Conversa
de Sábado à Noite – 19/12/1987 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 19/12/1987 — Sábado [VF 056-JC018] (Neimar Demétrio)
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…por causa da vibração de tanta máquina dessa bomba de gasolina…
(Sr. –: Está bem assim?)
Não, eu acho que o ângulo do braço direito do Guerreiro está um pouco baixo… aí está bem, eu acho.
Bom, mas vamos aos nossos temas, em vez de tratar do…
(Sr. Guerreiro Dantas: Essa sala tem um grau de luminosidade muito próprio a ela.)
Muito próprio a ela. Eu estava estranhando, mas eu não pegava o fio da meada, onde estava o errado do negócio. Meio tomado pela conversa, também ia deixando zupar o negócio. Mas então, o que é que me contam?…
(…)
Na monarquia gótica tinha o fato de que ela era a explicitação de alguma coisa que implicitamente era muito maior na cabeça daquela gente. E que ela não pode ser vista, portanto, como o paradigma, ela como foi não pode ser vista como o paradigma daquilo que o gótico tinha na cabeça quando ele falava de monarquia. Porque o que ele tinha na cabeça, ele tinha muito mais, aquilo foi se realizando com o tempo; depois vieram os acontecimentos e a coisa não se realizou por inteiro.
Depois se deu o fato também que, paradoxalmente, em parte, ela ficou encolhida, uma ânfora fechada, mas em parte ela continuou a se desenvolver no Ancien Regime. Ela, no Ancien Regime, ela explicitou coisas que havia na monarquia gótica, já inicial; ela explicitou coisas que no gótico não estavam explicitadas.
De maneira que o Ancien Regime tem alguns elementos da monarquia perfeita, o gótico tem outros elementos de monarquia perfeita mais preciosos, mais importantes, mas o mais importante é o que o gótico tinha implícito, que a monarquia no Ancien Regime herdou em parte implícito. E que a gesta ou a lenda da monarquia tem implícita na alma dos povos. Quer dizer, a alma dos povos, sobretudo os povos do Ocidente, tem implícita alguma coisa sobre a monarquia que ainda é o velho tesouro de implicitudes pré-medieval, que ficou e que não foi esgotado, não foi aproveitado inteiramente.
De maneira que se nós quiséssemos remontar bem ao ponto de origem para nós sabermos… Então, bem no ponto de origem perceber — como quem na base de um leque percebe — toda a abertura que vai ter, também no ponto de origem perceber todas as possibilidades de abertura que tem, nós deveríamos ir aí. E aí nós compreenderíamos mil coisas, que sem isso não se entendem.
Aliás, eu acho que isso aí é uma… o que eu vou dizer agora é uma espécie de método de trabalho que se aplica a muitas outras coisas da História, e que dão à História uma riqueza e uma beleza que, quando não se utiliza esse método, não se compreende bem. E tem por detrás assim uns cinco minutos de teoria, “teoria”, mas que a gente vai ver depois… Quer dizer, nós devemos dar o fato histórico como ele se apresenta.
Quando eu na Comissão dos Médicos quis estudar a sociedade patriarcal — aquilo ficou um pouco pelo ar, podia ter se desenvolvido muito mais —, eu tinha em vista o seguinte: que na era patriarcal, que era uma era na qual deveria nascer muitas coisas para os homens depois, havia tesouros implícitos no modo de entender uma porção de coisas, e que estava implícita muito mais coisas do que nasceu de fato, e que se a gente recorrer aquelas implicitudes, a gente compreende muito do que se deu depois. Mas também compreende-se muito do que não foi dado depois porque os homens não tiveram altura, não souberam explicitar. E aí a gente tem um elemento precioso para o Reino de Maria.
Eu creio que na graça do “Grand Retour”, as implicitudes desse gênero vão ser muito avivadas e o homem vai conseguir explicitar. Aqui o que eu vou tentar fazer é alguma coisa da explicitação. É por aí que eu iria.
Então você tem na História uma espécie de duplo movimento, que é convergente na origem, mas é divergente na marcha.
O homem na era patriarcal tem uma porção de coisas implícitas que ele vai realizando. Mas, à medida que ele realiza, a coisa vai baixando; a imagem do que ele faz diminui nele a implicitude que ele tinha daquilo, como que esvazia aquilo.
Eu dou um exemplo. Imagine por exemplo, um pintor que compõe um panorama… Há pintores que fazem isso, eles compõem os panoramas, o panorama não existe, ele imagina… Eu, aliás, sou muito simpático a essa escola. Bem, compõe então um panorama e nesse panorama se esgota grande parte do que ele tinha na cabeça de um mundo possível. Mas quando ele compôs o panorama, aquele panorama possível que havia na cabeça dele era mais rico do que ele consegue pintar. Mas o que ele tinha na cabeça se esgota no que ele pintou; e aquele possível, ele só saberá rever um pouco no que ele pintou. Há uma exaustão.
(Sr. Guerreiro Dantas: Daí o problema dos nascimentos prematuros que não devem ocorrer.)
Isso. E também — que é a coisa mais delicada — dos nascimentos incompletos. O sujeito não pôs no quadro tudo o que tinha que pôr, por relaxamento, mil coisas, porque não conseguiu, porque pintou prematuramente, mas aquilo não saiu inteiro. Mas ele pintando uma parte esquece-se da parte que ele não pintou. E isso é horrível, hein?! Do indivíduo…
Vamos dizer, por exemplo, o indivíduo, ao pé da letra…
(…)
Não é que seja um defeito da construção da vida humana, é esse fenômeno que eu estou dizendo, que o indivíduo quando chega ao vértice, ele chega de um jeito, quando ele chega lá em cima, ele não conserva na cabeça tudo quanto ele tinha e, portanto, ele fica defraudado naquele vértice, mas é culpa dele. É um fenômeno, é muito bonito…
Bem, e na era patriarcal eu tenho impressão que os homens levavam oceanos de implicitude a respeito do que seria a sociedade humana, a história humana, porque eles sabiam no começo. Eles entendiam mil coisas e — em parte pelo desabrochar normal da natureza — que nem tudo na natureza é mal, muita coisa na natureza é bom. Por causa disso em parte. Em parte pela graça, para os povos que permaneciam em ordem com Deus, na religião primitiva e sucessivamente… Tudo isso tinha uma grandeza e uma beleza, etc., etc., que depois foi se apagando. Mas é muito bonito você imaginar que no Reino de Maria ressurja!
E ressurja como? Como ressurgem as coisas quando a graça age. Quer dizer, alguma coisa fica falho, mas a graça dá por meio sobrenatural mais do que fica falho! Não sei se está claro este aspecto da questão ou não?
(Sr. –: Está muito bem.)
Bem, então nós devemos ir às origens patriarcais do reinar, quer dizer, prévio a função do rei e no momento em que a função do rei nasce, em que a função de rei é explicitada pela História, quais são todos os imponderáveis que a função de rei traz consigo. Donde você tem qualquer coisa de muito maior do que os reizinhos da Grécia. Para designar esses reis pequenos, os franceses têm uma expressão depreciativa muito interessantes: “Le roitelet”, os régulos. Ali já há qualquer coisa de meio… uma figura mítica e patriarcal, meio um régulo já, um rei de aldeia, já está misturado. Porque a distonia começou a se realizar, e até violentamente, em muitos casos, etc., etc.
Então você pega, por exemplo, Ulisses… Eu tive um susto, pensei que fosse falar do Ulisses Guimarães… Mas o fato concreto é o seguinte: você pega o Ulisses, quando a gente se lembra que ele era rei, dá até uma espécie de decepção. Porque é de tal maneira um rei de aldeia, e, portanto, quase um prefeito de Pirioca, sei lá, qualquer lugar aqui no Brasil que a gente…
Depois compreende, afinal um rei, etc., etc., vá lá. Mas na origem não é. O mais engraçado é o seguinte: tanto fica na mente dos homens alguma coisa desse primitivo, que nós, retrospectivamente, todos fazemos uma idéia do patriarca que é uma idéia que é uma grandeza maior do que todos os patriarcas tiveram. É uma coisa curiosa. Os patriarcas históricos, de que a gente tem notícia. Por que? Porque há uma coisa da natureza humana que pediria patriarcas que a legenda criou, porque os homens não realizaram inteiramente.
É essa legenda que é uma espécie de remédio para a gente conseguir viver. É uma teoria lindíssima, e que explica um tanto da orfandade do homem, porque o homem é órfão de tudo aquilo que ele não fez. Ele é órfão de tudo quanto ele não criou. Ele é meio pai e meio filho daquilo que ele não fez. É um pai frustrado e um filho órfão daquilo que ele não fez.
E o bonito é quando o homem consegue juntar na sua realidade atual ao quadro patriarcal primeiro, até de si próprio; e daí para fora, lá vai, lá vai… até o infinito.
Então, nossa primeira visualização, originária, é que eu vou me situar agora para começar a descrição.
Bem, a coisa se põe assim. Eu vou descrever o patriarca como eu o imagino, e que é naturalmente uma explicitação de… Nós somos descendentes de milhares de patriarcas pelas confluências das hereditariedades, do sangue, etc., alguma coisa que naturalmente me ficou na cabeça, e que é o subconsciente que não se revelou inteiramente nos que me antecederam, foram os vínculos, os elos que a História sabiamente não quis registrar, porque não registra um qualquer dos antepassados que me ligam a esses patriarcas.
Mas eu imagino a figura perfeita de um patriarca — eu a descrevi uma vez na Comissão Médica — eu imagino assim. Numa tribo, naturalmente de brancos, que está passando do nomadismo, mas passando já [avançadamente] para a fixidez, e que, portanto, já vai constituindo… tem rebanhos, vive da agricultura; o povoado que ela tende a construir se forma em casas ainda muito efêmeras, num lugar muito poético, com muita beleza, num panorama, vamos dizer, discretamente montanhoso, mas com uma planície a perder de vista em torno de si; um rio, um lago, uns acidentes geográficos harmoniosos, mas desses que não ambicionam dominar o homem, que o homem também não precisa estar de faca na mão contra o panorama para não se sentir diminuído, mas é um lugar aprazível, agradável assim. E vários do povoado nem moram no povoado, moram isolados numa casa… — nem é casa! —, numa choupana, noutra, noutra, etc., e ele é o primeiro a acordar de manhã, é o quarto ou quinto avô da bebezada que está na casa dos pais, em berços feitos de cuia, nem sei do quê, chorando, batendo o pé e acordando.
O patriarca sai, tem uma barba branca, tem cabelos brancos, mas ainda não completamente prateados. Ele ainda conserva, pela soma das idades, ele ainda conserva o vigor do jovem, meio enrubescendo a face dele de homem já sulcada pelo pensamento. Plutôt alto e com uma túnica branca, simples, sem nenhum ornato, mas está nele que… Sem ele ter idéia de como é uma túnica bem cortada, as túnicas que vão para ele são bem cortadas, e caem nele como se fosse de bibelôt clássico!
Ele chega de manhã, toma um daqueles chifres furados, de bicho: “pam-pam, pampampam…” e compõe a primeira música do despertar daquela gente. Todo mundo se acorda, começa a trabalhar. Mas os que estão menos longe dele já começam a ir pedir a benção, etc. Uma certa hora, quando todo mundo está de pé, antes do trabalho começar reúnem-se e ele, sobre um altar muito simples, de pedra, ele imola um sacrifício. A manhã ainda está rosada, os passarinhos já estão cantando na galharia… os carneiros começam já a [belar?] [berrar], as cabras a fazer relincho… enfim, a natureza toda está falando. E ele oferece um sacrifício, reza a Deus, pede, etc., etc. Todos estão em torno dele. E depois ele faz um sinal, que ainda não é o da Cruz, porque a cruz não tinha sido glorificada por Nosso Senhor Jesus Cristo, mas ele faz um sinal qualquer, um gesto harmonioso e bonito das mãos, etc., diz umas palavras e todo mundo começa a trabalhar.
Ele volta para a tenda dele. Fica sentado na porta da tenda pensando, observando, dando conselhos a quem pede, mandando recados a quem lhe ocorre, até que a Rebeca dele preparou uma primeira refeição. Aí então o dia está inteiramente começado, e é meio-dia. Nova oração. Ele mesmo soa o meio-dia para todos, nova oração, todo mundo vai para sua casa, come. E essa é a vida do patriarca.
Mas também ele recebe a comunicação da guerra, dos adversários que vão chegar, dos desafios… O Itamaraty primitivo e grandioso está todo contido nele. Ele manda mensagens, são notas diplomáticas, mas só que sob a forma de parábolas: “Diga que a hora em que cantar o galo, ou a hora em que não sei o quê, vai acontecer tal coisa, etc., etc. E os habitantes da região florida de não sei o que invadirão, etc., se ele não fizer tal coisa assim, tá, tá, tá, tá…”
E se houver guerra, ele é o mais forte, ele vai na frente, e ainda é o modelo dos combatentes.
Bem, o que é esse homem? No fundo é um pouco profeta! É um profeta da ordem temporal, um tanto, um tanto da ordem espiritual, o tal enquanto tal se fundem nele, e ele é sacerdote, pontífice e é profeta, porque Deus faz dele e dos da estirpe dele, aqueles em que vai desabrochando o futuro da tribo. Como vai ser o homem paradigmático? É ele! É o que aquela tribo pode dar de mais extraordinário, realizando-se nele. E se ele for um varão de benção, o filho dele valerá mais do que ele, e o neto dele mais do que ele, e se a descendência seguir nessa escalada, a benção inicial da tribo, eles são portadores dessa benção como se levassem uma estrela na mão, ao longo da História. É como eu vejo isso. E, portanto, eles [são os] que têm uma arte de governar que é uma espécie de intuição profética dada por Deus de como as coisas devem se desenvolver. Não é propriamente do que vai acontecer; o que vai acontecer são os imprevistos da história. Isto um profeta do Antigo Testamento podia prever, um profeta propriamente dito. Eles não. Eles têm um senso, eles têm uma intuição de como a coisa deve ser se ela se desenvolver normalmente, como é que todos eles devem ser, do ideal que Deus teve ao criar aquela tribo, ao criar uma ordem natural da qual as tribos nascessem, e daquela em concreto, o que é que Deus teve em vista ali.
E se eles correspondem bem, o que é que eles serão nesse firmamento de tribos que Deus está constituindo, e que eles intuem vagamente que vai dar em familias de nações?
Bem, nessa concepção se encaixam mil coisas. Por exemplo, agora houve uma comemoração, eu até fico com pena de não ter guardado esse discurso, eu amanhã se Deus quiser me lembro e peço ao Átila, porque o Átila guarda o “Point de Vue”, mas no “Point de Vue” publicou-se isso: um discurso comemorativo dos capetíngios… foi ou na Academia de Letras da França…
(Sr. Fernando Antúnez: Está no jornal-falado que o senhor vai ler na semana que vem.)
Ah, é verdade está naquilo. Um acadêmico que disse o seguinte; um acadêmico que saudando — estava lá um ministro de um ministério qualquer do Mitterrand, e o Conde de Paris, como pessoas de honra do milenário Capetíngio —, e o que saudava dizia: “A dinastia dos Capetíngios é uma grande dinastia, etc., etc. O que é que ela produziu? Ela deu a idéia da França. A idéia da França nasceu deles.”
Depois dizia uma coisa qualquer…
(Sr. Fernando Antúnez: Que depois que a França se afastou dessa idéia impressa por eles, que ela deixou de ser a França…)
E conheceu toda espécie de desgraças. Mas tem uma outra coisa que a França também… uma coisa… não é o idioma, mas é uma coisa assim. Os Capetíngios foram isso. Eu acho uma coisa impressionantíssima. Eu vi que você ficou arrepiado mas é mesmo.
(Sr. Paulo Henrique Chaves: Ilustra inteiramente o que o senhor acabou de dizer.)
Inteiramente. Quer dizer, a teoria toda que torna isso verdade é esse ponto, é o que eu acabo de dar.
Bem, e é uma coisa curiosa, mas Deus, com essas estirpes assim, Ele conserva um pacto que é quase desconcertante. Mas Deus tem suas fidelidades aos homens, Ele tem todas as fidelidades, Ele é perfeito, e tem também obstinações sacrossantas: Ele escolheu alguma dinastia para ser alguma coisa, a dinastia pinta o caneco, no fim, Deus ainda está pondo a mão sobre aquela dinastia para realizar o plano primitivo.
Veja, por exemplo, com David. Olha que, Saul, Ele varreu com a mão, hein! Saul tinha um bom filho, parece que chamava Jonatas, que ajudou David a subir ao trono —podia estar moído de inveja, pelo contrário ajudou David a subir ao trono —, e é um grande legitimista1. Mas a dinastia de David teve David — assim mesmo David fez das suas — teve David, mas depois é uma série de gente que não presta, mas dela nasceu o Eleito! É uma coisa incrível, mas dela nasceu o Eleito. A Eleita e o Eleito!
Bem, então depois essas dinastias conservam isso.
Mas, voltando à tribo, a família que toma a dianteira na tribo se destaca na tribo mais ou menos como [se] um desenho feito na parede pudesse destacar-se e constituir um relevo, e depois esse relevo destacar-se e constituir-se em uma estátua. Assim também no magma inicial da tribo, uma determinada estirpe se destaca e constitui patriarcas. E se tudo for fiel, daí se destacam e constituem o rei.
Mas esse indirizzo inicial da dinastia, esse rumo, esse senso da direção que parece que reside aqui, e quando o sujeito perde ele fica… há uma doença, labirintite…
(…)
…a começar pela idéia inicial da realeza, e que se conserva enquanto o povo não é privado de reis, ou a dinastia não deixa de merecer a confiança. Quer dizer, eu percebo que isso pode parecer… mas eu tenho impressão de que se uma pessoa quisesse fazer um comentário exato das Encíclicas, da Encíclica de Leão XIII sobre o “Ralliement”, deveria levantar isso. Porque aí é que… Porque…que labirintite é essa?
Então, isso dito, fica neles, dentro da cabeça deles, em torno da cabeça deles, como um elo invisível, uma espécie de poeira dourada, fica uma coisa que as piores defecções deles não apagam, até chegar o momento em que a Providência declara: Cessou! Porque depois que declara “cessou”, também não adianta porque cessou mesmo; os paroxismos restauracionais mais furiosos não adiantam nada, aquilo se perde mesmo, os traços desaparecem mesmo, não valem mais nada e acabou. Foi rejeitado por Deus e acabou! Não tem mais conversa.
Por exemplo, isso do Maurice Paleologue dizer que ele descende dos imperadores romanos do Oriente, “je le veux bien…” mas o que querem? Ele não é um príncipe, ele é um escritor! É um grande escritor, um delicioso escritor, mas nem mais ele é grego, nem mais ele é príncipe. Ele é um escritor francês.
(Sr. Nelson Fragelli: Com os Bourbons o senhor acha que aconteceu isso?)
É uma coisa curiosa: o perigo para eles, no caso concreto deles, e talvez de muitos outros, o perigo concreto é deixar desaparecerem contestatórios. No dia em que ninguém se atrever a ser eles, eu tenho impressão que eles morrem. No dia em que ninguém se atrever a disputar o direito a eles, é possível que eles evanesçam.
(Sr. Gonzalo Laraín: Eles precisam ser contestados então?)
Não, é uma outra coisa. Deus não permite que um indivíduo de Sua própria escolha suceda a eles, escolhido por Si mesmo suceda a eles. Napoleão por exemplo. E enquanto houver aventureiros, Deus conserva-os com o resto de legitimidade para impedir que um aventureiro suba. Mas na hora em que não haja mais aventureiros, Deus diz ao chapéu do homem que conserva a cadeira: “Joga no lixo que esse é um chapéu velho.”
(Sr. Poli: Daí elege outro…)
Que é o legítimo.
(Sr. Mário Navarro e Sr. Gonzalo Laraín não estão entendendo. Não continuam os Bourbons?)
Enquanto não cessarem os que querem o trono para si.
(Sr. Mário Navarro: Mas se aparecer um que seja para eles o que Carlos Martel ou Pepino o breve foram para os merovíngios?)
Aí acabou.
(Sr. Mário Navarro: Não é um aventureiro, mas é uma pessoa que tenha a marca Providencial…)
Aí que está… precisa ter a marca. Assim como da tribo, sai do solo da tribo o patriarca, assim sai do solo da nação a dinastia. Mas que na qual entra, em última análise, uma escolha de Deus.
(Sr. Mário Navarro: O problema não é tanto os aventureiros, mas é a ausência de alguém com essa marca.)
Está ausente alguém com essa marca, porque Deus não quis ainda substituir. Então eles vão ficando. Não é legítimo tirá-los. Então, nesse sentido, eles têm uma certa legitimidade.
(Sr. Mário Navarro: Pela ausência de um desígnio da Providência para trocar. Quase como…)
Como um chapéu ocupando a cadeira de um outro…
(…)
…apanhada a realidade, porque isto que nós estamos fazendo é real hein! Vocês estão notando que nada disso é fantasia, nada é sonho. Naturalmente que essa cachorrada que mora por aí vai dizer outra coisa, dizer que é um sonho. Mas isso é porque eles não sabem o que é pensar. Eles só sabem o que é sonhar. Sonham besteira. Mas isso eu considero pensar…
(…)
Se toda essa construção é aceita, o resultado é que há pessoas que carregam dentro de si todo o sentido de uma obra, todo o sentido de uma país, de uma nação, de um futuro, etc., e que vão realizando isso gradualmente, a seu modo, etc., etc., e que a isto corresponde uma posição deles perante Deus, por onde no olhar de Deus eles são vistos de um modo especial. E é de algum modo no olhar de Deus pousando sobre eles, que constitui uma espécie de superioridade misteriosa que eles têm, e que faz com que a gente diga: “Ali está.”
A gente vai ver a que isto tudo se reduz, é a luz do olhar de Deus olhando para eles. Não é o olhar da Providência geral, é o olhar de uma Providência muito especial. E mais ainda, é Deus enquanto querendo levar a perfeição, o universo que Ele fez, e que Ele escolheu aquela estirpe, aquela linha, aquele homem para simbolizar inteira uma nação que vai nascer; ou que se explicitou, mas que Ele quer reerguer, porque se afundou por uma charneca, ou, ou, ou…
E nesse sentido é muito interessante a posição do — devia se chamar “o cavaleiro da triste figura” — O Rei Carlos VII da França, que era o Rei da Joana d’Arc. E que eu soube — nunca li isso — que historiadores franceses chamam: “Charles, le bien servi”. Passou para a história como “o bem servido”. Ele era um pulha, ele não era nada. Quando eu digo que era um pulha, todo mundo pensa nele antes de conhecer Santa Joana d’Arc. Não é não. É pensar nele depois de ter conhecido Santa Joana d’Arc, deixando-a queimar, sem intervir diplomaticamente, e por processos, por modos, para salvá-la da fogueira; ordenando uma batalha para tomar aquela porcaria daquela cidade, e salvá-la, libertá-la. Fazer por ela o que ela fez por ele!
(Sr. Mário Navarro: Era para ele ir e se entregar como refém.)
Qualquer coisa, menos aquilo. A gente vê que não passou pela cabeça dele…!
(…)
Essa noção dos sentidos paradigmáticos em que a nação, entendendo como nação o povo, a sociedade, o Estado, devem dirigir-se, é esse sentido que vocês vão ver, e realmente esse francês tinha razão, todas as dinastias, as grandes dinastias tiveram. A gente vai vê-las em relação ao povo, todas as grandes dinastias tiveram.
(Sr. Mário Navarro: Tiveram propriamente o quê então?)
Esse sentido do que era o pólo paradigmático do todo ramo de atividade em que eles entram. E que se comunica quase que por uma coisa parecida com a imantação.
(Sr. Nelson Fragelli: Como uma dinastia tem isso?)
É mais um fenômeno natural, meio um fenômeno sobrenatural. Por onde, por exemplo, eles dão origem aos homens paradigmáticos, decorrente do olhar de Deus sobre eles, através da natureza e através da graça. Deus é autor da natureza e Ele pode fazer convergir sobre uma linhagem certos privilégios da natureza.
(Sr. Nelson Fragelli: Eles têm uma noção do seu povo como o senhor tem do Reino de Maria?)
Muito mais vaga, muito mais intuitiva, mas de fato têm. Eles sem perceberem, eles olham para o caminho e percebem, têm impressão…
[Vira a fita]
…eles olham para um caminho e pensam que estão [olhando claro?][vendo claro]… De fato o caminho está iluminado. Para onde eles olham, o caminho está iluminado, mas eles não percebem que é o olhar de Deus, olhando para os olhos deles, que [faz] eles verem claro. É mais ou menos como se eles fossem cegos e tivessem no lugar dos olhos, das esferas oculares, dois espelhos. O caminho se reflete no espelho, mas eles não têm olhos. É um caminho iluminado pela luz de Deus. Instintivamente eles vão se dirigindo para lá, a menos que se revoltem… aí então sai o que você sabe.
(Sr. Nelson Fragelli: Mas isso se desdobra neles em todos os detalhes do comando de um povo: exército, hierarquia espiritual, etc.)
Não, mas veja bem hein! É sobretudo um sentir do convívio da sociedade que constitui o país. Não quero dizer a alta sociedade não, eu quero dizer o conjunto social que constitui um país. O corpo social que constitui um país. Esse corpo social, eles ocupam nesse corpo um lugar único que trava relações únicas, que se eles quiserem levar tudo isso para Deus, é um potencial fabuloso!
(…)
(Sr. Gonzalo Laraín: O senhor deve estar cansado também.)
Não, pelo contrário. Eu descanso. Porque carregar essas ânforas e nunca destampá-las pesa… Pesa… Para usar a imagem desse meu filho aí…
(Sr. Guerreiro Dantas: A imagem de Homero!! Hahaha!)
Mas saber escolher nas prateleiras do Homero a ânfora certa… hahahaa! É alguma coisa.
Mas afinal, seja como for, então a gente vê que isso no patriarca luzia de determinado modo, mas que quando passou do patriarca para o monarca, e que a tribo evoluiu para o Estado, Estado incipiente, Estado urbano, Estado inicial, alguma coisa se consolidou, e aquilo que era uma coisa de cartilagem, virou osso. E aí nasceu o mando.
Por que… qual é a evolução que houve? Foi que… foi preciso uma soma de poderes políticos, administrativos e outros, para gerir a nova entidade na qual tinha… para a qual se desdobrara a realidade anterior que é o Estado. Bem, então nasceu o mando. Mas o mando torna mais evidente aos homens aquilo que a Providência… E aqui entra uma coisa puramente conjetural, mas que tem “pulchritudes” de toda ordem, as coisas que a Providência não permite que o homem explicite antes de chegar à hora histórica.
Tudo isso eu acho que a humanidade passou…
(…)
E daí o fato de o mando ser símbolo deste outro primado que tem por detrás, mais subtil, mais alto e que não é governo, é o reino. Mas então o mando é um símbolo, nós não podemos perder a vista.
(Sr. Guerreiro Dantas: O mando, o senhor se refere ao cetro?)
Ao cetro. A coroa e o cetro são os símbolos. Mas é coisa curiosa que… você prestando atenção a essa simbologia nota que o cetro representa propriamente o poder do Estado, simbolicamente; a coroa representa tudo isso outro que eu falei, e se cinge à cabeça, a fronte, e que são os pensamentos, as cogitações. Não é o rei enquanto mandando, é o rei enquanto cogitando previamente ao mandar.
(Sr. Gonzalo Laraín: É o olhar de Deus.)
O olhar de Deus, etc., está na coroa. E os homens…depois, você vê que é! E tanto é que os homens quando falam do rei, eles podem dizer simbolicamente: “A coroa quis”. Ninguém diz: “O cetro quis.” É assim! É assim.
Agora, essa explicitação que eu estou dando, explica então porque razão na forma de governo monárquica é toda ela cercada de uma nevoa dourada… porque ela é uma continuação de tudo isso. Enquanto nas cidades que se organizam legitimamente segundo o Direito Natural, em forma republicana, não tem isso, porque não é fruto daquela evolução! A continuidade histórica perdeu-se.
(Sr. Guerreiro Dantas: Que desgraça, portanto, é isso.)
Que desgraça ou é uma ventura menor. É uma ventura menor. Eles são bem-aventurados porque nasceram, porque existem, porque fazem circular mercadorias, porque tem uma burguesia virtuosa, com senhoras gordas, pacatonas, que fazem tricô em casa; maridos que comerciam no andar térreo da casa…
(Sr. Guerreiro Dantas: É um mundo legítimo, mas em preto e branco.)
É, isso, exatamente. É um pouco o Limbo em comparação com o Céu!
(Sr. Mário Navarro: É o estado que a Suíça escolheu em plena Idade Média.)
É. E ela realmente não tem esses reluzimentos. Você pega, por exemplo, um sujeito que é [Stadholden?] da Holanda, em tal época assim, dos Países Baixos, [Stadholden?] dos Países Baixos em tal época assim: você vê um burguesão… Rembrandt pode ter pintado a ele, pode ter acontecido muita coisa. Mas… são coisas distintas, são coisas diversas.
Agora, o que é muito bonito, para descrever a coisa no seu todo, é que quando se forma o Estado em toda sua amplitude, a pessoa do Rei não cobre suficientemente a toda extensão do Estado. Tanto é que [o] Guerreiro estava falando da conveniência que haveria em que uma dinastia tivesse 7, 8, 10 príncipes, para cobrir tudo isso.
(Sr. –: Sobretudo num país grande.)
Sobretudo num país grande.
Aí a Providência atua de dois modos: às vezes, Ela não fez nascer da região um chefe natural, Ela faz um príncipe da dinastia receber aquela região como apanágio. Mas ele ali forma uma dinastia… e essa dinastia assume, ela vem com a capacidade de respirar e de entender toda a região, e assumir com a região um vínculo como o de um Patriarca!
Bem, mas muitas vezes não é isso. É a própria região, do solo da região, se forma por via patriarcal uma dinastia ou toda uma aristocracia, que preenche na região o papel de uma dinastia local, numa esfera inferior, mas se quiserem, toda de prata e não de ouro, mas é de metal nobre.
Aí vocês tem o fundo da aristocracia: é em nível local, depois em nível micro-local, que vocês têm gente que com uma autenticidade e com uma força, representa a região, que é uma coisa extraordinária!
Voltaire tem uma coisa em que ele faz a sátira da pequena nobreza, e mostra os nobrezinhos pequenininhos caminhando para Versailles, onde eles na corte tinham o direito de exercer um certo papel. Então era M. de Cerisier, M. de Colombier, e M. de… qualquer outra coisa. Enfim, era M. de Dulac… Então é isso mesmo; uma cerejeira, e o homem é senhor só daquilo; outro é senhor de um pombal, e outro é senhor de um laguinho. E vão em 3 [cavaliqoques?] [chevaliquoques] prestar seu serviço ao Rei.
Bem, o que esses levam de sulco vital, de Cerisier, de Colombier, e du Lao, vamos dizer, a besta do Voltaire não era capaz de ver. Bem, mas é no Brasil o coronelato. Os barões do tempo do Império, e o coronelato do tempo da República eram isso.
(Sr. Paulo Henrique Chaves: E que acabou inteiramente.)
Foi. E resultado é esse interior vazio!
(Sr. Paulo Henrique Chaves: Viajando por aí a gente percebe até pelo asfalto da cidade que aquilo está se desfazendo.)
É isso mesmo, tal qual. Concordo com você totalmente. Não, e Morungaba me dá impressão que é isso. Eu visitei Morungaba, estive lá, vi, visitei a Paróquia, olhei para a Casa Paroquial, olhei para tudo…
(…)
Eu volto à doutrina inicial. Vocês estão vendo que isso aqui dá uma espécie de fusão da Igreja com o Estado. Isso, Deus age de um modo sobre a natureza, de outro modo mediante a graça. Isto é Ele agindo mediante as leis da natureza. Até Se escondendo por detrás das leis da natureza. De maneira que gente precisa ter fé para compreender a ação especial que Ele está exercendo ali, onde entra qualquer coisa de muito precioso da graça.
Mas a gente compreende aí, por excelência, porque é que o rei, e o que é que ele lucra, em todo esse “hinterland” que ele tem na cabeça, o que é que ele lucra sendo sagrado: porque é a ordem sobrenatural da graça pousando sobre a maravilha natural que Deus fez com aquilo, e mais uns fragmentos, por assim dizer, de graças que reluzem naquilo. E as coisas congêneres, porque vêem de Deus, como se fossem as duas mãos de Deus que se encontrassem antes de abençoar, Deus assim faz com esse poder público instituindo uma sagração, e isso, e isso, e ungindo, etc., etc., e comunicando tudo quanto é próprio a Igreja pôr de sobrenatural naquilo, dado a natureza daquilo.
Então se compreende a sagração de um Rei de França com óleo da santa ampola, que uma pomba trouxe no dia do Batismo do primeiro rei… tudo. Depois, como se encaixa bem, como se compreende…
Vamos dizer, eu não acredito… Eu acredito no fato, que foi isto. Mas vamos dizer, que fosse uma lenda. Que profunda compreensão das coisas existe nessa lenda!
(Sr. Nelson Fragelli: E a cura dos escrufulosos foi até recentemente.)
É, até Carlos X.
(Sr. Guerreiro Dantas: Demonstra que a lenda era sagrada.)
É isso. E essas coisas assim, até aqui, os homens não sabiam explicitar. As lendas procuravam dizer algo. E em última análise, toda a legenda carolíngia é para dizer que ele recebeu tudo isso com uma força extraordinária, quer na ordem da natureza, quer na ordem da graça. Então se contam tais fatos, e aconteceu aquilo, tem um fundo histórico verdadeiro. Por exemplo, a “Chanson de Roland” tem um evidente fundo histórico verdadeiro. Mas com outras coisas que representam a legenda. O que é a legenda? Uma mentira?
Um voltairiano pensa que é isso. Não é. É uma verdade que não sabia se explicitar e que se transformou em legenda para dizer alguma coisa. Eu acho que explica tudo.
Vocês querem ver…
(…)
* * * * *
1) Na jaqueta está entre parênteses e logo após “grande legitimista” o nome de Saul, insinuando que ele era uma grande legitimista. Como não corresponde ao que diz o Sr. Dr. Plinio, não foi colocado este acréscimo do datilógrafo