Conversa Sábado à Noite – 19/9/1987 – p. 6 de 6

Conversa Sábado à Noite — 19/9/1987 — Sábado [VF055] (Augusto César)

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Vocês leram a notícia do “O Estado de São Paulo”.

(Todos: Não.)

Vocês conhecem o assunto não é?

(Todos: Não.)

Que o “Estado de São Paulo” vem acusando a TFP de ter instigado um assassinato… Na primeira ou terceira página. Uma história…

(Sr. Poli: O senhor quer que leia para o senhor?)

Não, eu quero explicar isso ao Guerreiro antes… Eu acho que o que o quadro tem é o seguinte: ele apresenta um aspecto de dignidade, de recolhimento, ao mesmo tempo de elevação de espírito, de pudor, muito grandes. Qualquer ação contrária a qualquer mandamento da Lei de Deus destoaria desse ambiente. E destoaria chocando o ambiente. O ambiente todo é constituído no sentido oposto. Se disser para você que esse é um mentiroso, a mentira ficava mais feia do que ela é; se você disser que essa senhora é intrigante, a intriga ficava mais feia do que ela é. Se você disser: essa aí é uma roda de toxicômanos… Você tomaria como absurdo!

(Sr. Guerreiro Dantas: Nossa Senhora!)

Veja sua exclamação. Quer dizer, por aí você mede o que pode haver na alta categoria social de excludente do pecado e do erro!

(Sr. –: Magnífico.)

E como, portanto, todo o ambiente social, ainda que eles fossem insinceros, pouco incomoda, devia haver alguma coisa disso vivo neles para eles poderem representar assim. Mas, sobretudo, o que interessa é o seguinte: a organização social que se refletia em todo esse ambiente, era uma organização social teoricamente baseada na virtude, posta contra o mal. Nesse ponto você vê a Civilização Cristã.

Então como uma organização hierárquica e de fundo evidentemente tradicional, essa organização baseada na doutrina católica se reúne à doutrina católica, forma um só todo. E é um apostolado que no alto da sociedade as coisas sejam assim.

(Sr. Guerreiro Dantas: Muito denso de “tal enquanto tal”.)

Muito denso de “tal enquanto tal”. Isso salta aos olhos. E é o que esse meu filho queria saber. Está explicado?

(Sr. Guerreiro Dantas: Muito bem, muito obrigado!)

O que é que diz aí?

(Sr. Poli: Chamada na primeira página; “Peukert desabafa sobre o crime. Dois anos depois de ter assassinato pai, mãe e três irmãos, crimes que o levaram a condenação que cumpre na casa de Custódia, de Taubaté… Começou a recordar detalhes do episódios…”.)

Só agora é que ele começa a se lembrar desses detalhes.

(Sr. Poli: Ele teve um desentendimento com membros da TFP dois meses antes de matar a família, por querer influenciar um primo de deixar a organização.)

Quer dizer, ele não era da organização.

(Sr. Poli: Não. Queria influenciar um terceiro, que era primo dele, a deixar o organização.)

Por isso matou os pais?

(Dr. Paulo Brito: Daí teve um desentendimento.)

Desentendimento com quem? Com os pais?

(Sr. –: Com membros da TFP.)

Pois é, mas que relação tem isso com a morte dos pais?

(Sr. Poli: Durante a briga, do desentendimento, um dos rapazes ameaçou dizendo: “eu vou desgraçar a tua vida”, conta Peukert. Lembrou-se também de outra coisa: na noite dos crimes tomou um suco de laranja que, segundo suspeita, estaria misturado a droga…)

Ohhhhh! A insinuação é que a TFP colocou a droga…!

Bom, leia o negócio.

(Sr. Poli: Página trinta: “Roberto Agostinho Peukert, o Robertinho, vinte e um anos, que no dia 6 de janeiro de 1985 matou os pais e os três irmãos na casa onde morava… Disse que no último fim de semana teve um ‘estalo’ ao ler uma notícia sobre a TFP me jornal e lembro um dois meses antes de eliminar a família, brigou com quatro membros do TFP e um deles ameaçou: “vou de desgraçar a vida”. Roberto vinha tentando afastar um primo que entrara para a organização… E lamenta não ter passado por exames toxicológicos que constatassem a presença de drogas em seu organismo”.)

Portanto não tem prova de nada.

(Sr. Poli: “Agora ele nega que tenha brigado com sua mãe por causa do volume do rádio… e insiste que não se lembra de nada”.)

(Dr. Edwaldo Marques: Na ocasião que disse que tinha brigado com a mãe.)

E agora ele tem um estalo!…

(Sr. Poli: “Em nenhum momento, porém, nega os crimes… Mas está cada vez mais convencido de que alguém o induziu e participou da chacina também…”)

Ohhhh!

(Sr. Poli: O diretor da Casa da Custódia… Confessou estar surpreso e acredita que esses fatos novos revelados por Roberto podem determinar a reabertura do inquérito…”)

É o que o “Estado de São Paulo” quer, evidentemente.

(Sr. Poli: “Ricardo Bittencourt… Não acredita que Roberto esteja fantasiando os fatos. Mas ressalva que, embora…”)

Logo, são verdadeiros.

(Sr. Poli: “Mas ressalva que, embora a discussão com o pessoal da TFP e a ausência de exames toxicológicos, possam ser facilmente provados, esses acontecimentos não devem estar necessariamente ligados ao crime”.)

Então como é o negócio? Ah, não, o seguinte: ele quer dizer que ele pode ter tido a discussão, e pode não ter havido falta de exame de toxicológico, pode ter havido falta de exame toxicológico. Mas isso não quer que tenha um nexo necessário com o crime. O “Estado de São Paulo” esse declaração um pouco maliciosamente, de maneira a…

(Sr. Poli: “Depois da briga com a TFP, o medo — Roberto define a TFP como uma seita coirmã da seita do reverendo Moon… — Como aconteceu a discussão? — Uns dois anos de acontecer isso (morte da família), meu primo já era adepto. Estudava teologia ia ser padre.”)

Não é verdade. Parece que esse rapaz está em Portugal é?

(Dr. Edwaldo Marques: Ele está aqui no momento.)

Mas veio com você?

(Dr. Edwaldo Marques: Um pouco antes.)

Mas enfim, está em união e comunhão com você.

(Dr. Edwaldo Marques: Sim.)

Era urgente procurar esse rapaz amanhã, e dizer a ele que você queria fazer perguntas a ele, gravadas. Porque isso muito importante. E depois, outra coisa: os pais desse rapaz, que atitude tomam face a TFP?

(Dr. Edwaldo Marques: A mãe deu licença para ele ir para Portugal.)

Ela é que tem o Pátrio poder é?

(Dr. Edwaldo Marques: O relacionamento é com ela, Sra. Da. Lucilia. Eu não sei… O pai morreu, ou é separado.)

Isso é feito com muito cuidado, pela DAFN, etc…

(Sr. Poli: “Da noite para o dia começou a rasgar a imagem de Jesus Cristo… Acontece que vieram me procurar, estavam uniformizados, usavam vermelho… Me convidaram para fazer parte desse negócio. Fiquei alterado na hora, xinguei, trocamos socos e um deles (eram quatros) falou: ‘Vou te desgraçar a vida’.

Você reconheceria essas pessoas? — Tenho uma facilidade imensa em reconhecer pessoas… Quando os quatros da TFP me abordaram na Av. Jabaquara, era noite, mas estava hiperiluminada. Ele falou: “Roberto, podia conversar com você?

Quem é o “ele”?

(Sr. Poli: “Um dos quatros rapazes: ‘Pensei… Como essa cara conhece meu nome?’ Ele disse: ‘Eu sou da TFP’. Eu respondi: ‘O meu, dá licença’… Outra coisa é sobre meu primo: ‘ele está alucinado.’)

O primo não tem nada de alucinado, não é?

(Dr. Edwaldo Marques: Não senhor.)

(Sr. Fernando Antúnez: Depois, ele diz que na época do crime não se lembra de nada. Agora se lembra de tudo.)

Ele teve um estalo na cabeça!

(Sr. Poli: “Se chamaram você pelo nome, alguém deve ter apontado você — Não acredito que meu primo tenha alguma participação… — O mesmo abordou você disse “vou te desgraçar a vida”? — Foi. Era um loiro, eu me lembro que era um rapaz de cabelo curto, muito bem cortado… Aí eu agradeci a cara, dei um empurrão no peito dele. E ele disse: “Vou te desgraçar a vida”)

Dessa simples ameaça deduzir uma casa, uma janela aberta, uma laranjada que ele tomou, tudo isso está relacionando com essa ameaça dois meses antes.

(Sr. Poli: “Você pretende tomar alguma providência? Por isso você está querendo falar com seu tio? Você está se lembrando de algo mais? — Não estou acusando ninguém. Mas se tiver fundamento um negócio desses…?)

Como é que ele não está acusando ninguém?!

(Sr. Poli: “…logo depois que fui preso, estava na detenção, o Dr. Gianini, um dos meus advogados, veio falar comigo. Eu disse: …quando cheguei em casa a porta da cozinha, a dos fundos, estava aberta. Alguém podia estar lá. Eu tomei um suco de laranja que estava em cima da mesa, comi um sanduíche e fui deitar na sala”.)

Se tinha suco de laranja e sanduíche lá, provavelmente é porque a mãe costumava prepara para ele, quando chegasse.

(Sr. Poli: “Foi você quem fez esse suco de laranja? — Não estava pronto em cima da mesa… Com gosto de laranja passada. Não estranhei; eu irmão vivia fazendo suco para tudo quanto era lado, podia ter sido ele”.)

Então porque é que ele atirou sobre o pai e a mãe? Porque ele estava num paroxismo não demonstra de droga?

(Sr. Fernando Antúnez: Depois, a lembrança que tenho é de foi feito exame de drogas nele quando ele foi preso.)

Bom, mas isso provavelmente já foi muito estudado com o “Estado de São Paulo” antes, e com certeza não foi feito ou não figura no processo.)

(Sr. Dr. Plinio entra um instante.)

que é só pior, mas pôr gente tratando do caso, perguntando para ele, etc., etc. para ele quem? Para o nosso. E quais são as repercussões em casa. Se ele nota que na família… Bom, a família da vítima não existe mais… Quem é que existe?

(Sr. Fernando Antúnez: O assassino matou todos.)

(Dr. Edwaldo Marques: Ele descreveu o assassinato de um por um, como foi. Um irmãozinho dele que começou a chorar, ele mandou ficar quieto e dormir. Quando o menino fechou os olhos, ele disparou em cima.)

Depois tem a seguinte: como é que ele reconheceu. Porque tem o seguinte: a droga pode fazer o sujeito — vamos dizer, eu não estou certo que a droga ponha o sujeito num estado de delírio tal que ele faça uma coisa dessas; pode ser — mas ele depois se lembra da coisa com não foi! Quer dizer, porque o “Estado de São Paulo” noticia como ele tendo tido um estalo, e a luz desse estalo tendo verificado esses pormenores. Mas não explica como é que ele nega tudo o que ele depôs. Porque ele nega de alto a baixo tudo o que ele depôs. Ele reconhece que cometeu crime sozinho… Tudo isso seria sob a ação da droga também? Uma droga pode ter esse efeito?

(Dr. Edwaldo Marques: Nunca vi um caso desses.)

O “Estado de São Paulo” põe na sombra um lado e põe na evidência o outro lado. Quer dizer, um folhetim indecente! Quer dizer que então o sujeito lembra desses dois fatos — são a briga e a laranjada e o sanduíche… É o que ele se lembrou de repente: a briga, a laranjada e homem barbudo dentro do negócio… Só. A briga, a laranjada e o homem barbudo. Agora, desse fato que ele se lembra, em que sentido invalida tudo o que ele depôs?

Dizer: bom, ele estava sob a ação da droga. Não está provado. Não foi feito exame. Vamos dizer que não tenha sido feito exame. Não foi feito exame. Se não foi feito exame não está provado que ele estava drogado. Mas também não está provado que ele não estava. E depois, de que interesse é o caso dele estar drogado ou não, para o efeito de uma apuração de uma coisa da TFP?

Seria apenas no seguinte sentido: que ele drogado ter-se-ia esquecido, porque é a única coisa possível. Então a TFP teria interesse em que não constasse que ele estava drogado, para a acusação cair inteira sobre ele. A acusação seria esta.

Mas assim mesmo, ele drogado contou todo o crime, e passou anos com a recordação desse crime como está contada nos altos. Agora, isso podia ser efeito da droga, que durante anos ele ficasse…?

(Sr. Fernando Antúnez: Depois tem o seguinte: após o crime ele contou tudo direitinho, nos mínimos detalhes. Quando entrou em contato com o advogado, ele diz ter esquecido tudo. E não falou mais nada durante todo o processo.)

Mas é uma boa saída para ele. O advogado aconselhou bem.

(Sr. Fernando Antúnez: Mas logo depois do crime ele se lembrava de tudo e contou tudo nos mínimos detalhes. E o “Estado de São Paulo” se baseia em que ele não se lembra de nada.)

Quer dizer, a droga sugestionou de que ele cometeu crime. Ele então contou assim. Depois ele perdeu memória do que fez, e ficou no zero. E de repente, anos mais tarde, lendo um jornal, por uma associação de imagens, emergiram esses pormenores, mais nada! Ele continuava a não se lembrar do crime…!

Está vendo como é a construção dele?

(Sr. Guerreiro Dantas: Ele diz que fez, mas acha que não fez sozinho.)

Agora, por que é que ele acha que não fez sozinho, se ele não se lembra de nada?

(Dr. Edwaldo Marques: Único argumento que ele dá é que ele não conseguiria pôr o pai dele, que era gordo, sozinho dentro do carro. Ele pôs a família toda dentro do carro.)

Ninguém sabe quanto sangue esse perdeu… Deve ter perdido muito sangue…

(Dr. Edwaldo Marques: Não, depois não é uma coisa impossível não. Um rapaz bem desenvolvido…)

Qual era o peso do pai… Quer dizer, provar qualquer coisa eu acho impossível!

(Sr. Guerreiro Dantas: Depois, ele mostra aí que já era inimigo da TFP antes do crime; após o crime ele conta tudo com detalhes; depois esqueceu-se de tudo; agora lembra desse detalhes, a propósito de uma notícia da TFP. Ora, ele envolve a TFP, sendo inimigo da TFP, antes mesmo do crime, e continua a ser ainda. do ponto de vista penal é de uma fragilidade enorme isso.)

Eu acho a maior possível. Concordo com você.

(Sr. Fernando Antúnez: Tem outro detalhe: ele ia ficar na prisão perpétua. Para amenizar isso, o advogado apresentou documento médico provando que ele é meio gagá. Então é o depoimento de um meio gagá que o “Estado de São Paulo” publica…)

(Dr. Edwaldo Marques: O depoimento dele aí é de um gagá…)

Esta frieza, é uma frieza que na melhor das hipóteses para ele leva a ser um gagá. Porque vamos dizer o seguinte: não, não tem dúvida só um sujeito de fundo gagá é que prática um crime desses, e com drogas ou sem droga ele se porta com essa tranqüilidade. Porque a droga deveria excitar enormemente o sujeito. Não deveria fazer que o sujeito calmíssimo, sob o efeito da droga, matasse… Você não acha que isso faz sentido Edwaldo?

(Dr. Edwaldo Marques: Exatamente. Toda notícia da agressão sob efeito da droga, mostra que são feitas em estado de excitação, etc.)

Pois só se compreende assim.

(Dr. Edwaldo Marques: E aí está apresentado com muita frieza. E foi tudo calculado, ele resolveu depois tirar os cadáveres da casa, etc.)

Alias, eu me lembro bem, não sei se vocês se lembram, numa das reuniões — não sei quais de vocês estavam presentes — numa reunião aqui, nós estávamos conversando que chegaria um determinado momento que nos imputaria a falsa acusação de assassinato…

(Sr. –: Várias vezes o senhor disse isso.)

E nesse instante chegou um telefonema do Êremo São Bento, de que tinha um cadáver deitado do lado de fora. Era um bêbedo. Eu dei ordem para ver, o bêbedo se levantou e foi embora… A coisa acabou na brincadeira. Mas há anos que nós temos esse pressentimento que haveria de acontecer isso.

Meus caros… Eu estou varado de fome e preciso dormir…

(Dr. Edwaldo Marques: Sr. Dr. Plinio, o nosso rapaz, eles são capazes der procurá-lo.)

Você deve ter contato com ele amanhã cedo, o mais cedo possível.

(Dr. Edwaldo Marques: Ele está no Praesto Sum.)

Está no Praesto Sum? Então melhor o João ter contato com ele amanhã, junto com o Edwaldo. E gravar tudo.

(Sr. Fernando Antúnez: No Praesto Sum é mais difícil de procurarem…)

Não, mas vão procurar e sai de repente qualquer besteira. É melhor amanhã cedo, lá pelas oito, nove horas, o João procurá-lo com Edwaldo. Meus caros, vamos andando!

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