Conversa
da Noite – 22/8/87 – Sábado .
Conversa de Sábado à Noite — 22/8/87 — Sábado
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Analisando fotografias suas, em pequeno, nosso Pai e Fundador via a retidão e a truculência dos sentidos com que a Providência o dotou * A explicitação do senso político na alma de nosso Fundador ao tentar “contornar” as exigências da frαulein * Ao lado de uma grande tranqüilidade, o profundo senso de dignidade de nosso Pai e Fundador levava-o a fazer valer diante de todos, os dons que Deus lhe concedera * Como se pôs para o Senhor Doutor Plinio o problema da vaidade e do casamento * Nosso Fundador percebeu que somente levando a combatividade ao último ponto ele conseguiria preservar sua fidelidade à Igreja * Para nosso Pai e Fundador, a cor fala muito mais do absoluto do que a forma * O querer bem de nosso Pai e Fundador era um contínuo dar-se e oferecer-se, nunca com uma segunda intenção * No modo de querer bem de nosso Fundador há, antes de tudo, um dar-se inteiro a Santa Igreja Católica
Está uma cesta linda e palavras muito mais bonitas que a cesta!
(…)
(Sr. Guerreiro: … se o senhor poderia, olhando de frente, descrever um pouco mais todo este mundo da sensibilidade do profetismo que está muito ligado à necessidade de uma formação da civilização do futuro. É um mundo fabuloso que queríamos que o senhor nos mostrasse o litoral da praia.)
* Analisando fotografias suas, em pequeno, nosso Pai e Fundador via a retidão e a truculência dos sentidos com que a Providência o dotou
Dava mais vontade de perguntar sobre sua sensibilidade!
Aqui há uma coisinha para retificar. Nós conversamos, um dom de conversa, enfim de família. E nem sempre tem a precisão que certos temas exigem. Eu tenho idéia de que eu disse exatamente o que você está dizendo, mas eu tinha em vista assim considerado como pressuposto o seguinte: nós não podemos imaginar — e acho que vocês também não imaginaram — Deus primeiro prevendo o corpo e depois ajustando a alma ao corpo.
No plano geral de Deus, não existe presente, passado, futuro. Deus tem a atenção já feita e o corpo está feito para a alma, e a alma está feita para o corpo reciprocamente. De maneira que é um modo de dizer que se pode compreender, mas vale a pena e não acrescenta… esta precisão não acrescenta, nem subtrai nada ao problema sobre o qual você quer ser informado. De maneira que é muito mais para a máfia do que para qualquer outra coisa que eu falo.
Eu levei muito tempo para perceber… Engraçado que eu só percebi isto, só me dei conta disso inteiramente de um modo inesperado. Foi o seguinte:
Há uma fotografia de mamãe que encontraram no meio dos guardados dela, quando faleceu — de toda família e dela também — tem uma em que eu estou com uns meses de idade, estou nos braços dela. Ela relativamente ainda moça e muito — aliás uma fotografia muito escura, porque parece que as máquinas fotográficas não eram boas naqueles remotos anos de 1908, 1909. Mas via-se uma pessoa muito forte, muito bem constituída e comigo nos braços, sorrindo, muito enlevada, muito satisfeita.
Aí eu olhei — aquela fotografia era bem menor nos guardados dela, o João mandou ampliar — eu nunca tinha prestado atenção na minha cara ali, carregado nos braços dela, mas com aquilo ampliado eu casualmente olhei e percebi alguma coisa de meu modo de ser, de meu temperamento, que eu reconheço até hoje e que estava nos braços dela assim.
Depois pensando em outras fotografias minhas posteriores, por exemplo uma fotografia em menino — aí já bem maior, uns 2, 3 anos — sentado numa cadeirinha que imitava cadeira de homem adulto daquele tempo.
Eu percebia essas coisas muito reais, era uma contradição entre dois pontos: de um lado os sentidos — não sentidos extraordinários, isto não, mas muito bons. Quer dizer, todos os cinco sentidos eu tinha largamente bons. Não tinha, por exemplo, uma vista como a do Fiuza que era capaz de olhar daqui e perceber o que estava fazendo na Rua Alagoas, isto não tinha.
[A vista do] Fiuza era uma coisa do outro mundo!
Eu não tinha vista assim, é uma vista comum, mas dentro do comum, larga, excelente. A audição que foi aos pedaços com a vista, também muito boa, fina, pegando bem. E assim o olfato, o paladar tudo muito largo, muito preciso, muito nítido, muito bom. Acompanhado de um feitio de personalidade, desde pequeno, que daquilo que eu gostava, eu gostava torrencialmente, e aquilo de que eu não gostava, eu não gostava, eu detestava.
De maneira que um espírito neste sentido muito categórico. Meus sentidos e meu temperamento não eram propensos à indecisão, eram muito decididos; tal coisa é boa, eu quero, tal coisa não é boa, aquilo eu não quero, para longe etc.
Isto eu conservei a vida inteira, mas em contraposição com isto, talvez por isto, por energicamente não gostar das coisas que eu não gostava, algumas coisas que ninguém gosta, eu também não gostava, mas com um modo outracier de ir até o fundo, que era especial.
Então daí uma preguiça muito grande de qualquer esforço físico, uma execração de qualquer coisa que, por exemplo, me fizesse transpirar. Um horror a transpirar! Um nojo da transpiração! E sombra, sapato largo e água fresca: isto era a minha fórmula para todos os efeitos. E também não gostando de ter lutas com ninguém.
De temperamento muito afetivo, carinhoso até, então tendo uma vontade enfática de viver bem com os outros, e viver carinhosamente. Detestar as brigas com os outros, e aí também nada de briga!
E então movimentos de sensibilidade muito pronunciados, muito categóricos.
Eu acho que alguma coisa disso dá para vocês reconhecerem até hoje.
* A explicitação do senso político na alma de nosso Fundador ao tentar “contornar” as exigências da fraulein
Isto me levava então, por exemplo, na linha do apetite, eu tinha primeiro muito mau apetite. Bom, mamãe e a fraulein tanto fizeram e apertaram que de preguiça eu acabei tomando bom apetite. Quer dizer, apertaram, obrigaram: “Tem de comer!” Eu não queria. Um menino qualquer se revoltaria, mas eu achava mais cômodo comer sem fome, do que me revoltar. Dava uma trabalheira revolta, conseqüências desagradáveis, na ordem moral como na ordem física seria subir uma ladeira, coisa que toda a vida eu detestei! Então é melhor comer! Dão isto para comer, eu como. Solução intermediária é tapear!
Então na mesa onde comíamos, a mesa da sala de jantar hoje, tem umas coisas para poder ampliar mesa de menino, uma espécie de mecanismo de madeira por debaixo da mesa que ninguém vê. E quando não tinha fome, a frαulein cortava pedaços de pão, passava manteiga: “Tem de comer!” Eu ouvia o passo dela se distanciar, eu pegava e colocava aquilo em ordem naquelas traves, debaixo da mesa. Ela voltava, estava tudo comido!
Era a solução! Eu não queria brigar! Eu não quero comer, mas não quero mesmo, então punha lá embaixo. Eu não sei como descobriram. Com certeza abriram a mesa para pôr tábuas e caíram pedaços no chão, deve ter sido isto. Aí naturalmente podem imaginar! Deve ter sido uma coisa qualquer neste gênero.
Mas era então — isto vinha aparecendo também — um certo senso político, um certo senso da condução das coisas, para evitar este choque interior, porque eu era — ao pé-da-letra — o que se chama em francês muito doué, afagado, gostando das coisas muito almofadadas, muito aconchegadas para mim.
Eu não estou dizendo que tudo isto seja virtude! Estou dizendo que há defeitos graves nisto, que me deram trabalho, que me mantêm até hoje em dia em vigilância. Mas enfim, você perguntou a minha sensibilidade como é, se querem saber isto, eu devo contar como é.
* Ao lado de uma grande tranqüilidade, o profundo senso de dignidade de nosso Pai e Fundador levava-o a fazer valer diante de todos, os dons que Deus lhe concedera
Agora, isto jogava também de outro lado. O meu lado tranqüilo, meu lado pacífico, levava muito a não entrar em brigas, etc., mas graças a Nossa Senhora eu tinha — e ligado à sensibilidade — um senso vivíssimo de minha dignidade. Eu acho que isto aí é uma coisa haurida de mamãe, isto já é um pouco mais além da sensibilidade, é a sensibilidade mais alguma coisa, mais da alma. Mas disto eu tinha um senso vivíssimo.
A idéia dupla de que eu enquanto pessoa tinha qualquer coisa — me desculpem dizer isto — tinha qualquer coisa de superior que eu não me explicava bem e nem procurava explicar, mas que impunha que eu me fizesse respeitar. Então um dever de me fazer respeitar, dever absoluto de me fazer respeitar, com a impossibilidade moral, a proibição moral de eu, debaixo de qualquer ponto de vista, me fazer de poca, de bobo, de qualquer coisa assim, que não fosse de menino respeitado.
Nisto eu creio que não entrava vaidade, nem amor próprio — entrava de outro lado que eu vou descrever daqui a pouco — e ligado a uma outra idéia — também já é a sensibilidade mais algo — mas que como despertavam em mim reações muito vivas, merecem ser nomeadas no jogo da minha sensibilidade. Era a idéia de que a família de mamãe e a família de papai, não eram assim, vamos dizer… famílias principescas nem se fala! Mas não eram famílias [de] que pudesse [se] dizer: primeira família do Brasil. Mas era de uma categoria muito alta e muito boa, e isto, como condição de identidade dessa situação, impunha a obrigação de me fazer respeitar não só enquanto pessoa, mas enquanto membro daquela família. Quer dizer: “Aquelas famílias são superiores em tais coisas e por tais coisas assim elas têm uma irradiação no próprio meio até maior do que seria cabível com o conjunto das coisas que elas têm. Isto eu preciso assimilar e preciso ter. E é uma obrigação minha fazer valer isto por um princípio de fidelidade ao que tem de dom de Deus, nessa condição.”
* Como se pôs para o Senhor Doutor Plinio o problema da vaidade e do casamento
Bem, onde entrava amor-próprio e vaidade era outra coisa. É que eu percebia minha superioridade em relação a uma porção de outros meninos, e em certas horas o meu natural bom, afável, etc., etc., meu natural bom cedia, desaparecia diante de um gosto de tratar os outros de cima, e debicar fazendo sentir que eram menos do que eu, não dizendo, mas num certo modo de rir, num certo modo de tratar, de apresentar de cima para baixo, mas com pouco caso, e gostando de espezinhar, de dar risada, etc., etc. por causa disso.
Aí entrava vaidade propriamente dita e entrava amor-próprio, defeito moral propriamente dito. Entrava aí.
De Sexto [Mandamento]… Para tratar da sensibilidade isto tem de entrar. Eu já disse isto aqui, eu tinha uma idéia muito exata de como a mentalidade norte-americana penetrava, inclusive também no sexo feminino e eu tinha horror a essa mentalidade, que se chamaria melhor “hollywoodiana”, mas notava muito freqüentemente entre as moças de meu tempo.
Eu só concebia uma inclinação por uma moça nos limites do casamento, e o casamento eu só concebia com gente de muito boa família. Eu pensava em me casar, mas a idéia de fazer um casamento fora do meu circuito social, me daria a impressão que eu teria filhos centauros, não seriam meus filhos! Outro gênero de gente! E portanto, não queria. Mas também eu compreendia que para me casar direito, dar um casamento direito eu precisaria ter uma espécie assim de como que paridade fraterna com minha mulher. Quer dizer, ela precisaria estar à minha altura, seria uma mulher que me respeitasse, que tivesse as mesmas idéias que eu, portanto, “tal enquanto tal”, e que estivesse — para usar uma expressão…
[Entra a cópia da Sagrada Imagem na sala.]
Domina Nostra a Fátima…
Eu compreendia que para um casamento que correspondesse a isto, talvez na Europa, mas eu não esperava encontrar aqui no Brasil. Mas como me parecia que o caminho de todo homem era casar-se, então era mais um casamento resignado, do que um casamento entusiasmado! O casamento resignado! Falta, enfim, daquilo que constituía o alvo do casamento, quer dizer, do desejo, da esperança de constituir um lar, uma prole, etc., que fosse a continuidade de minha mentalidade. Eu achava que isto não podia conseguir…
(…)
* Nosso Fundador percebeu que somente levando a combatividade ao último ponto ele conseguiria preservar sua fidelidade à Igreja
… compõe um pouco isto que eu depois com o tempo percebi, que essa minha relutância em andar, que era também uma relutância em estar de pé. Eu procurava estar o menos de pé possível.
Decorria de um mal-estar físico que eu não chegava a perceber, só depois é que eu percebi, que é o seguinte: qualquer um de vocês estando de pé, pode estar tão natural quanto estar sentado — aqui eu tenho um exemplo insigne! — para mim, não. Estar de pé foi sempre um sacrifício, estar sentado sempre uma coisa agradável. Mas depois eu cheguei a perceber com o progresso dos anos que isto era um mal-estar difuso de caráter físico, decorrente de um desvio de espinha que eu tenho — que é bem acentuado — e que eu nunca relacionei com isto, e que portanto, não era tanto preguiça quanto mal-estar. Também para andar, etc., etc., era preguiça e mal-estar.
Depois — prosaicamente falando, mas enfim, é isto — desde pequeno eu senti muita dor nos pés para andar, isto acentuou-se muito com o tempo, se compreende, se entende um tanto daquilo que eu, por falta de discernimento, chamava de preguiça. Mas não deixa de ser verdade que preguiça espiritual, a preguiça psicológica eu sempre tive, em quantidades colossais.
Preguiça, então, de combater, preguiça de esforçar-me. Aí foi que por causa da Contra-Revolução, me sentindo na batalha da vida, para preservar a minha fidelidade à Igreja, para preservar a minha respeitabilidade como nobre brasileiro digno de todo respeito, para preservar uma porção de coisas, eu tive de desenvolver uma combatividade enorme e compreendi que era só levando a combatividade, desconfiança até o último ponto, que eu poderia realmente ser um homem combativo, com meios-termos eu não conseguia.
Como também compreendi uma outra coisa: que todo homem é ruim, eu notava que era ruim, notava o mal dos outros homens. Eu só não via mal nenhum numa pessoa, mas todo resto era ruim.
E portanto, a idéia primeira de que as pessoas são boas, que a gente estima porque são boas, etc., esta idéia feneceu completamente, substituída pela idéia seguinte: é bom quando corresponde à graça, aí a graça ilumina, transforma a pessoa e fica algo de muito melhor do que a gente poderia imaginar utopicamente. Mas tira a graça de lá, tem um monstro! Todo homem é um monstro. Não tem dúvida nenhuma.
E mesmo onde eu tinha mais veneração, eu pensei: eu não venerarei bem, enquanto eu não encontrar o lado fraco, o lado mole. Não consentido, mas nativo, originário. Pus-me nesta pesquisa e creio que encontrei. Mas até lá chegou o meu horror à amizade sentimental, por tomar a pessoa como ela não é. Preciso ver como é e querê-la bem por amor de Deus, o resto é conversa fiada.
Eu acho que com esses lineamentos principais vocês daí podem construir o que já vai muito além da sensibilidade. São os gostos. Quer dizer, por exemplo, o gosto do grandioso, o gosto do monumental, o gosto do forte, o gosto das cores mais do que das formas, etc. Tudo isto se pode facilmente deduzir do que eu acabo de dizer. Com isto eu penso que dei com toda objetividade a minha própria pessoa.
(Sr. Guerreiro: Uma boa parte, é.)
Uma boa parte?! O que falta, meu filho?!…
(Sr. Guerreiro: O senhor disse [que gosta mais] das cores do que das formas.)
Até hoje.
(Sr. Guerreiro: Mas onde está o ponto de partida disso na alma do senhor, na sensibilidade propriamente? Movimento natural?)
* Para nosso Pai e Fundador, a cor fala muito mais do absoluto do que a forma
Natural. Eu não sou insensível às formas, mas eu sou muito mais sensível às cores.
Então, por exemplo, tipos de quadros. Vem crítica: está muito bem desenhado o quadro. Para mim — eu sei que não é teoricamente — mas para a minha sensibilidade isto é quase a “mãe da natureza”! Porque a minha idéia é diferente, a minha idéia é de que a cor prima tanto sobre a forma…
Agora, por quê? Vem da idéia de que a cor é um símbolo que me fala muito mais do absoluto, portanto de Deus, do que a forma. A forma me fala muito mais do indivíduo. A cor tem qualquer coisa de mais genérica e mais alta do que a forma — nessas perspectivas. Eu não quero dizer que isto deva ser para todo mundo, eu quero dizer que há em mim. Uma coisa legítima.
Eu li — creio que já comentei com vocês — que havia na Renascença diferença entre a escola veneziana e a escola florentina. Os quadros florentinos são de um desenho primorosíssimo e cores muito discretas, apenas para dar uma realidade ao que estava pintado. E os quadros venezianos, pelo contrário, as cores muito falantes, muito bonitas e o desenho apenas o necessário para se entender.
Quando eu li isto, eu me senti veneziano! Também você pega as coisas de Florência… Eu estive em Florência e gostei muito de Florência, é muito bonita. Mas… o que querem?! Eu me senti em Veneza outro homem que não em Florência! Mas outro homem! A não poder haver comparação. É o modo de ser de cada um.
Eu não sei. Parece-me que aquilo do verum que no desenho se vê, se entende, se pesquisa, se entende, na cor é evidente. Seria isto. O verum, a realidade se sente muito mais na cor do que no desenho.
Por que isto? Eu já me tenho perguntado e não percebo bem por quê é. Talvez com o tempo eu chegue a perceber.
(Sr. Gonzalo L.: Nessa linha da sensibilidade, o senhor falando da Senhora Dona Lucilia, dizia que a sensibilidade dela tinha ido além da Idade Média, por uma graça que houve no século XIX, que foi olhar a Idade Média de fora, como o filho pródigo para a casa paterna.)
É isto. É verdade.
(Sr. Gonzalo L.: O senhor leva mais além ainda. Qual a forma de sensibilidade que ilumina os séculos futuros, Reino de Maria? Nossa Senhora do Bom Sucesso, naquela revelação, fala de coração materno. Há um lado na alma desse varão que se pode chegar a tal extremo de sensibilidade, que a mesma pessoa que causa do desplomamento, ao mesmo tempo ter um coração materno.)
* O querer bem de nosso Pai e Fundador era um contínuo dar-se e oferecer-se, nunca com uma segunda intenção
Eu notava em mamãe uma coisa que depois eu entendi melhor, como sendo uma característica do mundo novo que ia nascer, mas que é curiosa, que tem alguma relação com o romantismo — enquanto afetividade — não enquanto escola de filosofia — isto é uma outra coisa, mas enquanto afetividade. Quer dizer, ela tinha uma forma de carinho, uma forma de querer bem que era… em que havia mais dom de si, e por causa disso uma faculdade de envolver, de penetrar e de estabelecer um vínculo afetivo, porque tinha muito dom de si, que ela tinha muito pouco egoísmo — tanto quanto se pode dizer isto de uma pessoa concebida no pecado original.
Então, por causa disso, ela tinha uma forma de carinho envolvente para quem soubesse compreender e agradecer. Absorvente nesse sentido, formar um só com ela.
Essa forma de carinho, eu tenho a impressão que diferencia muito agudamente o sul-americano — eu falo menos do mexicano e do centro-americano, que eu conheço menos, suponho que seja a mesma coisa, mas eu conheço menos. Bem, mas do sul-americano, eu conheço todos os povos sul-americanos. Então uma forma de carinho que separa, que distingue a América do Sul da Europa e dos Estados Unidos, muito definidamente. Eu volto a dizer, é a excelência disso estar num dar-se que há nisto. O carinho não é visto apenas como um apoderar-se, mas muito mais como um dar-se. Que é uma nota saliente nela.
Bem, e que isto que torna o homem, tanto quanto possível, un petit vermisseau et misérable pécheur, análogo a Nosso Senhor Jesus Cristo. Disto Ele foi o Mestre de um modo superperfeito, e verdadeiramente humano e divino. Não se encontra em todas as páginas do Evangelho… o que tem de extraordinário debaixo desse ponto de vista, é quanto Ele se dava. O querer bem d’Ele era mais um dar-se e oferecer-se do que o querer, ou apropriar-se.
Não sei se está claro isto?
(Muito claro!)
Agora, acho que isto — nós já conversamos sobre isto — ainda é mais acentuado no brasileiro do que nos outros hispano-americanos, e era mais acentuado em mamãe do que em qualquer outro brasileiro, que eu tenha conhecido. Eu não quero dizer portanto, que absolutamente não era em nenhum. Eu quero dizer dos que eu conheci. Quer dizer, uma nota muito característica.
Noto que o meu modo de querer bem é este, é muito difícil você me ver procurar uma pessoa, para obter uma coisa para mim dessa pessoa, nem tenho uma segunda intenção de tirar um proveito, de uma coisa assim. Ou eu quero e quero! Ou eu não quero e passo por indiferente; ou inimigo, conforme for o caso.
Aliás, inimigo eu sou só de quem ataca a Igreja. Quem ataca a civilização cristã. Fora disso eu não sou inimigo de ninguém, pode me fazer a pessoa o que quiser que eu não sou inimigo dela. Mas se atacar a Igreja, a Civilização Cristã, realmente eu quero exterminar toda a obra da pessoa. Fazendo o que for possível para liqüidar, tolher a obra que a pessoa faça.
E vocês em anos e anos de convívio não me viram com raiva de ninguém, isto absolutamente não. Por exemplo, nesse episódio todo de D. Mayer e Fedeli, eu acho que o menos colérico fui eu! Era ao mesmo tempo o mais visado e o menos colérico! Absolutamente falando.
(Sr. J. Clá: Não tem a menor dúvida. O senhor muitas e muitas vezes segurou manifestações nossas!)
É. Inúmeras vezes.
Agora, esta propensão a dar-me, encontrando aí uma espécie de repouso para mim, eu recebi dela, e creio que é uma coisa que vai para os séculos futuros. Quer dizer, no Reino de Maria deve ser muito assim, mas creio que Nossa Senhora deu à Península Ibérica, mais do que ao resto da Europa, até acentuadamente mais. E deu aos portugueses na Península Ibérica mais do que a outros reinos que havia lá. No Brasil, deu mais do que à América espanhola, etc., etc., como já falei.
Do que ri, meu Pedro?
(Sr. Pedro Paulo: Há um profetismo nisto, em vista do futuro.)
É, é. Voltado para o futuro. O ano 2000 normalmente se houver a Bagarre antes de 2000 como eu espero, o ano 2000 já será iluminado por tudo isto.
O que tem exatamente é que no europeu há muito menos propensão para dar-se, mas também eles não têm umas certas más propensões que nós temos. É preciso dizer.
(Sr. J. Clá: Como assim?)
Por exemplo, não tem dúvida nenhuma de que os povos sul-americanos em parte não progrediram porque eles têm muito menos propensão para o trabalho e para a vida dura do que os europeus. É fora de dúvida.
Você deve ter visto nas duas famílias de que você provém, mas tem de ser fora de dúvida que o trabalho de seus ancestrais italianos era muito mais contínuo e mais produtivo do que nos ancestrais espanhóis. Não tem dúvida nenhuma.
Agora, você vai ver, por quê? Era mais, rende mais, mas com a alma menos cheia das coisas que constituem o brilho da Espanha. [Vira a fita]
* No modo de querer bem de nosso Fundador há, antes de tudo, um dar-se inteiro à Santa Igreja Católica
Eu diria o seguinte: eu creio que está nesta linha do dar-se, mas eu não tenho certeza, mas enfim, falando, para responder à sua pergunta. Eu creio o seguinte: a primeira coisa que há é um… com essa propensão que você me vê, de querer bem aos outos, etc., etc., algo que como não é para querer bem para mim, querer bem por causa de algo de bom que está nos outros, e que corresponde a um certo bem que não sou eu e que não é o outro; mas ao qual eu me dei, e que eu vejo bem que é o espírito da Igreja Católica.
O espírito da Igreja Católica, tomado, conhecido mais do que se conhece uma pessoa, quer dizer, sob certo ponto de vista, eu creio conhecer a Igreja Católica melhor do que qualquer pessoa que eu tenha conhecido em minha vida. E é assim: o espírito da Igreja absolutamente em todos os seus aspectos, mesmo os mais — quando é Igreja, Igreja — em todos os seus aspectos, mesmo os mais diversos uns dos outros, eu me regozijo com essa diversidade, eu faço dela um banquete para a minha alma.
De maneira tal que, por exemplo, eu tenho pelo Gótico o encanto que você sabe, mas durante algum tempo que a “Aerotour” tinha aquele escritório lá embaixo de nossa casa, eles tinham assim uns cartazes de propaganda, e um cartaz convidava a turismo no Oriente Próximo, e tinha uma fotografia muito bem tirada, bonita, de uma igreja antiga, mas que deveria ser daqueles tempos de armênios, daquelas cristandades primitivas. O ápice da igreja, portanto a parte de trás, que fechava assim, dava de costas para o mar — mas não era um grande mar — chegava ali um barranco, umas pedrinhas, assim, e a água entrava lá, mexia com aquilo; mas tinha uma qualquer coisa dos primeiros tempos da Igreja no Oriente Próximo, que depois não se recompuseram.
Está bem, eu amava aquilo intensamente. Eu não pedi aquele cartaz para mim, só de medo de não ser compreendido, porque eu amava aquilo intensamente. Era um aspecto da Igreja.
Vamos dizer por exemplo, Melquitas, os verdadeiros aspectos do canto dos melquitas, aquilo tudo, é muito diferente da Idade Média, mas eu me abraso de amor por aquilo. Mas também maronita etc. Rito Latino, nem preciso falar! Aquelas grandes mitras, báculos, e tudo mais…
Tudo que é verdadeiramente da Igreja, eu amo incomparavelmente mais do que quis bem mamãe — vocês sabem bem disso como eu quis bem mamãe — incomparavelmente mais, como próprio foco de um certo unum que é a tal coisa à qual eu me dei. E a qual eu amo mais do que a mim.
Bem. É que eu vejo que é na linha da mística comum, um sentir o Espírito Santo na Igreja, que é análogo, ou que é harmônico — a palavra boa é harmônico — com o lado racional, por onde de fato eu tenho uma conaturalidade enorme com o tomismo e com todo aquele modo de ensinar de São Tomás, aristotélico, e tudo mais… uma conaturalidade como se fosse eu mesmo que pensasse aquilo — eu sei que não seria capaz de pensar, não tenho aquele talento — mas é como se eu pensasse.
Daí resulta o “tal enquanto tal”. Agora, como é que é esse espírito?
(Sr. Gonzalo L.: Justamente o novo do “canticum”.)
Eu tenho a impressão que não está tanto numa concepção doutrinária nova, mas nessa nota do dar-se mais; em que algo existe de criativo, que eu não sei bem como é.
(…)
…exprimir uma certa forma militante e sombria de ser católico, luminosamente sombria de ser católico, que é o olhar do rei protetor — se você quiser nesse sentido — o rei é pai, não da Santa Igreja Católica, mas da igreja existente no país dele. Ele é o protetor da Igreja, nesse sentido da palavra, e o protetor — o rei protetor — da Igreja por excelência, para o meu modo de sentir foi Filipe II. Com as fraquezas que ele teve, algumas até decepcionantes, mas a coisa dele era essa.
(Sr. Gonzalo L.: Se ele tivesse conhecido o senhor, se sentiria protegido.)
Quer dizer, eu respeito tanto a memória dele que me custa imaginar isto, mas eu compreendo que ele sentisse diante de mim, como Carlos Magno diante de Roland. Quer dizer, Roland é o braço forte que defendia Carlos Magno. E era o bastão da velhice dele…
(Sr. Paulo Henrique: Roland é que se sentia protegido.)
(…)
Não podem negar que eu fiz o possível para me explicitar a mim mesmo!
“Há momentos, minha Mãe…”
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