Conversa
de Sábado à Noite – 28/11/1987 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 28/11/1987 — Sábado [VF 056 e JC 018] (Neimar Demétrio)
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* Como uma engrenagem, por menor que seja, pode atrapalhar um sistema mecânico — “O convívio humano é todo feito de uma imensidade de consonâncias”
Você imagine um mecanismo qualquer que se compusesse de milhares de engrenagens funcionando de tal maneira que uma engrenam nas outras e nas outras, etc. e que daí resultasse um certo efeito mecânico “X” desejado pelo inventor da máquina.
Bom, acontece que se fosse milhares, uma pessoa habituada com os critérios quantitativos de nossa época poderia facilmente dizer o seguinte: uma engrenagem que entre em sentido oposto a este [mecanismo], essa engrenagem não vale nada porque como são milhares e milhares em sentido oposto, essa engrenagem não atrapalha nada. Mas, pode haver um modo de funcionarem, de estarem relacionadas umas com as outras, essas engrenagens, pode ser um modo tal que uma engrenagem, qualquer que ela seja, prejudica o funcionamento do sistema todo. Quer dizer, uma rodinha pode, ela mesma, prejudicar o sistema todo, ou porque que a inter-relação é tal que não admite heterogeneidade, um funcionamento em sentido contrário, ou porque uma determinada rodinha está colocada numa posição tal que ali ela atrapalha de um modo muito especial. As duas coisas podem convergir.
Agora, acontece que o convívio humano, no fundo, é feito de uma imensidade de consonâncias — ele é todo feito de consonâncias —, e antes de serem consonâncias explícitas são consonâncias implícitas. Essas consonâncias a gente sente em tese, não é em torno de um ônibus, mas é vendo passar um ônibus. A gente sente essa consonância nas menores coisinhas, as mais… que prejudicam uma engrenagem geral que é o próprio bem-estar e a própria plenitude do fato chamado “sociedade”.
Bem, eu dou um exemplo minúsculo, mas é assim. Vocês considerem o Brasil como ele é; depois, dentro do Brasil, São Paulo, como é São Paulo, a cidade de São Paulo, e vocês notarão uma coisa curiosa: a cidade, toda ela, é muito “bariolé”, quer dizer, composta de uma variedade de cores, nesse sentido de que não há uma cor predominante para pintar casas, para fazer isso, para fazer aquilo, é uma multidão de cores caóticas, desordenadas e que formam um “varium” — aliás, a meu ver, pouco aprazível — de São Paulo.
* “Para contrariar a engrenagem da Revolução é preciso um brado; para contrariar as engrenagens da Contra-Revolução, basta um sono”
Bem, mas há qualquer coisa no temperamento…
(…)
…pode provocar, e por aí você percebe que a Revolução ou ela toma todas as engrenagens na máquina dela e aí ela consegue iludir, ou se há um que grita: “o rei está nu!”, para ela é a derrota. Por que? Porque uma engrenagem pode…
(…)
Agora a questão [é] que não é gritar de qualquer modo “o rei está nu!”, não é qualquer um, não é de qualquer modo e não é a qualquer momento. Tudo isso é muito delicado, não é? Depois eu compreendo que isso que eu estou dizendo se pode pôr matizações de toda ordem. Agora, se eu vou por os matizes, os contra-fortes de toda ordem, eu não tenho tempo de fazer a reunião. Nós não chegamos a tratar disso a fundo. Uma outra noite que queiram, eu poderia tratar disso mais a fundo, etc., mas eu estou tratando disso só para chegar até a sua resposta.
Agora, acontece que assim exemplificada a máquina da Revolução é preciso exemplificar com a máquina da Contra-Revolução também.
Há um senso “Christie” que faz girar todas as engrenagens das almas, de um determinado modo, de uma determinada forma. Se aparece um, não tanto que negue de um modo escandaloso, mas que durma de modo escandaloso, à vista disso, a engrenagem se desfaz.
Então, para contrariar a engrenagem da Revolução é preciso um brado; para contrariar as engrenagens da Contra-Revolução, basta um sono.
Diga, meu filho.
* “O grande perigo quando a Contra-Revolução é dona não é o da contestação, mas o sono que anestesia e permite a contestação”
(Sr. Nelson Fragelli: Se alguém dorme de um modo escandaloso em relação ao “sensus Christie”?)
Em relação ao “sensus Christie”. É apenas um amortecedor. Mas, se ele é um amortecedor escandaloso em relação ao “sensus Christie”, não tem conversa nenhuma que esse sono se propaga, esse sono se dilui, e que um pode prejudicar mil homens, 1 mil e quinhentos, 2 mil, um ambiente todo, porque não há nada de mais perigoso do que esse. Porque esse abre, depois, caminho para uma situação de complacência, de indulgência, para com o crime declarado quando aparece. O grande perigo quando a Contra-Revolução é dona, o grande perigo não é o da contestação — a contestação provoca revolta —, o grande perigo é o do sono que anestesia e que permite a contestação. Isso, ao meu ver, é uma coisa…não se pode discutir isso, a meu ver é inteiramente assim.
(Sr. Nelson Fragelli: É o sono que anestesia.)
E que prepara, portanto, as indulgências, os otimismos, as tolerâncias, em relação à Revolução. Bom, isso está bem claro, meus caros?
(Sim.)
Bom, agora para nós nos colocarmos bem em face de nossa própria situação, nós devemos considerar o seguinte: que a Revolução conseguiu essa obra fantástica que é que no mundo inteiro depois de quantos séculos de Civilização Cristã desaparecesse completamente da face da terra qualquer organização explícita, consciente, intencional e totalmente contra-revolucionária, voltada especialmente para combater a Revolução. Isso não existe.
Ainda o Caio estava me contando, por exemplo — não vale a pena entrar em pormenores, mas a coisa de si é muito interessante: em “Saint Nicolai de Chardoné” como participa do progressismo — é uma coisa com dados que o Caio deu e deu só uma parte, ele ficou depois de expor mais isto —, mas é expressamente uma espécie de meio termo entre o progressismo e…
(…)
(Dr. Caio Xavier: A reforminha de Pio XII conforme o senhor chamou.)
A reforminha de Pio XII. A reforminha de Pio XII já era progressista, não é? É pré-progressista se quiserem.
* Uma obra que se afirma à luz do mundo com a louçania de uma juventude espantosamente prolongada
Bom, então a situação se cria de tal maneira que a aparente plenipotência da Revolução está em que ela conseguiu exterminar uma coisa completamente. Agora, isso significa também da parte dela o gasto de um empenho fabuloso para conseguir exterminar, porque é evidente que ela matou pelo mundo inteiro uma porção de pequenos focos de Contra-Revolução que ainda existiam, que teimavam por se afirmar, etc., etc., e que ela não matou atacando como ataca a TFP, mas ela matou deteriorando, empurrando para dentro gente que dormia, vozes que adormeciam, mãos que apagavam, todas as formas de sabotagem que faziam com que as coisas se liquidassem dentro de si mesmas. E foi um jogo, caso por caso, muito bem montado, mas isso mostra bem como ela teme que uma só coisa a atrapalhe. Está bastante lógica, a exposição?
(Sim.)
Bom, agora Nossa Senhora dispôs que, portanto, essa coisa nascesse e essa coisa se espalhasse por 15 países e que se afirmasse à luz do mundo com todas as características de uma coisa que não está ressuscitando de nenhuma morte, que não está em agonia de nada e que está, pelo contrário, na louçania de uma juventude espantosamente prolongada.
Bem, isto faz com que, realmente, a nossa nocividade para eles seja muito maior do que se imagina por causa da questão das engrenagens, ou seja, daquela ação de cabra a cabra que entrando alguma coisa pelo meio perturba profundamente. Continua claro, isso?
(Claro.)
(…)
* Uma diminuição da ação do demônio e maior atuação da graça: fruto de um desequilíbrio geral de consonâncias decorrente do brado da TFP
…onde quer que se chegue você encontra uma coisa nesse gênero. Bom, aonde essas graças não penetram é em meios burgueses, meios tradeaux, meios que prevaricam da missão conservadora que tinham. Vamos dizer a coisa com todas as letras: [são] meios de Judas. Ali não encontra.
Bem, mas até em meios comunistas seria possível encontrar alguma coisa assim. Por que? Porque é todo um equilíbrio geral de consonâncias que o brado da TFP tornou perturbado e canhestro, e com isso a ação de demônio diminuiu e a graça começou a baixar. É como nós interpretamos as coisas.
(Sr. Gonzalo Laraín: Pode a fidelidade dessa organização à graça, de si, pela intensidade de grau de intensidade que essa organização tem com a sua própria missão?)
É fora de dúvida. Isso é uma questão que está no centro dessa que eu acabo de responder, mas eu não dou a questão respondida com o que eu disse. Ela está no centro do que eu devo responder.
Bem, agora, para que essa perturbação do adversário se dê, é necessário um dado a mais que é o seguinte: o brado deve mover, deve tocar, vamos dizer assim a coisa de uma outra maneira.
* Como o apurado de uma infâmia pode produzir um trauma equivalente ao fino, ao puro e o acertado de uma ação boa que algo produza — A dinamização do brado da TFP
Você tome por exemplo, uma pessoa que vá a Suíça, no período de gelo, quando a Suíça está nos seus grandes momentos, e vê aquela paisagem que chegou ao característico. Bem, o efeito contrário àquela paisagem só pode ser realizado por uma — o efeito psicológico que contraria aquela paisagem — só pode ser obtido por algo que faça um efeito psicológico tão característico, mas em sentido oposto, de maneira que a ação que se quer combater seja… receba um contra golpe que seja tão forte ou mais do que o golpe que ela deu.
Bem, então eu dou a você um exemplo. Você tome os pontos mais bonitos da Suíça, um conhecidíssimo, tornou-se até banal, aquele castelo, eu acho muito bonito, Chillôn. Mandar destruir aquilo? Um protesto geral. Mandar mudar a arquitetura daquilo? Um protesto geral. Mas se você mandar pôr um anúncio grande de néon, ali, dizendo, por exemplo, uma coisa qualquer que banalize, por exemplo, “tome pastilhas para dor de dente marca ta-ra-ta-tá…”, e apaga e acende, e uma figura se move, e um homem faz um gesto extravagante, tira um dente, depois diz: “Eu não vou tirar o dente, eu vou tomar a pastilha marca ‘Chillôn’” e dentro funciona o sindicato dos trabalhadores “Chillôn”, a fábrica funciona no castelo de Chillôn e do lado de fora você tem a bandeira do sindicato. Você produziu um trauma que está à altura de um efeito bom que aquilo produz.
E, então pelo fino, pelo puro, pelo apurado da infâmia isso é de um grau igual ao fino, ao puro e o acertado da ação boa que aquilo produz. Isso também está claro ou não?
(Sim.)
Agora, eu creio que a TFP conseguiu dar assim o seu brado de maneira a estertorar no mais fundo dos Infernos e, provavelmente — notem o provavelmente, eu não estou afirmando, eu estou dizendo que eu creio que é isso, mas vocês brasileiros sabem que o “eu creio que”, não quer dizer que “eu afirmo que”, quer dizer, “me parece que” —, me parece que o brado da TFP, depois do que me disse… [faltam palavras] …que o brado da TFP difunde através de seus membros uma dinamização disso, lança uma como que carga elétrica no ambiente, na ordem natural, parecida — para o bem — [assim] como o vermelho dos ônibus do Jango na ordem do mal.
Bem, e por toda parte por onde passa a caravana, ela produz o “efeito vermelho” que produz os ônibus, mas de uma outra maneira, mas… vocês me entendem. E o que seria preciso estudar seria a finura, é a autenticidade, a genuinidade deste brado com o que é o contrário efetivo do que, no poder das trevas, está sendo feito.
* A genuinidade da TFP — O comprazimento dos homens em relação à “genuinidade” da Revolução
Bom, sobre isso eu acrescentaria também uma palavra, é que de um modo confuso, quando a genuinidade da Revolução aparece no seu total, os homens todos sentem e, de um modo geral, se comprazem com a Revolução. Desde que ela tome o cuidado de procurar avançar conquistando os tíbios do lado de cá e não se desmascarando inteira.
Bem, o “sabugo” no fundo é uma pessoa que se deixou meio conquistar pela voz do outro lado. Bom, agora então, o que é que decorre daí? O que é que você tira daí?
Você tira que se tratava de perguntar na TFP no que é que está essa genuinidade. É um discernimento em todas as coisas, do que é Revolução e do que é Contra-Revolução, mas, tendo a noção do contra-revolucionário tão fina que não há um ponto de Contra-Revolução em qualquer coisa que a gente não sinta e não aprove; donde não há um ponto de Revolução que a gente não sinta e não reprove. E que é uma coisa que parte do fundo da inocência, do senso do ser, da graça batismal, etc.
Bem, e aí se deve pensar evidentemente de uma graça especial da Providência, obtida por Nossa Senhora. Porque é claro que assim, esta graça se tornou raríssima no mundo.
(Sr. Nelson Fragelli: Foi dada pela primeira vez, não é?)
Quiçá, com tal intensidade, com tal força, etc., quiçá?
* Causa da celebridade da TFP
Bem, de qualquer forma, acontece que esta graça posta, expandindo-se, ecoando nos ares produz uma perturbação que é a causa da celebridade da TFP. Você veja por exemplo, eu ocupei de um jeito ou de outro uma série de posições que dão ao indivíduo notoriedade. Não são posições brilhantes, exceto a de deputado, mas por causa da votação e da idade que eu tinha, porque deputado não é brilhante também. Mas, enfim, exceto essa, as outras não foram brilhantes, mas conferem notoriedade, uma longa liderança católica que era mais ou menos um cargo; depois uma longa oposição em que eu fazia o papel de guerrilheiro na Serra Maestra boa, de “Sierra Maestra” santa contra o “establishment”; depois o fato de ser professor durante muitos anos; alguns anos na própria Faculdade de Direito… Enfim, mil circunstância, tem uma certa notoriedade. Tratando na rua, vocês vêem facilmente como essa notoriedade se fosforificou por aí.
Mas, eu escrevi uma série de livros, esses livros foram muito difundidos, mas nada disso explica essa notoriedade enorme, sem rádio, sem televisão, sem jornal, sem nada, combatido até pelo rádio, pela televisão, pelo jornal.
* “A nossa ‘chanson’ tem o tom da afirmação completa e tem o elemento da negação completa” — Fatinhos do Sr. Dr. Plinio que comprovam esta afirmação
Agora, qual é… qual é a razão disso? É em última análise esse elemento que nós deitamos no ar, esse tom “Le ton fait la chanson”, e a nossa chanson tem o tom da afirmação completa e tem o elemento da negação completa.
E daí o Nelson me dizer que viu nessa campanha a animalização, a bestialização, o ódio, etc., etc., mas que viu também um certo número de adesões reais e muito interessantes, aproveitáveis, não é verdade que nós não levamos nada conosco. Agora, o que é que faz com que levemos? Não são os meus livros, não é isto, não é quilo, não é aquilo outro. É em última análise o tom.
Vocês dizem que quando o meu automóvel passa pela rua produz um sulco. Bem, eu desconverso, etc., etc., mas a realidade eu percebo, isso evidentemente eu percebo. Não percebo com tanta clareza quanto vocês, mas vocês dizendo, eu noto com toda clareza. É uma coisa evidente.
Eu vejo em qualquer restaurante onde eu entro, no Cad’Oro nem se fala, eu tenho impressão de que havia gente que estava lá para ver a hora da TFP chegar. Alguém telefonou lá para falar e houve uma interceptação e pegou o telefone do dono do Cad’Oro que da casa dele perguntava se estava correndo tudo bem. Então, isto assim, assim, “Dr. Plinio já chegou?” Quer dizer, você está vendo que um dos elementos da noite bem passada no Cad’Oro é se Dr. Plinio foi, se Dr. Plinio chegou, etc., etc., não é?
Algum tempo atrás, Fernando talvez tenha visto isso. O filho do dono do Cad’Oro assumiu uma direção qualquer lá, foi lá se apresentar à noite, que tinha muito gosto em me conhecer, que isto, que nós éramos clientes que honravam o restaurante, e não sei mais o quê… Você talvez tenha visto isso, não é?
(Sr. Nelson Fragelli: No Cad’Oro.)
* * *
Sono, coitado, deixa ele dormir. É isso, concorde que é mais fácil para dormir mais.
* * *
Bem, mas essas coisas são assim. Numa outra mesa viram o Ermírio de Morais, quando nós entramos, que estava voltado para a entrada. Alguém ouviu ele dizer — ele estava sem óculos, os óculos estavam em cima da mesa —, ele pôs os óculos e disse: “Olhe para lá, vale a pena ser vista, a cena que vem agora.” Agora, o que é que é isto? É esta irradiação.
Agora, o que é que é essa irradiação? Em última análise é a exatidão, a finura com que realmente os timbres de outrora voltam. A catedral “Engloutie” exprime isso perfeitamente.
Que horas são?
(Sr. Poli: São 10’ para as 3:00.)
Temos ainda um pouquinho de tempo.
(Sr. Gonzalo Laraín: Agora o fato de existir, ainda que não tenha irradiação tem uma carga de algo que é muito pessoal por onde faz explodir o lado de lá.)
Sim, mas já menos.
(Sr. Gonzalo Laraín: Há uma coisa do ser do senhor em relação ao ser deles que é o que está em jogo agora no assunto da frincha.)
(…)
* * * * *