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Conversa de Sábado à Noite — 8/8/1987 — Sábado [VF 054] (Neimar Demétrio)

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Grandeza e eflúvios — A simplicidade na grandeza

Então, vamos aos nossos temas. O que é que perguntam? Quem é que tem o uso da palavra?…

(…)

(Sr. Gonzalo Larraín: O senhor disse que seja uma das últimas Reuniões de Recortes, no caso de ter que ficar sós, estarmos com a lanterna na mão. Ficamos muito gratos por isto.)

Agradecer a Nossa Senhora.

(Sr. Gonzalo Larraín: São hipóteses que podem acontecer, mas que também pode não acontecer; como pode não acontecer, o demônio facilmente pode tentar no seguinte: como pode e não pode, eu vou tocar a minha vida, já são trinta anos de pode e não pode, é melhor tocar a vida. A reunião está jogando com muitas hipóteses. Bloqueio contra isto vem dessa emanação de eflúvios do Profetismo, quereríamos que o senhor desenvolvesse mais ainda esse leque de virtudes.)

Sim, estou entendendo bem a pergunta.

A questão é o seguinte: o que é que no seu conjunto, se pudéssemos ver os eflúvios no seu conjunto, eles são uma coisa tão imponderável e tão variável, tão rica, que se nós tivéssemos um critério para classificar os eflúvios… Vamos dizer, por exemplo: os eflúvios correspondem a tais paixões do homem, a tais virtudes segundo a tabela de virtudes da Igreja, virtudes teologais, virtudes cardeais, etc., etc.. Então, se poderia dizer por exemplo: há eflúvios correspondentes às virtudes, e embora os eflúvios representem… Vamos dizer: cada eflúvio seria um gênero e esse gênero encontraria uma aplicação específica em cada homem, de maneira que as espécies variariam quase ao infinito; se bem que genericamente pudesse ser classificado dessa maneira, daquela maneira… Então, nós teríamos um critério para fazer uma enumeração dos eflúvios, distinguindo uns dos outros, para depois fazer uma classificação.

Mas acontece que se nós vamos considerar esses eflúvios não teoricamente, mas experimentalmente, quer dizer, pelo que nós sentimos dos eflúvios, fazer segundo nossas sensações uma classificação, fica uma coisa quase impossível, porque visto de baixo para cima, eles são tantos, são tão diversos, variam tanto numa pessoa mesma, o mesmo tipo de eflúvio varia tanto segundo a hora, segundo as circunstâncias, que a gente se encontra diante de uma riqueza mais ou menos como as estrelas no céu. É uma coisa incontável, etc.

Então, a gente não sabe como responder uma pergunta muito razoável.

(Sr. João Clá: O conjunto de virtudes são umas quinhentas virtudes auxiliares às quatro cardeais.)

E é uma coisa que pode ir até onde? Tomem, por exemplo, uma pessoa que se distingue pela bondade. Durante um mesmo dia, essa bondade teve aplicações tão diversas, que se emitiu, deu origem a eflúvios tão diversos — alguns irrepetíveis depois de todo o resto da vida —, que a gente não saberia quase o que dizer.

Entretanto, o espírito humano é sedento, legitimamente sedento de classificação. Tudo aquilo que ele conhece, ele legitimamente quer classificar. E então, a pergunta parece… É… é uma pergunta muito razoável, muito legítima, corresponde ao desejo ordenativo do gênero humano, do humano. Mas, de outro lado, as dificuldades para uma classificação parecem quase insuperáveis.

É considerando isto que eu me aventuro na idéia, mas eu vou pensando alto. Quer dizer, pode ser que eu mesmo veja, enquanto eu penso, que a coisa não dá certo, mas é o seguinte. Considerar uma espécie de tábua, vamos dizer, uma coisa como isto aqui, esse quadrado, considerar assim: vamos dizer que nós puséssemos na perpendicular os nomes das pessoas — então, de todas as pessoas do gênero humano —, ou se você considerar os eflúvios de uma família de almas — você tomar todas as pessoas que constituem uma família de almas; você escreve assim e assim —, e depois você tem as virtudes teologais emitindo cada uma delas eflúvios próprios que formam gêneros; depois as virtudes cardeais que são de uma outra natureza, que eu trazia uma [eliunder?] no quadro, cujos eflúvios se combinariam com os eflúvios das virtudes teologais, para formar um todo, porque o homem nunca tem, por exemplo, apenas um ato de Fé, mas esse ato de Fé, enquanto ato, é praticado segundo uma das quatro virtudes cardeais. Então, é aquele ato praticado segundo aquela virtude.

Depois… isto, entretanto, segundo aquela pessoa, que dá, pela sua unicidade, aqueles eflúvios, que você pode conceber assim, um caráter único e muito individual — já não é específico —, então, genérico, específico, mas é individuado.

Então você teria um quadro — mesmo dentro de uma família de almas — um quadro de eflúvios colossal. Ainda assim você poderia considerar como os eflúvios são na infância, como são na… Porque cada idade condiciona a seu modo o eflúvio. Então, na infância; depois, porque na infância a situação dele era assim, então os eflúvios são de tal maneira; então as circunstâncias condicionando também os eflúvios… Isto faria um quadro colossal em que até o passado do indivíduo entra como elemento.

De maneira que um homem que tenha, por exemplo, tido uma vida muito difícil, a sua vida tivesse, por exemplo, [se] tornado muito difícil bruscamente na juventude e ele tivesse tido, por exemplo, vinte anos de dificuldade no tempo da juventude, quando esse homem chega aos cinqüenta anos, aqueles vinte anos de dificuldade marcam um certo modo de ser dos eflúvios. E nos eflúvios daquela pessoa, naquela pessoa está um modo de ser, etc., etc.

Eu percebo, enquanto eu falo, que essa teoria toda dos eflúvios é, portanto, procedente de uma idéia. Ela mesma é uma idéia um tanto questionável, que é o seguinte: Tudo o que eu digo é como se os eflúvios fossem uma espécie de energia como, por exemplo, uma energia elétrica, que seria condicionada por todos esses fatores, mas que seria una no fundo. E que por aí, no mais profundo dos eflúvios, não houvesse diferença entre eflúvio e eflúvio.

Não sei se me exprimo bem?

(Sim)

O que leva a perguntar se será verdade, ou se se deve admitir plutôt que haja já diferença no nascedouro do eflúvio, e que não haja essa espécie de unidade genérica, mas que haja uma pluralidade genérica.

É uma pergunta que se pode fazer.

Bem, e depois, ampliando o quadro, se nós tivéssemos noções sobre o mundo Angélico, como não tivemos tempo ainda de adquirir, ali talvez nós vivêssemos melhor, porque eu tenho a impressão que é um mundo mais claramente classificável do que o nosso. Quais são as especificidades? Como é que combinam os eflúvios? Como é que se classificam os eflúvios dos Anjos? Depois hipoteticamente como é que seriam os eflúvios das criaturas criadas ab eternas?

Você vê? É uma variedade fabulosa, e à medida que a gente pensa que vai pegando a coisa, a gente nota que ela vai escapando da mão.

Porque quando entra este caráter uno e inconfundível de uma determinada pessoa; você tem uma coisa que enquanto una e inconfundível parece quase inclassificável.

(Sr. Guerreiro Dantas: De um lado sim, mas de outro lado não.)

Meu filho a questão é o seguinte: para ser classificável, precisa ter denominadores comuns, e o que há em cada um de nós, de único é tal, que talvez — isto é certo — a mente Divina os classifica, porque eles formam coleção, mas eu não sei se a inteligência humana chega a entender qual é o critério, qual é o ângulo dessa classificação sem fim.

(Sr. Guerreiro Dantas: Com a vocação há um “unum” que foi dado por Nossa Senhora. Esse” unum”, Nossa Senhora quer que se conheça para a realização da nossa vocação…)

ah não! Eu estava falando em tese. Aí a coisa é outra. Eu tomei a pergunta do Gonzalo [e], a partir de certo momento, figurou-se no meu espírito que ele tinha perguntado — ele foi muito claro —, mas pôs-se no meu espírito a partir de certo momento, que ele tinha perguntado genericamente. E não é verdade, você foi muito claro, foi outra coisa, foi um lapso de minha parte. Aí eu precisaria pensar mais, porque a coisa é diferente…

Há uma concepção revolucionária do grande homem, pelo qual o grande homem é grande em tudo, e [em] todas as ações dele transpareceria um certo cunho de grandeza, uma certa largueza de horizontes, etc., pela qual ainda que se tratasse de uma coisa muito pequena, naquela coisa muito pequena, filtraria a grandeza do homem, e daí uma espécie de exigência.

O que é que está havendo?

(Sr. –: Visão Católica?)

Católica contra-revolucionária…Não. Eu estou dando a visão revolucionária, essa é a visão revolucionária.

Parte da idéia de que há um unum na natureza humana da qual procedem, que marca a seu modo, tudo o que cada homem faz. É um unum de um homem que faz com que tudo seja daquele jeito, marcado por aquilo. E então esse homem, se é um grande homem, faz tudo com grandeza e faz tudo com uma nota de grandeza que é a dele, e acerta sempre, não erra nunca e é perfeito em todas as ocasiões. Esta visão é uma visão renascentista, que corresponde ao modo pelo qual apresentam os homens — as estátuas clássicas — e apresenta a literatura clássica, etc: são homens…

Por exemplo, tomem o Apolo de Belvedere. A gente vê que a estátua insinua que aquele é um homem de uma constituição física perfeita, uma saúde perfeita, uma inteligência de semi-deus, uma resistência que não morre nunca, é uma espécie de imortal, e que tudo aquilo que ele faz, ele faz sem esforço, porque ele é tão perfeito que não lhe custa nada. E também, por causa disso… Você toma qualquer figura clássica: é um homem que continuamente faz coisas apolíneas, colossais, sem nenhum esforço, sem nenhuma luta, e sem nenhum desses momentos em que o homem se sente acachapado, em que se sente vencido, e que luta contra si próprio, [que] tem que se vencer a si próprio, tem seus lados ruins com os quais ele tem que pelejar, tem altos e baixos, etc., etc. Isto não cabe na figura clássica.

E a partir da Renascença os grandes homens são assim. Mas o mais curioso é que realmente começam a nascer homens que dão a impressão disso.

(Sr. –: Depois da Idade Média.)

Depois da Idade Média.

Chega a haver a concepção de um homem em tese, no qual os grandes heróis da cultura clássica teriam sido apenas reflexos. E que esse homem, uma espécie de homem universal, dá o padrão da perfeição, e para ele a gente tem que olhar. É, portanto, uma espécie de paródia de Nosso Senhor Jesus Cristo.

É próprio a esse homem assim uma espécie de insensibilidade. Quer dizer, ele não tem receios, ele não tem pena, ele não tem nada daquilo que leva um homem a descer até os outros, ele [não] tem… Está perpetuamente de cima e considerando a coisa assim. Ele é inatingível, e ele se realiza e se basta a si próprio e é um colosso inundado pelas luzes de seu próprio esplendor.

Eu não sei se é claro?

(Sr. –: Muito claro. A delicadeza de um homem assim, fica impensável.)

Impensável.

Por exemplo, tomar um Apolo do Belvedere, imaginá-lo fazendo uma cortesia de um marquês francês do século XVIII? É impossível! Porque a cortesia francesa se desdobra em afeições, gentilezas, ela multiplica, inventa fórmulas de saudação onde está presente a humildade: “Queira crer, meu prezado amigo, meu sentimento de perfeita consideração, com as quais eu me honro em subscrevê-lo, votre serviteur trés obéissant!” Isto pode ser a carta de um duque para outro.

Isto não é apolíneo! Apolíneo é outra coisa!

Mas não sei se é porque os homens são educados com este fim, ou se é porque é uma coincidência histórica permitida pela Providência em determinados desígnios, mas todos os grandes homens, a partir do começo da Idade Média, são homens assim, ou que procuraram, procuraram pelo menos dar a idéia, a impressão de que são assim, e ocultam o que eles têm de real que é diferente disso…

(…)

o homem medieval. Esse homem renascentista, no fundo, é concebido sem pecado original, no fundo. Um homem meio assim, “adamita”, como Adão antes do pecado, mas um Adão impecável! Já confirmado em graça, portanto. E anda, se move, numa atmosfera paradisíaca, na qual [há] aquela realeza que o Gênesis mostra que tinha Adão: mandar desfilar todos os animais, dá um nome a cada animal, mandar em toda natureza, etc., etc. Ele não tem pecado original em nada.

O homem medieval, não. A primeira coisa que aparece no homem medieval é o pecado original e, portanto, um pobre coitado, petit vermiseau e miserable pecheur, que tem defeitos, que luta para carregar esses defeitos e para pôr nos eixos os defeitos. Que tem momentos de affaissement — não sei porque me está ocorrendo mais palavras francesas do que portuguesas —, mas de desabamento, de prostração, que depois tem, pelo contrário, um elancé magnífico, horas em que ele é herói, em que ele é uma espécie de Anjo que excede a tudo que se poderia imaginar, etc., etc. Isto vai no alto e baixo, no vai-vem, como uma coisa que… Todo mundo, na melhor das hipóteses, é assim, mas na melhor das hipóteses.

Quando não se trata de um santo, que atingiu as virtudes heróicas, teologais e cardeais e, portanto, todas as outras virtudes em grau heróico, quando não se trata de um santo, nós vemos com freqüência isto: homens que praticam grandes atos de virtude, mas que de repente cometem um pecado pavoroso e depois, então, tem penitencias hercúleas, e vão a pé — não sei — dos Alpes onde moram, para Santiago de Compostela; e depois de lá eles vão a pé até Jerusalém e fazem a promessa de que o trecho entre Compostela e Jerusalém, eles vão fazer mendigando. Eles realizam isto e se alguém pergunta:

Eu estou desconfiado que você é nobre, um grande homem, etc.

Ah, senhor, é verdade. Eu estou vestido assim porque, infelizmente, eu matei meu filho — sai monstruosidades assim! —, infelizmente eu matei meu filho! Quer que eu lhe conte a história do meu filho?

Conte.

Então eu vou cantar!

E vai, canta uma canção, composta por ele, durante a qual ele pára, ele chora, ele senta, ele conversa sobre outro tema, depois ele volta e continua a história e assim passam num auberge, uma noite inteira. Os dois se despedem para dormir. Ele vai dormir com os criados, e um homem que é inferior a ele vai dormir numa cama boa do albergue. Por quê? Porque ele matou o filho dele e, até o fim da vida dele, ele vai fazer penitência.

Isto ele conta, mas conta assim. Quando morre é enterrado como nobre, gisante, etc. Perfeitamente isto.

Agora, isto… Primeiro tem muito mais realidade, nem tem comparação! E, ao lado de ter mais realidade, tem também mais grandeza, não literária, é grandeza que a gente pega com a mão. Tratando com um homem desses, a gente tem a sensação de pegar a alma dele no fundo com a mão, e dizer: “Olha aqui, aqui está a verdade. E eu sinto um aroma de realidade que vale mais do que qualquer perfume.”

Em Santos… Eu não sei se isto há em outros portos, etc., por exemplo, se não há no Rio? Mas, em Santos — lá no Chile, em Paranaguá, etc.… Minas não tem portos. Você no Rio Grande do Sul tem?

(Sr. –: Não conheço.)

(Risos)

Senhores, vamos andando!

Mas, então, o que há é o seguinte: É que lá em Santos tem no cais, um negócio arranjado da seguinte maneira, junto assim, escavaram na terra um canalzinho por onde a água do mar entra por esse canalzinho; todo aquele fluxo do mar, dentro do canal de Santos já, onde chegam os navios, etc., etc., tem uma coisa assim aberta, e depois…não sei, vamos dizer, cem metros, qualquer coisa da orla da praia, abre-se uma espécie de quadrado grande e todos os barcos de pescadores vão atracar ali e vendem diretamente o produto deles para o pessoal que está vindo da praia. Está vindo da praia não… está vindo da montanha e que quer comprar produto bem fresco.

Os meus queridos eremitas aqui são grandes freqüentadores disso, quando eu venho amolá-los para almoçar ou para jantar.

Eu estive umas duas ou três vezes nesse lugar e me encantava uma espécie de mau cheiro saudável do lugar. Porque peixe e essas coisas assim, ainda quando estejam muito frescos, tem um certo cheiro de maresia, que… perfume não é!

Eu chegava lá, e pensava com meus botões: “É uma coisa curiosa. Isto aqui não é um perfume, mas isto tem uma realidade! Tem uma autenticidade, uma vida, que eu seria capaz — se não [estivessem] aqui esses meus amigos, que não compreendem isso, e que precisam ir logo para a praia, para Guarujá, precisa não sei o quê… —, eu era homem de comprar, num desses cacarecos dessas casas aqui, uma cadeira, e ficar cheirando esse cheiro o dia inteiro! Para acabar entendendo qual é a realidade que tem por detrás disso! Esta realidade enorme, pluriforme, majestosa, mas cheia de miudezas prosaicas, chamada mar! E que me encanta!”

Vocês sabem bem que eu tenho encanto pelo mar! Mas eu tenho fascínio pelo mar!

O homem medieval neste modo de ser, despretensioso, humilde e colossal —porque isto é colossal! —, a gente andar e encontrar no caminho de Santiago de Compostela… onde é que fica essa Compostela na Espanha, hein?

(Sr. –: Norte de Portugal.)

Veja a distância disso a pé, hein! Para chegar até um porto da Itália, para tomar um barco para ir para a Terra Santa, é coisa! Tem que passar por Pirineus, Alpes… nos Pirineus tem urso, tem não sei mais o quê; depois chega os Alpes tem não sei o quê, não sei o quê… E cai o inverno, acontece não sei o que! Esse homem o que que faz? O tal homem que matou o filho, porque jogou o filho pela torre, agarrou pelos pés e jogou fora, num ascesso de cólera — esse homem canta toda a sua peregrinação, e pode começar assim: “Ouie, ouie — ouie é ouvir em francês arcaico — ouvi, ouvi, ó todos vós que nunca pecastes, ouvi um conselho que vos dá um pecador: não pequeis, porque vós compreendereis então como um homem pode ser baixo, e que penitências ele teve que fazer. Aqui está a história de Hogie, Conde de não sei o quê, da mui nobre estirpe de não sei o quê, sua mãe era a dama não sei o quê, filha dos príncipes de não sei onde… Ouie, ouie, ouie! Ó, Deus, como Vós chamastes Hogie para ser um grande servidor vosso! Ai Senhor! Como Hogie nasceu puro, como Hogie nasceu grande, como Hogie Vos amava, e Vós o amáveis!”

Lá vem a Oração da Restauração, mais ou menos…

Mas agora Vos contarei a coisa terrível: Hogie tinha um filho, esse filho era um filho, tá, tá, tá, e isto, aquilo, era a esperança dele, era o contentamento de sua esposa. Aí o Hogiezinho! — mas nem tem o diminutivo… Podia ter Hogiere! — Ó, Hogiere, quando eu me lembro de Vós de longe, como eu fico encantado! Meu filho! Ah, ah, ai, ai, ai, que eu mesmo matei!”

Phum! Ajoelha… É assim! Ajoelha e diz:

Vou vos contar agora, na história de Hogie o momento da maldição, o momento da treva, o momento da renúncia, o momento — oh! Deus — em que Vós do alto da Cruz me víeis e percebeis o meu pecado horroroso. Eu Vos vejo soluçando, eu Vos vejo tomando uma pedrada no Olho, e isto tudo foi por minha causa. Oh! Oh!”

Vira-se para todos que estão ouvindo e canta assim, a sua tristeza.

Põe-se de joelhos de novo e conta, então, que o filho dele estava brincando, e que de repente percebeu nele um defeito físico nele qualquer, e que foi e disse: “Você é manco, arrasta o pé, qualquer coisa assim.” E que o menino deu um pulo e fez uma pirueta nessa hora. Ele sentiu tão encolerizado — porque tinha bebido, estava meio bêbado, lá vem outra canção sobre a bebedeira! — que ele pegou o menino e jogou pela janela! E depois ainda ufanou-se da ação que tinha feito e foi contar para a mulher.

Bom. Eu poderia passar a noite inteira contando a história de Hogie, não vou me alongar demais — tanto mais que são 3:00h.

(Sr. –: 3:15.)

3:15!

Esse é o herói com cheiro de maresia. Quer dizer, o herói que passou por tudo, não foi santo, mas morreu arrependido. E quando ele estava para morrer — como ele era da ordem terceira de São Francisco —, ele mandou pegarem no corpo dele agonizante e jogarem no chão. E ele morreu assim, pedindo perdão pela morte do Hogiezinho e pelo pecado muito grande que ele tinha cometido, ele morre pedindo perdão a Deus. Na hora que ele morre, vê-se uma pomba que sai da boca dele, e a pomba canta: “Hogiezinho te perdoou, Deus te perdoou, Maria te espera! Pecador humilde e arrependido, alegra-te” A hora da eternidade feliz chegou para ti.”

Está acabado. É a história de Hogie! Bom, é tão diferente da coisa clássica, que nem sei o que dizer.

Mas acontece que nós podemos imaginar um Hogie que não tivesse cometido esses pecados. Podemos imaginá-lo levando uma vida correta, decente, digamos mesmo, uma vida santa. Algumas maresias dessas aconteciam. Porque fraqueza da natureza aparece.

Por exemplo, eu tive hoje um dia que não foi brincadeira! Chegado a essa hora, eu começo a tropeçar sobre mim mesmo, trocando clássico com medieval, medieval com clássico.

Bom, o grande homem clássico, não toleraria que se contasse isto dele. Ele consideraria uma traição. O medieval, sorri e diz: “Isto mesmo, eu estou envelhecendo, e vou caminhando para a eternidade.” Pronto! Não se incomoda! É o natural. É como ele é; e aparecem outros defeitos, vamos dizer…

(Sr. –: Uma grandeza.)

Bem. Isto cabe na visão e como não deprecia o mar que os produtos dele, o homem vá pescar no fundo do oceano, mas de outro lado cheiram mal, assim também o que há de individualizado, sem erro moral, sem falta moral, mas por deficiência da natureza, vai na grandeza do mar! É assim mesmo… por cima da coisa, com toda naturalidade, não esconde, ostenta, é. É a realidade das coisas. Está acabado.

Seria um aspecto para [a] resposta a esta pergunta.

Agora, vamos meter o dedo na história. Eu me esqueci da hora, contei a história de Hogie longa demais.

(Sr. –: Não. Foi extraordinária.)

Não, mas não é por aí que a coisa vai! É que ela tem uma proporção com o tempo, e ela ocupou um tempo [longo] demais no conjunto do tema. É evidente.

(Sr. João Clá: O que o senhor faz, é perfeito. A história está ligada à Oração da Restauração, tocou as catedrais englouties, tocaram os sinos, tivemos saudades…)

[Vira a fita]

(Sr. Guerreiro Dantas: …dá um alívio no fundo da alma. Que a gente vê que o mundo de hoje nos pegou e nos colocou num calabouço.)

É isto mesmo.

(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor nos deu um sabor de um certo espírito de homem do Reino de Maria. Até hoje eu não tinha pegado tão ao vivo, como peguei essa noite. Essa simplicidade franca que o senhor tem.)

Tem que ser.

(Sr. Guerreiro Dantas: Por isto insistimos para o senhor falar de si, porque o senhor falará com essa franqueza, essa simplicidade de alma.)

Bem. Enfim, se eu atendi o que vocês queriam, eu fiz o que devia! Fico muito contente com isso.

Bom, vamos deixar a ponta de trilho.

Hoje entra um enfermeiro novo, e…

Mas a ponta de trilho é o seguinte: Como é que mais ou menos como acontece com o mar, um homem que procura cumprir o seu dever e a quem Deus deu, por rogos de Nossa Senhora, qualidades em certa ordem, maiores do que o comum, como é que isso produz uma espécie de chassé-croi-sé entre grandeza, mas que se apresentam não de um modo teatral, nem espetacular, nem nada; é assim: saiu do chão de minha personalidade, isto assim. E está acabado.

E de outro lado: como as mil coisinhas da vida quotidiana existem sem diminuir em nada a grandeza daquilo. É como um mar, mas pode ser como um cedro, no qual a gente vê que alguma tribo expulsa de formigas, do chão, subiu e cavou na madeira forte do cedro um buraco, e que tem um formigueiro metido dentro do cedro… nem percebeu, nem se coça! Ele tem uns ramos batendo no alto, e é enorme, aquilo para ele é um acidente tão pequeno, que é preciso chamar a atenção dele que aquilo existe.

Então. Como isto ajuda a interpretar vais-e-vens dessas ou daquelas pessoas que nós conhecemos.

(Sr. –: Magnífico.)

Então, meus caros, agora! Que remédio tenho eu?!

Seria muito interessante — nós temos aqui uma fita de “Comédie Française” de um homem que representa o papel de Luis XIII, de Luis XIV — ontem…

(Sr. Gonzalo Larraín: Eu tenho.)

No momento de ele tomar posse da realeza…

(Sr. Gonzalo Larraín: Eu tenho.)

Porque Monsieur le Cardinal morreu. Seria muito interessante. É fabuloso, mas no lado renascentista, lado clássico. Então, é estupendo, mas tem alguma coisa que não é real. Eu sou um entusiasta disso, mas…

(Sr. Guerreiro Dantas: Face às coisas atuais. Mas posta a Idade Média! Isto é subúrbio.)

Ah, subúrbio! É bijuteria!

Há momentos minha Mãe…”

o anjo fere Jacob num lugar onde Jacob fica manco para a vida inteira. Não é “Luisquatorziana!” Mas está na narração Sagrada como desfecho de uma luta grandiosa, entre [homem?] [o Anjo] e Jacob. Jacob fica perfeito, sai admirável da luta, mas sai coxo! Deus quis. Isto, um Luis XIV não contaria! Tiraria da história dele cuidadosamente.

Assim uma porção de coisas. Há uma narração da Bíblia, não me lembro que trecho é, que volta um daqueles Patriarcas para casa, e a Bíblia conta que entre outras coisas de júbilo, veio o cachorrinho batendo o rabo! É tão miúdo! Imaginar que o Espírito Santo revelou o que fez nesta ocasião a batida do rabo do cachorrinho! É uma coisa incontável. É a realidade! Mas uma realidade caseira, bondosa, natural e, no fundo, com verdadeira grandeza!

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