Conversa de Sábado à Noite – 27/6/1987 – p. 9 de 9

Conversa de Sábado à Noite — 27/6/1987 — Sábado [VF 053] (Neimar Demétrio)

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(…)

Tratemos de outro assunto qualquer que quiserem.

Vamos tratar de um assuntozinho que dure quarenta minutos. Quem é que apresenta o assunto?

(Sr. –: …tendo em vista aquelas reuniões que o senhor fez sobre “A Graça do Ocaso”; da Avenida Tiradentes…)

Sim, me lembro bem. Depois disso quando eu tenho entrado na Avenida Tiradentes, me lembro sempre daquele conversa, são florilégios que ficou.

(Sr. –: …todas essas questões da dor e do sofrimento…Se o senhor pudesse comentar um pouco mais quais são estas diferenças das razões que nos ligam ao senhor, e que são diferentes das razões pelas quais o senhor está ligado a Nossa Senhora e a toda Causa. De um lado seria este ponto.

Depois, se o senhor pudesse comentar um pouco um ponto que nós conversamos, de que a Sra. Da. Lucilia tem um papel, que nos pareceria que este seria o grande papel dela nas nossas vidas, que é de nos introduzir neste mundo de cruz e do despojamento…quem sabe seria a grande graça que ela poderia alcançar…)

Vamos ao assunto diretamente.

Vamos tomar uma situação em concreto diante da dor física, porque a dor física é muito mais compreensível do que dor moral, muito mais fácil de exemplificar com ela do que com a dor moral. Agora, de outro lado, acontece que as situações se repetem por analogia entre a dor física e a dor moral, de maneira que é muito prático nós adotarmos este sistema.

Uma pessoa pode ter, por exemplo, um pequeno incômodo físico, vamos dizer, por exemplo, não sei, um pequeno reumatismo nesta junta aqui, entre isto e isto aqui, de maneira que quando se move em certas horas do dia, isto desagrada um pouco, é um pouco desagradável; no mais a pessoa vive. É uma dor perfeitamente suportável, e de tal maneira suportável, que ela não tisna, não diminui a felicidade de ninguém, um embaraço e está acabado.

Mas há um certo número de pessoas, com uma certa psicologia, por onde tendo uma coisinha destas, imediatamente fica muito incomodada. Naturalmente isto é mais freqüente em senhoras, mas eu tenho visto em homens também. Fica muito incomodado, e não é só preocupado porque este reumatismo pode se desenvolver, etc., etc., mas é porque tem aquele problema naquela junta.

Então, começa a consultar médicos, faz estação de águas, aquilo, aquilo outro, porque não suporta de ter aquele pequeno incômodo. Há psicologias assim.

Outras têm psicologias diferente: isso aborrece um pouquinho, mas eu posso fazer abstração disso, e é muito menos cacete agüentar isso do que estar indo a estação de água, e a médico, e a fazer exames, etc., etc., etc., eu agüento isso, eu toco o barco e está acabado. Esta pessoa revela uma certa força de alma.

A outra pessoa, que não agüenta isso, fica agitada, etc., etc., revela um certo grau, um grau extremo de debilidade da alma. A pessoa que agüenta bem isso revela um grau mínimo de força de alma.

Há certas outras dores que já não são assim. São dores que produzem um certo incômodo que não é pequeno, mas como é passageiro, ou é um incômodo que se faz sentir em poucas ocasiões concretas, a pessoa também toca o barco para frente. É um incômodo de alma maior do que uma coisa destas pode produzir.

Vamos dizer que seja uma enxaqueca, em que, portanto, todos os dias, de tantas a tantas horas costuma ter dor de cabeça. Precisa de deitar-se, pôr um pano com água de colônia aqui, um lenço com água de colônia e ficar meia hora repousando. Depois toca a vida para frente.

A situação se repete. Algumas pessoas não conseguem viver com aquilo, bá, bá, bá, bá. Pessoas pelo contrário… Do que você ri?

(Sr. –: Está interessantíssimo no meio de tudo isso o modo com que o senhor concebe a cura da enxaqueca… Coisa elevada, de categoria, de tal enquanto tal.)

É que eu vi parentes com enxaqueca, que diziam que isto atenuava, e isto me ficou assim nos refolhos da memória, eu não? Vou dizer bem como é: um primo com graves preocupações, porque ele tinha que pagar uma letra de câmbio no dia seguinte, senão era protestada, então estava com enxaqueca. Ele julgou que era muito bom para ele deitar-se num sofá, pegar um lenço, ensopar de água de colônia e pôr aqui.

Então eu deduzi daí que a não poder pagar a letra de câmbio, o remédio da enxaqueca era pôr água de colônia. Eu vejo bem que é muito primaria a concepção, mas enfim, foi o que eu vi, e me ficou isto na cabeça.

Mas, enfim, seja como for, a pessoa põe uma coisa destas, tem todo o dia aquela enxaqueca, mas continua a viver. Vamos dizer que vá a médico, porque a coisa já é mais seria um pouco, mas continua a viver. Nem perde o élan da vida, nem nada, tem todo o élan da vida. Na hora de começar a enxaqueca ele diz: “olha, está me batendo a enxaqueca, me dão licença, eu vou ficar um pouco no quarto ao lado…” Está acabado.

Agora, há um terceiro grau que é um sofrimento que é desagradável, é penoso, mas a pessoa agüenta o sofrimento de qualquer jeito e vive com ânimo, de maneira que ela precisa ter uma força dura na alma, ela precisa ser resistente, mas ela encontra sobras para ser animada, para fazer coisas, para se mover, para, enfim, para tocar a vida. E no total, por causa da força dela, senão não seria isso, ela encontra um saldo na vida. É uma pessoa equilibrada e que agüenta a vida.

Este saldo é um saldo menor do que de muitas outras pessoas, mas dá saldo. E como dá saldo, ela toca a vida.

Bem, esta pessoa mostra uma força de alma um tanto superior à media, mas ela tem uma vida suportável, não lhe foi criada uma vida insuportável.

Há outras pessoas, para as quais, se fica criada uma vida insuportável, mas por altas razões sobrenaturais, a pessoa escora isso. Diz: “eu queria sofrer isto, acho, portanto, bom que eu esteja sofrendo, e, portanto, axiologicamente a minha vida está dando certo, e porque está dando certo, porque ela realiza o que eu queria, eu faço o que eu estava querendo. Está acabado. Eu tenho ânimo para viver.”

São graus sucessivos.

Você tem aquela Madre de Jesus, à mão, sem se cansar?

Não, não é a Mariana de Jesus, não. É aquela freira que o Luisinho me deu a tarde o envelope.

(Sr. Fernando Antúnes: Não, não tenho.)

Sim você pegou!

(Sr. Fernando Antúnes: Ah! Sim, sim, sim.)

Então.

É uma freira cuja fisionomia vale a pena analisar. É a freira de mais personalidade que eu vi em minha vida.

É uma freira mercedária, que conheceu a Madre Maravilhas, e conheceu a Madre Dolores, num hospital para freiras que há em Madrid. Esta aí tem uma doença horrorosa qualquer, é uma pessoa até da nobreza espanhola…

(Sr. João Clá: Um reumatismo tremendo.)

Tremendo. Mas ela é grande entusiasta da TFP. Grande entusiasta. Oferece as dores por nós, etc.

Bem, vale a pena ver a cara, porque realiza a cara de uma pessoa que tem esta força de alma.

(Sr. –: Ela demora tempos e tempos para colocar o hábito e para tirar o hábito. Ela faz questão de fazer em reparação por todo o modernismo que entrou nas ordens religiosas.)

É uma beleza isso.

Vale a pena verem a fotografia dela, para ver o que é esta superior força de alma.

Não sei se querem chegar aqui, como é que querem fazer? É a de cá. Esta [é] superior dessa. Essa aqui não vale nada, mas esta aqui é extraordinária. Vejam um pouco.

Esta é ela sozinha. É uma coisa colossal, é uma força de alma impetuosa, torrencial.

(Sr. –: E ela conheceu a TFP como?)

Pela Madre Paños, ela conheceu, etc., e se fizeram… A capacidade de sofrer não é pequena desta freira. É grande.

(Sr. –: Deve ter sessenta anos?)

Ah! Daí para fora um pouco, 67. Eu não calculo bem estas idades.

(Sr. –: Ela tem mais força de alma da que a capacidade de sofrer?)

Não, ela tem uma força de alma que eu aqui identifico com capacidade de sofrer — sempre resume do mesmo modo —, mas que é tal que supera o sofrimento dela e, da riqueza da alma dela, sobra um saldo. [Deva?] da orientação à vida.

Eu acho esta, aqui para nossa reunião, para o tema que vocês levantaram, eu acho incomparável, esta fotografia.

(Sr. –: Ela serve de exemplo “minor” daquilo que a gente tem aqui.)

É, exatamente o pedido dele foi a respeito de mamãe, daqui a pouco eu falo a respeito de mamãe.

A fotografia ideal para comparar com aquela freira, seria aquela fotografia [com?] [de] mamãe com quarenta ou cinqüenta anos. Lembram-se qual é? Eu acho que todos conhecem, mas enfim.

Agora, em nenhum desses graus a vida é insuportável. Depende é da força com que o indivíduo a carrega, e a questão é querer ter esta força.

O problema da força põe-se exatamente aí, é que o demônio cria uma dupla ilusão previamente ao problema desta força.

Ele dá primeiro a idéia de que qualquer dorzinha é insuportável, é uma coisa muito rejeitável, e que constitui uma desgraça, de maneira que o indivíduo tem que agüentar esta dor, ele não suporta.

Bem, isto há em graus maiores, há em graus exacerbados do reumatismozinho. Mas em outros graus, a pessoa tem em face do sofrimento moral atitudes exatamente iguais a esta que eu falei do sofrimento físico.

Às vezes físico e moral se conjugam. Tanto mais que o físico da dor moral. Se eu tiver por exemplo, uma dor lancinante na palma da mão, que eu não consiga viver minha vida por causa desta dor, vem-se uma dor moral: “Como é que eu vou passar a minha vida inteira levando esta dor?” Quer dizer, às vezes uma coisa cria a outra, não é?

Mas a verdade é a seguinte, que a dor tem que ser considerada assim: Se ela é vivida com moleza, ela é de fato insuportável, porque a alma produz um superávit que é maior do que a dor, e que faz com que a pessoa agüente a dor. Então dá em tudo, pode até dar em suicídio.

A escola por onde se chega ao suicídio é esta. Vai, vai, vai, ta, ta, pum! Está acabado.

Mas, pode também a coisa ser de outra maneira. A alma diz: “bem, eu vou sofrer isto, mas eu sofrendo como devo, pelas razões pelas quais devo, mas estas razões me tornam suportável o sofrimento, e portanto, no vórtice da dor eu ainda tenho a suportabilidade comigo, não chore nem gema, porque no fundo a minha vida é vivível.”

(Sr. –: O que sustenta isto são as razões?)

É . Aqui eu acho, eu acho bonito comparar as duas, e a gente ver a melhor. Daqui a pouco eu falo dela.

(Sr. –: Eu não entendi. O que sustenta são as razões?)

As razões pelas quais a gente sofre, sustentam a dor.

(Sr. –: Está perfeito.)

(Sr. –: O senhor leva a dor como um galardão e não como uma vergonha, para mim me parece que sofrer é uma vergonha, e que um homem verdadeiro não sofre e a dor não abate sobre ele. O senhor quebrou isto.)

Tive a intenção de quebrar.

Tive a intenção de quebrar. Quer dizer, num universo assim, onde a tendência holliwoodiano é manifesta, eu tive a intenção de ser o gótico e não o hollywoodiano, contra o hollywoodiano, e dizer o seguinte: “Vocês estão enganados a respeito da dor, a dor é uma imensa ogiva, magnificamente envidraçada na alma de um homem, e quem tem uma enorme dor na vida, é como aquele que tem uma enorme ogiva na sua casa.”

Ninguém vai dizer: “Eu tenho na minha casa um rombo, em forma de unha, que eu tapo com um vidro à guisa de melhor.”

É o contrário, eu tenho um vitral numa ogiva na minha casa.

A dor suportada assim tem uma dignidade, tem uma elevação, eu sinto que aumenta a minha alma de tal maneira, que eu posso olhar quem não sofreu, não digo com desdém, mas digo com superioridade.

(Sr. –: O senhor transfunde isto.)

Mas eu tenho obrigação. Está na minha vocação de fazer isto…

(…)

humilhação, e o modo de entender a humilhação. Que as põe em contra ofensiva. Participa do ego sum da Paixão…

(…)

Este é o modo contra-revolucionário de conduzir a Santa Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Alguém poderá ter um sobressalto:

Não, o senhor conduziu de um modo tão diferente. Ele conduziu humilhado, Ele conduziu escangalhado, Ele conduziu sem réplica a ninguém.

Eu digo:

Quem lhe disse isso meu pobre filho? Olhe o Santo Sudário, e veja se é isto que você encontra lá.

Não, isto é depois de morto.

Quem é que lhe disse que é depois de morto? Aquela expressão que Ele conservou depois de morto é a que Ele tinha em vida!

Eu compreendo que a iconografia não apresente isto, realça a humildade e outras coisas. Você compreende perfeitamente. Não estou fazendo uma censura à iconografia, mas estou fazendo uma censura a uma interpretação “bonachona” da iconografia.

Mas donde decorre que esta é a obrigação , mas vejam bem hein!, minha vida é duríssima, mas é uma vida perfeitamente suportável, senão eu não teria chegado à idade que eu estou, ainda mais carregando esta diabete. Ia para a sepultura direto.

(Sr. –: Suportado pela força de alma.)…

(…)

que Nossa Senhora me dá porque eu pedi a Ela e está acabado, mas também pela fidelidade a uma concepção contra-revolucionaria do sofrimento, e que não é só o sofrimento, mas é o sofrimento em luta.

Quer dizer, são dois sofrimentos. Um é de apanhar, e o outro é de retribuir a pancadaria, que eu sei que eu faço.

Agora passaram um áudio visual em que eu aparecia na fazenda. Não sei falando com quem, não sei o quê. Se eu visse esse homem, eu diria que é um homem carregado de dor, mas que agüenta a luta.

(Sr. –: Isto irradia na personalidade do senhor.)

Eu fico encantado de ouvir, porque é o que eu quereria irradiar.

(Sr. –: …então a gente encontra no senhor, uma cruz com os vernizes do Ancien Régime.)

É isto. Mas os vernizes delabré e esplêndidos do Ancien Régime.

(Sr. –: Delabré por quê?

Porque há os vernizes do Ancien Régime, mas falta muito do que é o verniz do Ancien Régime. Eu precisaria ter dinheiro, eu precisaria ter isto, aquilo, aquilo outro, a fama de rico para me impor. Não tem.

(Sr. –: Isto não aparece: O senhor estar em cadeira de rodas, não ser um milionário, etc., isto não se põe.)

Isto eu sinto muito. Por exemplo, cadeira de rodas: Isto para todo mundo é uma capitis diminutio. Eu vejo o pobre Bruno, eu me lembro que…

(…)

(Sr. –: Exatamente, com vergonha de não sofrerem.)

Graça a Nossa Senhora é verdade. E sempre sofrendo de tudo hein! As coisas mais inimagináveis, a pessoa tem que sofrer, porque vocês conhecem uma parte do sofrimento, não conhecem o sofrimento inteiro, mas o que dá é enorme, enorme.

Mas vamos para a frente. O que é isto?

Eu me lembro de algum tempo depois de eu estar usando cadeira de rodas, eu desci na Sede do Reino de Maria, estava D. Mayer me esperando a pé, com aquele chinelinho, aquele aparato todo que vocês conhecem. Eu desci e veio a cadeira de rodas. Ele me olhando assim com os braços cruzados e disse: “Cadeira de rodas hein! Cadeira de rodas, uma forma de sede gestatória hein!”. Mas assim como quem diz: você usa cadeira de rodas, porque é para se aumentar. Eu não creio na autenticidade da sua honestidade de usar cadeira de rodas.

Eu pensei: Ele não sabe que elogio que ele me faz, porque a haver uma pessoa numa situação em que usar cadeira de rodas realce! É uma coisa de cair de costas.

É muita baixa de nível descer até o Fedeli, mas o Fedeli andou sustentando que eu não tinha fratura na bacia. Que eu mentia que tinha esta fratura para eu poder andar de cadeira de rodas, beneficiando-me do prestígio que isto trás.

Vá falar com qualquer pessoa: “Você vai usar cadeira de rodas.” Ele perde o ânimo de viver.

Se eu não dissesse isso, ninguém se dava conta do que eu estou dizendo, ou quase ninguém. Por quê? Pouco importa, isto é assim. Não tem conversa, isto é assim.

Eu levanto outro aspecto da questão. É o seguinte: Como é a alma do indivíduo que foge da dor?

É a alma mais dolorida pode haver. Por quê? Porque esta alma fica como uma pessoa — é como ela fica no fim — que tem uma queimadura grave, e que naquele ponto não pode passar uma plumazinha em cima, e que estremece inteira.

A alma da pessoa é assim, e se ela vai fazer um passeio e, por exemplo, vai meter-se no automóvel junto, uma pessoa de quem ela não gosta, já ela considera aquela tarde como uma tarde perdida, um dia horroroso, fica estragado o dia inteiro, fica aborrecido, etc., etc., por causa de uma coisinha ligeira, que é agüentar uma pessoa com quem ela tem antipatia.

Seja amável com a pessoa que é antipática, imponha a ela de ser amável também, sob pena de ficar desavergonhada, e vamos cuidar a vida para frente e várias coisas, e você viverá.

Não, é uma coisa miserável, é uma coisa de dar pena.

Isto tem duas etapas: Uma etapa em que a pessoa vai afundando assim e suportando cada vez mais. Gerar a força para suportar é propriamente a dor, a crucifixão. Gerar esta força é a dor.

Há uma etapa em que a pessoa já deu toda a dor. Então aqui vocês têm duas etapas.

(Sr. –: As duas etapas, o senhor diz?)

Aqui é uma e ali é outra.

Aqui a pessoa está gerando a força para agüentar. Está gerando largamente, robustamente, generosamente, mas está gerando.

(Sr. Nelson Fragelli: Quarenta e cinco, cinqüenta anos?)

(Sr. João Clá: Cinqüenta.)

Eu calculo mais ou menos isso.

Então vocês notam que é uma pessoa doente, triste, mas com robustez, e uma leistung de primeira ordem. Mas ao mesmo tempo uma doçura…

(Sr. –: Católica.)

Católica.

uma doçura que eu não hesitaria em chamar, monumental. Quer dizer, eu não me revolto, não me revolto nem contra quem me causa a dor, mas pelo contrário, eu desejo bem aquele que me causa a dor.

Mas vocês dirão: “Mas como é diferente do senhor, que sai de dentro de sua cadeira de rodas e sai de lança-chama em cima…”.

Eu combato os inimigos da Igreja, e não os meus pessoais. Nunca ninguém me viu, por razão pessoal, queixar-me de ninguém nem brigar com ninguém por razão pessoal. Nunca houve isto.

Por causa da Igreja, sim. Eu não tolero. Não venha porque eu não permito, não venha por cima da Civilização Cristã que eu não permito.

É uma outra vocação realizar-se em condições diferentes. E o que em mim deve ser combatividade, nela é doçura.

(Sr. –: Esta combatividade do senhor dá também numa arquidoçura.)

Agora, para aqueles com quem eu devo ser doce, eu sou como muito poucos homens o são. Isto eu posso dizer. Quer dizer, eu dou de sobra de doçura, de suavidade, de amparo, mas de sobra, de perdão. Eu tenho consciência disso e não tem o que dizer.

Ali, foi tudo assumido. A vida foi assim, mas eu compreendo que tenha sido assim, eu quero que tenha sido assim, e a minha leistung está feita. Eu vou agüentar mais algo, que é agüentar a dor até o fim, mas eu já sei que o Céu se vê do lado de lá.

É o que está aqui.

Eu acho que o — vamos dizer isto de contraste, eu não chamaria, mas o contraste entre uma foto e outra, são mais que ilustrativos.

Eu já disse que embaixo desse quadrinho se poderia escrever, não: Ite missa est, mas ite vita est. “A vida acabou, tudo quanto havia de sofrer está sofrido; mas eu sofri na minha constância, na minha firmeza e na minha doçura; e continuo a todo momento afirmar: eu fiz o que deveria ter feito.

(Sr. –: E com certo gáudio.)

Com certo gáudio.

(Sr. –: Elegância.)

Elegância.

A tal sobra, não é?

O Pedriali escreveu no livro dele, que ele viu o quadro, diz que de uma bonita senhora. É uma cara devastada pela velhice, um olho caído… mas não se nota estas coisas. Ninguém vai fazer um exame de saúde e beleza aqui. Não vem a propósito.

Eu acho que neste sentido é uma bonita senhora. Nobre, uma nobre senhora.

Diria: Dona Gabriela é muito mais bonita.

Não vem a propósito. É, mas é outra coisa.

Aí estaria a explicação. Não sei, meu filho, se a explicação explica?

Agora, resta o seguinte. Vá ensinar a uma pessoa de queimadura de terceiro grau a começar a bater com a mão aqui, etc. Há, quand même, un frisson, e este frisson precisa sumir.

Agora, para agüentar este frisson precisa ter uma graça, e a graça de tomar a cruz aos ombros, ou se quiserem, mais exatamente, a graça de se deixar crucificar, é uma graça maior talvez do que o de morrer na cruz.

A transição do não sofrimento, para o sofrimento, é uma como que morte. Toda transição é assim, uma como que morte. Depois a gente se adapta, que vai vivendo.

Eu me exprimi bem? Fui claro, não fui?

[Vira a fita]

Nós somos chamados a ser a Contra-Revolução. Cada um de nós deve ser a Contra-Revolução, uma personificação da Contra-Revolução onde está, [é] nossa obrigação.

Dentro disso, a nossa situação de derrotados se reverdece, e aí se compreende toda nossa linha.

Agora, se nós não queremos aceitar a condição de sermos contra-revolucionários, se nós não queremos aceitar o revide, impor o revide contra-revolucionário é inevitável que todo o resto fique cambaio.

Nós ficamos numa posição vergonhosa, vexatória, humilhante, a gente tem vontade [de] sair de dentro. É inevitável. É inevitável. Mas é porque nós não assumimos a situação inteira.

Seria mais ou menos como um sujeito que quer jogar uma partida de xadrez, mas aprendeu o funcionamento de todas as peças, mas teve preguiça de aprender o funcionamento um pouco mais complexo do cavalo. Então se põe a jogar uma partida de xadrez, mas não joga aquela peça. Resultado: perde a partida de xadrez, nem vale a pena falar.

Assim, a posição do Contra-Revolucionário é mais complicada do que as outras posições, mas, ou aprende essa posição, ou o jogo de xadrez em que a Providência nos pôs é injogável.

(Sr. –: Foi isto que o senhor deixou claro: As razões pelas quais eu me entreguei à Causa difere das que vocês se entregaram à Causa.)

Não, difere no seguinte sentido. Não é bem assim.

É que as razões que vocês têm, no fundo são as mesmas que as minhas, mas vocês não ousaram dar aos próprios olhos todo o despliegue da Causa, e porque não deram o despliegue ficam inexplicáveis aos outros e inexplicáveis para si mesmos…

(…)

uma rosa de Jericó, uma coisa assim, única, eu não conheço coisa igual como a doçura dela. E completa.

Eu creio que muitos que vão à sepultura, estão lá para descansar do navio de guerra, está compreendendo? E ela descansa, dá mais força para viajar no navio de guerra. Uma tarefa complementar.

Bom meus caros, deixa-me despedir.

* * * * *