Conversa
de Sábado à Noite – 25/7/1987 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 25/7/1987 — Sábado [VF 054] (Neimar Demétrio)
Nome
anterior do arquivo:
Eu lamento que estejamos começando tão tarde, mas não tenho como fazer. E me digam um pouquinho qual é [a] pergunta do dia, ou da noite.
(Sr. Gonzalo Larraín: Sobre as luminosidades. O senhor dizia que se o Grupo abrisse a alma para isto seria o começo do “canticum novum”. Um assunto seria: Qual a origem dessa luz? Outro aspecto seria que as instituições têm luminosidades; o senhor falava outro dia de Bécassine, por exemplo, o povinho, etc. As luzes das nações. A pergunta seria se o senhor pudesse falar da luz do “thau”, da Contra-Revolução.)
Está muito bem. A única [coisa] que tem é o seguinte: De fato você expôs um ciclo de perguntas, que se relacionam umas com as outras, à maneira de várias partes de um anel. E que o primeiro ponto, eu acho que pode ser um pouco comprido qualquer coisa, mas é indispensável para compreender os outros.
* Qual a razão pela qual a graça se manifesta sob forma de luz?
Qual é a natureza dessa luminosidade? A essência dela o que é que é?
Propriamente a luz é um fenômeno físico, um efeito em geral de combustão, nós todos conhecemos a respeito de luz, tudo o que uma pessoa cultivada comum conhece. Agora, acontece que a pergunta é: Qual é a razão pela qual a graça se manifesta… às vezes sobre outras formas, mas muitas vezes sob forma de luz; e tão apropriadamente que a gente chega a se perguntar se não há uma luz intrínseca da graça, se existe na graça algo que ilumina. E, então, se a luz tem — ela enquanto tal — o próprio lumen Christi, enquanto tal, tem algo de sobrenatural.
É certo que o lumen rationis não tem. Ele é natural, mas pode ser penetrado pelo sobrenatural, nesse caso ele brilha mais. E aí mais uma vez você vê que o lumen rationis, é tratado de lumen, vê-se que é claramente metafórico, embora certas atitudes que toma [a] fisionomia do homem quando ele está sob ação intensa do lumen rationis, podem ter qualquer coisa de luminoso.
A gente chama o raciocínio de luminoso, chama o pensamento de luminoso, e é possível que a fisionomia de um homem muito colocado sob a ação do lumen rationis, não por qualquer coisa de sobrenatural, mas pela própria natureza, aquilo brilha de algum modo no homem.
* O brilho natural — A relação entre o brilho e a vida
Esse brilho natural — vamos começar pelo andar térreo — esse brilho natural o que é que é? É porque o produto da inteligência humana brilha? No sentido físico da palavra? Não é isto. Mas é que a inteligência humana quando ela funciona bem, pode pôr o homem em certas posições em face das quais o reflexo físico dele leva a brilhar.
Porque, por exemplo, há certas formas de alegria que põe brilho nos olhos do homem — os olhos do homem — e esse brilho é certamente o brilho da vida, é de vida natural, mas um brilho de vida. E há uma relação qualquer entre vida e brilho, mas que é uma relação não apenas de analogias simbólicas, mas há qualquer coisa mais profunda; porque quando a vida do homem se coloca muito em ordem, e como deve ser, numa situação excelente, alguma coisa brilha sempre nos olhos. E além de brilhar nos olhos, às vezes brilha no todo, na face do homem, no gesto do homem, na impostação dele e, às vezes, na própria cor da cútis do homem passa a haver um certo brilho.
(Sr. Gonzalo Larraín: Até em preto isto se passa.)
É evidente. É lustroso. É certo…
(…)
(Sr. João Clá: …não tem brilho nenhum, enquanto que o olhar de uma águia é um olhar cheio de luz.)
É exatamente. Tal qual.
Então, na vida puramente natural, nós notamos que há uma relação entre brilho e vida que não é uma relação convencional, nem meramente simbólica. Embora o brilho seja o símbolo da vida, mas não se esgota nisso, mas [sim] o efeito como que necessário da vida, em muitas circunstâncias, é o brilho.
Agora, por quê? Por causa de qualquer coisa de ontológico que faz com que ter vida é um grau de ser a mais do que não tê-la — ser uma pedra — e, portanto, que há entre o brilho e a vida uma analogia necessária, indicativa de um grau de ser a mais, mas que é inerente a esse grau de ser, esse grau de ser por existir enquanto ser, brilha.
Não sei se está muito tarabiscoté o que eu disse, ou está claro?
(Sr. –: Muito claro.)
Está claro, meu filho?
* Está na natureza do homem que ao receber um maior grau de vida, ele brilhe mais — O “brilhar” enquanto uma das modalidades da graça
(Sr. Guerreiro Dantas: Sim. Apenas me vem uma pergunta: Por que é que o senhor logo fez relação com a vida? Porque as coisas que habitualmente mais brilham na natureza são, por exemplo, o ouro, certas conchas, etc., e que não têm vida.)
Mas não emitem essa luminosidade; elas refletem. Isso é muito diferente. Aí a coisa fica inteiramente clara.
Agora, a graça sendo um grau de vida a mais, pode-se supor — eu não conheço Teologia bastante para afirmar —, mas pode-se provavelmente supor que a graça… Esteja na natureza dela que, inserida no homem, à maneira de enxerto — que é a metáfora que São Paulo usa para falar da graça e o papel da graça no homem: é a do enxerto na árvore —, que ela entrando assim na vida do homem, ela acrescenta ao homem alguma coisa que vai além — mas, acrescenta na ordem da vida e acrescenta coisa muito preciosa —, que [ao ser], então, posta no homem, emite também brilho, porque está na natureza do homem que quando ele recebe um maior grau de vida, ele brilha mais. É uma coisa inerente.
(Sr. João Clá: Tem que haver à margem disso uma percepção de vida a vida, um homem percebe a vida de outro.)
De conaturalidade.
(Sr. João Clá: A graça acrescenta uma outra vida, a sobrenatural. É normal que de vida sobrenatural a vida sobrenatural haja uma percepção também.)
Evidente. Essa percepção é que nós temos chamado — um tanto metaforicamente — de fluído, eflúvio, e não fluído.
É curioso que pode haver meros animais que emitem luz como, por exemplo, certos pêlos de gato, quando se cofiam no sentido diferente do pêlo; o gato como que faísca. É um brilho, mas ainda é brilho da vida. Um gato morto não brilha nada.
(Sr. João Clá: A ação de um cordeiro sobre um cavalo de raça.)
É. Não é propriamente brilho, é o eflúvio.
Agora, compreende-se então que seja uma das modalidades da ação da graça [o] brilhar e, por isso, os santos em êxtase, em certos estados místicos, etc., são vistos brilhantes; Nosso Senhor, na Transfiguração, foi visto brilhando e em muitas outras situações [foi] visto brilhando. Se pode dizer de uma pessoa, colocada em situações psicológicas muito propícias, que ela esteve “brilhante”.
Por exemplo, tal diplomata esteve brilhante em tal recepção. Ele pode não ter dito uma palavra, mas “brilhante”. Está acabado. Ele tem brilho!
(Sr. João Clá: Moisés que foi obrigado a cobrir o rosto.)
Está vendo! É muito característico.
* A inerência entre as trevas e certas carências de vida
(Sr. João Clá: Passou muito tempo com o rosto coberto, porque os judeus tinham pânico de olhar para ele.)
Isto explica a natureza dessa vida, ao menos um pouco mais do que antes de dada a explicação. E fica então a idéia do porquê é que este… essa comunicação de brilho contra as trevas é uma batalha, é o cerne da batalha. É porque a treva é inerente a certas carências de vida, em certos tipos de seres.
Colocando entre as carências de vida, certas formas de desordem, elas têm como efeito que elas produzem certas formas de obscuridades. O simili das trevas no físico do homem é a opacidade, a palidez, os estados enfermiços, etc., que tiram completamente o brilho. A não ser a vitalidade fictícia da febre, que produz um brilho feio, um brilho de falsa-direita! O sujeito fica corado erradamente, excitado erradamente, com os olhos brilhantes de um brilho feio: é a febre. Não é a saúde, é uma coisa completamente diferente.
E nesse sentido, a luminosidade se compreende que tenha uma presença natural conducente ao bem, e que as trevas tenha uma presença natural conducente ao mal.
* “O vitral diminui o esplendor da natureza nas horas solares, portanto, é mais plena uma sala sem vitrais!”: objeção subconsciente favorecedora do vidro transparente
Aqui vem uma objeção e essa objeção, pelo menos subconscientemente, eu tenho a impressão que esteve muito presente por ocasião da abolição dos vitrais. É que o vitral diminui o brilho do sol, diminui o esplendor da natureza nas horas solares e, portanto, é mais plena, mais cheia de vida estar numa sala sem vitrais do que numa sala com vitrais! E, portanto, teria sido uma grande vantagem, quando a fabricação do vidro comportou a produção de certas superfícies lisas, de um certo tamanho, e de onde se via o lado de fora inteiramente; de onde por exemplo, em Versailles [há] ou aqueles quadradinhos, ou janelas maiores. Os vitrais não existem.
Ora, nós tão entusiastas dos vitrais, como é que nós defendemos os vitrais contra esta história?
É uma pergunta que se pode fazer.
É que é bom — o sofisma vem nisso: a luz solar é uma luz mais excelente do que as outras luzes e, portanto, brilho solar é um brilho mais excelente que os outros brilhos. Mas, 1º ponto: convém às coisas excelentes que não sejam vistas apenas no seu ponto de síntese, mas que sejam vistas em certa decomposição. E assim o homem conhecer o prisma em que se decompõe a luz solar é uma coisa boa, do ponto de vista de brilho. Imaginar as cores do arco-íris brilhante, é uma coisa ontologicamente boa. Tanto é que foi tomado como sinal de reconciliação. Quer dizer, uma coisa melhor do que o aspecto comum do céu.
Há entre a luz solar e as luzes comuns a distinção que há entre a unidade e a variedade. E Deus mostra Sua unidade, mas mostra também Sua variedade, o que na Pessoa d’Ele dá fundamento à existência do varium. Ele mostra isto. E é bom, portanto, que o homem tenha isto diante de si. Isto é uma razão.
Mas há uma outra razão, que é a seguinte: entre o homem e o estado de espírito dele é preciso haver uma certa consonância, e essa consonância pede que nesse vale de lágrimas o homem esteja habitualmente numa elaboração mental e num estado de recolhimento parecido com a penumbra. A produção intelectual tem qualquer coisa penumbrática e o recolhimento pede a penumbra. A atitude do homem… Não. A alma do homem, em muitas circunstâncias, ocasiões, é ávida de intimidade e, para a intimidade, é boa a penumbra. Ela é mesmo um estado de penumbra do homem, em que ele não podendo mostrar tudo o que tem a todos, mostra o que ele não pode mostrar a todos, mostra num círculo íntimo, por isto mesmo mais penumbrático.
Parece uma brincadeira, mas não é, é inteiramente sério.
Então… Aí nós temos com que derrotar os “piparotes”, os que entenderam que o vidro era a morte do vitral. É esse o andamento da coisa. E com isto, então, eu julgaria a sua primeira pergunta escorvada.
Qual é a segunda pergunta? Porque isto construía uma outra dentro do anel.
* A luz do “thau”
(Sr. Gonzalo Larraín: A luz do “thau”.)
A luz do “thau”… Eu a vejo — você entende bem que a palavra “vejo”, está aqui entre aspas —, a luz do “thau”, eu a vejo da seguinte maneira: é uma luz, uma claridade, um foco de claridade, meio parecido com o sol, assim irradiante, mas de uma claridade menos forte, menos precisa que [a] do sol, mas tão ou mais rutilante. O sol é tão brilhante que o que está fora da circunferência dele fica como que queimado por ele e ele não comporta meias tintas em torno de si. Ora, eu imagino a luz do “thau” uma coisa de um brilho menos rutilante que do sol — seria mais afervorizante dizer que “não”, mas eu tenho de dizer a coisa como ela é.
Então, menos brilho do que do sol, de um lado; mas de outro lado, eu imagino circundada de uma penumbra penetrada pelas trevas dele e na qual se misturam essa penumbra. Não é tão feita de misturas de branco e preto, mas há um pouco de preto pelo meio; mas se misturam superfícies várias das cores do arco-íris, mas todas um pouco escuras, e que constitui quase que uma coisa à maneira de vitral, em torno da luz do “thau”.
* Uma luz da graça que se comunica a nós com algo da tristeza de uma decadência, como se a graça estivesse triste de não ser comunicada na sua plenitude
Quer dizer, isto corresponde a meu ver ao seguinte:
O “thau” nos faz ver verdades brilhantíssimas, rutilantes, de primeiríssima classe, mas ele nos dá também muito senso dos matizes, e ele não seria ele mesmo se ele não se apresentasse na sua rutilância, mas também na sua riqueza de matizes. O “thau” é muito matizante e está na exigência dele ser matizante porque nós não pegamos as verdades se saímos dos matizes. É uma necessidade.
E de outro lado, este conjunto assim — porque mostra a policromia que mais uma vez lembra o arco-íris — nos dá um pouco a idéia de que seria o sol, se Nosso Senhor tivesse decidido que em vez de Ele percorrer o horizonte de ponta a ponta, ele formasse um elo luminoso em torno do sol. Como é que seria o sol se ele tivesse um círculo luminoso em si, um arco-íris? O arco-íris é uma coisa linda, mas seria difícil imaginar a beleza de um sol circundado por um arco-íris matizado, proporcionado.
E esse sol, circundado de um arco-íris, esse sol é propriamente o “thau”. Mas com qualquer coisa de tristonho, qualquer coisa de — melancólico e tristonho é a mesma coisa — qualquer coisa de outonal, de outono. Quer dizer, no “thau” algo decai, algo de decadente que nos convida a reintegrá-lo. O “thau” como que nos diz: “Reconquiste! Trave as batalhas, ganhe as vitórias, por onde eu brilhe com todo o meu brilho. Eu entrei nas almas dos homens numa fase de declínio, e apareço aos homens com qualquer [coisa] assim de declinante, de penumbra. Cabe a você, cabe a vocês batalharem para que eu ganhe a grande batalha, e assim eu apareço com todo o meu brilho!” De si ele não é decadente, mas está em decadência, é uma luz da graça que se comunica a nós com algo da tristeza de uma decadência, como se a graça estivesse triste de não ser comunicada na sua plenitude.
(Sr. Gonzalo Larraín: Mas no senhor não [se] dá assim?)
Isso eu não sei, porque eu não me analiso. Mas eu conheço inúmeras luzes, “porta-”, que tem exatamente isto. E há monumentos e coisas eclesiásticas que ignoram essa luz e, por isto, não transmitem bem o “thau”, pelo menos no atual quadro. É o período em que a Igreja começa a se resignar de não representar toda a Cristandade, [em] que Ela começava a se resignar de ver um exército em retirada, e que foi batendo em retirada cada vez mais.
Eu compreendo que um grande exército, em retirada, resista, tenha ganho algumas batalhas, o exército pode até celebrar suas glórias quando está em retirada, mas ele está em retirada. E não lhe fica bem ter os brilharecos de um exército que está avançando.
Mas mais ainda: tudo quanto é grande tem que passar por períodos de “exército em retirada”, e ser grande dentro do infortúnio e ficar uma certa cicatriz da grandeza do infortúnio. Se não a verdadeira grandeza não se realiza nesse vale de lágrimas.
(Sr. João Clá: Anti-Hollywood a mais não poder!)
Anti-Hollywood a perder de vista! A perder de vista…! Mas é assim.
Então se compreende que o nosso “thau” se apresente ao meu espírito assim…
(…)
Responde sua pergunta?
* O livro “Revolução e Contra-Revolução”: uma explicação inteira do “thau”, mas não uma expressão simbólica deste — O caráter de alegria presente na “RCR”
(Sr. Gonzalo Larraín: Sim, responde. A RCR tem uma luminosidade, eu pergunto se o senhor identifica com o que o senhor acaba de dizer?)
A questão é a seguinte: é que de fato o tema “Revolução e Contra-Revolução” teria normalmente tanta luz a mais do que o que está no livro, que não se pode dizer que tudo que aparece de luz no livro, é tudo o que o livro poderia dar, o tema poderia dar , e pelas circunstâncias concretas… tá, tá, tá; a RCR apenas deixa filtrar uma parte da luz do “thau”.
(Sr. Gonzalo Larraín: O senhor poderia falar do tema Revolução e Contra Revolução, mais do que do livro?)
Eu estava falando do tema. O livro é o tema no momento em que o tema sai da trincheira e faz a ofensiva e, portanto, com uma atitude de agressão, de euforia da agressão, de entrever a parte do território adversário que vai ser conquistada — não a guerra que vai ser vendida, mas um avanço que vai ser conquistado —, que dá à “RCR” um caráter de alegria, conforme o “thau”, que não aberra do “thau” na sua dignidade grandiosa, um pouco mais estática do que a “RCR”.
A “RCR” nesse sentido é um pouco contábil. Ela tem quase a clareza de uma contabilidade. E, de fato, a clareza dela para ser expressa como deveria, deveria ser expressa com essa mesma clareza, mas com qualquer coisa a mais. De maneira que eu acho a “RCR” uma explicação inteira do “thau”, mas não uma expressão simbólica inteira do “thau”. Eu nunca apresentei a “RCR” como sendo isto que eu estou dizendo. Eu apresentei como quem presta contas! “Você está com encrenca com o Grupo? Quer conhecer, não amolar? Leia aqui! Aqui está lógico, não me venha com coisas porque está lógico; se não achar que está lógico venha me dizer!”
(Sr. Nelson Fragelli: Exagero a palavra “contábil”.)
Eu digo francamente: pelos comentários de vocês, eu percebo que ela tem mais; mas é tanto menos do que eu quereria pôr, não pus, que eu mais vejo que tem a menos, do que vocês vêem.
(Sr. João Clá: É a regra de São Tomás: “Todo intermediário visto de um dos extremos, parece com o oposto.”)
É isto. Exatamente.
(Sr. Fernando Antúnez: Depois São Tomás queria queimar tudo também!!!)
Realmente, São Tomás na obra dele… Eu tinha muita curiosidade: perguntar a ele o que ele viu a mais?!
(Sr. Guerreiro Dantas: É a ponta de trilho!)
Poder-se-ia perguntar: o que eu vejo a mais na “RCR”?
(Vira a fita)
…sim; simbólica não. No sentido em que a doutrina — por exemplo, na Suma Teológica — a Suma Teológica tem, umas chispadas simbólicas, de vez em quando, mas sempre o mesmo símbolo, a mesma clareza que se não fosse a veneração enorme que tenho a São Tomás e à Suma, eu diria que quase se poderia comparar ao caráter um tanto contábil da “RCR”. Quer dizer, é o raciocínio puro, límpido: “Aqui está! Convença-se!” Nenhum momento a “RCR” diz: “Encante-se!”
(Sr. Nelson Fragelli: Não, não é assim.)
Nessa linha, eu tive apenas a intenção de usar o tempo inteiro uma linguagem nobre, mais nada. O resto é pensamento, você não vê uma linha que tenha a intenção de produzir o efeito de uma metáfora. Se há metáfora, é metáfora didática, de sala de aula.
Agora, pode ser que por graça de Nossa Senhora, por efeito da mentalidade muito… cheio de Fé e de senso monárquico que então…
(…)
…ia sair uma coisa assim num livro que eu comecei a escrever sobre a Cristandade, mas que Dom Mayer e Pacheco me recomendaram que não escrevesse! Que era uma vergonha aquilo, que [era] muito medíocre, etc., etc., e eu então não escrevi; guardei. Deve estar com o Borelli lá no arquivo.
* Sobre o conteúdo da RCR: “É tão menos do que eu tenho na alma a propósito de tudo isto!”
(Sr. João Clá: Se o senhor tomar a Sagrada Escritura, os Evangelhos. Por exemplo, o Evangelho de São João: é simples. Começa assim: “No princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus!” O mais simples possível, mas tem luz. Porque que tem beleza? Tem luz? Porque é autêntico, íntegro.)
Depois continua como? Deus era Verbo?
(Sr. João Clá: Precisaria pegar a Escritura. Mas ele viu aquilo, ele viveu aquilo, de modo que sai do fundo da alma dele, ao mesmo tempo que o Espírito Santo põe tudo aquilo [a] borbulhar na alma dele. Eu acho que com a RCR o que aconteceu foi isto, parte do fundo da alma do senhor, o senhor é aquilo. O senhor não podia dizer: Eu sou a Contra-Revolução, porque senão estourava a “Bagarre” antes da hora!)
Mas é tão menos do que eu tenho na alma a propósito de tudo isto! Eu pelo menos não percebo! Pode ser que vocês percebam; eu fico muito grato a Nossa Senhora que vocês percebam.
(Sr. Nelson Fragelli: É enorme! Quando o senhor descreveu a luz do “thau” — pensando na “RCR” — ia-se compreendendo as palavras um tanto misteriosas que o senhor ia pronunciando. A “RCR” tem exatamente o que o senhor disse.)
Não contesto. Mas eu explico, pelo menos, porque na minha vista ela é assim. Porque haveria possibilidades… Eu não quero dizer que eu tenha essa possibilidade, mas eu quero dizer que há no tema, possibilidades para enormemente mais. Eu vou dizer o seguinte: A “RCR” deveria dar… primeiro deveria ter muitos déploiement a mais que ela não teve — porque estão no MNF, em boa parte — e porque não havia tempo, não havia espaço, não era prudente dizer coisas que hoje dizemos para fora, em artigos, etc., etc., naquele tempo não dizíamos; de um lado.
Agora de outro lado, tem que eu acho [que] a RCR propriamente deveria — o tema Revolução e Contra-Revolução — deveria ser… Ter o que tem, mas ao lado uma edição tipo Chanson de Roland. Agora, como a “RCR” não é acompanhada da Chanson de Roland, à maneira dela.
(Sr. João Clá: Ou seja: A vida do senhor ilustrando a RCR! Aí estaria extraordinário.)
Aí eu não entro, entra em minha vida, etc., e eu fico muito vacilante; mas uma coisa em tese…
(…)
(Sr. João Clá: Acho que ficou claro agora. Acontece que o senhor vê a Revolução e Contra Revolução divorciada do senhor, como que um terceiro; enquanto que para nós não, a Revolução e Contra Revolução é o senhor.)
Não, isto eu não faço.
(Sr. João Clá: Seria como alguém querer olhar para um panorama e ver o sol, e dizer: Não, o sol não faz parte do panorama!)
Mas aí é o tal terreno, em que je ne marche pas!
(Sr. Gonzalo Larraín: O senhor dizia que o “pulchrum” desse livro era que tinha sido escrito através dos olhos de Nossa Senhora, julgando a História nessa ótica.)
Isto é.
(Sr. Gonzalo Larraín: Para “thau”, e ver as coisas pelos olhos de Nossa Senhora seria mesma coisa? A luz seria a mesma? Ver a História e tudo?)…
(…)
…alabarda… mas dentro de outro reluzimento, não se compreende. Você imagina uma alabarda junto àquela figura! Não vai!
* O ouro: a cor da supremacia — Comentários sobre diversas combinações do cores
(Sr. Gonzalo Larraín: Como o senhor vê a ordem temporal iluminada por esse olhar?)
É uma coisa muito curiosa, mas é uma luz dourada, sendo que o dourado você não vê em vitral, você não vê em policromias, o dourado disputa o lugar ao branco. Engraçado é que eles até não vão bem juntos. Aquela bandeira Vaticana, branco e dourado, não me agrada como combinação de cores; não sei se agrada a vocês? A mim não. Por quê? Porque os dois não cabem no mesmo panorama, a gente tem a impressão que são a gema e a clara do ovo que estão convivendo. Ora, a gema do ovo não é dourada! E o branco da clara, não é o branco ideal do leite. São coisas distintas. O branco da clara tem qualquer coisa de ligeiramente cinzento.
A meu ver, a meu ver, esse símbolo que você fala, o que lhe convém a ele, o lumen dele, o lumen do ouro como sendo a seu modo a ponta de excelência de tudo o que é colorido.
A coisa curiosa é que o ouro e o vermelho são menos bonitos combinados, do que o ouro e o azul. Eu acho que a combinação ouro sobre o azul — do mero ponto de vista pitoresco — é uma combinação perfeita. Aliás, existe esta expressão corrente: “Deixou tal situação ouro sobre o azul!” O ouro sobre o azul indicando uma ordem ideal. Mas é que o ouro com o azul, ele, de algum modo desperta, mas desperta um pouco demais, de maneira que traz consigo o seu repouso. O azul descansa o homem do ouro, e o ouro descansa o homem do que há de um pouco mièvre no azul; forma uma combinação magnífica. Mas o ouro e o vermelho têm uma certa vitalidade, uma certa endurance, uma certa leistung, uma certa afirmatividade, que eu não conheço em nenhuma combinação.
Ouro, em matéria cromática, tem propriamente a cor da supremacia. Lembram-se que em passadas reuniões, nós definimos a supremacia como a condição de ser supremo; ouro é a cor régia, ela é suprema, e convém para certas coisas. Convém perfeitamente.
Por exemplo, para as coisas do Papa, tiara, para a cruz peitoral, convém o ouro; você pode pôr uma pedra dentro, realça até, fica muito bonito, mas o ouro é o ouro. Mas é uma luz — a luz do ouro — tem a luz da supremacia, mas tem qualquer coisa da luz da tradição, porque o ouro não tem o jeito de novidade, que tem por exemplo, nossas capas! As nossas capas são uma cor-moça. E convém à TFP, convém isto, porque ela é o ponto de partida de uma outra coisa. Mas o ouro tem um pouquinho — não umbrático em nada, ele é excelente —, mas ele é discreto, ele não procura aparecer, ele não tem triunfos populacheiros, ele impõe respeito, uma força de respeito própria de supremacia.
Não sei se me exprimo bem?
(Sr. –: Magnífico.)
Há pouco o Paulo Henrique e o G [Guerreiro?] disseram alguma coisa. Queria dizer uma coisa meu filho?
(Sr. –: Não.)
Nesse caso, se me permitirem, eu vou andando. Vamos rezar.
“Há momentos minha Mãe…”
* * * * *