos tinham, eram considerados na corte da Bretanha como príncipes, o famoso cardeal Rohan do caso do colar por exemplo, era dessa família, e assim há coisas lindas para contar sobre tudo isso.

Então havia esses assim, e depois haviam todos os graus da nobreza que compareciam, depois todos os graus da judicatura e de tudo mais, como eu volto a dizer faziam, tinham que prestar-se honras recíprocas sem perturbar a ordem do Estado. E se houvesse um encontro por exemplo, do presidente do tribunal de Paris com um príncipe da casa de Lorena, passando juntos pela mesma porta, essa questão de etiqueta não era uma mera questão de etiqueta, é saber o que era mais, se era um príncipe feudal ou o chefe do maior aparelho judicial do país. Um representando a guerra e outro representando o saber jurídico, ordenativo do reino, sem um grande tribunal, com funções também legislativas como era esse vitalício e hereditário, o reino se desfazia. Agora, quem é mais? Não sei se percebem que isso envolve uma questão filosófica e muito séria, e que sob pena [dele?] [dela] viverem em briga entre si era preciso que essa questão filosófica estivesse resolvida e garantida por meio de protocolos, de maneira que nunca pudesse haver uma usurpação de um sobre o outro, conforme o temperamento mais mole ou mais aguerrido dos dois lados. Eu estou conseguindo ser claro?

(Sim.)

Bom, agora daí, tudo isso tinha um outro lado, é que estando na presença do rei eles deveriam estar sempre na sua maior gala, e dando a manifestação da melhor educação e da melhor cultura, porque tudo o que tocava na pessoa do rei era super excelente, desde o vinho que ele tomava até qualquer outra coisa, era coisa que ia até o fundo.

Bem, um caso, eu não me lembro bem do caso, mas mais ou menos o caso foi esse: a Maria Leczinska era polonesa casado com Luis XV, e o pai dela era um rei meio marca barbante porque era um rei eletivo, os reis da Polônia eram reis eletivos. Ele era nobre da Polônia, de uma boa casa, mas não era das grandes casas da Polônia, e foi eleito, e depois houve coisa de política alemã, política russa dentro da Polônia e não sei o que ele foi destronado.

Ele vivia como rei destronado e pobre numa daquelas cidades livres da Alemanha. Um belo dia ele entrou em casa e para a mulher e para a filha, ele só tinha essa filha, ele disse: Ajoelhemo-nos porque Deus entrou nessa casa. Ajoelharam, rezaram.

O que é que há?

Você não imagina o que é que aconteceu, eu tenho aqui uma carta do Rei de França pedindo Maria em casamento.

Bem, e ele então foi para a corte com a Maria Leczinska, etc., etc., Delphine, Delphim, depois rainha. Bem, mas acontece que por causa disse ela era vista por pessoas muito estritas na corte com um certo pouco caso. E uma duquesa qualquer ao prestar a ela os serviços, parece que uma capa, uma coisa qualquer que ela tinha a duquesa tirava o corpo de passar para ela. E ela disse: Madame me faz favor, a senhora acha que não está a sua altura me fazer esse serviço?

Ela sem dizer que estava ou não estava, ela disse para a rainha:

Madame eu me excuso de prestar esse serviço a Vossa Majestade, como sentimento do dever eu lamento muito.

Disse a rainha:

Pois bem, é bom que a senhora saiba que a senhora é das principais familias de França, mas que a sua razão de presença na corte é servir a esposa do rei, seja qual for à esposa do rei e a senhora não é só dizer que a senhora tendo o cargo não pode deixar de me servir, mas a senhora não pode recusar o cargo. De maneira que agora me ponha a capa.

Você sabe que podia dizer por exemplo, eu vou embora, podia dar em Bastilha. Bem, grande reverência, pôs, e Maria Leczinska sorriu suavemente e saiu.

Bem, mas eu queria fazer sentir aqui que os que pensam que isso é uma mera questão de vaidade não compreendem o delicado que havia na ordenação do reino, é capital, é capital, porque do contrário vira uma espécie de frivoleira, o que é que você faz disso?

Por exemplo, na Alemanha o título de conde correspondia a uma classe muito mais alta do que todos os outros condes da Europa, por causa da organização interna do Sacro-Império. Então, na hora de passar na porta um conde francês, um conde alemão, vão discutir quem é mais, mas por pura vaidade, você compreende não vai, mas a questão é que essas discussões havia, mas as discussões diziam respeito por exemplo, ao seguinte: o nobre do imperador é mais do que o nobre do rei, de maneira que em iguais títulos o do imperador tem precedência, agora esse é um problema sério.

Então a confluência do que há de mais excelente as melhores maneiras, com o trato mais amável, o mais delicado era uma destilação do melhor mel do país para servir o ungido do Senhor. E isto fazia com que a nação tivesse mais ou menos como a corte de abelhas produzindo sempre o melhor mel de toda nação, tomando as flores de toda nação e produzindo sempre o melhor mel. E esta circunstância fazia desse convívio um convívio pinacular. A etiqueta está explicada, a excelência da coisa está explicada, e fica explicada também a importância de pequenas coisas como por exemplo, o seguinte:

Serve-se ou não ao rei tal prato assim, num dia em que não é festa. Você dirá, mas tem paciência, deixa o rei comer o que quiser. Por que é agora essa imposição? Mas é que tal prato assim é um prato super excelente, é um dado. Outro dado é: um dia comum pode ser tratado como um dia super excelente, os dias não têm a sua hierarquia, e um dia de um grande santo padroeiro do reino, o dia de São Luis não deve corresponder a um almoço, a um jantar mais festivo do que o dia de um santo, como por exemplo, Santo Elói, que foi ministro das finanças do rei Dagoberto nos tempos antigos.

Quer dizer, não sei se percebem que tudo isto é muito ordenativo, e vocês estão percebendo bem o desfiguramento que a Revolução fez de tudo isso. Quer dizer, desfiguramento a tal ponto que é tal infâmia que não deixa de ter certa analogia com as mentiras da máfia a nosso respeito.

Eu vou dar um exemplo aqui, a TFP, entre outras coisas aos sábados à noite, o Plinio reúne num salão que ele tem, 8 ou 10 amigos para uma conversa a hora exorbitante e que dura também uma hora exorbitante. E que apenas esse Grupo se seletos pode assistir, e eles ficam todas naquela sala sentados e representando quase cortesãos uns com os outros. Isso é uma frioleira, uma bobagem, por que é que não fazem essa reunião na Sede do Reino de Maria, por que é que não fazem essa reunião não sei aonde, porque é isso, por que é que estão todos de capa? Cada um de nós sabe que o outro é da TFP, por que é que precisa estar de capa, o que é que faz essa capa nessa ordem de coisas, e vai daí para a frente, é não ter compreendido nada.

Bom, assim eu poderia me estender quase indefinidamente sobre o seguinte: algo da corte nem o rei gradua como quer, porque é um borbulhar da melhor cultura do país, que não são os letrados, não é a universidade, às vezes a universidade vai a corte, as vezes os doutores e os professores da Sorbonne vão à corte, outras vezes não os membro da academia, mas não é isso. É o alto nível de educação, de cultura, e de viver, a escola de vida da corte, alto grau de trato para a salvação das próprias almas, isso é uma coisa muito sabia.

Agora, essa corte evoluiu no sentido para onde ela não deveria ter evoluído, quer dizer, a corte medieval por exemplo, certas coisas assim, você encontra por exemplo, em Shakespeare, alguma coisas assim, cada vez que o rei bebe, os canhões troam, é um pouco primitivo. Se fosse, ainda assim, todos os nobres se levantaram agora e levantaram a saudação do rei, então troam os canhões, lá vai. Mas, cada vez que o rei bebe a fortaleza dispara um tiro é uma coisa que…

Você compreende que é uma evolução numa determinada linha. Essa evolução teria conservado muito mais sentido heróico muito mais sentido religioso, sobretudo se o protocolo não tivesse tido um desvio como houve na Renascença. E aí naturalmente pelo lado festa, pelo lado vida agradável, pelo lado…

[Vira a fita]

De um lado para outro eles não tinham dúvida, pegavam arcos e setas e saiam correndo pelas salas matando os passarinhos, depois eram mandados para a cozinha para fazer para eles comerem, você vê que não pode se compreender um príncipe da casa de Lorena caçando passarinhos na presença do rei, é qualquer coisa de patriarcal fabuloso, isso deveria ter subsistido em algo nos traços da corte, invariavelmente o traço sacral e o traço guerreiro foi desaparecendo, no fundo a monarquia ainda existia, mas existia pouco. Por que? Porque era a França da Renascença. E a corte com isso perdendo seu sentido de seriedade, de sacrifício, de imolação, de bem comum que era a nota da corte antigamente, e passando a ser um grande clube para as folias da nação, para as folias da aristocracia.

(Sr. Gonzalo Laraín: Mas, o senhor tem idéia como seria.)

Quer dizer, eu não cheguei a imaginar, mas tenho os pontos de referência para orientar isso. Isso graças a Nossa Senhora tenho. Com o desdobrar das circunstâncias, das ocasiões eu creio que seria muito bem.

Bem, agora, esse aspecto da corte como lugar de pagodeira deu no [pio?] [pior] que é lugar de namoro. Bem, ainda se fosse um namoro para casar ainda estava, não era a finalidade principal da corte, mas se compreende que era uma ocasião onde jovens de uma mesma sociedade pudessem se encontrar e cogitar de fazer um casamento proporcionado, virtuoso, igual, se compreende.

Bom, mas o pior é que era muitas vezes o lugar do concubinato, do adultério, etc., etc. E aí em grandes quantidades depois com alguma coisa de aberrar, por exemplo, o duque… [faltam palavras] …de [Órlenas?] [Órleans] irmão de Luis XIV, segundo todo mundo sabe, vivia em concubinato com o cavaleiro da casa de Lorena.

Todo mundo sabia, ele era casado, ele teve uma descendência, da qual provém D. Bertrand por exemplo, D. Luis, tudo o mais, ele teve uma descendência, mas ao par disso, ele era concubino do cavaleiro de Lorena, era um príncipe da casa de [Loraine?] [Lorena], chamado “Chevalier” por concessões também nobiliárquicas, era cavaleiro da Ordem de Malta, uma coisa assim, ele era chamado “Chevalier de Lorraine”. Mas, você compreende que aí a coisa já chega à aberração.

Bem, e depois outra coisa que deformou muito as cortes foi que Luis XIV para manter a nobreza bem jugulada quase que ele a impedia de ir as suas respectivas terras. Bem, e o resultado é que as terras rendiam insuficientemente o a manutenção dessas nobrezas. E então, ele por outro lado exigia que todos luxassem muito, gastando mais do que as pessoas tinham, e ficavam devendo, vivendo de doações dele. De maneira que você tinha então mendigos, vestidos de sedas, e disso, etc., homens mais brilhantes da Europa, mas mendigos, se o rei não desse, sem data fixa, quando queria, o dinheiro para eles pagarem as dívidas, eles caiam na miséria.

Bom, então perdiam as suas raízes no interior, perdiam o gosto da vida no campo, perdiam a ligação com a agricultura que era o fundamento deles, e perdiam um certo lastro para ficarem meramente figuras de minueto.

Bem, você vê aí mil, depois abusos da realeza nesse ponto, acabou mal, os próprios bispos em quantidade moravam em Paris, e tinham bispos auxiliares, homens de categoria muito menor para ficar dirigindo a diocese. Saint Simon dizia: “le Valet Mitré”, os lacaios com mitra que ficavam governando para eles o interior. Eles moravam na corte, eram “abés” que dançavam, cardeais de tudo o mais, não tem propósito. Quer dizer, uma decadência, uma deformação horrível que fez muito mais a favor da Revolução Francesa do que fizeram Voltaire, Diderot D’alambert e tudo o mais.

(Sr. Gonzalo Laraín: Como seria a corte ideal no Reino de Maria.)

A primeira coisa que é preciso considerar é a seguinte, nós não devemos nos pôr no seguinte falso princípio. Como uma corte é capaz de se desvirtuar assim, é preciso fazer leis de caráter quase penal para impedir uma corte de ser assim. Se é assim está tudo liquidado. Você chegar para uma marquesa e dizer: marquesa a senhora vai para a Bastilha se não fizer agora tantas reverências, isso não é corte, nem pensemos nisso.

Bem, o que supõe uma nobreza profundamente católica, e uma dinastia profundamente católica que a partir do momento em que deixe de ser, cria uma situação irremediável que só pode ir para a decadência, e cuja solução é que volte a ser profundamente católica.

Bem, aqui você já vê o que eu dizer agora. O laço feudal é formado fundamentalmente da lealdade mútua. E a lealdade mútua e uma disposição de alma pelo qual o homem nobre repugna o que não seja leal, pode-se dizer que seria uma das definições do nobre, é o leal.

Bom, pelo que o nobre hierárquico, leal, ama o seu rei, independente de recompensas, independente de punições, a maneira de Santa Tereza a grande dizia de Deus, ainda que não houvesse céu, eu Vos amaria, ainda que não houvesse inferno eu Vos [temera?] [temeria]. É essa posição desinteressada que se supõe numa corte num país, se deixou de haver isso está liquidada. O grande problema é, quando um monarca percebe que a corte está degenerando e que tudo está degenerando por falta de espírito católico, e o Papa também tem falta de espírito católico, o que é que faz o rei?

Ele deixa o seu reino afundar? Ele funda um movimento tipo TFP para trabalhar no seu reino? Me parece à única saída é isso. E que isso suporia portanto, um rei inteligente um rei letrado e capaz de comandar as grandes batalhas de opinião pública.

(Sr. Gonzalo Laraín: Um rei ligado ao profetismo.)

Pelo menos ligado ao profetismo, que é mais ser rei do que qualquer outra coisa. Eu estou lendo agora as memórias de Meternich e estou exatamente nesse ponto, está pouco antes da Revolução de 1830 que depôs os Bourbons legítimos e “encumbrou” um canalha. Bem, Meternich diz, o quadro que eu tenho diante dos olhos — depois de ter lutado 15 anos depois da queda de Napoleão, para esmagar a Revolução — é de uma Europa colocada num incêndio universal. Esta situação está assim muito mais por culpa dos reis do que dos revolucionários, porque os reis não compreenderam o que eles deveriam fazer contra a situação.

E a carta mais recente que eu li dele, uma carta para o embaixador da Prússia, o rei da Prússia era nesse tempo muito seguidor dele, amigo do imperador da Áustria, depois não houve mais disso. Bem, ele mandava uma carta para explicar um artigo que ele tinha mandado publicar no jornal de Viena a respeito de um problema de guerra turca, umas coisas que tinha a Rússia pelo meio, todo um caso, ele mandava publicar, mas dava o embaixador explicar porque é que ele tinha feito aquele artigo. Você está vendo a imprensa batendo na porta da corte e que obrigava um ministro de um imperador poderoso escrever a um ministro de uma nação militar poderosa, explicando a razão de um artigo no jornal.

Mas Meternich começava a entrar no jogo de opinião, é uma coisa muito interessante, nas vidas de Veuliot figura começando, o Meternich acompanhando a opinião pública tão bem que escreve uma carta elogiando, muito interessante. Aliás, o Veuliot escreveu uma carta chamejante para ele agradecendo.

Bem, mas homens assim têm qualquer coisa de um pouco profético, e sem isto é inútil pensar em fazer uma constituição com o artigo 9º mandamento não sei o que, nós não acreditamos nisso e nem vale a pena falar. Então fica isso indicado como cabeça de ponte para uma conversa no sábado que vem.

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