Conversa da Noite (SUB GRAVE) ─ 20/6/87 ─ Sábado . 8 de 8

Conversa de Sábado à Noite (SUB GRAVE) ─ 20/6/87 ─ Sábado



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Com a vinda do “Grand-Retour” os fenômenos da mística ordinária se darão com muito mais freqüência do que hoje em dia * A reflexão que o Sr. Dr. Plinio fez sobre a Senhora Dona Lucilia quando recebeu os “cotillons” em Paris * Considerações metafísicas sobre o jorro de água que expelia o navio; e discrepâncias contra o espírito revolucionário de alguns conhecidos * Depois da viagem à Europa, um valo de isolamento distanciou o Sr. Dr. Plinio dos “amigos” que não queriam viver na mesma clave que ele * Por causa de seus altos pensamentos, o Sr. Dr. Plinio encontrava-se num isolamento cujo lenitivo era a presença da Senhora Dona Lucilia * A inocência ia se diferenciando do “Thau” como o dia se diferencia da aurora * Além dos dotes naturais há um reluzimento carismático que dá ao Sr. Dr. Plinio a faculdade de ser “o panache da Contra-Revolução”

* Com a vinda do “Grand-Retour” os fenômenos da mística ordinária se darão com muito mais freqüência do que hoje em dia

Então e o Gonzalo? Me pareceu vê-lo na capela. Vai ver que está em êxtase, assistindo a reunião lá de baixo. É possível… Quem sabe se virá um dia em que isto será assim, hein? Vários de nós estamos em êxtase, hein? Todos. Imaginem a Comissão assim; pon! Pon! Pon! Vai subindo. A reunião termina no teto, hein? Depois do Grand-Retour quem sabe?

(Sr. J. Clá: O caso de Santa Teresa e São João da Cruz ─ os dois estavam em êxtase quando uma freira olhou por um buraco ou através da fechadura, não sei bem, ou viu através da porta entreaberta e depois comentou com Santa Teresa o que tinha acontecido, estavam os dois no alto. Santa Teresa comentou: “Frei João da Cruz é terrível pois não só entra em êxtase mas obriga os dirigidos espirituais dele a entrarem em êxtase também!)

Eu não posso me esquecer daquele santo… lá da Colombia ─ do Peru ─ com o cortejo de todos dominicanos? S. Martinho de Porres. Estamos tão longe disso que é melhor nem pensar, ouviu?

(Sr. Guerreiro: Dá impressão que estes êxtases não estão muito em nossas vias não é Senhor Doutor Plinio?)

Na atual etapa é fora de dúvida, mas globalmente falando eu não sei. É possível, mas eu não sei.

(Sr. Guerreiro: Certos assuntos que o senhor explicita na linha das arquetipias, e na linha dos possíveis e das criaturas “ab aeterno”, quando a alma da gente pode acompanhar estes assuntos próprios à nossa via, eu acho que se me propusessem: “de vez em quando você terá um êxtase, mas só uma vez por ano poderá atingir esse ponto”. Eu direi: “nada feito”!

Eu tenho a impressão que com o Grand-Retour deve dar-se algo na linha da mística ordinária e haverá coisas muito mais freqüentes do que atualmente. Nas últimas reuniões do MNF ─ é o meu intelecto que trabalha ─ mas percebo que em vocês há uma pontinha de sobrenatural e que isso é reflexo do que passava em mim. A própria Reunião de Recortes de hoje, a super clareza que é como um vitral que se vai polindo até que em certos pontos ele passa a se confundir com a luz. A mística corrente é uma “experiência” do sobrenatural.

Quando falei de São Pio X e Francisco José na Reunião de Recortes eu falei com muito respeito por eles. Eu acho que o auditório percebeu isto em minha alma e isto era uma graça para o auditório. Isto foi uma graça sensível. Quando eu falei comparando São Pio X com o Anjo da Porta do Paraíso, quando eu li isto num jornalista francês, isto não se apagou de minha memória. Quando me recordei hoje de São Pio X ele se configurou para mim com um brilho especial e que toca no místico.

(Sr. Guerreiro: Nas recordações dos aspectos da inocência da qual o senhor nos tem falado inúmeras vezes, o “Thau” se confundia com as recordações que o senhor tinha de si próprio. O senhor de menino se sentia muito luminoso. O senhor olhando para aquele vaso de alabastro, o senhor percebia que a fé para a qual o senhor era chamado a praticar não era uma fé comum, mas uma fé toda especial. Na ocasião, o senhor comentava aquela cena dos corcundinhas que entravam para rezar no Sagrado Coração de Jesus, piedosos, direito, mas o senhor se perguntava, por todo ambiente, pelo vaso de alabastro o qual o senhor era muito sensível a casa da Dª Gabriela, isto tudo povoava o espírito do senhor com uma série de apetências e de encantos que era distintos dos encantos que os corcundinhas tinham, que representava a fé boa, do homem comum. Depois de lembrarmos isso, comentávamos entre nós que uma pessoa que tem este “Thau” ela precisava ter um senso de honra apurado, tão alto, e tão categórico que era portanto uma noção da excelência de si próprio pela presença que esse “Thau” na alma dá. Aí lembramos o fato do irmão de Dom Bertrand, ainda menino: “Cabelo de príncipe não se suja”. Se um príncipe nas condições dele tinha isto, nós nos perguntávamos se a presença deste “Thau” ─ que no fundo é uma virtude especialíssima de Nossa Senhora ─ o que isso não proporciona na alma de uma pessoa? Pedimos então que o senhor fixe as recordações do senhor neste ponto e descreva um pouco mais toda o encanto e todo brilho que isto proporcionava ao senhor porque é isso que nos distingue dentro da Igreja, por hoje e por todos séculos vindouros. Quanto mais conhecermos este lado, para incorporar este “Thau” a alma seria melhor, pois seria magnífico assimilar isso.

O senhor poderia então explicar todo este assunto do “Thau”, da virtude do “Thau”. O senhor falou há pouco da mística ordinária, e sentimos que toda nossa mística tem como sorgente este “Thau”…

* Nos primeiros momentos da inocência, a sensibilidade para com a Senhora Dona Lucilia e para com tudo aquilo que era afim com ela

Eu tinha nestes primeiros tempos de inocência, e isso é referido na Oração da Restauração; evidentemente é uma oração que eu fiz para outros rezarem mas que exprimia a minha própria alma; como eu me sinto em face de minha inocência. É bem aquela oração. Esta oração, ela mesma, para dizer a coisa de um certo modo, eu diria que emite uma luz prateada, por assim dizer, para minha sensibilidade. Não é propriamente dourada que seria uma tal excelência do branco que se transforma em prata. Que no seu mais luminoso se transforma em prata. Atinge, vai se intensificando a ponto de ser prateada. É essa a impressão ─ toda ela subjetiva ─ mas é a impressão que me dá é essa coisa assim.

Se eu tomo as graças primeiras que eu me lembro de ter tido ─ então é menino de dois, três anos por aí ─ a impressão primeira é uma profunda sensibilidade à mamãe. E uma sensibilidade que se estendia da pessoa dela a tudo que fosse mais ou menos do gênero. Muito sensível à compaixão que eu sentia que ela tinha de mim por ser pequenino, por ser fraco, por ser na minha primeira infância muito doentio ─ depois à força de tratamento isso mudou, graças a Deus ─ mas eu era muito doentio etc., eu percebia a pena dela e a pena amorosa, cheia de respeito e pena comum, sorriso bondoso, afetuoso e uma espécie de torrente de afeto que se representava quase fisicamente como uma caudal assim de uma luz meio adoçada que penetrava em mim procedente dela. Mas que era uma espécie de regra de três. E que me tornava muito sensível a toda espécie de compaixão para com outro que sofresse.

Era reflexo, o que ela tinha por mim eu tinha para os outros, o sofrimento dos outros etc., . Isso me sensibilizava profundamente. Prestava atenção, tinha muita pena etc. Ma eram disposições que não eram a compaixão comum. Eu tinha muita facilidade em ver metafisicamente como era aquilo. E então, aplicar ao caso concreto. Do caso concreto passar para o metafísico, a compaixão em si mesma, a misericórdia em si mesma, mas já vista no seu mais alto aspecto como é que é, e vibrava com aquilo profundamente. Daí também muita afetividade.

Eu era muito propenso a tratar todo mundo com afeto, com cortesia, com respeito, [muito propenso] a pensar que me tratariam desta mansidão também e isto tinha para mim um gáudio prateado ─ para me exprimir desta maneira ─ um gáudio prateado que fazia uma luz de minha infância.

* Versailles atraiu e agradou o Sr. Dr. Plinio porque continha um valor moral incrustado num valor social

Também eu sentia uma espécie de carícia das coisas que eram assim, coisas bonitas, mas de uma beleza delicada, elevada, de uma beleza que atraia para um ambiente maior, para uma coisa mais elevada com um valor moral. Não é social, mas com valor moral me atraía enormemente.

Mas nas encostas disso também o valor social. Na medida que eu percebia que o valor social maior exigia um certo valor moral sem o qual aquilo era uma frustração e uma vergonha. Mas exigia um valor moral alcandorado, maior. E então um respeito por este valor moral contido dentro disto.

E vocês têm bem uma idéia disso na receptividade minha por Versailles. Tinha de três para quatro anos fui levado para Versailles e houve as cenas que vocês conhecem de lá. Depois a carruagem e eu me agarrar na carruagem, mas é mais uma vez porque aquilo tudo representava um valor moral conexo com o valor social. Eu me lembro que no lado de fora da porta da carruagem tinha uma cena qualquer, dessas cenas francesas muitos doces, uma paisagensinha, um pastor, uma pastora que eu estava longe de perceber que é que o pastor estava fazendo com a pastora. Eu julgava que era como eu com minhas primas, a coisa mais inocente possível.

Mas assim com aquelas cores, umas auroras, uns rios muito delicados uns para os outros, tão delicados na atitude de tudo e a natureza tão delicada com eles e aquilo num verniz martin tomando um aspecto tal que minha alma se encantava com aquilo, mas por causa de uma noção de delicadeza de alma e da delicadeza de todas as coisas que me encantava e me fascinava como ambiente próprio de minha alma. A pátria própria de minha alma. Também as sedas interiores do coche, eu pensava: “Quantas doçuras tem nisto! Quanto Jesus Cristo está nisto!”

Bem. Mas coisas da Igreja, da religião, da imagem do Coração de Jesus em casa eu via nesta linha. E creio que misturados em doses que eu não sei bem qual, com fenômenos de mística ordinária, não sei bem qual, mas tinha alguma coisa que era uma ajuda da graça para ver o metafísico. E outra coisa era, visto o metafísico e vista a coisa no arquétipo, qualquer coisa de uma pontinha sobrenatural, de uma consolação sensível misturado dentro disso. Isto era o conjunto da coisa.

* A reflexão que o Sr. Dr. Plinio fez sobre a Senhora Dona Lucilia quando recebeu os “cotillons” em Paris

Eu me lembro, por exemplo, que mamãe, minha avó e meu pai e outras pessoas da família foram a uma espécie de réveillon em Paris por ocasião do Ano Bom. E mamãe veio trazendo cotillons. Cotillons eram uns objetos que distribuíam para se segurar nas mãos para as senhoras enquanto dançavam. Ela não dançou, mas veio trazendo. Chegando em casa ela amarrou uns cotillons destes no pé de minha cama e no pé da cama de minha irmã. E quando eu acordei de manhã, aliás eu acordei de madrugada e entrevi assim e pensei: “Mais uma de mamãe”. E dormi. Neste “mais uma de mamãe” era mais uma efusão de afeto dela. E virei para o outro lado e dormi. Quando acordei vi o cotillon e percebi como estava amarrado etc., e como ela percebia bem ou ia ver naquele instante… nem me lembro mais como era o cotillon. Era um pau comprido que tinha uns enfeites pendurados ali e não sei o que eram.

Eu pensei: “eu já estou vendo. Ela veio cansada. Ela foi indisposta, veio mais indisposta ainda. Ela foi para fazer companhia ao meu pai. Foi indisposta e veio mais indisposta ainda e lá ela estava pensando em mim no meio da festa e na minha irmã e quando chegou aqui, tarde, cansada, com dificuldade de pisar. Ela tinha uma coisa qualquer em conseqüência da operação, eu suponho, que ela passou muito tempo com dificuldade de andar, porque pisava e doía e apesar disso, em pé aqui, amarrando, e eu estou vendo ela sorrir para mim que dormia e se regalando com minha surpresa”.

Também o quarto dela ficava ao lado do meu e eu me levantei e fui diretamente para o quarto dela, de pijamas e tudo e brinquei com ela, a acordei sem nenhuma consciência, brinquei com ela etc., e era como vocês podem imaginar. Nisto tudo vocês percebem que há uma coisa, como uma espécie de balão cheio de gás que tende a subir, subir, subir, uma tendência a subir e ver as coisas nos aspectos mais altos continuamente e a todo propósito.

Eu me lembro de uma cena, muito confusa, mas mais ou menos assim.

* Considerações metafísicas sobre o jorro de água que expelia o navio; e discrepâncias contra o espírito revolucionário de alguns conhecidos

O navio que eu vinha era um navio italiano, Duca d’Aosta, e eu olhando assim, o navio parado, eu não sei onde, a impressão que eu tinha é que estava funcionando uma máquina qualquer para fazer sair água às torrentes de dentro do navio. Que águas seriam essas, se eu tinha razão ou não, a impressão que eu tinha isso. Eu via aquela água sair, uma coisa mecânica qualquer que fazia aquela água sair de lá e eu olhava aquela água assim e pensava:

Está vendo? A vida é assim. É uma água que está indo, indo e de repente acaba. Essa é a vida. Mas que bonito esse jorro, como é bom que acabe, como é bom que comece, como é bom que dure, como é bom que acabe”.

Não sei se percebem, mas há qualquer coisa de arquetipizante que vai além da cogitação de um menino de quatro ou cinco anos. E o tempo livre que eu tinha eu reservava para estas coisas assim. Eu não conversava com ninguém pois eu notava se eu começasse a conversar isso seria mal visto. Entrava um fenômeno de inveja e que era imprudente conversar sobre isto… (…)

Próprio à nossa vida, é próprio a minha vida e é próprio à TFP como entidade, o martírio da soledade. É a sensação da solidão, da coisa admirável, etc., etc., mas que é mal vista de todos os lados e que portanto tem que florescer, secar e mirrar e passarem os verões, os invernos, as primaveras e os outonos e assim se sucedendo uns aos outros e somando solidões a solidões na presença apenas de Deus.

Isso me vinha muito ao espírito. Bem, tudo isso mais ou menos eu já conversei com vocês. Com uma noção também confusa de que algo me queria mal e que essa algo se apresentava por formas de trato que me agrediam. Mas de pessoas que de fato não me queriam mal neste sentido que eu estou falando da palavra.

Dr. João Paulo. Nossa visita a Binz. A praia era cheia de cabines, cada cabine tinha uma área que a separava das outras, dentro daquela cabine papai brincava comigo levantando-me e colocando-me de cabeça para baixo.

Eu sentia naquilo uma falta de respeito. Sentia que ele queria quebrar em mim isso. Mamãe não ria. Na volta de Genova para o Brasil, mamãe viajava com o irmão dela, conosco, Rosée e eu e mulher e filhos deste irmão e nós ficávamos, não sei porque, em cima à espera dos que estivessem em baixo subissem, nós não descemos. Entra a pessoa da qual eu falei e vai diretamente para mim, oh, hahaha! Pensei comigo: “Já está este homem aqui. Mas por que ele está rindo? Não tem nada de engraçado. Ele chegou, acercou-se de mim, eu estava de capote, me puseram um capote, deu risadas e eu sério.

Depois suspendeu-me e colocou-me em cima de uma barrica que estava no tombadilho e disse: “Toca a sanfoninha”. Comecei a tocar para evitar amolações, mas pensando:

Do que ele está rindo? Eu não estou achando graça nele por que ele está achando graça em mim? Eu estou sério aqui e ele está rindo por quê?”

E depois me suspendia e me abaixava. Eu sentia qualquer coisa que mais tarde eu chamaria de espírito revolucionário. Então era um discernimento dessas coisas elevadas, mas um discernimento já muito fino no que se opunha a essas coisas elevadas. Vocês estão vendo por aí que já é um super começo, um [uranfan?] da Revolução e da Contra-Revolução que começava na minha plena inocência.

* Depois da viagem à Europa, um valo de isolamento distanciou o Sr. Dr. Plinio dos “amigos” que não queriam viver na mesma clave que ele

Mas depois disso tudo viemos para terra e outras pessoas da família. Naquele tempo, chegada da Europa ia a família inteira. Irmão de mamãe, filhos dos irmãos, vovó naturalmente, tios dela. Chegaram da Europa! Era uma coisa sensacional. Tomamos o trem e viemos para São Paulo e não me lembro mais o que aconteceu.

Mas em tudo isto havia qualquer coisa que era a inocência do católico que não pecou e da graça batismal mais uma contínua ação da graça para alargar os limites desta inocência fazendo ver coisas que depois iriam em cadeia até ver a Revolução e a Contra-Revolução. Isso tinha de sensível que mais ou menos tudo me levava a isto.

Mas que eu também sentia um valo que começava a se abrir entre os de minha idade e eu. Porque tudo comigo, apesar desta coisa sensível, o fato de não ser lógica ser sensível era muito conforme a lógica e eu era muito raciocinante. Raciocinante ao último ponto. E para mim, essas coisas que eu via, eram as premissas evidentes das coisas e daí eu tirava conseqüências e eu percebia que meus companheiros de idade não queriam saber disso, não queriam olhar, não queriam nada e que eles estavam numa outra clave e que eu teria que me relacionar com eles do joelho para baixo para conviver com eles.

Mas eu não tinha tentação para a megalice. Tentação de orgulho, graças a Nossa Senhora, eu não tinha. Pelo contrário, eu me sentia até um inferiorizado por isso, por ser diferente dos outros, por ficar meio à margem que era preciso um ato de humildade para eu ser fiel a tudo isso. Mas também já ia sentido o isolamento e a necessidade de ter toda uma vida interna porque eu sabia que era muito boa, muito conforme à religão, muito lógica mas que não era visível por ninguém.

Agora, eu raciocinava o seguinte: “Quem rejeita estas coisas pode dizer-se meu amigo mas eu não aceito esta amizade, ela não é válida, porque eu sou isso. E eles querem em mim um terceiro que não sou eu, o menino ajuizado, direito, educado, agradável mas em nada disto, como eu tenho que mostra para conviver com eles, eles de fato não gostam de mim e eu uso máscara para viver com eles. Não é máscara da hipocrisia, é máscara da diplomacia.

(Sr. Nelson Fragelli: O senhor não aceitava a amizade mesmo daqueles a quem o senhor tinha que mostrar que isso era assim?)

* Por causa de seus altos pensamentos, o Sr. Dr. Plinio encontrava-se num isolamento cujo lenitivo era a presença da Senhora Dona Lucilia

Eu via que se eu dissesse eles recusavam. Nem queriam conversar sobre isso. Eu dou um exemplo. Eu recebi de um tio, em certa ocasião, no Natal, uma caixa com um presente muito bonito vindo da Europa, era uma caixa vinda da França, intitulada La Ferme. Você abria a caixa, havia assim a tampa, a cena da fazenda ficava exposta ao ar comum. Depois abria uma outra tampa e a cena da fazenda era uma aldeiazinha encantadora, francesa, com trepadeirazinha pintadas com frutinhas vermelhas ─ que eu evidentemente ficava com vontade de comer, que a gastronomia, a partir do momento que mamãe adoeceu, com o fastio, a gastronomia despontou como um jequitibá.

Depois tinha a igrejinha, tinha isso, tinha aquilo, tudo quanto tem numa espécie de vilarejo dentro de uma fazenda, os camponeses, aqueles montes de feno muito característico etc., etc., o cachorrinho, a camponesa, um riachinho pintado no chão com um pontilhão… Mas você está vendo pelo que eu estou contando, até hoje eu sinto ainda a repercussão do encanto que me causavam estas coisas. Pelo meio, andando, de sobrecasaca ─ vocês sabem o que é sobrecasaca? É um jaquetão destes que chega até os joelhos ─ um homem muito teso, muito elegante com uma sobrecasaca preta, muito bem cortada, e uma cartola cinza que era o auge da elegância, com umas luvas na mão saudando alguém. Numa saudação perpétua, invariável e imóvel, mas saudando com tanta distinção com tanta afabilidade que ficava encantado com aquilo.

E pensava como era bom se eu conhecesse este homem e eu o saudasse do mesmo jeito e nós conversássemos. Nós trocaríamos uma conversa sobre coisas tão agradáveis, tão elevadas, tão doces… O nosso trato seria ─ no fundo o trato do verniz-martin da carruagem ─ transposta para um século depois. Bem, mas se eu quisesse conversar isso com meus companheiros eles cairiam na gargalhada. Como também se vocês conversassem com os seus ninguém toleraria, que uma criança viesse a fazer sociologia. Ainda menos psicossociologia. Não podia ser, mas como eu era isso, isolamento e tristeza. Aí então um isolamento profundo que só encontrava seu lenitivo em mamãe com quem eu não falava estas coisas porque eu não tinha certeza que ela compreendesse, mas que eu sei que ela sentia. Então é o apoio. Agora, eu já era um menino um pouco mais velho, 6, 7, 8 anos. Não era um menino de 4 ou 5 anos. Eu julgo atender a pergunta do Guerreiro descrevendo como é que foi formada a Contra-Revolução e a inocência foi encontrando continuidade no “Thau”.

(Sr. G. Larraín: Inocência no “Thau” ou “Thau” na inocência?)

* A inocência ia se diferenciando do “Thau” como o dia se diferencia da aurora

Não, a inocência foi anterior. Foi anterior até o uso da razão. É o batismo. O “Thau” era a inocência comum muito alcandorada, muito boa mas comum, que de encontro aos fatos foi discernindo a Revolução, foi se prolongando dentro do “Thau”. É uma coisa maior do que ela mas que não tinha solução [?] de continuidade. Ela era a inocência sendo ─ no seu próprio desenvolvimento, vocês tomam certos galhos de plantas etc., que no seu próprio desenvolvimento vão mudando de cor. Assim também, a inocência ia tomando colorido do “Thau” na medida em que ela ia sentido estas diferenças, o discernimento dos espíritos ia mostrando a coisa e uma luz interna ajudava a ver isto melhor. O que era esta luz?

Era a inocência acrescido de algo congênere com ela que prolongava.

(Sr. G. Larraín: Esse congênere era o “Thau”?)

Sim, era o “Thau”. O “Thau” aí se distingue da inocência. Mas continua a inocência no sentido de que ─ passa de uma coisa para outra como, por exemplo, o dia se distingue da aurora. É a mesma parte luminosa do dia em ascensão. Mas uma coisa é aurora e outra coisa é meio dia.

(Sr. G. Larraín: Esse fenômeno se produzia só no senhor.)

Mas eu não sabia. Eu pensava que isso se produzisse nos outros e eles recusavam.

(Sr. G. Larraín: O “Thau” é único na pessoa do senhor, o “Thau” vem de cima para baixo, qual a natureza disso?)

Eu acho que é uma graça especial que é uma excelência da Fé, uma excelência do amor de Deus, dada já com um certo fim, e acompanhada já de algum carismas de discernimento dos espíritos e coisas que equivalem, que foram já um equipamento para a formação de um homem. Uma coisa que seria um pouco parecido com a vocação do sacerdócio e a piedade comum de um fiel, um menino recebe em certo momento ─ ele é muito piedoso ─ e com uma espécie de continuidade da linha piedosa que ele tomou, em certo momento, ele recebe do alto para baixo a vocação para o sacerdócio. Tem analogia.

São 3:20 hs… Eu tenho aí minha[valletaille??]…

(Sr. Nelson Fragelli: Essa graça especial, essa excelência da Fé é o “Thau”?)

Sim é o “Thau”.

(Sr. Guerreiro: Que outros carismas o senhor sabe que acompanha esta excelência da Fé e do amor de Deus?)

* Além dos dotes naturais há um reluzimento carismático que dá ao Sr. Dr. Plinio a faculdade de ser “o panache da Contra-Revolução”

O discernimento dos espíritos é o que eu noto. Uma certa graça para simbolizar a Contra-Revolução e produzir a revolta dos ruins, isso de ser o panache da Contra-Revolução com um desafio sensível e contundente à Revolução, isto dá uma espécie de repercussão a minha pessoa. Independente da mass media, lembro-me de minha conferência em Belo Horizonte. Concebo que possa haver retórica ou didática melhor. Mas o ambiente era marcado por um reluzimento que era carismático e isto tem um efeito todo próprio.

Uma trilha de ouro…

Meu Nelson Fragelli, estamos fazendo uma reunião do MNF sobre questões de regionalismo que se você quisesse assistir…

[Oração da Restauração]

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