Conversa
da Noite – 11/7/87 – Sábado .
Conversa da Noite — 11/7/87 — Sábado
Reina verdadeiramente aquele que possui o reinado dos ânimos * Todas as instituições vistas retamente emitem um “lumen” que constitui um de seus principais aspectos * Esperança do Senhor Doutor Plinio de que voltem as graças da “Imaculada Conceição” * A luta das luminosidades é o verdadeiro cerne da Revolução e o diadema do Profetismo * Incompreensão dos membros do Grupo para com a visão que o Senhor Doutor Plinio tem das luminosidades
* Considerações sobre a jaculatória “Regina Cordium”
Se a noite estivesse melhor eu iria lá fora ouvir o Ofício.
[Inaudível] … romano da palavra que não é o nosso coração sentimental, é a vontade do homem, o coração do homem nesse sentido. Eu acho que valeria muito a pena; inclui o sentimento, mas não é apenas o sentimento, é quase o sentimento, e quase o sentimento excluindo qualquer outra coisa que não seja o sentimento, que é como a coisa caminhou depois “emerysanamente”. De maneira que se puderem me lembrar dessa invocação, habitualmente aos sábados, eu acho que estaria muito bem.
(Sr. G. Larraín: Reger os corações.)
Reger os corações, porque o coração eu entendo ─ seria preciso fazer uma pesquisa mais exata em Latim da palavra “coração”, o sentido analógico ─ mas eu entendo que é nesse sentido do ânimo do homem. Nesse sentido eu gosto muito da palavra “ânimo”, porque designa uma coisa um tanto distinta da vontade, na qual a vontade tem uma parte enorme, mas também um tanto distinta da inteligência, mas na qual a inteligência tem muita parte. A bem dizer, inteligência, vontade e sensibilidade encontram-se nesse vocábulo; e portanto muito adequado para nós, segundo me parece.
(Sr. Paulo Henrique: Uma vez o senhor disse que “Regina Cordium” era também mentalidade.)
É. A mentalidade é, vamos dizer, a parte de inteligência que há no ânimo é a mentalidade; e a parte de vontade que há é propriamente o ânimo. Porque a mera mentalidade é estática, mas algo que move a mentalidade, e que toca como força rectrix do homem, isso é o que eu entendo por ânimo.
* Reina verdadeiramente aquele que possui o reinado dos ânimos
E quais são as perguntas? O que é que temos?
(Sr. Guerreiro: A respeito da Reunião de Recortes, é que nem sempre um tema assim tão grandioso, desperta o tema assim de imediato, nós ficamos voltados para aquilo.)
(Sr. G. Larraín: Foi uma confirmação das previsões que desde o “Legionário” o senhor vem fazendo sobre a convergência. O aspecto da TFP regendo os corações está muito ligado à reunião de hoje.)
Eu acho que sim, nesse sentido da palavra que Nossa Senhora deu para a TFP as condições para prever, para estudar a tática verdadeira face [ao adversário], e depois estudar os modos pelos quais isto se executa, e fazer a execução. São, pelo menos, três elementos: prever, traçar o caminho e segui-lo. Quer dizer, prever a marcha do adversário, um ponto; depois, segundo, traçar o caminho para o ataque ao adversário; terceiro ponto, fazer o ataque ao adversário. São os três elementos.
Mas a gente tocando um pouco mais aprofundadamente a gente vê o seguinte: que o fato de existir a Revolução, demonstra ─ haveria uma porção de argumentos mais altos e mais bonitos ─ mas o fato de haver processo revolucionário, é uma coisa que só por si demonstra que há um reinado possível do mundo através dos ânimos, porque a Revolução encontrou este cetro e empunhou.
Quer dizer, o mundo é susceptível de ser governado pelos ânimos de maneira a ser dirigido mais do que [por] um rei, um imperador, qualquer coisa, e não duvido em dizer, mais também do que um Papa; porque o Papa dá o ensino etc., etc., matéria religiosa, mas a missão abarcativa da ordem temporal também num todo, isto não está no domínio do Papa.
Ora, este governo dos ânimos é uma espécie de vértice onde os dois domínios se encontram; o domínio temporal, portanto do imperador. Agora, domínio muito mais alto, muito mais nobre, muito mais santo do Papa. Pois bem, esses dois domínios não se confundem com aquela espécie de savoir faire, espécie de ciência dos ânimos por onde se consegue um imbricamento deles e levá-los à ação.
Quer dizer, é uma ciência feita ─ se quiserem, como se tem dito ultimamente, uma “ciência multidisciplinar”, até multi-multidisciplinar ─ que toma elementos de várias coisas e que constitui uma especialidade que é certo que os homens que fizeram a Revolução nunca teriam conseguido fazer em nada, se não fosse uma presença ativa do demônio. E às vezes eu me pergunto se também não há uma presença angélica para, do outro lado, a coisa ser feita.
Isto é o reinado. Quem tem isto, tem o reinado dos ânimos, que é o reinado da História. A serviço da Santa Sé, e do Trono naturalmente.
(Sr. Paulo Henrique: “A fortiori” quando tendo havido a prevaricação, não tem mais esse poder.)
Tem o direito, não tem o poder. Abriram mão do poder. Até vou dizer mais, estão na autodemolição desse poder, quer o Trono, quer o Altar…
(…)
* Todas as instituições vistas retamente emitem um “lumen” que constitui um de seus principais aspectos
…e quando eles descreviam o campo no Chile, eles descreviam com uma certa forma de amor, uma certa forma de sentir, de patriarcalidade, que se percebia que ─ às vezes quando a gente anda no campo, vê sair fumaça de dentro da terra ─ a gente tinha impressão de que saía uma fumaça sacral daquelas propriedades, que era o que me indignava mais dos proprietários defenderem molemente a sua propriedade ─ não é defenderem o seu dinheiro; eu tenho pouco, que me importa o dinheiro deles! ─ é defender mal aquela imagem de sacralidade que eles traziam consigo.
A razão pela qual eu me entusiasmo por essa luta é por causa desse lumen da propriedade privada. Você não concorda com isto, meu filho?
(Sr. –: Inteiramente.)
(Sr. Paulo Henrique: É o que eles querem acabar; a propriedade patriarcal.)
Patriarcal, é um certo quê imponderável. É bem evidente que a razão pela qual eu luto é isto…
(…)
…sem o lumen. É esse o negócio.
Então, por exemplo, no Miguel pode-se ver um lumen em gérmen ─ na fotografia, por exemplo, do Miguel e do irmão ─ que saiu numa revista, é evidente que está esse lumen.
(Sr. Paulo Henrique: Agora é um “lumen” refletido.)
É verdade que é, bastaria eles mudarem de orientação que isto se apagava, mas está.
E o que nós queremos é este lumen, e assim se nós analisarmos as coisas, todas as instituições vistas retamente emitem um lumen próprio; e esse lumen é que sensibiliza a arte, que sensibiliza a poesia, que faz os cruzados, que faz os mártires, que faz, enfim, o canticum; é esse lumen. Argumentação que deve ser etc., etc., eu tenho usado dela tão largamente; por que não posso cantar o lumen? Porque esse mundo não ouve.
(Sr. Guerreiro: Não seria pôr um pouco do perfume desse “lumen”, por cima dessa fuligem, para ver se afasta um pouco isto?)
Isto eu acho que é ultra-necessário, mas não será possível fazer ─ por exemplo, isto não seria possível fazer sem essa conversa ─ se vocês tomam o trabalho de ler um capítulo que há na “RAQC”, mas é parte de um capítulo, é uma questão que descreve a antiga fazenda, que a Reforma Agrária quer destruir. Aquele capítulo eu soube que foi elogiado até entre bucheiros!
Naturalmente queriam saber qual era o autor, no sentido de que não poderia ter sido eu. Então quem sabe se um bispo escreveu, ou pediram para outrem escrever etc., etc.
* Esperança do Senhor Doutor Plinio de que voltem as graças da “Imaculada Conceição”
É exatamente isso que eu julgava que se desprendia muito naquele menino, diminuiu muito de alcance, de expressão ─ diminuiu muito [não] ─ diminuiu um tanto de expressão, mas um tanto precioso, de alcance de expressão, naquele episódio da Rua Imaculada Conceição, mas com algo para voltar. E tenho esperança de que esteja começando a voltar, para todos nós, mais do que nas reuniÊos anteriores, nisto aqui que dará a vocês a oportunidade de fazer, tomar um sentido seletivo das reuniões anteriores, que não é o mero estudo mas é o estudo indispensável e teórico etc., mas completado por essa visão.
(Sr. Guerreiro: Procurar essa luz, é o critério seletivo.)
É o critério seletivo. E aliás eu vou dizer mais, hein: é o atrativo da luz intelectual, porque não se tem ─ do estudo, do esforço intelectual ─ porque não se tem falado desse lumen, então em conseqüência o élan para o estudo falta.
Não sei se conhecem uma poesia, eu já tenho falado dessa poesia, em francês ela é linda, não me lembro bem quem é o autor dela, Verllaine, é um desses “fassures”; o negócio do albatroz que caiu ─ parece que é uma ave marítima, enorme, que voa magnificamente ─ o albatroz caiu no navio, então não podendo voar andava a pé, e os marinheiros dando risada, chuchando do albatroz e atormentando o albatroz, porque ele estava andando a pé, e ainda mais mancando, então rindo do albatroz; e o Verllaine, ou seja lá quem for, fez uma poesia sobre a grandeza do albatroz, e a vulgaridade dos marujos todos.
(…)
Para nós, nós queremos o céu de albatrozes.
(Sr. Paulo Henrique: Na École Saint Benoit, pedi a um dos alunos lá que lesse essa poesia e comentasse um pouco. O primeiro comentário que o rapaz fez foi: O albatroz é o membro da TFP, etc., o ideal, etc.)
Meu filho, porque esse espírito é esmagado por toda parte onde começa; a matança dos albatrozes na época de hoje, mas é uma coisa do outro mundo…
(…)
…altamente simbólico porque a TFP como que convida tudo o que é análogo ao albatroz a tomar vida, o “albatrozismo”, a se levantar, desprender-se; este é nosso ambiente.
Isto é um elemento novo, acrescentado agora à noite, é uma explicitação sobre o canticum novum.
(Sr. G. Larraín: Que vinha a graça de antes.)
De longe, de longe, de longe. Facilitada pelo salão da casa de mamãe, etc., etc.
(Sr. G. Larraín: De onde a instituição será muito mais brilhante, muito mais luminosa no futuro, do que ela mesma foi no passado; porque essa será iluminada pela luz que nasce da alma do senhor.)
Tal qual, é bem exatamente isto. Porque…
(…)
Pode-se dizer muita coisa ainda sobre a matéria “Profetismo”, mas das coisas essenciais, não estavam ditas todas se não fosse isto.
E acaba sendo que foi uma reunião da noite, muito maior do que a da tarde. Por mais que se tenha gostado da [realizada à] tarde, essa…
(Sr. G. Larraín: O senhor dizia que nós deveríamos levantar a tocha…)
(…)
* A luta das luminosidades é o verdadeiro cerne da Revolução e o diadema do Profetismo
…era o seguinte: eu quero ser antes eu do que ponto fulano, e por causa disso eu sinto um fator de preservação e de continuidade, para eu não perder a minha alma, acalentar-me com o fogo que vem dele, mas ao mesmo tempo participar daquilo que eu sou. Então, um misto de conservar uma situação terrena, e ao mesmo tempo salvar-se; e uma necessidade de agarrar para não desgarrar. Isto é uma coisa.
Agora, uma outra coisa diferente é a idéia de que isto é um meio para, por assim dizer, tomar as asas do albatroz por continuidade, de maneira que por amor ao “albatrozismo” etc., etc., acabar etc., etc., etc., tatatá.
(…)
Eu só vou responder muito pouco, porque é enorme e assim mesmo exige de minha parte também muita explicitação, por que sem certa reflexão, certas explicitações não surgem, ainda mais para temas que estavam tão no fundo da gaveta por falta de interlocução, que estão assim meio encarangados. Mas…
(…)
…eu diria da seguinte maneira: que o aspecto mais nobre, por algum lado ─ mas nobre da ordem criada por Deus ─ está neste imponderável setor das luminosidades, umas naturais, outras sobrenaturais, e outras preternaturais, que pedem um certo discernimento dos espíritos para a gente perceber bem, mas que por comunicação, em união etc., etc., podemos ter. Bem, pela qual o verdadeiro cerne da Revolução é a luta de luzes e trevas, de feiúras e belezas ─ não propriamente no sentido estético, mas no sentido dessas luminosidades ─ e que portanto não é o campo único, eu não diria sequer que é o campo principal sobre todos os aspectos, mas é um campo principal sobre muitos aspectos, mas é um campo nobre por excelência ─ esse das lutas das luminosidades ─ que é uma espécie de diadema do Profetismo. É assim.
* Incompreensão dos membros do Grupo para com a visão que o Senhor Doutor Plinio tem das luminosidades
(Sr. G. Larraín: O que o senhor no MNF chamava o “Blau”.)
É o Blau, exatamente, que não quer dizer o azul em alemão, é uma cor heráldica, uma designação heráldica para certas coisas.
Bem, e que faz com que é principalmente ─ é principalmente agindo nesse sentido que a alma… que o Profetismo ganha a sua luta, porque nenhuma batalha ─ nesse sentido ─ é inteiramente bem reussie se ela não vence aí.
Tratava-se de conversar sobre isto etc.
(Sr. –: Magnífico!)
Fazer disso, isso é um universo! E trata-se de penetrar nesse universo, um universo que está fechado, pisado, perseguido, ignorado, por exemplo, laicismo, eu tenho quase remorso de usar a palavra “laicismo”, numa conversa tão alta, é a ladra disso. De maneira que torna certas coisas impossíveis de se compreender, mas simplesmente impossíveis de se compreender.
Eu me lembro, por exemplo, o seguinte: vocês se lembram aquela espécie de abat-jour que tem na sala São Luís Grignion com um escudo medieval. Eu pus aquilo na sala ─ na Rua Pará ─ em cima da lareira. E um dia eu percebi uma conversa do Adolpho com o Paulo, em risotas, e a risota era porque eles achavam heraldicamente muito contestáveis aqueles escudos que estavam lá, como bom gosto.
Realmente aquilo representa a época da decadência da heráldica, mas de fato, eles então imaginavam que eu tinha mandado desenhar e executar como coisa ideal minha naquele escudo. E que tinha gasto uma fortuna naquilo para pôr ali uma coisa que significava uma grosseira ignorância do que é o verdadeiro sentido da heráldica.
Eu disse a eles: “Vocês estão profundamente enganados. Isto aqui foi comprado pelo Luizinho, num antiquário de Buenos Aires a conselho meu, é a parte central de uma rosácea que tinha sido inteiramente destruída ─ e autenticamente do século XV, ou XVI, não me lembro bem ─ e esta parte salvou-se, e foi vendida num antiquário. Foi comprada aí, mas autêntica, eu nunca pensei em desenhar isto, e se eu fosse desenhar de minha cabeça um escudo, eu não teria mandado desenhar isto nunca! Vocês estão completamente enganados. Eu mandei comprar por causa de um certo reflexo de luz azul, que existe num ─ creio que é na cauda de um daqueles pássaros de heráldica ─ e que a meu ver justifica o escudo, para quem entende”.
Baixou a onda do ridículo! Por quê? Porque isto faz parte daquele mundo, essa luz azul; poder conversar sobre ela, poder conversar sobre uma porção de coisas assim. Daí nasce um aspecto da TFP, que está engavetado. Mas onde estamos nós.
(Sr. Guerreiro: Nessa linha de coisas magníficas, não sei se o senhor lembra que comentou com Dr. Luizinho um quadro do século passado.)
Do batismo de D. Pedro Henrique, se não me engando, mas ainda antes da Primeira Guerra Mundial, no tempo da grandeza da nobreza européia. Tem a princesa Isabel, com muito senhorio.
(Sr. Guerreiro: Não é esse, é um colorido. Tinha uma luz da nobreza. Que fala muito desse mundo que desapareceu, foi lacrado.)
Foi, foi; são luzes que se apagaram.
(Sr. –: Quem sabe, pedir a Dr. Luizinho…)
Você me deixa um bilhetinho, com o Fernando, qualquer coisa, para eu falar, na 2ª feira, para me trazer 3ª feira. Valeria muito a pena, para se conversar sobre isto. Vamos analisar esse quadro, no próximo sábado. E fica-me a mim apenas a tristeza de que só no próximo sábado!
(Sr. G. Larraín: Pode ser amanhã.)
Pode. Teoricamente pode ser…
(…)
Implicitamente negando o lumen, porque é como se o lumen não existisse, como se os espíritos sérios não tratassem desse lumen.
(Sr. G. Larraín: Quando o senhor trata, trata com o “lumen”.)
Para mim é a partir do lumen. Você quer uma coisa a mais cheia de lumen do que as Cruzadas? Você vai reduzir a um problema moral: se, atacado o Santo Sepulcro, deve ir ou não deve ir?! Seco?! É justo, tem um aspecto assim, mas não afirme implicitamente que só tem isto!
(…)
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