Conversa
da Noite ─ 26/9/87 - Sábado .
Conversa da Noite ─ 26/9/87 - Sábado
A longa história de fracassos no apostolado constituiu uma “via crucis” no início da vida do Senhor Doutor Plinio * Houve um período da vida do Senhor Doutor Plinio em que ele deitou especial atenção na análise da psicologia das pessoas * Modo pelo qual o Senhor Doutor Plinio foi se formando como polemista nas discussões do Colégio São Luís
Então, quais são os temas, quais são os casos, os problemas?
(Sr. Guerreiro: Nós temos uma pergunta. Mas como há vários visitantes, talvez tenham perguntas.)
Visitantes não, aqui todo mundo é catedrático! Venha de onde vier, e qualquer tempo que esteja ausente, a cátedra é inalienável! Ainda que a gente venha de Bagé, do extremo sul do país, é-se catedrático, não tem conversa. Mais ainda, quem vem do outro lado do “charco”, vem do Porto, é catedrático!
(Sr. Guerreiro: Uma pergunta seria pedir ao senhor para continuar a tratar do assunto teoria da ação, que o senhor vinha explanando nas reuniões anteriores.)
(Sr. Poli: O senhor tinha pedido para levantar no início da reunião uma pergunta que o senhor tinha feito para nós: nas duas últimas reuniões o senhor tinha descrito fatos que já tínhamos conhecido. O que havia de novo era a concatenação em que eles foram dados. Então qual era o proveito que nós tínhamos tirado da reunião.)
É. Gostaram, vocês tiveram a generosidade de gostar muito da reunião. Agora, no quê? O que é que lhes trouxe de lucro, de vantagem, de elemento novo?
(Sr. Guerreiro: Quem sabe se o senhor tratar do tema de hoje, nós possamos na semana que vem responder melhor ao senhor.)
Hahahaha! Pode ser. Hahahaha! Pode ser. Mas eu gostaria que não se esquecessem. Eu não estava esquecido. Quando você começou a formular, eu pensei comigo: “Com certeza o Guerreiro vai responder a essa pergunta assim”. Depois vi que não era. Não quis, por assim dizer impor a pergunta. Mas estava bem lembrado dela. Se vocês quiserem, põem na reunião que vem.
* A longa história de fracassos no apostolado constituiu uma “via crucis” no início da vida do Senhor Doutor Plinio
Mas então vamos responder a pergunta hoje. Não é muito fácil começar, porque a linha divisória entre o que se aprende de tática no período da ação individual, foi mais ou menos até as Congregações Marianas, e corresponde a uma fase muito definida de minha vida. A fase pré-ação pública, em que eu estive treinando para a ação pública sem saber, sem me dar conta. Depois começou a ação pública.
Agora, acontece que a ação pública e a ação privada não se diferenciam tanto assim. Se tratar mais ─ não exclusivamente, mas mais ─ de fazer uma transposição para o padrão coletivo, daquilo que se aprendeu no padrão individual. Você dirá: “Bom, mas a ação do senhor no período anterior foi uma ação mais defensiva, e uma tática mais de sobrevivência. Não foi um tática ofensiva. Ora, na ação pública o senhor aplicou uma tática ofensiva. E, portanto os critérios, os meios e os remédios, etc., têm que ter sido diferentes.”
Não é bem assim. Porque eu concebi a minha ação individual como sendo uma ação de sobrevivência, certamente, mas também de conquista. Era o constante empenho em fazer apostolado, em conseguir aglutinar um primeiro grupo, com incessante fracasso. Mais ainda. Deitando a minha vista, minhas vistas, ao longe, em torno de mim, mas sem ver nada que pudesse justificar uma esperança; entretanto, tentar, tentar, tentar e mais uma vez tentar.
E nestas tentativas, portanto, tentativas malogradas de conquistas, eu haveria de… que iriam formar em mim uma tática de conquista. Porque eu incessantemente procurava melhorar as táticas de conquistas anteriores. E eu falei muito mais da preservação, porque foi o que foi feito de positivo. E a história dos fracassos acaba sendo, de algum modo, em alguma perspectiva, uma não história. Porque, que história a gente pode fazer? Procurei esse, fracassei; procurei aquele, fracassei; procurei aquele outro, fracassei. Que história uma coisa dessas pode ser?
Mas, de fato, é uma história. Quinhentas tentativas frustras dão uma história. Uma história de dor, uma Via Sacra, mas elas dão uma história. E eu fui largo marinheiro desses mares amargos. Se quiseram eu posso dar alguma coisa do que era o critério da conquista, e o sistema da conquista, para juntarem e depois fazerem a transposição. Eu serei breve, porque isso se esfarela em mil circunstâncias próprias dessa pessoa, daquela, daquela outra pessoa. Portanto, não vou entrar nisso. Eu dou uma linha geral. Até já me esqueci de muita coisa.
(Sr. Guerreiro: Papel da polêmica para o apostolado do senhor.)
* Houve um período da vida do Senhor Doutor Plinio em que ele deitou especial atenção na análise da psicologia das pessoas
Foi a conquista, e a polêmica e a abertura de espaço. Em ordem, era: abertura de espaço e preservação; polêmica e conquista individual ─ formava um tripé dessa primeira fase da ação individual. Então eu poderia dar alguma coisa da ação individual…
(…)
…aquilo mais a minha ação individual sobre o conjunto do colégio. Mas eu estou falando da ação individual de indivíduo a indivíduo, que é uma coisa distinta. Mas são inteiramente reversíveis. Vocês podem pegar aquelas regras, são inteiramente reversíveis. Eu creio que já tinha um bom discernimento dos espíritos, que me ajudava a analisar muito, a perceber muito, etc., muita reflexão sobre as psicologias individualmente consideradas.
(Sr. Guerreiro: O senhor teve uma época em que pensou muito sobre as psicologias das pessoas?)
Muito, muito. Enormemente. Toda espécie de pessoas. Depois, sobretudo, o efeito das idéias que eles diziam ter, sobre a mentalidade deles. Isso é um problema muito interessante. É o “b-a, ba” da psicologia: é tomar as idéias que o indivíduo diz que tem, e verificar até que ponto realmente ele as tem; e até que ponto ele é um vazio que diz que tem certas idéias, porque é mais cômodo, porque o pai dele pensa assim, a mãe, qualquer coisa, ou o irmão, mas ele não tem idéia nenhuma, aquilo não tem nenhum efeito sobre a cabeça dele. Isso é uma coisa.
Agora, outra coisa inteiramente diferente é ver quando o sujeito tem idéia, como é que a idéia entra nele o amolda. E a existência da contradição. E com a existência da contradição, a existência de idéias opostas, formando dentro do mesmo indivíduo, indivíduos antagônicos. E a ciranda das personalidades diferentes que afloram e saem, e entra outra, entra outra… E os vários homens que dormem num homem. Eu não sei se estou me exprimindo adequadamente?
(Sr. –: Extraordinário!)
E isso eu observava com muito interesse, porque eu achava passionant ver como é isso. Sem omitir que eu percebia que isso tudo era indispensável para o apostolado que eu faria um dia. E eu entrei então para o Movimento Católico equipado com esses elementos, para começar então uma ação pública. Quer dizer, aí eu entrarei com a ação pública. Continua a ser isso o que vocês querem, ou não?
(Sr. –: Sim!)
Bom.
(Sr. Guerreiro: Até que ponto o senhor usou a polêmica antes de entrar no Movimento Católico? Que papel ela teve na vida do senhor, nesse período anterior ao Movimento Católico?)
Foi esse papel: eu percebia que eu…
(…)
* Modo pelo qual o Senhor Doutor Plinio foi se formando como polemista nas discussões do Colégio São Luís
Vocês vão ver entrar os erros providenciais aí. Como polemizar entre os meninos, mas como era a polêmica em tese? Era uma outra questão. A primeira idéia é de que o raciocínio tinha um efeito triunfal. E que se, portanto, a gente… A idéia assim: se eu alcanço o conhecimento da verdade objetiva pelo bom uso do raciocínio, eu para convencer alguém de que eu tenho razão, se eu souber dar ao que eu estou pensando a sua melhor forma lógica, e com o vocabulário mais próprio a dizer o que eu quero ─ portanto a necessidade de formar um vocabulário largo, fácil, à minha disposição; não gaguejar nunca! É o fracasso de quem quer polemizar! Tem que falar, fale! E fale torrencialmente, não pode ser de outra maneira! Então, na polêmica sobressaio ─ e eu queria sobressair!
Outra coisa: puxar o timbre de voz de maneira a se tornar alto! Vozinha vágula, brandula, “henhenhem”, não vale nada!
A gente precisa ter uma voz marcante, martelada, e, le cas échéant ”tronitroante”! Precisa ser. Isso precisa adquirir, presta atenção no modo dos outros falarem, quem fala bem você procura entender bem com é, procura imitar, adaptar-se a si próprio a isso, ou isso a si mesmo, mas tem que fazer isso. Não tem conversa.
Bem, o raciocínio bem feito era o instrumento, a bomba atômica da conversa. Donde prestar muita atenção em como raciocinar, se está lógico, se faltam alguns elementos, se não falta… Você compreende que nas conversas de menino muitas vezes falta. E a gente volta para casa, repassa a discussão que teve, e percebe que “zuppou” tal elemento, tal demonstração. Então prepara. Quando tiver aquilo pronto, na polêmica do dia seguinte introduz o assunto, e joga a “bombarda” que fabricou. Quer dizer, uma batalha nesse sentido.
Agora, ao lado disso…
(…)
…as regras correlatas com a minha situação e com a minha ação ─ que julguei que foi o que vocês tivessem pedido. Mas outra coisa é uma observação não da minha ação, mas a observação dos que nos precederam cum signum fidei, quase se poderia dizer, os contra-revolucionários que nos antecederam com o sinal da Fé ─ não é bem isso porque eles não eram tão católicos assim, mas para dizer alguma coisa ─ e os que antecederam os atuais revolucionários e a luta deles. Mas não mais em função de minha pessoa, mas em função do que se passou historicamente. E aí dos movimentos de opinião pública e das regras observadas do fato da luta deles.
É a mesma temática, mas não tratada do ângulo que vocês pediram. É a observação da História, na qual eu usei largamente para conhecer a História, interpretar a História, os conhecimentos que eu tinha da minha luta. Mas não só eles. Sobretudo, de início, o estudo da Revolução Francesa. Estudo, como você pode ver bem, indignado! Mas indignadíssimo! Mas também muito acurado: como é isso?!
E aí, com o conhecimento de… não propriamente das regras de opinião pública, mas da opinião pública revolucionária, quer dizer, da Revolução como fato de opinião pública, e da Contra-Revolução como fato de opinião pública também. Mas aqui é um estudo mais amplo, mais nobre.
(Sr. G. Larraín: Não, não é mais nobre não. Aí que está o problema. Eu acho que é muito mais nobre o que o senhor acaba de dizer nesta reunião. Depois ficará muito mais lúcido para o futuro também. Porque o senhor não vai ver o futuro em função de Luís XVI, ou de Lambesck, etc.)
Entre parêntesis, você sabe que parece que o Lambesck existiu mesmo? Nas memórias da Marquesa de Tourzel, eu encontrei vestígios do Lambesck.
Eu afirmei o “mais nobre” de um ponto de vista puramente teórico. Quer dizer, o que diz respeito ao movimento dos povos e das nações, em todas as épocas em todos os lugares, é mais nobre do que o estudo individual. O que vocês dizem mais nobre aí, é a partir de outra consideração. Aí se compreende.
(Sr. Guerreiro: É que aí entrou o profetismo propriamente, e o Reino de Maria.)
*_*_*_*_*