CSN 6/6/87 . 7 de 7

Conversa de Sábado à Noite — 6/6/1987 — Sábado

Nome anterior do arquivo: 870606--Conversa_Sabado_Noite__b.doc

Thau e transmissão de um espírito

1. Thau e transmissão de um espírito

(GD- O Senhor tem falado da Inocência, do Thau, e do empenho do Senhor no arquetipizar as coisas, o profetismo como aptidão da alma para cogitar sobre inefáveis. Daí nasce a energia do Senhor para combater o mundo de hoje. Perguntado como o Senhor auriu isso de Nossa Senhora, a resposta foi de que a inocência primeva é toda tocada por este thau, que é um dom que não se confunde com a santidade, mas algo por onde o homem vê a sublimidade de Deus… Esse dom seria transmissível?).

A pergunta é inusitada e induz a muita reflexão para responder algo com toda a realidade. Mas isso não me deixa constrangido em nada. Gosto muito que se levantem perguntas destas, acho excelente. Visto desse ângulo, é excelente fruto do symposium, deixa-me muito contente.

* Inocência primeva e thau.

Lá no quarto de Mamãe, e também em um ou outro lugar no EANS, instalaram um tipo de interruptor para acender a luz que é gradual, com várias intensidades, conforme se queira.

Tomando a primeira parte de sua pergunta a respeito das graças e da inocência, podemos indagar como elas se relacionam entre si, que distinção há entre a inocência primeva e o thau. - Parece-me, são os dois elementos introdutórios de sua pergunta.

* Índio convertido.

Vamos tomar o caso de uma pessoa que tivesse a inocência primeva. Por exemplo, aquele famoso índio que o Pe. Anchieta encontrou e que tinha andado vem a vida inteira. Quero relatar o caso porque é um exemplo didático de que vou me utilizar.

O Pe. Anchieta andando pelo mato encontrou em certo momento num tronco de árvore um índio bem velho. O índio disse que estava alí esperando, pois ele sabia que em certo momento da vida dele viria um homem vestido de preto e que lhe daria a noção da religião verdadeira e que encaminha-lo-ia devidamente, que ele andara bem, não cometera nenhuma ação má, mas sabia, entretanto, que só atingiria certa plenitude de retidão quando conhecesse este homem que deveria vir.

Esse homem tinha a inocência batismal? Ele tinha uma espécie de desejo subconsciente do batismo, e neste sentido tinha o batismo de desejo. Esse batismo tomou outra consistência, outra rigidez, outra fecundidade, quando ao desejo se acrescentou o sacramento, quando foi batizado.

* Retidão natural fortificada pelos sacramentos.

Explicou-se-lhe, portanto, o que era a graça. Ele passou de um estado de certa inocência, de quem pela retidão não tinha ofendido a Deus, para a inocência batismal, mais plena, mais inteira, mais precisa, mais rica. Poder-se-ia comparar a inocência originária dele e a inocência batismal mais ou menos como as duas intensidades de luz daquela mesma pêra (interruptor).

Para isso temos de imaginar um interruptor com grande capacidade de variar e de matizar a luz.



Vamos imaginar que o Bem-aventurado Anchieta tivesse poderes episcopais e o tivesse crismado. Crismado, aquela inocência primeva tornar-se-ia ainda mais intensa. Depois, com a absolvição sacramental, com o batismo, com a confirmação e, vamos dizer, que tivesse recebido depois a extrema-unção ainda das mãos do Bem-aventurado Anchieta ou de outro padre qualquer, ele teria recebido assim novas graças.

- Alguém me disse que a extrema-unção confere a restauração da inocência batismal. (Denziguer afirma isso). É muito compreensível.

2- Como a inocência se relaciona com o thau?

Aqui quero assestar a atenção sobre a relação destas várias graças entre si. Como elas operam? Depois pretendo mostrar como a inocência se relaciona com o thau. - Isso como um instrumento de trabalho metódico para exprimir meu pensamento.

* Várias intensidades do ver.

Vamos começar por um exemplo. Estou vendo aquele quadrinho que dá uma vista de Veneza. - Aliás, é preciso lamentar que esteja torto -. Desta distância percebo alguma coisa do quadrinho, vejo o mar, o veleiro, e vejo um fundo composto de várias cores que dão idéia do céu, enfim, vejo vagamente algumas coisas alí que a esta distância não percebo bem, se fosse moço provavelmente veria melhor; se pusesse óculos também veria um pouco melhor.

Sem óculos, porém, vejo as coisas meio empastadas umas nas outras, sem poder distinguí-las com precisão; entretanto, quando as vejo mais de perto, percebo que aquilo mesmo que eu via apenas como um ponto no quadro, passo a ver como realidade nítida e precisa.

Estas são as várias intensidades do ver. Duas intensidades em duas modalidades. Uma é descobrir algo que eu não tinha visto e outra é explicitar para o meu olhar o conhecimento de algo que confusamente eu via.

* O operar gradual da graça.

A graça atua à maneira do ver com mais nitidez algo que estava empastado no conjunto. São, portanto, graus de intensidades sucessivas com que a graça trabalha no espírito do homem.

* O papel do thau.

Qual o papel do thau dentro disso?

Vamos dizer, por exemplo, as relações entre os membros do grupo. Elas poderiam ser as relações de bons amigos. Mas a fé ilumina essa relação de certo modo pelo qual percebemos que nessa relação aparece a vida da graça. Temos o discernimento dos espíritos que nos faz perceber a vida da graça em todos, e como a vida da graça nos une e nos articula. Para usar uma expressão teológica, formamos um “corpo místico” particular dentro do Corpo Místico enorme que é a Igreja Católica Apostólica Romana.

* Fé em grau exelente.

Assim, o thau opera para que a virtude da Fé tenha uma excelência especial, de tal maneira que em todas as matérias necessárias para combater à Revolução e para implantar o Reino de Maria, tenhamos uma visão muito mais clara do que quem não tem thau. O thau é, portanto, uma excelência da Fé. uma excelência da graça da Fé que é dada àqueles que têm uma missão especial na luta pela Fé em determinado ponto, que é a Revolução e a Contra-revolução. Isso comporta um ver de modo especial, entender de modo especial, amar de modo especial.

* Luz intelectual cheia de amor…

Para usar a expressão de Dante - gnóstico ao que parece, mas que escreveu muito bem -, “Una luce intellettuale pien d’amore e un’amore pien di tutto bene. “(Luz intelectual cheia de amor e amor cheio de todo bem). Isso é Fé! O thau é isso em grau excelente. Ele incide sobre o ponto da Revoluçao e Contra-revolução, que tem relações e articulações com mil assuntos.

De maneira que em qualquer coisa, por exemplo, um móvel, nele podemos ver bem o que é conforme a Revolução e a Contra-revolução. Essa excelência só é dada a poucos, ou, vamos dizer, a uma minoria. Ela é concedida com vistas a uma tarefa onde essa minoria tem que desempenhar um papel de dedicação, de clarividência, de direção e de inteira entrega a si mesmo. O que é pedido a poucos, a uma minoria. - O conceito de “pouco” e de “muito” é relativo. A palavavra “minoria” exprime mais isso.

Se compreendermos bem como essa graça se difunde, teremos elementos para responder à pergunta do Guerreiro.

3. Trasnsmissibilidade dos dons e das virtudes.

As virtudes são passíveis de certa transmissão?

O livro de Dom Chautard está cheio de indicações nesse sentido. Por exemplo, uma pessoa tratando com outra que já possue certa virtude em grau mais alto, pode receber, da pessoa mais virtuosa, uma definição moral, teológica excelente daquela mesma virtude. Ela pode receber, enfim, uma porção de ensinamentos sobre aquela virtude.

Aqui se dá um fato que é a transmissão dessa virtude de quem a tem para quem não a tem, ou a tem em grau menor. Tal transmissão pode ser feita diretamente, mais ou menos como uma concha que recebe água vinda mais do alto. A concha é enchida pela água que depois transborda para outros recipientes. - Refiro-me àqueles chafarizes antigos com vários círculos concêntricos. A imagem clássica para mostrar como se dá a transmissão da graça.

Por exemplo, aquele advogado que viu “Deus” no Cura d’Ars. Ou, São Francisco Xavier que dizia de Santo Inácio, “Vòs sois meu Deus na terra”. Tudo isso indica essa transmissão.

Em seus vários graus de intensidade essa graça participa da Fé e de suas excelências, e pode ser transmitida. Essa transmissão entretanto não é própria só ao Thau.

* O Thau é transmissível? Como?

Outro problema é saber se essa transmissão pode operar-se pela vontade de um homem, operando mais ou menos à maneira dum sacramento que arrasta Deus à ação que o homem vai praticar. - Porque a descrição que você deu da comunicação da graça, da transmissão do Thau, é muito parecida com uma ação de caráter sacramental. Quando o padre dá a absolvição, é certo que Deus absolveu. Deus se colocou em condições de ser como que arrastado para isso. Agora, não conheço bastante a matéria para dizer se uma graça da natureza do Thau é transmissível por um ato assim.

Eu decomporia a pergunta em duas.

Uma: - A graça do Thau é transmissível?

É líquido que é.

- Ela depende de um ato de vontade para ser transmitida?

Há uma resposta que seria assim: Em princípio Deus pode dispor as coisas de tal maneira que historicamente dependa. Quer dizer, quem quis participar do homem que tem mais Thau, fica dependendo, foi chamado para isso e fica dependendo disso por meio daquele.

*Depende de um ato de vontade?

Agora, fica dependendo de um ato de vontade dele (do de mais Thau), de tal maneira que basta que ele queira para que Deus dê? Que significa essa doação dele?

É certo que essa transmissão será normalmente mais intensa na medida em que ele queira que ela se opere. Ao menos isso me parece inteiramente normal. De tal maneira que, se o transmissor não quiser transmitir, por qualquer razão, Deus fica inibido de a conceder por outras vias?

(- Deus criou a regra do jogo e segue a regra).

Exatamente. Portanto é uma coisa que se pode dizer que habitualmente Deus quer fazer.

* Em que momento?

Há um momento, um ato, em que aquele que quer dar dê e a graça seja arrastada para isso?

A questão nunca me passou pela cabeça, de maneira que precisaria estudá-la melhor. Mas acho que Deus pode querer que isso se faça, querer despertar esse desejo na alma de quem é chamado a dar e na alma de quem é chamado a receber. Pode ser que, conhecendo ambos a vontade de Deus - por uma graça de discernimento dos espíritos -, percebam que essa é a vontade de Deus, e, então, em conseqüência, esse ato se realize.

Não sei se isso faz parte da regra comum do jogo. Exceto se as pessoas estiverem tocadas por uma graça especial, não sei se tem propósito fazer uma coisa dessas na incerteza de que Deus queira acompanhar esse gesto ou não. No caso do padre, Deus quer acompanhar. Com a relação que existe entre nós, não vejo que se possa ter certeza de que Deus queira isso naquela hora, naquela circunstância, naquele ato.

Isso posto, resta-nos tomar os antecedentes históricos e nos perguntarmos se isso é possível, se a análise dos antecedentes históricos fornece pelo menos um começo de prova de que Deus está querendo.

4. Aplicação à vida espiritual.

(…).

A descrição que você fez do estado de alma de vocês, apresenta um quadro que é perfeitamente possível, que corresponde à realidade psicológica e moral de um determinado fiel. Não há nada contra a teologia nessa descrição.

* Barco encalhado.

Quer dizer, ficaremos por culpa própria como barcos encalhados junto ao lodaçal, e que a correnteza comum das graças não leva. É preciso alguém que passe num barco por perto ou que atue a partir da margem com um remo ou alguma coisa, e desencalhe o abarco. Ele comunica ao barco um movimento, tira o barco de uma fixidez censurável, danosa, e o barco caminha pela força dele.

Isso me parece que realmente a Providência pode fazer. Uma vez que a Revolução é um ato de soberba, de indignação etc., como já o fora o pecado dos anjos. Então, a Revolução gnóstica e igualitária começada no fim da Idade Média, pois é ela que nos manieta, nos prejudica, nos comunica sordidez à alma. Isso posto, pode-se compreender que Deus condicione a um ato de humildade o Ele restaurar situações morais que foram danificadas por infidelidade.

* Vínculo com o Fundador.

O exemplo que dou do Fundador e de seus religiosos, que ele aglutina, parece responder à pergunta que coloquei há pouco; se poderia haver um ato pelo qual expressamente houvesse essa transmissão de espírito de A para B. Porque, realmente, se eles não se enganam que a Providência quer que sejam Fundador e religiosos, que a Providência realmente quer isso, então, no ato em que eles se recebem como tais, fica constituído esse vínculo sobre eles e esse vínculo determina a afluência de um espírito.

Naturalmente, essa transmissão é gradual. Potencialmente é plena, mas atualmente ainda não o é, ficará plena quando o súbdito tiver atingido a santidade. - Parece isso muito razoável, muito normal.

* Um exemplo.

Santa Hildegarda. Você tem melhor memória, explique o que ela disse.

(Perguntaram porque ela não admitia religiosas de classes sociais difentes no convento).

Não. A pergunta era porque ela só admitia nobres.

(Exato. Por que só admitia nobres).

E de boa nobreza.

(E Santa Hildegarda respondeu que assim como não se misturam cavalos com porcos, patos, enfim, com animais de espécies diferentes, assim também não deveria misturar pessoas de classe social diferente, porque a mistura de classes sociais corrompe os costumes).

O que justificaria, caso houvesse uma nobreza organizada e em bastante número representada dentro da TFP, uma … residências e ramos dentro da TFP para classes sociais diversas.

Ramos de quê?

Da própria sociedade temporal - que é o que somos - recebidos todos à sua própria maneira dentro desta grande ordem acolhedora que é a TFP.

Isso é a “mise au point” inteira.

Volto a lembrar que estou pensando alto, que talvez tenha de retificar-me; mas como quem pensa alto, não há dúvidas que se pode ver as coisas assim.

* Sempre-viva.

Na “Sempre-viva” houve uma primeira oportunidade para de um modo ou doutro isso começar. Foi recusado. A vocação para a Sempre-viva continuou, a tal ponto que se eu dissesse para alguém que foi admitido na Sempre-viva que ele está excluído, seria um abalo tremendo no espírito dele.

Isso mostra que se a coisa não foi explicitada assim naquela ocasião, foi entendida com essa profundidade; e compreende-se que aquela recusa tenha produzido a estagnação que produziu. Porque isso foi recusado. Não uma recusa completa, uma recusa parcial. E até é preciso dizer, o mais importante não foi recusado, porque o mais importante é o desejo e a consciência dessa união. Essa união deu uma prova de resistência muito grande, vivendo como uma espécie de alma sem corpo, pouco tempo depois de ter nascido. Sobrevivendo, porém, por tanto tempo que ela não poderia ser novamente fundada. Ela deveria ser reconstituída. O contrário seria uma mentira, e uma mentira que Deus não aceitaria. (…).

+

+++

+++++

*_*_*_*_*