Conversa de Sábado à Noite ─ 17/10/87 . 10 de 10

Conversa de Sábado à Noite ─ 17/10/87

Um problema que se põe para a nossa perserverança é a tentação de achar que o que a graça nos mostra no momento do “flash” não é a realidade * Uma aflição do Sr. Dr. Plinio: como explicar criteriologicamente a autenticidade do que o “flash” nos mostra? O Sr. Dr. Plinio exemplifica com as graças recebidas no Primeiro Andar * Ao contemplar-se o Quadrinho, sente-se uma graça que penetra com a doçura e a distinção de um raio de sol * Na vida espiritual, é normal que a pessoa receba graças místicas como as que se recebe estando no Primeiro Andar * Uma prova de que o “flash” é uma ação da graça é o fato de que ele nos convida à prática da virtude * Ao explicitar o exposto nesta reunião, o Senhor Doutor Plinio teve uma alegria semelhante à dos portugueses que cruzaram o Cabo da Boa Esperança * Nesta reunião foi-nos dado um cofre de ouro para guardar um tesouro de ouro

* Quando Nossa Senhora ajuda enviando graças especiais, tudo fica fácil, todos os problemas se resolvem, mas sempre com vistas a nos preparar para amarmos mais a Cruz

uma graça nos olhares, em tudo, eu percebi isso. De maneira que a reunião foi algo de improvisado até. Eu tinha idéia de dizer alguma coisa naquela direção, mas o que disse foi muito mais, porque o ambiente se prestava muitíssimo, mas muitíssimo! Não como quando Nossa Senhora ajuda!

(Sr. Nelson F.: Eu acho que o Anjo dos estudos da opinião pública está muito próximo! Já o Santo do Dia de ontem foi extraordinário.)

(Sr. G. Larraín: O MNF de ontem já foi extraordinário.)

Qual foi o tema do MNF ontem?

(Sr. G. Larraín: Dinâmica do bem e do mal, etc.)

Agora estou me lembrando, agora estou lembrando. Você vê, essas coisas que a gente lê em leitura espiritual, e que à gente parece assim um pouco teóricas, não é? Que quando Nossa Senhora ajuda, aí vai tudo, etc., quando Ela não ajuda fica tudo difícil… Aí está: Ela toca um pouco, a graça toca um pouco, tudo voa, nem sei como. Se Ela resolve provar-nos por meio de uma aridez qualquer, fica cada coisa… Cada coisa tremenda! [Risos]

(Sr. Guerreiro: Não há palavra que resolva!)

Não há palavra que resolva, você tem razão. Não há! E quando Ela quer, aquilo vai. É muito bonito para nós imaginarmos o Reino de Maria todo impregnado da graça d’Ela!

(Sr. Paulo Henrique: Sem perder de vista as saudades de que o senhor falava na Reunião de Recortes, como os cristãos que deixaram as catacumbas deveriam ter em relação a elas.)

Ah, é fundamental. Quer dizer, nós não devemos formar a idéia de que a Cruz de Cristo ficou para trás, e que no Reino de Maria chegou a vez do “rega-bofe”. Porque se toda essa luta devesse terminar em ficarmos homens de “rega-bofe”, então não haverá… É o contrário. É para nos ajudar a sermos homens da Cruz. Esse é o negócio. É dar-nos o amor à Cruz, é o fundo da coisa toda.

São Luís Grignion, aliás, explicou isso maravilhosamente.

Mas como é? Alguma pergunta?

* Um problema que se põe para a nossa perserverança é a tentação de achar que o que a graça nos mostra no momento do “flash” não é a realidade

(Sr. Guerreiro: Reunião de Sábado retrasado. O senhor comentava que tinha sido a noite mais importante da História do Grupo. Pareceu-nos que o senhor comentava isso tendo em vista o panorama explicitado, mas também o que vinha pela frente, de futuro.)

Não tem dúvida, é bem isso.

(Sr. Guerreiro: Nós queríamos então pedir ao senhor se o senhor não gostaria de tratar sobre isso que o senhor vê do que vem pela frente.)

Com muito gosto, mas introduzindo no centro do assunto um ponto que estaria no conjunto que você mencionou, e o ponto é esse: é que a pessoa tem “flashes”, tem portanto uma ajuda da graça para ver as coisas naturais, numa certa perspectiva sobrenatural, e que aí as coisas tomam uma dimensão para o espírito humano, muito maior do que a dimensão que o comum das pessoas vêem. E também uma certeza maior do que o comum das pessoas têm. E que isso ajuda-nos numa provação espiritual freqüente entre nós, que é a seguinte:

Quando o “flash” deixa de exercer sua ação sobre a alma, a alma é levada a achar que aquilo, não é propriamente que foi uma ilusão… Primeiro não tem muita certeza que aquilo foi sobrenatural, e em segundo lugar, além de não ter muita certeza de que aquilo foi sobrenatural, não tem certeza de que o sobrenatural não apresentou a coisa meio parabolicamente, mas que aquilo não é bem exatamente como foi diante dos nossos olhos. De maneira que a certeza que a gente tem de que viu, de que as coisas são mais como elas são na hora do “flash”, do que são fora da hora do “flash”, esse é o ponto fundamental para a gente caminhar e resistir nas horas de aridez.

(Sr. G. Larraín: Um apóstata que disse: “as reuniões são magníficas, mas a realidade não é assim”.)

É, exatamente. Como se aquilo que a pessoa sentiu durante a reunião, na hora do “flash”, fosse uma ilusão.

Então, veja a situação que se cria, a graça nos dá uma porção de estímulos, mas esses estímulos de fato não são senão uma ilusão. De maneira que a pessoa veria mais a realidade na hora em que não está tocada pela graça do que na hora em que está tocada pela graça. Isto vaza e inutiliza toda a ação da graça. Este é o ponto. Este é o ponto. É um ponto criteriológico sobre o sobrenatural.

* Uma aflição do Sr. Dr. Plinio: como explicar criteriologicamente a autenticidade do que o “flash” nos mostra? O Sr. Dr. Plinio exemplifica com as graças recebidas no Primeiro Andar

(Sr. Guerreiro: Nós ficamos com a impressão de que o senhor teve um “flash” sobre a reunião, e queríamos participar dele.)

Foi o seguinte: é que eu levei anos, mas dezenas e muitas dezenas de anos colocado diante dessa realidade: eu falava, Nossa Senhora dava às pessoas um estímulo. Mas se essa ação da graça cessava, esse estímulo era mais ou menos como se não tivesse sido dado. Porque a pessoa se punha numa posição crítica, errada. E no fundo por uma razão criteriológica: o que achar da coisa vista nas suas dimensões, nos seus aspectos sobrenaturais? Aquilo é mesmo sobrenatural? Por que é que eu devo achar que é sobrenatural? Que fundamento isso tem na Doutrina Católica, que isso seja sobrenatural? Que fundamento isso tem na razão para achar que isso é sobrenatural?

Se eu tenho um fundamento bem feito, então isso para mim quer dizer algo. Mas se eu não tenho o fundamento bem feito, esvai-se mesmo.

Vocês podem se dar bem conta de minha aflição vendo não sei quantas almas que percebiam que aquilo sumia, quer dizer, cessou, e que por causa disso ficavam desajudadas. E quando eu queria repetir aquilo para ajudar a alma, porque lhe tinha feito bem, eu notava o paredão. Um pouco como quem me dizia: “Não venha com essa agora, porque agora não pega”.

Bem, e eu, mas ao pé-da-letra, desarmado, porque não tinha o instrumental lógico ─ lógico com os pressupostos da Doutrina Católica, não são os pressupostos de um ateu ─ mas com os pressupostos da Doutrina Católica não tinha o instrumental lógico para pôr isso no ponto.

E quando, recentemente, talvez dois anos, três anos atrás, eu consegui montar isso, eu tive uma espécie de “flash”, primeiro da beleza da montagem, do valor lógico da montagem; em segundo lugar das perspectivas que isso abria.

Mas eu entendi bem que eu não podia dizer em seco: “Eu agora, hoje, pensei uma coisa muito boa, e vou dizer”. Mas quis esperar uma hora da graça.

Vendo chegar a hora da graça, isso me deu um “flash”. É uma coisa muito razoável. Porque vocês me conhecem bem, e sabem quanto eu tenho empenho em que seja inteiramente razoável aquilo que eu digo. O tempo inteiro.

E se quiserem, portanto, eu repito um pouco, mas com mais pormenor do que eu disse da última vez, porque é o centro da coisa.

* Providencialmente, a mobília do Primeiro Andar exprime muito a psicologia da família do Senhor Doutor Plinio

Vocês tomem aqui esses salõezinhos aqui. Mais de uma vez vocês comentaram comigo que a reunião feita aqui tinha um cunho próprio, uma característica própria. E que essa característica resultava do ambiente. Mas comentavam comigo também que era em parte o ambiente considerado nos seus aspectos palpáveis, sensíveis, e que se poderia portanto demonstrar, mas em parte era um imponderável qualquer que lhes dava uma impressão de que algo da doçura de mamãe, do convívio com a alma dela, etc., etc., se fazia sentir aqui de algum modo.



(Sr. G. Larraín: Sem dúvida. Assinamos com sangue isso.)

Bom, mas o que é que se passa para que seja razoável que vocês digam isso que você acaba de dizer, que assina com sangue? Quer dizer, é natural que se queira perguntar: Isso é uma pura impressão? Essa impressão criteriologicamente do que é que vale? Para dar aquela forma de adesão que esvazia depois nas horas de baixa?

Isto é um exemplo. Mas, por exemplo, na reunião de hoje à tarde, eu acabo de dizer que eu sentia nas almas, sentia nos olhares, etc., em toda a reunião, que havia uma leveza sobrenatural, e que havia o que me levou exatamente a fazer a reunião inteira sobre aquele ponto. Porque quando a graça ilumina um ponto, a gente não deve sair para outro ponto que a gente fez o esquema de tratar. Seria um non sense! Onde está a graça, a gente pára para ser beneficiado por ela, diretamente. O resto seria uma doidice.

Então aqui, por exemplo, como é que se explica, do lado natural, como se explica que essas salas lhes fazem, de um lado. Depois, o que é o discernimento sobrenatural aqui? E que fundamento esse discernimento sobrenatural tem na Doutrina Católica? Quer dizer, isso é ortodoxo? É ortodoxo pensar assim, sentir assim? Essas são as perguntas.

Então eu diria o seguinte, também eu falo com toda franqueza, ex abundantia cordis, etc. Mas eu creio que na maior parte ─ não são todos os objetos que estão aqui ─ mas na maior parte são os objetos que ainda foram da casa de minha avó, de que eu falei a vocês muitas vezes. E na casa de minha avó, por uma circunstância qualquer, que se liga ao passado da família, etc., que eu também já tratei aqui, havia realmente uma certa harmonia nas coisas, e um certo misto de distinção e de harmonia, que correspondia meio providencial e meio casualmente à psicologia da família. Quer dizer, as coisas compradas ou recebidas em herança de outros, etc., por exemplo, condizem extraordinariamente com o quadro de minha avó que está ali. Tem um afinidade psicológica real.

Eu vi como foi comprada essa mobília aqui. Foi comprada do modo mais comum possível. A mobília que havia para guarnecer uma sala lá, que era uma sala de visitas mais íntima, essa mobília estava muito antiquada. Então, conversou-se mais de uma vez na mesa que era preciso vender, dar outro destino àquela mobília e comprar outra.

Bem, e num almoço, uma tia minha que morava em casa disse a vovó: “Mamãe, eu hoje vou à cidade, e vamos aproveitar e comprar a mobília de uma vez”. E minha avó, com aquela espécie de nonchalance que ela tinha nas horas de repouso, e que foram se tornando mais freqüentes à medida em que a velhice se tornava mais intensa, ela disse: “Ah, pode comprar”. Todo mundo aquiesceu que comprasse, não combinaram nada a respeito da mobília.

Em certa hora veio um caminhão, levou a mobília antiga embora, deram lá para uma pessoa, e depois veio o caminhão da Casa Alemã, que era uma casa comercial muito boa, mas comum, que vendia móveis correntes, e vendeu essa mobília.

Mas essa mobília calçou na sala onde foi posta melhor que a anterior. Formava um conjunto perfeito com o conjunto que estava lá. Essa escrivaninha pertencia àquilo, e assim outras coisas. Os lustres… Esse lustre em concreto pertencia àquilo. E formava um todo que aqui, vindo cá e com outros objetos que ainda compramos, se acentuou ainda mais, e de um modo inteiramente fortuito.

Por exemplo, essa gravura que está ali da Duquesa de Nemour, eu comprei, já contei como comprei na Itália, etc., mas de passagem, de automóvel, rapidamente por uma loja, eu vi e disse: “Eu quero aquela gravura”.

Bem, mas a sala não seria inteiramente ela mesma senão fosse aquela gravura. Bem, esse espelho que minha irmã comprou na casa de um tintureiro… Tudo isso se junta por uma coisa na qual se pode ver, talvez, uma providência especial, se junta para formar um todo muito harmônico, mas harmônico exprimindo uma certa psicologia.

Bem, esse é o lado natural. Essa psicologia é profundamente diferente da psicologia moderna.

Eu não quero dizer com isso que eles todos fossem uns leões da Contra-Revolução, loin de lá, mas eles tinham, naquilo que era o espírito distintivo deles, eles tinham uma nota que, ignorando a Revolução, conservava algo por onde a Contra-Revolução contunde a Revolução no modo mais vivo. Mas contunde depois, uma coisa curiosa, sem o anacronismo censurável. Sem ar de velheira. Nunca as coisas lá tiveram ar de velheira. Eram coisas que não estavam ajustadas à moda, mas não estavam decrépito. Bem, isso é o conjunto.

* A mobília do primeiro andar está inteiramente de acordo com a mentalidade da Senhora Dona Lucilia e nos faz sentir de certa forma sua presença

Agora, vocês tendo visto o quadrinho, vocês reconstituem como foi mamãe. Talvez um ou outro a tenha conhecido em vida, ou visto ao menos em vida, é possível. O Poli, certamente. Agora, ela tinha em si, à maneira diferente da mãe dela, ela tinha em si esse espírito. Mas não era diferente contrastando. Era um tônica diferente. E tinha uma doçura e uma bondade, aliada a um tipo próprio de distinção, que olhando o quadro, completa a sala. Porque ela seria perfeitamente o elemento vivo próprio para essa sala. Mas perfeitamente.

Bem, e é natural que no espírito de vocês se forme essa relação. Embora não conscientemente, é natural. Vocês sabem que ela foi dona disso aqui, que ela morou aqui muito tempo, que ela esteve nessa sala incontáveis vezes, que fazia grande parte das orações dela aqui, junto ao Coração de Jesus. Então vocês são levados a fazer uma correlação e perceber aqui muito a doçura dela porque relacionada com esse conjunto que se poderia chamar a mentalidade da sala.

Agora, isso, portanto, é o processo lógico. Quer dizer, processo natural coerente, isso que eu quero dizer. É criteriologicamente válido, esse processo.

* Ao contemplar-se o Quadrinho, sente-se uma graça que penetra com a doçura e a distinção de um raio de sol

Aí se acrescenta alguma coisa que é uma graça que se tem olhando para o quadrinho, por onde a impressão da doçura dela e desse misto de doçura com distinção, por onde a doçura fica em algo valorizada pela distinção, e a distinção em algo valorizada pela doçura, ouviu? Que dá uma nota a esse conjunto, que é uma intensa doçura invasora, como seria invasor um raio de sol. Mas ao mesmo tempo, se quiserem, distinta como um raio de sol! A categoria que é boa, a classe que é afável, que é generosa, que quer dar, que quer elevar, que quer estabelecer uma ─ a palavra está muito conspurcada hoje ─ mas, digamos, uma participação, isso aparecia nela com uma força de doçura especial.

Aí eu acho que no sentir isso entra algo de natural, que está de acordo com o processo criteriológico que eu descrevi, mas entra um sentir especial, como se sentissem uma coisa viva. Um sentir que a impressão natural não dá. E que vocês sabem distinguir, porque vocês sabem o que é uma impressão natural, e sabem que isso não dá.

Aqui fazem, portanto, uma operação ─ eu estou sempre no terreno criteriológico ─ uma operação de discernimento que é válida, porque quando a gente recebe uma graça e percebe que aquilo é graça, nisso a gente faz um ato de discernimento de espírito. Pode ser que nós não tenhamos habitualmente o discernimento dos espíritos, mas nessa ocasião temos.

E, portanto, com tudo o que a Igreja ensina sobre o discernimento dos espíritos, a gente compreende que possa estar ao alcance humano fazer essa afirmação. Do ponto de vista criteriológico. Mas é a criteriologia de quem tem fé, eu volto a dizer. Eu sei que um ateu… Mas não vamos pensar em ateu, está fora de nossa cogitação.

* Na vida espiritual, é normal que a pessoa receba graças místicas como as que se recebe estando no Primeiro Andar

Agora, acontece que por outro lado vem a doutrina mística ordinária que nos explica que isto tem fundamento na Doutrina Católica. O que é que tem fundamento na Doutrina Católica? É a idéia de que a graça opera assim também. Que há um sentir da graça, há um conhecer a graça em proporções discretas, que não são da grande visão magnífica de Santa Teresa e dos grandes místicos, mas que é uma ação mística comum a todos os homens, que todos os homens recebem. E, portanto, não espanta que nós recebamos. Não é uma coisa tão rara que nós devamos desconfiar da autenticidade do que estamos percebendo. Porque tudo quanto é muito raro a gente pergunta: “Será mesmo?”

Mas segundo a Doutrina Católica isso é comum. Isso acontece com freqüência. E, portanto, não espanta que aconteça conosco. Tudo isso, portanto são elementos criteriológicos para nos colocarem à vontade na convicção de que isso é uma graça que nós recebemos aqui, e nessas circunstâncias.

* Uma prova de que o “flash” é uma ação da graça é o fato de que ele nos convida à prática da virtude

Agora, acontece, para acrescentar a isso, acontece esse fato decisivo: é que sempre que uma impressão dessas estimula-nos inteiramente para o bem, tornando fácil, fazendo com que o demônio se cale, com que tudo que nos leva para o mal fique diminuído no seu alcance, e tudo que nos leva para o bem fique acentuado no seu alcance é a confirmação de que é uma ação da graça, porque a ação da graça existe para isso.

A graça é dada para isso, esse é o efeito próprio da graça, quando ela é sensível. Mesmo quando ela é insensível, ela existe para isso, para fazer com que nós sejamos conformes à lei de Deus, ao espírito de Deus, à santidade.

Ora, isso produz em nós esse efeito. Nós somos estimulados em tudo que temos de bom, e somos… O que há de mal em nós fica aquietado e recolhe-se a seus antros por essa ação da graça. E por esta forma nós vemos que realmente isto é uma coisa sobrenatural, não natural. Porque uma mera consideração natural não tem esse efeito dessa maneira. Pode ter de algum modo este efeito, mas não dessa maneira.

Então isso seria a criteriologia que nós devemos empregar em relação a todos os nossos “flashes”. Porque ponto por ponto, aplicado em relação aos nossos diversos “flashes”, isso é assim.

(…)

a humanidade nas suas origens tinha mais proximidade com o sobrenatural do que teve depois no decurso da História. Mas num César já não se nota uma coisa dessas. Isso é o fio, é o raciocínio da coisa. Então, que criteriologicamente instala inteiramente bem o que nós acabamos de dizer.

* Ao explicitar o exposto nesta reunião, o Senhor Doutor Plinio teve uma alegria semelhante à dos portugueses que cruzaram o Cabo da Boa Esperança

Agora, que serve para as ocasiões de provação. Quando a graça se retira, o que é que nos resta? Tem que restar esta convicção de que aquilo que eu vi é conforme o operar reto da inteligência humana. E que, portanto, se aquilo se retirou de mim, eu não tenho direito de pôr em dúvida.

E isto… Quer dizer, isto eu estou… Tive gosto em explicar, tenho gosto em explicar duzentas vezes se quiserem, em reuniões sucessivas, etc., porque isso transforma num rochedo encabeçado por um farol uma coisa que era até aqui uma nebulosa dourada, não é?

Fica uma coisa que nas tempestades diz o seguinte: “Bem, essa luz se apagou de mim, mas eu sei que, por um operar razoável a propósito dos dados da natureza e da graça, eu sei que isso é criteriologicamente sadio, que não foi ilusão, que não foi uma coisa… Sei lá o que. Não foi. Isso é criteriologicamente sadio”.

E é onde eu quero chegar. É um tal passo na vida do Grupo poder colocar debaixo dos pés de vocês esse chão firme, isso é de um tal alcance, que realmente eu tive alegria enorme, um pouco parecida com a alegria que tenham tido, acompanhada talvez de “flash”, as pessoas da expedição portuguesa quando chegaram ao Cabo da Boa Esperança e cruzaram.

O Merizalde me deu umas fotografias muito bonitas daquilo que a gente vê, dos dois mares que se encontram, os dois mares que se encontram e um outro mundo que se abre! Então outro capítulo da História. Se não me engano, quando eles viram cantaram até o Credo, alguma coisa assim, e atravessaram.

Bom, mas isto para nós é o Cabo da Boa Esperança nesse sentido: é uma outra água, porque é uma outra impostação distante de uma porção de coisas. É o por onde, por exemplo, os Apóstolos… Eu não sei, eles tiveram a evidência do Tabor. Mas se não fosse a evidência, eles poderiam guardar a certeza, cessado o milagre do Tabor. Quer dizer, raciocinando com os dados da Teologia e os dados do bom senso, da observação muito criteriosa, muito calma, muito objetiva da realidade, muito nuancée, porque em tudo o que eu disse aí não tem nem entusiasmo febril, nem fanatismo, nem nada; pelo contrário, é muito fria essa análise. Não é uma análise gélida, de cientista suíço, mas é uma análise muito fria. É uma análise de quem ama, mas não é uma análise falseada pelo amor. Aí é um julgamento enérgico da situação.

Bom, nessas condições eu dou ─ mas não sou eu que dou, é Nossa Senhora que dá ─ a vocês base firme debaixo dos pés.

Meu pobre, meu miserável Carlos, que tivesse isso debaixo dos pés, e ele teria tido mais possibilidade de resistência. Ele tivesse esperado um pouco, portanto, ele tinha mais possibilidade de resistência.

Mas a vocês que esperaram mais é dado agora esse escudo, esse escudo incomparável, do qual eu não daria conhecimento ao Grupo, a não ser também numa circunstância especial.

Não vou fazer uma conferência assim: pega o sujeito para queimar a roupa que ele tem no momento e pespega um tiro nele. Não é. Isso precisa uma hora em que os espíritos estejam apetentes de saber, apetentes de conhecer, etc., etc. Então aplica a inteligência adequadamente. Mas nessa hora deve-se fazer.

* O senso do ser inato no Senhor Doutor Plinio, desenvolvido inocentemente e aperfeiçoado pela graça deu a ele a visão da ordem do universo

(Sr. G. Larraín: Agora, essa visão toda que o senhor tem da ordem do universo, não é ela portadora de uma graça, assim como esse salão é portador de uma determinada graça, como o senhor descreveu há pouco? Que graça seria essa propriamente?)

Sim, eu respondo da seguinte maneira: respondo uma parte afirmativa e uma parte conjectural, porque eu precisaria estudar para poder responder. Mas eu não tenho, de mim, não tenho nenhuma dúvida. Creio que vocês não terão também.

O senso do ser, a inocência primeva tomando o senso do ser completo, traz consigo, germinalmente, com a idéia do ser, com a noção de ser, que é uma noção inata, única noção inata que há no homem é a noção de ser, mas essa noção ele tem. Quando ele tem essa noção, e ele procede com inocência em face dessa noção, a noção simples de ser, o que é um ser, o que é o “É”, traz consigo em semente, a idéia da ordem universal.

Quer dizer, quando a pessoa tomou essa noção inata do que é, e aplicou retamente, inocentemente, de maneira a percorrer todas as avenidas lógicas disso, e ao mesmo tempo pôs a sua sensibilidade temperante afinada com isso, a pessoa forma como conclusão própria, mas forma desde o começo, chega até um certo aprimoramento, a noção da ordem universal.

Como é natural, isso tendo sido o ponto de partida, tem uma relação com o ponto de chegada. E é em função de enriquecer cada vez mais no fundo a noção do ser… Você está vendo que toca em Deus, e a alma pensa, elabora, prepara… Pode não ter muita consciência disso, mas o caminho da inocência é como o losango: começa na idéia do ser, abre, abre, abre, depois fecha e chega a idéia do ser prodigiosamente enriquecida. A ordem universal é o “V” que abre e o “V” que fecha.

Agora, o que há de sobrenatural dentro disso? Porque eu falei em termos puramente naturais. Eu considero que o homem concebido no pecado original não é capaz de nenhuma dessas démarches ou dessas etapas, ele percorrer com uma retidão inteira. Por quê? Por causa do pecado original, e depois ainda vem o demônio, pecados atuais, etc., mas por causa do pecado original já entra isso.

E que assim como não há um homem que seja capaz de cumprir duravelmente os mandamentos sem a graça, é impossível ao homem transportar a sua noção de ser e levá-la até esse cume sem esbarrar, sem cair, sem sujar, sem fazer porcaria, se ele não é muito sustentado pela graça.

Donde a gente vê que essa noção de ser é de algum modo enriquecida e fortificada pela ação da graça sobre o homem, e percorre de ponta a ponta isso, e entrando nisto não só uma força especial para dar à inteligência a retidão própria, mas entrando uma certa graça de mística ordinária, por onde de algum modo o indivíduo sente isso. Esse é o ponto. [Vira a Fita]

vai perfumar o Reino de Maria, dar brilho ao Reino de Maria de modo especial. O que eu acho é também…

(…)

* O Senhor Doutor Plinio comenta a gravura de um burgomestre. “Se a burguesia ficasse nisso, não podia merecer as maldições da História”

(Sr. Nelson F.: É o verdadeiro burgomestre ou uma representação?)

É uma representação do burgomestre daquele tempo. Mas tem uma foto… Aqui, não olhem para a cara dele, olhem para a indumentária. Você está vendo que simpático, digno, mas é um burguês. Olhem o chapéu, olhem tudo, ele é até respeitável, não é? Mas não é um nobre.

Bem, então aqui está a legitimidade de uma república, de uma pequena república municipal. Inteiramente de acordo.

(Sr. Guerreiro: De modo até excelente.)

Excelente. Mas não venha me dizer que isso é um nobre, e nem venha me dizer que isso é um Príncipe da Casa de Bragança.

(Sr. Paulo Henrique: A maneira de carregar essas flores, não é de um nobre.)

Tudo, tudo. Ninguém poderia dizer o seguinte: a posse dessas flores degrada esse homem.

(Sr. –: Não.)

Não. Está bem. Em rigor poderia ser um repolho também. Mas isso é uma coisa. Outra coisa é ser um nobre. Eu acho que essa fotografia é das mais documentárias do que achamos sobre a dignidade da república, etc., mas depois o que é a nobreza, não é?

Onde é que está os filhos do burgomestre, uma porção deles atrás?

(Sr. –: Está mais para trás.)

Aqui, olhe aqui. O burgomestre com os vereadores. Você vê como é distinto, como é digno! Mas nobre não é. E aqui, se a burguesia ficasse nisso, não podia merecer as maldições da História, não é?

* Nesta reunião foi-nos dado um cofre de ouro para guardar um tesouro de ouro

Bom, meus caros, infelizmente tenho que encerrar. Mas não perdemos nossa noite, não. Eu acho que é mais útil até isto. Isso aqui é o seguinte: não é o tesouro, mas é o cofre. Porque isso segura os “flashes”. É o cofre onde se guardam todos os tesouros, todas essas graças. É essa estrutura criteriológica, que é ela mesma uma graça. Seria um cofre de ouro para guardar dentro um tesouro de ouro.

(Sr. Nelson F.: A presença do senhor não acentua sobre a Cristandade a ação dessa graça?)

Sim, eu acho que sim.

(Sr. Nelson F.: É tão fundamental para o Reino de Maria…)

Eu acho que você tem razão. Que é a minha missão, mas é a nossa missão! Em união comigo, etc., etc., mas é uma missão que não está na ordem da Providência que eu exerça sozinho. É preciso ter os que queiram pegar essa cruz luminosa e colocar nas costas. Isto é que é preciso. E note que quem carrega a cruz nem sempre vê a luz dela!

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