Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
3/10/1987 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 3/10/1987 — Sábado
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A energia do Senhor Doutor Plinio para se manter fiel veio da certeza que tinha, fruto do senso do ser do inocente * “Eu tinha uma espécie de instinto da ordem do universo” * A certeza interior que o Senhor Doutor Plinio tinha não vinha da inteligência, mas sim da graça * “Eu tinha um senso do ser muito nítido e sentia um “lúmen” em mim mesmo que me levava a perceber que era feito para as mais altas coisas” * Até no modo de embalar as crianças, vê-se a conspiração revolucionária querendo-as levar para o oposto do senso do ser * O fundo de quadro da alma de um verdadeiro católico: não se mover somente através dos raciocínios mas deve-se saber ouvir o seu bom senso * “Se o século é a Revolução, então Nossa Senhora me protegeu para eu ser um homem fora do meu século, desde o início”
* Um episódio havido na guerra do Paraguai e que representa bem a mentalidade do século XIX
... que nem sei o que dizer. O exército brasileiro e o exército argentino estavam juntos, e ainda com o reforço do exército do Uruguai, massacrando aquele tirano do Solano Lopez. Uma coisa que você pode imaginar. Mas entre os dois exércitos, brasileiro e o argentino, havia uma rivalidade mútua do outro mundo. De maneira que eles eram aliados, mas com a tradicional tensão brasileiro-argentina que atingiu o auge naquele tempo.
Bom, então, que havia um soldado lá — era tempo da cavalaria, não é? — que tinha um cavalo de estimação dele, louco. Ele achava o cavalo uma coisa fantástica, etc., etc. Mas disseram a ele que os argentinos durante a noite, quereriam matar o cavalo, porque era tão bonito quanto outros do exército argentino — o exército argentino devia ter cavalos muito melhores.
E que então ele passava a noite acordado à espera de que viessem argentinos, para ele defender o cavalo, etc. E que ele foi definhando a tal ponto, que numa noite ele não agüentou mais e dormiu. Quando chegou de manhã... Durante a noite, ele foi acordado com uma barulheira, eram os argentinos que estavam chegando para matar o cavalo, e liquidaram com o cavalo. E mataram. Quando ele acordou o cavalo já estava se desfazendo numa poça de sangue.
Ele então ficou indignado, etc., e foi falar com o Caxias. Enfim, o comandante. Se não era o Caxias, era outro qualquer. E o comandante ficou indignado, por causa dessa rivalidade, e chamou o chefe militar argentino que comandava sob ele, porque o chefe de todas as operações era o Caxias. Onde é que se tinha visto, etc., e que ele exigia como reparação moral uma punição para os culpados.
O chefe argentino foi para o acampamento argentino e disse que ele fazia questão que se apresentassem os culpados. Ele sabia que eram dois, porque não era ninguém em quem se apresentava. Eles não se apresentaram ainda, ele disse: “Está bom. Eu dou o prazo x. Se dentro do prazo x não se apresentarem — eu acho de uma violência brutal — não se apresentarem os culpados, eu vou matando vocês de cinco em cinco”.
(Sr. –: Nossa Senhora!)
Por causa de um cavalo é muita coisa, hein?! É uma coisa espantosa!
Quando chegou o tempo, no último momento, ele pegou cinco arbitrariamente e mandou encostar na parede para fuzilar. Aí os dois culpados saíram e disseram: “Fomos nós”. Ele na hora, sem conselho de guerra nem nada, mandou matar.
Então o caso estava liquidado. Durante a noite, ouviu-se um tiro no acampamento brasileiro. Era o dono do cavalo que se suicidava.
(Sr. G. Larraín: É século XIX inteiro!)
É século XIX, aquelas óperas, tátátá… No fundo do acampamento de dois exércitos, naquele tempo era exercitozinhos pequeníssimos, etc., etc., repercutir o estado temperamental de uma ópera, você vê o fenômeno de opinião pública, o que é a coisa. Esses homens não saberiam o que era ópera, nunca teriam assistido ópera, não saberiam o enredo de nenhuma ópera, nem música de nenhuma ópera. Mas de algum modo aquilo envolveu a atmosfera de tal forma, que lá no fundo daqueles sertões se dá isso, que tudo, de ponta a ponta, é ópera!
Como estado de opinião pública, eu vou pedir ao Amadeu para me bater depois uma ficha, e dar, porque in obliquo por causa desse aspecto, interessas muito. É uma penetração. E depois uma penetração tão inteira, transpassando tantas camadas intermediárias, e chegar a isso, que é uma coisa. Impressiona realmente.
(Sr. Guerreiro: Isso seria uma modelagem artificial, ou seria algo natural da sociedade da época?)
Para eles era ópera e não era opereta. É preciso dizer o seguinte: posto de lado a questão do suicídio, há o seguinte. Indica uma certa seriedade exagerada das coisas. Mas [é] mil vezes melhor a seriedade exagerada do que a incapacidade de compreender qualquer coisa séria.
Eu acho que vocês concordam com isso.
Valia a pena um dia contar esse negócio para os “enjolras”, por exemplo — mas da Saúde, não os “enjolras” do Presto Sum e São Bento, que já começam a respirar ares — mas da Saúde, como é que eles tomam a coisa. A meu ver muitos não tomam em nenhum sentido. É como se fosse o roubo de uma galinha. Eles não relacionam as coisas.
Mas por exemplo, que o Caxias tenha intervindo nisso, parece uma coisa excessiva. Um incidente de quintal entre dois exércitos, o que é que tem isso? Sabe que isso eu entendo? Pode dar-se em contexto de tensões anteriores, etc., etc., precisa intervir mesmo. E depois, se não for um cavalo, de repente é por causa de uma mulher, qualquer coisa. Onde é que vai isso?
Quer dizer, quanto à crítica do caso, o caso tem uma porção…
(Sr. G. Larraín: Começar a matar de cinco em cinco é muito puxado!)
Não! É muito puxado! É “barbaramente” puxado! Mas…
(…)
* A energia do Senhor Doutor Plinio para se manter fiel veio da certeza que tinha, fruto do senso do ser do inocente
(Sr. N. Fragelli: Nós gostaríamos que o senhor continuasse a teoria da ação que o senhor nos tem dado, e perguntaríamos o seguinte: nós vemos que, tomando os arquétipos que o senhor teve em menino, e ao longo da vida do senhor, eles não dão aquilo que o senhor deu. O senhor é muito mais do que eles, com um acréscimo enorme. Então nós perguntamos o que é isso; os arquétipos que o senhor teve em casa foram negados e contestados pelo mundo. De onde o senhor tirou a energia para se manter fiel à linha de conduta do senhor?)
Você acho que focalizou bem a questão. [Mas focaliza] melhor a questão pondo o seguinte: de onde vem a grande certeza? Porque a vontade e a inteligência são coisas distintas. E a pessoa pode ter uma grande certeza e não corresponder à certeza que tem. Mas o contrário não é verdade: o sujeito pode ter uma grande energia, mas não tendo certeza, a sua energia não se move inteira. A vontade se move inteira onde a convicção é inteira.
Bem, de onde é que vem essa convicção?
Eu acho que para pôr bem o problema e resolvê-lo bem, é preciso ver isso, uma coisa tem relação com a outra: quer dizer, o salto do que eu tive em torno de mim para aquilo que eu quis, significa uma compreensão do enorme daquilo que eu via em pequeno e isto. Esse salto por onde vendo uma coisa pequena, se via muito mais atrás, é fruto não exclusivo, mas fruto parcial de uma certeza muito grande.
Não se reduz tudo a certeza, eu concordo, mas não é sem relação com a certeza. E por causa disso eu tenho impressão que é mais metódico a gente começar pela certeza. Não é? Isso seria o método.
Eu aliás nunca me pus essa questão porque não tinha uma idéia tão clara de que isso é assim quanto vocês estão dizendo. Vocês dizendo eu vejo que é, que a questão está até bem formulada. Mas que eu não tinha me posto… Como quem bebe um copo d’água, qualquer outra coisa assim.
Mas havia qualquer coisa no meu espírito desde menino que era uma… Eu creio que isso aí é fruto da inocência, senso do ser, etc., senso do ser do inocente, que é uma clareza enorme em… Aquilo que eu vi, eu vi; aquilo que eu ouvi, eu ouvi; aquilo que eu sei, eu sei; o que eu vi passar, passou-se mesmo. E aquilo fica visto e agarrado. Sem esforço! Com a naturalidade das coisas que funcionam bem.
Quer dizer, eu não era portanto desses investigadores colocados na proa do navio para ver o que vem na frente, mas era um observador inteiramente claro, na linha da normalidade, sem nada de genial, inteiramente claro, inteiramente lúcido, inteiramente seguro, daquilo que eu vi. Aquilo que eu vi, eu vi. Servido, por exemplo — isso é característico —, dos cinco sentidos. Eu nunca tive nenhum desses sentidos de modo prodigioso. Mas em modo excelente sim. Bastante excelente para que cada um a seu modo me desse certezas totais: “Isto é assim, não tem dúvida nenhuma”.
* A certeza interior mais preciosa que o Senhor Doutor Plinio tinha era a clareza no perceber a inter-relação das coisas e com isso uma noção muito nítida da ordem total
Mas essa certeza banal que os sentidos dão, havia correspondendo a isso certezas interiores da qual a mais preciosa eu vejo agora, quando eu estou recompondo agora, é a clareza no perceber a inter-relação das coisas, que já é muito diferente de perceber as coisas, mas é perceber as reversibilidades. Com a facilidade, com o molejo tão natural como este que eu estou tendo mexendo aqui os dedos.
Bem, e às vezes reversibilidades longínquas, seria preciso passar por várias reversibilidades para, uma numa ponta e para outra noutra ponta, pegar. Bem, isto me vinha ao espírito com a facilidade de quem toma um copo d’água. Quer dizer, é próprio viver, o próprio ser é assim.
(Sr. Guerreiro: Pelo modo como o senhor está dizendo, a gente vê que há algo anterior à inteligência que move isso. É assim?)
É. E por causa dessas correlações — daqui a pouco eu ponho o edifício de pé — por causa dessas correlações, um sentido muito nítido da ordem total. Quer dizer, cada coisa como ela deve ser. Não é como ela é, ou tátátá, como ela deve ser! A meta para quem quer conhecer uma coisa como ela é, não é uma mera descrição, como um tratado de física. Não é isso. É a idéia de que por cima há uma… Em cada coisa ver qual é a ordem interna daquela coisa, a finalidade daquela coisa, e como é que a ordem interna realiza aquela finalidade. E isso deduzida da própria essência da coisa. É uma relação.
Então, vamos dizer, um osso. Aquilo é um osso, osso da perna, osso do braço. Em anatomia não havia ainda as execráveis caveiras de matéria plástica para as aulas, aula de anatomia era caveira caveira, de um morto; suspenso o Crânio num gancho e pendurado na sala de aula para dar explicação de anatomia.
Bem, o professor estava falando de anatomia, aquilo era anatomia dele. Eu prestava atenção e, como todo mundo, eu sei quais são os ossos do homem. Não entremos muito em ossinhos e pormenores, que eu me perco. Por exemplo, carpo, metacarpo, essas quinquilharias que temos aqui. Já é muito menos, mas nas grandes linhas gerais, como qualquer homem que não é um imbecil, eu tenho.
* “Eu tinha uma espécie de instinto da ordem do universo”
Bom, agora, tomado o osso isolado, aquele pedido do osso para uma ordem fora da qual ele está destacado, me parecia uma coisa clamorosa. Às vezes andando por estas fazendas por onde andei, vi osso de bicho jogado. não sei se aconteceu a vocês. Bom, aquele osso que chegava a ficar branco de tão calcinado pelo sol. Sol de Ribeirão Preto, daquela zona, é um sol quentíssimo, e que estava por ali. Ninguém destruía, nem havia razão para destruir, osso de bicho, ninguém destruía, ninguém guardava, ninguém jogava fora. Ficava posto no meio de um cafezal, por exemplo, o tempo que fosse.
Bem, eu via aquelas osso, às vezes formiga entrando no osso, e começando uma pós-história do osso: o osso como alimento da formiga, como casa da formiga. Uma outra história que não era história do osso como osso do bicho anterior.
Bem, mas aquele osso calcinado, idéia de que aquilo era feito para uma ordem, destacado da ordem ele bramia, era mais enérgico para mim do que o belo princípio latino: Res clamat ad dominum — a coisa clama pelo seu senhor, para a sua totalidade. É uma coisa que me chamava. Mas eu percebia portanto que a minha compreensão era imensamente voltada para compreender a ordem interna das coisas, e depois as várias ordens, até à ordem total. Isto era uma matriz do espírito — eu acho que vinha da inocência —, por onde previamente a todos os conhecimentos que levavam à ordem total, eu tinha uma espécie de respiração da ordem total, se vocês quiseram uma espécie de instinto da ordem total que, ou eu me engano muito, ou é profundamente tomista. Quer dizer, é propriamente um instinto. Instinto da alma, mas é instinto. Mas é firmíssimo!
(Sr. G. Larraín: Ordem total do que Senhor Doutor Plinio. Do universo?)
Ordem do universo; de todas as criaturas entre si, visíveis e invisíveis. Por exemplo, coisa mais natural do mundo, acreditar nos Anjos. É claro que eles existem. Nuca vi nenhum! A pergunta: “Você viu Anjo?”, me deixaria estarrecido diante da imbecilidade da pergunta. “Então você não percebe, pela composição de todas as coisas que deve haver Anjo, seu animal?” Porque se eu não tivesse esse sentido da ordem e visse o Anjo, ele podia ser para mim o osso desligado da coisa. “Apareceu um outro ser. O que eu vou fazer desse ser?”
Bem, mas tendo isso de inestimável do sentido — eu não quero dizer inato, mas é próximo do inato — da ordem, é o sentido do ser, mas muito ampliado, muito reto, muito direito, tendo esse sentido, você compreende como tudo se orienta facilmente, e como essa facilidade das correlações servia ao sentido da ordem. De onde vocês podem imaginar eu inteiro muito aderente à ordem antiga que eu conhecia, consuetudinariamente, etc., porque naquela ordem antiga eu sentia muito mais a ordem geral, a ordem universal do que num bicho.
E está inteiramente ligada a isso a reflexão que eu fiz a vocês no sábado passado, quando mostrei aquele quadrinho. Lembram-se daquele quadrinho de um batismo? Eu mostrei aquele batismo, fiz aquele comentário: aqui tudo torna difícil o pecado.
Não sei se vocês se dão conta, tem esse lado da coisa: é que naquele raciocínio tão rápido que eu fiz naquela hora, entra um verdadeiro turbilhão de relações, que de repente dá uma forma muito concisa e irrespondível a uma explicação que seria intérmina. E no total não seria convincente para muitos espíritos a não ser assim, à maneira de uma pulsão: aqui, está aqui.
(Sr. N. Fragelli: É a visão de quem viu.)
Não é uma visão mística.
(Sr. G. Larraín: Na RCR o senhor lança esta tese da visão da ordem do universo. E não é qualquer pessoa em estado de graça que tem. Pelo contrário, não tem. Então, por que é que não contestaram essa tese na RCR?)
É porque o pouquinho de ordem do universo que eles têm mostra que é assim.
(Sr. G. Larraín: Sobretudo que o autor da obra tem isso.)
Por todas essas razões contestar, ninguém contestou. comentário do Abbé Lefevre: “Ele diz muitas coisas que já são sabidas”. O comum dos meus leitores não sabiam. E ele não diria. Está acabado. Então a obra se justifica.
(Sr. N. Fragelli: Desde que o senhor abriu os olhos, o senhor notou.)
Desde!
* O homem inocente tem o sentido da ordem do universo, e a pessoa em estado de graça tem “in radice”, mas muito mais fraca
(Sr. Guerreiro: Inocência batismal e “Thau”. Cada pessoa batizada teria isso, se fosse apenas da inocência batismal.)
Mas in radice tem. O homem inocente tem, e a pessoa em estado de graça, da graça batismal, in radice tem.
(Sr. Guerreiro: Mas muito fraca.)
Ah, muito fraca. Isso é outra questão. Mas tem.
Agora, então, isto é um elemento explicativo do que vocês perguntam. Agora, entrará nisso.
(Sr. Poli: A certeza?)
* A certeza interior que o Senhor Doutor Plinio tinha não vinha da inteligência, mas sim da graça
A certeza.
Porque sem esse mecanismo eu tenho dificuldade em compreender que se possa ter certeza desse vigor. Agora eu chamo atenção para esse ponto: isso não é certeza do gênio. É uma coisa diferente. Eu não quero dizer que isso seja burrice, mas não é certeza do gênio. É certeza da retidão, que tem a seu serviço uma inteligência boa. Mas é a certeza da retidão.
Bom, de um lado isso. Agora, de outra dado uma… Do lado da vontade essa noção da ordem e da correlação das coisas, etc., etc., e do ótimo que há nisso, levava muito facilmente — nunca me levaria a adivinhar que Nosso Senhor Jesus Cristo existiu, e foi Deus. Eu não era homem, mas ninguém é homem, nem os maiores gênios para, da razão, deduzir o que Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou. Alguma coisa sim, porque Ele ensinou algumas coisas que são também verdades no plano natural. Mas muita coisa, por exemplo, a Santíssima Trindade, eu nunca teria desconfiado que existe. E não se pode. Ninguém pode. São Tomás nunca teria desconfiado que existe. Era preciso que ele contasse para a gente se dar conta. Vem daí a Fé, o ato de Fé no sentido técnico, específico da palavra, é esta.
Mas eu acho que, provavelmente, essa certeza tão grande era um conjunto de dons naturais, a seu modo muito grandes, colossais até, sem ser a [gentilidade?], mas a seu modo dons naturais muito grandes, mas escondidos. Não, isso eu tenho certeza. Eu precisaria pensar, mas creio que tenho certeza, pensando um pouco eu teria certeza de que isto não se desenvolveu. Não é assim, não.
Isso não seria tão excelente logo no nascedouro pela mera natureza. Quer dizer, a coisa natural, mas que a Providência protegeu e estimulou, e talvez mesmo tenha aumentado por uma ação da graça. É possível que a graça amplie no homem uma capacidade natural que ele tenha. Não é o fim da graça a não ser em ordem da salvação. Mas na ordem da salvação a graça pode fazer isso. Então se poderia compreender.
É o seguinte: é certo que eu não teria conseguido carregar isso direito ao longo de toda a minha vida, sem uma graça sobrenatural muito grande. Isso é certo. Porque não acredito, se um homem não pode longamente permanecer no estado de graça se o auxílio da graça, eu não poderia ter cumprido corretamente meu dever em função disso, na minha vida inteira, sem auxílio da graça. Portanto isto não tem dúvida nenhuma.
* “Eu tinha um senso do ser muito nítido e sentia um “lúmen” em mim mesmo que me levava a perceber que era feito para as mais altas coisas”
Agora, isso tem uma transposição para o campo do… Esse próprio senso da ordem, para o próprio campo da ordem, mas num plano individual: quer dizer, aqui estou eu e aqui estão estas coisas todas que eu estou vendo. Qual é a minha relação com essas coisas? Quer dizer, eu porque devo amá-las? Por que é que eu devo querê-las, por que é que devo apreciá-las? Não é no sentido de agradáveis, mas achá-las de tal maneira admiráveis, que não quero viver a não ser na consideração delas.
Bem, e por que razão isto é assim? Que relação há entre isso e eu?
Bem, repete-se a coisa. Eu tinha um senso muito nítido, com a mesma certeza que eu via as coisas fora, via dentro de mim, de quem eu era, e como era. Mas não era só “genealogicamente” não. Eu como eu, um homem que nasceu — podia ser filho de boiadeiro como filho de um príncipe, um homem! É um certo jeito, é uma criatura. Bem, então eu como é que era, como é que não era, uma introspecção calma, sem susto, nem medos, nem ilusões: é assim! Você é isso! Está acabado.
E qualquer coisa de luminoso que eu tenho certeza que era a graça, qualquer coisa, um lumen que sentia em mim mesmo, que me levava a perceber que eu era feito para as mais altas coisas! Não como um fruto de minha natureza, mas o fruto de uma adequação de minha natureza a algo de luminoso, de sobrenatural que eu percebia!
(Sr. –: Magnífico!)
* As sestas do Senhor Doutor Plinio em pequeno, no chão da sala, eram no fundo contemplações que já iam para a transesfera
Bem, então, com calma também; porque tudo isso se deu com muita calma. Vocês não podem ter idéia, eu fazendo as minhas sestas, que no fundo eram contemplações a maior parte das vezes, fazendo minhas sestas na penumbra, etc., deitado no chão, em cima de uma toalha por causa de um desvio de coluna e pensando, pensando… — sem travesseiro e me arrepiando com a falta de travesseiro, mas a ditadura médica já tinha começado, meu Edwaldo… — e deitado naquilo e olhando, e pensando… A luz que entrava pela fresta da veneziana; o carro que passava na rua; e os barulhos, os ruídos, as coisas, aquilo tudo ia entrando.
Mas vinha banhado numa luz, quer dizer, o ser de cada coisa me parecia que refletia coisas, que exprimia coisas, que era esta relação toda, essa correlação que eu falei, mas já então meio envolta em qualquer coisa que ia para um campo muito mais alto, que o jargão do MNF chama de transesfera. Tudo a transesfera, vocês quatro vêem, é no fundo o que eu vi, transposto para os mais altos aspectos de si próprio.
(Sr. N. Fragelli: Como isso é a TFP, hein?)
Ah, é TFP a conta inteira! Eu me lembro por exemplo, o seguinte, é uma coisa que me marcou muito, e depois como eu tenho má memória eu fiquei reduzido a número pequeno de fatos. As torrentes de fatos que me passaram pela cabeça, eu fiquei reduzido a um número pequeno. Mas às vezes eu acordava assim às cinco horas da manhã, mais ou menos, e a São Paulinho estava se despertando. E eu não tinha o que fazer, estava sem sono, e o que eu podia fazer era ouvir os ruídos que entravam. E em certa hora da madrugada… A vida da São Paulinho muito mais regular do que a São Paulaço, não é? Tudo isso se dava às mesmas horas, etc. Eu ouvia na distância da noite um perneta que passava. E os pernetas usavam perna de pau naquele tempo, não eram essas coisas mecânicas de hoje. Eu ouvia de longe o passo dele: “pum-pum-pum-pum”. Depois ele ia chegando perto da minha casa. Ele vinha do lado do Coração de Jesus, daquela zona, ia pela Alameda Glette. Ele ia chegando perto de minha casa e o batuque dele ia se tornando mais intenso. Até tomar a moderada intensidade que podia tomar, e depois ia afastando: “tum-tam, tum-tam, tum-tam…”
Agora, transposição — uma coisa que um outro qualquer podia achar graça, podia ser tentado a dar risada, debicar, qualquer coisa assim. Para mim: “Que vida difícil! Mas como esse homem anda com decisão. E andar, um homem que provavelmente é um homem ignorante, porque para estar se movendo aquela hora da noite, devia ser mais ou menos um trabalhador manual. E aquela hora só estava acordado em São Paulo gente que ia para o trabalho. Esse pobre coitado lá vai para um trabalho que ele conseguiu, não sei qual é, mas há um trabalho para ele. Na bruma, no frio, na incerteza de ser assaltado ou não”.
Eu tinha muito medo de ele ser assaltado ou não, e então atribuía a ele o medo de ser assaltado! Ninguém ia assaltar um pobre mulambo desses que se pusesse de cabeça para baixo caiam dois tostões. Dava um caso com a polícia. E depois coitado, logo com esse. Não valia a pena atacar esse homem. Mas eu não realizava isso, não me ficava claro na cabeça.
Bem, então tudo isso, mas aquela espécie de regularidade e de coragem dentro da bruma. Aquilo se repetia todo dia. E em alguns dias que ele passava, eu estava dormindo, na moleza, no bom aconchego de meu quarto, e das minhas cobertas, de minha cama, etc., etc. Que contraste interessante. Não saíam considerações igualitárias daí, mas era: “Como é a vida, como é diferente para uns e para outros. Mas é visível para todos. Não sei se vocês notem uma noção de ordem que aflora do fundo de tudo isso?
Bem, então, a projeção de todos os temas para uma consideração muito profunda, de um lado; mas depois uma consideração muito elevada, porque a bruma era ali; a bruma não, o que andava, era o símbolo, o próprio símbolo quase tangível do infortúnio como um valor dentro da vida, como uma espécie de como que absoluto dentro da vida: tem que ser assim. E a gente enfrenta isso não fugindo, não correndo para dentro de minha cama, mas enfrentando. Esse homem, se oferecessem para ele a minha cama — ele nem cabia, uma cama de menino, mas a idéia — ele não saberia fruir o agradável dessa cama. Eu posso ser jogado até onde ele está, as ele muito dificilmente entrará onde eu estou. Eu preciso me habituar a ter essa energia. Porque ele não precisa trabalhar-se para ser capaz de se pôr na minha posição, porque não é para ele. É muito improvável que ela tenha isso.
Mas! Eu tenho parentes pobres. Ramos inteiros de minha família que rolaram e que estão mais ou menos na situação desse homem. E eu posso cair nisso. E de mim, a ordem quer essa leistung. Eu devo varar tudo como esse homem vara as trevas!
Vocês me dirão: “Não era muito mais bonito que você meditasse nas virtudes de Santo Elesbão?”
Quer dizer, eu diria: “É muito mais nobre. Mas eu se fosse ler uma vida de Santo Elesbão, esse aspecto não estava posto em caso”. [Vira a Fita.]
Bom, e isso com muito facilidade, elucubrações comuns. E daí então respondo a sua outra pergunta: esta gama muito alta, o que é que era? Era o natural chegar até esses… É propriamente o fruto normal do pensar, é isto. Se o pensar não chegou a isso não valeu a pena viver. Porque… Para quê? Fazer o que disso?
(Sr. G. Larraín: Mas aí é que está: muita gente pensou e não chegou a esse patamar. Há um gênero de pensar diferente, que é próprio ao senhor. E aí está o problema que levantávamos no começo.)
* Devido ao afrouxamento do seu senso primeiro e à dissipação, o homem hoje em dia está como água que foi jogada de um recipiente de cristal no chão
Eu vou dizer o que me está na alma a esse respeito, mas vocês naturalmente… Aqui eu vou dar, porque eu nunca aprofundei, tudo o que eu estou dizendo está saindo assim, e ainda mais o que eu vou dizer agora, vai sair assim. Para se dizer em trajes matutinos… Bem, mas vamos lá o negócio.
Eu observando as pessoas com que eu convivia, porque muito expansivo tinha tendência a comentar isso com as outras pessoas. Mas eu observava que eles nunca comentavam as coisas nessa clave. E observava que se eu fosse contar a eles, dizer a eles, eles não entenderiam. Mas se sentiriam contundidos em qualquer coisa. E que por causa disso me combateriam: dariam risada, contestariam, etc., etc., combateriam.
Agora, então uma pergunta: eles eram assim…
(…)
E no total formei a seguinte conclusão — não se ericem com a conclusão — é porque eles não tem… entendeu?
(Sr. –: Claro!)
Os outros, mas os outros que são, como é que eles também não vêem? Eu digo: Vêem, quand-même, um pouco mais. Quand-même vêem um pouco mais. Mas acaba sendo verdade que eles estão encharcados daquiLo mesmo que eles combatem. Se eles não estivessem encharcados, estivessem inteiramente dentro dessa linha, eles poderiam facilmente chegar onde eu cheguei. Dependia é da fidelidade deles a esse ponto inicial.
Agora, o que eu não sabia dizer… E curioso que eu comecei a reunião hoje à noite com esse fato da guerra do Paraguai quase dissipante, mas tão instrutivo que eu não… Mas se não percebia, não tinha a menor idéia que pudesse me servir, e muito, para esta parte da exposição que entra agora.
É o seguinte: eu julgava que todas essas correlações, tudo isso que eu estou dizendo, se faziam através do raciocínio. Não tinha idéia nenhuma do senso do ser, e das coisas decorrentes do senso do ser. E não sabia, portanto, o conjunto do pensamento da vida humana como caminhava. Pensar era fazer silogismos. Se você não fez silogismos você não pensou.
E eu não tinha idéia — estou conseguindo explicitar particularmente bem agora à noite — de seguinte ponto: é que há um número enorme de influência que a pessoa recebe, não só por silogismos subconscientes, mas por mecanismos psicológicos como esse de um soldado e uma tropa, ou duas tropas da guerra do Paraguai, agirem de acordo com óperas tocadas nas maiores teatros do mundo — Scala de Milão, Opera de Paris e o que queiram — de que maneira, por que mecanismos, de maneira tal que acabavam influenciando a eles? Por estes mecanismos que são no fundo da razão — mas eu vou daqui a pouco entrar nessa coisa — por esses mecanismos, sem que o homem se dê conta, ele pensa muito mais do que imagina. Tem muito mais coisa na cabeça do que imagina.
Mas porque ele afrouxou nas tendências, na honradez do seu senso primeiro, da própria noção de ser, porque ele “zuppou” tudo isso, borrou, relaxou, pensou em idiotice, se dissipou, porque ele se dissipou, ele foi como água que foi jogada de um recipiente de cristal no chão.
O que é que aconteceu com essa água? Ela deixou a calçada molhada durante algum tempo, vem o sol, aquilo vira vapor de água. Esse vapor de água se dissolve no universo. Assim fez o homem que se dissipou jogado assim!
E durou o que eu estou dizendo, não me queiram mal, mas é a realidade. E ele posto nesta situação, ele em última análise, prevaricou e carrega o fruto da prevaricação. Ele é como umas gotas de umidade dissolvida na sociedade humana, que conservam a potencialidade de se aglutinar. E para isso o exemplo da água não é bom, porque não acontece com a água. Mas é só o que resta dele. Ele conserva a possibilidade de voltar a ser o que foi. Só. Mas nada.
* Apesar de todo o escangalhamento no qual o homem vive contemporâneo, ainda se conserva um tendão que liga a alma ao corpo
Mas como a destruição não foi completa, de cá, de lá, de acolá, uma antena pega uma coisa, uma outra antena pega outra a coisa. Numa determinada hora uma coisa atinge uma outra coisa.
(Sr. G. Larraín: Como a bolinha de mercúrio.)
Uma bolinha de mercúrio. Isso, exatamente.
Então, no naufrágio dele — e nesse ponto a metáfora da água serve muito limitadamente — ele estaria quase para o que ele poderia ser, como um cadáver está para uma alma, que pode vir a “re-habitar” o cadáver. Mas no momento ela é o eu ejetado fora de sua própria carne, e vivendo no vácuo.
Bem, eu sei que a alma não vive no vácuo. Mas entendam o que eu quero dizer, uma metáfora, uma comodidade de expressão. E pode ser que por uma ação de Deus, esta alma volte ao seu próprio cadáver que há dentro dela. Mil coisas que estão esparsas, escangalhadas, etc., etc., pode ser que com uma palavras se reestruturem. Então se reestruturam com toda essa riqueza que eu estou falando. Mas elas conservam restos, conservam… Que são, talvez, um tendão que liga ainda a alma ao corpo. Se quiseram é a ponta do dedo da alma — dedo da alma é uma expressão absurda, entendam a metáfora — que toca ainda no corpo. Pode ser.
* Até no modo de embalar as crianças, vê-se a conspiração revolucionária querendo-as levar para o oposto do senso do ser
Bem, e que dão ao homem essa possibilidade, essa noção de que isso é para ele ainda readquirível. E quando vem uma pessoa que tem isso inteiro, e fala com eles, dá-se lago parecido com a “Catedral Engloutie”. O sujeito sente uns sons tocarem dentro dele.
(Sr. N. Fragelli: É o ponto de aglutinação.)
É o ponto de aglutinação, ele sente os sinos tocarem dentro dele. Fica muito obscuro na cabeça dele, mas fica o seguinte: “Para o que é que eu estou vivendo?”
Então, uma idéia: “Estou vivendo para ficar rico, para gozar a vida, para fazer carreira, para ficar importante para meus parentes”… uma besteira qualquer.
É uma linha, primeira linha.
Agora, segunda linha: “Eu estou vivendo para ser o que eu não cheguei a ser. Quero, desejo rearticular-me de algum modo”.
Não é claro na cabeça do sujeito, mas quando ele procura o automóvel, procura o avião, procura isso, aquilo, aquilo outro, ele no fundo procura o que eu estou dizendo: algo no qual ele cole, no qual ele se enganche, e em função do qual ele se ordene — por assim dizer uma ordem dentro da qual entrar.
(Sr. G. Larraín: É uma ordem má, digamos.)
É uma ordem má. Não, e depois ele vai à procura dessa ordem levado pelos sentidos. É no fundo essa esperança de encontrar algo e se enganchar. Mas é assim. Depois, naturalmente, não consegue, e daí vem tudo o que vocês conhecem.
Seja como for, seja como for, isso revela um… — revela, a expressão não é boa — isso manifesta todo um terreno da realidade interna e externa, para a qual a civilização revolucionária, e sobretudo a revolução da indústria, fizeram o possível para achatar. Tudo, tudo, é calculado expressamente para tirar a cada um de nós toda a noção e todo o resto disso.
Desde pequeno, no modo de embalar as crianças, desde a nina-nana antiga, [modelada?] e calma, até o jeito de brincar com a criança, jogando a criança no ar e segurando, essas loucuras assim, tudo conspira para levar a criança para o oposto.
Quer dizer, então, a conspiração que há é colossal. E vejam bem a coisa…
* “O apostolado da TFP cresce em lucidez aos nossos olhos, compreendendo-se que se trata de levar a RCR ao mundo, mas a RCR com isso que é o complemento ainda não escrito nela”
(…)
…isto forma uma missão especial da TFP que então é, antes de tudo, a difusão do tal enquanto tal, é verdade, mas é à luz do que eu disse. Isso adere ao tal enquanto tal…
(…)
…sem que vocês encontrassem isso. Porque isso se explica, os explica, e determina um papel, uma tarefa, uma coisa especial para vocês. E notem bem, está muito no jogo comum da Providência, quando ela destina alguma coisa — eu vou usar uma expressão da Bíblia, eu acho que está no Apocalipse, não sei onde está, mas fala de um tempo, mais um tempo, depois um meio tempo.
(Sr. G. Larraín: Acho que estamos no fim do fim do meio tempo.)
Hahahaha!
(Sr. J. Clá: É um tempo, mais dois tempos, mais meio tempo.)
Um tempo, mais dois tempos, mais meio tempo. Poderia ser, eu não estou pretendendo fazer exegese, eu estou só tomando essa expressão assim porque ela descreve a nossa situação: é uma espera. Quando a gente pensou que a espera está chegando a seu fim, entra mais uma espera duas vezes maior. E quando a gente está morrendo de falta de respiração, que é o meio temo, de repente a gente encontra. E a longa espera de vocês corresponde a um tempo, mais a dois tempos, mais a meio tempo até encontrar isso.
(Sr. Poli: Longa espera não é propriamente… É longo.)
(Sr. J. Clá: Desvio!)
Bom, é a espera do povo Judeu no deserto. Se tivéssemos sido mais fiéis, a espera teria sido menos grande. Bom, mas historicamente as coisas puseram-se assim. E eu considero essa noite aqui — eu estava dizendo João, você estava fora — que era a noite mais importante da história do Grupo até agora.
Bem, mas considero também que de fato se encontrou uma coisa que explica a cada um, do modo mais exato do que jamais teve, a razão de sua presença no Grupo. Não é só presença na vida, mas é presença no Grupo. Não sei se me exprimo bem?
(Sr. –: Claro.)
E convida a cada um ao desejo de fazer esse apostolado para o qual é convidado, porque obviamente o apostolado da TFP cresce em lucidez aos nossos olhos, compreendendo-se que se trata de levar a RCR ao mundo, mas a RCR com isso que é o complemento ainda não escrito nela.
(Sr. N. Fragelli: O apostolado clama para ser feito assim.)
Clama! Outro problema é: como fazer esse apostolado. É um problema prematuro.
(Sr. –: Para outras reuniões.)
E para outras graças. Nós apenas apontamos. Seria quase cortar o fio da graça entrar nisso agora.
(Sr. N. Fragelli: O senhor quando deu o exemplo dos soldados argentinos, o senhor deu com vistas a mostrar que há coisas que entram na mentalidade da pessoa sem ser pleno raciocínio?)
* O fundo de quadro da alma de um verdadeiro católico: não se mover somente através dos raciocínios mas deve-se saber ouvir o seu bom senso
Eu sobre isso precisava dizer uma coisa, porque não ficou claro. A questão é a seguinte: no modo da Revolução — porque isso é a Revolução, no que eu vou dizer agora — apresentar para a nós as coisas, não só dizia que a verdade só se atinge por silogismos, mas dizia uma outra coisa: que só importa na caminhada para a verdade o silogismo. O cultivo da premissa era desdenhado completamente.
Bem, mas mais ainda: que só era científico, verdadeiro, digno de confiança, o produto do raciocínio consciente explicitado, porque o outra não era objeto de controle. E portanto um raciocínio subconsciente não tinha menor interesse. Era um “natimorto”, absolutamente não se toma em consideração.
Ora, acontece que de fato o raciocínio subconsciente não é um “natimorto”. Ele vive na cabeça do homem e move o homem antes que o homem explicite. E largamente. E por isso todos nós sentimos bem que há uma porção de movimentos em nós que nós pensamos que não são lógicos, mas são subconscientes, e na alma reta sempre lógicos. Esse é um ponto.
Donde segue que esse não é o caminho do ilogismo. É o caminho das premissas super cultivadas, e do respeito ao próprio bom senso, de maneira tal que a gente não vai fazer por cima do bom senso uma trans-siberiana, como aquele Tzar. Quer o caminho de Moscou para Vladivostok. Pega aqui uma régua e traça. Está traçado. Todas as discussões com vocês sobre trajetos, etc., não interessa. Está uma reta.
Assim fazem os racionalistas. Se eu estou pensando, estou sentindo, não tem importância nenhuma. Ou eu me conformo com o raciocínio explícito que eu tenho, e faço passar o buldozzer derrubando tudo no caminho, ou eu sou uma besta.
Pois não é verdade. Mas eu preciso ter, quando alguma coisa em mim choca ao meu senso, ao meu bom senso, eu preciso saber perguntar ao meu bom senso, preciso ouvi-lo, preciso deixá-lo falar, e preciso ter esse interno de ordem, por onde às vezes eu percebo que eu não consegui explicitar, mas que algo em mim legitimamente está me dizendo que não faça, ou está me dizendo que faça. E o equilíbrio entre o raciocínio consciente e isto que são coisas legítimas, ordenadas, são movimentos ordenados do espírito, precisam ser tomados em consideração. Não vai assim.
Bem, aqui nós temos um quadro de fundo da alma do verdadeiro católico, não revelada nas dissertações habituais.
(Sr. N. Fragelli: E como isso é santo, como isso é sagrado.)
Muito, mas muito! Mas como isso leva depois a pessoa a ter calma, e estar distante da Revolução e ir se formando a si própria, e como é bonito ensinar tudo isso. É outro mundo.
(Sr. N. Fragelli: Isso é, como dizia o Sr. Gonzalo Larraín, a América que o senhor descobriu para nós, que o senhor representou para nós.)
* “Se o século é a Revolução, então Nossa Senhora me protegeu para eu ser um homem fora do meu século, desde o início”
Um continente inabitado…
(…)
…produziu em você toda espécie de mal-estares, de movimentos, de impulsos poucos definidos, mas de quem não fica dentro do continente velho, e acha que saindo do continente velho encontra o abismo. Também é verdade.
Agora, o que é que é? É uma porção de coisas retas que gemiam dentro de você, não quero dizer que o gemido fosse sempre um cântico, mas gemiam dentro de você. Mas que indicam quanta coisa há no homem quase move, e que o simples raciocínio explícito não resolve, se à medida em que os problemas vão se pondo os raciocínios explícitos não acompanham o problema, e o respeito do senso não adquire o papel que lhe compete.
(Sr. N. Fragelli: No caso daqueles soldados argentinos, foi, digamos assim, a Ópera de Paris que os influenciou, de uma maneira não silogística consciente. Agora, no caso do senhor o que… foi a Ópera de Paris que influenciou os pensamentos não conscientes do senhor?)
No fundo do fundo do fundo, foi o Ancien Régime, mas no fundo do Ancien Regime a Idade Média. A Igreja e a Idade Média.
(Sr. N. Fragelli: Antes do senhor ver as revistas, ou não? Depois de vistas?)
Não. As revistas fizeram-me sentir que eu encontrava o que eu procurava. Mas antes de vê-las, já a minha ordenação inteira era feita para encontrar aquilo.
(Sr. N. Fragelli: E já influenciado por aquilo também, ou não?)
Talvez, no seguinte sentido: essas boas inclinações despertadas por restos de tradição dentro dos quais, por um análogo mecanismo, eu sabia entrever aquilo que eu encontraria na Idade Média.
(Sr. N. Fragelli: Então o senhor era um homem fora do seu século, não é?)
Ah, completamente. Se o século é a Revolução, então Nossa Senhora me protegeu para eu ser um homem fora do meu século, desde o início!
(Sr. G. Larraín: A gente vê que nessa reunião caminhou-se um pouco mais na compreensão da vocação, da visão do senhor. Mas vemos que falta muito ainda para caminhar. Há uma coisa mais de fundo, que toca uma certa profundidade da alma, em relação ao senhor, uma visão da pessoa do senhor, uma profundidade que só existe na pessoa do senhor, e em mais ninguém. Agora, o que é que é isso?)
* Há uma espécie de carisma na pessoa do Senhor Doutor Plinio por onde discernimos nele uma grande missão e um triunfo
Eu respondo até com facilidade, me servindo de uma outra metáfora. Você falou de Nosso Senhor com os apóstolos. Então haveria nos servidores dEle, alguma coisa — Christianus alter Christus — nos servidores dEle poderia haver alguma coisa de longinquamente análogo a Ele. Mas a coisa vai mais fundo. Na ordem natural, puramente natural, você encontra fenômenos onde seria muito difícil supor a ação da graça — em rigor num ou noutro podia supor, mas seria muito difícil — mas que são pessoas em cujas almas, de repente, o comum dos indivíduos vê, sobretudo antes do século passado, se você quiser, as pessoas tinham mais facilidade de ver, e se catalisam dentro da pessoa certos predicados, que indicam uma missão e um êxito!
Você toma o famoso caso do bastão do Condé em Rocroi, que está fotografado magnificamente lá na Rua Traipu. O episódio todo mundo conhece. Mas não atentam para o lado psicológico da coisa. Se quando Condé jogou aquele bastão os soldados não sentissem que realmente ia ter aquela vitória, e que iam ter aquela vitória por algo que havia no Condé, que os levava a confiar que aquilo não era uma loucura. Então, porque eles sentiam isso no Condé, um fato puramente natural — é uma luta de franceses com espanhóis; depois, fato mais digno de nota, é que o mau espírito é representado ali pelos franceses, por mais sublime que tenha sido o fato, nós naquele tempo torceríamos contra o Condé a favor dos espanhóis, esta é a realidade. Vocês podem imaginar minha indignação se tivesse naquele tempo, do Condé fazer uma porcaria dessas. Portanto, é muito difícil imaginar o sobrenatural nisso. Mas é um conjunto de qualidades naturais que faz com que o homem jogando o bastão, a gente diz: “Agora, com esse homem, nesse momento, isso vai!”
(…)
…procurando dar uma palavra para designar isso, fala de líderes carismáticos, generais carismáticos, de figuras carismáticas. Eles não têm a mínima idéia de sobrenatural dentro disso. Mas é um certo ser que conduz a um certo fazer, que a gente percebe que estão acumulados num certo indivíduo. E como se sabe que aquela constelação de circunstâncias é raríssima, ela quando se dá, habitualmente não enfrenta outra igual a si.
(Sr. G. Larraín: Perdão, como é mesmo?)
Quando isso se dá, uma constelação de qualidades assim se dão no homem, de qualidades e de estados de espírito de momento, se dão num homem, como isso é raríssimo — raríssimo no sentido português da palavra, quer dizer, muito pouco freqüente — como isso é então raríssimo, o indivíduo que vê produzir-se isso no espírito de um outro, sente que não tem ninguém no lado oposto que seja carismático como aquele. Então daí deduz a vitória! Não é uma loucura, porque eu vi relampaguear algo dentro dele!
(Sr. G. Larraín: Agora, está excelente, mas não é só a vitória. É o feitio espiritual, moral da pessoa.)
Vamos devagar: é o feitio de certas virtudes na pessoa. Porque não é toda virtude que pressagia uma coisa do tipo de Rocroi.
(Sr. G. Larraín: Agora, o caminho para entender diretamente o que seja a missão do senhor é esse?)
Muita coisa. Mas o que você diz agora, que parece uma pergunta nebulosa e complicada, não foi. Uma pergunta que tem todo cabimento, e à qual eu dou uma resposta inteiramente lógica.
Mas veja bem, hein, aqui está o nosso modo de ser: é uma resposta inteiramente lógica, mas não é só inteiramente lógica: a partir de uma análise muito exata da realidade dos fatos — que é do fato do carisma natural, da situação chamada carismática. Bom, o que é essa situação? É uma coisa lindíssima para analisar. Bem, de um lado. E do outro lado, portanto, vocês têm aquele equilíbrio muito nosso, de uma análise profunda das premissas, e depois um raciocínio segura, que vai se abastecendo das premissas.
Mas aí o que é que tem? É uma operação mental clássica, meio subconsciente, e de primeira ordem.
(Sr. N. Fragelli: Uma premissa de grande certeza.)
De grande certeza, não é? Me permitam que eu acrescente, porque isso é um certo ponto de fricção dentro do Grupo: com um vocabulário muito próprio a dizer essas coisas. Sem esse vocabulário eu não conseguiria dizer o que eu quero dizer [Troca a fita.]
…e uma didática muito própria. Então tudo isso são sucessivos elementos para se compreender o conjunto que temos diante de nós.
(Sr. Poli: E um talento sem precedentes na História!)
Bem, isso não espanta muito se, para uma missão sem precedentes, tenhamos que ter coisas sem precedentes. Agora, a questão é que isso não importa em genialidade. Mas genialidade também o que é? Nem nos interessa definir.
Bom, aí eu acho que realmente é uma grande noite. Não tanto por ser um termo de chegada — não é o termo final de nenhum modo — mas é um termo final de uma espera, de uma era. Bem, mas que de algum lado alivia a carga nas costas de vocês, mas de outro lado pede muita generosidade. Isso tudo vai junto!
(Sr. Guerreiro: São três e dez já, eu tinha uma perguntinha.)
Diga qual é, eu respondo depois.
(Sr. Guerreiro: O senhor disse que esta era a reunião mais importante que se tinha feito aqui, aos sábados à noite. Eu vejo bem por que lado ela o é, mas vejo também, que no espírito do senhor ficaram algumas coisas implícitas, mais implícitas para o espírito do senhor do que explícitas para o meu pobre espírito. Hahahaha!)
Hahahaha! Eu entendi bem: no meu espírito ficaram muitas coisas implícitas, que para você não estão explícitas.
(Sr. Guerreiro: No modo do senhor fazer o comentário da reunião, eu percebi que eu não vi, comparado com o que o senhor viu, vinte por cento. Então era para pedir ao senhor tratar um pouco dos oitenta por cento que estariam faltando.)
Hahahaha! No sábado que vem se Deus quiser tratamos disso. Mas você dá seu depoimento!
[Risos]
Pois eu gosto muito, vocês me apresentem para sábado que vem, se Deus quiser.
(Sr. G. Larraín: Dava para cantar o “Magnificat”!)
Podemos recitá-lo!
[orações]
* O Senhor Doutor Plinio levanta uma pergunta sobre a mística ordinária para ser tratada na próxima reunião
Eu quero gravar um problema para a próxima reunião também. O seguinte: segundo a doutrina do Pe. Garrigou Lagrange, a mística ordinária está presente continuamente na alma de todos os homens que estão em estado de graça, pelo menos. E nesse sentido, há um mundo de fenômenos sobrenaturais, que se dão no homem por efeito da graça, de que o homem tem um certo conhecimento, uma certa noção, e que são capitais para toda a vida espiritual dele. Até que ponto esses fatos sobrenaturais têm relação com o que nós acabamos de dizer. E até que ponto eles completam o nosso quadro.
Então, a mística comum, a mística ordinária, até que ponto completa o nosso quadro. Eu várias vezes estive para dizer, mas com as perguntas etc., me tem escapado. E acho que isso é um tema capital. Porque por exemplo, para mim, o conhecimento da Igreja, o senso católico, suponho que vieram muito de como que conhecendo esses fatos sobrenaturais em mim, e observando nos outros, notar bem como é o espírito da Igreja, porque a graça é o espírito da Igreja. Então, a supercerteza da Fé. A Fé é um rationabile obsequium mas tem elementos que tem relação com isso.
(Sr. G. Larraín: E tratar da mística profética também, porque ficar no Garrigou Lagrange, não chegamos a nada.)
(…)
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Alagoas, 1º andar