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Conversa de Sábado à Noite ─ 1/8/87

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Os três marcos dos eflúvios convergencialistas: “a leiteria”, “é proibido proibir” e a ecologia * O trage “matinée”: um símbolo da mentalidade pacifista * O eflúvio contagioso é aquele que passa pelos condutos do prestígio geral * Aos poucos a Revolução foi habituando as pessoas à sujeira e ao prosaísmo, preparando-as para a selvageria * Com o final da “Belle Époque” cessaram os bons eflúvios; é necessário o advento de algo que repare o pecado imenso para que o bem volte a ter a capacidade de efluviar

Como é, já está inteiramente em dia meu Nelson? Não, me pareceu, por um gesto que eu vi agora. Ainda tem curativos etc.?

(Sr. N. Fragelli: Ainda.)

Não é à toa que o Zayas fez operar três vezes!

(…)

Paulo Henrique não vem?

(Sr. –: Gripe.)

* O Senhor Doutor Plinio indica os dois caminhos que poderia seguir para responder a pergunta feita

(Sr. G. Larraín: Falávamos da necessidade dessa Luz para atravessarmos esse quadro da Convergência, que vai ser o dia de amanhã nosso…)

Veja bem. Eu não sei se chegou a pegar isto na reunião da tarde, mas o caso de Israel que foi contado fala mais em Bagarre! É perfeitamente indeciso, mas fala mais em Bagarre. Mas diga então.

(Sr. G. Larraín: Antes o campo de batalha era definido, comunistas, anticomunistas. Ou seria por ação de guerrilha deles, desfazimento da ordem; ou então um conflito Estados Unidos e a Rússia. Mas agora Convergência.)

Desculpe a interrupção. Mas, meu João eu preferiria que você fosse dormir. Você vai ter que telefonar que horas?

(Sr. J. Clá: Não. Telefono depois da reunião.)

(Sr. G. Larraín: Como enfrentaríamos isso? Como lutar dentro dessa, por assim dizer, tempestade magnética? Somos afetados por isto, e não sabemos bem de onde vem! Uma ação trans-ideológica. O dom do profetismo que Nossa Senhora deu ao senhor, para lutar nesta quadra histórica. Num MNF sobre questão dos dos eflúvios, o senhor dizia que o eflúvio era o símbolo do símbolo; algo anterior à ação nas tendências. Os dons para combater isto Nossa Senhora deu ao senhor; se pudéssemos conhecer esses pontos…)

[Entra a Imagem de Nossa Senhora de Fátima]

Dommina Nostra Fátima, Peregrina in Sedes Regni tui!

(Todos: “Ora pro nobis”.)

Eu acho um pergunta esplêndida, muito oportuna; nessas coisas a pergunta oportuna é a que vem na primeiríssima hora, e, portanto, uma pergunta muito oportuna. Mas eu queria saber o que, qual é o sentido circunscrito do pedido que você faz, porque isto poderia dar muitas respostas de vários jeitos. Eu queria saber que ponto você pergunta?

Porque uma coisa seria o seguinte: Tomar essa convergência e descrever, e depois analisar o que é que ela é como realidade; como doutrina. Não dá para descrever só doutrina, tem que descrever até quase que principalmente a realidade para depois dar a doutrina. Então isto seria uma coisa. Para efeito de levar a tese até esse ponto, que sempre caracterizou a polêmica da TFP, e que é mostrar a maior radicalidade possível, naquele mal, como sendo ponto fatal por onde esse mal caminha.

Então, as zonas intermediárias, como sendo meras zonas de estacionamento provisório e de nutrição, para ir mais fundo e cair mais baixo; mas que o ponto terminal é necessariamente o pior, e que não se trata de discutir, nem analisar as coisas intermediárias, a não ser enquanto elas denunciam, em graus sucessivos o horrível que vem no fundo. E então, depois de ter demonstrado isso, fazer odiar qualquer aspecto dessa Revolução como tendo no seu bojo o mal inteiro, no seu pior aspecto, e aí determinar aquela forma contra qualquer pormenor, aquela forma de indignação e de repulsa que normalmente se teria para com o mal supremo. Então, criar uma rejeição, e em virtude dessa rejeição uma espécie de construção do anti-isso na gente.

Isso seria um modo de responder sua pergunta. Agora, um outro modo de responder a sua pergunta seria o seguinte: Uma vez que todas as criaturas efluviam, pergunta-se: Não há contra-eflúvios, contra-revolucionários, contra-convergencialistas? E esses eflúvios quais são? Como notá-los? Como caracterizá-los? Como senti-los?

Você vê que são dois caminhos ─ que não se excluem mas são muito diversos.

(Sr. G. Larraín: Seria mais esse segundo aspecto. Porque aí vemos na fonte. E depois tratar da outra face.)

E é mais conforme a nossa reunião.

* Os três marcos dos eflúvios convergencialistas: “a leiteria”, “é proibido proibir” e a ecologia

(Sr. G. Larraín: É. Que o senhor falasse mesmo, porque nós corremos o risco de achar que são coisas meio mágicas; e a gente é objeto dessa irradiação, que a ideologia não explica. É trans-ideológico.)

Bom, em qualquer das duas hipóteses, há uma coisa que é preciso: É definir um pouco o campo, para em função disso a gente falar dos eflúvios que estão concernidos nisso, quer pró, quer contra.

E quanto à definição dos campos, seria preciso dizer que muito sumariamente tomado, e tomado assim: primeiro no palpável, para depois ir no impalpável; que é um modo muito bom de fazer doutrina. Então, vamos ver o palpável primeiro.

A sociedade autogestionária, a sociedade convergencialista teria essas características: primeiro um horror à guerra, e um horror a todos os aspectos da guerra, inclusive aqueles que seriam nobres, empolgantes etc., etc., por causa de um fundo que se definiria mais ou menos assim, uma aversão profunda a que os homens se dividissem, a que eles brigassem entre si, a que houvesse tensões, e houvesse tensões, e houvesse aspectos trágicos na vida humana. A vida humana é feita num ambiente de leiteria de uns trinta ou quarenta anos atrás. Não sei se vocês ainda pegaram esse ambiente ou não?

(Sr. –: Um pouco.)

Toda pintada ─ como o leite é branco ─ então é pintada toda de branco por dentro, laqué, laqueado, e os objetos todos brancos, só faltavam os cabos das facas serem brancos. Eu chamo leiteria uma certa forma de confeitaria que tinha antigamente, e que não era preponderante o doce, mas era preponderante o pão, o [dosti?], pão com manteiga, no fundo pão e leite. A leiteria tinha uma espécie de mentalidade que correspondia a um otimismo protestante, meio anglicano, e meio rotário, sobretudo rotário: “Não, todos os homens se querem, são feitos para serem irmãos! Sorriamos uns para os outros, que tudo acaba bem etc.” Otimista; “a medicina vai acabar com as doenças”. O arquétipo disso, a psicologia do sujeito que, morto, manda se embalsamar não sei bem o que é que faz, com a esperança de que a medicina descobrindo a doença de que ele morreu, cem anos depois, se aplica ao cadáver dele aquele trato para ver se ele restaura, e ainda pode viver: “A morte é um sono, haverá um dia em que a ciência resgatará ─ a ciência sempre benévola, sempre vantajosa, sempre amiga ─ restaurará o homem da morte, esse sono da morte que interveio etc., etc.

É uma espécie de vício do temperamento de só conceber a vida assim, e ter preguiça de a conceber de outra maneira. É uma coisa que é ligada de algum modo, ao vício capital da preguiça, mas que chega a tal ponto que leva a pessoa a não querer saber que haja pecado original, para não ter imaginado que o homem está em estado de luta contra Deus, ou ainda mais, Deus contra o homem; e que até nisto o universo está trincado. Isto é um primeiro aspecto.

Ao lado desse pacifismo, portanto, e da supressão de toda polêmica, de toda discussão em qualquer campo, porque pode conduzir a uma fricção, e a fricção produz determinados eflúvios que fazem mal para a humanidade e arrastam para a guerra. Eflúvios que tornam a vida incômoda, desagradável etc., etc., se opõe a isto; o eflúvio do pacifismo, um eflúvio otimista, doce, sem ambições ─ ambição é contrária ao pacifismo evidentemente ─ sem ambições, sem ponto de honra, sem noções de honra, nada disso; mas que única e exclusivamente tem uma ─ se caracteriza por um otimismo deslavadamente sem-vergonha. É essa a coisa.

Então aí estaria um dado.

Outro dado ─ aqui corresponde a outra família de eflúvios ─ é o “É proibido proibir”. Quer dizer: solte o corpo, distenda-se, evite qualquer forma de tensão, evite qualquer forma de ascese, de domínio sobre si, e seja bom consigo como com os outros; e deixe tudo acontecer. Isto acontecendo há uma espécie de eflúvio de conforto, eflúvio de destruição de todos os espartilhos ─ seria uma fórmula ─ um eflúvio de tirar sapato e de pôr sandálias ─ sem ilusões! ─ e depois de tirar sandálias, tirar meia, e depois andar descalço, depois acabar andando nu; que é o “não me amole”, e “deixe que eu me… a guerra que eu eliminei no exterior, pelo pacifismo é uma guerra que existe dentro de mim, pelo combate entre o que eu sou e o que eu devo ser”. E aí principalmente mais do que em qualquer outro terreno importa ser “pacinista”: “tenha condescendência consigo, não exija de si o auge de sacrifício, o auge da luta, o auge da dor; mas pelo contrário, permita-se tudo, você será um homem eminente, comme il faut, numa palavra”. Então isto é um segundo marco.

O terceiro marco é a ecologia. Para fazer isto, para ser assim, para atender aos anseios anteriores, viver como bicho na floresta, a espontaneidade total, numa natureza que também não foi sujeita a regras, numa natureza que também cresce como ela entende.

Então, se vocês quiserem podem acrescentar a isto, não é muito logicamente numa enumeração completa e indispensável, é: o pacifismo com os outros animais, outros seres. Então, faz parte do pacifismo o vegetarianismo ─ que é a guerra não declarada, digo mal, a paz não declarada, mas existente, com animais e com plantas ─ e mais adiante virá mais formas de pacifismo com outros seres. Aí vocês têm uma descrição do pacifismo.

Não sei se acrescentariam alguma coisa a isto, ou se isto está bem.

(Sr. –: Magnífico!)

Agora, essas coisas têm eflúvios diferentes: porque a elas correspondem disposições temperamentais diferentes e naturalmente essas disposições temperamentais são matrizes de eflúvios. Então quais são os eflúvios diferentes? É por onde entraria a nossa exposição, agora.

(Sr. –: Eflúvios contra-revolucionários também.)

Contra-revolucionários. Entra aí um estado extremo de Revolução. Qual seria o estado extremo de Contra-Revolução? Seria uma pergunta nessa linha?

Eu diria o seguinte: Que o eflúvio ─ vamos dizer da seguinte maneira…

(…)

* O trage “matinée”: um símbolo da mentalidade pacifista

no centro de tudo isto existe como primeira tinta, mas num grau de agudeza inimaginável, existe o liberalismo. Quer dizer: Tudo que é preciso punir, tudo aquilo que deve viver de uma norma, de uma regra, de uma opressão e de uma descompressão; deve ver de outra maneira. E vive do laisser faire, laisser passer, do deixar correr todas as coisas como correrem, sem se incomodar. Este é o fundo do eflúvio do pacifismo.

Eu não sei se vocês chegaram a pegar, mas eu peguei isto como fenômeno tão residual, tão em resto, detrito, de tal maneira que eu creio que vocês não chegaram a pegar. Vocês conhecem um traje feminino, para dentro de casa, chamado matinée?

(Sr. J. Clá: Peguei guando menino.)

Você pegou?

(Sr. –: Não.)

Nenhum de vocês?

(Sr. –: O que é que é?)

Não, não é matinée de teatro não. É um traje chamado matinée.

(Sr. –: Não senhor.)

Matinée é um adjetivo francês, conforme for é um substantivo, que vem da palavra matin ─ manhã ─ e a matinée é um traje para usar de manhã; e era em geral uma espécie de chambre, mas sem sinto, grandão, largão, para ser usado junto com chinelos, e que cobria, disfarçava, velava o corpo feminino, quase por completo. Essa matinée, usavam-na senhoras, de uns cinqüenta para setenta anos, oitenta, gordíssimas, estufavam como nem sei o que; usavam em geral com chinelos, mas chinelo sem meia, e desse tipo de chinelo que não tem o calcanhar, é aberto e quando anda faz “ploc-ploc, ploc-ploc”, porque é para tudo ficar livre, para tudo ficar solto. E eram então senhoras…

(…)

que senhoras, ainda do tempo do cabelo comprido, usavam com o cabelo solto, não penteado, derramado pelas costas…

(Sr. –: Tecido leve.)

Tecido leve e em geral com cores claras. Dava idéia da mulher no seu prosaísmo ─ não sensualidade ─ porque eram mulheres umas tais pipas!, umas bruxas tão roídas já pela idade e defeccionadas pelo assalto inevitável dos anos e da feiúra!… É cruel descrever. Mas é uma realidade que Nosso Senhor permitiu como castigo do pecado original, mas temos que conviver com essa realidade.

Bem. Mas que representava o completo largado, e que coincidia com a mulher quando estava vestida assim, naturalmente se compreende bem que só mulher de certo nível que punha ─ nível baixo ─ ela ficava assim risonha, engraçada, de bom humor etc., se tinha um dinheirinho facilmente dava para um mendigo, para uma criança pobre, mandava comprar umas balinhas para o filho, para a filha ─ em geral bala de açúcar ─ quer dizer, o rés-do-chão em matéria de bala. Sabe como é essa bala? É feita de água com açúcar, sai um melado; água com açúcar queimado, queima um pouco e está acabado.



Então. E bonacheirona etc., etc., e as crianças também vestidas em casa meio “psy-matinée”, quer dizer, não com aquele traje, mas vestidos de qualquer jeito, sujos, esmulambados, e travessos, insuportáveis. O livro da Ulla descreve algumas coisas da atmosfera da matinée, não me lembro se ela fala da matinée, mas tem que ter falado. Essa matinée era precursora desse negócio, de todo ele ─ inclusive da mata ─ e era assim: um otimismo, um apetite satisfeito, sem preocupação de saúde, ou de doença, ou [a ter?] é como uma pequena mandinga, uma folhinha de alecrim que passa quinze dias morando aqui atrás da orelha, uma coisa nojenta! Comendo biscoito de polvilho mas um biscoito de polvilho que é bluff ─ eu gosto de biscoito de polvilho ─ mas formando uns buracos enormes, presos entre si por um rendilhado de polvilho, que forma um bluff que tem para comer ali é muito pouca coisa! Aquele biscoitão com pouca substância! Com o biscoito de polvilho toma chá mate, leite um pouco ─ mas com uma certa desconfiança de leite, porque costuma fazer mal para o fígado, e feroz como um drácula! ─ No que é que está o feroz? É que não há nada de mais feroz do que o preguiçoso quando a gente o obriga ao trabalho. E como o pacifismo é fundo, antes de tudo de preguiça, ele tem todas as ferocidades do preguiçoso.

Isto é o que reflete para o pacifismo, o indivíduo é “pacinista” porque ele se colocou de chambre para tudo na vida, então uma coisinha como essa lembrança aqui dos meus franceses, não quereriam! Porque se voltam para outro estado de espírito. E em geral o nó com a França é esse. Porque a França engendrou um teor de civilização que é diretamente o contrário, é diretamente o contrário! É o país no qual o pacifismo mais demorou para se introduzir. Também quando se introduziu, estava já de tal maneira decaído, ele teve que consumar a sua própria história.

A atitude dos franceses com Petain, era o partido do pacifismo contra o partido da luta, da coerência, da luta de idéias representado pelo De Gaule. Notem que o Petain, procurou ser razoável, durante a justificação dele, mas não procurou ser o herói, nem procurou ornar nada, porque ele queria única e exclusivamente viver aquela vida que ele viveu no tal forte.

* O eflúvio contagioso é aquele que passa pelos condutos do prestígio geral

Como é que um de nós pode combater o adversário? A meu ver é reconhecendo isto, e ─ aqui entra o lado teórico ─ detestando isto. Mas como se premunir com o perigo que não está nele, é extrínseco à alma dele? A resposta é pergunta…

[O Senhor Doutor Plinio adormece.]

Um cansaço de sono!

(Sr. G. Larraín: O senhor não quereria descansar um pouquinho?)

Não, não. Eu já disse que, conversando com o João e com o Fernando, que eu gosto de sair e chegar até o fim da ponta do esforço; eu habito bem na ponta desse promontório.

(Sr. –: Descansar cinco minutos.)

Não, não vai. Eu estou no embalo e chego até o fim.

Bem. Eu estava dizendo?

(Sr. –: Como combater esse estado de espírito, posto que vem de fora também.)

A questão é essa: seria muito fácil pegar por exemplo…

(…)

e como era preciso ser norte-americanizado. E o norte-americano da legenda, muito mais do que o real, é superlimpo, superbranco, super-alvo, super-super, tem todos os aparelhos: ar-condicionado para não sei o que, para não sei o que; prefere o frio ao calor, tem horror a transpirar etc., etc., todas essas coisas, sobre elas caía uma espécie de excomunhão social. Então, era muito fácil, em nome da Contra-Revolução, detestar aquilo que a Revolução também combatia por razões episódicas naquele tempo.

Por quê? Porque o eflúvio contagioso é aquele que passa através dos condutos do prestigio geral. E uma mesma coisa que pode ser conforme a Revolução no século XIX, e depois contrária à Revolução, combatida pela Revolução, por razões episódicas no século XX, que começa. No século XX, em 1950, pode de novo ser combatida, essas coisas se sucedem assim.

E quando entra esse prestígio revolucionário enfunando uma coisa, ele tem o dom de desfigurar completamente o autêntico, quer do lado bom, quer do lado ruim da coisa ─ é uma verdadeira magia ─ aparece um rever tudo por outros aspectos.

Então vocês têm por exemplo isto ─ cortar, meu filho…

(…)

* Aos poucos a Revolução foi habituando as pessoas à sujeira e ao prosaísmo, preparando-as para a selvageria

é por isto também que para preparar para essa atmosfera, que a Revolução vai criando certas formas de condescendência com o calor que é levado para que o indivíduo se habitue a sua própria transpiração. De maneira que quando a pessoa antigamente era apresentada como ─ tanto mais bien reussi ─ quanto mais alvo; isto passa. E é preciso se fazer bronzear na praia, que imitam a transpiração. Depois que diminui o nojo pela transpiração, diminui o nojo pelas outras secreções. É uma coisa calculada.

(Sr. –: Está fabuloso. É inevitável.)

Inevitável! Mas você faz um indivíduo fazer esporte em que ele transpira abundantemente, toma um banho e põe uma roupa fresca, e sai, está normal. Agora, você vai a um clube, no seu tempo de mocinho deve ter dado isto. Vai, faz esporte e transpira abundantemente, vai depois e toma um banho de piscina, e depois você volta. Você não levou roupa branca para trocar de roupa no Clube, e se levar roupa branca, o Clube não tolera! todos os outros companheiros vêm isto, e caem no debique; e você depois de ter tomado banho, numa água onde os outros se banharam, não toma banho de piscina depois ─ antigamente tomavam banho de chuveiro ─ devia tomar e não toma, porque relaxa, por que está farto da água, não vai para o chuveiro. É assim. Não pode trocar de roupa, e põe roupa suja depois do corpo está limpo.

Isto vai desdourando as barreiras, e vai “ullizando”, quer dizer, a mentalidade que a Ulla estigmatizou ─ não a que ela tinha ─ os povos civilizados.

(Sr. –: Extraordinário.)

Bom. Se quiserem saber tudo numa palavra só: Aproxima da condição selvagem.

Eu acho isto uma coisa inteiramente evidente. Agora, isto que é tão evidente, isto precisaria ser estigmatizado pela pessoa no momento em que é prestigioso. E aí a coisa não é tão fácil! Porque por mais que teoricamente nós vejamos que não deve ser, acaba sendo que o prestígio apresenta as coisas por outras formas e o sujeito que transpira dá a impressão de ter mais vitalidade do que o que não transpira. O bronzeado dá impressão de ser mais forte, mais saudável, do que o que não é bronzeado. O que vai vestir camisa e a cueca suja ─ sujas usadas ─ depois de ter tomado banho; esse, dá a impressão de ser mais homem, e o que segue os sistemas antigos é um pelintra, não merece respeito. E o bonito é… Eu imagino esse diálogo, representaria todo um estado de espírito: Depois amigos se encontram no vestiário ─ bem entendido comum ─ do Clube, depois de terem tomado banho.

Um diz:

Você vai para casa trocar de roupa?

Ou outro diz:

Isto é bom para você que é um nababo ─ porque nessa hora fica feio ser nababo ─ eu não, eu tenho minha vida para ganhar, eu vou agora, correndo par a bolsa que tenho negócio para fazer; você lá, com seus negócios, vive no mole, você se arranje, você não precisa disso. Eu não, eu preciso.

Então o estado de carência, o estado de pobreza; dignificam o homem! O estado de fortuna, faz dele um comilão imundo! Cheio do dinheiro que ele tem, que não deveria ter; a riqueza passa a ser uma coisa errada. E pelo contrário a condição de antropófago passa a ser uma nobre condição! O último caminho é esse!

* Para combater os eflúvios revolucionários que conduzem os homens ao estado selvagem é necessário nutrir em nossas almas uma repulsa completa a toda espécie de prosaísmos

Então, é preciso ter suficiente energia para compreender que se nós não quisermos ir ao fundo daquilo que há dez anos atrás considerávamos um buraco; nós temos que sustentar o princípio de que todos esses males conduzem ao extremo de si próprios, que não param no meio do caminho e que isto está conduzindo à selvageria. Temos que nutrir intencionalmente [em] nossa alma, vivencialmente, o repúdio dessas coisas; vendo um outro derreter-se de suor, e pensar: como é nojento esse porco. E daí para fora, tem que ser isto, não há um outro modo de ser.

Aí há um combate contra o eflúvio. Mas você me dirá: Isto é um combate de eflúvio contra eflúvio. Não é. É um combate de razão contra o eflúvio. Ora, Dr. Plinio, eu perguntei ao senhor por um combate de eflúvio contra eflúvio. Como é que se faz o combate de eflúvio contra eflúvio?

É procurando habituar o espírito, habituar o gosto habituar o modo de ser, à visão do tempo em que essas coisas que o eflúvio está destruindo, eram prestigiosas, e se tomando essa tradição, como uma taça cheia de um prestígio que vale mais do que o de agora…

(…)

* Outro modo de combater os eflúvios revolucionários é deixar-se influenciar pelos eflúvios da civilização cristã

minha irmã contou, agora à noite, per accidens no telefone, falou-se de qualquer coisa, e ela contou isto: que ela estava com o marido dela em Paris, e passaram… Nelson qual é aquela avenida, eu não quero acordar meu pobre Fernando, mas qual é a avenida de Paris para a qual dá o Elysée?

(Sr. N. Fragelli: Champs Elysée.)

(Sr. F. Antúnez: Sainte Honoré?)

Isto.

[Vira a fita]

Uma loja boa, bem arranjada, bonita, anunciando objetos do tempo dos Imperadores da Rússia, que estavam expostos ali para vender; e que ela disse ao marido: “Que tal se nós formos ver aí ─ eles estavam comprando objetos para a casa deles ─ quem sabe se nós vemos aí, e compramos alguma coisa de interessante”.

Bem, para resumir a coisa… Já tinham vendido muita coisa ─ e outras coisas, os loucos donos dessa coleção, estavam mandando para a Rússia, porque estavam na expectativa de uma Revolução Monarquista que contavam para qualquer um; então para brilhar na sociedade monarquista eles mandaram para a Rússia, de antemão, os seus próprios tesouros. Mas sabem que as coisas vão até lá!

Ela me disse que tinha objetos que ─ o que tinham de mais visível lá ─ é o seguinte: A Imperatriz Catharina, “A Catarinona”, dizia Rosée, tinha, teve sucessivamente, vários “fassures”, e um deles, ela deu o título prestigiosíssimo, a meu ver, Príncipe Orloff ─ eu acho o nome! ─ ela tinha um brilhante famoso chamado Orloff etc., etc. E nesta casa tinha o serviço de mesa de porcelana que a Imperatriz Catharina mandou fazer para o Orloff, para objetos de toilette, ou que guarnecesse uma mesa de toilette. Diz que era de uma beleza extraordinária porque era porcelana francesa do tempo de Luiz XV. Um assombro!…

(…)

e ter sobretudo o exercício de pôr-se diante disso e vibrar com isto. De sentir isto, de saborear isto; com isto a gente inala esses eflúvios. Se a gente pudesse conhecer uma pessoa ─ vamos dizer do tempo do Império ─ que os hábitos etc., que alguns dos cortesões do D. Pedro II tinham; então, regalar-se em falar, em ouvir, perceber como é, em haurir, em algum modo ser assim. Assim a gente se efluvia. Mas isto supõe toda uma ascese. E esse é, por exemplo, um sentido altamente ascético de tudo quanto se faz aqui no São Bento. Alabardas, desfiles, hábitos, e tudo e tudo, essa sala, e tudo mais, altamente ascético; porque efluvia.

(Sr. G. Larraín: O 1º andar, tem eflúvios de civilização enormemente, de ordem temporal.)

Tem, tem. É indiscutível que tem, graças a Deus tem. Mas, vamos dizer por exemplo: Numa semana de estudos que se realizou num prédio ─ está demolido hoje ─ esquina com a Alameda Barros com a Av. Angélica, montaram com móveis do Luizinho, alguns móveis meus, não me lembro bem com o que, montaram uma sala de jantar, uma sala de visitas dos antigos tempos para os…

(…)

tem cada colosso que nem vale a pena falar! Getúlio, Borgia. As “Pompadoures”, mais ou menos crioulas deles! Tudo isto um colosso.

(Sr. Poli: Eu me lembro dessa sala.)

Mas é porque eu queria formar o senso da tradição, e sem muita compreensão de vários dos membros do nosso Grupo, sem muita compreensão de vários, montou-se aquela sala. Eu como vi que ninguém falava em pedir isso…

(…)

que organizou essa sala, ou qualquer dessas, dever ter; porque é assim que se organiza a vida.

Nesse sentido eu considero o Êremo de Amparo ─ não está gravando?…

(…)

tinha uma certa verve, mas ele tinha um certo jeito, que ele como que abstraía daquele ambiente, e vivia como se estivesse num ambiente… ele tinha, ela sabia aliás efluviar, vivia num ambiente assim. Ele constituiu parênteses ali dentro, ou por outra, ele punha tudo aquilo entre parênteses, sabia receber de um modo que tinha vida, tinha verve, e tinha um pouco de salão.

(Sr. Guerreiro: Numa loja em Amparo, uma fulana me perguntou se era do Morro Alto, e disse que um dia assistiu um jantar lá, era a luz de vela, “que coisa maravilhosa”!)

Você vê como as coisas são.

(Sr. –: Tempo de Dr. Fábio.)

Era do tempo do Fábio.

* Há pessoas que já nascem com uma grande capacidade de efluviar

Bem, agora, tem outra coisa ─ para terminar ─ que é o seguinte: Efluviar, no sentido próprio da palavra, é entretanto um determinado dom natural, ou [face?] um ambiente preternatural, quando se trata do mal, que algumas pessoas têm, outras não têm. Isto é assim.

(Sr. –: Independente do nível da pessoa.)

Não, nada. Algumas pessoas podem ser moleques da rua, sabem efluviar.



(Sr. –: Eles aprenderam?)

Não, nasceram. Nasce-se. Você pega o rei dos eflúvios é o Paulo…

(…)

* Com o final da “Belle Époque” cessaram os bons eflúvios; é necessário o advento de algo que repare o pecado imenso para que o bem volte a ter a capacidade de efluviar

mas vocês, por uma decadência do lumen ─ do eflúvio ─ ao que veio decaindo ao longo ─ é o eflúvio da Idade Média ─ que veio decaindo ao longo do Ancien Régime, e acabou no Século XIX; vamos dizer, com a guerra mundial acabou. Com a Belle Époque os eflúvios do bem acabaram; e o bem se apresentou daí por diante nu de eflúvios, como um galo a quem se tenha arrancado as penas; quando ele procura cacarejar fica ridículo, quando ele procura cantar de galo fica ridículo, porque não tem penas. E pesa contra nós isto. E nós temos que fazer esta Contra-Revolução que eu indiquei, porque não temos outra. Até que venha uma coisa qualquer que faça perdoar o pecado imenso, e dê ao bem a possibilidade de efluviar de novo.

Agora, conservou-se altamente efluviosa, mas numa faixa restrita de coisas a Igreja Católica até o Concílio. No Concílio os eflúvios que entraram liquidaram com tudo.

(Sr. G. Larraín: Mas a TFP é muito efluviosa, seria um assunto para ver na próxima reunião.)

Podemos tratar, com muito gosto.

A questão é o seguinte ─ tomem nota disso, aliás está sendo gravado ─ é o problema, vocês tomem, por exemplo, aqui esse Êremo e o Êremo Nossa Senhora da Divina Providência ─ não ─ o Êremo de Praesto Sum; eles têm uma influência sobre o mecanismo dos eflúvios; eles efluviam no sentido próprio da palavra? É uma coisa para analisar.

(Sr. G. Larraín: Sede do Reino de Maria.)

Aquela sim. Aliás veja, a Sede do Reino de Maria efluvia, a sala sobretudo; a sala é o coração da Sede. Mas a realidade é que efluvia mais quando está só do que quando está com gente. Aqui não. Em certo sentido efluvia mais quando está com gente, do que quando está só. Agora, por quê? Podíamos conversar, se quiserem no sábado que vem.

Guardando as cabeças de trilho, e agora, infelizmente…

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